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Largura das Portas

Summary:

Park Chanyeol, adolescente de 18 anos, 1,98 de altura e astro do time de basquete, estava organizando uma manifestação a favor da implantação de rampas para pessoas com deficiência em sua escola quando foi socado por Byun Baekhyun.

O que, bem, era algo que o mais alto não conseguia entender. Por que o outro seria tão fortemente contra as rampas se ele era o único cadeirante do colégio?

Notes:

olá! essa é a minha primeira vez postando aqui no ao3, e é tudo tão estranho??? eu sempre leio por aqui, principalmente fanfics em inglês, mas quando eu soube que várias autoras de exo estavam migrando pra cá eu me interessei na hora. por que, honestamente, a ideia de postar fanfics sem precisar de uma capa é simplesmente p e r f e i t a pra mim, que n tenho nenhum talento pra photoshop e tenho que me desesperar atrás de capa toda vez.

de todo modo, esse é só um teste! a fanfic já está postada no spirit, e eu irei postar semanalmente aqui, uma vez que são só cinco capítulos mesmo. largura das portas é a minha entrada na categoria exo e é uma fanfic que se tornou pessoalmente muito o meu xodozinho, então eu espero que vcs gostem tanto quanto eu.

é isso, obrigado por lerem, e boa leitura!

Chapter 1: Rodas e metros;

Chapter Text

— Chanyeol, pelo amor de Deus, larga isso. A gente vai se atrasar pro treino! — a voz de seu melhor amigo soou ao seu lado, irritado, mas o mais alto não se importou em nada; continuou a pregar aqueles panfletos no mural de avisos, recebendo um bufar impaciente do outro.

— Cara, deixa isso pro clube de debates. Você quer que o treinador Huang coma o nosso cu? — a expressão não era lá a das mais gentis, mas seu outro melhor amigo, que estava posicionado do seu outro lado, não estava mentindo. Treinador Huang conseguia ser bem sombrio quando queria, e quando o assunto era atrasos em treinos, ele sempre queria ser sombrio.

Mas se fosse para ser sincero, Park Chanyeol não se importava em nada com o treino diário pós aulas que tinha junto dos dois garotos. E se aquela era uma boa desculpa para se atrasar ou até mesmo — se Deus quiser! — faltar, ele aceitaria com felicidade. Além do mais, estava muito bem ali, grampeando os avisos por toda a área.

Achava a situação abordada pelo clube de debates muito mais importante do que qualquer quarenta e cinco minutos de aquecimentos e corridas atrás de uma bola laranja. Por que os treinos já tinham começado, de qualquer maneira? As aulas haviam se iniciado nem sequer há duas semanas, e qualquer sombra de campeonatos intercolegiais estavam extremamente longe da visão. Talvez o treinador Huang apenas gostasse de acordar todo dia e torturar adolescentes fedidos e hormonais na quadra.

Não que Chanyeol não se importasse com basquete... ele só não gostava. Nem um pouco. Não gostava de assistir, não gostava de torcer, e muito menos, gostava de jogar. O Park podia entender as regras, as estratégias e as melhores maneiras de fazer uma cesta de três pontos; mas se pudesse escolher, não faria nada daquilo.

Mas, como tudo na vida de um adolescente de dezoito anos, basquete não era uma escolha, era uma imposição. Não por seus pais ou por seu treinador, mas por si mesmo — tinha 1,98 e aparente talento natural para pular e se pendurar em cestas de metal. Tinha que aproveitar a única coisa boa que sua altura o trouxe.

— Junmyeon disse para pregarmos panfletos nas paredes, então eu vou pregar os panfletos. — a resposta não pareceu agradar em nada o Kim e o Oh ao seu redor, mas o mais velho não se afetou.

— Jun disse para quem pudesse ajudar! E a gente não pode, a gente tem treino! — Kim Jongin tinha uma maneira bem clara de convencer o astro do time deles: implorando. — Park Chanyeol... cara, mano, bro, na moral. Eu não vou aguentar correr quinze voltas na quadra por conta de atraso seu. Por favor.

Já o caçula do grupo tinha um jeito um tanto quanto diferenciado de agir:

— Deixa de ser um filho da puta, Chan, porra. Eu não vou ficar correndo igual uma galinha pela quadra como penalidade de atraso só porque você precisa colar uns panfletos idiotas no corredor da escola junto com a turminha hippie do Jun. — ah sim, o mais novo tinha um jeitinho especial de conversar consigo. Principalmente enquanto arrancava um papel recém colado na parede e o encarava. — "Deficientes também merecem direitos"? Pra que o plural? Só tem um deficiente no colégio todo.

— Pra não expor o garoto, é claro. Não é como se a gente fosse colar o nome dele nos cartazes sobre implantação de rampa. — o Park grunhiu, tomando o papel da mão do Oh e o colando mais uma vez na parede ao lado do mural, enquanto mais a frente, alguns membros do clube de debates colavam em outras áreas do corredor onde estavam.

— Mesma coisa que colocar o nome dele. Todo mundo sabe que ele é o garoto que vai acabar com o baile de formatura. — o Oh respondeu, casualmente, ainda parecendo incomodado com a demora para ir até o treino, e Chanyeol olhou para si com os olhos arregalados.

— Sehun!

— O que!? Não sou eu que tô dizendo isso! — se defendeu na mesma hora, mas o moreno revirou os olhos. Já deveria esperar esse tipo de comportamento de seus amigos. — Não é culpa do garoto, mas todo mundo sabe que o dinheiro que vão usar pra fazer essas rampas são as economias pra fazer o nosso baile. É por isso que o diretor tá recusando tanto.

— O que só torna mais errado ainda! Toda escola com escadas tem que ter uma rampa para deficientes, é a lei. — explicou pela vigésima vez. — Eu não sei se o dinheiro realmente é o do baile, mas se for, que não tenha baile então. Permitir o fácil acesso de alguém para assistir a aula que ele veio para ver é mais importante que uma festinha no final do ano.

