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— Como assim está saindo de férias? - Exclamou o curador ao telefone.
— Não adianta. Não importa o quanto eu tente, a inspiração me fugiu por completo. - Argumentou socando suas roupas com certa raiva dentro da mala, ao mesmo tempo que lutava para equilibrar o celular entre o rosto e o ombro. — Preciso de novos ares. Talvez assim consiga terminar um quadro decente de novo.
— Mas seu nome já está caindo em desuso no meio artístico, Uraraka! - Esbravejou irritado. - Mais algumas semanas e será quase impossível reverter esse declínio. Toda sua carreira irá para a vala...
— Eu sei, eu sei. - Interrompeu completamente desinteressada em suas ladainhas. Ela mais do que ninguém sabia que seu nome não era grande o suficiente para sobreviver tantos meses sem um quadro decente. — Mas realmente não consigo pintar nada no meu atual estado e não está ajudando em nada eu ficar trancada nesta casa, então estou indo passar um tempo em Tóquio com uma amiga, volto em duas semanas.
— Tóquio?! Uraraka, você precisa de quadros novos não de férias... - Cessou a fala após um longo suspiro vindo do outro lado da linha, seguido do abrupto som da ligação sendo encerada. — Não é possível ela realmente enlouqueceu.
Iida virou em direção as últimas obras que Ochako havia lhe enviado e o ar correu por entre seus lábios em um suspiro pesado e longo. Onde antes haviam lindas paisagens e pinturas alegres, floridas e de cores quentes, que transmitiam todo tipo de sentimento bom a quem as visse, agora haviam apenas pinceladas vazias em tons de verde, amarelo e rosa
Tais quadros nem chegavam a ser finalizados pela artista. Ela insistia que estavam horríveis e que lhe faltava inspiração para cria-los. Havia pintado todas as lindas paisagens de Nagano, então não lhe restava mais nada o que pintar naquele lugar.
Talvez fosse realmente uma boa ideia ter uma mudança, para se inspirar em coisas novas.
— Mas tinha que ser logo Tóquio? - Resmungou fitando seu telefone agora desligado. — Não há nada lá que ela possa querer pintar.
Ao chegar na estação de Tóquio, Uraraka se viu um pouco perdida. Haviam tantas pessoas em informações por toda a partes que uma pacata garota do interior como ela facilmente associaria tudo aquilo à um total caos. Mas, não, dali o caos passava longe. Era tudo muito rápido e dinâmico, mas a organização estava presente. Tudo ali tinha seu lugar, manos a morena recém-chegada.
Fora somente quando avistou a cabeleira rosada que já lhe era bem familiar, que a artista se permitiu relaxar em meio ao mar de gente. Soltou a tensão dos ombros e firmou os dedos em sua bagagem, para então correr até a amiga que a aguardava com um gigantesco sorriso estampado no rosto.
— Ochako! - Mina gritava balançando os braços de forma exagerada.
Mesmo que se falassem todos os dias, faziam anos que não se viam pessoalmente. Mina Ashido como o espírito livre que é, fugiu para Tóquio assim que terminou o colégio, ato que a jovem Uraraka não teve coragem de seguir. Pelo menos não na época.
Um abraço caloroso bastou para provar que anos distantes não eram o bastante para quebrar aquela amizade. Ali diante uma da outra ainda eram as adolescentes que corriam pelos campos de Nagano colhendo flores e brincando de arremessar pedras no rio.
— Caramba, que saudades que estava de você. - Os braços da menor apertaram ainda mais a rosada, fazendo-a rir do já habitual drama da amiga.
— Não exagere, nos falamos a menos de uma hora. - Soltou-se da morena e apanhou uma das malas dela, para ajudá-la a carregar. — Pelo jeito, seu estado está pior do que eu esperava. Seu nível de drama aumentou drasticamente, sabia?
— Tá, tá. - Fez bico e olhou em volta. — Mas agora podemos sair daqui? Estou me sentindo tonta no meio dessa gente toda.
