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Bakugou estava olhando reflexivamente para o céu através das janelas da sala da 1-A quando ouviu seu nome ser pronunciado pela conhecida voz de All Might. Toshinori estava na porta, os olhos fundos escondendo algo que Bakugou, por um mero segundo de intuição, não sabia se queria descobrir.
— Posso saber por que você precisa dele agora? — indagou Aizawa. — Estamos no meio de um assunto importante.
— Acredite, Aizawa — Toshinori começou a dizer —, tudo o que eu mais queria nesse momento era não ter de fazer isso. Bakugou-shounen, venha comigo, por favor. Kirishima-shounen, creio que a sua presença pode ser de grande ajuda, nos acompanhe, por favor.
Bakugou levantou-se relutantemente, não conseguia pensar em qualquer coisa que motivasse aquela situação, mas não havia o que argumentar de qualquer forma. Trocou um rápido olhar com Kirishima — ele sim parecia apreensivo — e os dois foram lado a lado, saindo da sala e seguindo Toshinori pelo corredor.
Ele os levou até sua sala vazia, pediu que se sentassem e ficou de frente para eles, sem deixar de encarar Bakugou um segundo sequer, parecia hesitante em dizer proferir qualquer palavra.
— Sua mãe ligou, Bakugou-shounen, aconteceu algo — disse Toshinori. — Seu pai… ele se envolveu em um acidente doméstico…
— Ah — suspirou Bakugou fingindo a si mesmo um alívio, ignorando aquele clima sério e a presença de Kirishima. — Sempre atrapalhado, o que ele quebrou dessa vez? O braço? A perna?
— Filho, seu pai teve um ferimento fatal na cabeça e, tentaram fazer de tudo, mas ele já havia perdido a consciência quando a ambulância chegou, ele já estava…
— Morto — completou Bakugou inexpressivo.
— Isso — confirmou Toshinori.
Ele continuava a falar, mas Bakugou já não ouvia, sabia também que Kirishima estava com a mão em seu ombro, mas também já não sentia.
Bakugou havia falado com seu pai na noite anterior, Masaru tinha o costume de ligar para ele e falar sobre seu dia até porque, o pai sabia que se fizesse qualquer pergunta ao filho não receberia a resposta que procurava. Bakugou era difícil, mas Masaru sabia lidar com ele, isto é, se ele tolerava com tranquilidade o comportamento de Mitsuki durante tantos anos, conversar com o filho era moleza.
Quem morre num acidente doméstico?
Inúmeras pessoas, mas não seu pai, certo?
Assim tão de repente, as coisas não aconteciam desse jeito, não podiam.
Num dia ele estava ali e noutro não — Bakugou recusava-se a crer nesse tipo de coisa.
— Eu irei levá-lo até sua mãe — disse Toshinori interrompendo seus pensamentos. — Ela me pediu isso, já deve estar indo para casa.
— Bakugou, eu nem sei o que dizer — falou Kirishima com a mão ainda em seu ombro, os dedos cravando em seu uniforme, as lágrimas rolavam pelo rosto dele. Bakugou não conseguia chorar, nem sabia se queria, se era o certo, sua mente ainda não havia processado a informação, negava-a com força, causando uma descrença que o deixava paralisado, tanto fisicamente quanto psicologicamente. — Você quer que eu vá com você?
— Não — respondeu Bakugou. — Podemos ir agora?
— Claro. — Toshinori parecia um tanto chocado com sua reação, talvez chocado não fosse a palavra certa na verdade, estava mais para algo como incerto ou confuso.
Kirishima, por outro lado, exalava preocupação, mas Bakugou não queria pensar nisso agora. Entendeu que All Might queria Kirishima ali porque imaginou que Bakugou fosse reagir descontroladamente, sair correndo ou coisa pior.
Porém, ele era a pessoa mais calma daquela sala.
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Bakugou passou todo o caminho até sua casa em silêncio. Toshinori dirigia sem fazer perguntas, mas o garoto viu por diversas vezes que ele abrira a boca para dizer algo e fechara um segundo depois, antes de emitir qualquer som.
Quando chegaram Bakugou desceu do carro, murmurou um obrigado e foi em direção à casa sem olhar para trás. A hesitação o dominou na hora de girar a maçaneta da porta e, por uns três minutos, Bakugou refletiu sobre o que ele e sua mãe conversariam, sabendo que ela era tão instável e imprevisível quanto ele.
Mitsuki abriu a porta e o flagrou perdido em seus pensamentos, apesar do olhar vazio ela não parecia ter chorado.
— Katsuki — começou a dizer ela —, eu estava esperando por você, será que você pode me ajudar a limpar o banheiro, não consigo fazer isso sozinha.
— Sim.
Ele não tentou mais ler os sentimentos da mãe, mas sabia que ela estava prestes a explodir. Não queria perguntar sobre o que tinha acontecido, se soubesse de tudo a realidade o socaria bem no estômago e Bakugou ainda não estava preparado para isso.
Bakugou também não estava preparado para o que veria em instantes — depois de trocar de roupa, depois de encontrar sua mãe na porta do banheiro.
Sangue.
Na banheira, no chão e, só então ele percebeu, nas roupas de Mitsuki.
— Eu não posso fazer isso — falou ela antes de perder o controle, antes de se ajoelhar ao chão e chorar tudo o que havia segurado por toda a manhã. — Ele estava no banho, eu estava na cozinha e… eu só ouvi… eu ouvi… vim correndo, ele escorregou e bateu a cabeça na torneira, bem na parte de trás… ele falou comigo por uns dois minutos e depois… foi tão rápido. Foi tão rápido, Katsuki, como isso é possível? Quatro horas atrás ele estava me dando um bom dia, como ele pode não estar mais aqui, Katsuki? Como?
— Deixa que eu limpo tudo, pode ir — falou Bakugou. — Tire essa roupa e coloque na área de serviço, eu vou lavar pra você.
Sua mãe o encarou por um instante, mas compreendeu que não havia nada a ser conversado com o filho naquele momento, levantou-se e saiu deixando-o sozinho. Bakugou percebeu que ainda acreditava estar sonhando, como se estivesse desconectado de seu corpo, não reconhecia o real daquilo. Olhava para suas mãos e sentia estranheza, olhava para o banheiro e associava-o a um pesadelo.
Foi tudo tão rápido.
Bakugou limpou tudo, deixou os azulejos brancos novamente, a banheira brilhando. Ele não fazia ideia de quanto tempo havia ficado ali, mas tinha impressão de que fizeram-se horas. Quando foi apagar a luz, Bakugou notou uma pequena mancha vermelha nas costas de sua mão.
O sangue estava ali, mas ele ainda não acreditava. Ainda esperava a porta da frente abrir, seu pai entrando e indo diretamente para o sofá em que Mitsuki dormia para acordá-la e receber um palavrão como resposta.
Bakugou esperava, parte dele tinha certeza de que aquilo iria acontecer, ele só precisava esperar. Precisava acordar daquele pesadelo tão lúcido.
Porque alguns sonhos eram assim, não eram? Aflitivos e perturbadores, mas sempre havia o despertar.
Sempre.
Ele só precisava esperar.
