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Characters:
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Language:
Português brasileiro
Collections:
EXO Disney Fest 2021 - Round 1
Stats:
Published:
2021-05-07
Completed:
2021-05-07
Words:
15,035
Chapters:
3/3
Comments:
29
Kudos:
26
Bookmarks:
4
Hits:
250

Questão de Honra

Summary:

Quando a China entra em guerra, pelo menos um homem de cada família é convocado à luta. O patriarca dos Zhang, porém, não tem capacidade de atender o chamado e cabe a Yixing ir em seu lugar. Sem nunca ter empunhado uma espada na vida e sem ter conhecimento sobre batalhas, Yixing pede aos seus ancestrais que o enviem a ajuda de Shenyang, o dragão guerreiro. Acontece que o dragão que lhe aparece chama-se Baekhyun, e não é tão guerreiro assim.

Notes:

Eu estou muito feliz de estar aqui contribuindo com esse fest incrível! Parabéns a todos os envolvidos, tá tudo muito lindo!

Quero agradecer a Noire por ter betado essa história! Agradecimentos também à doadora do plot! Fiquei muito tentada em pegar pra escrever e aqui estou eu! Achei um pouco desafiador escrever uma história sobre guerra e comédia, mas tentei o meu melhor.

Fiz uma playlist pra ajudar na leitura, vocês podem ouvir clicando na palavra dragão.

Aproveitando o espaço, quero mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai, e pra minha vaca...que eu não tenho, mas adoraria ter uma.

Boa leitura~♡

Chapter 1: Coragem

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

 

Muito além do mar, sob o alto das montanhas, depois do lago e da floresta, uma luz se acendeu na torre da muralha. Uma chama ardente que balançava o céu e avisava para quem estava longe: estamos sendo atacados.

Era noite e ninguém esperava a surpresa que só um Huno poderia proporcionar. A surpresa do espanto, provocado pelo sorriso sombrio de quem tem completo controle de sua tropa, e uma tropa controlada para matar. Um homem robusto apareceu da escuridão, como se lá fosse sua casa, e agora visitava a luz, com o único objetivo de amedrontar. Não é preciso dizer muito para entender que o imperador estava em perigo e ali um conflito se iniciava. Será preciso cautela e homens o suficiente para garantir que nada aconteça. Mas esse pensamento é fantasioso, algo vai acontecer sim, e o exército Huno é grande e poderoso o suficiente para exigir um exército forte por parte da China. Então era bom já ir se preparando.

O soldado que lançou a tocha sobre as brasas, correndo para levar a notícia o mais rápido possível, já não está mais vivo para contar a história, e os soldados próximos a ele agilizam como podem para chegar aos outros pontos de fogueira, e avisar o quanto antes para todos se prepararem, pois a China está em guerra.





 

Yixing tocava um guzheng no jardim. As cordas saltitando pelos puxões, e a música entrando em harmonia com as folhas das plantas. Tão submerso nas sensações, que mantinha os olhos fechados e o corpo balançante. Nem notou o lenço comprido e esvoaçante de sua mãe se aproximar. Por isso, tomou um susto com o tecido praticamente lambendo sua cara.

Despertou assustado, e a mulher riu.

— Parece muito distraído.

— Não, eu estava só… — Yixing tentou contornar, mas se deu por vencido. — É, eu estava distraído. Nem notei a sua presença.

— Você não pode ser tão distraído assim. Como um Zhang, você deveria saber que distração não pode fazer parte de nós. 

— Eu sei, mãe. Mas só estava tocando, não estou em perigo.

— Seu pai também não estava em perigo quando foi atacado. — A mulher juntou as sobrancelhas e olhou fixamente para o filho, de maneira a frisar que de certas coisas não se pode esquecer. Apesar de parecer séria, amenizou sua expressão de repente e soltou um sorriso suave, estendendo a mão para que o filho segurasse. — Vem, a comida já vai esfriar.

