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Entre poções, explosões e confissões de São Valentim

Summary:

Poções nunca foi a matéria preferida de Yixing na Academia de Magia, mas quando as chances de perder seu melhor amigo — e paixão secreta — para a menina mais popular do colégio se tornam iminentes, ele não vê outra alternativa senão seguir a ideia mirabolante de usar uma poção do amor. No entanto, bastou uma unidade de medida errada, uma explosão e algumas piadas sem graça para que ele descobrisse que, na verdade, Junmyeon não precisava de poção nenhuma para se apaixonar por ele.

Notes:

OLÁÁÁ >:)

Bom, depois de três dias só escrevendo essa belezinha, finalmente ela nasceu! O plot é meio que inspirado em um uma ideia da Dondon e essa fanfic só foi feita porque eu sou a maior fã de química & explosões. Obrigada Donds por ter me permitido me inspirar no seu plot e por ter me dado tantas forças nesses 3 dias e obrigada a Mary que também permitiu que eu utilizasse a ideia que ela não adotou.

Como de praxe, deixo aqui também os meus agradecimentos à Vick, a minha querida beta reader que se disponibilizou em me ajudar com essa história. Sem ela eu não faço nada.

AH, E PONTOS IMPORTANTES:
NÃO É uma HP!AU, então qualquer semelhança é MERA coincidência (até porque eu nunca passei da 50ª página do livro um da saga)
▷ Pra quem não sabe, na Coreia e no Japão se não me engano, o dia dos namorados é o chamado de Valentine's Day, que é o dia em que as pessoas normalmente se confessam, dão chocolates, doces, biscoitos e tudo mais. TODAVIA, DIFERENTE DOS OUTROS PAÍSES, eles também tem o chamado White's Day, que é uma data exatamente um mês depois do dia 14 de fevereiro, em que as pessoas que receberam os presentes de dia dos namorados retribuem (ou não) o carinho que receberam
(foi o que eu entendi pelas minhas pesquisas, se você achar algum erRO me chama na DM do twitter e ai eu mudo essas notinhas-)
▷ Os feitiços não são nada muito elaborado, só frases ordinárias colocadas em latim pra ficar chique!

Bom, sem mais delongas (fingindo que eu não enrolei pra caceta até aqui), boa leitura >:)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Yixing odiava o Valentine's Day

Casais diriam que aquele mau humor se devia ao fato de ele estar sozinho enquanto todos tinham seus devidos companheiros para presentear. Seus amigos, por outro lado, diriam que isso se devia à inveja que ele tinha de Junmyeon, por receber um milhão de confissões, enquanto ele próprio não recebia nada além de alguns doces que sobravam dos presentes do melhor amigo.

O feiticeiro, porém, sabia que seu temperamento era causado pelo fato de que em todos os Valentine's Day, dezenas de pessoas conseguiam um pouquinho da atenção de Junmyeon, menos ele.

Não que fosse de se esperar menos do feiticeiro prodígio da maior academia de magia da Ásia, muito pelo contrário. Yixing admitia — e concordava — que Junmyeon era extremamente simpático, inteligente e muito, muito bonito. O aluno destaque de todos os anos era realmente um príncipe saído de um conto de fadas, e seria até estranho que ninguém babasse por Kim Junmyeon. Seria tão estranho que nem sequer o próprio Zhang resistiu aos encantos do Kim quando a juventude finalmente o alcançou, aos 15 anos de idade.

Por essa razão, era impossível pedir para que Yixing não ficasse frustrado vendo dezenas de pessoas se confessarem para Junmyeon bem na sua frente enquanto ele, apaixonado por anos pelo melhor amigo, tinha que assistir àquelas confissões todo Valentine's Day, de camarote. Não que fosse reclamar daquele sorriso lindo que ele dava para todos os feiticeiros cujos sentimentos rejeitava, tampouco daquela faísca de felicidade ao ver que o coração de Junmyeon ainda não tinha dono. Não, não reclamaria de nada daquilo. A questão mesmo era que assistir todos aqueles foras era agridoce, pois ao mesmo tempo que comemorava o fato do melhor amigo não querer ninguém, sabia que não estava em posição de comemorar ali. Afinal, não seria diferente se fosse ele quem se confessasse para o Kim, seria?

— Yixing? — A voz que tanto preenchia seus pensamentos soou repentinamente enquanto uma palma se agitava na frente do seu campo de visão, tentando tirá-lo de seus pensamentos. — Ei, você tá aí?

O feiticeiro balançou a cabeça rapidamente e arregalou os olhos, só então se lembrando da presença de Junmyeon, que sorriu ao vê-lo finalmente notá-lo ali.

— Vamos embora? Já terminei o que tinha pra fazer. — Ele soou simplista, os braços apoiados sobre a madeira da mesa em que Yixing estava sentado enquanto no rosto esboçava mais um daqueles sorrisos casuais que acabavam com todas as estruturas do amigo. Havia só Junmyeon e ele naquela sala silenciosa e, por um momento, o Zhang temeu que ele conseguisse ouvir a sua frequência cardíaca aumentar repentinamente. — Aqui, você curte biscoitos de chocolate, não curte?

Ele estendeu a sacolinha de biscoitos em formato de coração que tinha em mãos para o amigo com um sorrisinho. Provavelmente era mais uma das sobras dos vários presentes que o Kim havia recebido e, por isso, foi inevitável que Yixing sentisse certa irritação com o ato de caridade do amigo. 

— Mais uma rejeição? — Yixing soou irritado enquanto aceitava aqueles doces, o que não passou despercebido por Junmyeon, que revirou os olhos em resposta àquele jeito de falar.

— Sim. Qual o problema? — indagou, sentando-se sobre a carteira ao seu lado enquanto esperava o Zhang arrumar as coisas para que enfim, saíssem dali. — Tá com inveja porque ninguém veio se confessar pra você?

“Não, porque eu gosto de você” foi o que Yixing quis responder. Mas como sempre, ele apenas riu e voltou a atenção ao caderno, que estava em branco. Havia passado todo o tempo de estudo ali, pensando em Junmyeon, e por isso a folha do caderno de Feitiços III continuava vazia.

— A quem você quer enganar com esse caderno vazio, hein? — O Kim caçoou, esticando o pescoço para ver o que o amigo havia estudado enquanto lhe esperava.

Desde mais novos, ambos tinham um costume horroroso de implicar um com o outro. Foi desse jeito que Junmyeon virou seu inimigo, melhor amigo e, por fim, o cara por quem era totalmente apaixonado. Apesar de não ser apaixonado pelas piadas horríveis e pelasas brincadeirinhas sem graça que irritavam Yixing até o seu limite, ele sabia que elas tinham lá o seu carinho implícito.

Sem defesa, o Zhang fez uma careta para Junmyeon e então lhe mostrou a língua, ato infantil que fez o amigo rir. Em seguida, levantou-se e fechou o caderno, enfim começando a organizar os materiais que estava usando para que saísse logo dali.