— Ah sim, porque não é como se ele fosse se formar esse ano e ano que vem ninguém mais vai usar essas rampas. — Chanyeol pisou com força no pé do Oh. — Ai, porra! Ei, eu não sou o babaca da história não, tá legal!? Só 'tô dizendo que é um investimento quebrado a longo prazo, e que o baile é legal pra caralho. Só isso, Sr. Super Moralista. Cacete, às vezes você é chato demais!

Chanyeol sentiu menos vontade ainda de ir para o treino agora, e continuou a colar os panfletos, indo para a parede. Isso que dava ser amigo dos atletas. Jongin e Sehun eram garotos incríveis e gente boa por demais, mas eles tinham uma visão diferente do mundo. Quando se é um homem, cis, hétero, bonito, atlético e que conseguia o telefone de absolutamente qualquer garota na escola, se tornava um pouco difícil de ver as coisas além da sua bolha de privilégios. Quem se importava com uma noite de novembro onde vários menores de idade ficam bêbados em território escolar? Era divertido, mas não deveria ser mais importante do que o acesso básico de alguém tão ser humano quanto eles.

Por bem ou por mal, o Park não era como seus melhores amigos. Ele podia estar no time de basquete igual a eles, ele podia ser a peça principal de todas as jogadas, ele podia até mesmo ser conhecido e popular pelo colégio, mas ele não era igual a eles. Para um adolescente bissexual assumido com quase 2 metros de altura e timidez social, as coisas não eram tão simples assim.

O moreno era o garoto mais alto de todo o colégio, mais alto do que qualquer professor ou responsável, e a situação não era boa como parecia. Aliás, sequer parecia boa. Sua falta de delicadeza e seu jeito desajustado, grande em parte vindos de sua altura descomunal e que fazia com que coisas quebrassem muito mais fácil para si, o faziam se sentir mais excluído do que incluído em qualquer lugar. Como se fosse só mais um motivo de risada e comentários óbvios.

E mesmo que tentasse se esconder, não conseguia — jogava pela escola todos os domingos, e como se a altura não fosse motivo de piadas o suficiente no vestiário masculino, ainda havia aquele outro detalhe: era bi. E quando se tem o hábito de tomar banho e trocar de roupa em meio a mais outros quinze adolescentes pelados, ser assumido sexualmente não era algo bom. Ah não, não era como algum tipo de pornô onde todos os caras lhe olhavam com desejo; os seus companheiros de time ficavam desconfortáveis perto de si. Muito desconfortáveis. O suficiente para Chanyeol ter que esperar todos saírem, fingindo olhar algo em seu celular, para então ir tomar seu banho. Para não incomodar ninguém.

E como cereja do bolo, ainda tinha a clássica vergonha nerd: adorava Star Wars e quadrinhos da Marvel. Ele era o pacote de zoação completo.

Ser um adolescente já era uma merda, mas ser um adolescente chamado de "King Kong Gay" desde que se lembrava por gente, era um pouco pior. Park Chanyeol era grande, estranho, desajeitado e queer, e talvez por isso fosse fácil se amarrar a pautas sociais como essas. Era fácil enxergar uma minoria e todas as suas dificuldades, porque ele próprio fazia parte de uma outra. Entendia ao menos a essência de ter alguns desafios a mais, em comparação a outras pessoas.

Não era deficiente físico, e nunca teria que passar pelas dificuldades de subir diversas escadas todos os dias em uma cadeira de rodas. Mas gostaria de ter certeza de que usaria seu privilégio de homem não-deficiente para ajudar ao máximo.

— Channie, ainda não foi pro treino? — os três garotos se viraram ao lado, vendo a imagem de seu outro e último melhor amigo, Kim Junmyeon, se aproximar deles, carregando mais panfletos em uma mão e cola na outra. — Pode ir, nós ainda temos que rodar um segundo abaixo-assinado, já que o diretor não legitimou o primeiro. Cinquenta assinaturas e ele decidiu que "não era valido"? Vamos encher essa escola de panfletos ao ponto dele gastar mais dinheiro limpando as paredes, do que de fato colocando as rampas.

Não tinha ninguém no mundo que o Park que sentisse mais inveja do que Junmyeon, e talvez isso estivesse ligado ao fato dele ser capitão do clube mais incrível de todo o colégio: o clube de debates.

O clube de debates nada mais era do que uma junção de pessoas que se reuniam duas vezes por semanas, e discutiam pautas de cunho social para melhorar o ambiente escolar. Eles eram as pessoas que faziam coletas de lixo para reciclagem, tanto quanto os cartazes e palestras para a semana de conscientização LGBTQ+. Eles iam para as ruas quando precisavam também, pichando muros e chutando latas de lixo da escola, quando sentiam que seus esforços estavam sendo ignorados por motivos capitalistas ou egoístas.

Eles eram os "hippies", "militantes", "comunistas", "ideológicos", ou qualquer que fosse o termo que outras pessoas usavam para reduzir seus esforços de igualdade social. E Chanyeol daria tudo para poder ser um deles.

— Vocês vão assassinar a reputação desse novato. — Sehun murmurou, irritado, e checando o relógio de novo. — Por que Chanyeol não faz parte logo desse seu clube idiota, Jun? 'Tô de saco cheio de chegar atrasado em treinos porque ele fica te ajudando nessas baboseiras.

Chanyeol virou seu olhar para Junmyeon, não evitando um sorriso crescente em seu rosto. Será se esse era um bom momento para dizer que adoraria se juntar ao clube de debates? Porque o fazia. Mais do que tudo, mais do que absolutamente qualquer coisa, Chanyeol adoraria se juntar ao clube de seu melhor amigo.

Mas o Kim apenas sorriu com suavidade, negando com a cabeça.

— Nah, Yeol é só um aliado. As reuniões e protesto do clube iriam atrasar os treinos dele, e eu não sou doido de fazer o treinador Huang vir até mim e me dizer que eu estraguei o superstar dele. — Chanyeol mostrou um sorriso concordante, e engoliu um suspiro cansado. É, ele tinha que focar no basquete. — Mas eu agradeço muito pela dica da pauta, hm? Se não fosse por você, demoraria semanas até que a gente percebesse o problema das escadas.