Yixing e sua mãe entraram em casa. O guzheng ficou no jardim, chamando borboletas para pousarem nele. Era verdade que o instrumento musical praticamente fazia parte daquele lugar, pois o Zhang tocava-o quase todos os dias, mas não podia pegar chuva, por isso, quando Yixing fez a mãe soltar sua mão, correu de volta para o jardim e apanhou o guzheng para guardá-lo. 

A mãe, uma mulher cuidadosa com a beleza e de trejeitos delicados como um dente-de-leão, cuidava de colocar a comida na mesa enquanto via o filho se estreitando pelos cantos com um enorme instrumento de madeira nos braços. Ele até quase trombou com o pai, que veio do templo pela porta dos fundos e estava alheio à movimentação que acontecia dentro de casa no momento. 

Sendo apenas os três, viviam daquela forma há um bom tempo. Desfrutavam da calmaria da cidade e da boa reputação que tinham. O patriarca da casa era um soldado que lutou pelo país por longos anos e conquistou o título de general, sendo um dos melhores de sua época. Porém, acabou sendo vítima de um atentado que o impossibilitou de continuar exercendo seu trabalho. Agora vivia com a ajuda do governo e do trabalho com carpintaria que fazia ao lado do filho, construindo instrumentos musicais. Apesar disso, esperava que Yixing seguisse os passos do pai e virasse um guerreiro para trazer de volta os status grandiosos da família.

Durante o almoço, comiam todos calados. E foi aproveitando esse momento que o homem mais velho da casa decidiu plantar sua semente para indicar seus desejos sobre o mais novo.

— Já pensou em começar a treinar para entrar no exército, filho? — o senhor Zhang cortou o silêncio. Estavam os três de cabeça baixa, concentrados no almoço. Era só uma conversa rotineira.

— Estão pedindo instrumentos lá? — Yixing perguntou distraído, enquanto comia.

— Estão pedindo soldados.

Quase soltou uma risada. Seus pais estavam há anos tentando fazer Yixing se tornar um guerreiro, mesmo depois de ele ter avisado que não tinha planos de seguir a carreira da família.

— Eu não nasci pra isso. 

— Como não, Yixing? — o pai largou os talheres — A nossa família é composta por guerreiros. Você deve se tornar um também para…

Yixing largou o bolinho que comia e levantou o olhar para o pai.

— Podemos comer primeiro e ter essa conversa depois? 

— Se você não tem coragem de enfrentar essa conversa agora, por que teria mais tarde?

— Porque mais tarde vou ter pensado em respostas melhores.

— Você respondeu pra mim?

— O senhor perguntou! — Yixing juntou as sobrancelhas e formou um bico enquanto falava.

— Era retórico! 

— Podia ter avisado...

— Yixing! 

— Pai!

— Meninos, parem! — a senhora Zhang gritou no meio dos dois, logo depois massageando as têmporas, enquanto os homens da casa se recuperavam do susto repentino — Podem comer sem brigar, por favor?

— É esse garoto que não quer seguir o próprio destino! — o senhor Zhang apontou para o filho, tentando justificar para a esposa seu comportamento na mesa.

— O destino de morrer na guerra? — Yixing retrucou.

— Até parece que está tendo uma guerra agora. — o senhor Zhang revirou os olhos, mal sabendo que pagaria pela própria boca, pois assim que terminou sua frase o tambor que ficava na rua para chamar atenção de todos quando precisasse estava sendo tocado.

Os Zhang se entreolharam surpresos e levantaram para descobrir qual era o motivo daquela movimentação. Chegando em frente de casa, já haviam alguns moradores preenchendo as calçadas. No meio da rua, um mensageiro montado em um cavalo, e a julgar pelos guardas ao seu lado e as bandeiras que seguravam, ele vinha do palácio. Já estava rolando uma fofoca pelos minutos de espera. As pessoas se perguntavam se iriam aumentar os impostos, se os casamentos daquela temporada seriam adiados ou até se o imperador havia morrido. O mensageiro com pouca paciência na expressão pigarreou bem alto para que todo mundo calasse a boca. Então puxou um papiro em frente ao seu rosto.

