Chapter Text
Minseok devia ter percebido que alguma coisa estava errada assim que acordou naquela sexta-feira. Porque não era uma sexta-feira qualquer. Era uma sexta-feira treze. E ele não costumava ligar para essas coisas, de verdade, mas a partir do momento em que abriu a janela e nenhuma claridade entrou, porque o tempo estava completamente nublado e anunciando um grande temporal de neve, devia ter percebido que tudo estava destinado a dar errado naquele dia.
Ele sabia que alguns dias eram melhores do que outros, e isso era normal. Às vezes o caixa não batia, ou o movimento era fraco. Às vezes os seus gatos não queriam conversa com ninguém, ou era o próprio Minseok quem não queria conversar. Às vezes errava o ponto das sobremesas, ou algum membro da família Kim aparecia de surpresa para avaliar as suas habilidades como confeiteiro. Odiava esses dias, em particular, mas não tanto quanto odiava os dias em que o seu cliente preferido não dava as caras.
Vejam bem, Minseok não queria ter clientes preferidos, nem oferecer atendimento privilegiado só porque sim. Se todos consumiam, pagavam as suas contas e tratavam bem os seus funcionários e animais de estimação, não tinha razões para ter favoritismos, certo?
Errado.
Porque nenhum outro cliente, por mais simpático que fosse, era como Kim Jongdae.
O que o pasteleiro podia fazer se aquele moreno o cumprimentava com um sorriso gigante faça chuva ou faça sol? O que podia fazer se ele sempre dizia bom dia animadamente assim que entrava, não se esquecendo nem mesmo de cumprimentar os animais? Ele agradecia e pedia por favor! Ele se interessava pelos gatos de Minseok tanto quanto o próprio, chegando ao ponto de dar apelidos fofinhos a cada um deles!
“Eu quero uma fatia de bolo de milho e um café, por favor. Quer dizer, desculpe o incômodo, mas você tem leite de amêndoas? Então pode ser café com leite de amêndoas. Ah, e um pacote de guloseimas para gatos, por favor. Qual é a marca que a Fifi gosta? Vou tentar conquistar o coração dela hoje. Muito obrigado, e bom trabalho!”
Quem é que deseja “bom trabalho” hoje em dia? Quem é que diz “por favor” tantas vezes quando faz um pedido numa pastelaria? Quem é que sorri no final de cada frase, como se não houvesse uma tempestade de neve caindo lá fora? Como se aquele dia sempre fosse o melhor dia do mundo? E é claro que Minseok não tinha como saber se as sextas-feiras eram realmente os melhores dias do mundo para o seu cliente, mas, uma coisa é certa: eram os melhores dias para ele.
Sexta-feira era sempre o melhor dia da semana, por uma série de fatores que não tinham nada a ver, única e exclusivamente, com o facto de que era o dia da visita semanal de Kim Jongdae. Não, não tinha nada a ver com isso. Claro que não. Óbvio. Minseok amava sextas-feiras porque era o dia que faltava para o fim-de-semana que, apesar de não significar dias de descanso, significava o dobro do faturamento. Sábado significava casais apaixonados à procura de programas diferentes para passar o tempo, e domingo significava pais com os seus filhos que, por sua vez, pediam sempre dois ou três pacotes de guloseimas para se divertirem com os gatos.
Às sextas-feiras à noite também costumava fazer as compras dos ingredientes que usaria nas receitas do fim-de-semana, e só o próprio Minseok sabia o quanto gostava de fazer compras. Bem podia passar horas andando pelos corredores do supermercado de revenda, ponderando entre marcas ou entre sabores novos para os seus doces. Também era quando saía novos episódios de Master Chef e Batalha dos Confeiteiros, os seus programas favoritos.
Portanto sim, sextas-feiras eram ótimas e isso em nada tinha a ver com aquele moreno educado e de sorriso aberto, que sempre entrava por aquela porta tão bem-disposto quanto os primeiros raios de sol da manhã. Ah, e Minseok bem sabia qual era a visão dos primeiros raios de sol ultrapassando as brechas das grades, pois naquele mesmo dia tinha madrugado no Café a fim de preparar os seus bolos a tempo.