O Park sorriu quando o mais velho dos quatro lhe apertou o ombro, em gratidão. Honestamente, era tudo graças a seu jeito desajeitado; havia quebrado o despertador na noite anterior, batendo sem querer nele com sua mão e o jogando para longe, e por tal, chegou atrasado na escola, cruzando os corredores normalmente cheios quando os mesmos já estavam vazios, o sinal do primeiro horário já acionado. Foi apenas ali, sozinho naquele corredor extenso, que o viu pela primeira vez.

O aluno novo. Ele não era da sua turma, apesar de ser do terceiro ano igual a si, então Chanyeol não tinha ouvido falar dele, ou sequer o visto antes, e por isso sabia que ele era novato — era a primeira vez que via uma cadeira de rodas dentro do colégio. O outro, que não aparentava ser mais velho que si, estava ali, sentado, apoiado contra a parede, calmamente mexendo em algo em seu celular, como se esperasse algo. O que? O sinal já havia tocado.

E foi só quando viu o zelador da escola se aproximar dele, lhe tirando da sua cadeira e o colocando no banco do corredor, subindo escadas com a mesma, para depois descer e subir com o próprio garoto em seus braços, que entendeu: ele precisava de ajuda para chegar no segundo andar e atender as aulas. Era óbvio que precisava, o colégio não tinha nenhum tipo de rampa ou elevador. Todo dia, em diversos horários diferentes, o garoto novo tinha que perder os primeiros minutos iniciais da aula e depender da bondade de alguém externo para cumprir seus horários. E Chanyeol só achou aquilo errado pra caralho.

Mas era claro que não podia fazer nada sobre. Ele era só um atleta do time de basquete, não tinha nenhuma autoridade no assunto. Teve sorte de que, depois de contar o caso para Junmyeon, o outro lhe permitira ajudar nos protestos.

— Sem problemas, Jun. — disse em um sorriso, grampeando e colando mais papeis, e os seus amigos se deram por vencidos.

— Quer saber? Pau no seu cu, Park Chanyeol. Te encontro quando você for pagar 50 polichinelos. — a paciência sempre extraordinária de Sehun se deu por vencida, e ele foi acompanhado de um Jongin berrando para que o esperasse quando deu as costas e saiu andando.

— Só vou terminar de colar esses daqui e vou também. — prometeu quando o Kim lhe ergueu um olhar de advertência, mostrando os poucos papeis restantes em sua mão, e o moreno concordou, lhe lançando um último obrigado antes de correr de volta a seu clube, mais ao fundo do corredor.

Deveria ser bom fazer parte de uma tribo em que pertencia. Não uma tribo de amigos ou algo assim, Chanyeol realmente se dava bem e gostava do quarteto diverso em que tinha, mas uma tribo com ideias pelas quais acreditava. Chanyeol acreditava em muitas, muitas coisas. Coisas que poderiam provocar mudança, debates, coisas que poderiam fazer o mundo se tornar um lugar melhor; mas não conseguia abordar nenhuma dessas coisas quando estava preso dentro de uma quadra.

Queria poder sentar na cadeira da sala de debates e discutir temas como desigualdade social e a inclusão de pessoas não-binárias no século XXI. Infelizmente, ele provavelmente não iria caber na cadeira se fosse de fato tentar se sentar (fato que já aconteceu diversas vezes, acarretando risadas da turma quando ele sem querer quebrou o braço de uma das mesas acopladas). Deus lhe fez um adolescente alto e rápido que tinha alguma aptidão natural em quicar uma bola, e isso o faria entrar em uma boa faculdade. Era melhor se prender aquilo.

— Licença. Você é Park Chanyeol?

O moreno se virou para trás, procurando saber de quem pertencia a voz não conhecida que havia falado consigo, e teve que praticamente encurvar sua coluna para olhar no chão, encarando quem estava falando consigo. Era o novato, o garoto novo. O motivo pelo qual ele estava ali, colando panfletos coloridos contra a parede da escola. O garoto cadeirante que precisava das rampas.

Oh... aquilo era um pouco vergonhoso. Alguém havia perguntado a ele sobre como ele se sentia em relação aos protestos? Não se lembrava.

— Oh, olá. — disse, meio sem jeito, e murmurou um palavrão baixo quando sentiu todas as folhas em sua mão de alguma maneira escorregando pelo chão. — Ah, droga!

Se agachou no chão, as pernas longuíssimas prensadas contra o peito enquanto catava de maneira ainda mais desajeitada as folhas espalhadas pelo chão, se sentindo envergonhado. Por que ele tinha que passar vergonha em absolutamente todas as ocasiões? Deus, ele era uma bagunça.

— Perdão, perdão! — ele pediu, meio sem jeito, mas sorriu grandiosamente quando se virou ao outro, todas as folhas na mão enquanto erguia para si. Notou que, a ação de ficar agachado no chão, fazia com que ele ficasse mais ou menos na mesma altura que o outro, seus olhos encontrando os dele em linha reta. Eram bonitos. — Hm... aceita? — perguntou, erguendo panfletos com mensagem que ele provavelmente já sabia, mais sem jeito ainda ao notar nos cabelos de cor clara do outro. Não sabia como agir perto de garotos bonitos.

Mas o acastanhado na sua frente não pareceu nem um pouco interessado em sua esquisitice pessoal.

— Você é Park Chanyeol? — os lábios bem desenhados lhe perguntaram mais uma vez, e o moreno se sentiu um idiota por não ter respondido da primeira.

— Ah sim, sim! Desculpe, sim, sou eu, sou eu sim. — disse, gostando da ideia de não ter que abaixar a cabeça para olhar nos olhos do outro, e mantendo o contato. Lhe ofereceu um sorriso sem dentes, mas não recebeu o mesmo em troca.

