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Nós temos filosofia e roubo

Summary:

Almas gêmeas compartilham a mesma data de aniversário. Isso é um fato. A parte difícil é encontrar aquela que realmente seja o seu par no meio de tantas outras. Patton nunca encontrou ninguém que faz aniversário no mesmo dia que ele, e quando Virgil menciona que ele conhece alguém, Patton insiste que ele marque um encontro.

Ele não esperava que um encontro fosse resultar em crimes e em questionamentos sobre sua própria moral.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

— Quando é seu aniversário mesmo? — Virgil perguntou com tranquilidade, erguendo o olhar da tela do computador diante de si. Ele estava desleixadamente sentado no banco acolchoado próximo da parede da cafeteria. Acima dele, pendurado em uma parede de tijolos, havia um enorme quadro-negro que exibia um cardápio semanal escrito à giz. 

— Dia primeiro. — Patton respondeu, debruçando-se sobre a mesa quadrada posicionada entre ele e o amigo. Ele apoiou a cabeça em uma das mãos, segurando o copo de cappuccino com a outra perto de si. 

— De maio? 

— É. 

Virgil voltou-se para a tela do computador, e Patton podia ouvir o pressionar de teclas em meio ao burburinho dos outros clientes. 

— Por quê? 

— Pra que eu possa anotar. — Ele esclareceu, e à sua frente, havia um enorme calendário mensal preenchido com todas as coisas que ele precisava fazer e qual era a data limite para realizá-las. Virgil se esforçava para tentar manter sua vida organizada na medida do possível. Ele também estava ignorando o fato que o dia era treze de abril, o que queria dizer que o mês havia começado duas semanas atrás. A pequena seta flutuante navegou até a parte inferior da tela, e ele selecionou o dia em questão, marcada com uma letra ''S'' acima dela. — É num sábado. 

Patton suspirou, fitando as marcas de desgaste na mesa de madeira em que estavam.

— É sim. 

Virgil virou-se para ele novamente, levantando a cabeça e observando-o por baixo das mechas de cabelo púrpuras. Ele esticou os dedos acima do teclado, fazendo com que o esmalte preto se camuflasse entre as teclas. 

— O quê? 

— Eu vou fazer vinte e nove e eu ainda não conheci minha alma gêmea! — Patton lamentou-se. Ele abriu os braços cautelosamente sobre a mesa, deitando-se sobre ela e evitando atingir o copo que estava perto de si e o computador do amigo.

Virgil suspirou brevemente. Todo ano acontecia a mesma coisa, e àquela altura, ele já tinha uma lista mental de argumentos para oferecer à Patton. 

— Bem... você sabe... às vezes as pessoas têm que tentar mais de uma vez. — Ele deu de ombros. — Todo mundo acha que assim que conhecer alguém que faz aniversário no mesmo dia eles vão ser perfeitos. É uma ótima maneira de se iludir. Como se fosse destino ou coisa assim. — Ele sorriu ironicamente. 

— É, eu sei, mas eu nunca CONHECI ninguém que faz aniversário no mesmo dia que eu! — Patton esticou ambas as mãos, ao lado do computador de Virgil, apoiando o queixo em cima da mesa. — É complicado. 

Virgil revirou os olhos e abaixou a tela do notebook, observando Patton e seus cachos cor de mel. Ele sabia que isso era algo que incomodava Patton, apesar de não poderia dizer o mesmo sobre si. Sua expressão transformou-se em uma careta, e ele levantou a tela do computador novamente, colocando-a entre ele e Patton de modo que impedisse o contato visual. 

— Talvez... eu conheça alguém que faça aniversário no mesmo dia que você. 

— O quê? — Patton ergueu-se da superfície imediatamente, impossibilitado de ver o rosto de Virgil devido à placa acinzentada a sua frente. — Virgil? 

— Hum? 

— Quem é? — Ele levantou-se do assento, debruçando parte de seu tronco sobre a mesa e posicionando o rosto acima da tela. Ele pressionou as pontas dos dedos ao lado da câmera do aparelho. 

— Quem é o quê? — Virgil perguntou, encarando o calendário de modo a evitar o olhar suplicante de Patton. 

— A pessoa que você conhece que faz aniversário no mesmo dia que eu. — Patton esclareceu, e lutou contra seus instintos que se assemelhavam ao de um felino querendo atenção: não fossem os dedos de Virgil sobre o teclado, ele já teria fechado o computador que criava um obstáculo entre eles.  — Eu topo qualquer um. Você sabe disso. 

— Sim, eu sei, não é isso, é... é que... sabe de uma coisa, deixa pra lá, você não vai gostar dele. — Ele falou, negando com a cabeça.

— Não, eu quero saber! — Patton insistiu. — Por favor? 

— Ah, é que... ele é meio... — Virgil começou, buscando uma justificativa, e finalmente olhou Patton, que mantinha toda sua concentração nele. — Sei lá, não confio nele. 

— Por que não? — Patton franziu as sobrancelhas delicadamente. 

— Não sei. É só... um pressentimento, eu acho. 

— Okay... o que você sabe dele?

— Que ele é um advogado e que o nome dele é Janus. 

— Ah, legal! — Patton apoiou a cabeça sobre as costas das mãos, apoiado sobre o monitor do computador. — O que mais? 

— Só isso, na verdade. 

— Só isso? 

— É. Eu falei, não confio nele. Além disso, acho que ele esconde coisa. 

— Que tipo de coisa?

Virgil resmungou, gesticulando vagamente, e tentou:

— Sobre si mesmo?

Patton refletiu brevemente e então deu de ombros. 

— Vai ver ele só é reservado. Que nem você. 

Virgil fez uma careta e retornou sua concentração para o computador. 

— Então... vai me passar o número dele? 

— Patton... 

— Por favor? — Ele sorriu, e rapidamente acrescentou: — Sou eu que tenho que gostar dele, não você. Por favorzinho? 

Virgil e Patton se encararam e Virgil lembrou-se porquê queria evitar contato visual. Ninguém conseguiria dizer não ao Patton com olhos castanhos brilhantes e cabelos ondulados tão adoráveis quanto um filhote de cachorro pedindo sua comida. Por fim, ele cedeu.

— Ugh, tá bom. Eu falo com ele. Vou ver o que eu posso fazer. 

— Yay! — Patton bateu palmas. — Obrigado! 

— Claro. Tanto faz. 

Com o calendário virtual ainda aberto à sua frente, Virgil adicionou uma anotação para lembrar-se de falar com Janus sobre a situação.

 

 

 

Do lado de fora do Museu da Era Clássica havia uma escadaria grande e larga, feita de mármore esbranquiçado. Em ambas as extremidades, acima dos degraus, ficavam os corrimãos que levavam até a pequena plataforma de entrada do museu. No centro dela, um terceiro corrimão fora instalado, destacando-se pelo seu contraste em relação ao restante da fachada. Possuía uma espessura menor, sendo feito de ferro na cor preta, e era utilizado muito mais frequentemente pelos visitantes do dia a dia.

Patton utilizava o primeiro dos degraus como assento, junto à porta de entrada e ao lado do corrimão esquerdo. A sombra da arquitetura estendia-se até o pavimento adiante, tomando parcialmente o caminho para a escada e o estacionamento ao ar livre, distribuído nas laterais da entrada. O sol brilhava fervorosamente, mas isso não impedia a temperatura baixa ou a brisa gélida que o acompanhava. As pessoas entravam e deixavam o estabelecimento, e Patton aguardava por um rosto que não lhe era familiar. O som agudo de um pneu lhe chamou a atenção, e ele — assim como outros visitantes que estavam do lado de fora — viraram-se para a direita, a tempo de assistir o motorista de uma caminhonete vermelha parar subitamente, próximo demais de um homem que atravessava o estacionamento. Imediatamente, o motorista lançou diversas palavras ofensivas ao homem, que parou onde estava e o encarou por um momento, antes de voltar a caminhar e a se dirigir as escadarias do museu. Com isso, o foco dos demais também se dispersou. Patton seguiu o homem com o olhar, conforme ele se aproximava e subia os degraus rapidamente. A estampa em sua roupa tornou-se um borrão, sendo possível identificar apenas a figura de duas coisas onduladas cruzadas uma por cima da outra. Ele adentrou o museu, enquanto o motorista havia sido perdido de vista, e a situação que mal começara já havia sido finalizada.

Patton aguardou mais alguns segundos, evitando que seus pensamentos se concentrassem na movimentação do lado de fora que diminuíra drasticamente, e sobre como ninguém havia se dirigido a ele. Ouvindo um delicado tilintar, ele exalou, pegando o aparelho celular que estava com a tela voltada para baixo em seu colo.

''encontro janus!!'' era possível ler como o nome de contato na parte superior da tela. Era de dois minutos atrás, às 11:12 da manhã.

''estou aqui'', dizia uma das mensagens.

''acredito que em uma seção só sobre o coliseu'', dizia outra mensagem em seguida.

Abaixo destas duas, havia uma foto em anexo que parecia ter sido tirada a uma certa distância. Ela mostrava o final de um corredor que continha uma passagem para outro cômodo adiante, mais amplo. As paredes eram de um tom bege límpido, e ao invés de obras referentes à época, elas eram decoradas com documentos estendidos e protegidos pelo vidro. Nas laterais da entrada para o próximo cômodo, estavam dois candelabros, cada um erguendo uma pequena lâmpada transparente. E entre eles... havia uma mulher que falava e gesticulava exageradamente, ações fáceis de serem detectadas devido aos borrões que seu rosto e seus braços haviam se tornado. À frente dela e de costas para a câmera, estava um grupo de estudantes adolescentes, tomando por completo a entrada. À direita, perto de um dos candelabros, havia uma segunda mulher que também estava parcialmente de costas para a câmera.

Patton esticou as pernas, levantando-se da superfície lisa de mármore e deu meia-volta. Com alguns passos, ele atravessou a enorme porta dupla que estava completamente estendida para o lado de dentro, como se estivesse com os braços abertos aguardando os visitantes.

