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— O que aconteceu?
Giorno se espantou com o tom de sua própria voz. Estava mais fina e parecia mais infantil. Ele colocou a mão da garganta e tentou tossir, pensando ser apenas uma curta alteração na voz comum, mas então notou que sua mão parecia menor do que antes, bem menor.
Ela estava totalmente coberta pela blusa de seu uniforme, que havia crescido e estava tão grande que atingia o chão. Suas roupas haviam ficado bem maiores e não eram mais feitas para seu corpo.
Foi então que percebeu, não apenas seu traje ficou menor, o chão se encontrava mais próximo mesmo com Giorno de pé, ele parecia ter diminuído.
Ele olhou ao redor tentando entender a situação, e viu duas crianças e dois pré-adolescentes que ele não conhecia, mas sua roupas — estranhamente grandes — entregavam quem eram esses jovens.
Algum stand inimigo atacou e, num piscar de olhos, todos os seus amigos e ele mesmo, haviam revertido à infância.
Abbacchio num corpo pre-puberdade era um tanto quanto esquisito . Seu cabelo era bem curto, sua maquiagem estava toda borrada graças à transformação. Um grande excesso de batom em seus lábios e seu rímel-gótico se assemelhava mais a algum membro de banda heavy metal dos anos 80. Além do mais, aquele sobretudo-que-não-cobre-tudo cobriria bem mais se não fosse pelo decote gigante.
Claro, Giorno nunca diria isso em voz alta. Já bebeu uma dose de mijo uma vez, não precisa repetir.
Narancia ficou bem pequeno, bom, mais pequeno ainda. Ele literalmente virou uma criança, bom, mais ainda.
O pobrezinho estava tentando livrar seus braços enroscados das várias alças de sua camisa, dificilmente notou que todos tinham sido atingidos pela habilidade de um stand. Isso até que viu seus sapatos no chão, bem maiores que seu pé.
Merda, de novo não… , pensou.
Mista, ao lado de Narancia, demorou menos tempo que seu amigo intelectualmente inferior para perceber o porquê de seu suéter estar cobrindo seu umbigo. Porém tardou a enxergar seus colegas rejuvenescidos, seus olhos eram cobertos pela amada touca de Mista, que nunca a tirou até onde Giorno sabia.
Por fim, Fugo, também transformado até um pré-adolescente parecia ter superado a situação muito mais rápido que os outros, aproveitando os convenientes buracos em seu traje e não ficar preso com mangas maiores que seu braço.
Ele não perdeu tempo em cruzar os braços e, assim como os outros, encarar Narancia que ainda tentava se soltar das alças de couro que prendiam seus dedos.
Quando conseguiu se livrar, ergueu a bandana laranja de seus olhos e encarou em pleno silêncio cada um dos membros de sua gangue até que seus olhos terminaram em Giorno.
— Eu achei que cê era loiro natural!
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Após uma breve busca aos arredores, Fugo e Abbacchio determinaram que o inimigo fugiu da cena por razão que eles não compreendiam. Afinal, agora que nenhum deles tem um stand seria mais fácil derrotados de uma vez.
Claro, eles não abusariam da sorte. Sem modo de se defender e ainda com uma aparência infantil todos eram vítimas em potencial em uma área tão violenta. Eles tinham que achar Buccellati.
— Quem é Buccellati? — Perguntou Mista, ainda tentando ajeitar sua touca para que não cobrisse seus olhos mas apenas seu cabelo.
Fugo assim assumiu que, se o efeito da habilidade inimiga não passasse por distância, eles estavam correndo contra o tempo para encontrar alguém de confiança, já que aos poucos perderão a memória.
Isso não colocaria a missão em risco, mas também suas vidas. O adversário podia voltar a qualquer momento, ou talvez um novo inimigo surgir. Ou ainda, um adulto comum com intenções maliciosas podia pegá-los desprevenido.