O que recebeu, na verdade, foi um soco contra o seu nariz, que fez com que o grandalhão perdesse o equilíbrio e caísse de bunda contra o chão, surpreso. Espera... que!? Ele... havia levado um soco na cara? Nunca levou um soco na cara! Já levou uma cotovelada, claro, mas machucados durante jogos nunca contavam. O novato o tinha socado na cara!?

— Cuida da porra da sua vida, palhaço! — o mais baixo praticamente sibilou, o rosto fechado e sem emoção como da primeira vez, e Chanyeol levou a destra até o nariz, enquanto o outro empurrava suas rodas para longe.

Seu nariz estava sangrando! O novato lhe socou o rosto, e agora, seu nariz estava sangrando! Ele havia quebrado seu nariz. Ele havia quebrado seu nariz!? Pelo que!? O que Chanyeol tinha feito a si!?

Ah, ótimo. Agora tinha um nariz sangrento, e meio mundo de perguntas pulsando em sua mente. Séria ótimo cumprir cinquenta polichinelos com aquilo tudo na cabeça.

 

 

 

 

— Eu ainda não acredito que você foi socado pelo cadeirante.

— Não chama ele assim.

— O que? É o que ele é, não é um xingamento.

— Ele tem um nome.

— Ah, é? E qual o nome dele?

Chanyeol grunhiu de dor, a cabeça doendo. Não sabia seu nome. Não sabia absolutamente nada sobre o garoto novo da turma B do terceiro que, por um acaso, lhe socou o nariz até que o mesmo estivesse levemente roxo e vermelho ao redor, e aquilo estava o matando. Era estranho! Seria diferente se ele tivesse falado mal de si, ou aleatoriamente tivesse lhe soltado um insulto. Chanyeol poderia relevar isso, pessoas não gostam de si, acontece. Mas um soco!?

— Talvez ele tenha se enganado com a pessoa. — Jongin arriscou, enfiando espinafre e pedaços de seu lanche goela abaixo, parecendo desesperado pra comer tanto quanto Sehun ao seu lado. Atletas. Quem comia espinafre e batata doce as 9h da manhã?

— Ele esperou pra ver se eu era Park Chanyeol. Ele literalmente perguntou, esperou pra ver se realmente era eu, e só depois me socou. — o mais alto suspirou, mexendo de maneira nada apetitosa com o garfo em sua própria batata doce. O que? Ele também era um atleta. — Eu não sei o que eu fiz...

— Talvez ele só não tenha ido com a sua cara. — o Oh grunhiu entre mordidas, se virando para trás para cumprimentar alguns jovens que passaram lhe acenando. — Acontece com os melhores. Ei, cara, como que tá!?

O Park apenas suspirou, dando um aceno de cabeça rápido ao mesmo cara que veio saudar Sehun. Odiava ficar na lanchonete da escola em horário de intervalo justamente por isso: gente demais. E não falava exatamente da quantidade enorme de adolescentes entrando e saindo, ou a fila gigantesca que se formava pra comprar qualquer coisa. Falava daquilo, aquela pirâmide social escolar em que, por algum motivo, parecia estar no topo.

Talvez fosse pelo fato de ser parte do time de basquete, ou de ser melhor amigo dos garotos mais bonitos e sociais do colégio, os do tipo que sediam as grandes festas em casa. Talvez pelo fato dele próprio ser conhecido, o Michael Jordan da Coreia, ou qualquer apelido de esporte que lhe davam. Chanyeol não sabia ao certo o que tinha feito para receber o posto de garoto popular, que recebia saudações e high fives aleatórios de gente que não conhecia por onde andava, porque ele certamente não merecia. Era mais nerd e estabanado do que qualquer filme de comédia poderia retratar.

Afinal, o Park estava ali, ocupando um banco inteiro em frente a mesa em que estavam, porque seus quadris eram largos demais para dividir o lugar com algum de seus amigos. Ele era esquisito.

— Conversei com Baekhyun. — Junmyeon se aproximou dos garotos, usando o mínimo espaço deixado pelo outro Kim e o Oh para se espremer entre eles e se sentar em frente a Chanyeol.

— Quem é Baekhyun? — Jongin perguntou, e Chanyeol não sabia se ria ou vomitava quando viu ele levar um tubo de maionese e despejar diretamente na boca.

— Byun Baekhyun, o garoto novo.

— Ah, o cadeirante que socou o Chan!? E aí, o que ele disse?

— Não o chame assim. — Jun repreendeu o Oh, e se virou ao mais alto deles ali. — Falei com ele sobre o que houve.

— Você perguntou pra ele sobre o soco!? — o corpo do Park entrou em desespero. Ele havia o questionado sobre isso!? Não! Meu deus, não! A situação já era vergonhosa para si, não precisava do seu hyung indo lhe defender a como se fosse uma criancinha.

— Claro que não né, eu tenho limites. — Sehun fez um barulho questionável sobre a declaração do Kim, mas Chanyeol apenas se sentiu mil vezes melhor. — Eu disse pra ele que ele parecia incomodado pelos protestos, e perguntei se tinha algum problema. E ele pediu pra gente parar.

Chanyeol piscou.

— Parar a manifestação?

— Parar a ação toda. — disse, e abriu o pote com a salada que tinha trazido de casa, comendo uma cenoura temperada. — Ele não quer as rampas, pediu para pararmos até com o abaixo-assinado.

Chanyeol franziu a testa. Ele... não queria as rampas? Mas... eram para ele. Certamente seriam uma conquista que diversos outros alunos no futuro poderiam usar, mas nesse momento, aquilo era inteiramente e especialmente para ele. Aquela escola tinha praticamente metade das aulas da grade curricular no andar de cima, como ele planejava subir todas aquelas escadas!? Não fazia sentido.

— Mas...

— Garoto esperto. — Sehun murmurou, a boca cheia enquanto raspava a última pasta de batata amassada em seus potes, e Chanyeol o encarou.

— Sehun, qual é a porra do seu problema!?

