Work Text:
Eram quase cinco e meia e ele estava terminando de lavar os últimos copos.
Aquela havia sido uma das madrugadas mais longas de sua vida. Suas costas doíam por ter ficado tanto tempo em pé, e o sono começava a se instalar em seu corpo. Fazia tempo que tivera um dia de trabalho tão movimentado quanto aquele - ainda mais tendo que atender somente uma pessoa nas últimas duas ou três horas.
Não se lembrava de ter visto uma só pessoa beber e chorar tanto - e isso que estavam em Las Vegas. Até sentira pena do pobre diabo. Agora ele estava estirado no seu balcão, praticamente desmaiado. O homem era uma completa bagunça - roupas amarrotadas, cabelo desalinhado, olhos inchados... não queria nem pensar na ressaca que ele teria quando enfim acordasse. Por ora, o deixaria dormir ali. Pelo menos agora poderia terminar o seu trabalho em paz.
Estalou os dedos, dando uma última olhada nas coisas; seu "amigo" continuava apagado no balcão. Seu colega apareceria dali a alguns minutos para assumir o turno, e, então, o dorminhoco seria problema dele. Enquanto desamarrava o avental, ouviu o estalo de saltos se aproximando.
- Senhora, nós não podemos atender...
- Patrick Jane, o que está fazendo aqui?
O barman se virou, no meio do processo de retirar a peça de roupa, e viu uma mulher desconhecida parada próxima ao pobre coitado desmaiado. Ela estava com roupas de viagem e uma cara tão sonolenta quanto irritada - e, meu Deus, ela estava realmente irritada. Parecia soltar fogo pelos olhos... Mais uma vez, sentiu pena do homem - Patrick, ela dissera?
- Há quanto tempo ele está aqui?
O garçom ergueu uma sobrancelha, sem entender; não esperava que a recém-chegada houvesse notado sua presença desde o início. Ela o olhou impaciente enquanto aguardava a resposta, e ele limpou a garganta, um pouco incomodado com o jeito que a moça o encarava.
- Bom, hoje ele chegou às seis da tarde...
- Hoje? Então ele costuma vir aqui sempre?
- Todos os dias, há umas duas semanas.
A mulher suspirou e começou a massagear as têmporas. Ela voltou a sua atenção novamente para o tal Patrick, balançando o braço dele com veemência.
- Jane, vamos lá.
O adormecido murmurou alguma coisa e se moveu no banco. O garçom percebeu que a mulher não se dera por vencida: passou a sacudi-lo com mais força, mas não adiantou. Porém, o homem somente começou a despertar quando ela desferiu um soco em seu ombro e gritou um áspero "PATRICK JANE".
Ele se reposicionou muito vagarosamente, resmungando enquanto esfregava os olhos. Sua visão estava borrada, e uma pontada na cabeça denunciava o início de uma enxaqueca terrivelmente debilitante. Aos poucos, conseguiu distinguir a figura de uma mulher de cabelo escuro no seu lado, muito parecida com Teresa...
...
... Teresa...?
Patrick piscou, sem entender. Era Teresa mesmo, parada ali, com as mãos na cintura? Era Teresa, com cara de poucos amigos, fuzilando-o com o olhar? Estava sonhando, ou estava tão bêbado a ponto de alucinar?
Não. Era mesmo Teresa. De repente, seu coração pareceu dobrar de tamanho. Não entendia o motivo de ela estar ali e não com aquele Pike desgraçado, mas.... Estava feliz. Estupidamente feliz. Tinha vontade de se atirar nos braços dela, de encher seu rosto de beijos, de pedi-la em casamento ali mesmo... Mas tudo o que conseguiu foi ficar ali parado feito bobo, enquanto Teresa lhe passava o maior sermão que já havia recebido.
- Você tem ideia do que me fez passar? Não só eu, mas todos os seus amigos. Todo mundo, Jane. Você desapareceu, sumiu, sem dar satisfação nenhuma. Quase me matou de pura preocupação! Achei que ia te encontrar morto! O que você tem na cabeça?