Fugo tremeu só de pensar nisso. Fechando os olhos e fazendo punhos com as mãos, tentou pensar em como achariam Bruno, já que até suas lembranças dele estavam desaparecendo aos poucos.
— Ei.
Uma mão em seu braço o fez voltar para a Terra. Giorno tentou o consolar o apertando de leve.
— Nós vamos achar ele. — Assegurou-o, sua voz firme, infantil, mas firme.
Seguidamente de caminhada nada divertida e com várias crianças reclamando de dor nos pés, Fugo decidiu fazer uma pequena pausa. Eles se localizavam em um bairro um pouco mais amigável que o anterior, então era menos arriscado parar por um tempo.
Narancia e Mista e o outro menino não paravam de protestar de dor e choramingar por algum tipo de atenção, e por mais que Fugo e Abbacchio fossem os mais velhos se considerar a regressão de idade repentina, não era uma distância tão grande — além disso, nenhum dos dois tinha paciência para cuidar de pirralhos.
Pelo menos o outro menino se comportava um pouco melhor que os outros dois. Como ele se chama mesmo? Se perguntou.
Ele era o mais educado e mais quieto também, mesmo parecendo ter por volta de cinco anos. Já Narancia e o garoto de touca pareciam ter sete e nove anos respectivamente, e agiam como bebês.
— Não, eu não tenho doces e se tivesse eu comeria tudo na frente de vocês. — Respondeu rudemente Abbacchio após os pirralhos terem pedido pelas gostosuras açucaradas.
Falando nele, ele parecia ter por volta de doze anos, e Fugo, pelo o pouco que ele viu de si mesmo em reflexos de janelas de carros passageiros, devia ter uma idade semelhante, talvez um pouco mais novo.
— Ei, roupa-furada!
A voz irritante do menino de touca, que Fugo esqueceu o nome, interrompeu suas análises.
— O que você quer? — Questionou sem paciência, seu sangue subindo após ouvir a ofensa.
— Quem a gente ta procurando mesmo? — A pergunta fez Fugo esquecer a raiva. Se o garoto não se lembrava de quem estavam procurando, o tempo estava se esgotando.
O problema agora era, nem Fugo se lembrava, ele havia esquecido quem cada um deles era. Mal se lembrava como haviam se conhecido, mal se lembrava como entrou para um gangue.
Quem eu tô procurando?! Se perguntou, suas mãos suando. Qual era o nome dele? Quem é ele?!
Fugo só percebeu que estava tremendo quando o mesmo menino de antes, o primeiro que ele esqueceu, colocou sua mão em seu braço.
Antes que o rapaz mais velho perguntasse o que ele queria, o pequeno apontou com a outra mão para algo atrás de Fugo. Ou melhor, alguém.
Era uma pessoa familiar, Fugo não se lembrava quem ele era ou o que ele fez, mas sentia no fundo de sua alma que podia confiar naquele homem com sua vida.
— Vocês estão perdidos crianças? — Perguntou o homem se aproximando. Uma expressão suave em seu rosto, mesmo que seus olhos mostrassem preocupação.
— S-sim… — Respondeu Fugo após engolir a sensação de ansiedade que estava presa em sua garganta.
— Eu te conheço! — Gritou um dos jovens, aquele que usava uma bandana laranja horrível. O pirralho saltitava na direção do homem tentando chamar atenção e fazendo Fugo revirar os olhos. — Eu não sei seu nome mas eu te conheço!
— Oh — Ele se ajoelhou para ficar mais perto do menino, seu rosto sereno enquanto conversava. —, eu me chamo Bruno Buccellati. E você? — E foi assim que o parafuso solto voltou para seu devido lugar no cérebro de Fugo.
— Narancia! — Riu Narancia. O adulto pareceu surpreso e confuso ao mesmo tempo, e foi quando o garoto-prodígio decidiu agir.
— Bruno! Nós precisamos de ajuda! — Gritou, agarrando a manga do homem e se recusando a soltar. — Fomos atacados! E-eu acho… E alguém nos deixou mais novos e nossa memória tá sumindo aos poucos!