À esquerda do saguão de entrada, ficava uma grande recepção circular. De onde estava, Patton podia ver pelo menos três funcionários diferentes atendendo as pessoas. Ele pensou em juntar-se a elas e a pequena fila que se formava — o que ele faria em outras ocasiões —, mas isto provavelmente levaria alguns minutos. Ele analisou o restante do ambiente, o olhar flutuando por cima de outros indivíduos que andavam pela sala, pelos bancos aveludados mais distantes encostados na parede, pela enorme escadaria que se erguia tanto à esquerda quanto à direita, pelos grandes arcos que indicavam a entrada de outros corredores perto de onde estava. Incerto, ele atravessou o ambiente em direção ao corredor à direita, e deparou-se com as mesmas paredes beges com candelabros e com a classe de alunos que ocupava a passagem. Entretanto, não parecia haver mais ninguém presente além daqueles que já estavam anteriormente na foto. Patton olhou de relance seu celular, que permanecia com as mesmas três mensagens, e virou-se distraidamente para olhar ao redor.

— Bu! — A sua frente, um homem surgiu, inclinando-se em sua direção.

Patton saltou para trás, dando um grito agudo e levando ambas as mãos ao peitoral reflexamente.

O homem riu, e Patton fez o mesmo, envergonhado.

— Desculpa. — Ele disse por mera formalidade, em um tom de voz arrastado.

— Claro. — Patton suspirou, relaxando os ombros e ajeitando sua jaqueta com uma das mãos, enquanto a outra segurava o celular. Ele riu mais uma vez. — Bem... sorrateiro você, não é?

— Sim. — O homem concordou, e ele analisou o rapaz a sua frente da cabeça aos pés.

A primeira coisa a se notar em Patton era a enorme jaqueta colorida que ele utilizava. As cores da peça alternavam entre vermelho, azul, verde e amarelo, e seu tecido era macio e confortável, impedindo que o vento a atravessasse. Por baixo dela, ele vestia uma blusa branca que continha dois bottons acima do lado direito da clavícula, ambos sendo compostos de listras coloridas. Um deles tinha uma listra rosa seguida por uma amarela e uma azul. O outro, um pouco mais abaixo, possuía uma listra preta seguida por uma cinza, uma branca e uma roxa. A barra da blusa estava colocada por dentro da calça jeans estilo cintura alta, em um tom de azul acinzentado. Ele usava tênis all-star amarelos que cobriam seus tornozelos, mas mesmo assim, o homem tinha quase certeza de que ele usava meias diferentes. Uma das mãos de Patton ainda segurava firmemente um dos lados da jaqueta, e ele reparou nas unhas pintadas de colorido: azul-escuro, azul-claro, roxo e preto. A mão que segurava o celular estava parcialmente escondida para ele, de modo que só era possível ver a unha do polegar pintada de vermelho.

Ele tinha olhos castanhos, protegidos pelo esqueleto de vidro e alumínio que era seus óculos arredondado e pelos longos cílios. Ao lado do nariz, a parte superior das bochechas era decorada com pequenos pontos marrons espalhados horizontalmente. Sua pele era clara, seus lábios rosados, e sobre seu rosto caíam mechas onduladas em um tom de castanho desbotado. Aparentemente, as inúmeras presilhas de frutas decorativas não eram o suficiente para contê-las no lugar.

O homem piscou repetidamente, o rosto inexpressível. Patton parecia ter saído diretamente de um programa infantil no qual ele era o anfitrião e o apresentador, sendo que ele escolhera seu próprio figurino, resultando, surpreendentemente, em uma vestimenta bonita sendo utilizada por uma pessoa mais bonita ainda. Adorável, talvez, fosse a palavra mais adequada. ''Fofo'' também funcionaria.

Mas ao invés de dizer qualquer uma dessas coisas, ele permaneceu em silêncio, até finalmente perguntar:

— É Patton, certo?

— Ah... é. É sim. — Patton engoliu em seco e estendeu sua mão para ele, olhando o outro homem diante de si.

Sua pele era clara, mas não tanto quanto a sua. Isso ficava óbvio ao se notar as manchas no lado direito de seu rosto, cujo tom se aproximava mais do rosa do que do bege. Acima delas, seu cabelo estava parcialmente raspado na lateral, e as mechas castanhas escuras se reservavam ao lado esquerdo, longas o suficiente para chegarem ao comprimento das bochechas. Na altura do pescoço, era possível ver a gola branca de uma camisa, oculta pelo suéter preto que ele usava por cima. Suas mãos estavam envoltas pelos bolsos da calça preta com pregas, e ele usava botas coturno marrons.

— Janus. — Ele disse, apertando a mão de Patton e revelando a luva amarela que utilizava

Patton alternou olhares entre as três coisas que mais o deixaram intrigado na pessoa à sua frente: os olhos, as manchas no rosto e as luvas. Antes que pudesse decidir sobre qual perguntar primeiro, outro detalhe se destacou por lhe parecer familiar, e ele observou minuciosamente a estampa de duas cobras verde-escuras cruzando-se uma sobre a outra no suéter de Janus.

— Ei, você não tava no estacionamento mais cedo?

— O quê? — Ele perguntou, levemente confuso, antes de se lembrar. — Ah, sim, estava. Eu amo a experiência de quase ser atropelado logo de manhã. — Ele ironizou, e Patton reparou ser o mesmo tom de voz preguiçoso que ele havia usado para se desculpar momentos antes.

— É... tem gente que fica muito irritado no trânsito mesmo. — Patton desconversou e se colocou ao lado de Janus, apenas para descobrir que ele era razoavelmente baixo comparado ao outro homem. À frente deles, a turma de estudantes havia desaparecido. — Vamos?

Dito isso, os dois caminharam pelo restante do corredor e adentraram o próximo cômodo.

 

 

Nos trinta minutos que se seguiram, Patton já havia feito dois trocadilhos sobre o fato deles estarem em um museu.

Talvez ele tenha se confundido durante uma terceira tentativa que resultou na comparação de Janus com uma obra de arte. Talvez.

De qualquer modo, Janus tentou seu melhor para esconder seu riso e a vermelhidão aparente em seu rosto. Ele falhou miseravelmente em ambos.

 

Janus tinha a impressão de que Patton estava olhando demais para ele, especificamente, para seu rosto. Ele decidiu esclarecer que as manchas do lado direito eram o principal sintoma de uma doença de pele chamada vitiligo.

Patton contou que ele tinha sardas no rosto, apesar disto ser evidente.

 

Janus mencionou ter uma cobra de estimação chamada Ophelia. Patton supôs que ele estava brincando. Dois fatores o fizeram perceber que ele não estava: a expressão e o tom de voz de Janus permaneceram iguais durante toda a conversa, e a suspeita de Patton de que ele tinha uma língua bifurcada.

Não que ele estivesse olhando a boca de Janus ou coisa assim.

 

Patton era um professor de filosofia do ensino médio.

Ele gostava de plantas. Ele falou sobre a coleção de suculentas que ficavam no parapeito da janela de seu quarto, e seus nomes: Angela, Ashley, Audrey, Alice, Amelia, Aurora, e algumas outras. Esta última era em referência à princesa da Disney.

Janus tinha quase certeza de que citara uma Ariel também.

 

Janus gostava dos filmes da Marvel.

Patton preferia os filmes da DC. Seu favorito era Shazam.

Eles conversaram sobre como Tony Stark e Bruce Wayne eram parecidos.

 

Patton contou sobre como seus alunos apareciam com os chamados ''memes'' novos toda semana, e que ele não entendia muito bem como eles funcionavam. Isso não o impedia de utilizá-los da forma errada através de suas tentativas. Às vezes esses mesmos alunos passavam a maior parte de sua aula com a cabeça abaixada, e Patton sabia que eles estavam tendo um dia ruim. Então ele não os atrapalhava. 

Janus contou sobre as coisas questionáveis que seus colegas da área jurídica faziam. Dentre elas, ter casos amorosos com os clientes que estavam em um processo de divórcio, e a obtenção de provas por meios ilegais. Ele não admitiria, mas era divertido poder contar estas coisas a alguém que não era parte do ramo — e que, portanto, não poderia utilizá-las contra alguém conhecido. Patton parecia chocado com os relatos, mas também interessado.

 

Uma hora e meia depois, o número de pessoas visitando a instalação histórica diminuíra consideravelmente, conforme a maioria saía para comer. 

Patton parou no saguão de entrada, afastado das portas. Ele havia tirado sua jaqueta colorida e agora a segurava por cima dos antebraços, recolhidos perto de seu corpo. Ele virou-se para Janus, não muito longe de si. 

— Tem uma lanchonete no final da rua. — Ele comentou, chamando a atenção do outro rapaz que ergueu o olhar para ele. — Quer ir comer? Dá pra ir andando. 

— Sim. — Ele disse sem pensar. Mas quem poderia dizer não à Patton? Patton que tinha as unhas pintadas de colorido, Patton que havia escolhido uma vestimenta que parecia ter saído de um filme temático dos anos oitenta, Patton que havia nomeado suas plantas, Patton que ria dos próprios trocadilhos que fazia a qualquer oportunidade, Patton que se preocupava com o bem-estar de seus alunos, apesar de não ser sua responsabilidade. Patton. 

Ele era muito bonitinho. Muito adorável. Otimista. Educado. Isso não iria funcionar. Janus tinha que tomar alguma providência em relação a isso. Ele só não sabia qual ainda.

 

Eles desceram a rua, direcionando-se ao estabelecimento. As nuvens prateadas ocultavam o sol, e os ventos permaneciam cortantes o suficiente para causarem calafrios. Eles caminhavam lado a lado, a maior parte do tempo em silêncio, e Patton apontou para alguns passarinhos que estavam pousados no fio elétrico do outro lado da rua. Eles chegaram ao local e do lado de fora o chão de brita formava um estacionamento ao ar livre, similar ao que o museu também tinha. Mais afastado da entrada, Janus reparou em uma caminhonete vermelha, parecida demais com a que ele avistara mais cedo ao chegar no museu. À sua frente, Patton entrou e segurou a porta para ele, e os dois deram passos lentos conforme adentravam o local, procurando por uma mesa vazia em meio à multidão de clientes. Silenciosamente, eles foram até o balcão de atendimento para realizarem seus pedidos, infiltrando-se em meio às filas que se misturavam por estarem lado a lado. Patton ergueu o braço para ajeitar a manga de sua blusa, mas ao fazer isso, acidentalmente acertou alguém ao seu lado que vinha na direção oposta.