— Atenção, moradores! — ele gritou — Gostaria de lhes informar que o exército Huno invadiu as muralhas e estão indo em direção à capital. — o mensageiro olhou para os moradores esperando reação, mas ninguém disse nada. Talvez não tivessem entendido — Isso significa que a China está em guerra.

Um murmúrio se formou, só com gente repetindo o que já havia sido dito. E o mensageiro, com a paciência pequena como um gafanhoto, pigarreou tão alto que estavam quase lhe oferecendo um chá para aliviar aquele maldito catarro no peito. Todos se calaram, e ele pôde voltar a falar.

— Com isso, será exigido o homem mais velho de cada família para compor nosso exército. Já que o exército dos Hunos é muito grande e poderoso e nós não podemos dar a chance da derrota. 

Com o fim da fala, a rua ficou num tremendo silêncio. Guerra? Exército? Seria melhor que os impostos fossem aumentados. Ninguém gostava de guerra, nem os guerreiros. O senhor Zhang, por exemplo, engolia a seco com a notícia, e ele havia sido um grande guerreiro de sua época. Aquela tensão não passou despercebida por Yixing, que analisava a expressão de todos ali. Estavam chateados, com medo e ansiosos.

O mensageiro começou a chamar as famílias para que os homens pegassem um documento que indicava sua ingressão no exército, e recebendo aquilo, não havia opção senão ir para os campos de treinamento. Era um chamado sem possibilidade de recusa. Uma notícia tão repentina que chocava qualquer um, pior ainda para os homens que iriam representar o país em batalha, principalmente homens calejados, como o senhor Zhang.

— Pai… — Yixing tentou chamar a atenção do homem mais velho por um segundo, mas este se afastou no mesmo momento para ir buscar seu documento com o mensageiro. O senhor Zhang mancava, era um usuário de bengala há mais de dez anos, tinha dores nos joelhos e o estômago não era forte. Yixing não conseguia enxergar seu pai voltando daquela guerra, e isso o apavorou.

Seu pai não trocou palavras com ninguém depois de pegar seu chamado. Apenas entrou em casa, com o rosto sério, do tipo determinado a algo. Mas Yixing não ligava para aquela determinação, a China que se vire.

— Pai, o senhor não pode ir. — Yixing correu até o pai, tentando impedi-lo de entrar em casa — Volte lá e devolva esse papel.

— O que você está falando, garoto? Não é uma escolha, é uma obrigação. — o senhor Zhang empurrou Yixing para o lado e entrou na residência. Sem se dar por vencido, o garoto voltou a segui-lo.

— Mesmo assim! Já vai muita gente pro exército, um a menos não faz falta. — Yixing apontou, sua melhor justificativa até o momento.

— Yixing, não é mais uma brincadeira. É a guerra. — a voz do mais velho estava neutra, mas era visível que ele começava a se estressar. Yixing, porém, não se abalou.

— E quem disse que eu estou brincando? O exército não é mais para o senhor, até aposentadoria a gente recebe!

— Todo guerreiro tem que voltar à luta quando é chamado. Não existe aposentadoria. 

— Mas devia, afinal, o senhor…

— Dá pra parar de ficar tagarelando no meu ouvido? — O senhor Zhang o interrompeu, batendo sua bengala no chão para chamar atenção — Você está me envelhecendo assim.

— Isso! Velho! — Yixing estalou o dedo, como se tivesse pensado em uma ótima ideia — O senhor está velho!

— Tá tirando com a minha cara, garoto?

— Não, eu tô dizendo a verdade. Quero dizer que…

O senhor Zhang que até então respondia tudo de costas se virou com pressa para trás, olhando fixamente para Yixing. Os dois tinham quase o mesmo tamanho, mas, com a cara de bravo, o pai de Yixing parecia ser um metro mais alto. Estava enorme.

