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De todas as memórias que tinha, essa era uma das mais nítidas. Apesar de não ter usado o Sharingan para isso, a memória vinha com uma clareza tão grande que era como se tivesse.
Sasuke devia ter dois anos, quase três. Estava andando há algum tempo e a maior dificuldade se tornou deixá-lo gastar toda a sua energia, sempre pedindo para brincar ou acompanhar alguém. Seu pai naturalmente era ocupado demais e sua mãe fazia o possível antes de se cansar, por isso Itachi era o primeiro a se oferecer para ficar um pouco com Sasuke. Era como uma bolha na qual apenas eles existiam –o clã, Konoha, a guerra, tudo ficava para trás. Sua única preocupação era garantir que o sorriso de Sasuke nunca saísse do rosto.
Desde aquela época ele jurava proteger a infância e o sorriso do menor.
Na memória em questão, Shisui declarou que estava na hora de ensinar Sasuke a nadar. Normalmente, Itachi negaria e argumentaria que ele estava muito novo e pequeno, encerrando o assunto ali. Shisui, sabendo disso, falou em alto e bom som perto do menino, que praticamente vibrou em excitação. Antes que Itachi pudesse usar a lógica contra ele, Sasuke se virou para o irmão com o choro preso na garganta e os olhos brilhando e implorando para que ele permitisse. Sem conseguir dizer não, ele aceitou.
Havia duas fisionomias no rosto de Sasuke que o passar dos anos permitiu que ele guardasse com a maior clareza que poderia. A primeira foi essa, os olhos negros e grandes brilhando felizes após a permissão, as sobrancelhas arqueadas quase em confusão, parte da franja cobrindo sua testa suada e seus lábios abertos no maior sorriso possível, aquele que marcava todas as suas linhas de expressão. Era o seu tesouro mais precioso e Itachi teria feito tudo para preservar aquele semblante.
Shisui riu alto, pegando Sasuke no colo mesmo após as reclamações do menor de que ele estava grande demais para aquilo. O mais velho colocou seu melhor sorriso de vitória para Itachi, piscando um dos olhos escuros. Ele era quase uma década mais velho que Sasuke e conseguia demonstrar a mesma animação pela possibilidade de um banho no rio.
“Nós vamos para o lago.” Itachi anunciou antes que Shisui desse alguma ideia. “É mais calmo.”
“Nii-san!” Sasuke reclamou dos ombros de Shisui. “Eu posso ir para o rio!”
A mera menção fazia Itachi imaginar Sasuke sendo carregado pela correnteza e encarou ambos com um olhar que deixava claro que aquela não era uma possibilidade.
“Você e Shisui-san vão para o rio o tempo todo.” Sasuke murmurou. “Você não me ama, nii-san.”
Itachi suspirou, acostumado. “Quando você acertar as shurikens, Sasuke.”
“Nii-san!”
“Tudo bem, Sasuke. Vamos começar pequeno.” Shisui prometia, o mesmo sorriso de quem sabia que ia ganhar o queria no final ao balança-lo em seus ombros. “Daqui a pouco você está nadando junto com a gente!”
Itachi se sentiu vagamente enciumado pela reação de Sasuke, que derreteu nos ombros de Shisui e sorriu, sussurrando promessas e planos junto com o mais velho. Ele balançou a cabeça, ignorando a sensação e a vontade de pegar o irmão de volta, ainda que ver Shisui correndo com Sasuke nas costas lhe causasse mini ataques cardíacos toda vez que o mais novo parecia cair. No final, o maior se exibiu ao pular as escadas que levavam ao lago e escorregar pela terra, com os gritos animados de Sasuke de fundo.
Quando chegou ao píer, Shisui já havia tirado a blusa de si e de Sasuke junto com seu hitaiate, deixando ambas golas altas azuis dobradas no chão. Mesmo com a animação da criança, Sasuke esperou até que Shisui estivesse pronto e entrasse na água antes de abrir os braços para ser pegado.
Itachi seguiu os mesmo passos que o primo, deixando a blusa com o emblema Uchiha perto das outras junto com seu hitaiate, e seguiu para segurar a mão de Sasuke. Sorrindo sem mostrar os dentes, Itachi sugeriu para entrarem juntos, ao que Sasuke prontamente concordou.
