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Capítulo Único - Sabonete Anal
Kyungsoo entrou apressado na biblioteca da Universidade, mas logo desacelerou seus passos ao ver que a bibliotecária o olhava por cima dos óculos. Sorriu gentil para a senhora, que não retribuiu e voltou a folhear sua revista.
Subiu até o segundo andar, onde eram disponibilizadas várias mesas para os universitários estudarem, e procurou por Jongdae. Assim que o viu, bem afastado da escada, se direcionou até à mesa, vendo que o amigo já havia começado o trabalho sem ele.
— Desculpe-me o atraso, Chen. — Falou ao sentar ao lado do amigo. — O professor encerrou a aula um pouco tarde.
— Tudo bem, Kyung. — O mais velho sorriu para ele. — Eu cheguei há pouco tempo também, e comecei a grifar algumas coisas importantes para o trabalho.
Kyungsoo estava fazendo Inglês e estava no segundo semestre do primeiro ano. Conheceu Jongdae, que já está no segundo ano da faculdade, em uma das cadeiras que fazia e se tornaram amigos rapidamente, já que o mais velho era muito receptivo e fez amizade consigo muito fácil.
— Kyung, você acha que isso tá bom ou precisamos de mais? — Jongdae perguntou depois de umas três horas grifando livros e fazendo anotações em seu caderno. Os dois ficaram tão focados no trabalho que talvez nem prestaram atenção em quanto tempo estavam ali na biblioteca.
O mais novo largou a caneta sobre o caderno e se espreguiçou, logo tentando conter um bocejo. — Acho que sim, agora só temos que organizar tudo e montar o seminário.
Olhou ao redor e percebeu que a biblioteca estava mais vazia do que quando chegara lá, observou os poucos estudantes e bateu seus olhos em Park Chanyeol, um estudante de Música que conhecia por causa de outros amigos (e que também era seu crush secreto), e ficou o observando enquanto o mais velho escrevia. Chanyeol o viu e acenou, sendo respondido por acenar rápido da cabeça de Kyungsoo — o mais novo se sentiu aliviado por ele não ter percebido suas encaradas.
— Podemos fazer isso amanhã, certo? — O mais velho perguntou. — Estou muito cansado e já são mais de oito horas, está ficando tarde.
— Uhum… — Kyungsoo começou a fechar os livros e o caderno. — Mesmo horário amanhã?
— Talvez eu chegue um pouco... — Jongdae interrompeu a própria fala ao ver o braço do mais novo. — Por que precisa de um sabonete anal?
— O quê? — Kyungsoo perguntou confuso. De onde o mais velho tirou aquela ideia?
— Seu braço. — o Kim apontou. — Está escrito que precisa comprar.
Kyungsoo logo olhou para os dois braços, procurando tal frase, e lá estava, em seu braço esquerdo: “Não esquecer de comprar o sabonete anal.”
— Mas eu não escrevi isso. — Ele disse de olhos arregalados e com o tom de voz um pouco acima do permitido no local em que se encontrava. — Mas que porra é essa?! — Perguntou se levantando da cadeira.
Logo alguns pedidos de silêncio e caretas vieram, mas o estudante apenas encarava a frase escrita em seu braço sem entender absolutamente nada. Ele tinha absoluta certeza de que não escreveu aquilo em si mesmo. Kyungsoo nem mesmo sabia da existência de sabonetes para o anus.
Esfregou seu braço com a mão direita, mas a tinta não largava de sua pele. — Não quer sair, o que eu faço?
Jongdae tentou ajudar, puxou o braço do mais novo e esfregou, mas não saía. Kyungsoo puxou seu braço de volta e sentiu arder a pele, já que o Kim esfregou com demasiada força. — Não precisa arrancar minha pele.
— Desculpa. — O mais velho deu um sorriso sem graça. — O que vai fazer?
— Primeiro, vou sair dessa biblioteca antes que eu receba um livro na testa. — Disse enquanto jogava seus materiais de qualquer jeito dentro da mochila e a colocando sobre o ombro. Jongdae fez o mesmo e o seguiu escada abaixo.
— Será que isso nunca vai sair? — O mais velho perguntou enquanto encarava o braço de Kyungsoo. Os dois estavam na parada de ônibus mais próxima da Universidade, estava ficando tarde e logo tudo ficaria deserto.
O Do fez uma careta ao perceber que seu braço estava sendo encarado demais e o juntou ao corpo, para que não pudesse ser mais visto. — Eu não sei, espero que saia.
— Cara, de todas as coisas que poderiam aparecer em sua pele, justo essa frase foi aparecer. — Jongdae disse em um tom brincalhão, mas logo seu sorriso morreu ao ver a carranca do mais novo. — Desculpa… mas é engraçado. — Sussurrou a última parte.
— Experimente ter uma frase sobre algo relacionado a anus em seu corpo e me diga se é engraçado. — Respondeu sem humor e com um tom de voz alto. Kyungsoo conseguia assustar qualquer um com aqueles olhos arregalados.
O que diabos estava acontecendo? , era tudo o que o Do se perguntava. Por que justo ele entre mais de sete bilhões de pessoas espalhadas pela face da Terra? O que tinha feito de errado para merecer aquilo?
O ônibus que o mais novo apanhava vinha se aproximando da parada e ele se prontificou de pé. — Vou indo, espero que isso saia quando eu tomar banho. — Disse e acenou para o ônibus, que diminuiu a velocidade até parar em frente à parada.