— Ai, desculpa! — Falou imediatamente, recolhendo seu braço para perto de si e colocando a mão sobre o ombro oposto.

— É, tá, tanto faz. — O homem de camisa xadrez resmungou. Chegando o mais perto que podia do balcão de atendimento, ele se esgueirou pela espessa fila. Mesmo assim, ele não estava muito distante do casal. — Moça! Oh, moça!

Patton deu um passo para a esquerda, aproximando-se de Janus que agora encarava o intruso com os olhos semicerrados.

O homem começou a clamar pela atendente no balcão um pouco afastado dele, dizendo algo sobre ter recebido o pedido errado. A atendente pediu educadamente que ele se direcionasse para o fim da fila, mas não se podia dizer o mesmo das outras pessoas por perto que estavam aguardando para fazerem seus pedidos. Vozes não identificadas se sobressaltavam no burburinho, reclamando sobre o homem e também pedindo — exigindo — que ele fosse para o final da fila. O homem ignorou as reclamações, insistindo que ele estava pagando por um pedido que não havia feito, enquanto a atendente reiterava que eles haviam entregado exatamente o que ele havia pedido. Janus e Patton observavam a situação se desenrolar atenciosamente.

Olhando o homem, Janus o reconheceu como o mesmo que ele havia visto mais cedo, o mesmo motorista da caminhonete que quase o atropelara pela manhã. E com isso, ele teve uma ideia.

— Eu posso fazer um novo pedido pra você. — Ele se ofereceu, e o homem finalmente virou-se para ele, analisando-o de cima a baixo.

— Você não é aquele cara que tava no museu?

Janus piscou repetidamente, dando um sorriso falso.

— Era... ai meu Deus, você era o cara da caminhonete, não é? Eu sinto muitíssimo, eu não tava vendo onde tava andando! — Ele explicou, levando uma das mãos ao peitoral dramaticamente.

Patton entreolhou os dois, confuso, mas prestando mais atenção no tom de voz de Janus, que havia mudado subitamente. Era completamente diferente do tom arrastado que ele usara durante o tempo que estavam no museu, como se ele fosse um ator interpretando um papel.

— É... você devia prestar mais atenção mesmo.

— Ah, eu vou, pode deixar, senhor...? — Janus perguntou, estendendo a mão para ele.

— John. — Ele cumprimentou.

— É apelido de Jonathan?

— Não. Só John. E você é...?

— Ah... eu sou... — Janus manteve seu sorriso forçado, e desviou o olhar. Pela grande janela ao fundo, do outro lado do ambiente, podia-se ver a rua do lado de fora. Um grande ônibus parou em um semáforo, o anúncio na lateral exibindo a nova coleção outono-inverno da Louis Vitton. Rapidamente, ele adicionou: — Louis.

— Hum. — John fez uma careta e o analisou novamente. — Nome de gente frescurenta, hein?

O sorriso de Janus estava se tornando lentamente apavorante.

— O que tem de errado no seu pedido? — Ele perguntou, mudando de assunto, e sentiu Patton puxando delicadamente a manga de seu suéter.

— Eu tinha pedido um hambúrguer tamanho grande e uma Coca-Cola média, e eles me deram o contrário. — John estendeu a nota fiscal para Janus, que a verificou superficialmente.

— Sabe de uma coisa? Eu faço esse pedido pra você de novo e fica tudo resolvido. Assim você não tem que pagar mais nada.

— Hum. Tá bom. — John concordou com a mesma expressão enfurecida que Janus havia visto o dia todo, e se afastou, cessando o conflito na fila.

Janus assistiu conforme ele sumiu no meio da multidão, e seu sorriso falso se transformou em uma expressão de repulsa. Ele a disfarçou antes de se virar para Patton, que o chamou:

— O que você tá fazendo? — Ele tinha as sobrancelhas franzidas, entreolhando Janus e o caminho que John havia feito antes de desaparecer. — Seu nome não é Louis.

— Bem... vai ver ele só tá tendo um dia ruim. — Janus deu de ombros, revirando os olhos. — Vai ver ele só precisa... de uma boa ação.

Patton fez uma careta, desconfortável, e os dois se moveram para frente com o avanço da fila.

— Eu não gostei dele. Ele quase atropelou você.

— Pff, não se preocupe. — Janus orientou, gesticulando vagamente. — Não vamos ficar na companhia dele por muito tempo mesmo.

Chegando ao balcão de atendimento, Janus fez apenas o pedido de John. Patton mal prestou atenção no seu, fazendo o pedido rapidamente.

Deixando a fila com os pedidos, os dois se encontraram com o homem em uma mesa. Janus e Patton sentaram-se lado a lado, enquanto John ficou na extremidade oposta. Quando ele começou a comer, seus modos em relação aos dois mudaram, e ele magicamente se tornou mais educado. Ele começou a tagarelar, em maior parte, reclamando de seu trabalho que nem Patton, nem Janus havia prestado atenção suficiente para saber o que era. Janus se manteve o mais afastado possível da mesa, estrategicamente segurando um dos cardápios levantados à sua frente. Patton comeu apenas metade de seu pedido, olhando pela janela na maior parte do tempo. Cerca de meia-hora se passou com Janus apresentando uma personalidade amistosa.

— Bom, o papo tá bom, mas se me dão licença, eu tenho que ir no banheiro. — John avisou conforme apoiava as mãos na mesa e se levantava.

— Ah, é? — Janus ergueu o olhar para ele, assim como Patton. — Não quer deixar suas coisas aqui? Eu tomo conta.

John franziu as sobrancelhas e entreolhou Janus e Patton.

— Minhas coisas?

— É. — Janus deu de ombros. — Vai ser rápido mesmo.

John hesitou, mas cedeu. Enfiando as mãos nos bolsos, ele deixou a carteira, o celular e as chaves do carro em cima da mesa. Janus olhou de relance os pertences.

— Cinco minutos. — John falou, se afastando da mesa.

— Cinco minutos. — Janus ecoou, seguindo-o com o olhar.

John se dirigiu aos fundos da lanchonete e atravessou uma porta, desaparecendo de vista.

Janus virou-se para a mesa e, com uma das mãos, pegou o celular e as chaves. Com a outra, ele segurou a de Patton.

— Vamos. — Janus se levantou rapidamente da mesa, levando consigo um Patton que entrelaçava as próprias pernas devido à pressa.

— O quê?! Onde?!

— Vamos! — Janus insistiu conforme eles passavam pela porta de entrada da lanchonete, praticamente correndo.

Eles atravessaram parte do estacionamento, até pararem perto de uma caminhonete vermelha. De perto, ela era mais brilhante, limpa. Janus encaixou as chaves na fechadura e as girou, destrancando o automóvel com um som abafado. Ele abriu a porta e entrou, e Patton, do lado do passageiro, fez o mesmo sem pensar. Com os dois dentro do carro e com as respectivas portas fechadas, Janus colocou a chave na ignição e ligou o carro, imediatamente dando a ré e deixando o estacionamento da lanchonete. Em questão de segundos, o estabelecimento foi deixado para trás.

A estrada se seguiu em maior parte em linha reta, com ambos Janus e Patton em silêncio. Ao pararem em um semáforo, Janus virou-se para Patton, que analisava o interior da caminhonete boquiaberto. Ele podia praticamente ver as engrenagens girando em sua cabeça, conforme ele absorvia o que acabara de acontecer. A ficha iria cair a qualquer momento. Janus colocou o cinto de segurança, e eles voltaram a andar. Patton piscou repetidamente, abaixando a cabeça.

— Janus?

— Hum?

— Você roubou um carro? — Patton perguntou lentamente, virando-se para o homem ao seu lado.

— Huh... não é roubo, na verdade. Roubo cometido sem violência é furto. — Ele olhou Patton de relance, e ele parecia tanto com raiva quanto confuso.

— Não é a hora pra joguinho de palavras! — Patton protestou, e ajeitou seus óculos no lugar. — Roubar é crime!

Janus revirou os olhos.

— Sim, eu sei.

— Por que você fez isso?!

— Por que não fazer isso? — Janus perguntou, sorrindo.

Patton gaguejou.

— Porque é errado!

— Bom, ''John'' meio que mereceu. — Ele debochou, jogando o celular do homem em cima do painel à frente de Patton.

— O quê? Não!

— Nós dois vimos como ele quase me atropelou. Sinceramente, estamos fazendo um favor à sociedade tirando esse carro dele. Quem sabe quem mais ele poderia atingir?

— Não! Isso não é— a gente não devia— ele— você não pode simplesmente sair roubando coisas das pessoas!

— Acabei de roubar. — Janus deu de ombros, e olhou Patton de relance. — Coloca o cinto.

Patton bufou e fez como solicitado, frustrado. Ele queria protestar, sair do carro. Mas dos muitos pensamentos que giravam em sua mente, nenhum deles se transformava em uma frase verbal coerente. E o carro estava em movimento, e ele havia acabado de colocar o cinto de segurança. A tranquilidade de Janus, que acabara de cometer um crime, não melhorava a sensação que ele tinha de raiva e choque. Janus sorriu, abrindo a janela do seu lado, percebendo como seu plano de afastar Patton estava funcionando. Patton cruzou os braços, virando a atenção para sua janela.

— Não gostei disso. — Ele resmungou, e Janus não respondeu.

Alguns minutos se passaram, e eles seguiram a viagem em silêncio, conforme Janus refletia para onde eles iriam agora.