Nunca confessaria a ninguém que as sextas-feiras eram os dias em que os seus bolos e tortas estavam mais frescos, e ainda fazia questão de agraciar os seus clientes da manhã com o aroma inebriante dos bolos acabados de assar. Não que estivesse tentando impressionar alguém em especial, claro que não. Até porque, independentemente da variedade de doces que expusesse na vitrine e no balcão, Jongdae sempre escolheria a mesma coisa: bolo de milho com leite de coco.
A sua receita mais simples, mais fácil e, ainda assim, mais surpreendente. Uma receita que já estava na sua família há décadas, que tinha surgido a partir de uma vizinha brasileira da sua avó, e que tinha sido cozinhada tantas vezes nessas três gerações, que a família até esquecia que a origem estava longe de ser coreana.
Depois de dois anos com a sua pastelaria aberta, Minseok estava cansado de reproduzir aquela receita, que só não era a número um de vendas porque muitos ainda preferiam jogar pelo seguro, isto é, um bom e tradicional bolo de chocolate ou o fresco e irresistível cheesecake de frutos silvestres. Mas de tanto fazer, o moreno sabia exatamente qual quantidade de ingredientes usar apenas pelo olhar, reconhecia o ponto do bolo pelo cheiro e sabia se estava suficientemente saboroso apenas pelo aspeto.
E exatamente por essa razão, devia ter previsto, a partir do momento em que não encontrou milho na dispensa quando chegou para confecionar os seus adorados doces, que aquele seria um péssimo dia.
Era verdade que havia lojas de conveniência em todas as esquinas da capital e que, com certeza, alguma das mais próximas teria uma ou duas maçarocas de milho à venda por um preço acima da média, mas, ainda assim, aceitável. No entanto, Minseok odiava desorganização. Odiava comprar as coisas em cima da hora, ainda por cima em lojas de conveniência. Eram ótimas para comprar um pacote de macarrão instantâneo quando a fome batia durante a madrugada, mas péssimas para comprar ingredientes para bolos, independentemente da hora do dia. O milho, por exemplo, viria descascado e pessimamente embalado, resultado: teria gosto de plástico e de geladeira.
Ah sim, devia ter previsto que tudo daria errado a partir daquele momento. Mas, se havia algo que odiava ainda mais do que o facto de não ter confirmado os ingredientes na dispensa no dia anterior, era a possibilidade de mudar o cardápio do dia por causa da sua incompetência. Pior do que isso, como suportaria o olhar de deceção de Kim Jongdae ao ver um bolo qualquer no lugar do seu bolo favorito? Nem pensar! Nunca deixaria isso acontecer!
Foi com um certo aperto no peito que comprou uma embalagem com duas maçarocas de milho na loja de conveniência mais próxima. Durante o curto caminho de volta ao café, rezou a todos os deuses para que nem a sua avó, nem a sua mãe resolvessem fazer uma visita surpresa logo naquele dia, pois elas com certeza notariam a diferença e o amaldiçoariam sem dó nem piedade. Afinal de contas, receitas de família eram algo sagrado, mesmo que as origens das receitas não fossem tão familiares assim.
Deu o seu melhor, mesmo sabendo que nunca ficaria igual. Jongdae, apesar de comer aquele bolo semanalmente, não saberia diferenciar o sabor do milho biológico, do milho de uma Seven Eleven, saberia? De qualquer forma, isso já não importava, pois ele com certeza saberia diferenciar um bolo de milho normal de um bolo de milho queimado.
– Pelo amor de Confúcio! – O ruivo tinha despertado com o grito de Yixing, seu amigo e sócio. – Minseok, você está pegando fogo na cozinha! – Foi então que acompanhou as passadas largas de Yixing em direção ao forno e percebeu o que estava acontecendo.
Minseok não podia acreditar na sua má sorte.