— Meu problema!? Eu não 'tô falando nada!

— Você tá agindo como se a merda de um baile fosse mais importante do que tudo isso que a gente tá fazendo!

— Yeollie, é que... — a voz do Kim mais novo soou, dócil como sempre, tentando arranjar um jeito gentil de explicar seu ponto de vista ao mais alto, mas o Oh o interrompeu.

— Espera aí, Kai. Deixa que eu faço. — engoliu a comida e se ajeitou na cadeira, como se fosse algum tipo de palestra, e o Park revirou os olhos. — Park Chanyeol, você é um bom garoto, e você se importa com as coisas. É admirável, de fato. Mas você é meio burro em questão de ser sociável, e não está pensando na situação inteira. Sim, eu sei que as rampas são algo importante e que a escola deveria ter...

— Mas, o que, um baile que dura 3 horas é melhor? — seu tom irritado pareceu deixar o próprio Sehun mais frustrado ainda, e foi a vez dele revirar os olhos.

— Que se foda o baile, cara. Se não tiver, eu mesmo faço uma festa lá em casa e o povo esquecesse disso na hora, esse não é o problema. — Chanyeol perdeu o fio da meada. Então qual era o problema? — A questão é que você não tá vendo as coisas do jeito como elas são: ele é o novato. Acabou de chegar, não conhece ninguém. Vocês vão matar toda e qualquer chance de sobrevivência social do garoto se continuarem a expor ele assim.

Sobrevivência social?

— Sobrevivência social? — o mais alto repetiu as palavras, o sarcasmo palpável. — Eu acho que ele se importa mais com poder ver a aula do que qualquer tipo de imagem dele na escola.

— Cadeirante ou não, ele ainda é um adolescente Chan. Entre ver aula e fazer amigos, adivinha qual que um adolescente escolhe? — o Oh continuou.

— Ninguém odiaria ele nem nada, mas as pessoas falam e isso incomoda às vezes. Ele é, literalmente, o assunto da escola toda nesse exato momento. — finalmente chegou a vez de Jongin falar, e ele disse em um dar de ombros, tentando ser gentil. — Olha, eu não 'tô dizendo que as rampas são uma má ideia. Só 'tô dizendo que ele acabou de chegar e tem praticamente o rosto dele grudado em papéis por toda a escola. Vai ver ele só não gosta de toda essa exposição, não tão cedo.

O moreno se virou para Junmyeon, tentando procurar algum tipo de ajuda e razão no único dos amigos que costumava ficar do seu lado. Entretanto, apenas viu o Kim desviar o olhar, comendo alface como se fosse algum tipo de coelho, e o Park o olhou abismado.

— Jun!

— O que!? Eu não sei se é esse o motivo, mas ele pessoalmente pediu que a gente parasse. — o outro se defendeu, e Chanyeol jogou as mãos pra cima, sem acreditar. — Eu acho a ideia das rampas incrível Channie, e eu acho de súbita importância que a escola se autonomize, mas eu não posso negar que Baekhyun seria a única pessoa a usar a rampas. E se ele não quer, se o deixa desconfortável, o que eu posso fazer? A decisão não pode ser só minha, eu sou só o porta-voz da causa.

Chanyeol balançou a cabeça, completamente incrédulo. Eles realmente iriam simplesmente deixar aquilo acontecer? Seja lá qual fosse o motivo, e se de fato fosse toda essa pressão social para se encaixar naquela escola, era errado! Ele estava praticamente sendo pressionado e recusar algo que ele não apenas queria, mas precisava. Era como impedir um asmático de receber sua bomba de ar só porque "o barulho podia incomodar as pessoas ao redor". Aquilo era errado.

— Isso é errado. — verbalizou seus pensamentos, e ouviu o sinal do fim do intervalo ser acionado. Estava puto.

— Tá bom Robin Hood, então que tal você levar esse mau humor pro seu amiguinho e perguntar o que ele acha da situação toda? Espero que ele não te dê outro soco. — o Oh e os dois Kim começaram a arrumar suas coisas e suas vasilhas, e de maneira irritada, Chanyeol fez o mesmo. Mas antes que percebesse, se levantou rápido demais, empurrando a mesa para frente com seu quadril, e a fazendo arranhar o chão da área.

— Ei, calma ai grandão! Quebrar moveis públicos é vandalismo. — algum garoto aleatório que passava ali com seus amigos sorriu para si com o comentário, em bom humor, e Chanyeol forçou um sorriso de volta.

 Nah, não é nada demais. — ele respondeu, em piada, e viu o tal grupo voltar a sair da lanchonete junto com toda a manada de adolescentes que o acompanhavam.

Seus amigos lhe deram um toque no ombro antes de irem para suas respectivas aulas, e Chanyeol suspirou, olhando para a linha preta de ferro que causou no chão. A semana mal tinha começado e tudo que ele era mais queria era ser um caranguejo do mar, e se esconder dentro de uma concha.

 

 

 

 

Com o terceiro atraso na semana — e o quinto despertador quebrado, mas isso não era algo que importava ao diretor. —, Chanyeol foi impedido de ver a aula do primeiro horário. Teria que ficar ali, pelos corredores, esperando até que a segunda aula começasse, e só então teria a entrada autorizada. Ele realmente precisava colocar mais de um alarme para ter certeza de que acordaria cedo.

O treino do dia anterior havia sido pesado, e suas panturrilhas doíam quando andava, mas ele não se importava muito; não tinha por que fazer. Teria mais uma rodada de treinos pós aula hoje, como tinha todo dia, e reclamar só faria com que o treinador Huang revirasse os olhos e lhe jogasse uma garrafa de água na cara. Hm. Falando assim, entendia por que as pessoas fora do time tinham tanto medo do mais velho. Ele era um bom treinador, no final de tudo.

De qualquer modo, tirando a anotação que teria que levar para sua mãe assinar, o que geraria um longo sermão na mesa de jantar, talvez perder a primeira aula não fosse de todo ruim. Estava cansado e não conseguiu dormir direito, e com todos em aula, Chanyeol não via problema em simplesmente dormir no chão perto da escada. Sua cama já extra larga não estava mais dando para si, e isso fazia o Park ter pesadelos. Estaria crescendo?