Patrick cruzou seu olhar com o barman, que observava toda a cena muito interessado, e sorriu de canto. Teresa bufou, tentando retomar sua linha de pensamento; começou a andar de um lado para o outro. Parecia que ia explodir de raiva a qualquer momento.
- Jane, olha só o seu estado! - exclamou ela, desesperada. - Por que você fez isso?
- Reese...
- É bom você ter uma ótima explicação...
- Reese, você voltou...
Teresa revirou os olhos e balançou a cabeça. Desisto, murmurou para si, e deu uma olhada em Patrick. Deus, ele estava péssimo. Precisava fazer a barba urgentemente, pentear os cabelos.... Talvez até um banho demorado... Cruzou os braços e demorou alguns segundos até conseguir respondê-lo. Aqueles olhos.... Parecia um filhotinho de cachorro...
Que inferno. Não conseguia ficar brava com ele.
- Você vai voltar comigo agora, e não quero desculpas. Vamos buscar suas coisas.
Patrick se levantou num pulo, sorrindo de orelha a orelha. Nem parecia que havia bebido a noite toda... Teresa foi saindo do bar e ele a seguiu, mas não sem antes acenar com a cabeça para seu amigo barman, que enfim entendeu o que se passava. Então era ela, enquanto observava os dois desaparecendo aos poucos.
Realmente, deveria escrever um livro.
___
Enquanto Patrick terminava de fazer a barba, Teresa foi catando as roupas amarrotadas espalhadas pelo quarto do hotel. Resmungava consigo mesma, xingando a impulsividade de Jane. Por que ele fizera isso? Embora vê-lo tivesse amolecido seu coração, ainda estava muito brava.
Embora Teresa dissesse a si mesma que o correto era se casar com seu noivo, a decisão havia sido, desde o início, marcada pela dúvida. Não parecia certo, pois sua cabeça só pensava em Jane. Por isso saíra daquele jeito do hotel; porque ele tinha que ser assim? O jeito era tentar tirá-lo de seus pensamentos, e talvez o casamento ajudasse nisso. Mas nada resolvera. Ao contrário - a cada dia, sua ansiedade aumentava, e sua mente ficava distante, pensando em um certo homem de cabelos dourados e sorriso amplo. Quando Cho lhe telefonara para dizer que Patrick havia desaparecido, Teresa desistiu de tentar se enganar. Pediu desculpas a Pike, pois não podia continuar, e se enfiou no primeiro voo para Las Vegas.
Não sabia como continuar a partir dali. O que diria a Patrick? Como seria a relação dos dois? Enquanto ruminava as possibilidades, abaixou-se para juntar a roupa suja que Patrick deixara para fora do banheiro; no processo, um pedaço de papel amassado caiu do bolso do colete.
Era a nota que havia enviado a ele.
Seu estômago afundou. Segurou o papel e releu-o, mas sem registrar a mensagem. Era por isso que Patrick havia sumido? Mordeu os lábios, agoniada. Não sabia o que fazer com a informação.... Sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
Patrick saiu naquele instante e se deparou com Lisbon segurando suas roupas sujas, olhando o papel. Ela o encarou de volta, sem dizer nada; mas não era preciso. Teresa deixou o que carregava em cima da cama e se aproximou dele, sem jeito.
- Patrick... Me desculpa.
Ele não respondeu; apenas a abraçou, sendo prontamente correspondido. Tinha vontade de dizer tantas coisas... Tinha esperado tanto por aquele momento, tinha pensado em tanto para dizer a Teresa. Mas não conseguiu fazer nada. Beijou a testa dela, que encostou a cabeça no ombro dele.
- Patrick...
- Reese...?
- Me promete uma coisa?
- O que?
- Não vá embora. Nunca mais.
- Só se você também não for.
Teresa concordou, rindo baixinho, e ele apertou o abraço. Sou feliz agora, pensou.