— Você fala como se eu fosse o maior vagabundo do colégio — retrucou, com um biquinho formado nos lábios e o cenho franzido. Não era mentira que costumava ser o maior desocupado antes de conhecer Junmyeon, mas não gostava de admitir aquilo.

— E você não é? Você só estuda porque eu te obrigo a estudar. — A resposta saiu com humor da boca do Kim, que recebeu um soco leve no braço como resposta. Apesar de Yixing saber que aquilo era brincadeira, em partes, não deixava de ser verdade. Estudar nunca foi muito a sua praia. — Agora me diz, se não estava estudando esse tempo todo… o que ficou fazendo? Estava pensando em alguém?

No momento em que Junmyeon insinuou aquilo, a vontade maior do Zhang era de se enfiar num buraco. Ele segurou sua vontade de querer dar um soco na cara do amigo e com um suspiro, simplesmente negou com um balançar de cabeça. Se o Kim ao menos soubesse o porquê de ele não conseguir estudar direito nos últimos 3 anos, nunca teria dito aquilo.

— Não, idiota — respondeu simplista, tentando soar natural. — Como você mesmo disse: ninguém veio se confessar pra mim. — A voz soou sarcástica, provocando um arquear de sobrancelhas em Junmyeon, que achou graça no tom irritado de Yixing. Sempre achava.

— Tá bravo é? Tá Zhangado?

Ao ouvir aquela piada horrorosa com o seu nome Yixing o olhou incrédulo, e em questão de segundos apanhou a mochila pesada e ameaçou jogá-la no amigo, que começou a correr de si enquanto ria da carinha brava dele. Num dia normal a piada feita por si não afetaria tanto o amigo, talvez ele até risse consigo, mas em todos os Valentines' Day bastava um simples caçoar para que Yixing viesse correndo atrás de si com algo pesado para tentar lhe atingir — muitas vezes conseguindo.

Entre risadas e algumas caretas Junmyeon começou a correr do Zhang pelos corredores grandes da Academia. Os tênis pretos de ambos fazendo barulho sobre o chão liso dali somado ao eco daquele ambiente vazio. A adrenalina dominava seu peito enquanto repetia, naquela tarde, a mesma cena da primeira vez em que se viram, quando se trombaram, ainda pequenos. Havia sido, sem via das dúvidas, o jeito mais infantil do Kim de chamar a atenção do melhor amigo, mas isso não impedia que ele repetisse o mesmo ato de anos atrás a fim de acabar com aquele mau humor de Yixing.

Junmyeon não sabia, mas sempre que corriam juntos o amigo sentia todas suas inseguranças sumirem. A reprodução daquela brincadeira boba era uma das únicas coisas que Yixing podia chamar de deles, e aquele sentimento de exclusividade era reconfortante.

Vai correr até ficar sem saída, Kim? — O Zhang reproduziu a mesma fala que havia sido proferida anos atrás assim que Junmyeon cessou os passos para recuperar o fôlego. O Kim, por sua vez, revirou os olhos e endireitou a coluna antes de responder o amigo com o mesmo tom de provocação.

Como se eu tivesse medo de você, otário — repetiu a mesma coisa que sempre dizia quando brincavam de pega-pega, abrindo os braços enquanto aguardava Yixing chegar até ele e pular em cima de si, jogando-o no chão enquanto gargalhava junto dele.

Em algum momento da amizade dos dois as costas já não doíam quando iam de encontro ao chão, tal como a cabeça que uma vez bateu contra o piso duro já se preparava para a queda antes mesmo do corpo de Yixing ir ao encontro do seu. Haviam repetido aquela cena icônica tantas vezes que parecia até um deja vú repeti-la ali, naquela tarde.

Junmyeon encarava o teto enquanto se acabava em risadas, os cabelos rosados espalhados sobre o chão enquanto os fios de Yixing faziam cócegas em seu peito.

— Isso nunca perde a graça. — O Zhang disse quando cessou a risada, tirando o corpo de cima do de Junmyeon enquanto suas mãos se apoiavam sobre o chão gelado do corredor, mas ele parou quando se viu paralisado pela visão do amigo abaixo de si. Um arrepio percorreu toda sua espinha só de imaginar aquela cena em outro contexto. 

— Nunca mesmo. — O Kim respondeu ofegante, sorrindo para o melhor amigo enquanto não parecia notar o quão nervoso Yixing estava. Assim, empurrou-o para o lado e inverteu suas posições, sorrindo ingênuo. — Mas nós dois sabemos que eu sempre fui o mais forte. Não sabemos?

E naquela posição, o Zhang não pôde evitar de sentir o rosto queimar em chamas próximo a Junmyeon. O peso do amigo o deixando instável enquanto a proximidade daqueles fios rosados caídos perto de seu rosto, pela primeira vez, deixaram-no estático. Normalmente Yixing conseguia disfarçar bem os sintomas de amor que Junmyeon causava em si quando ficavam inevitavelmente próximos naquele tipo de brincadeira, mas nesse dia em específico, viu dificuldades em fingir estar inalterado. 

Sem conseguir responder o Kim, a única reação que teve foi afastar o corpo dele do seu e colocar a mão no peito, sentindo as batidas sob a palma. Seus sentimentos estavam interferindo cada vez mais na sua relação com Junmyeon e aquilo não era bom, nada bom.

— Yixing? O que foi? — O amigo perguntou um tanto preocupado, levando a mão ao ombro do Zhang. — Você se machucou quando caiu?

— N-não. — Yixing respondeu, recuando e balançando a cabeça negativamente, tentando pensar numa boa mentira para acobertar aqueles sentimentos que, até então, estava conseguindo esconder bem. O que havia acontecido consigo? — Eu só… senti uma dor de cabeça repentina. Não sei, deve ter sido o almoço?

— Mas o que o almoço tem a ver com a sua dor de cabeça? — O Kim perguntou com o cenho franzido, virando o rosto para o lado como se tentasse entender o que acontecera com Yixing repentinamente.

— N-não sei! Eu só acho que foi o almoço — respondeu rapidamente, levantando-se e arrumando os cabelos negros antes de se virar e respirar fundo pela vigésima vez ao lado de Junmyeon. Não entendia por que aquilo estava acontecendo consigo repentinamente. Aquele tipo de coisa nunca havia ocorrido. — Eu vou… pra enfermaria, tá bom?

Ah . — O rosto de Junmyeon esboçava preocupação com o amigo. Ele se levantou logo atrás do Zhang e então limpou a capa que havia sujado, aproximando-se de Yixing novamente — Vamos, eu posso ir com você…

— Não precisa! — respondeu um tanto alto, afastando-se abruptamente e assustando o melhor amigo, que o olhou confuso. — Digo, não precisa. Eu sei me virar… Você também precisa estudar, Jun. Bom, eu vou indo. Te vejo amanhã!

E com um acenar, Yixing saiu às pressas de perto do Kim, que pouco pôde responder à despedida antes que o amigo quase fugisse de si. Por um momento, ele se perguntou se havia feito algo de errado ou se por acaso o amigo havia ingerido alguma droga durante o almoço para fazer com que ele tivesse dor de cabeça. Fosse algo que tivesse ingerido ou algum movimento que o tivesse machucado, Junmyeon só desejou que Yixing ficasse bem.