— Yixing! Saiba seu lugar!

— Lugar de quê!? De órfão? — Yixing gritou, alcançando a altura colossal do outro. — Porque, se você for, é isso que eu vou virar!

Os olhares tinham faíscas e Yixing estava pronto para gritar de novo, mas as faíscas dos olhos de seu pai se apagaram e por um momento ele pareceu ferido. Yixing percebeu a mudança e os dois voltaram aos seus tamanhos normais. Porém, as palavras ditas não poderiam mais serem extinguidas.

— Alguns sacrifícios são necessários pelo país. — o senhor Zhang disse baixo, antes de se virar e entrar em seu quarto, deixando Yixing bufando de raiva, apesar de estar completamente triste por dentro.

As coisas não poderiam ficar assim.







 

Yixing queria passar longe do exército, aquilo não era para ele. Entretanto, depois da vinda do mensageiro e da teimosia de seu pai, algo nasceu no Zhang. Uma vontade de enfrentar aquela provação, uma determinação de contornar a situação, a coragem de proteger seu pai.

Naquele fim de dia, só se passava na cabeça do caçula dos Zhang que aquela história não poderia continuar daquele jeito. País nenhum tinha direito de destruir sua família; Yixing procuraria a justiça com suas próprias mãos.

E com esse pensamento, Yixing decidiu que iria à luta. Não pelo país, mas por sua família. Por seu pai.

Não ofereceria o patriarca como isca aos Hunos. Seria melhor que alguém inexperiente e inútil como ele fosse jogado às feras do que um guerreiro de nome, mas calejado pelo tempo. Acabariam exigindo muito do mais velho e Yixing não iria se perdoar se visse sua mãe chorando pela perda do marido quando a situação poderia ter sido evitada. Era por isso que iria em seu lugar.

Assim que o sol se pôs, Yixing começou a colocar seu plano em prática. Arrumou uma trouxa com algumas coisas e se esgueirou pelos corredores da própria casa para conseguir entrar nos aposentos do pai sem ser percebido. Os mais velhos conversavam na sacada antes de decidir dormir e nem notaram a movimentação. Assim que entrou no quarto foi rapidamente até a mesa onde estava o documento de ingressão no exército. Perto de sair, viu a espada que estava em um apoiador. Olhou para ela por alguns segundos, como se ponderasse algo, então foi até ela e a levou consigo. 

Perto de completar a primeira fase de sua missão, porém, foi interrompido. Assim que desceu os degraus que o levariam para o jardim de sua casa, ouviu uma voz feminina soar atrás de si, e quando se virou sua mãe estava ali parada.

— O que você vai fazer? — sua voz soou calma, mas repreensiva. Yixing respirou fundo e decidiu não esconder a verdade dela.

— Não posso deixar que o papai vá para a guerra. Tenho medo que ele não volte...

— Mas e você? — ela desceu os degraus também e se aproximou para segurar o rosto do filho com as duas mãos — Você que nunca lutou e nunca gostou dessas coisas… você vai voltar?

— Eu gostaria. — Yixing sorriu minimamente para a mãe com o carinho. Entretanto, pensar em ir para a batalha completamente despreparado não lhe animava muito — Mas não tenho certeza se consigo.

A mulher deu um sorriso triste e puxou seu filho para um abraço apertado. Ela queria que seu filho virasse um guerreiro, mas não precisava ser rápido assim. Ainda mais com um garoto tão avoado e sem jeito como o seu. Se algo, por menor que fosse, pudesse ajudá-lo, conseguiria para ele.

— Vá ao santuário antes de sair. Peça aos ancestrais que te ajudem.

— Não precisa, mãe, eu estou bem.

— Precisa sim! Eles não tem muito o que fazer mesmo. Vá lá.

Yixing decidiu concordar com sua mãe para que ela não insistisse mais. Seguiu andando pelo jardim e a deixou para trás. Não estava em seus planos parar no santuário da família e falar com os seus ancestrais, mas como já estava ali, não custava nada bater um papo com eles.