Ótimo, vou ter 2,18 até os trinta, pensou, caminhando pelos corredores com seus sapatos fazendo um barulho engraçado no chão recém limpo, e estranhou ao ver uma figura parada ao lado da escada. Oh. Era ele.

Byun Baekhyun, o novato que lhe socou o nariz a alguns dias atrás. Ah sim, Chanyeol ainda não sabia por quê; era um covardezinho introvertido que sentia a testa suar com a ideia de ir e incomodar o outro. Mesmo que, hã, não tivesse problema se o incomodasse — o outro lhe socou o rosto por nada!

Mas ver o outro ali, parado do lado do banco perto da escada, mexendo em qualquer coisa no celular, o fez pensar. Ele não tinha aula? Já tinha se passado cerca de 20min desde o começo do primeiro horário, e se perguntou se o Byun estava matando aula. Mas por que estaria matando aula de maneira tão explicita, apenas parado ali no corredor?

Chanyeol sentiu o olhar do outro cruzar com o seu, e suas orelhas ficaram vermelhas na mesma hora em que abaixou seu olhar. Era tímido, e mais do que tímido, estava envergonhado — envergonhado porque eles tinham tido uma interação estranha e vergonhosa tempos atrás, e envergonhado por Baekhyun era muito bonito. E ele não sabia como agir perto de pessoas bonitas.

Será se podia simplesmente andar para longe? Estava parado ali apenas o encarando, e era patético. Meu Deus, como ele era patético; tinha que sair do campo de visão do outro o quanto antes, fingir que foi só uma leve troca de olhares, que sequer o viu direito. Entretanto, ali estava, como algum tipo de estátua, as mãos nos bolsos da calça, o encarando. Igual um palerma.

E quando o outro riu, Chanyeol se sentiu mais palerma ainda.

— Deus, por que você está tão desconfortável? — fazia alguns dias que não ouvia a voz alheia, e agora que não foi pego de surpresa, conseguia finalmente escutá-la com clareza. Era melodiosa. — Eu não vou te socar de novo, se é isso que está pensando.

— Não estou. — respondeu o que era verdade, e o outro deu de ombros, parecendo descolado.

— Eu não alcançaria seu rosto, de qualquer modo. — Chanyeol se sentiu um pouco retraído ao imaginar que era uma piada sobre sua altura, mas ignorou. — Atrasado? — perguntou, voltando sua atenção ao seu celular, e Chanyeol demorou um pouco para entender o que ele estava perguntando.

— Hã... sim, sim, é. — o jeito como ele falava gritava desconforto e falta de jeito, e o mais baixo apenas riu de novo. — Você também...?

— Não, minha carona que está. — olhou para o lado, como se inspecionasse o corredor, apenas para ter certeza de que ninguém estava vindo, e voltou ao telefone.

Carona...? Chanyeol precisou pensar um pouco, antes de se lembrar da cena que viu a alguns dias atrás: o zelador lhe carregando nos braços, escada acima. Oh, era assim que ele subia as escadas, não era? Precisava de ajuda, era claro que sim. Por isso estava ali, fora da sala, a tanto tempo.

— Mas... hoje é quinta. — comentou baixo, e o outro não pareceu se importar.

— E?

— E... o zelador Choi tem folga nas quintas. — parecia quase amedrontado em dizer aquelas palavras, assustado com a reação do outro quando o mesmo lhe encarou. Por que tinha tanto medo? O outro devia ter metade do seu tamanho!

Mas o Byun não se irritou, ou o xingou, ou o socou, como seu subconsciente pensou que iria fazer; ele apenas suspirou frustrado, passando as mãos pelos cabelos castanho claro, balançando a própria cabeça. Parecia irritado, mas não com o mais alto.

— Ah, merda. — grunhiu, se esticando para guardar o celular na mochila, essa que estava pendurada em uma das alças da cadeira de rodas, atrás de si. — Quinta é o pior dia.

— Você... tem aulas de biologia na quinta, não é? — perguntou, e percebeu que aquilo poderia soar como se ele estivesse o stalkeando ou qualquer coisa, e corrigiu na hora: — E-Eu sei porque eu tenho aulas de biologia na quarta, e o terceiro ano C na sexta, e como você é do B...

— A droga do laboratório fica no andar de cima e eles acham que é uma ótima ideia colocar três aulas de biologia seguidas. — o Byun não pareceu em nada incomodado pelo mal jeito do Park. — Ninguém gosta de biologia esse tanto.

— E... o que vai fazer? — arriscou perguntar, e apenas o viu dar de ombros.

— Jogar Candy Crush até os horários acabarem, ou até algum professor me pegar aqui fora, eu acho.

Chanyeol concordou com a cabeça, aceitando a explicação do outro. Parecia estranho a maneira como ele agia perto de si — naturalmente. —, levando em conta que da última vez que o viu, estava tão irritado que lhe atacou. Então, ele não estava mais com raiva de Chanyeol? O que tinha sido aquilo, de qualquer modo?

Mas ignorou suas perguntas, mordendo o lábio, sem jeito. Deveria se oferecer para ajudá-lo...? Sim, deveria. Sem zelador e sem rampas para lhe ajudar a subir, não era justo que ele perdesse tantas aulas assim.

— Você quer... que eu... te ajude? — odiou o som de sua própria voz, mas apenas permaneceu ali, sem jeito, mordendo a boca e apertando os dedos dentro dos bolsos.

Baekhyun ergueu o olhar, o encarando, parecendo pensar um pouco, e Chanyeol sentiu as orelhas ficarem mais vermelhas ainda. Ele era realmente muito, muito, muito bonito; bonito como Kim Jongin e Oh Sehun, com seus cabelos claros, sua pele bem cuidada, e os olhos relaxados. Ele com certeza devia fazer sucesso entre as meninas, imaginou. Com aquele rosto, era certeza.