Neste ponto Fugo estava hiperventilando, desesperado para que a única pessoa que o ajudou na pior época de sua vida acreditasse nele. Ele apertava a manga tão forte em sua mão que por um segundo, Bruno pensou que ele ia apenas rasgar seu traje e fazer os mesmos furos que o pequeno tinha em suas roupas. Felizmente, isso não aconteceu.
O homem calmamente segurou sua mão, fazendo-o soltar o traje caro que Buccellati não tinha nenhuma vontade de comprar novamente, e segurou até que o jovem se acalmasse. Depois de alguns segundos observando os outros garotos, Bruno se levantou, decidido.
— Eu já desconfiava.
Nossa! Ele nos conhece tão bem! Pensou Narancia, impressionado.
— As roupas eram óbvias demais.
Ah…
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Buccellati tinha enviado sua equipe em uma missão arriscada. Eles tinham que se livrar de dois membros de uma gangue inimiga que haviam invadido o território da Passione e criando encrenca.
Durante um confronto, um dos inimigos conseguiu separar Bruno de seu time e tentou se livrar dele, a luta fluiu no sentido contrário e Buccellati o derrotou facilmente.
Ele tentou voltar onde tinha visto sua equipe pela última vez e ficou assustado quando não os encontrou. Nenhum sinal de briga. Nenhuma mancha de sangue. Nenhum rastro.
Assumiu que houve uma perseguição e tentou achar pegadas para seguir, talvez algo que indicasse para onde eles foram. Nada.
Então, no meio da rua, viu um menino, com um senso de moda questionável, apontar em sua direção. Ele parecia estar consolando outro menino, um pouco mais velho e com um senso de moda ainda pior.
Foi aí que ele percebeu mais jovens garotos que pareciam ter roubado as roupas do armário de suas mães para brincar. Todos eles pareciam confusos e perdidos, e a área onde eles se encontravam não era segura para crianças assim.
Ele se aproximou, e foi assim que descobriu que sua equipe inteira de poderosos criminosos, havia se transformado em criancinhas sem Stands e com perda de memória.
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— BRUNOOOO!!!
Buccellati quase pulou do sofá com o susto, quase . Teria pulado até o teto da sala senão fosse por sua exaustão. Ele tentou descansar um pouco depois da cansativa viagem de volta para casa com seu time. Foi bem difícil explicar para todos a situação atual e que Bruno tomaria conta deles até que o efeito da habilidade passasse.
Eles nem se lembravam o que era um Stand . Com exceção de Fugo, que foi o menos afetado, Bruno teve que contar toda a história do que houve para convencê-los a vir com ele.
Felizmente, algumas memórias voltaram nesse meio tempo e todos ficaram bem confortáveis em seguirem o adulto até um lugar mais seguro.
— NARANCIA!! VOLTA AQUI!
Confortáveis demais.
— BRUUNOOO, SOCORROOO!!
Bruno massageou sua testa por um momento, suspirou, e então levantou do sofá, andando sem pressa até a cozinha onde toda confusão acontecia.
O lugar, sem surpresa alguma, estava uma zona .
Panelas no chão, talheres jogadas aleatoriamente, exceto por um único garfo que se encontrava na mão de um Fugo bem zangado. Ele encarava com fúria um pequeno Narancia localizado do outro lado da bancada tentando se esconder da ira do amigo.
— O que houve nesta cozinha? — Perguntou firmemente, interrompendo a ‘’diversão’’ dos dois. Narancia se recuperou bem rápido e, aproveitando a distração do rapaz que segurava uma arma letal afiada, correu para se esconder atrás de seu Capo.
— Bruno! Fugo quer me matar! — Choramingou, agarrando a roupa do adulto para provar seu ponto.
— Eu não quero te matar! Só quase te matar! — Corrigiu.
— Bruno! Fugo quer quase me matar!