Entrou no santuário e acendeu uma vela e um incenso, que tinham lugares específicos para ficar. Depois fez uma longa reverência, ele se sentou sobre os joelhos, olhando para as pedras brilhantes que o refletiam, com os nomes dos ancestrais gravados.

— Vocês eram todos guerreiros, não é? — Yixing começou, como quem conversa com um amigo. Já havia acompanhado sua mãe nas orações que ela fazia, mas havia sido quando era criança, e depois disso raramente conversava com os ancestrais. Às vezes para pedir favores, e da forma descontraída como falava agora — Olha, eu sei que disse várias vezes que não seria um guerreiro, mas agora eu preciso de uma ajudinha pra virar um. Qualquer coisa! Um conselho, um músculo, de preferência no meu braço porque acho que me valoriza…

Enquanto Yixing tagarelava com os ancestrais, os próprios, que haviam despertado com o incenso, ouviam sua ladainha. Estavam na forma espiritual, flutuando um pouco acima do Zhang mais novo da família e conversando entre si sobre a situação. Até porque os ancestrais não iriam conseguir fazer muita coisa senão conversar, mudar de plano não era com eles, era com outros seres, seres como os dragões. Os dragões que protegiam os mares, as plantações e os ares, e que também protegiam os guerreiros. 

O dragão do qual Yixing poderia recorrer chamava-se Shanyang. Ele havia acompanhado a família Zhang por gerações assim como também acompanhou todos os grandes guerreiros que passaram pela China. Ele era poderoso o suficiente para enxergar em um simples rapaz a chama de um soldado valente, mesmo que parecesse invisível em primeiro momento. Ele estava de olho em tudo.

Claro, quando acordado, pois agora estava dormindo.

Apesar de poderoso, Shenyang era um dragão muito dorminhoco, e só acordava com um chamado específico, proporcionado por um espírito de dragão menor, o guardião das almas. A família Zhang era protegida por Shenyang e por muito tempo não precisou do espírito guardião. Apenas nas últimas gerações, quando os ancestrais começaram a ser menos visitados e a família se viu diminuindo, foi que Shenyang encerrou seus trabalhos e um espírito guardião apareceu. Chamado Baekhyun, ele era um espírito responsável pela segurança dos ancestrais de cada família, garantindo que não fossem esquecidos e apagados da história com o passar dos anos. Não pertencia a uma família em específico, mas poderia ficar em uma por muitas gerações, caso fosse confortável. Espíritos como Baek eram espíritos livres, que davam conforto e eram respeitados pelas almas. Ou deveriam ser. Pois nem tudo nessa vida é perfeito. 

Infelizmente a chegada de Baekhyun não foi muito bem recepcionada pelos ancestrais, uma vez que seu jeito peculiar não agradou muito e mesmo estando ali a mais ou menos cem anos, ainda era tratado como uma criança. Seja por conta de seu comportamento ou sua aparência infantil. Certo que ele não era o espírito mais renomado existente, mas tinha seu charme. Nascido especialmente para ser um acompanhante do grande Shenyang, tinha habilidades peculiares aos do dragão guerreiro. Habilidades essas que nunca usou, pois ninguém lhe dava importância o suficiente para enviá-lo em qualquer missão. Por isso não fazia muito além de ficar conversando sozinho e fazer pequenas brincadeiras para se distrair. Como fazia agora. Mais do que entediado, ele mexia as mãos na sombra da vela que Yixing acendeu para formar figuras. 

— Faz tempo que eles não fazem preces pra gente, né? — um ancestral chamado Yibo se aproximou de Baekhyun. Ele era jovem e também não era muito levado a sério, afinal, havia morrido depois de escorregar em uma pedrinha que o fez cair de um penhasco.

— "Pra gente" quem? Eu não estou nessa lista. — Baekhyun tentava fazer um cachorro com as mãos, mas estava difícil de executar, optou por continuar apenas na pomba.