Se afastaram e pularam juntos, ainda de mãos dadas. Passado o choque da água gelada, Sasuke se adaptou balançando as pernas e se mantendo na superfície, fazendo uma expressão de desgosto todas as vezes em que engolia água sem querer. Rindo, Shisui ajustou sua posição, o colocando deitado na água e apoiando sua barriga, enquanto Itachi demonstrava como ele devia bater os braços e as pernas, mantendo a cabeça virada para respirar.
Sasuke, surpreendentemente –ou não, já que era seu irmão –não demorou a pegar o jeito e conseguiu se manter sobre a água sem a ajuda deles. Ainda assim, houveram vezes que não conseguiu e teve que tossir água com aquela expressão de desgosto para a água, como se a mesma tivesse cometido uma ofensa horrível, enquanto Shisui ria com o cabelo molhado e Itachi observava como tudo era diferente do campo de batalha, da Academia e de seu time. Naquele momento, Itachi desejou que pudesse ficar ali para sempre, observando Sasuke crescer com os incentivos de Shisui sendo ouvidos por todas as direções.
Uma semana depois eles estavam nadando no rio, por mais que no início Sasuke só pudesse entrar se estivesse segurando a mão de um dos dois. Fugaku elogiou Sasuke por aprender rápido e serviu apenas de motivação para que ele acelerasse suas aulas. Ainda assim, ao conseguir nadar livremente no rio sem se importar com a correnteza que passava, Itachi foi a primeira pessoa cujo olhar ele buscou ao anunciar que conseguiu.
A segunda expressão de Sasuke que Itachi nunca conseguiu esquecer foi a que teve quando Shisui o atingiu com uma Fuuma Shuriken pelas costas e ele morreu em seus braços, seu nome em seus lábios e o olhando com o mais profundo pavor, Sharingan girando. Mesmo na morte, Itachi foi a pessoa cujo olhar ele buscou enquanto seu sangue jorrava pelas mãos do mais velho, o qual implorava para que Sasuke não fechasse os olhos e Shisui, você precisa me ajudar-
Priminho tolo.
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Kakashi não teve muito tempo de reação quando Itachi Uchiha apareceu ao seu lado num banco da praça vazio no qual arrumou um espaço para ler Icha Icha Paradise em paz, o uniforme da ANBU há muito trocado pelo colete verde e macacão escuro dos Jonin da Folha. Itachi trazia a mesma expressão neutra e quase pesarosa de sempre.
“Soube que você também vai sair da ANBU.” Ele afirmou, nem seu tom nem sua expressão demarcando muita tristeza.
“Estou seguindo seus passos.” Ele brincou, mas Itachi, como sempre, não mordeu a isca. O Uchiha sobrevivente apenas se sentou ao seu lado e encarou o movimento das árvores junto com ele.
Itachi, às vezes, poderia ficar um longo tempo quieto. Kakashi simplesmente respeitava aquele momento de introversão e deixava Itachi descobrir sozinho as palavras que queria usar, ainda usando aquela expressão vazia que tomou sua vida após o Massacre. Suas mãos permaneceram sobre seus joelhos, não dando nenhum sinal de nervosismo.
“Foi um pedido do Sandaime, não foi?”
“Sim.” Kakashi confirmou. “Ele me pediu para cuidar do Jinchuuriki. Eu estou com um sobrevivente da Fundação também e uma kunoichi civil.”
“Kyuubi, não é?” Itachi mais uma vez se aquietou. “Eu tive medo de que ele pedisse a mim.”
“Bem, teoricamente você seria mais eficiente.” Kakashi concordou. “No fundo, eu acho que é só favoritismo. O Sandaime gosta muito de você e te poupou do trabalho.” Sem demonstrar qualquer outra reação além de piscar, o que era a linguagem de Itachi para confusão, ele continuou. “Ou talvez apenas goste das crianças, seria um horror ter você como professor.”
Uma sombra de expressão passou pelo rosto de Itachi. “Eu fui um bom professor, uma vez.” O Jonin se levantou tão repentinamente quanto chegou. “Talvez ele tenha feito por você também. Talvez seja bom.”
Kakashi suspirou. “Tudo isso depende se eles passarem do teste amanhã. Eu, afinal, nunca passei nenhum time.”
Itachi era uma pessoa que conseguia expressar tudo que podia através dos olhos, que se acalentavam ou esfriavam dependendo de seus sentimentos. Naquele momento, simpatia e afeto passaram por seus olhos.
“E talvez esse time seja diferente.”
