Work Text:
Que enxerga com esses olhos, Outra Mãe?
Garanto-lhe que os quatro buraquinhos desses botões mostram-lhe muito pouco.
Se mostram mamãe ignorando-me, com certeza não mostram-na me colocando para dormir, contando-me histórias divertidas até que meus olhos visitem os sonhos.
Se mostram papai sem tempo para mim, com certeza não mostram-no me ensinando fatos peculiares sobre botânica, entretendo-me com suas esquisitices.
Não me interesso nem um pouco por plantas, mas com certeza seus olhos de botão não mostram-lhe isso também.
Diz que sabe tudo, que a tudo vê, que a minha vida é um livro aberto para você, mas deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Outra Mãe…
Enxerga tanto assim com esses botões no lugar dos olhos? Enxerga de tudo mesmo ou enxerga somente o que quer?
Quer o sofrimento, a angústia, a solidão, seus olhos alimentam-se disso como seu estômago alimenta-se dos nossos olhos — os olhos que enxergam o que você não vê com os botões feios e desgastados que perfuram seu rosto aracnídeo.
Que enxerga com esses olhos, Outra Mãe?
Que deseja com eles?
Seja o que for não possuirá, não ouse!
Enxergo bem mais que você e nem sequer preciso dos meus olhos para isso.
Onde um coração bate haverá visão, haverá luz, haverá esperança.