— Já chega! — Disse Buccellati, empurrando os dois em direção a escada para o andar superior. — Está tarde. Vocês dois vão pra cama e vão dormir!
— Mas, mas Bruno!
— Sem mas nem menos! Hoje foi um longo dia e vocês com certeza estão cansados, então vão dormir sim!
Ele abriu a porta do quarto de Narancia. Os dois meninos teriam que dormir lá hoje já que Mista, Abbacchio e Giorno também passariam a noite na casa e não havia um quarto para todos.
Bruno gentilmente empurrou-os até a cama e os ajudou a tirar os sapatos. Não tinha pijamas ou roupas do tamanho deles então Bruno apenas encurtou as roupas de Fugo e usou Sticky Fingers para ajustar as roupas de Narancia.
— Fugo, me dê o garfo. — Fugo o fez sem questionar, perdeu a vontade de brigar com Naracia.
Buccellati lhe deu um cafuné rápido, bagunçando seus cabelos. Fugo não se importou. Narancia bufou para chamar a atenção de Bruno e ele fez o mesmo no outro menino. Por fim, ele cobriu ambos e apagou as luzes, fechando a porta devagar para não perturbá-los.
Talvez não fosse muito esperto deixar os dois dormindo no mesmo quarto, mas não é como se Buccellati tivesse escolha. Narancia incomodaria todos os outros e não os deixaria dormir. Ao menos com Fugo ele se comportava melhor.
Suspirando, Bruno foi checar o resto de sua equipe. Giorno e Abbacchio deviam estar na sala ou na pequena sacada, eles tinham que ir dormir também. Mas então se lembrou que Mista foi o último a tomar banho e provavelmente ainda estava lá.
Indo na direção do banheiro, sentiu alívio quando viu um mini-Mista sair de lá. Seu alívio sumiu quando notou que Mista estava se esgueirando para sair pela porta, olhando para os lados como se estivesse cometendo um crime.
— Você não tomou banho, tomou?
Se Mista pudesse vomitar o próprio coração, teria vomitado naquele momento. O pânico que sentiu teria o feito sair correndo senão soubesse que era Bruno falando.
— Ah! Oi Buccellati! — Disfarçou passando a mão da nuca. Tentou passar por trás de Bruno para fugir, em vão. Bruno segurou seu ombro e o puxou de volta.
— Você tomou banho ou não? — Se agachou, encarando-o.
— Tomei sim!
— Eu sei quando as pessoas estão mentindo Mista… — Sussurrou colocando uma mão sobe a outra. Usaria todas as suas habilidades de mafioso para fazer um moleque de nove anos tomar banho se fosse necessário. Higiene é importante para alguém em fase de crescimento e não importa se é apenas temporário ou não. Eles eram crianças .
— Então… talvez eu tenha… acelerado um pouco o banho. — Disse fazendo a mesma pose que Bruno para estabelecer dominância.
— Banho. Agora.
— Mas Buccellaaaatiii…!
— Se você não tomar banho agora… — Usaria a tática perfeita, a técnica infalível. —, só quatro crianças vão ter tomado banho hoje! Você não quer isso, quer Mista?
— Vou tomar banho! — O menino deu meia-volta e trancou a porta.
Satisfeito com essa vitória, Buccellati ficou novamente de pé e foi procurar os dois restantes. Como o esperado, estavam na sacada falando sobre coisas que crianças falam.
— Pela última vez, Giorno! — Rosnou com dentes cerrados, Abbacchio. — Não existe ‘’gangstar’’, é gangster!
— ....
— Você sempre fala errado! Seu irritante!
— Abbacchio! — Reprimiu Bruno. — Ele é novo demais para entender! Deixe ele.
— Buccellati! — Observou, surpreso. — Eu… não ouvi você chegando. Eu só tava conversando com ele.
— Acho que ele já entendeu. — Ele chamou Giorno com um gesto, que se aproximou e Bruno segurou sua mão. — Venham, está tarde.