Mas o mais novo lhe tirou de seus rápidos devaneios na hora, apenas balançando a cabeça, negando.

— Nah, não precisa.

— Porque eu posso, se você quiser. Eu realmente posso.

— Não se preocupa, eu 'tô bem.

— É sério, eu posso simplesmente...

— Mano, qual o seu problema!? — a voz do Byun se alterou quando Chanyeol fez pretensão de se aproximar do outro, e o mais alto soube que tinha cruzado uma linha ali. — Que porra!? Se afasta, cara. Caralho, você é sempre assim?

Chanyeol não entendeu.

— Assim...?

— Assim, se metendo na vida dos outros. — o acastanhado pareceu ter se lembrado do motivo pelo qual tinha raiva do Park, porque estava com o mesmo tom que usou quando o bateu. — Porra, você colocou essas drogas de panfletos pela escola toda. Acredite, você já ajudou o suficiente.

Aquilo pareceu ser o fim da conversa entre os dois por parte de Baekhyun, mas subitamente, Chanyeol se sentiu ofendido. Ele colocou os panfletos pela escola porque ele quis ajudar! E além disso, o clube de debates já tinha tirado a maior parte deles, então pra que aquele mau humor todo!?

— Ei, eu colei esses panfletos pra ajudar, justamente pra você não passar pelo que você está passando agora, e eu não colei sozinho! — uma frase em tom alto e sem gaguejo pareceu chamar a atenção do Byun, que o encarou mais uma vez, ainda irritado. — Sério, qual é o seu problema comigo? Eu só quis ajudar!

— E adivinhe só? Eu não pedi pela sua ajuda!

— Eu sei que não, mas eu só 'tô tentando te dar direitos! Tentando te dar uma voz.

— Eu não preciso que você me dê uma voz, eu já tenho uma! — a discussão parecia extremamente mais acalorada agora, mas Chanyeol não iria parar até entender. — E a minha voz foi bem clara com o seu amiguinho de clube: eu não quero envolvimento com nada disso. Não quero droga de rampa nenhuma.

— Você prefere ficar aqui, impedido de ver aula por incompetência da escola, do que aceitar ajuda dos outros?!

— Não é sobre aceitar ajuda dos outros, caralho!

Baekhyun bateu um o punho fechado de maneira forte contra o apoio braçal de sua cadeira, e Chanyeol se assustou pelo mesmo não ter quebrado. Uau, ele era forte. E estava irritado. Bastante, pelo visto.

O Park apenas não entendia por que ele estava se recusando tanto. Ele precisava daquelas rampas, e não tinha vergonha nenhuma em tal; ele sequer tinha que precisar pedir, porque era a lei, e a escola tinha que fazer tal. Não tinha opção. Ainda sim, ali estava ele: completamente contra o seu acesso fácil pelo colégio.

— Escuta, Park Chanyeol, eu realmente não espero que você entenda. — a conversa se deu como finalizada ali pelo Byun, e o Park não teve o que dizer. É. Realmente, ele não tinha como entender. Mas... ele só queria ajudar? Não entendia o problema.

— Olha, eu sei que eu não entendo, porque eu não sou cadeirante e...

— Não é sobre ser cadeirante, seu palermão, é sobre ser popular.

Chanyeol parou por um momento, encarando bem o rosto perfeitamente alinhado do mais baixo. Hm? Como é?

— Que? — perguntou, e o Byun apenas revirou os olhos.

— Você não entende, porque você é popular. Você tem amigos, e fama, você dirige seu carrinho descolado por aí, e as pessoas te conhecem de uma maneira boa, então você pode fazer o que você quiser. — bem, aquilo era um jeito de se olhar para a vida do Park. E como ele sabia que Chanyeol tinha um carro? — Mas eu sou novo. Eu literalmente acabei de chegar, e tudo que eu quero é continuar invisível e viver a minha vida em paz, até as pessoas se acostumarem comigo. Mas você fodeu com tudo. É a segunda semana de aula, e todo mundo da escola já me conhece como "o cadeirante que fodeu com o nosso baile de formatura".

Se alguém perguntasse, Park Chanyeol jamais admitiria, mas era verdade: Sehun e Jongin estavam certos. Byun Baekhyun era um adolescente normal e inseguro tanto quanto qualquer outro, e talvez tamanha exposição que recebeu já de primeira não fosse a melhor coisa que poderia ter acontecido consigo. Digo... hm... deviam ter perguntado para ele antes de fazer as manifestações, não?

Ah, merda. Park Chanyeol realmente assassinou as chances de sobrevivência social do outro?

— Mas... você precisa das rampas. — se ateve aos fatos, confuso, porque era verdade. Ele precisava. Mas o mais baixo apenas recusou com a cabeça.

— Cara, eu preciso de muitas coisas. — comentou, sem se importar muito. — Preciso de cadeiras escolares que não sejam acopladas as mesas. Preciso de banheiros de aviões maiores. Preciso que a largura das portas seja maior, pra que eu não precise fazer baliza todas as vezes que entrar num cômodo. — disse. — Nem por isso eu faço um abaixo-assinado contra todo lugar que eu entro. Eu só vou ficar aqui um ano, e eu quero que esse ano não seja um inferno. Às vezes, você só precisa engolir alguns sapos.

O moreno não gostava da ideia de ter que engolir sapos, mesmo que tivesse o feito durante toda a sua vida. Era diferente — sempre escolheu ser quieto, ser silencioso, não incomodar ninguém com suas necessidades e pensamentos. Era diferente do que de fato precisar de alguma coisa, e ter que aguentar calado simplesmente por conveniência social. Não era justo. Baekhyun merecia ver aulas em paz.