Kakashi fez uma careta sob a máscara após a afirmação de Itachi. “Veremos. E você, o que vai fazer? Planejando continuar na guarda pessoal do Sandaime ou seguir como um simples Jonin?”
“Não há muita simplicidade em ser Jonin, sabia?”
“Você poderia pegar um time genin também, sabia?”
O outro se virou levemente e Kakashi temia que o adolescente sumisse para evitar a conversar. No fundo, Kakashi sabia porque Itachi jamais pegaria um time Genin –a lembrança de Sasuke seria grande demais perto de outras crianças. Ainda mais naquele ano, que seria a formatura de Sasuke na academia, seu primeiro ano num novo time se ainda estivesse vivo, provavelmente como primeiro da turma sob os cuidados super protetores de seu irmão mais velho. Ver futuras gerações vivendo o sonho de Sasuke seria demais para Itachi.
Até aquele momento, a única coisa que motivava Itachi a continuar vivo era o desejo de parar Shisui. Saiu da ANBU para sair da vigilância de Danzo e passou grande parte de sua carreira fazendo trabalhos de espionagem fora de Konoha –e do distrito Uchiha – para se livrar de ter que voltar para o composto vazio. A única forma de parar a obsessão de Itachi para encontrar Shisui foi lhe dando um cargo na guarda pessoal do Sandaime, que Itachi ocupou com muita cautela, antes do Hokage lhe deixar voltar para os trabalhos de Jonin.
Shisui matou o clã inteiro naquela noite. Mesmo assim, Kakashi sabia que a única vingança que Itachi desejava era em nome de seu irmão mais novo.
O vento soprou mais forte, levando consigo folhas e ventos e balançando os fios escuros de Itachi para que cobrissem parte de seu rosto. Kakashi nem tentou desvendar o que estava na mente do mais novo.
Por fim: “Não acho que seja pra mim. Eu seria um péssimo professor, afinal de contas.”
Kakashi também se levantou, esticando os joelhos e observando o estado quieto do outro. “É algo para se pensar, de qualquer forma. Vai que um dia você esteja procurando uma rotina nova.”
Uma leve subida nos lábios de Itachi provou quão útil foi a tentativa. “Vou manter isso em mente, Kakashi-senpai.”
“Ótimo!” Kakashi comemorou, se aproximando do outro com um sorriso claro nos olhos e escondido pela máscara. “Por que não comemoramos a minha entrada como professor com um pouco de dango, o que acha? Eu pago!”
“Hum.” Itachi respondeu. “Eu não poderia recusar um dango, poderia?”
“Esse é o espírito!”
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O dia nasceu brilhando na oficialização do rank de Naruto –o famoso dia em que ele começaria sua jornada de ninja até o cargo de Hokage. Naquela noite Naruto sonhou com seu rosto finalmente marcado no Monumento dos Hokages, do lado do antigo Quarto Hokage, sorrindo para todos. Em sua cerimônias, todos os aldeões choravam em felicidade e diziam que sempre esperavam por aquele momento, enquanto seus amigos da Academia o carregavam nos ombros e Sakura-chan confessava que sempre o amou. Naruto era –amado. Lembrado. Reconhecido.
Pensar no sonho o motivava a levantar e escovar os dentes mais rapidamente, já pensando em como iria chegar na Academia e ganharia um sensei ainda mais incrível que Iruka-sensei e-
Iruka-sensei. Que quase morreu na noite anterior tentando salvá-lo. Que o deixou usar seu protetor de testa e o declarou um ninja.
Não. Não seria mais incrível que Iruka-sensei, mas é melhor ele chegar perto! Ou Naruto iria até o próprio Hokage exigir para trocar de sensei e ficar com Iruka-sensei. Pensando no assunto, ficar com Iruka-sensei para que participassem de missões perigosas e derrotassem vilões perigosos soava incrível, talvez Naruto pedisse para trocar de sensei de qualquer jeito.
Mas Iruka-sensei não pode liderar um time genin, seu cérebro o lembrou. Ele vai continuar na Academia.
Ah. Foi a resposta mental que Naruto teve, seu sorriso decaindo um pouco. Ainda assim, seria alguém incrível! Com mais de mil jutsus para o ensinar! Um homem de lendas!
Animação restabelecida, Naruto conseguiu esquentar seu macarrão para o café com um copo de leite para o café da manhã, os engolindo quase que na velocidade do pensamento. Trocou de roupa, suas roupas laranjas e chamativas e colocou com cuidado e reverência o protetor de testa com o símbolo orgulhoso da folha. Naquele instante, Naruto não poderia estar mais orgulhoso.