Diferente do que Yixing pensava, depois do turbulento Valentine's Day que havia passado com Junmyeon, tudo piorou. As noites em que costumava ter paz, de repente, tornaram-se inquietas. A partir daquele dia Junmyeon passou a preencher seus pensamentos em período integral; tanto na parte da manhã e da tarde, na escola, como na parte da noite, em seus sonhos, que faziam o Zhang acordar assustado na cama com o rosto em chamas e, às vezes, não só o rosto.

Não que nunca tivesse tido aquele tipo de problema — afinal ele tinha 19 anos, já havia passado por isso —, mas ter esse tipo de problema por causa dos sonhos em que o Kim de repente o beijava ou o deixava com as pernas trêmulas com a sua voz doce ao pé do ouvido, era uma novidade.

Uma péssima novidade, se podia assim dizer.

A cada dia que passava, afastava-se cada vez mais de Junmyeon, esperando que daquele jeito seus sonhos parassem. Todavia, mesmo quando fugia dele nos momentos em que costumavam estudar juntos na biblioteca ou até nas voltas aos dormitórios em que passavam o trajeto todo conversando sobre bobeiras e rindo juntos, os sonhos não o deixavam em paz.

Não havia nada pior que aquele tipo de sonho repetitivo onde finalmente podia segurar a mão do Kim ou conversar com ele como se ambos realmente tivessem sentimentos recíprocos sabendo que nada daquilo era real. Doía muito acordar no dia seguinte e ver o rosto do melhor amigo sem poder expressar o que sentia, o que seu coração lhe mostrava sentir.

E em algum momento daquele período em que se afastou de Junmyeon, pegou-se questionando sobre como havia aguentado ficar tanto tempo sem dizer uma só palavra sobre seus sentimentos para o Kim. Talvez estivesse sob efeito de algum feitiço ou poção para suportar aquela friendzone por tantos anos, porque o Yixing de agora realmente não via como aquilo poderia ser possível.

Sabia que evitar aquele problema não o levaria para lugar nenhum, mas naquele momento parecia ser a melhor alternativa para que ele enfim, conseguisse lidar com a paixão que tinha pelo melhor amigo.

 

𝚫

 

Evitar Junmyeon havia sido um desafio difícil para Yixing no começo, mas se tivesse que falar sobre tempo — e não sobre os perrengues que passou matando os encontros do grupo de estudos ou saindo mais cedo das aulas apenas para não precisar caminhar até os dormitórios com o Kim —, diria que passou relativamente rápido.

Afinal, já fazia quase um mês que não falava com Junmyeon direito e pouco percebeu que a segunda data que mais odiava já se aproximava: o White’s Day.

Não importava se estivesse falando de humanos ou feiticeiros, o significado daquela data era o mesmo: mais pessoas apaixonadas se confessando e retribuindo os presentes do Valentine's Day enquanto ele seria, por mais um ano, o cara na friendzone

Mas daquela vez seria um cara na friendzone longe de Junmyeon, e por algum motivo aquilo só fazia da proximidade da data, pior.

Quando Morfeu finalmente traria a paz às suas noites de sono?

— Ei, Zhang! — Jongin, quem estava na carteira à sua frente, chamou-o ao se virar repentinamente para trás, assustando Yixing, de modo que o fez saltar da cadeira em susto, a caneta que tinha em mãos agora caída sobre a mesa. Com uma expressão divertida no rosto, Jongin riu da reação do Zhang, que colocou a mão sobre o peito devido ao sobressalto.

— Pelos céus, que susto, Jongin… — disse assim que se recuperou.  Pouco havia notado que a aula tinha acabado mais cedo, e se não fosse por Jongin era possível que ficasse plantado ali imerso em seus pensamentos até ouvir o barulho do sinal.

Haha , foi mal, cara. — O Kim murmurou em resposta enquanto coçava a nuca, meio acanhado com a pergunta que faria em seguida. — Eu só queria saber se você sabe se o Junmyeon vai retribuir algum presente de Valentine’s Day amanhã. É que você é bem próximo dele então pensei que pudesse me passar essa informação confidencial — sussurrou a última parte, dando uma piscadinha para Yixing.

Em resposta, Zhang franziu o cenho, certamente sem entender por que Junmyeon retribuiria os presentes do Valentine's Day na próxima semana. Em nenhum dos anos anteriores o feiticeiro fez isso, então por que esse ano seria diferente?

— E por que ele retribuiria?... — perguntou desconfiado, recebendo um arquear de sobrancelhas da parte do outro.

— Bem… talvez porque Bae Joohyun finalmente deu chocolates pra ele no Valentine 's Day? — Jongin ditou como se fosse o óbvio, dando ênfase no nome da garota em questão, o que fez o coração de Yixing parar. — Sei lá, é de costume que a gente só retribua os chocolates no White’s Day quando está interessando de volta na pessoa em questão, e é quase impossível não gostar daquela mulher… — O Kim suspirava ao falar o nome dela, como se na verdade fosse ele o apaixonado pela garota.

O Zhang, por sua vez, não sentiu nenhuma mágica na menção do nome da feiticeira, mas sim a sensação de um tiro bem no meio do peito. Com certeza não teria chance nenhuma ao lado da grande Bae Joohyun. Estava realmente prestes a perder Junmyeon para a garota mais linda da Academia de Magia sem poder fazer nada a respeito?

Sentia-se patético.

— Ei, Zhang. — Jongin cutucou seu ombro com a ponta da pena da caneta, esperando que ele voltasse a atenção em si. — Fala aí, por favor. Eu sou apenas um homem morrendo de amor por essa mulher, e preciso saber se eu posso usar minha poção do amor com ela amanhã ou se estarei sendo talarico...

— Peraí, o que você disse? — Yixing virou o rosto na direção do Kim no mesmo momento em que ouviu a última sentença sair da boca dele, finalmente voltando a prestar atenção em Jongin na hora em que ele pareceu dizer algo interessante para si.

— …Que eu sou um homem morrendo de amor pela Joohyun?

— Não idiota, a outra parte!

— Que eu preciso saber se estaria sendo talarico usando a minha poção do amor?...

— Isso! — Yixing gritou eufórico, batendo na mesa com um pulo, como se tivesse achado a solução de todos os seus problemas. O ato chamou a atenção de todos da sala ali presentes, o que o fez recuar logo em seguida.

Aquela parecia ser a solução perfeita. Faria a poção do amor e a colocaria na comida de Junmyeon no dia seguinte para que ele passasse o dia apaixonado por si e, consequentemente, não cedesse aos encantos de Joohyun. Claro que ele traria o amigo de volta ao normal no final do dia, mas durante o White ‘s Day precisava dele apaixonado por si, ou o perderia para sempre — ou pelo menos por alguns anos, o que já era horrível.