— Você ainda está magoado com isso, Baekhyun? Já faz uma década.

— Eu sei, mas precisava dizer que eu sou invisível? Machuca, sabe?

— Tecnicamente todo mundo aqui é invisível. — Yibo olhou em volta, vendo os ancestrais flutuando pelo santuário —  Acontece que você não viveu pra alguém na terra lembrar de você.

— Correção: eu nem morri. Sempre fui um espírito. — A pomba que Baekhyun fazia virou um dedo que apontou para Yibo — E você está me magoando de novo.

— Desculpe…— Yibo sorriu sem graça e Baekhyun balançou os ombros em resposta, dizendo que não se importava de verdade. O ancestral voltou a olhar para o homem vivo no santuário embaixo deles, e então fez uma expressão de pena.  — Tadinho do Yixing, está falando há cinco minutos para o nada. Como a vida dos vivos é complicada…

Baekhyun olhou para trás por cima do ombro apenas pelo instinto da curiosidade, mas a visão o fez terminar de virar o corpo. Ali embaixo estava um rapaz jovem de rosto estreito e cabelos escuros. Talvez porque Baekhyun já estivesse há anos olhando para as mesmas caras dos ancestrais, mas aquele novo rosto o chamou atenção. Outra coisa que o chamou a atenção também foi o fato do cara estar tagarelando como alguém que tem muito tempo livre, contando sobre sua vida.

— Esse garoto não sabe nem o que pedir. — Baekhyun balançou a cabeça rindo e cruzou os braços. O cara era bonito e burro, do jeitinho que gostava — Ele precisa chamar o dragão guerreiro.

— Eu ouvi dizer que existe um dragão guerreiro… — Yixing de repente disse em meio ao seu monólogo.

— Ele tá ouvindo a gente? — Baekhyun sussurrou para Yibo, surpreso. O ancestral ao seu lado também estava surpreso, mas balançou a cabeça para os lados querendo dizer que Yixing não conseguia ouvi-los.

— Ancestrais, eu peço a sua ajuda. Que o dragão guerreiro olhe por mim e me ajude nessa batalha. — Yixing clamou, curvando-se lentamente e ficando na posição por um tempo.

As almas que estavam dispersas até o momento, se viram atraídas pela situação e começaram a se juntar em grupos maiores. Yibo também foi conversar com outros ancestrais e Baekhyun ficou sozinho onde estava. Acostumado em ser deixado para trás, o guardião se sentou em uma viga do santuário, já que de todo mundo ali em cima ele era o único que sentia as pernas. 

Um dos ancestrais — talvez o mais antigo — balançou a cabeça com a ação do jovem, então se virou para os outros ancestrais e começaram a cochichar. Baekhyun balançava suas pernas suspensas, esperando a fofoca chegar até ele. Normalmente o atualizavam logo depois de alguns minutos. Como esperado, os ancestrais se viraram para Baekhyun depois de um tempo e o velho ancestral trocou sorrisos com Baekhyun, claramente forçados, pois os dois não se davam muito bem.

— Baekhyun, chame Shenyang. 

O sorriso de Baekhyun murchou. Mesmo sendo sua função mais relevante, odiava acordar Shenyang, ainda mais porque ele não era muito amigável logo quando acordava.

— Ele tá numa soneca tão boa...não quero estragar a paz do cara.

— Baekhyun. — o velho ancestral estreitou o olhar  — Chame o Shenyang.

Baekhyun revirou os olhos e se levantou. Marchou em passos quase caricatos em direção ao velho ancestral e esticou a mão, pois era ele quem tinha o amuleto que seria usado para acordar o dragão. Era um cordão com uma pedra azul. Um amuleto capaz de trazer de volta ao mundo dos vivos todo aquele que um dia morreu, ou então, aquele que existe de acordo com as necessidades, como o dragão guerreiro.