Vocês só observem. Ele se prometeu. Eu vou ser um grande ninja!
Ao passar pelos corredores da Academia e voltar ao auditório onde passou grande parte da vida, percebeu as mesmas panelinhas de sempre. Akamaru estava latindo de sua posição sobre a mesa de Kiba enquanto seu dono apenas ria das idiotices que Shikamaru e Chouji estavam lhe falando. Num canto da sala, Hinata Hyuuga permanecia de cabeça baixa, sua única reação sendo levantar a cabeça quando Naruto passou. No outro canto, Sai também ficava calado, desenhando concentrado em seu caderno, seu colega Shino sentado ao seu lado também quieto, parecendo apenas observar –era difícil dizer sob os óculos, mas ele parecia querer ver o desenho de Sai. Sakura-chan e Ino estavam na frente da sala, cochichando entre si com algumas risadas altas entrecortando a conversa.
Ao chegar na sala, ele buscou algum lugar para se sentar e vibrou internamente ao perceber que poderia se sentar do lado de Sakura-chan. Ao buscar o lugar ao lado dela, a única coisa que recebeu foram olhares confusos de Sakura e Ino, que continuaram a conversar baixo. Colocando um braço na cabeça e tentando usar seu maior tom de inocência, ele decidiu puxar assunto.
“Bom dia, Sakura-chan!” Começou. “Animada para descobrir os nossos times?”
Sakura e Ino pausaram novamente a conversa, mas a de cabelos rosa foi educada o suficiente para tirar alguns fios soltos e os colocar atrás da orelha e responder.
“Bem, sim, bastante!”
“Nós vamos ficar juntas!” Ino prometeu ao seu lado, sorrindo quase em arrogância para Naruto. “Seremos o melhor time!”
“Bem, os times são de três pessoas... Seria legal se ficássemos juntos, não seria, Sakura-chan, Ino-chan?”
Poupando as duas de falarem o que com certeza não seria uma afirmação, Iruka-sensei apareceu na sala, alguns papéis em suas mãos enquanto ele os analisava com relativo interesse. Ao se voltar para a sala, seus olhos buscaram os de Naruto e grandes sorrisos surgiram entre os dois, lembrando da noite anterior. Pigarreou e ergueu o corpo, tentando passar a seriedade da situação enquanto esperava que os alunos se aquietassem. Após o silêncio, ele fez um pequeno discurso da importância daquele dia e da seleção dos times, tentando formar equipes equilibradas. Após o anúncio, eles deveriam se juntar e esperar seus respectivos senseis.
“Por favor, demonstrem o mesmo respeito e disciplina ao seus senseis jonin que demonstram comigo.” Ele finalizou antes de anunciar os times.
Após alguns nomes, chegou finalmente o momento em que “Uzumaki Naruto” saiu dos lábios de Iruka, quando começou a anunciar os membros do Times 7, e em seguida “Haruno Sakura”, deixando Naruto com seus poucos milésimos de felicidade antes de completar com “e Sai”.
Não é que Naruto tivesse algo contra Sai, mas o menino era simplesmente estranho.
Antes, Uchiha Sasuke era um dos colegas de Naruto na turma. Menino habilidoso e quieto que era o sonho de todas as meninas. No período em que ficaram juntos, Naruto o invejava e o admirava. Sasuke tinha facilidade em aprender tudo e era o melhor da turma com arremesso de shurikens, sem falar que tinha a atenção de todas as meninas. Entretanto, de um dia para o outro, Sasuke sumiu e nunca reapareceu. Com a expressão séria e pesarosa, Iruka-sensei anunciou que algo havia acontecido com o clã Uchiha e Sasuke não retornaria para a Academia. Naruto não entendeu direito o que foi feito de Sasuke, mas pensou que ele havia saído da vila com os pais, já que Sasuke era filho do chefe do clã.
“Não seja bobo, Naruto.” Shikamaru lhe falou alguns dias depois, quando Naruto comentou que Sasuke devia estar se divertido mais seja lá onde estivesse. “Meu pai disse que o primo do Sasuke matou o clã inteiro, incluindo ele. Todos da ANBU estão atrás do cara.”
Naruto piscou, as palavras repetindo em sua mente. Era seu primeiro contato com a morte de algum conhecido, algum rosto que pudesse lembrar em suas orações e um nome que conhecia agora no cemitério.