Lentamente, Patton virou-se para o centro do carro e o observou com mais atenção. Ao lado do volante, havia um pequeno visor de vidro acompanhado de vários botões e alguns orifícios quadrados abaixo. Ele piscou repetidamente, levando a mão até um dos botões redondos. Ele o girou com cuidado e um ruído baixo soou.

— Tem um rádio. — Ele apontou distraidamente.

Janus alternou olhares entre a estrada e Patton que brincava com os botões do aparelho. Patton girou um deles, e um homem começou a falar sobre como o governo municipal utilizava o dinheiro que recebia dos cidadãos. Ele girou o mesmo botão mais uma vez. Uma voz feminina cantava uma música que, pelos instrumentos, parecia ser da década de cinquenta. Ele mudou para outro botão, e um locutor comunicava que o convidado que estava prestes a dar uma entrevista era uma cantora da qual ele nunca ouvira falar. Ele fez isso com os outros três botões, até que as estações terminassem e o rádio voltasse ao seu silêncio inicial. Patton segurou um longo cabo branco que estava conectado em uma das entradas do rádio, próximo aos botões. Ele tinha fita isolante na ponta que estava solta. Patton recostou-se no banco novamente, segurando o cabo perto de si.

— Será que é pra conectar no celular?

— Você pode tentar se quiser. — Janus falou, sem se importar muito.

Com certa dificuldade, Patton pegou seu celular que estava no bolso traseiro da calça jeans, e conectou o longo cabo ao aparelho. Imediatamente, o pequeno visor do rádio em formato de paralelepípedo exibiu as palavras ''biblioteca de música''. Patton deslizou os dedos pela tela, procurando por algo. Ele tocou delicadamente a superfície com o dedo indicador e, segundos depois, os sons de uma bateria e de uma guitarra começaram a soar vindo do rádio. Janus franziu as sobrancelhas conforme mais um solo de guitarra se seguia e um homem começava a cantar.

Life's like the road that you travel on,

when there's one day here and the next day gone

Sometimes you bend and sometimes you stand,

sometimes you turn your back to the wind

Ele olhou para o visor do rádio, que nomeava a música como sendo ''Life is a Highway'', por Rascal Flatts. Ao seu lado, Patton começou a fazer o que ele deduziu que fosse uma dança a partir dos movimentos incomuns. Mais alguns segundos se passaram, e cada vez mais a música lhe parecia familiar, até que Janus arriscou perguntar:

— Essa não é a música do Carros? O filme da Disney?

— É sim!

— Ai, meu Deus. — Janus revirou os olhos e então voltou sua atenção para a estrada.

— Você gosta? — Patton perguntou, sorrindo amplamente e se ajeitando no banco.

— Não exatamente. Mas não me incomoda também.

— É muito boa! — Patton disse, fazendo passos de dança aleatórios, na medida que o cinto lhe permitia.

Janus suspirou, optando por deixar Patton se divertir um pouco.

A música terminou, e antes que ela pudesse começar novamente, Patton pegou seu celular e selecionou uma diferente. Ela se iniciava com um piano suave e com uma voz feminina cantando, até o ritmo mudar drasticamente, se tornando mais ágil.

— O que é isso?

— Holding Out For a Hero! — Patton respondeu, sorrindo.

— Mas essa não é a voz da Bonnie Tyler. — Janus apontou.

— Ah, não, é a versão do Shrek. — Patton explicou, entreolhando seu celular e Janus.

— Ah...

Patton observou Janus conforme ele não exibia reação alguma à música. Ao invés disso, ele mantinha sua atenção nos carros que passavam a sua frente, tentando juntar-se a eles. Quando a música acabou, Patton selecionou outra música diferente. E outra. E outra. E outra. E em nenhuma delas Janus demonstrava algum tipo de interesse. Janus também não mencionou o fato de todas elas serem parte da trilha sonora, temas, ou criadas especificamente para trabalhos cinematográficos ou televisivos de animações. Em certo momento, Patton afundou-se no banco em que estava, seus joelhos encostando um no outro.

— Que tipo de música você gosta? — Ele perguntou, tirando uma mecha de cabelo do rosto e com expectativa, já que era um tópico que não havia sido discutido durante o encontro no museu.

Janus virou-se para ele e observou Patton com seu celular sobre uma das pernas, ainda conectado ao rádio do carro.

— Ah, você não vai gostar.

— Ah, vai, eu quero saber! — Patton insistiu, e abaixando a cabeça ele murmurou: — Também não gostei que você roubou um carro, mas estamos aqui.

Janus suspirou, e conforme eles se aproximavam de um semáforo, ele estendeu sua mão na direção de Patton, que lhe entregou o celular. Ele tocou a tela algumas vezes, e sem dizer nada, devolveu o aparelho a Patton conforme a melodia se iniciava e o carro voltava a andar.

A música se iniciava com um piano e um violino, e logo a voz de uma mulher começou a soar, cantando preguiçosamente. Patton olhou de relance para o visor do rádio, que exibia os dizeres ''Black Hole Sun'', por Haley Reinhart. A viagem se seguiu, com a música sendo o único ruído entre eles, e Patton voltou sua atenção para o homem ao seu lado.

O sol oscilava distante atrás dele conforme eles passavam por diferentes prédios e residências. A janela aberta dava passagem para uma brisa forte, que fazia com que as longas mechas de seu cabelo castanho emoldurassem seu rosto bem definido. Ele mantinha apenas uma das mãos envolta firmemente sobre o volante de couro preto, enquanto o cotovelo esquerdo se apoiava acima do parapeito da janela e as mangas brancas de sua camisa balançavam delicadamente contra o vento. A tira elástica atravessava seu peitoral, afundando-se e se camuflando ao suéter preto, cortando a estampa de cobras. Ele tinha um olhar de serenidade, fixo na estrada à frente. Ele não estava incomodado pelo fato de que havia roubado um carro, Patton reparou. Estava confiante. E isso era suficiente para criar um charme. Patton listou mentalmente as coisas que ele sabia que Janus era, com certeza, até agora. Advogado. Ladrão. Encantador. Ele sorriu suavemente, e Janus virou-se para ele, um tanto envergonhado por flagrar Patton lhe estudando.

— Que foi? — Ele perguntou, franzindo as sobrancelhas.

— Você tem um olho de cada cor. — Patton apontou com tranquilidade.

Ele realmente tinha. Patton já havia notado que Janus tinha olhos diferentes quando eles estavam no museu, mas não sabia dizer especificamente como. Agora, ele havia descoberto: um deles era castanho, enquanto o outro, era verde.

— Ah... sim, eu tenho. — Janus tocou seu cabelo, fazendo uma tentativa falha de tirá-lo de seu rosto. — Chama heterocromia. É a única coisa hétero sobre mim.

O sorriso de Patton aumentou duas vezes mais, e ele se inclinou na direção de Janus.

— Você fez um trocadilho. — Ele falou, contendo sua felicidade.

— O quê? Não. Não fiz não. — Janus desconversou, alternando sua atenção entre a estrada e Patton ao seu lado.

— Fez sim.

— Não fiz não.

— Fez sim! — Patton começou a rir, segurando o braço de Janus com as duas mãos e apertando levemente.

''Ah, não.'', Janus pensou, observando Patton com os olhos arregalados. Ele havia cometido um erro.

Patton seguiu rindo pelos próximos cinco minutos, e lentamente se acalmou. Quando ele parou por completo, estava apoiado na janela ao seu lado que permanecia fechada. Ele fungou, respirando fundo conforme se recompunha e alguma música aleatória tocava em um volume baixo no rádio. Houve um breve silêncio. De súbito, algo captou a atenção de ambos os rapazes: do celular largado em cima do painel do carro, que anteriormente pertencia a John, vinha um alarme. Exceto que não era um alarme comum de despertador, cujo objetivo era acordar as pessoas, mas sim, o som se assemelhava mais a um radar. Patton esticou o braço e pegou o aparelho, e com ele mais perto, os dois puderam ver o ponto vermelho que piscava no centro da tela. Ao redor dele, ondas circulares se formavam, e no topo da tela, havia a frase ''Encontre meu celular''.

— Ai meu Deus! Ai meu Deus, ele tá rastreando a gente! E agora? — Patton perguntou, olhando ao redor freneticamente, procurando uma solução.

— Dá aqui. — Janus pediu, trocando a mão no volante e estendendo uma delas para Patton. Ele lhe entregou o celular e Janus olhou de relance para a tela.

— Que droga. Achei que ele ia levar mais tempo pra tomar uma providência. — Ele falou antes de atirar o aparelho pela janela aberta sem hesitar.

Em choque, Patton entreolhou Janus e o lado de fora do carro, que havia mudado para uma estrada deserta em linha reta. Ele engoliu em seco.

— Você jogou o celular pela janela.

— Joguei. Problema resolvido. — Ele sorriu sarcasticamente, olhando Patton. O mesmo suspirou e recostou-se no banco.

— Sei.

A viagem de carro se seguiu sem maiores imprevistos.

 

Cerca de quinze minutos depois, Patton virou-se para Janus após passar a maior parte do tempo olhando pela janela. 

— A gente vai a algum lugar? 

Janus gaguejou, sendo pego de surpresa. 

— Por quê?

— Porquê... tem um shopping aqui perto. — Patton falou, pressionando o dedo indicador contra o vidro da janela. 

— Você quer ir no shopping?

— Ah... quero.

— Com um carro roubado? 

— Ma- é que- ei- — Patton suspirou. — Eu planejava fazer mais coisa depois do encontro, não sabia que ia durar o dia todo. E eu não sabia que você ia roubar um carro!

Janus entreolhou Patton e o lado de fora da janela atrás dele. Não muito distante, havia um grande prédio que se expandia horizontalmente. 

— Tá bom, tanto faz. — Janus voltou sua atenção para a estrada e ligou a seta que indicava para a direita.