Baekhyun tentou não ir e terminar o serviço. Tentou dar passos lentos ou até então andar para trás, mas o velho ancestral, já acostumado com sua birra, colocou uma mão em suas costas e o foi empurrando até chegar no chão do templo, onde o grande dragão guerreiro estava — de maneira quase contraditória — pequeno, como uma estátua de bronze deitada na mesa das oferendas.

Yixing seguia deitado com a testa colada no chão. Rezando mais para não morrer de forma cruel do que rezando para sair vivo.

Mesmo sabendo que não seria visto, Baekhyun foi na ponta dos pés até seu destino, logo na frente de Yixing. O dragão estava lá tirando uma boa soneca. Então Baekhyun colocaria o cordão em seu pescoço, Shenyang acordaria mal humorado, lhe daria uma baforada de fogo e perguntaria o que estava acontecendo para dali tomar as rédeas da situação.

Mas Baekhyun já se via cansado de ser só um despertador. Queria poder mostrar seu valor, queria uma estátua na mesa das oferendas ou o nome gravado nos mármores do tempo. Baekhyun queria poder ser respeitado de verdade e sabia que para isso precisaria fazer algo importante. Não era bobo, e via que aquela ocasião ali parecia ser uma ótima oportunidade para alcançar seu objetivo.

Por isso, quando direcionou o amuleto a Shenyang, não passou o cordão por seu pescoço, em vez disso, apenas aproximou a pedra do seu coração, esperando que o dragão acordasse pela metade. Como esperado, Shenyang soltou murmúrios, mas continuava pequeno como estátua de bronze. Ele havia sido semi-acordado, e pela primeira vez na história um espírito poderoso como ele era apenas semi-ressuscitado.

— O que você quer? — Shenyang murmurou. Os olhos semicerrados pela preguiça de acordar.

Baekhyun sorriu pelo plano ter surtido efeito. Mesmo reclamando a torto e a direita, Baekhyun e Shenyang eram quase irmãos, dessa forma, o espírito guardião tinha certa confiança de que, ao pedir um favor com jeitinho, seria atendido. Se aproximou com calma dos ouvidos de bronze do dragão e se preparou para sussurrar ali.

— Quero que você me transforme em gente.

— E o que eu ganho com isso?

— Mais sono.

Shenyang abriu um olho por completo e encarou desconfiado a cara travessa do seu irmão. Baekhyun não mudou sua expressão confiante e foi vendo essa confiança que o único olho aberto — mas muito sábio — de Shenyang se fechou.

— Ótimo. — foi a única coisa que ele disse. Então a fumaça do incenso ficou mais forte e mais densa, começando a preencher o ambiente. Baekhyun observou a mudança encantado e sorriu quase maleficamente quando olhou para cima e viu com nitidez a cara de raiva do velho ancestral, junto com os outros que cochichavam entre si.

Velho ancestral 0, Baekhyun 1.

Yixing começou a sentir o cheiro do incenso de forma mais intensa, o que obviamente estranhou, saindo assim de sua reverência demorada. A fumaça estava densa e foi difícil para Yixing ver alguma coisa no início, mas com a ajuda do vento o ambiente foi voltando ao normal e logo já estava vendo novamente o tapete, as paredes, o incenso, a mesa, um cara...

Espera...um cara!?

Algo muito estranho havia acontecido ali. Yixing levantou a cabeça e um cara completamente desconhecido com mechas vermelhas no cabelo estava parado na sua frente com um sorrisão no rosto. Com o susto, Yixing se arrastou para longe do que quer que fosse aquele estranho vindo do além. 

Havia pedido para não morrer dolorosamente, mas morrer de susto era a melhor alternativa?

— Foi aqui que pediram um dragão guerreiro? — O desconhecido perguntou pomposo, como quem apresenta um espetáculo.

Caído no chão e se apoiando com os cotovelos, Yixing encarava aquela situação com uma sobrancelha arqueada. Seus pedidos foram realmente atendidos? Cadê os músculos nos seus braços então?