Sasuke estava morto.
Sasuke tinha uma rotina de ficar após a aula para treinar, principalmente suas habilidades de arremesso, acertando todas nos tocos da Academia. Alguns dias atrás, Naruto o observou em seu horário de treino, o vendo focado em sua atividade até que estivesse com o suor escorrendo. Poucas horas depois, Sasuke estaria morto. Uma sensação de tristeza o preencheu.
Nem uma semana depois, um garoto entrou na turma para substituir Sasuke –um garoto chamado Sai. Pequeno, sorriso estranho e olhos pequenos, cabelo escuro em tamanho normal, extremamente pálido. Outro extremamente habilidoso, mas que nunca despertou em Naruto o desejo de ser como ele ou de alcança-lo. A única vontade que Naruto tinha era de se manter longe dele. Ele não era Sasuke.
Agora, estavam num time juntos. Ótimo.
Após as despedidas de Iruka-sensei e os desejos de um bom trabalho, os alunos se organizaram nos times que se seguiriam. Naruto se aproximou de Sai e Sakura-chan, que estava realmente triste de não ter ficado na equipe com Ino. A mesma acabou com Shikamaru e Chouji no Time 10. Tentando animá-la, Naruto usou seu melhor sorriso.
“Não se preocupe, Sakura-chan!”
Ela suspirou, mas ergueu os ombros, colocando uma expressão determinada no rosto para retribuir o sorriso de Naruto, suas mãos encontrando sua cintura. “Nós vamos pegar um sensei incrível e superar o time da Ino!”
“Isso aí, Sakura-chan!” Naruto celebrou,
Sai balançou a cabeça. “Parece um bom plano.”
Parecia um bom plano até, aproximadamente, 12:30, trinta minutos após o horário combinado para os instrutores jonin se encontraram com seu time. Duas horas depois do horário, apenas Sakura, Sai e Naruto sobraram na sala, aguardando sozinhos o tal sensei incrível que, aparentemente, não foi avisado sobre o time genin esperando por ele. Para piorar, o Time 10 havia pegado Sarutobi Asuma, o filho do atual Hokage, que veio buscá-los no horário combinado e era algo que Sakura murmurava muito em sua raiva.
“Já estão aprendendo muitos jutsus a essa altura!” Ela exclamava baixo, aparentemente para si.
Sai continuava calado, desenhando. Após um grande sentimento de tédio, Naruto decidiu impressionar o sensei com suas maiores habilidades –peças. Um sensei incrível do nível jonin provavelmente não cairia no truque do apagador, mas Naruto estava entediado e precisava se ocupar de alguma forma por mais que Sakura-chan estivesse reclamando.
“Iruka-sensei nos pediu para demonstrar respeito.” Sakura comentou.
“O mesmo que demonstramos com ele.” Naruto argumentou, sorrindo. “Eu faço isso com Iruka-sensei o tempo todo!”
E finalmente, uma mão se posicionou para abrir a porta, seguida por um cabelo branco espetado de um cara cuja máscara e protetor de testa cobriam quase todo o rosto. Apenas um olho escuro sobrou para demonstrar qualquer emoção. Enquanto todos esperavam com o fôlego suspenso, o apagador caiu bem na montanha de fios brancos, fazendo Naruto cair na risada enquanto Sakura-chan se desculpava pelo seu comportamento.
“Meu comportamento? Ele está mais de duas horas atrasado!” Naruto comentou.
O homem alto com as mãos nos bolsos do macacão jonin os observou quieto por um motivo, um olhar de análise que não deixava Naruto nem um pouco confortável, pois o fazia se lembrar dos civis que passavam instantes o encarando, desconfortáveis com sua presença. Institivamente, Naruto cruzou os braços.
“E o que foi tão importante que tivemos que esperar duas horas?” Perguntou.
“Naruto!”
“Bem, a primeira impressão não foi muito boa. Por que não tentamos de novo? Me encontrem no telhado.” Foi o pedido antes que ele desaparecesse.
Sakura-chan fez uma careta, parecendo extremamente mais cansada agora. “Estamos perdidos.”
Sai já havia se levantado e estava andando em direção ao telhado quando percebeu que os outros não estavam o seguindo, se virando para arquear uma sobrancelha. “Vocês não vem?”
“Como se tivéssemos escolha.” Sakura reclamou, saindo da sala e acompanhando Sai.