— Eu durmo no sofá… — Resmungou Leone, indo em direção a sala ou invés da escadaria.
Buccellati tentou insistir que ele dormisse nas camas porém Abbacchio o ignorou e foi para o sofá mesmo assim.
Bruno deixou a atitude rebelde de Leone passar dessa vez, e guiou Giorno até o quarto de Fugo, onde Mista e ele dormirão pela falta de espaço.
Mista não demorou muito no banheiro dessa vez. Completamente limpo, ele pulou na cama ao lado de Giorno e pediu se Buccellati os daria um beijo de boa noite, para dar sorte. Bruno não rejeitou a ideia. Beijou a testa de cada um e, após apagar as luzes, se retirou do quarto. Deu uma última olhada neles e por um segundo, desejou que o efeito do Stand durasse um pouco mais.
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— MÃE!!
Narancia acordou de um pesadelo. Sonhou novamente com a morte de sua mãe. Dessa vez, as palavras finais da mulher era sobre o quanto ela se arrependia de ter criado um filho tão fracassado quanto ele. Aos poucos as imagens e vozes ficavam mais distorcidas, e sua mãe aos poucos se afastava. Ele só acordou quando não ouvia mais os som dos batimentos, o coração de sua mãe parou de bater outra vez.
Narancia sentiu algo quente escorrendo por seu rosto, lágrimas novas seguiam os mesmos passos das que já tinham secado enquanto ele dormia.
Ele tentou segurar e limpar o rosto com as mãos. Não queria perturbar Fugo, ele mal conseguia dormir e era raro ele ter uma noite inteira de sono, Narancia não contribuir para sua insônia e ser alvo de outro garfo.
Ele não notou que Fugo já estava acordado.
— Você teve outro pesadelo? — Sussurrou, soando estranhamente preocupado. Narancia não confiando em sua voz apenas acenou que sim. — Você quer que eu chame Buccellati? — O pequeno chacoalhou a cabeça desesperado, não queria que ninguém o visse assim, não agora. Não por algo tão bobo.
Fugo não sabia o que fazer. Era péssimo para consolar os outros, sempre deixava isso para outro membro da equipe. Ele costumava piorar a situação. Mas Narancia parecia tão desolado e ainda se recusava a chamar por Bruno.
Fugo apenas aceitou e colocou os braços ao redor de Narancia, tentando o confortar sem palavras. Pareceu ter funcionado quando Narancia o apertou de volta e começou a chorar mais forte.
Narancia era novo demais para passar por isso sozinho.
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Já passava das três da manhã, e Buccellati foi novamente despertado aos berros. Dessa vez não era uma simples brincadeira, foi um grito verdadeiro.
Ele saltou de sua cama, abriu a porta, e correu pelo corredor até escancarar a porta do quarto de Narancia.
Ele estava chorando, muito, Fugo estava o abraçando para acalmá-lo. Ele olhou o rapaz mais velho, que nada disse, apenas olhou esperançoso para Bruno, como se ele pudesse consertar tudo.
Buccellati deu alguns passos em direção a cama, Narancia apenas o percebeu quando este tocou em seu ombro. O menino se sentiu envergonhado por um momento, mas quando viu o olhos cheios de preocupação e bondade de Bruno, não pensou duas vezes.
Narancia se arremessou nos braços de quem era mais família para ele do que seu próprio pai, e não soltou.
Depois de alguns minutos e algumas palavras carinhosas ditas, Narancia havia se acalmado, ele não estava chorando mas ainda parecia triste e sem sono. Precisava de algo para distraí-lo dos pensamentos ruins. Buccellati não teve que esperar muito até que essa distração chegasse.
Dois jovens surgissem na porta do quarto, Abbacchio, segurando um copo d’água em mãos e Mista ao seu lado, carregando vários doces e barras de chocolate nos braços. Bruno teria que perguntar como ele os encontrou mais tarde.