— Sim, vamos. Vou te apresentar a cidade.
Não é como se elas não se conhecessem bem, pelo contrário, Mina sabia que tudo aquilo não era a vibe de Ochako, mas, na cabeça dela, a amiga precisava de coisa novas e diferentes, mais do mesmo não ajudaria em nada. Por isso todos os dias, durante a primeira semana de Uraraka em Tóquio, a rosada a arrastou para cima e para baixo, levando-a em bares, cafeterias, boates, cinemas e todos tipo de entretenimento que uma cidade grande poderia proporcionar. O que acabou deixando a artista ainda mais frustrada por, além de não se encaixar em nenhuma daqueles lugares, nenhuma inspiração lhe surgira.
— Vamos logo, Ochako, hoje garanto que irá se divertir. - Mina puxava a amiga para fora do apartamento. Uraraka revirou os olhos antes de responder.
— Você disse isso todos os dias. Estou cansada de ir nesses lugares barulhentos e estranhos. - Contorceu o rosto fazendo manha para convencer Ashido a deixa-la ficar.
Seus argumentos de nada adiantaram, quando deu por si já estava na frente do que parecia um clube. Dentro do local haviam arquibancadas e um ringue ao centro, então não demorou para que entendesse que se tratava de alguma exibição de luta.
Mina gritava empolgada, não parecia sua primeira vez ali, mas Ochako por sua vez estava mais deslocada do que nunca, não possuía em seu ser um pingo sequer de interesse em tais esportes agressivos. Ou pelo menos era essa a verdade em que ela sempre acreditou.
Quando a primeira luta começou a morena sentiu-se aflita com toda aquela brutalidade, vez ou outra desviando o olhar para evitar a visão do sangre ou golpes demasiadamente agressivos. Na segunda, os olhos castanhos da jovem estavam presos na arena, ainda descreveria tudo aquilo como aflitivo, mas por algum motivo não conseguia parar de assistir.
— Viu? Te disse que não seria tão ruim. - Alegou a rosada quando as lutas encerraram, mas nenhuma resposta veio da amiga.
Uraraka, que até então ainda tinha seus olhos fixos no ringue, levantou-se sem proclamar qualquer som e saiu a passos largos daquele lugar.
—Ei, Ochako, o que houve? - Ashido levantou-se e a seguiu preocupada que tudo aquilo tivesse sido demais para aquela pacata artista.
No dia seguinte Ochako retornou àquele lugar, carregando com sigo seus habituais materiais de pintura. Ashido, que a perturbara o dia inteiro com perguntas, a seguiu até a arenas ponderando se a amiga havia enlouquecido.
Quando as lutas tiveram início, o pincel de Uraraka correu pela tela em branco. A rosada assistiu cada um dos seus movimentos enquanto ela pintava toda aquela bagunça escura e agressiva que não se parecia em nada com o estilo característico de seus quadros. E no momento que a luta encerrou, Ochako finalmente, depois meses, havia completado uma pintura.
Tons escuros e fechados preenchiam o quadro e, ao fitar com mais atenção aquele resultado final, Mina sentiu tanta coisa que nem soube o que dizer. As pinturas de Ochako sempre foram extremamente capazes de transmitir sentimentos, esse até mesmo foi o motivo por trás de seu nome crescer tão rápido, mas ela nem mesmo se o auge de Uraraka, antes da crise criativa, chegava aos pés do que aquele quadro era.
Um suspiro pesado de frustração vazou por entre os lábios da artista, antes mesmo que Ashido pudesse dizer qualquer coisa, ela levantou-se, largando o quadro ali mesmo em um dos acentos da arquibancada, recolheu deus materiais e saiu com uma expressão de completa decepção estampada na face.
A rosada nada entendeu. Fitou mais uma vez o quadro ali abandonado, tentando entender o que havia de errado, mas ao notar a amiga já saindo do local, apanhou sua bolça e correu para acompanha-la.