A fumaça que saiu do forno assim que o moreno o abriu tomou conta de todo o espaço, fazendo com que os dois tossissem sem cessar durante longos minutos. Minseok não conseguia ver nada dentro do forno, mas também não era como se precisasse. Era óbvio que tinha arruinado o bolo, algo que nunca tinha acontecido antes. Nem mesmo quando ainda estava praticando em casa, ou quando estava aprendendo na escola de culinária, nunca em vinte e sete anos tal coisa tinha acontecido, nunca!
Engolira em seco, sentindo que a sua família ficaria mais desiludida se tomasse conhecimento desse desastre do que se soubesse que ele comprou milho embalado em plástico filme.
Não foi difícil controlar a situação do bolo de milho queimado, apesar de, para o completo desagrado dos sócios, o cheiro ter permanecido no Café durante umas boas horas. Mas, claro está, essa não foi a primeira coisa que incomodou Minseok assim que percebeu o desastre que tinha acontecido. Não. A sua maior preocupação tornou-se imediatamente “o que servir para Kim Jongdae?”
Estavam quase na hora de abertura e, pelos seus cálculos, não daria tempo de comprar mais milho e assar um novo bolo a tempo do seu cliente regular chegar. Ele certamente ficaria desapontado, e Minseok precisaria fazer um esforço gigantesco para manter uma expressão neutra enquanto o atendia. Pelos deuses, o seu café sempre impecável agora cheirava a queimado e a sua receita especial tinha sido arruinada por ele próprio, com que cara diria bom dia ao seu crush?
Bem, devia ter calculado que não diria.
O dia já estava correndo terrivelmente mal, o que mais poderia dar errado?
Ah, claro.
O momento mais esperado da semana, que o fazia passar a noite sonhando acordado com cenários que nunca aconteceriam, que o fazia sair do seu percurso habitual apenas para agradar alguém que nem o conhecia… pela primeira vez em meses, esse momento simplesmente não tinha acontecido.
Se quisesse ver pelo lado positivo, Minseok repararia que, pelo menos assim, não precisou se preocupar com a deceção de Jongdae por não ter o seu bolo predileto. Se Jongdae não veio, também não se dececionou, o que era ótimo. Por outro lado, como poderia fingir que estava tudo bem se não tinha recebido um sorriso caloroso e um “bom dia” animado do seu cliente favorito?
Mas o pior de tudo nem era a desilusão, sabem? A verdade é que o pasteleiro tinha ficado genuinamente preocupado com a ausência do Kim. Ele era um cliente assíduo, afinal. Apesar de haver vários cafés temáticos como aquele em Seul, Jongdae tinha elegido o Petit Gâteau como o seu Cat Café favorito e fazia, religiosamente, visitas semanais à pastelaria.
Com o tempo que ele já frequentava o estabelecimento, seria normal até que tivessem desenvolvido alguma amizade, mas a verdade é que Minseok nunca tinha dado muita brecha, apesar de vontade não lhe faltar. Era demasiado tímido para iniciar uma conversa aparentemente despretensiosa e, além disso, era perito em criar empecilhos para situações amorosas: e se Jongdae pensasse que estava ultrapassando a linha entre cliente e funcionário? E se ele estivesse em um relacionamento? Ele sempre vinha sozinho, mas ele bem podia ter uma namorada ou namorado que fosse alérgico à gatos… vamos lá ver, era impossível que um homem gentil e bonito como Kim Jongdae estivesse solteiro. Impossível!
Ah, e Minseok se arrependeria muito de ter atraído tantos pensamentos negativos num dia só. Se não tivesse ficado frustrado ao ponto de ir espancar uma massa de pão na cozinha enquanto deixava-se ser contaminado pelas suas teorias, provavelmente o dia não teria ficado ainda pior do que já estava.
– Minseok? – Yixing chamou, mas estava tão concentrado em descontar as suas frustrações do dia, que nem percebeu a presença do amigo. – Minseok! – Chamou mais uma vez, mas sem sucesso. Yixing se aproximou com passos incertos e, quando estava suficientemente próximo, cutucou o amigo, fazendo com que ele se sobressaltasse. – Ei, estou te chamando. Já terminou de matar o seu pão?