— O que? Não sei do que você está falando.

— Você pediu e chegou. Agora vai se fazer desentendido?

— Não achei que alguém realmente fosse aparecer. 

— Pois bem, apareceu. O melhor, por sinal. — Baekhyun apontou para si mesmo, convencido. Então colocou as duas mãos na cintura, lembrando do extenso monólogo que o Zhang fazia minutos atrás, contradizendo completamente com a urgência da situação em que se encontrava — Agora...você não tem um país pra salvar, não? Está aí há horas. 

Yixing suspirou, com sua expressão deixando de estar assustada para assumir um semblante tristonho.

— É complicado... — ele olhou para o lado, onde suas coisas e a espada de seu pai estavam embrulhadas.

— Não há nada complicado que eu não possa resolver, meu amigo. — Baekhyun bateu uma palma, se aproximando de Yixing e lhe estendendo uma mão para ajudá-lo a levantar — Então levanta essa bunda daí e vamos à luta.

Yixing aceitou a ajuda e voltou a estar de pé com suas coisas nas mãos. Baekhyun sorriu para ele, simpático. Por que Yixing estava tão tranquilo com aquele esquisitão que lhe apareceu do nada? E se fosse só um desconhecido que decidiu pregar uma peça? Ou pior! Um Huno disfarçado!

— Espera, como eu vou saber se você realmente é o dragão guerreiro? — Yixing olhou desconfiado para o outro, já segurando sua espada com mais firmeza caso precisasse (e esperava que não, pois não sabia usar a espada).

— Sei lá. Confia em mim. — Baekhyun ergueu os ombros. Só pensou no início do plano, o resto ficava na emoção do improviso. 

Yixing não pareceu completamente contente com a resposta, mas decidiu aceitar. Se estivesse ali para matá-lo não seria tão amigável, ou então já teria feito o serviço logo. O jeito era aceitar aquela ajuda. Se é que aquilo que estava se submetendo era uma ajuda de verdade.

— Eu nem ao menos sei seu nome.

— É Byun Baekhyun. —  ele estendeu a mão outra vez — Muito prazer.

— O meu é Zhang Yixing. — Yixing agarrou sua mão e elas balançaram juntas no cumprimento. Os dois sorriram um para o outro, a simpatia que normalmente se tem quando se conhece alguém novo.

— Certo, Yixing. Então a gente tem uns Hunos pra derrotar, não é?

— A gente não. O exército.

— E você está indo para onde?

— Para o...exército.

— Muito bem! — Baekhyun exclamou contente, como se estivesse falando com uma criança. — Vai ser uma longa jornada, parceiro, mas a gente vai se divertir.

— Ancestrais, eu quero refazer meu pedido... — Yixing sussurrou enquanto olhava para os céus. 

O que disse? — Baekhyun apareceu do seu lado de repente, até lhe fazendo dar um pulo pela surpresa.

— Nada! — Yixing soltou um sorriso aberto para disfarçar.

Baekhyun aceitou a resposta e passou um braço sobre o ombro de Yixing, saindo junto com ele do templo, feliz da vida. Finalmente estava livre. Não conseguia mais enxergar os espíritos dos ancestrais, mas esperava que eles estivessem se revirando no templo. Doidinhos ao saber que o espírito guardião havia conseguido independência e mostraria que poderia ser muito mais do que um mero despertador de dragão. Nem que para isso precisasse fingir ser um dragão guerreiro para um medroso com síndrome de herói.

Notes:

Glossário:

Hunos: Foi uma antiga confederação eurasiática de nômades ou seminômades.
Guzheng: Guzheng ou Gu Zheng, também chamado de zheng, é uma espécie de cítara chinesa (instrumento musical). Tem em média 26 ou mais cordas e pontes
móveis.
Shenyang: Dragão guerreiro e fictício criado pela autora. Seu nome do chinês significa Espírito (Shen) de Proteção (Yang).