 

Conforme eles saíam do estacionamento, adentravam o local e se dirigiam às lojas, Patton contou que ele tinha jardinagem como um hobby — algo que Janus já havia percebido quando ele mencionou todas as plantas suculentas que tinha nomes iniciados com A. Ele queria plantar uma horta, mas não sabia muito sobre como fazer isso ainda. E para isso, ele precisaria das ferramentas e roupas adequadas. O primeiro lugar que eles foram foi uma loja de roupas. Chegando lá, eles acabaram se afastando conforme Patton procurava algo específico e Janus simplesmente não se importava em acompanhar.

Ele vagou distraidamente pela loja, fitando as vestimentas expostas ao público. Havia uma parede preenchida somente de ternos femininos, começando com cores neutras de cinza e azul-escuro. Então, apareceu um vermelho. Um rosa. Depois disso, se seguiram vários que tinham a lapela e os bolsos com estampas, por algum motivo. Do outro lado da loja, uma grande mesa exibia blusas temáticas com estampas dos personagens de Star Wars. Perto dela, havia uma segunda mesa praticamente idêntica, mas esta continha roupas temáticas de Harry Potter. Uma longa arara exibia jaquetas estilo bomber coloridas, alternando entre uma cor só até chegar às jaquetas jeans que continham estampas de gatinhos e pedaços de pizza nas costas. Pendurada no alto, havia uma seção de longos casacos sobretudo de cores sólidas. A maioria era bege ou cinza, e investigando até a parte de trás do cabide, Janus deparou-se com um amarelo. Não um amarelo neon, vibrante, forte, mas apaziguado, mais escuro, um tom de ''amarelo mostarda'', como algumas paletas nomeavam, considerando-se que a cor era mais próxima do marrom. Esticando o braço, ele retirou o cabide e examinou o sobretudo. Seu tecido era denso, quente, e ele tinha pequenas tiras para serem abotoadas em cada manga. Na altura da cintura, também havia um longo cinto na mesma cor, que estava amarrado na parte de trás com um laço. Ele estendeu a roupa sobre o antebraço e voltou a andar pela loja até parar em uma seção que continha diversas blusas de mangas longas. Algumas tinham a gola alta, outras, zíperes na parte de trás. Além destes detalhes, elas não variavam muito. Ele analisou as peças, e por fim, decidiu-se sobre uma cinza-claro de gola alta. Ele segurou ambos o casaco e a blusa juntos, estendendo-os à sua frente, observando como eles ficariam juntos.

— Bu! — Disse uma voz atrás dele, ao mesmo tempo que um par de mãos agarrava seus ombros e os soltava imediatamente.

Janus sibilou, fazendo uma espécie de som agudo similar ao de um animal, e recolheu seus braços para perto de si. Ao seu lado, Patton apareceu, rindo com uma das mãos na frente da boca e segurando roupas com o outro braço.

— O que foi isso? Parecia... — Patton fungou, recuperando o fôlego. — Uma daquelas cobrinhas! Que tem chocalho!

— Ah, é você. — Janus suspirou e revirou os olhos, ignorando o comentário de Patton e o fato de que ele sentia suas bochechas esquentando.

— Isso foi vingança pelo museu. — Patton falou, e cruzou os braços sobre o peitoral. — Escuta, eu vou experimentar essas roupas, então…

Eles se entreolharam em silêncio.

— ...Você vai ficar aqui, né? Na loja?

— Não, Patton, eu estou estrategicamente esperando que você esteja ocupado pra que eu possa sair correndo e te deixar sozinho que nem eu fiz com um desconhecido na lanchonete. — Janus falou ironicamente, e em silêncio, Patton o observou com os olhos grandes, dignos de uma animação japonesa. — Eu não vou embora, sem você, tá bom? Se é isso que quer saber.

Janus entreolhou o pequeno conjunto de roupas que ele tinha em mãos e Patton ao seu lado, antes de esticar o braço e oferecê-las a ele.

— Experimenta essas aqui também.

Lentamente, Patton pegou ambas as peças e as analisou.

— Por quê?

— Só experimenta. — Janus deu de ombros.

— Okay... — Patton juntou as peças às roupas que já estavam consigo. — Mas então eu vou escolher uma roupa pra você também!

— O quê? Não. — Ele fez uma careta.

— Sim! Vai ser divertido, vamos!

— A gente não vai brincar de vestir.

— Por que não?

— Porque não!

— Você escolheu uma roupinha pra mim.

Janus resmungou, enfiando ambas as mãos nos bolsos da calça.

— Tá bom.

— Yay! Vamos, vamos! — Patton deu pequenos pulos de alegria e gesticulou para que o rapaz o acompanhasse. Á contragosto, Janus o seguiu.

Os dois andaram por diferentes alas da loja, conforme Patton analisava as mais diversas peças. Uma blusa verde-claro com botões na frente e estampa de abacaxi chamou sua atenção, mas após olhar Janus mais uma vez, ele a devolveu ao estande. Era tão fácil encontrar algo que Patton gostasse; contanto que parecesse colorido ou divertido já era mais que suficiente. Ele também resistiu a tentação de pegar uma blusa de cor salmão, cujo bolso ao lado direito tinha o desenho de um flamingo, de forma que parecesse que o animal estava guardado no pequeno compartimento.

— Ah! O que você gosta de fazer? — Patton perguntou subitamente.

— Como assim? — Janus franziu as sobrancelhas, intrigado.

— Tipo um hobby. Eu gosto de jardinagem — ele exemplificou o que já havia dito antes. — Qual seu hobby?

— Ah... hã...

Patton parou perto de outro estande no qual estavam estendidas blusas de mangas longas.

— Eu toco piano. — Janus respondeu finalmente. Não que fosse mentira, mas era mais uma... meia-verdade.

— Sério? — Patton virou-se para ele, sorrindo e segurando uma das blusas da exposição perto de si.

— É. Sério.

Sim, ele sabia tocar piano. E sim, em quesito de interesses pessoais, ele estava mais ocupado produzindo uma roupa idêntica ao do doutor Stephen Strange da Marvel. Seus dedos haviam visto mais pontas de agulhas do que teclas de piano nos últimos anos, mas isso não era relevante.

— Ai, que legal! Eu meio que comecei a aprender a tocar ukelele, mas...

— ...Mas? — Ele arqueou uma das sobrancelhas.

— Não sei, não sou muito bom nisso. Acho que é falta de prática. — Patton comentou conforme observava um manequim um pouco mais alto que ele com um cachecol, e desenrolava o pano de seu pescoço.

Janus semicerrou os olhos e fez uma anotação mental do fato.

Eles andaram pela loja por mais alguns minutos até que Patton escolhesse um chapéu. Ele segurou três das peças que tinha consigo e as estendeu para Janus.

— Pronto! Oh, a gente pode brincar de desfile também!

— Não, não... não... — Janus balançou a cabeça, segurando as roupas que Patton havia lhe entregado, e os dois seguiram para os provadores. — Não... a gente vê isso depois de experimentar, tá bom?

— Tá bom! — Patton concordou e, saindo na frente, se apossou do primeiro provador que viu estar com a porta aberta, fechando-a atrás de si.

Janus parou onde estava e suspirou, chegando a conclusão de que conviver com Patton era a mesma coisa que conviver com uma criança. Ele não sabia exatamente que opinião formar disso, mas optou por deixar o pensamento de lado, e adentrou um dos provadores.

 

Alguns minutos se passaram até que Janus ouvisse Patton saindo do provador, soando surpreso. Vestindo as roupas que Patton havia escolhido para ele, ele abriu a porta e saiu da cabine. De costas para ele, Patton estava na frente de um grande espelho que tomava a parede no final do corredor de provadores. Sua nova blusa cinza-claro de gola alta estava para dentro da calça jeans, e por cima disso, ele usava um grande casaco sobretudo amarelo-escuro, cujo cumprimento se estendia pouco abaixo do joelho. A calça deixava uma pequena parte de suas pernas à mostra, de modo que os tênis all-star amarelos que iam até os tornozelos chamavam atenção.

— Eu to parecendo alguém... — Patton ponderou consigo mesmo, movendo-se de um lado para o outro e deixando que barra do casaco se balançasse. Com um pulo, ele virou-se para Janus atrás dele. — O décimo doutor! Do Doctor Who!

Janus o analisou de cima a baixo, e as únicas semelhanças com o personagem em questão eram o casaco e o tênis. Mesmo com parte da vestimenta tendo sido escolhida por outra pessoa, Patton ainda se parecia com o anfitrião de um programa infantil.

Patton também o observou, levando ambas as mãos ao peitoral, abaixo da clavícula.

— Você tá tão bonito! E estiloso!

Janus não respondeu, e ao invés disso, cruzou os braços, cortando contato visual. Sua roupa ainda tinha tonalidades escuras. Assim como Patton, ele ainda usava a mesma calça e sapatos que havia escolhido para o encontro no museu — uma calça preta com pregas e botas coturno marrons —, e assim como Patton, ele também havia colocado a blusa cinza escura de mangas longas para dentro da calça. A diferença era que Janus tinha dois acessórios a mais: um cachecol xadrez, nas cores bege e preto, e um chapéu preto de aba reta, grande o suficiente para cobrir parcialmente seu rosto. Janus esperava que ele estivesse cumprindo sua função, e ele o ajeitou, fingindo que seu rosto não estava ficando corado.

Empolgadamente, Patton se colocou ao lado dele, e então os dois estavam parados de frente para o espelho, onde a crítica diferença de altura era notável.

— É uma roupa tão séria... mas eu gostei! — Patton falou, com ambas as mãos nos bolsos do casaco. — Por que escolheu essa?

— Achei que era algo que você poderia usar pra dar aula.

— Oh! — Patton se balançou mais uma vez, sorrindo. — Nem tinha pensado nisso, mas é uma boa ideia.

Patton virou-se para ele.

— E você? Gostou da sua roupa?

— Não, é horrorosa. — Janus respondeu preguiçosamente, revirando os olhos.

— Ah... sério? — Receoso, Patton inclinou-se para trás, analisando suas escolhas. — Achei que era legal... tentei escolher alguma coisa que combinasse com você. Posso tentar de novo, se você quiser...