— É… uhul? — Jongin comemorou sem entender o sorriso repentino de Yixing, olhando-o ainda mais confuso enquanto aguardava a resposta que, durante todo aquele diálogo, não recebeu. — Vem cá, você ainda não me respondeu…

— Beleza Jongin, é o seguinte: se você me mostrar o livro em que encontrou essa tal poção pode ter certeza que a Joohyun será sua antes mesmo do White ’s Day! Trato feito? 

Finalmente com a resposta que tanto precisava, Jongin concordou animadamente com a cabeça, pouco se importando com o por que Yixing queria o tal livro.

— Ah sim! É o Poções Avançadas III, tem na biblioteca do bloco A. — Ele tirou o livro da bolsa e mostrou a capa, que Yixing rapidamente fotografou para que fosse mais fácil encontrar na biblioteca mais tarde. — Acho que só tem mais um exemplar para ser emprestado… E a poção do amor está na página setecentos e noventa e…

— Ok, é o suficiente. — Zhang o cortou, jogando os materiais na mochila apressadamente e saindo dali assim que o sinal bateu, nem sequer se despedindo de Jongin. Sabia como a biblioteca do bloco A, que era a biblioteca onde os veteranos mais aplicados costumavam estudar, sempre lotava logo que o sinal tocava, e por isso ele apertou o passo para sair da sala de aula o mais rápido possível. Não podia deixar que pegassem aquele exemplar antes de si.

Se antes achava que não havia nada a fazer a respeito de Junmyeon, agora estava mais que seguro que teria um prazo maior para se confessar e fazer daquele fora o menos patético possível. No fundo, sabia que estava sendo egoísta, mas nos momentos em que refletia sobre isso, só conseguia se consolar com a frase clichê que dizia que o amor nos leva a cometer loucuras. Correndo pelo campus da Academia, tentava pensar apenas no fato de que finalmente faria uso daquelas aulas de reforço de poção que o melhor amigo insistia em dar.

 

𝚫

 

Depois de uma pequena jornada na floresta ao lado do campus para caçar alguns dos ingredientes exóticos que a poção pedia e horas na biblioteca folheando aquele livro que parecia dez vezes mais complicado que seus livros didáticos regulares, Yixing finalmente compreendeu como deveria fazer aquela poção cujas instruções estavam em latim — e nota: ele era péssimo em latim.

Com o livro emprestado da biblioteca na mochila e as várias anotações que havia feito em meio às pesquisas, em mãos, Yixing caminhava cansado até os dormitórios.  Afinal, já era noite quando finalmente saiu do bloco de estudos para o seu quarto. Havia passado a tarde inteira empenhado em fazer aquele feitiço dar certo e, por isso, estava quase caindo de sono no meio do caminho.

Ao chegar na cozinha de seu bloco, deu graças aos céus por não precisar caminhar mais. Jogou o peso que tinha nas costas ao pé da mesa e, sobre o balcão vazio, despejou tudo o que tinha anotado. Abriu a mochila e colocou sobre a mesa, também, o livro da biblioteca. E foi assim que começou a mexer com aquilo.

As traduções do latim pareciam se mexer enquanto o Zhang forçava a visão para entender o que havia escrito ali. O sono já o tomava quando ele bateu no rosto algumas vezes a fim de espantá-lo. Não podia dormir, não aquela noite.

Voltou a atenção às instruções, e ao finalmente identificar quais ingredientes da cozinha precisaria para fazer a poção, abaixou-se próximo aos armarinhos, procurando pelo mel, sementes de Rosea prunarius, essência de Aenean e mais alguns ingredientes cujos nomes eram difíceis demais para ter claro em mente. Preferia utilizar de sua memória fotográfica para encontrá-los.

— Sra. Kang, por favor, que você tenha reposto todos os ingredientes nesse final de semana… — Ele murmurava para si mesmo enquanto fuçava naquele armazém de ingredientes que, na verdade, não deveria estar mexendo. Um sorriso surgiu em seu rosto cansado quando ele avistou tudo o que precisava ali, dentro de uma caixa com mais alguns avisos em latim que ele ignorou. Em seguida, buscou pelo frasco de mel e, indeciso entre dois recipientes que pareciam idênticos, colocou ambos sobre a mesa. — Certo. Acho que foi tudo. Só faltam as flores…

Endireitou o corpo e, conferindo mais uma vez se tudo estava sobre o balcão, levou a mão ao bolso lateral da mochila e então tirou dali o último ingrediente que faltava. Em uma sacolinha de pano estava uma flor brilhante que tivera de arrancar do jardim do campus G mais cedo. Comparou uma última vez com as ilustrações do livro e então deixou que os olhos lessem mais uma vez aquele trecho que enfatizava tanto sua raridade.

Naquele momento, perguntou-se se o destino estava tramando alguma consigo por ter feito tão fácil o trabalho de encontrar aquela flor que, na verdade, deveria ter sido encontrada com muito suor. Mas a dúvida não durou muito, pois seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do relógio fixo na cozinha, indicando ser 1 hora da madrugada.

Precisava ir logo com aquilo se ainda quisesse acordar cedo no dia seguinte e dar a poção para Junmyeon antes que ele partisse para as aulas.

Primeiro, despejou o mel na solução base, que já estava em ebulição. Em seguida, com a mistura do mel feita e a suspensão da essência doce no ar, ele sorriu, continuando a mexer a poção com cheiro de caramelo e avelã. O aroma era tão bom que com certeza passaria despercebido nos biscoitos que faria para Junmyeon.

Logo mais, os ingredientes restantes foram adicionados aos poucos. O sono tentava tomar o corpo de Yixing enquanto ele lutava contra com todas suas forças. Persistiu firme na produção da poção até o momento em que, pensando ter finalizado ali, lembrou-se do tal ingrediente especial.

A flor.

O livro dizia que ele deveria fazer um farelo com as pétalas antes, para então adicioná-la aos poucos devido à grande quantidade de “poder” que ela tinha acumulada em si — não fazia a mínima ideia do que aquilo significava, mas presumiu que fosse algo equivalente à radioatividade no mundo dos humanos. Encarando sua letra feia nas anotações ali presentes, Yixing não entendeu bem quanto daquele farelo deveria colocar. Uma unidade estranha estava presente na página do livro, algo do tipo “μm,” o que Zhang presumiu ser equivalente a um grama.

Se tivesse prestado mais atenção nas explicações de Junmyeon do que no jeito com que os cabelos rosados do amigo caíam próximo aos olhos, com certeza saberia que era uma unidade usada para expressar partículas, mas não era o caso.

Já cansado, não se esforçou em descobrir o que aquela unidade de medida significava, assim como escolheu apenas ignorar a observação que recomendava o uso de um dosador mágico estranho para a aplicação daquele ingrediente à poção. Presumindo ser uma unidade similar a "grama'' colocou meia colher de chá dentro do caldeirão, que assim que recebeu o elemento mágico apresentou um comportamento um tanto estranho. Repentinamente, a temperatura da mistura aumentou significativamente, e Yixing sem outra reação possível, só teve tempo de se afastar do balcão. Todavia, ao se afastar, acabou esbarrando em um daqueles frascos de rótulos ilegíveis que havia esquecido de guardar ao remexer nos armários, de modo que o recipiente de vidro caísse — quase em câmera lenta — dentro do caldeirão em temperatura elevada.

