Work Text:
Nie Mingjue é um homem de poucas palavras.
Dono de uma sinceridade brutal, dizia o que achava, diretamente, sem meias palavras.
Era um homem de ações.
Fazia o que julgava certo, sem se importar com a opinião de terceiros, salvo aqueles que realmente lhe eram preciosos.
A sinceridade, em um mundo de aparências, era um problema. E poucos chegavam no estágio de tentar entendê-lo, se concentravam apenas no que os olhos viam, e a fachada de Nie Mingjue era imensa.
Dono de um corpo gigantesco e de músculos maiores ainda, Mingjue impunha respeito por onde passava, apenas um olhar fazia os mais fracos se calarem.
Era tido como bruto.
Foi criado por um homem bruto para se tornar um homem bruto. Era direto, honesto e justo, mas muitos confundiam sinceridade com violência.
Se lembrava da primeira vez que foi na escola, as crianças correram dele, o apelidaram de Godzilla, e ele ficou sozinho. Até que uma criança sorridente veio até ele.
Quem o olhava pensava que não tinha medo de nada.
Afinal, o que um homem como ele poderia temer?
Mas havia um lado que poucos conheciam.
Em toda sua vida tinha algo que ele temia com todas as suas forças.
Um ponto fraco, além de seu irmãozinho.
Anões de Jardim.
Aquelas minúsculas criaturinhas sinistras.
Mingjue não conseguia medir o asco que tinha por anões de jardim.
Aquelas bochechas rosadas artificialmente, sorrisos dissimulados, como os odiava.
Os viu pela primeira vez aos cinco anos de idade, enquanto visitava uma casa com seu pai e madrasta. Os adultos estavam olhando o interior da casa e Mingjue foi explorar o quintal.
E então ele viu.
No centro do jardim.
Em meio ao mato um pouco alto, rodeado por sapos de cerâmica, estava um homenzinho do mesmo material, usava roupas e um gorro amarelos, e tinha uma marca vermelha na testa. Talvez uma mancha.
Mingjue se aproximou e encarou.
O sorriso estático lhe causou arrepios, era como se estivesse rindo dele. Os olhos estavam fechados, mas era como se estivesse lendo sua mente. Um arrepio subiu pela sua espinha e o incômodo se alojou em seu estômago.
Tentou dar um passo para trás, mas paralisou quando pisou em um galho.
Com medo fechou os olhos.
Não conseguia se mexer, tinha medo que o homenzinho abrisse os olhos e ele ficasse preso naquele lugar para sempre. Ele sabia, conseguia sentir os olhos em cima dele, apenas esperando um deslize seu.
Pula assustado quando sentiu uma mão no seu ombro.
- Mingjue o que está fazendo?
Seus olhos se abrem e ele vê a barriga grande de sua madrasta, engole o seco sem saber o que responder, e seus olhos vão até o anão de jardim.
Os olhos estavam fechados.
Ele deixa a mulher guiá-lo para dentro, a vergonha toma conta do pequeno garoto, era só um boneco bobo, mas isso não o impediu de ter pesadelos, onde o anão amarelo abria os olhos e roubava a sua alma.
Mas o jardim ficou esquecido.
E com o tempo Mingjue se esqueceu do anão.
Até o dia que andava calmamente pela casa e ouviu seu irmãozinho chorando. Correu desesperado e o encontrou aos prantos na frente daquele mesmo anão de jardim.
A próxima coisa que ouviu foi as vozes de seu pai e de sua madrasta que olhavam assustados para a cena. Mingjue de pé na frente de um Huaisang que segurava suas pernas e sob seus pés os restos do anão quebrado.
O tempo passou e o Nie mais velho continuou sua vida normalmente.
Desde então nunca mais foi atormentado por outro anão de jardim.
Pelo menos até agora.
Bochechas vermelhas, o sorriso dissimulado, roupas amarelas, e até mesmo a mesma marca vermelha da testa. Era igual ao anão da sua infância.
Exceto por uma coisa.
Os olhos.
Os olhos estavam abertos. Eram castanhos e brilhavam em um tom de fúria.
E Mingjue sentiu.
Aqueles olhos roubando sua alma, lhe hipnotizando, seu coração disparou, a boca secou. Totalmente paralisado, não conseguia desviar os olhos da figura à sua frente.
Era como se estivesse imerso naquelas orbes que brilhavam como duas jóias.
E então…
-Mingjue?
... ele fala.
Nie Mingjue engole o seco e se força a prestar atenção nas palavras do homem à sua frente.