Minseok deixou que o seu olhar constrangido saltasse do amigo para a massa, e novamente para o amigo. Não queria ter sido pego numa situação como aquela. Era certo que, aos olhos de qualquer outro, não estava fazendo nada demais. No entanto, sabia o quanto Yixing lhe conhecia e não queria que ficasse óbvio o quanto estava incomodado por causa de uma paixão platónica. Era um adulto, afinal. Já não tinha idade para sofrer por amor, que vergonhoso!
– Esta massa precisa ficar bem amassada. – Retrucou quase inaudivelmente a resposta mais ridícula em que conseguiu pensar. – Estão precisando de ajuda lá fora? – Perguntou já abrindo a pia para limpar as mãos sujas de farinha.
Apesar de ser um Cat Café relativamente pequeno, não era incomum que precisassem ter os três funcionários ao mesmo tempo no salão servindo, atendendo e, claro, cuidando dos gatos, que eram muito mais traquinas do que aparentavam. E tudo bem. Minseok sabia que já estava escondido na cozinha há muito tempo.
– Por enquanto, não, mas vamos precisar logo, logo. – Minseok lançou um olhar confuso para o amigo enquanto desamarrava o avental. – O seu cliente favorito está na porta… – Cantarolou, provocando o pasteleiro e sorrindo ao ver as bochechas dele corarem.
O moreno tentou disfarçar com um revirar de olhos e uma expressão emburrada, mas estaria mentindo descaradamente se dissesse que não sentiu o seu coração acelerar um pouco com as palavras do amigo.
– Eu já disse que não tenho clientes favoritos, Yixing. – A quem estava querendo enganar? Até o estômago estava revirando! Sentiu os olhos do chinês lhe acompanharem enquanto andava pela cozinha como uma barata tonta, arrumando coisas que já estavam arrumadas, apenas para manter as mãos ocupadas e evitar o sorriso sabichão do outro.
– Desculpa, me expressei mal. – Ergueu as mãos para o alto, como se estivesse se rendendo. – Você sabe, o meu coreano é péssimo. É que Kim Jongdae e “cliente favorito” soam iguais para mim.
– Como você é descarado, uma coisa não tem nada a ver com a outra! – Minseok encarou o outro com a boca entreaberta e as bochechas quentes. Apesar de odiar o facto de ser tão transparente no que tocava a Jongdae, não se importava de verdade com as provocações do amigo. Yixing era engraçado e o incentivava, mesmo quando o mais velho dizia que não tinha qualquer chance.
– Bem, o que interessa é que, como costume, acho que você devia ir lá atender. – O moreno mordiscou o lábio inferior, incerto se deveria ou não ir. Ainda se sentia envergonhado por ter queimado o bolo de milho, e tinha a certeza de que ficaria escancarado na sua cara que estivera falando sobre Jongdae minutos antes de atendê-lo. – Com ou sem bolo de milho, Minseok. – Yixing pareceu ler os seus pensamentos. – Não vai fazer qualquer diferença, você vai ver. – Completou, já empurrando o mais baixo em direção à porta da cozinha.
Os olhos de Minseok percorreram rapidamente todo o salão assim que o adentrou, mas, como Yixing tinha dito, Jongdae ainda estava lá fora. O pasteleiro deixou-se ficar nos limites do balcão, seu porto-seguro. Como se já não bastasse as barreiras imaginadas pela sua mente, os doces convidativos serviam também como uma ótima barreira física entre ele e Jongdae. Ou melhor, entre ele e qualquer outro cliente.
Impaciente, começou a limpar o balcão enquanto esperava que o moreno simpático entrasse, o que não era, de todo, um sacrifício. Adorava limpar, era capaz de passar horas lavando os pratos e formas de bolo, organizando as panelas por tamanho e lustrando os vidros da vitrine e do balcão, sem reclamar. E bem, havia sempre algo para limpar num Cat Café. Desde migalhas nas mesas, à açúcar refinado no balcão, à pelo de gatos em todo o lado. Era fácil manter-se ocupado.
E era ainda mais fácil fingir-se ocupado.
A não ser, é claro, que lançasse olhares curiosos em direção à porta a cada segundo.
– Por que ele não entra? – A curiosidade foi mais forte, fazendo com que deixasse escapar a pergunta.