E com a adição do vidro cheio daquela solução estranha à mistura, a única coisa que Yixing conseguiu ouvir antes de lançar um feitiço que formasse uma barreira de proteção em volta de si, foi o som de um frasco se quebrando no interior do caldeirão, despejando aquele líquido que só piorou o estado da poção. Ele só conseguiu processar naquela fração de segunda que, com certeza, aquilo explodiria.

Obice praesidium! — gritou, puxando a varinha do bolso para lançar o feitiço praticamente segundos antes da poção fracassada se espalhar por todos os cantos da cozinha, explodindo o caldeirão e espalhando cacos do recipiente de vidro há pouco colocado lá dentro para os lados do cômodo.

Quando Yixing abriu os olhos, apenas pôde pensar em como estava perdido por ter praticamente detonado com a cozinha de seu bloco. Colocou a mão na cabeça e depois de alguns segundos tentando se estabilizar, gritou um ‘Undo’ para desfazer a barreira. Ele se agachou, e antes que pudesse tirar o livro do poções do chão, foi surpreendido pelo baque da porta atrás de si, revelando um Junmyeon suado e ofegante encarando toda aquela cena com os olhos arregalados — o que até seria sexy se não fosse a atual situação em que se encontrava. 

Não demorou muito para que o olhar incrédulo e assustado se tornasse rígido na direção de Yixing, de forma que ele próprio pôde sentir o claro sentimento de raiva no rosto do amigo. O Kim, enfurecido, deu passos apressados e largos até si, e assim que chegou perto lhe segurou pela gola da camisa.

— Que porra é essa, Yixing? — cuspiu as palavras num tom irritado que só escondia o quão preocupado havia ficado com o amigo. — Primeiro você me ignora por duas semanas. E depois quase se mata fazendo… isso?

Apontou para ao redor. As prateleiras de madeira se mostravam extremamente sujas com aquele líquido estranho e quente enquanto o chão ainda tinha um pouco do brilho do farelo daquela planta que havia coletado antes. O cenário era caótico e Yixing nem culpava Junmyeon pela fúria ao presenciar toda aquela bagunça ali. Afinal, ele era filho do diretor.

— Desculpa, eu só… — Yixing não tinha bem como se defender. Sinceramente, naquela situação não sabia nem o que responder. Tudo havia simplesmente dado errado e não tinha por que continuar com aquela mentira. Talvez fosse melhor dizer a verdade de vez, não?

Não .

Definitivamente Yixing não queria dizer que havia feito tudo aquilo só porque Junmyeon estava deixando-o louco. Não. Ainda não estava pronto para lidar com a rejeição. Seria humilhante demais se confessar um dia antes do White's Day e agora que sua última chance havia 'explodido' — sua poção do amor que estava em todas as paredes da cozinha —, não tinha como evitar o destino de Junmyeon namorando Bae Joohyun, isso com certeza massacraria seu humor mais que o Valentine's Day.

— Você?... — Junmyeon esperou pela resposta, afrouxando o aperto ao ver que Yixing estava prestes a finalmente dizer algo em meio ao silêncio e aquela expressão estranha no rosto.

— Eu precisava fazer essa poção para… uma prova bem importante! — Foi a primeira ideia que lhe surgiu em mente, e parecia uma ótima desculpa. Ele abaixou a cabeça para mostrar arrependimento e então deixou a voz um pouco mais baixa. — Por isso acabei te ignorando durante a semana. Desculpa, Myeon-ah...

Pouco convencido com a resposta de Yixing, Junmyeon ainda o encarou por uma fração de instante antes de, enfim, soltar a camiseta do outro. Ele se abaixou e então levou a mão até o livro que, intacto devido à barreira de proteção que a biblioteca proporcionava aos seus objetos de empréstimo, tinha uma página marcada. Sem que o Zhang visse, com um leve correr de olhos pela página, Junmyeon rapidamente desmanchou o olhar irritado e arqueou as sobrancelhas. Quando Yixing finalmente levantou o rosto para observá-lo naquele silêncio estranho que havia se estabelecido do nada, não sabia se estava ficando louco ou vendo coisas, mas por uma fração de segundo jurou ter visto um sorriso do amigo ao folhear o livro.

— Hum. E você preferiu vir testar a poção sozinho? — Voltando a folhear o livro Junmyeon limpou a garganta e fez a pergunta num tom sutilmente mais calmo, o que Yixing achou um tanto suspeito. Mas não era como se ele estivesse em posição para questionar sobre aquilo. — Sabe que poderia ter me pedido ajuda, né?

— Eu não queria te incomodar — mentiu com mais um tom falso de arrependimento, recebendo um carinho nos fios negros no instante seguinte, o que o fez sentir o peso da culpa finalmente cair sobre si.

— Não, tudo bem. Eu entendo que você queira fazer as coisas sozinho. Eu também já fui assim. — Junmyeon disse numa voz serena, sorrindo para Yixing no momento em que seus olhares se encontraram, o que quase desestruturou o outro feiticeiro. Assim que parou de afagar os cabelos do mais novo, rapidamente tirou a varinha do bolso e a usou para lançar um feitiço que suspendesse os líquidos dali, de forma que conseguisse limpar o ambiente mais facilmente. — Suspendat liquida. 

E desse modo, ele rapidamente arrumou a bagunça de Yixing com dois ou três feitiços, o que deixou o amigo um tanto impressionado, apesar de ter aparentemente gastado uma boa energia de Junmyeon. Era evidente que a mágica do Kim realmente era mais avançada que a sua.

— Sua prova é quando? — Junmyeon perguntou pegando o livro em mãos e o folheando até encontrar outro feitiço, ato que Yixing nem percebeu enquanto conversava com o Kim; pois estava ocupado demais notando como ele ficava bonito com aquele pijaminha de coelhinho.

— Amanhã… — respondeu a primeira data que lhe veio à cabeça, recebendo um assentir da parte de Junmyeon.

— Certo. Vou te ensinar a fazer ela. — Ele disse com um sorriso simpático no rosto, que deixou Yixing sem reação. Seria correto permitir que Junmyeon fizesse a poção que usaria contra o próprio no dia seguinte?

Ele encarou aquele sorriso por mais alguns segundos e, depois de pensar no quanto se sentiria horroroso desmanchando aquela expressão do rosto do amigo, decidiu que fosse ou não usar a poção, seria obrigado a sustentar a mentira pelo menos durante aquela noite. Com certeza não queria estragar a expressão animadinha de Junmyeon, que tanto insistia em ser professor naquela matéria pela qual tinha tanta paixão.

— Sério? — perguntou num tom animado, recebendo uma risadinha do Kim, que concordou brevemente com um balançar de cabeça e logo se dispôs a organizar os ingredientes sobre a mesa.

— Sério. Poções é a minha matéria preferida, você sabe disso.