Ambos também estavam com uma péssima cara, deviam ter escutado os gritos. Mista já tinha lágrimas nos olhos e estava prestes a chorar.
Rapidamente, o Capo os chamou com um gesto, permitindo sua entrada. Mista se jogou na cama, pronto para dividir todos os doces que tinha com os meninos.
Abbacchio fez o mesmo, mas antes ofereceu um copo de água para Narancia, que bebeu rápido e deu o copo para Bruno.
Sabendo que Narancia ficaria bem, ele deixou os rapazes comerem e brincarem por um tempo, iria levar o copo de volta para a cozinha e esconder melhor os doces que Mista não havia encontrado. Isso seria tempo suficiente para relaxar Narancia e fazê-lo dormir de novo.
Assim que fez o que devia, Buccellati subiu as escadas e pensou em checar uma última vez em Giorno para evitar mais pesadelos.
Abriu a porta do quarto e se não fosse tão bom em reparar detalhes teria deixado passar, mas Giorno estava tremendo, muito.
Pensou que talvez o menino estivesse com frio mas quando se aproximou viu que isso não era o caso.
Seus olhos estavam abertos, não piscava e mordia o polegar com tanta força que Buccellati estava impressionado que ele não havia se machucado. Imediatamente ele tentou segurar Giorno, que apertou Bruno de volta como se ele fosse a única coisa que o prendesse a realidade.
Ele soluçava como se estivesse chorando, fazia pequenos ruídos como se quisesse chamá-lo, mas ainda sim nenhuma lágrima molhou o pijama de Bruno enquanto ele o segurava.
Minutos depois, muito mais do que Buccellati segurou Narancia, Giorno finalmente havia se acalmado o bastante para aliviar o aperto que tinha em Bruno.
— Está melhor agora? — Sussurrou.
— S-sim… — Respondeu uma voz fraquinha.
— Foi um pesadelo que te assustou, querido?
— Não… eu só… — Ele encolheu os ombros, e começou a tremer de novo. —, estava c-com medo…
Buccellati o abraçou novamente antes que ele ficasse nervoso demais. Sussurrava doces palavras e movia sua mão em círculos nas costas do menino, tentando o manter focado. Quando ele parou de tremer, se afastou, ainda mantendo seus braços ao seu redor caso ele se agravasse outra vez.
Ainda sim, Giorno sentia uma necessidade de se explicar. Explicar o porque ele reagiu daquela forma, e mesmo quando Bruno disse que não precisa, Giorno insistiu.
— É que… — Respirou fundo, como Buccellati disse que ele devia fazer caso sentisse seu medo voltando. —, minha mã- ninguém nunca me abraçou… eu acho…
Bruno sentiu seu coração pesar, e abraçou o menino bem mais forte do que as últimas vezes. Giorno pareceu confuso por um momento, mas aceitou o abraço aconchegante. Estava contente e, mesmo com um pouco de medo, sabia que Bruno o protegeria.
Buccellati podia sentir lágrimas se formando quando viu pela primeira vez, um pequeno Giorno sorrir.
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No dia seguinte, Buccellati acordou sentindo um peso caindo em seu estômago.
Um flash passou em sua mente, contando sobre a noite anterior. Como ele decidiu deixar Giorno dormir com ele, e como os outros rapazes escutaram e o convenceram a deixar todos dormirem com ele.
Bruno não pode dizer não na hora, mas agora era um ótimo momento para se arrepender.
Lentamente tirou o braço de Mista de sua barriga, levantou evitando fazer qualquer ruído. Bem devagar, abriu a porta e desceu as escadas, pronto para fazer um café da manhã para cinco crianças agitadas.
Para sua surpresa, Abbacchio já se encontrava na cozinha, pegando alguns ovos da geladeira. Houve um curto momento de encaradas e então, Leone apenas explicou que ia fazer panquecas para todos.
Buccellati não se opôs a ideia. Mas também se recusou a deixar Leone fazer tudo sozinho.