– Acho que ele está esperando alguém. – Kyungsoo respondeu, parecendo encarar a porta com tanto interesse quanto Minseok. Perante a fala do mais novo, Yixing também deixou de dar atenção ao Alfredo, um dos gatos mais velhos, e logo os três estavam observando a entrada e o homem à frente dela com os cenhos franzidos.
Minseok não soube o que responder. Não havia o que dizer, na verdade, mas queria ter deixado mais explícito que não fazia a diferença se Kyungsoo estava certo ou não. Queria ter afirmado ainda mais o seu papel de balconista-que-não-está-nem-um-pouco-interessado-romanticamente-no-cliente-bonito, mas, quando deu por si, já estava batucando impacientemente os dedos no balcão enquanto olhava para os lados, até onde a vista alcançava, numa tentativa de ver se alguém se aproximava na rua.
Foi então que reparou numa moça loira que parecia caminhar, ou melhor, saltitar alegremente em direção a Jongdae. De onde estava não podia ver a expressão dele, mas, se usasse a dela como referência, ele com certeza estava com um sorriso de orelha a orelha também.
Kim Jongdae nunca tinha trazido ninguém.
Era sempre ele e os gatos.
E agora ele tinha a audácia de aparecer na sua pastelaria com aquela mulher que mais parecia ter saído de uma novela?
Antes que pudesse fazer qualquer coisa para controlar os próprios sentimentos e expressões, sentiu o coração afundar até ao estômago.
Ora, o que estava acontecendo? Era apenas o seu cliente com a sua namorada. Nada de especial. Nada de surpreendente. Há vinte minutos estava matutando sobre como era improvável Jongdae ser solteiro, e agora ficava surpreso por ele ter uma namorada? Francamente, Minseok!
O facto de os seus amigos terem ficado tensos ao seu lado, como se tivessem pensado exatamente a mesma coisa, não fez com que se sentisse melhor. Agora, além de ter de lidar com a nova descoberta, também precisaria passar o resto da semana, quem sabe até do mês, recebendo olhares penosos dos dois.
E Minseok bem queria ter se mexido. Só ele sabe o quanto queria ter dado meia volta e disparado em direção à cozinha, de onde nunca deveria ter saído naquela tarde de sexta-feira. Bem queria ter se escondido para nunca mais ser encontrado, longe das frases reconfortantes de Yixing e, principalmente, longe do sorriso gentil e da simpatia de Kim Jongdae.
Mas não conseguiu.
Culparia o choque por não ter conseguido mexer as pernas como queria, e culparia a descrença por ter continuado especado, observando Jongdae e a sua namorada abraçarem-se no meio da rua, aparentemente muito felizes por estarem juntos.
Numa atitude que consideraria ridícula mais tarde, abaixou-se assim que viu o moreno dar sinais de que iria empurrar a porta, ficando completamente escondido atrás do balcão. Sentiu os olhares de Yixing e Kyungsoo o acompanharem, mas não ligou. Preferia mil vezes fazer um papel infantil como aquele na frente dos amigos do que na frente do seu crush.
– Boa tarde! – Ouviu Yixing e Kyungsoo cumprimentarem em uníssono.
– Muito boa tarde! – Jongdae respondeu e Minseok podia jurar que conseguia ouvir o sorriso na voz dele que, por sinal, era linda. – Boa tarde para você também, Fifi. – Não era possível que justo naquela fatídica sexta-feira treze, em que tudo, absolutamente tudo, estava dando errado, Jongdae ia atingir o seu nível máximo de fofura.
Serafina adorava Jongdae, isso era facto. Apesar de ser a gata mais arisca e independente que tinha, ela nunca negava um afago atrás das orelhas vindo dele e, nos últimos tempos, chegava a ser atrevida ao ponto de vir cumprimentá-lo junto ao balcão. Ela não cumprimentava nem Minseok quando este chegava de manhã, e era ele quem lhe dava comida todos os dias! Injustíssimo, se querem saber, mas era impossível julgá-la.