E com alguns ingredientes diferentes dos que achava que teria que usar, Yixing aprendeu com Junmyeon a fazer aquela poção que já não sabia se teria coragem de utilizar contra o próprio amigo no dia seguinte. Depois de alguns extratos diferentes dos que o Zhang estava usando e alguns ingredientes entre os quais não estava incluso a flor, o feiticeiro se perguntou se havia, por algum acaso, consultado a receita errada quando decidiu fazer a poção do amor. 

Depois de alguns segundos juntos na cozinha — e alguns abraços não intencionais da parte de Junmyeon —, eles, enfim, finalizaram a poção. Todavia, ter aquele líquido rosado em mãos já não era tão prazeroso quanto Yixing achou que seria horas mais cedo. Estaria sendo muito egoísta usando aquela poção contra o melhor amigo? Fazer aquilo enquanto ele havia o ajudado tanto parecia ser um ato um tanto quanto babaca, se assim podia dizer.

Dividido entre ter o peso na consciência durante todo o resto do curso com o coração intacto ou manter a amizade que tinha com Junmyeon mesmo com o coração quebrado em mil pedacinhos, naquela madrugada, contentou-se em apenas curtir a última noite que passaria ao lado de Junmyeon sem pensar no amanhã. Sem pensar em Joohyun, Jongin e tampouco no que aconteceria quando chegasse na escola no dia seguinte, Yixing dormiu tranquilamente naquela noite, mesmo que soubesse que cedo ou tarde, teria que lidar com tudo o que havia deixado de lado no dia anterior.

 

𝚫

 

Na manhã seguinte, Yixing acordou se sentindo horrível da cabeça aos pés.

Os cabelos negros estavam horrorosamente despenteados e as pálpebras pesavam mais que tudo quando ele ergueu o corpo sobre a cama. Naquela noite havia sonhado mais uma vez com Junmyeon, e ao acordar se perguntou  se conseguiria continuar a amizade com o Kim mesmo depois que ele passasse a namorar Bae Joohyun.

Ao lado de sua cama estava o frasco com a poção que Junmyeon havia ajudado ele a fazer na noite anterior e, do outro, seu celular que não parava de vibrar. Ele ligou a tela do celular por um curto momento e encarou o nome de quem o chamava tão cedo.

Kim Jongin.

Ele bufou e, hesitante, resolveu por fim visualizar as mensagens que o outro havia enviado:

Kim Jongin
Ei, Zhang
05:12
Tudo certo? Posso fazer aquilo mesmo?
05:13
Por favor me responde, eu não quero passar vergonha;;
05:31
Porque fizemos um acordo, não fizemos? (foi uma pergunta de verdade, eu não lembro)
05:31
Sei lá, eu não quero sair como talarico
05:35
...
05:40
O que o Junmyeon tem que eu não tenho? 😭😭😭
05:47

 

 

Yixing havia se esquecido totalmente do trato que havia feito com Jongin, e ver aquelas mensagens só fez com que ele se torturasse ainda mais pelas escolhas que havia feito antes. O que deveria fazer agora?

Encarou a tela do celular uma última vez antes de enterrar o rosto no travesseiro macio, fechando os olhos. Havia feito um trato com Jongin e não seria certo descumpri-lo, certo? Mesmo que também não fosse muito certo utilizar a poção do amor contra Junmyeon, não havia nenhuma regra na Academia que proibisse a ingestão dela, e se o Kim não soubesse que estava sob efeito da poção, ele não ficaria chateado, não é? Afinal, o que os olhos não vêem o coração não sente.

Com um último suspiro alto ele fez uma contagem regressiva do três ao zero e enfim levantou da cama, vestindo-se rapidamente com a capa preta de sempre. Nos pés calçava o Converse como de costume e na destra tinha aquela poção que, graças a Jongin — e à sua própria falta de caráter — usaria no café da manhã do melhor amigo.

Arrumando a capa amarrotada, caminhou com passos largos até a cozinha do bloco e assim que chegou ali procurou pelo recipiente em que havia deixado os mini cookies preferidos de Junmyeon. Costumava deixá-los guardados para ocasiões especiais as quais precisava que o Kim o ajudasse com alguma tarefa de última hora ou quando fazia alguma bagunça e precisava de cobertura do filho do diretor. Ele tirou as bolachas do pote e, assim que colocou algumas unidades sobre a mesa, encarou a poção aberta ao seu lado, novamente hesitante em fazer aquilo.

Então o celular vibrou mais uma vez em seu bolso, o que o lembrou de Jongin, quem esperava que ele cumprisse com a palavra. Yixing não era alguém que descumpria promessas, e por isso simplesmente balançou a cabeça e se rendeu ao conta-gotas que usou para colocar uma dose pequena da poção em cada um daqueles doces, guardando o frasco com o líquido cheirando a mel em sua bolsa logo em seguida. Pronto, o crime estava feito. Agora só restava esperar por Junmyeon.

Levou o olhar até o pulso e em seguida observou o relógio: 6 horas em ponto; exatamente o horário em que Junmyeon aparecia na cozinha — porque ele era sistemático, fazia tudo na sua rotina em horários específicos, e de acordo com ele 6:00 era o horário perfeito para tomar café. Assim, Yixing refez a contagem regressiva de três até o zero mentalmente, e em exatamente três segundos a porta foi aberta pelo Kim, que se surpreendeu com o amigo ali o recebendo com um sorriso doce nos lábios.

— Bom dia, Yixing-ah — Junmyeon disse assim que entrou na cozinha. Tinha um sorriso suspeito no rosto quando passou ao lado do amigo e bagunçou os cabelos dele, direcionando-se ao armário onde costumava guardar o que levava de café da manhã para a sala. — Preparado para a prova de hoje?

Yixing engoliu em seco com aquela mentira mal formulada por si na noite anterior. As mãos apertando o balcão com força enquanto fingia estar preparando alguma coisa para evitar encarar Junmyeon. Apesar de mentir não ser bem uma dificuldade para o Zhang, durante aquele curto espaço de tempo ele já tinha mentido mais do que o ideal . Era inevitável ficar confuso com as próprias histórias mal-inventadas.

— Sim. Graças a você — mentiu com um sorriso forçado, sorriso este que Junmyeon nem viu. Estava virado de costas para si, procurando por alguma bebida na geladeira. — Aliás, muito obrigado por ontem.

— Por nada grandão. Você sabe que pode sempre me pedir ajuda, não sabe? — O Kim disse assim que se virou para o amigo, apoiado no balcão atrás dele com um jarro de leite em mãos. Em um breve momento de silêncio Junmyeon colocou um pouco do líquido branco na caneca com desenhos de coelhinho que usava e, levando a bebida à boca, pareceu finalmente notar a presença dos doces presentes no balcão em que Yixing se apoiava. — Ei, o que é isso aí?

— Ahn? — perguntou, virando o rosto em direção à mesa que tinha ao menos meia dúzia de mini cookies, empilhadinhos especialmente para Junmyeon. — Ah… são cookies…

Com um sorriso travesso no rosto, Junmyeon deixou o copo de leite sobre o balcão, correu até Yixing e simplesmente pegou um dos biscoitos da mesa, fazendo o melhor amigo se apavorar instantaneamente.