Ao seu lado, Patton parecia genuinamente chateado, e uma onda de pânico subiu-lhe pela garganta.

— Foi ironia. — Janus esclareceu. — Eu gostei.

— Gostou? — Patton perguntou mais uma vez, e ele afirmou com a cabeça. — Yay! Eu vou trocar de roupa e aí a gente pode ir, okay?

— Claro. — Janus concordou conforme Patton voltava ao provador.

Mas quando Patton deixou a cabine pela última vez, trajando suas roupas normais — aquelas que ele havia escolhido para o encontro no museu —, Janus ainda vestia as roupas que ele escolhera. Ele estava encostado perto da porta do seu provador, agora aberto, observando distraidamente as luvas amarelas que usava. Patton parou próximo a ele, em silêncio, até perguntar:

— Você não vai trocar de roupa?

— Ah, não, na verdade, não. — Janus disse, recolhendo a blusa e o suéter que havia utilizado. Antes que Patton pudesse dizer algo, ele adicionou enquanto sorria de modo encantador: — Vamos?

Patton franziu as sobrancelhas, mas concordou, e eles voltaram à loja. Janus estava mais adiante, enquanto Patton procurava pelo caixa, e ele quase trombou em Janus quando ele parou abruptamente.

— Com licença, senhor — Um rapaz começou a dizer, aproximando-se de Janus e analisando-o. Ele usava um crachá pendurado no pescoço. — Essas são as roupas da loja?

Janus virou o rosto lentamente na direção oposta. Ao lado dele, havia um estande de óculos de sol, e ele os observou minuciosamente.

— Olha, senhor, é contra as políticas da loja usar as roupas fora do provador sem pagar antes.

Em silêncio, Patton entreolhou Janus e o funcionário da loja. Janus pegou um par de óculos de sol branco, preto e cinza, cujas lentes impediam que os outros vissem seus olhos, e o colocou.

— Eu vou precisar que o senhor volte pro provador e troque de roupa, do contrário vai ser caracterizado como roubo e eu vou ter que chamar a segurança. — O rapaz explicou calmamente, e Patton arregalou os olhos.

Janus entrelaçou o cachecol xadrez ao redor do pescoço e ajeitou o chapéu, de modo que ele ocultasse a parte do seu rosto que estava mais próxima do funcionário.

— Ah, é? — Janus perguntou, fazendo um sotaque estrangeiro carregado.

— Sim. — O rapaz confirmou, segurando ambas as mãos em frente ao seu corpo.

Janus resmungou, voltando a atenção novamente para o estande de óculos de sol.

— Se eu soubesse que seria tratado assim eu nem teria vindo aqui. Mas por favor, chame a segurança.

O funcionário piscou repetidamente e inclinou-se na direção de Janus.

— Perdão?

— É que da onde eu venho é totalmente normal que os clientes usem as roupas que vão comprar enquanto estão na loja. — Janus continuou sarcasticamente e com o sotaque. — Eu pessoalmente acho que é um absurdo ser taxado de ladrão quando eu não fiz nada de errado!

Atrás de si, Patton começava a fazer caretas devido à sua confusão. Do estande, Janus pegou um par de óculos de sol cujas lentes eram corações azuis, e o ofereceu à Patton.

— Experimente este, querido, combina com você.

Hesitantemente, Patton pegou os óculos e o segurou a sua frente.

— O senhor ainda está violando as políticas da loja. — O funcionário repetiu.

— Você realmente vai chamar a segurança pra mim?

— Desculpe, o senhor seria...?

— Alfred Hitchcoppolucas — Janus anunciou, deslizando o dedo indicador e o polegar pela aba do chapéu. — Diretor de Psicose de Guerra do Poderoso Chefão.

Em choque, Patton aproximou-se de Janus e do funcionário.

— Dá licença... — Ele começou a dizer, mas Janus se colocou propositalmente entre ele e o outro rapaz.

Por favor, chame a segurança sim. Assim isso pode acabar em um processo contra a sua loja, vai ser tão divertido! — Janus, ''Alfred'' disse, gesticulando e sorrindo exageradamente, fingindo.

— Oh... oh. — O funcionário ficou boquiaberto e começou a gaguejar, tentando consertar a situação. — Não, não, não vai ser necessário, senhor. Eu sinto muitíssimo pelo incômodo, na verdade, sabe o quê? Vocês não precisam pagar por nada. Eu vou desligar os alarmes da loja e assim vocês podem ir, okay?

Patton observou conforme a cena se desenrolava diante dele, e de todas as coisas absurdas a serem questionadas, ele se perguntou se Alfred Hitchcoppolucas era uma pessoa real.

— É mesmo? — ''Alfred'' perguntou com um sotaque forte e um tom de voz arrastado.

— É, sério. Sério mesmo. — O funcionário começou a se afastar, quase tropeçando nos próprios pés. — Eu vou fazer isso agora, tá? — Ele disse, e com isso, sumiu de vista.

Imediatamente, Janus desfez seu sorriso falso e virou-se para Patton. Com uma das mãos, ele abaixou os óculos de sol minimamente, olhando Patton por cima deles.

— Você dizia?

Pela segunda vez naquele dia, Patton tinha mais de um pensamento girando em sua cabeça, e havia uma certa dificuldade em transformá-los em frases compreensíveis.

— Quem é Alfred Hitchcoppolucas?

— Um diretor.

— Não, não, você não é Alfred qualquer coisa, você é Janus... — Patton se interrompeu ao perceber que não sabia seu sobrenome. — Por quê mentiu pra ele?

Janus deu de ombros e sorriu.

— Por quê eu posso.

— Não! Não, você não pode simplesmente sair por aí enganando as pessoas!

— Por quê não?

— Por quê é errado! — Patton justificou, e ao mesmo tempo que ele, Janus repetiu exatamente a mesma coisa, mas como se fosse uma pergunta em um tom de deboche.

— Pense pelo lado bom — Uma a uma, Janus retirou as etiquetas de papel das peças que utilizava. — Você tá economizando dinheiro.

Com alguns passos, ele se afastou e pegou duas sacolas ecobags que estavam expostas em um cabide baixo. Ele colocou as etiquetas e suas roupas originais em uma delas, e ofereceu a outra para Patton.

— Vamos?

Hesitante e um pouco aborrecido, Patton segurou a bolsa e colocou todos os produtos que segurava dentro dela. Ele considerou se dirigir ao caixa e pagar por eles mesmo assim, mas antes que pudesse encontrar sua localização no local, Janus voltou a caminhar, indo em direção às portas da loja. Patton o acompanhou a uma distância razoável, e conforme eles atravessavam os detectores silenciosos, Patton atualizou a lista que tinha em mente.

Advogado.

Ladrão.

Encantador.

Mentiroso.

E apesar dos atributos questionáveis, sua indecisão acerca de que opinião formar de Janus permanecia lhe assombrando.

 

 

Horas depois, eles deixaram o shopping, e o sol havia cedido seu lugar a lua e as estrelas que lhe faziam companhia.

O lado de fora estava frio o suficiente para causar arrepios, e enquanto eles se dirigiam à caminhonete, Patton segurou as pontas da jaqueta corta-vento, pronto para fechá-la. Mas antes que pudesse fazer isso, outra coisa lhe chamou atenção. Ele parou onde estava, observando como do outro lado do estacionamento ao ar livre, um pouco distante, havia um carro fechado com um cachorro grande do lado de dentro. Ele ficou lá por alguns segundos, observando a cena e caminhou apressadamente em direção ao carro, sem sequer reparar que Janus andava passos adiante de si.

— ... E é por isso que cenouras são os piores legumes. — Ele concluiu um monólogo, e imediatamente olhou para ambos os lados, notando a ausência de Patton. Janus girou a tempo de vê-lo se afastando em direção a um carro desconhecido. — Patton?

O rapaz continuou caminhando.

— Patton! — Ele chamou, e andou rapidamente na mesma direção.

— Oi. — Patton cumprimentou o animal com a voz mais calma possível, enquanto apoiava as mãos contra as janelas fechadas do carro. O cachorro do lado de dentro — um golden retriever — virou-se para ele, arfando e com os olhos piscando. — Você tá preso aí dentro?

Patton tocou diferentes locais da porta do automóvel, como se fosse magicamente se abrir para ele. Ele pegou a maçaneta e a puxou, mas nada aconteceu. Estava trancado. Claro que estava trancado.

Janus o alcançou e parou ao seu lado.

— O que você tá fazendo? — Ele perguntou exasperado.

— Tem um cachorro aqui dentro. — Patton disse, virando-se brevemente para ele, as sobrancelhas erguendo-se juntas. — Ele tá com calor.

Janus olhou para o lado de dentro do carro, vendo o cachorro sentado nos bancos de trás.

— E?

— A gente tem que tirar ele daqui! — Patton voltou a tocar em partes aleatórias da porta. — Mas não tem como, tá trancado!

Patton considerou as opções. Ele podia tentar voltar para o shopping e encontrar o dono do carro — e do cachorro. Mas como ele faria isso? A pessoa podia estar em qualquer lugar, em qualquer loja. E se fosse um funcionário? Podia estar trabalhando até agora. Não havia informações pessoais no exterior do carro, e tentar encontrar o dono, procurando cegamente por ele podia levar horas.

Janus franziu as sobrancelhas e entreolhou Patton e o golden retriever do lado de dentro, com a língua rosada caindo para fora da boca.

''Não é nosso cachorro'', Ele pensou em dizer, o que significava que não era problema deles. Mas a caminhonete vermelha estacionada pouco a distância também não era, e isso não o impedira.

Além disso, Patton permanecia com a mesma expressão de tristeza e preocupação em seu rosto, tateando a porta do carro.

Janus abaixou a cabeça e pensou no que eles tinham. As chaves da caminhonete. Celulares. Óculos. Um chapéu. Algumas ferramentas de jardinagem, pequenas, mas firmes, iguais às chaves do carro. Uma jaqueta. Um sobretudo, longo e denso. Cintos. Tênis... tênis. Seu olhar pairou sobre o par de tênis all-star de Patton na altura dos tornozelos, o amarelo brilhando contra a escuridão do chão de concreto à noite.