Minseok conseguia imaginar a cena perfeitamente: Serafina se esfregando nas pernas de Jongdae e miando, chateada por não ter a atenção do seu cliente favorito; Jongdae se abaixando para fazer um carinho no dorso da gata vez ou outra enquanto observava o balcão repleto de doces e fingia escolher o que queria; Serafina cansando de não ser prioridade e usando as calças de Jongdae como arranhador, apenas para ser enxotada por Kyungsoo, que tinha passado para o outro lado do balcão; Jongdae rindo no meio disso tudo, enquanto a gata, muito ofendida, miava ainda mais alto para chamar atenção.
Era uma cena habitual, e que adorava presenciar.
Não fosse pelo detalhe de que, daquela vez, também tinha uma risada feminina de fundo.
– Quer dizer…! – Jongdae disse de repente. – Boa tarde somente se for para vocês! – O tom de voz era o de alguém verdadeiramente ultrajado, mas Minseok bem sabia do que se tratava. Assim como sabia que o seu cliente não estava chateado de verdade. – Onde está o meu bolo de milho?!
– Talvez o meu chefe possa responder à sua pergunta. – Minseok lançou um olhar malcriado ao amigo de onde estava, quase sem acreditar que ele tinha tido o descaramento de entregá-lo. Além do mais, não era como se Minseok fosse o chefe. Eles eram sócios!
Sem ter outra saída, ainda por cima com Yixing lhe encarando de cima, Minseok acabou por se levantar e, consequentemente, sair à contragosto do seu precário esconderijo. Sentiu as suas bochechas queimarem assim que deu de caras com Jongdae. Que papel ridículo que tinha acabado de fazer e ainda estava fazendo… tinha a certeza de que não conseguiria dormir durante várias noites revivendo aquele dia.
– Boa tarde. – Cumprimentou educadamente. Olhou de relance para a moça, apenas para não parecer mal-educado, mas tinha a certeza de que os olhos dela estavam bem grudados na sua figura. O que ela tanto olhava? E estava alucinando ou o sorriso simpático de Jongdae dobrou de tamanho assim que o viu? Minseok não precisou nem se esforçar para abrir um sorriso profissional. Era impossível manter uma expressão neutra ou séria quando atendia aquele cliente em particular. – Em que posso ajudá-los?
– Primeiramente, boa tarde. Segundamente, onde está o meu bolo de milho? – Jongdae foi direto ao assunto, fazendo com que Minseok precisasse controlar a vontade de se esconder novamente.
Pela sua expressão, sabia que ele não estava realmente chateado, na verdade, diria que o sorriso que ele ostentava era até mesmo divertido. No entanto, Jongdae com certeza deveria estar nem que fosse um pouquinho decepcionado, e era impossível não se sentir envergonhado quando sabia que a culpa era toda sua.
– Eu fiz tanta publicidade desse bolo e logo hoje não tem? – Minseok engoliu em seco, sentindo a vontade de desaparecer tomando conta de si.
Como era bom saber que a sua paixão platônica tinha falado bem do seu bolo à namorada! Mas precisava ver pelo lado positivo, certo? Era bom que não houvesse hoje, pois se ela comesse o seu famoso bolo de milho, talvez também virasse fã e decidisse acompanhar Jongdae em todas as suas próximas visitas.
– Infelizmente tivemos uns problemas com o estoque e, por isso, não consegui fazer o bolo. Sinto muito. – Foi o que acabou por dizer ao ver que Jongdae realmente estava esperando uma explicação. E preferia morrer a dizer que tinha queimado um bolo.
– Ah, que pena, eu estava louca para experimentar. – A moça disse e Minseok tentou sorriu de volta, mas tinha a certeza de que tinha falhado miseravelmente.
– Então o que você nos recomenda hoje?
Minseok engoliu em seco, nervoso de repente.
A última vez que Jongdae tinha pedido uma sugestão tinha sido há bastante tempo, quando visitou o Petit Gâteau pela primeira vez. Nas vezes seguintes Minseok ainda sugeriu outros bolos, mas, como ele sempre acabava escolhendo a mesma coisa, desistiu de fazer sugestões passado algumas semanas.
Agora parecia que tinha uma grande responsabilidade nas mãos.