— Espera! Não come! — Ele praticamente gritou assim que Junmyeon levou um deles até a altura do rosto. Temendo que o Kim comesse o doce, arrancou a bolacha da mão dele e rapidamente a levou à boca, comendo-a frente do amigo.

Junmyeon, parado, limitou-se a arquear as sobrancelhas com o ato inusitado.

— Nossa, você estava com tanta fome assim? — Junmyeon perguntou, observando o melhor amigo negar com a cabeça, de boca cheia..

A questão era que Yixing não queria dizer “não” àquela pergunta, pois não faria o menor sentido ele ter pego o doce da mão do feiticeiro se não fosse a fome, faria? Confuso com a própria resposta, tentou apenas relevar a atitude estranha de seu corpo, voltando a atenção para Junmyeon que, por algum motivo, segurava a risada.

— Bom, se não estava com tanta fome assim, por que pegou o biscoito da minha mão? — O coreano cruzou os braços e se apoiou na mesa ao lado, observando o Zhang engolir o resto da bolacha e então começar a falar. 

— Porque eu coloquei a poção do amor nos cooki... — Sua voz saiu contra sua vontade, fazendo-o tapar a boca imediatamente. O que estava acontecendo? Por que não conseguia controlar suas respostas?

Nervoso com a confissão que havia acabado de fazer sem querer, ele fitou Junmyeon, e sentindo o rosto queimar percebeu que o Kim não parecia nem um pouco surpreso com aquela informação, o que era suspeito. Entretido com a cena, Junmyeon apenas arqueou as sobrancelhas em resposta e riu baixinho da cara totalmente vermelha de Yixing. Achava bonitinho quando o melhor amigo ficava acanhado daquele jeito. 

— Agora outra pergunta: Por que estava tentando fazer uma poção do amor hoje de madrugada? — Na verdade Junmyeon sabia mais ou menos a resposta daquela pergunta, mas queria ouvir a verdade da boca de Yixing.

— Para você se apaixonar por mim e não dar o presente de White’s day para a Joohyun. — A confissão saía de Yixing contra a sua vontade, mesmo que ele comprimisse os lábios a fim de fechar a própria boca. Não importava o quanto ele tentasse mentir, algo dentro de si impedia que qualquer palavra além da verdade saísse em sua voz.

Ao ouvir aquela revelação o amigo cessou a risada e franziu o cenho. Pela expressão em seu rosto era notório que tinha algumas dúvidas sobre aquela última confissão, mas ignorando-as, ele apenas seguiu com o interrogatório com um sorriso esperto no rosto. Naquele instante Yixing percebeu que Junmyeon, diferente de si, sabia bem o que estava acontecendo ali. 

— Ok, ok. Última pergunta: qual o real motivo de você ter me evitado essas últimas semanas?

— Porque eu sou completamente apaixonado por você e não sabia como olhar pra sua cara enquanto sonhava com você todas as noites. — A fala mais uma vez saiu contra a vontade de Yixing, que se bateu ao dizer aquilo enquanto Junmyeon se atrapalhava entre achar a cena uma gracinha ou rir alto de toda aquela situação. — Que porra é essa, Junmyeon? — Finalmente disse algo que queria dizer, irritado e com o rosto em chamas.

— Poção da verdade, idiota. — Ele falou pegando o frasco da bolsa do Zhang e o balançando no ar. 

— Mas que raios?... — O coração de Yixing estava instável assim como sua mente, que tentava processar tudo, sem saber se deveria sentir raiva por Junmyeon ter tramado contra ele ou sentir vergonha com o que acabara de confessar. Com a cabeça cheia, demorou alguns segundos para concluir que Junmyeon havia feito a poção errada consigo na noite anterior. Tinha sido enganado. — Como você descobriu?

O feiticeiro revirou os olhos e colocou o frasco sobre a mesa mais uma vez, cruzando os braços na direção do Zhang.

— Conheço o livro Poções Avançadas III como a palma da minha mão. Achou mesmo que eu não iria reconhecer a metodologia da poção do amor? Deslizou os dedos sobre o balcão de madeira, aproximando-se do amigo em passos lentos. — E outra: Essa é a única poção que não cai nas nossas provas. Meu pai mesmo me disse o estrago que ela fez da última vez que os alunos fizerem uma aula experimental dela. — Riu daquela última parte, lembrando-se da situação em que encontrou Yixing na noite anterior.

— E por que me fez fazer a poção da verdade? — A pergunta de Yixing saiu num tom baixo, mas ainda sim audível.

— Porque eu te conheço há mais de 10 anos, Zhang Yixing. — Levou a mão até o biscoito que havia sobrado no balcão em que Yixing estava apoiado, colocando-o na boca em seguida. — Achou mesmo que eu não ia perceber que estava mentindo pra mim?

Derrotado então, Yixing apenas suspirou em resposta e tampou o rosto, com vergonha do que havia feito. Junmyeon, por outro lado, riu baixo daquela situação enquanto levava outro biscoito à boca, cena que o amigo conseguiu ver entre o vão das palmas que cobriam o seu rosto.

— Por que está comendo isso? — Yixing perguntou um tanto relutante, ainda com o rosto escondido enquanto pensava em como havia estragado tudo mesmo quando fizera o possível para justamente não estragar tudo.

— Porque quero que saiba que o que eu estou prestes a dizer não é mentira. — Ele se aproximou de Yixing e levou as mãos às dele, retirando-as do rosto do amigo. — Olha pra mim.

O Zhang o obedeceu, descobrindo o rosto e sendo surpreendido pelo sorriso doce de Junmyeon perto dele. Pôde ouvir as próprias batidas soarem altas, como tambores dentro de si. Droga , de novo aquela sensação estranha quando Junmyeon ficava perto demais de si.

— Escuta, você não precisa de uma poção do amor para que eu me apaixone por você. — Segurou a destra de Yixing assim que ele a retirou do rosto, entrelaçando seus dedos ao dele logo em seguida. — Eu também sou completamente apaixonado por você, bobão. 

Seu tom de voz era sincero, como se não fosse efeito da poção e sim uma sinceridade que partia intrínseca de Junmyeon. O Zhang engoliu em seco com aquela fala, e ao notar o outro apertar sua mão com um pouco mais de firmeza, seu interior virou uma bagunça. Não conseguia reagir, mover-se e tampouco responder a voz doce do feiticeiro que sorria tão lindamente perto de si.

Estava sonhando?

— Você gosta mesmo de mim, Yixing-ah? — questionou assim que o prendeu contra o balcão, sorrindo de maneira doce. 

— Sim. Eu gosto… — Daquela vez não precisou do efeito da poção para admitir aquilo. Só de ter os olhos brilhantes de Junmyeon o fitando daquele jeito, sentia que dizer qualquer mentira seria um grande pecado.

— Então… você me daria algum presente de White’s Day? Porque sabe, eu te dei doce de Valentine’s Day... — O Kim perguntou com certo humor, provocando mais um rubor nas bochechas de Yixing, que na verdade achou a fala de Junmyeon um tanto estranha, pois não se lembrava de nenhum doce no Valentine's Day.