Naruto colocou as mãos nos bolsos, ainda um pouco incomodado com o encontro. Talvez fosse o trauma de todos os anos convivendo com olhares escondidos o avaliando, buscando falhas, parecendo encontra-lo mesmo nas maiores multidões, mas ele realmente sentiu que o sensei o encarou por mais tempo que fez com Sai e Sakura. O avaliando, de alguma forma. Depois de tantos anos com Iruka-sensei, Naruto havia se esquecido do quão horrível era quando alguém o detestava logo de cara, tornava sua vida bem mais difícil.
Eu sabia que devia ter pedido para o Sandaime me deixar com Iruka-sensei, pensou.
Chegando no telhado ele percebeu a vantagem da vista e do ar fresco, enquanto todos aqueciam os membros cansados pela espera e avaliavam o sensei, que estava ancorado no parapeito de costas para a vista e os observando. Imediatamente, Naruto quis perguntar o motivo para ele esconder o rosto, mas se conteve, e os genin se sentaram à sua frente.
“Vamos começar com uma introdução, sim?” Sugeriu, o olho visível quase se fechando. “Quem vai primeiro?”
“Mas –o que devemos falar?” Sakura-chan perguntou.
O sensei suspirou. “Coisas básicas, nome, sonhos, gostos, desgostos, o que quiser. Por que não começa?”
Sakura abriu a boca em choque, não esperando ser chamada para começar, porém Naruto precisava superar a desconfiança do sensei, então sugeriu que ele começasse como exemplo. Nenhum pouco surpreso, o homem acatou.
“Meu nome é Hatake Kakashi.” Iniciou. “Há muitas coisas que eu gosto e algumas que eu desgosto. Meus hobbies... Eu tenho alguns. E meus sonhos... Acho que não é a hora de conta-los para vocês.”
“Mas a única coisa que você nos disse foi seu nome!” Reclamou Naruto.
“Exato! Agora você!”
Naruto bufou. “Meu nome é Uzumaki Naruto. Eu adoro ramen do Ichiraku e meu sonho é um dia me tornar Hokage e fazer todos me reconhecerem como o maior ninja da Folha!” Gritou. “O que eu desgosto...” Pausou. “São pessoas que destratam crianças.”
Sob o olhar de Sakura, a kunoichi continuou. “Meu nome é Haruno Sakura. Eu gosto de estar com a minha amiga Ino e meu sonho é um dia poder alcança-la como kunoichi da vila da Folha!” Uma pausa, os olhos de Sakura ganhando uma totalidade pesarosa. “O que eu desgosto são assassinos.”
Apesar da áurea pesada que tomou conta do ambiente, Kakashi parecia estranhamente impressionado com a menina e fez um sinal com o queixo para que Sai continuasse. O menino, que até então encarava Sakura, tentou disfarçar sua surpresa.
“Meu nome é Sai. Eu desenho.” Foi a resposta, seguida de uma pausa dolorosa.
Todos piscaram, mas Sai não deu mais nenhuma informação, parecendo se fechar sobre si mesmo, com o cabelo tampando a expressão de seus olhos. Nem Sakura nem Naruto tentaram preencher o silêncio, ambos constrangidos, então sobrou para Kakashi suspirar e recuperar a atenção de todos.
“Bem, acho que isso foi bom por hoje.” Ele anunciou e se levantou. “Me encontrem amanhã às oito na floresta para o teste! Lembrem-se de não tomar café da manhã, nenhum de nós iria querer algum acidente, não é verdade?”
“Teste? Que teste?”
“Até!”
“Kakashi-sensei!” Foi o coro.
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O entardecer era o momento do dia mais poético para Shisui. Por alguns momentos, todo o céu era tingindo de vermelho e laranja, incluindo as nuvens, que pareciam uma real chuva de sangue. Naqueles instantes, ao encarar o céu chorando, era como ver o reflexo do seu próprio uniforme.
Não que Shisui refletisse muito sobre sua profissão durante os dias ou as noites, era estressante demais pensar no que estava fazendo. Àquela altura, era simplesmente melhor se focar nas pequenas tarefas que ele recebia de Pain e as executar ao melhor de suas habilidades e, quando extremamente necessário, lembrar do motivo de estar fazendo tudo aquilo.
Pela paz. Pela vila.