Eles não conversaram muito, e assim que ouviram passos descendo as escadas, Bruno pensou em fazer Leone distrair Mista ou Narancia para que eles não roubassem as panquecas que já estavam feitas.
Felizmente, não era nenhum dos dois. Era Giorno, silenciosamente caminhando até a bancada e se sentando, observando Bruno terminar de preparar a comida.
O menino estava bem cansado, e sem o Capo dizer nada, Leone largou sua parte para oferecer um copo de suco para o mais novo.
— Ei, desculpa pelo o que eu te disse ontem. — Disse se sentando no banco ao lado dele. — Eu tava chateado ontem.
— Tudo bem. — Respondeu pegando o copo com as duas mãos, dando um pequeno gole. Sua voz baixa como sempre. Abbacchio sem saber o que dizer, tentou falar sobre algo que Giorno apreciaria mais.
— Então… qual seu animal favorito?
— Ah! Eu gosto muito de sapos. — Disse, de repente interessado na conversa. — Mas eu gosto de joaninhas mais.
— Joaninhas? — Questionou Leone, sentindo que já sabia sobre esse fato. Nesse momento, Bruno que já havia terminado de cozinhar as panquecas, olhou para Giorno e viu um resto de suco perto de sua bochecha, ele procurou um guardanapo para poder limpar enquanto os outros conversavam.
— Sim! Eu li num livro que elas são um símbulo de vida!
— Isso é legal mas… se diz símbolo.
— Ah… tá.
Buccellati finalmente achou um bendito guardanapo, mas quando foi limpar o rostinho de Giorno, não havia mais nada para limpar. No lugar das pequenas gotas de suco, tinha surgido um pequeno inseto, uma joaninha.
Bruno desconfiava sobre como ela foi parir ali, mas não queria se precipitar, então apenas colocou o dedo no rosto de Giorno até que a criatura subisse nele. Então, ele mostrou-o para um curioso menino, surpreso que o inseto havia aparecido bem quando estavam falando sobre ele.
E o próximo a se surpreender foi Bruno, quando Giorno riu .
— Elas às vezes aparecem do nada perto de mim! — Riu baixinho, tentando pegar o inseto do dedo do Capo. — É por isso que eu gosto delas!
— É mesmo? — Brincou Buccellati, entregando a pequena criatura para a criança.
— Sim! Eu também li que elas realizam desejos! Como sonhos!
— Queria que realizasse meus sonhos… — Resmungou Abbacchio, seu jeito rebelde voltando.
— Qual seu sonho?
— Ah… sei lá, virar policial, acabar com os crimes e a corrupção… — Nisso os olhos de Giorno brilharam, e ele deu o maior sorriso que Bruno já viu em seu rosto.
— O meu também!! — Animou-se, totalmente encantado. — Mas, no meu eu vou virar um gangstar!
— É gangster!!
Enquanto a antiga discussão voltava, Buccellati percebeu mais passos descendo as escadas. Eram os três restantes. Narancia e Mista tropeçavam um no outro, quase caindo escadaria abaixo várias vezes. Fugo, que estava por último, tentava apressá-los gritando pois estava com fome.
Uma manhã normal.
O dia seguiu não muito diferente do costume até a anoitecer.
Os rapazes ficaram assistindo TV desde do jantar e estavam vidrados demais para fazer outra coisa. Narancia e Mista estavam um do lado do outro, brigando pela pipoca. Enquanto Giorno silenciosamente segurava no braço de Leone, estava grudado nele desde sua conversa mais cedo, para o desprazer de Leone.
Bruno vendo o horário, pensou em mandá-los direto para cama,mas antes que ele forçasse quatro crianças a dormir, viu que uma estava faltando.
Onde está Fugo?
Ele o encontrou na sacada, olhando o resto da cidade abaixo dele. Buccellati se aproximou ficando ao seu lado.
— No que está pensando? — Perguntou, curioso.