Mas não pode ignorar de que ele entendia, de certo modo. Chanyeol poderia muito bem ir até o diretor e fazer uma grande mobilização sobre a homofobia entrelaçada aos esportes, principalmente em vestiários, todo o preconceito sutil, mas constante que passava. Mas não o fazia. Ficava em silencio e saia do local, esperando todos estarem confortáveis e se atrasando, pra tomar seu banho em paz. Não era justo, e certamente não era tão grave quanto a situação do Byun, mas imaginou que era perto. Conseguiu imaginar ao menos um pouco do que o outro pensava.

E não gostou. Não gostou, mas aceitou.

— Eu assinaria. — a voz era baixa, mas não impediu do de cabelos mel ouvir, o encarando de lado.

— Assinaria o que?

— O abaixo-assinado, sobre a largura das portas. — comentou, e ergueu os olhos quando o olhar ainda confuso do outro continuou em si. — Eu também preciso entrar de lado pra passar pelas portas, por causa... bem, dos meus ombros.

Comentou, meio tímido e envergonhado, principalmente quando sentiu o olhar do outro subir para seus ombros. Sim, Park Chanyeol era um gigante desengonçado, e ele nunca conseguia entrar de maneira reta em uma porta. Se tentasse, seus ombros ficariam presos, porque ele era do tamanho da porra de uma geladeira, e sempre se envergonhou disso.

Mas, de alguma maneira estranha, quando ouviu o riso de Baekhyun... não se sentiu mal. Não se sentiu do jeito como se sentia quando outros riam.

Porque Baekhyun não parecia que ria de Chanyeol. Ele ria com Chanyeol.

— A minha cadeira sempre fica presa. — comentou, e foi a vez de Chanyeol rir. — É sério. As rodas são muito grossas, e eu não consigo ficar de lado sozinho, então eu tenho que fazer uma baliza e tentar ir de ré, o que sempre dá um show e tanto pras pessoas verem.

O mais alto prendeu um gargalhar com sua mão, ouvindo o gargalhar do outro na sua frente, e se sentiu leve. Sabia que tinha errado com o outro, que não deveria ter agido de maneira tão grandiosa sem sequer ter falado consigo, mas agora, se sentia bem. Byun Baekhyun era mais do que um garoto de estatura baixa e punho pesado; ele era engraçado.

O Park recuperou o fôlego aos poucos, em suspiros auditivos, enquanto o castanho na sua frente fazia o mesmo, e passou os dedos pelos cabelos. Se sentia um pouco mais solto em conversar com Baekhyun — talvez por toda a intimidade que socos e xingamentos lhe deram. —, mas ainda se sentia um pouco acanhado. Ele ainda era um estranho com um lindo sorriso, e no final do dia, Chanyeol era bem gay. Mais gay por homens do que por mulheres, se fosse colocar sua bissexualidade na balança. Uns 70% a 30%.

— Desculpe. — comentou finalmente, e Baekhyun pareceu melhor com a palavra. — Eu devia ter te perguntado antes de fazer... bem, tudo.

— Tudo bem. Foi idiota. Mas eu imagino que foi por um bom motivo...? — arriscou, e riu quando o Park concordou freneticamente com a cabeça. — Mas se você puder fazer as pessoas pararem de comentar, seria melhor ainda.

— Hã, dia 16 tem um amistoso de baquete na quadra, e a escola toda adora falar sobre basquete. Eu acho deve ser o suficiente...?

— Eu aguento até lá. — comentou, e a falta de irritação e maldade em seu tom fez Chanyeol sorrir.

O Park mordeu o lábio, pensando sobre. Ele tinha acabado de fazer um amigo...? Hã, não sabia. Era bem ruim com primeiras interações sociais.

Ainda estava preocupado em como o outro iria ver suas aulas no segundo andar, mas achou melhor ignorar. Baekhyun não parecia querer sua ajuda para carregá-lo até lá, e não o pressionaria. O outro parecia bem capaz de se virar sozinho.

— Hm... posso esperar a segunda aula com você? — arriscou, e reprimiu um sorriso quando o outro concordou com a cabeça.

Chanyeol tirou a mochila das costas, se sentando no banco mais ao lado da escadaria, e se sentiu quase tocado quando o Byun empurrou sua cadeira para ficar com o corpo mais perto de si.

— Hã, eu sei que o assunto tá meio que encerrado, mas... como você sabia que fui eu quem dei a ideia das rampas?

— Uma garota do clube de debates me contou. Eles parecem ser legais, mas eles realmente gostam de falar. — comentou, e Chanyeol sorriu.

— Isso é verdade. — concordou, e se lembrou de algo. — Ei... você não vai pedir desculpas por, hã, socar a minha cara?

Baekhyun pareceu ponderar por um momento.

— Nah. Você mereceu.

— Eu mereci!? Você fez o meu nariz sangrar!

— Você se meteu na minha vida!

— Mas você fez o meu nariz sangrar! — soltou em um tom mais alto de voz, tentando provar seu ponto, e viu o outro rir.

— Yah, se for te fazer se sentir melhor, eu tenho muito orgulho daquele dia. Não é sempre que eu consigo bater em alguém. — comentou, e Chanyeol ponderou por um momento, concordando.

— É... faz sentido, pela sua altura. — comentou, sem sequer perceber, e arregalou os olhos quando viu o rosto do outro revoltado para si. Oh, tinha o ofendido? Não tinha a intenção!

— A minha altura? O que está tentando dizer? Eu não sou baixo, eu tenho 1,72! É a cadeira! Até você ficaria baixo quando passa todos os momentos da sua vida sentado! — se defendeu, e algo nas palavras rápidas do outro fez Chanyeol se sentir no direito de rir. Não se importava se Byun Baekhyun sugeria piadas ou comentários sobre sua altura; e mesmo com toda aquela raiva, o outro também não parecia muito incomodado com os seus comentários. — Palhaço.

E Chanyeol encostou as costas largas na parede atrás dele. Hm. Nunca tinha sido socado no rosto antes, mas se todo soco levasse a uma descoberta nova — como Byun Baekhyun. —, imaginava que não seria tão ruim assim.

Não, ele retirava o que disse. Sangrou a noite toda naquele dia por conta do seu nariz. Foi péssimo.