Olhou por uns momentos para o balcão, sentindo o olhar de Jongdae grudado do seu rosto. Ele sempre lhe olhava tanto assim? Ou estava apenas imaginando coisas? Tinha vontade de olhá-lo de volta só para testar, mas a sua vergonha era maior. Será que as suas bochechas vermelhas estavam muito descaradas? O que a namorada dele estaria pensando?
Foco, Kim Minseok!
Bolo de chocolate? Muito básico. Bolo de baunilha? Muito suave. Semifrio de morango? Não, Jongdae tinha dito uma vez que não gostava de frutos vermelhos. Torta de maçã? Hum… Não parecia ser o tipo de doce que Jongdae gostava. Ah! Bolo de cenoura! Bolo de cenoura com cobertura de chocolate lhe parecia uma ótima sugestão. Provavelmente era o seu melhor bolo depois do de milho, tinha a certeza de que eles iram adorar.
– O que acham de experimentarem o bolo de cenoura? – Perguntou, apontando para o bolo alaranjado coberto por uma calda de chocolate brilhante. Ainda estava inteiro, pois Minseok tinha acabado de fazer enquanto tentava reparar o seu orgulho ferido pelo bolo queimado. – Acredito que a calda ainda esteja um pouco líquida porque foi feito há pouco tempo, mas…
– Nunca comi bolo de cenoura, mas confio em você. – Ela respondeu.
– Eu também confio. – Jongdae falou sorrindo e o pasteleiro ficou ainda mais vermelho.
– Sinceramente, já estou comendo com os olhos. Parece delicioso. – Ela disse e Minseok sorriu mais genuinamente desta vez. Não resistia quando as pessoas elogiavam as suas sobremesas.
– Então são duas fatias de bolo de cenoura, por favor. – Jongdae fez o pedido. – E duas xícaras de café com leite.
– De amêndoas. – Ela acrescentou. O moreno quis responder que sabia disso, que ela não precisava relembrá-lo pois Jongdae era um cliente assíduo há bastante tempo. No entanto, como provavelmente não soaria nada cortês se o fizesse, resolveu ficar calado.
– Ele já sabe. – Ouviu Jongdae dizer claramente enquanto Minseok terminava a conta. Não podia negar que sentiu uma certa satisfação invadir-lhe o peito, pois parecia que o seu crush o estava defendendo quando na verdade nem tinha sido atacado? – Era impossível não saber, não é, Minseok? Eu peço sempre a mesma coisa.
Minseok o olhou rapidamente apenas para concordar com um aceno e um sorriso pequeno, desejoso de se ver livre daquela situação confrangedora. Jongdae estava tentando criar conversa? Talvez se estivesse tendo um diálogo semelhante apenas com ele, se sentiria contente por poderem conversar, mesmo que brevemente. Mas ali, com aquela mulher tão bonita ao seu lado, ficava muito difícil.
Assim que eles pagaram, ou melhor, que Jongdae pagou a conta, Minseok pediu, como o costume, para que os dois sentassem que depois o pedido seria levado até à mesa. Tentou ignorar o facto de que o moreno tinha sido muito cavalheiro lhe dando o seu cartão antes que a sua namorada pudesse esboçar qualquer reação, assim como tentou fingir que não tinha reparado como os dois cochichavam enquanto procuravam um lugar para sentar.
O mais difícil, no entanto, foi evitar os olhares piedosos dos dois amigos. Sabia bem que eles estavam se comunicando não-verbalmente durante todo o tempo em que atendia Jongdae e enquanto cortava o bolo, o que não fazia o menor sentido pois, no final das contas, tinha sido o próprio Yixing a colocá-lo naquela situação.
Não queria parecer um coitado com o coração partido, mas também não queria se obrigar a continuar encarando o casalzinho enchendo os seus gatos de mimos. Foi pensando nisso que entregou a bandeja pronta para Kyungsoo, virando as costas antes que o mais novo pudesse sequer pensar em protestar.
Minseok voltou para a cozinha logo a seguir, se perguntando o que mais faltava acontecer para deixar aquela sexta-feira treze pior do que já estava.