— O que você acha que teria acontecido se você não tivesse nos achado? — Retornou com outra pergunta. Fugo estava apreensivo. — Quer dizer… cinco crianças, perdidas sem memória, num lugar cheio de criminosos. É óbvio o que ia acontecer, foi uma pergunta estúpida.
— Então eu acho que foi uma ótima coisa eu ter achado vocês. — Pensou Bruno, otimista, tentando aliviar a tensão no ar. Funcionou por um tempo, mas após alguns minutos, Fugo voltou a ficar agitado.
— Teve… um segundo. Eu sei que é coisa da minha cabeça mas… por um segundo… o rosto do homem que nos transformou era idêntico ao rosto do… — Fugo não conseguiu continuar, e não precisou, Buccelllati sabia de quem ele falava.
O antigo professor de Fugo era um homem nojento. Com apenas algumas palavras conseguiu traumatizar Fugo pelo resto da vida. Não bastasse isso, foi graças a esse professor que Fugo foi largado nas ruas pela própria família.
Aquele monstro estragou a vida de um menino.
Bruno odiava não poder fazer nada sobre isso, ele queria vingar Fugo. Queria matar o homem que fez aquilo com ele. Mas acima de tudo, queria fazer Fugo se sentir seguro novamente, e quando um usuário de Stand inimigo conseguiu desarmar sua equipe inteira, Bruno quase falhou.
Ele quase falhou. A situação toda podia ter sido bem pior que um quase .
Mas ele estava feliz que não foi.
Buccellati e Fugo conversaram mais, tópicos diferentes para mudar de assunto e quando Fugo não estava mais tão agitado, Bruno pode ver as olheiras de exaustão do rapaz.
Ele imediatamente disse que era hora de dormir.
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Buccellati não conseguiu dormir.
Ele sabia o quanto era importante mas não conseguiu. Imagens do que podia ter acontecido caso ele não estivesse lá, ou se o inimigo fosse mais forte, ou se Bruno tivesse perdido a briga contra o outro adversário. Esses pensamentos o deixaram acordado.
Quando ele viu o relógio e pensou em levantar para preparar comida, escutou barulhos e risos no corredor.
Ele levantou para abrir a porta de seu quarto, e assim que o fez, teve literalmente uma surpresa.
— SURPRESA BRUNO!!!
Narancia se arremessou para abraçar Buccellati, dessa vez, era um Narancia normal de desessete anos, ou o quão normal o Narancia pode ser.
Mista foi logo depois, também se jogando para abraçar Bruno que, pego de surpresa um segunda vez, caiu no chão com os dois em cima dele.
Fugo irritado tirou os rapazes de cima de Bruno e o ajudou a levantar. Ele não se importou, estava rindo como nunca, suas crianças haviam voltado ao normal.
Ele abraçou os três de uma vez só, e olhou para Abbacchio e Giorno ainda na porta. Abbacchio estava com um pequeno sorriso no rosto, e Giorno tinha um olhar determinado, foi então que Buccellati notou um bolo nas mãos do membro mais novo de sua gangue. Tinha umas velinhas também, junto de outros enfeites colocados desorganizadamente, o que fez Bruno rir. Sua equipe realmente fez um bolo para ele.
— Eu havia me esquecido que dia era hoje! — Riu, esperando que Mista ou Narancia dissesse que Fugo foi o salvador da pátria e lembrou os outros.
— Foi o Abbacchio que lembrou a gente!! — Gritou Narancia, apontando animado para o gótico suave da gangue.
— Cala a boca Narancia! — Respondeu o gótico agressivo.
— Assopra as velas Bruno! Assopra! — Exclamou Mista.
— Buccellati… — Disse Giorno, se aproximando e erguendo o bolo.
Bruno sorriu, era difícil se sentir tão contente quanto agora. Ele fez um rápido cafuné na cabeça de Giorno e então, assoprou as velas.
— Feliz aniversário, Bruno!