— Tira o cadarço.

— O quê? — Patton virou-se para ele, confuso.

— Tira o cadarço. — Janus pediu, erguendo a cabeça e olhando para ele.

Patton hesitou brevemente antes de encostar-se contra a porta do carro, curvando-se para frente e erguendo uma das pernas na altura do peitoral. Depois de alguns segundos de dificuldade, ele puxou a longa linha e a estendeu diante de Janus.

— Fica vigiando pra ver se não tem ninguém vindo. — Ele disse casualmente, pegando o cadarço.

— Como assim? — Patton murmurou, ficando na ponta dos pés e olhando ao redor, sem saber exatamente como avisar se alguém se aproximasse.

Janus olhou de relance para os pés de Patton, entrelaçando o cadarço, notando como uma de suas meias era verde, e a outra, vermelha.

O fio agora tinha um pequeno nó com uma abertura no centro, que poderia ser fechada ao puxar um dos lados. Ele passou o cadarço pelo vão da porta, e por sorte, a borracha não o impediu. O cachorro, notando a linha estreita acima de si, ergueu o longo nariz e a cheirou brevemente, sem se importar com ela. Janus se agachou, virado para a porta e movendo os braços cuidadosamente enquanto descia o fio. De pé ao lado dele, Patton alternava olhares entre o que Janus estava fazendo — que Patton não compreendia de qualquer modo — e o ambiente ao redor, nervoso. Ele não via nenhuma pessoa do lado de fora, mas adentrando o estacionamento, um carro percorreu o caminho atrás deles, e Patton arregalou os olhos.

— Acabou de passar um carro.

— Era uma viatura?

— Não.

— Então não importa.

Janus manteve o olhar fixo no lado de dentro do carro. O cachorro farejou o cadarço mais uma vez conforme ele pairava sobre o pino de trava da porta entre eles. Ele fechou o nó ao redor da trava firmemente e puxou ambas as pontas para cima, fazendo com que a pequena trava se levantasse.

A porta estava aberta.

Ele exalou e se colocou de pé, e Patton sorriu para ele, esperançoso. Janus puxou a maçaneta e a porta se abriu, e imediatamente, o golden retriever saltou do carro, mas ele não conseguiu ir muito longe: amarrada no encosto da cabeça do assento, uma coleira guia o prendia. Janus se inclinou para frente, procurando o fecho da guia na coleira do cachorro, mas antes de encontrá-lo, Patton moveu-se para frente dele e apoiou um dos joelhos no assento do carro.

— Patton!

— Espera! — Ele levou ambas as mãos ao pedaço de aço que apoiava o encosto de cabeça. Foi preciso alguns segundos para que sua visão se ajustasse ao breu do lado de dentro do veículo, e enquanto isso, ele cravava as unhas na coleira, puxando-a em diversas direções. Eventualmente, ela começou a se soltar, e escrito em azul no tecido vermelho, havia um nome: Steve.

Com a coleira guia em uma das mãos, Patton desceu do carro e deu alguns passos para trás. Uma vez que ele havia se afastado o suficiente, Janus pegou o cadarço e abaixou o pino novamente, fechando a porta e trancando-a. Os dois, agora três, atravessaram o estacionamento rapidamente, evitando correr. Eles abriram a parte de trás da caminhonete, e com alguns estalares de dedos acima do compartimento, o cachorro saltou. Agora quase na sua altura e com melhor iluminação, Patton observou que a coleira ao redor do pescoço também tinha as cores azul e vermelho. Seu pingente consistia de círculos nessas cores com a adição do branco, e no centro, havia a silhueta de uma pata de cachorro.

Steve, ele pensou. Azul, vermelho e branco. O pelo amarelado. Steve em referência à Steve Rogers. Capitão América.

Eles deram a volta, entrando na cabine do carro, e com a mesma agilidade que deixaram a lanchonete horas mais cedo, eles agora deixavam o estacionamento para trás.

 

 

Janus dirigiu em silêncio, sem um destino em mente.

Patton abaixou a cabeça, olhando sua blusa branca que agora continha manchas cinzas que ele não sabia como havia conseguido.

A viagem se seguiu por alguns minutos, até que, olhando pela janela, Patton reconheceu a estrada pela qual eles passavam.

— Tem uma ponte ali na frente. — Ele apontou. — A gente podia parar e deixar o Steve tomar água.

Janus franziu as sobrancelhas, olhando de relance para a parte de trás do carro.

— Steve?

Patton afirmou com a cabeça.

— Tá na coleira dele.

Eles chegaram ao local majoritariamente deserto. Janus parou a caminhonete acima da ponte, e Patton foi o primeiro a descer, apoiando os tênis contra o chão de pedras frias e polidas. Ele direcionou-se à parte de trás do carro, abrindo a caçamba e deixando o cachorro sair. Com a guia na mão, eles deram a volta na ponte e desceram uma pequena ladeira ao lado da sustentação que consistia de areia e mato, aproximando-se do rio de água corrente abaixo dela. Steve foi imediatamente em direção a água e, como esperado, começou a beber. Patton soltou sua coleira e sentou-se no chão, colocando o cadarço de volta ao tênis, ouvindo o motor da caminhonete ainda ligada.

O vento ecoava em seus ouvidos, e ele se arrependia de não ter fechado a jaqueta quando pensou nisso a primeira vez. A ponte, assim como suas extremidades, eram iluminadas somente pela fraca luz acinzentada da lua acima deles. No céu azul-marinho, pequenos pontos cintilavam e algumas nuvens estavam à espreita. Patton observou a flora ao seu redor, alto o suficiente para estar na altura dos seus joelhos, e torceu para que nenhum animal aparecesse. A maioria das pessoas se preocuparia com cobras em um ambiente como esse, talvez com sapos por estar perto da água, mas a maior preocupação de Patton eram as aranhas. À sua direita, em um nível mais elevado, a ponte rochosa projetava uma sombra sobre ele.

O rugido do motor parou e passos se aproximaram.

— Parceiros de crime? — Perguntou em um tom de voz arrastado.

Patton soltou um grito agudo e virou-se para trás, vendo Janus de pé um pouco acima dele, com os braços cruzados. Ele tinha a postura ereta, e o cachecol xadrez balançava delicadamente com o vento, o que com a iluminação precária, fazia com que ele se parecesse mais com uma silhueta misteriosa do que com um ser humano.

— O quê?

— Parceiros de crime. — Ele repetiu e deu de ombros. — Você roubou um cachorro.

— Eu não roubei um cachorro. — Patton defendeu-se, ficando de pé e espanando a areia da calça. — Eu só... levei ele pra passear.

— Sem pedir ao dono ou sequer conhecê-lo? — Janus semicerrou os olhos.

— Eu... — Ele gaguejou. — Sim!

— Não, você roubou um cachorro.

Você roubou um cachorro!

— Eu roubei um carro, é diferente. — Janus gesticulou uma das mãos. — Foi sua ideia.

— Foi você quem abriu o carro.

— Tá bom, a gente fez juntos, tanto faz. Ainda é crime do mesmo jeito.

— Não, foi por uma boa causa! Ele tava no calor, eu só queria tirar ele de lá! — Patton atropelou as palavras, apontando para Steve atrás de si.

— Eu nunca disse que não era por uma boa causa. Não é onde eu quero chegar. — Janus olhou para Patton e sorriu brevemente. — Somos parecidos. Não era isso que você queria?

Patton o observou e lembrou-se dos dois atributos questionáveis que estavam em sua lista mental de coisas que ele sabia com certeza sobre Janus. Ladrão. Mentiroso.

— Não somos não. Não temos nada em comum!

— Errado. Nós temos filosofia e roubo. — Janus desceu a pequena colina de areia, parando em frente à Patton.

— Não, só pessoas ruins roubam!

Janus levou uma das mãos ao peitoral, fingindo estar ofendido.

— Patton! E quanto as pessoas que moram na rua e roubam pra sobreviver?

Ele abriu a boca, pronto para retrucar, mas nenhuma palavra veio. Depois de um momento, ele retomou, negando com a cabeça:

— Não. Não, não foi isso que eu quis dizer. Não, já chega. — Patton moveu os braços de um lado para o outro a sua frente. — A gente vai voltar, a gente vai devolver o cachorro e vai devolver o carro, okay?

— Ah, por favor... — Janus começou, mas Patton virou-se de costas para ele, aproximando-se da margem do rio e parando perto de Steve.

A ideia de Patton de voltar e retornar os pertences coletados sem permissão era ridícula, para dizer o mínimo. Principalmente considerando-se que eles haviam conseguido deixar as situações para trás sem maiores consequências. Não havia sentido em negar o óbvio — que crimes foram cometidos —, e Janus não compreendia muito bem por quê Patton insistia em fazer isso. Com os olhos semicerrados, ele observou Patton e pensou. Patton também insistia na afirmação de que roubar te fazia uma pessoa ruim, cometer crimes te fazia uma pessoa ruim. Janus sabia que as coisas não eram tão fáceis assim, como preto no branco. E de repente lhe ocorreu de que talvez Patton não soubesse disso.

O vento gélido do anoitecer cortava seus ouvidos e grilos começaram a ecoar ao redor deles, e Janus deixou que o ambiente fosse preenchido pelos sons da natureza conforme ele pensava.

— Você concordaria com Jean-Jacques Rosseau quando ele disse que o homem é bom e a sociedade o corrompe? — Ele perguntou, pronunciando as palavras devagar e com clareza.

Patton olhou para ele por cima do ombro.

— Não sei. Talvez?

Depois de um momento, ele continuou:

— E você concordaria com Thomas Hobbes quando ele disse que o homem é essencialmente mau?

— Você concorda? — Patton lhe perguntou, o olhar de preocupação se suavizando gradualmente.

Janus deu alguns passos e parou ao lado de Patton, fitando Steve enquanto ele bebia a água.