Por Itachi. Era o que queria dizer, mas Shisui não se enganava. Proteger Itachi tinha sido um dos motivos principais para aceitar a missão de exterminar o clã e era exatamente o que ele pretendia fazer, mas sabia que após matar o clã inteiro e Sasuke em sua frente, ele fez o contrário. Ele não poupou Itachi, ao contrário do que diziam. Ele o amaldiçoou. Ainda assim, Shisui já perdeu todo o resto e a possibilidade de um mundo sem Itachi era inimaginável para Shisui.
Não gostava dessas linhas de pensamento, concluiu. Foco na missão. Esqueça Konoha, ele se lembrou. A única ajuda que você pode oferecer para Itachi é garantir a maior quantidade de informação possível sobre a Akatsuki para entregar para a Folha e garantir que o mundo não vai ficar sob o controle deles.
Suspirou, voltando seu olhar para as folhas caindo das árvores naquele início de outono, um cheiro forte de terra e o barro grudando nas sandálias. Estava úmido no País dos Rios, como sempre, e a umidade garantia o calor que o incomodava. Pelo lado bom, a terra era bastante fértil e árvores frutíferas pipocavam aqui e ali. Aproveitando que Kisame estava carregando o alvo, ele pausou um instante, concentrou o chakra nos pés e subiu uma árvore para colher as pequenas daidai alaranjadas que sobraram ali, comemorando a sorte grande.
Depois de tanto trabalho, ele estava com fome!
“Folgando em pleno serviço?” Kisame comentou, um homem de roupas negras derrubado sobre um ombro, mas que nem afetava seus movimentos.
“Fale ‘por favor’ e eu deixo algumas pra você.” Foi a resposta de Shisui ao descer da árvore, sua capa se movimentando com as ações e grãos de terra grudando em sua barra. “Ainda falta muito?”
“Você nem está carregando peso.”
“Ei, eu estou garantindo que o alvo continue dormindo! Isso consome bem mais chakra que carrega-lo por aí! Eu vou ficar exausto!”
Kisame fez alguns sons e algo que parecia “ne” antes de responder. “Provavelmente chegaremos lá de madrugada, se continuarmos durante a noite.”
Shisui suspirou, passando uma mão soada sobre os cabelos e fechando os olhos em negação. “Isso vai exaurir o meu chakra. Vamos ter que andar mais rápido ou parar para descansar.”
“Tch.” Kisame apertou o passo. “Não fique tão preocupado, ninguém que saiu dos seus genjutsus estava em capacidade de lutar.”
Shisui franziu as sobrancelhas, não gostava de ter que depender em apenas um padrão. A luta que ambos tiveram com o grupo em questão foi rápida demais para garantir que o tal líder não tinha nenhum jutsu especial. O Sharingan garantia que aquele era o verdadeiro, mas ainda assim, o melhor plano de ação era a cautela. Tinham que entregar o cara o mais rápido possível para o Senhor Feudal e receber o pagamento antes de voltar para a sede a fim de receber as novas ordens. Era estressante. Um país lindo como o País dos Rios e eles nem podiam aproveitar para nadar e relaxar um pouco.
Um quase sorriso apareceu em seus lábios, mas ele o escondeu sob um sorriso forçado para Kisame ao concordar. O tubarão fingiu não estranhar e continuou caminhando, um silêncio confortável caindo sobre os dois enquanto Shisui aproveitava suas frutas. Pelo menos a caminhada do Senhor Feudal até a Akatsuki seria mais rápido, já que poderiam se encontrar no esconderijo. O jutsu de Pain vinha em momentos bastante convenientes.
O céu continuava sangrando. A visão o lembrava de muitas coisas –o Sharingan, a Akatsuki e o sangue de seu clã, escorrendo pelo chão como piscinas.
Isso vai garantir proteção a Sasuke e Itachi?
Sim, desde que você garanta que ninguém irá descobrir sobre esse acordo.
Suas mãos se fecharam em punhos.
Eu vou entrar e começar, vocês me deem cobertura. Garantam que ninguém escape. Vou começar com a Força Policial.
Está feito?
Agora os civis. Deixem Fugaku para mim.
Shisui, o que você está fazendo?! Entendo. Então essa é a sua posição.
Shisui, por favor, cuide de Sasuke e Itachi.
Shisui!
“Shisui?” Kisame chamou ao ver as palmas das mãos de Shisui em punhos, tremendo.
O jovem apenas o olhou, o Sharingan brilhando. “Eu odeio entardeceres.”