-Entendeu Mingjue?- Jin Guangyao diz - Não pode rosnar para os meus clientes.
O homem mais alto desvia o olhar, mas o Jin não desiste pondo o dedo contra o peito do maior, quem olhasse de fora acharia graça da situação, afinal como que um cara baixinho e magricela como aquele iria ameaçar outro que parecia um armário?
Mas a verdade é que o Nie estava aterrorizado.
O motivo da bronca? O ciúmes de Nie Mingjue, que espantou o cliente do Jin, após perceber as investidas em cima de A-Yao.
-Entendeu? - ele repete e Mingjue grune uma resposta incompreensível.
-Não rosne para mim!
-Entendi.- o Nie finalmente fala, se sentindo frustrado.
O de amarelo suspira, passando as mãos pelos cabelos.
Conheceu Yao quando ainda era Meng Yao, o menor entrou como estagiário na empresa dos Nie, mas logo provou o seu valor, subindo de cargo. O Nie desconfiou dele desde que o viu pela primeira vez, havia algo nele que o deixava inquieto, ele era quieto, mas havia algo desconcertante em seus olhos e seu sorriso era falso demais.
Desconfiou ainda mais quando ele se aproximou de Xichen.
Tudo mudou quando o viu sofrendo bullying de outro colega de trabalho, foi aí que descobriu seu passado triste. Demitiu o outro na hora e Meng Yao virou secretário de Mingjue.
Ele estava ao lado do Nie em vários momentos, quando o pai de Mingjue morreu e ele assumiu a empresa, quando começaram a perder investidores e quando ele reergueu a empresa. E ele ficou ao seu lado quando Yao entrou com o pedido de reconhecimento de paternidade, e quando decidiu embarcar em uma nova profissão.
Os dois brigavam como gato e rato, discutindo por tudo, em suas mentes se odiavam. Descobriu o que o incomodava em Meng Yao em uma dessas discussões, ele encarou o homem de bochechas rosadas, sorriso retorcido e se lembrou.
É claro.
O anão de jardim da sua infância.
Ele era igual àquele anão de jardim.
Falou isso para o outro, recebendo um olhar indignado e um risinho de Xichen, depois disso esse virou o seu apelido.
Somente quando Xichen começou a rir em uma de suas discussões e lhes disse que eram um casal bonito é que perceberam seus sentimentos.
Desde então não se largaram.
Como um famoso organizador de festas, Yao acabava interagindo com diversas pessoas e consequentemente levava algumas cantadas. Mas aquele cara estava passando dos limites, Mingjue foi visitar o mais novo e viu aquele homem quase em cima do anão.
Jin Guangyao era irritante, aproveitador, oportunista e dissimulado, mas era o seu anão de jardim.
-Seu homem bruto e doido.- A-Yao começa, andando de um lado para o outro -Aquele era um bom contrato, sabe o quanto ele estava disposto a gastar?
Ah sim, ele sabia. Tinha ouvido muito bem essa parte.
-Não precisa se preocupar com o meu trabalho. Eu sei lidar com esse tipo de gente, sabe bem disso!- e para, olhando bem no fundo dos olhos do Nie - Apenas, confie em mim.
A declaração pega o Nie de surpresa, ele não havia pensado, ele não pensava quando se tratava de Yao, sabia da força do menor, do que ele era capaz, mas não conseguia evitar de se preocupar, aos seus olhos Yao era uma fina e delicada peça de porcelana.
Se sentia culpado, então disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça: - Desculpa.
Jin Guangyao o encara e suspira. - Que se dane, aquele babaca era um pé no saco. Quem tenta combinar verde e roxo? Cafona, irritante, sabe, acho que ele…
Então Mingjue o abraça, foi rápido e desengonçado. Yao para de falar, paralisado com as bochechas vermelhas.
-Vamos jantar.- Mingjue pega a mão do Jin e o arrasta sem resistência.
-Ei, seu homem das cavernas, espera…
-Comida árabe.- o Nie cantarola.
Jin Guangyao reclamou durante todo o caminho, mas comeu tudo satisfeito, afinal amava comida árabe.
Nie Mingjue encarou o outro homem enquanto este comia um doce.
Não era mais um garotinho, então por que se sentia assim?
Suas mãos suavam em nervosismo, enquanto encarava aquele anão de jardim.
Ele tinha medo de anões de jardim.
Tinha medo que eles roubassem sua alma.
No fim, estava errado, o anão de jardim não roubou sua alma.
Mas sim seu coração.
No final daquela noite, Nie Mingjue descobriu que amava anões de jardim.