— Não. Com nenhum dos dois. — Janus virou-se para ele, seus olhos coloridos em um estado de serenidade. — Psicologia, filosofia, antropologia, todas essas áreas possuem o ser humano e a sua existência como foco de estudo. Desde que existimos, temos tentado encontrar as respostas para esses mesmos questionamentos. Somos bons? Somos ruins? Por quê estamos aqui? E essas áreas ainda são relevantes até hoje porque não temos uma resposta de sim ou não. Por que depois de séculos de investigação, chegamos a conclusão de que a humanidade é complexa. É de se esperar que essas perguntas tenham respostas complicadas, se essas respostas existirem um dia. Ninguém é inerentemente bom ou ruim por completo, Patton. Você pode roubar e ainda ser uma boa pessoa. Só depende de como você se vê.

Patton concordou com a cabeça, murmurando algo incompreensível. Rapidamente, Janus continuou:

— Mas sabe... se você realmente quer saber se é uma pessoa ''ruim''... — Janus ofereceu sua mão para ele, a luva amarela destacando-se em meio à escuridão. — Podemos descobrir juntos.

Em silêncio, Patton sorriu suavemente e pegou a mão de Janus.

No chão, Steve virou-se na direção deles. Ele se chacoalhou, fazendo com que respingos de água em sua barba atingisse os dois homens perto de si. Janus protestou, reclamando, mas Patton não se importou muito.

— Podemos ir embora?

Patton inclinou-se para frente, pegando a coleira guia de Steve, e o trio retornou à ponte e ao carro acima deles.

 

— Qual a próxima parada? — Patton perguntou.

— Não sei. — Janus deu de ombros. — Quer que eu te leve pra casa?

— Queria, mas... — Patton olhou de relance para a caçamba do carro. Atrás de Janus, Steve tinha a boca aberta e o vento contra os pelos dourados. — Não tenho certeza como vou entrar com um cachorro desse tamanho.

É claro, voltar para casa não era exatamente o problema. O problema seria como justificar aos vizinhos por quê ele tinha um golden retriever adulto com ele, caso alguém o visse.

Janus manteve-se em silêncio, buscando uma solução. Patton pegou seu celular, pressionou os dedos contra a tela algumas vezes, e momentos depois, anunciou:

— Tem um hotel aqui perto que aceita cachorros. The Sandman Inn.

— É, mas eles aceitam cachorro grande?

Patton deslizou pela tela do celular.

— Aceitam sim. Não é muito longe.

Janus concordou, pronto para seguir as instruções do GPS, quando Patton agarrou seu braço.

— Espera!

— O quê?

— Tem um mercado aqui! — Patton apontou, e do outro lado da rua, uma grande placa com as luzes ligadas indicava o estabelecimento aberto. — Vamos parar aqui. Rapidinho.

— Pra quê? — Janus perguntou, já fazendo a volta com o carro.

— Pra comprar coisas! — Patton falou simplesmente. Quando eles pararam no estacionamento, Patton desceu do carro, mas Janus não se mexeu. — Você não vem?

— Não. Pode ir você.

— Okay. — Patton concordou e rapidamente se afastou, aproximando-se das portas que se abriram automaticamente para ele.

Patton pegou uma cesta da pilha ao lado da porta, e caminhou pelos corredores ocupados somente pela mercadoria. A seção de produtos de limpeza era a mais próxima, e ele atravessou um corredor que continha amaciantes e pregadores de roupa.

''Advogado. Ladrão. Encantador. Mentiroso.'', ecoaram por sua mente, e Patton se perguntou que resposta ele forneceria quando Virgil lhe questionasse se ele gostou de Janus.

Ele virou a direita, agora passando por um corredor que continha vassouras e inseticidas.

Tecnicamente, o encontro deles havia sido estendido pelo resto do dia. Tecnicamente.

Patton olhou de relance para os produtos em outros corredores conforme ele caminhava em frente a eles. Massas. Enlatados e temperos. Laticínios. Congelados.

Ele iria querer um segundo encontro? Supondo que eles não fossem pegos pelos roubos, é claro.

Patton entrou em um corredor de artigos de festas de aniversário infantis.

Mas como o próprio Janus havia dito, nem todas as pessoas que faziam coisas consideradas ruins eram, realmente, ruins. O caso das pessoas moradoras de rua era um bom exemplo.

Ele pegou uma cartela com velas coloridas e a colocou na cesta.

Esta linha de raciocínio funcionaria tanto para Janus quanto para ele.

Patton deu alguns passos adiante e pegou pratos e talheres de plástico, adicionando-os à cesta para que eles fizessem companhia às velas.

Então... era tudo relativo, na verdade. Janus meio que explicara isso também.

Patton retornou ao corredor de congelados. Ele ignorou as grandes portas transparentes que exibiam sorvetes das mais diversas marcas e sabores. Ele parou em frente a um grande estande que exibia bolos prontos, e escolheu um cuja cobertura consistia de granulado e cereja, e o colocou na cesta.

Havia uma decisão a ser feita.

 

Quando Patton saiu do supermercado com uma sacola de compras na mão, Janus estava encostado do lado de fora do carro, fazendo carinho em Steve. 

— Pronto? 

— Pronto. Podemos ir. — Patton confirmou, sorrindo.

Mais uma vez, eles retornaram à cabine da caminhonete e seguiram seu caminho.

 

The Sandman Inn. estava aberto vinte e quatro horas por dia.

Era um lugar limpo e silencioso, e o carpete na recepção era vermelho e dourado.

Eles se registraram e a balconista lhes entregou a chave do quarto 9E, com duas camas.

Janus e Patton adentraram o elevador. A coleira guia de Steve em uma mão, as chaves da caminhonete em outra, as ecobags do shopping nos ombros e a sacola de supermercado em outra mão.

Chegando ao quarto, eles deixaram ambas as bolsas com roupas em cima da cama. Janus retirou a coleira guia de Steve, que começou a farejar o quarto por inteiro. Patton aproximou-se de uma pequena mesa que ficava em frente as camas e colocou sua sacola em cima dela, retirando as compras uma a uma. Ele retirou a tampa plástica do bolo e o colocou no centro da mesa, abrindo a cartela de velas coloridas.

— Apaga a luz? — Ele pediu, e um pouco hesitante, Janus o fez. Do lado de fora, a lua acinzentada produzia um leve feixe de luz que invadia o quarto pela janela, impedindo que eles ficassem completamente no escuro.

Patton sentou-se em uma das cadeiras, e Janus retirou o chapéu e juntou-se a ele do outro lado. Steve também se juntou a eles, deitando-se aos pés de Patton.

Durante o pagamento, Patton havia pegado uma caixa de fósforos no último minuto. Ele espalhou quatro das velas coloridas na extremidade mais perto de Janus, e agora, as acendia.

— Então, — Janus começou, com uma postura terrível no assento. Mechas de seu cabelo castanho escuro caíam sobre um de seus olhos. — Suponho que vamos dar adeus um ao outro pela manhã?

Patton sorriu em silêncio, colocando o restante das velas na extremidade mais próxima de si.

— Não, acho que não.

Janus semicerrou os olhos. Ele inclinou-se para frente e, com um sopro, apagou as velas que estavam acesas. Imediatamente, Patton começou a acender as que havia posicionado por último.

— Eu topo um segundo encontro, na verdade. — Ele explicou, o olhar focado na cera e no fogo. — Acho que tem mais sobre você que eu não sei.

— Eu faço cosplay, se é isso que você quer saber. — Janus desviou o olhar, cruzando uma perna sobre a outra.

Patton parou onde estava e riu, fazendo uma anotação mental de voltar a esse assunto mais tarde.

— Foi você quem sugeriu que a gente descobrisse se somos pessoas ruins juntos. — Ele disse, terminando de acender as velas.

Ambos se encararam por um breve momento, antes de Janus perguntar, em seu tom preguiçoso habitual:

— Agora estou preso com você, não é?

Patton apoiou ambos os cotovelos horizontalmente sobre a mesa. Ele olhou seu celular ao seu lado, e o 23:59 na tela de bloqueio se transformou em 00:00, acompanhado da data 1 de março.

Era meia-noite.

Era seu aniversário.

Era aniversário deles.

— Feliz aniversário, Janus.

Janus ergueu os cantos da boca minimamente, o suficiente para passar despercebido.

— Feliz aniversário, Patton.

E Patton soprou as velas, deixando-os no escuro.

Notes:

Aniversários no fandom de Sanders Sides são uma coisa meio confusa. Acho que na maioria das vezes, se comemora o aniversário de ''primeira aparição'' dos personagens, mas ás vezes, também pode ser a data de revelação do nome. Por volta de janeiro e fevereiro, isso me confundiu quando Patton e Janus tiveram os aniversários de primeira aparição quando eu achava que essa data era, na verdade, dia 1o de maio. Eu dei uma pesquisada e vi que 1o de maio era a data de revelação do nome deles dois. Então eu pensei em um soulmate au que as pessoas compartilhassem o mesmo aniversário. Eu pensei na cena final em que eles apagam as velas e ficam no escuro, e se fosse um filme, a tela ficaria preta e essa seria a cena final. Eu pensei em Patton admirando Janus no início da viagem de carro enquanto Black Hole Sun tocava (que é uma música da playlist do Janus, a propósito). A partir daí eu fui adicionando mais coisas, e de início eu não pretendia fazer uma fanfic be gay do crimes literalmente. Eu sei que a discussão deles na ponte foi uma das últimas cenas que eu pensei, e também não pretendia ser sobre um assunto ''sério'', mas acho que tomou esse rumo por que no início do mês eu tinha acabado de ler uma fanfic de logince (Kill The Lights) que tem essa dualidade de pessoas boas vs. pessoas ruins como um dos temas, e eu ainda tava com isso em mente. Essa fic foi bem mais trabalhosa do que eu esperava, e é uma jornada em todos os sentidos — que é uma coisa que eu gosto em fanfics. Enfim, feliz aniversário pros pais dos sides.