— Você me deu alguma coisa no Valentine's Day? — questionou, desconfiado. — Que eu saiba você só me deu o que você não quis de mais um dos seus admiradores. Nossa Junmyeon, como você é cara de pau!

— Pelos deuses, você tinha que estragar o momento? — O Kim bufou, escondendo o rosto na curvatura do pescoço do amigo enquanto ria baixo da situação. Yixing era um zero à esquerda quando se tratava de “amor.” Não sabia por que ainda se impressionava. — Eu tô literalmente pedindo pra você sair comigo e você me manda uma dessas? Pô, assim não dá. — Provocou uma risada no Zhang com aquela fala, que continuava sorrindo para Junmyeon mesmo depois de parar de rir.

Era totalmente apaixonado pelo jeitinho daquele cara.

Em meio àquele silêncio confortável, Yixing aproveitou a proximidade de Junmyeon para, pela primeira vez, ceder aos seus encantos, com aquele olhar que já o entregava por inteiro. Levou a mão livre para o rosto do Kim e gentilmente o puxou para perto de si, deixando um selar demorado sobre os lábios do feiticeiro. 

Quando se separaram, porém, notou que Junmyeon segurava a risada e se perguntou se havia feito algo de errado.

— O que foi? — questionou, quase soprando a própria palma para ver se por algum acaso estava com bafo matinal ou algo do tipo.

— Não é por nada não, mas… que beijinho mixuruca hein, Xing? — disse acariciando o dorso da mão alheia com o polegar, dando pouca atenção para a expressão indignada no rosto de Yixing. — Poxa, pensei que com todo esse tempo de espera você fosse me dar aqueles beijos de cinema…

E antes que pudesse continuar com o acervo de ofensas ao beijo de Yixing, o próprio soltou sua mão e rapidamente envolveu a cintura de Junmyeon, puxando-o para mais perto e mudando as posições sobre o balcão abruptamente, de modo que fosse o amigo o pressionado ali. Em questão de segundos o calou juntando as bocas novamente, mas de um modo mais sedento daquela vez. Seus lábios se moviam num ritmo nem tão rápido, nem tão lento sobre os de Junmyeon, o que fez o Kim se arrepender por tê-lo ofendido precipitadamente.

As mãos de Yixing bagunçavam os fios rosas do outro enquanto os braços de Junmyeon se apoiavam sobre seus ombros, ele estava sorrindo ao perceber que havia dito uma grande mentira ao insinuar que o amigo beijava mal. Secretamente, o filho do diretor se sentia derreter com cada toque carinhoso do melhor amigo descendo de seus fios até os ombros.

— Esse foi melhor? — Ele perguntou assim que se separou de Junmyeon, mantendo o rosto bem próximo ao dele. A respiração do Kim estava igualmente desregulada como a de Yixing, mas mesmo naquele estado, ambos sorriam. Apesar do feiticeiro não pretender admitir aquilo ao Zhang tão cedo, aquele havia sido o melhor beijo que já recebera de alguém.

— Um pouco… — disse risonho, encarando os olhos apaixonados de Yixing enquanto recuperava o fôlego. — Mas acho que ainda não foi bom o suficiente — provocou-o, recebendo um aperto na cintura em resposta.

— Eu deveria tentar de novo, então? — A voz do Zhang soou tendenciosa. As mãos deslizando até as coxas alheias e as apertando levemente, ato que fez Junmyeon arrepiar por inteiro.

— A prática leva à perfeição, né? — Estava prestes a dar outro beijo no Kim quando o celular tocou em seu bolso, fazendo com que ele se afastasse para ver de quem era a ligação.

Era Jongin.

— Esse cara está realmente apaixonado pela Joohyun, não é possível. — Yixing murmurou para si mesmo, pouco notando quando Junmyeon esticou o pescoço para ler o contato na tela do celular, sorrindo logo em seguida.

— Ah, então foi ele. — Soltou uma risada soprada ao ligar os pontos, coisa que o Zhang não entendeu. — Mais um ano tentando fazer a Joohyun beber a poção do amor dele, e você querendo seguir o mesmo caminho que ele.

— Há quanto tempo ele tá tentando?

— Mais tempo que você escondendo que gostava de mim — disse com um tapinha nos ombros de Yixing, rindo da expressão incrédula que o amigo fez no instante seguinte. — Que cara é essa?

— Você sabia?

— Você me contou.

— O quê? Quando? — Indignado, questionou o amigo, que se afastou dele de fininho até a mochila que havia deixado jogada ali, colocando-a nas costas quando Yixing menos esperou. — Kim Junmyeon!

— Bom… talvez você não tenha sido o primeiro a pensar nesse método de poções para lidar com seus problemas amorosos. — Sorriu de maneira travessa para o outro, correndo até ele e se aproximando rapidamente do ouvido alheio apenas para sussurrar a última informação que daria ao Zhang antes de sair dali. — Só espero não ter causado problemas com os efeitos colaterais da poção do esquecimento.

Deu um beijo rápido na bochecha de Yixing e, sem nem ao menos deixá-lo protestar, disparou dali até a Academia às pressas, deixando o chinês pensativo sobre o balcão enquanto tentava se lembrar de algum acontecimento estranho nos últimos anos ao lado de Junmyeon.

Ele forçou a mente, e depois de alguns minutos concluiu que a única coisa estranha que havia acontecido consigo em relação a Junmyeon foram aqueles sonhos repetitivos em que eles davam as mãos e se beijavam, até que Yixing percebeu que, no fim, aquilo não era um sonho e sim uma memória apagada pela poção do amigo.

— Ah Kim Junmyeon, seu hipócrita! — disse sozinho com um sorriso no rosto ao reconhecer a genialidade do amigo. Então pegou a mochila que havia deixado sobre o pé da cadeira e com a capa ainda amassada, saiu às pressas atrás de Junmyeon.

A partir daquele dia os dois entraram em um consenso de não fazerem mais poções um para o outro, agora teriam tempo o suficiente para expressar tudo que estava faz tempo óbvio para ambos. E claro, nada mais de preparar poções enquanto estava com sono e explodir cozinhas — A Academia de Magia agradece.

Yixing precisou de duas poções e uma explosão para finalmente se confessar para Junmyeon, e Jongin…

Bom, talvez Jongin ainda precisasse de alguns White's Days, para conquistar Joohyun, mas aquilo já não era mais uma responsabilidade de Yixing.

 

Notes:

KKKKKKKKKKKKKKKKKK 3 MESES PRA ESSA BOSTA SAIR DO DOCS mas postei certinho no dia dos namorados para os corações solitários desse dia *emoji com as mãos rezando* obrigada a todos que leram até aqui!

meu twitter, caso vocês tiverem encontrado algum erro, tiverem críticas, sugestões ou quiserem só me dar um olá mesmo.

UMA ÚLTIMA VEZ: feliz dia dos namorados amigos! E lembrem-se: se você não namorar suas chances de ter um chifre abaixam para 0% !!!!!!!!!!! então você pode até ser solteiro mas pelo menos não é corno.