— Não esquece de usar o sabonete anal. — Jongdae falou quando o amigo estava subindo no ônibus e o que recebeu foi um belo dedo do meio antes da porta se fechar.
Quando Kyungsoo chegou em casa, foi direto para o chuveiro esfregar o braço com uma esponja, mas nada da tinta largar de sua pele.
Ele estava desesperado.
Passou bastante tempo sob a água que saia do chuveiro, mas nada da frase sumir. Se deu por vencido depois de quase meia hora gastando água, fechou a torneira e enrolou a toalha na cintura. Foi para seu quarto e deitou-se na cama sem se trocar, ficou encarando o teto se perguntando o porquê daquilo acontecer consigo. Nem percebeu quando o sono lhe pegou e acabou adormecendo daquele jeito.
Quando acordou no outro dia, a frase não estava mais em seu braço.
Desde a primeira frase que apareceu em seu braço, várias outras apareceram durante a semana que se passou. Frases como “finalizar trabalho do professor Kwon”, “visitar a Yoora noona”, “comprar leite”, “comprar ração do Toben”, entre outras coisas que se pareciam com lembretes do dia-a-dia. Às vezes, até tinha alguns desenhos.
No começo, Kyungsoo tentava apagá-las, mas percebeu que era inútil quando falhava em todas as tentativas enquanto esfregava seu braço, então passou a usar blusas de manga comprida ou casacos — mesmo que estivesse um dia muito quente.
Ele só queria que o quer que aquilo fosse, parasse de acontecer consigo.
— Eu não aguento mais isso! — Kyungsoo esbravejou assim que se sentou ao lado de Junmyeon, no gramado em frente ao seu bloco.
— Ainda continua aparecendo? — Jongdae perguntou.
— Sim, aparecem e somem sozinhos. — O mais novo suspirou. — Só quero que isso acabe de uma vez!
Junmyeon, que não estava entendendo nada, revezou o olhar entre o namorado e o Do. — O que está aparecendo?
— Já tem uma semana que frases ficam aparecendo no meu braço esquerdo e eu não sei que porra é essa. — Kyungsoo explicou, irritado.
Geralmente, o Do é um rapaz calmo, não costuma se estressar tanto, apenas quando algo sai de seu controle, como o que estava acontecendo há uma semana. Kyungsoo estava se sentindo agoniado por não saber o que estava acontecendo com seu próprio corpo.
— Deixe-me ver. — Junmyeon pediu e o mais novo levantou a manga da blusa longa que vestia, mostrando a frase que se estende por todo seu antebraço: “ comprar o livro que o B indicou” . — Parece um lembrete, já tentou lavar?
— Sim, mas não sai, mesmo que eu quase arranquei minha pele de tanto esfregar. — O Do bufou. — Sai quando quer.
— Acho que sei o que é isso. — O Kim mais velho disse após ficar analisando o braço do mais novo. — Acho que você tem uma soulmate, Kyung.
Kyungsoo ficou encarando o amigo mais velho e riu, olhou para Jongdae, mas o outro Kim não tinha nenhuma reação esboçada em seu rosto. — ‘Cê tá brincando, né?
— Não. — Junmyeon falou sério. — Minha prima também tem uma soulmate, e acontecia com ela o mesmo que acontece com você.
— Tá, mas o que tem a ver aparecer frases estranhas no meu braço com um soulmate?
Junmyeon sorriu antes de começar a explicar. Ele tinha aquela aura de sabedoria lhe rodeando. — Sua soulmate aparece depois que você completa 18 anos, e tudo que ela escreve na própria pele vai aparecer na sua.
— Isso quer dizer que sua soulmate usa sabonete anal, Kyung. — Jongdae praticamente berrou aquela informação e começou a gargalhar, atraindo alguns olhares ao redor deles.
— Dá pra calar a boca, Jongdae? — Kyungsoo ameaçou bater em Jongdae, mas o outro Kim interveio.
— Calma, Kyung. — O mais velho disse após conseguir afastar o mais novo de seu namorado. — Que história é essa de sabonete anal?
Kyungsoo praguejou baixinho e suspirou. — É que foi a primeira frase que apareceu.
— Que frase?
— Não esquecer de comprar o sabonete anal. — Falou baixo, para que ninguém além do Kim mais velho ouvisse.
Assim como o namorado, Junmyeon gargalhou ao ouvir a frase. — Desculpe-me Kyung, isso é muito engraçado.
— HAHA. Não era você que estava com isso escrito no braço e não podia fazer nada porque não saia se lavasse. — Kyungsoo respondeu sem humor. — Sério, o que faço para que isso pare de acontecer?
— Não tem como parar. — Junmyeon respondeu, tentando recuperar o fôlego após tanto rir. — Mesmo que você encontre sua soulmate, isso vai ficar acontecendo até que morram.
Kyungsoo bufou. — Ótimo.
Assim que fechou sua boca, Chanyeol, aquele estudante de Música, parou em frente aos três amigos. Ele era absurdamente alto, Kyungsoo pensou. E bonito, também . Parecia um poste visto de baixo, já que os três estavam sentados.
— E aí Chanyeol. — Junmyeon o cumprimentou.
— Oi gente. — Ele sorriu para todos e parou seu olhar em Kyungsoo, mas desviou ao perceber que o mais novo o encarava. Ele estava vermelho?
— Senta aí, cara. — Jongdae convidou.
— Ah não, só vim saber se os caras já chamaram vocês para ir naquele bar novo na sexta.
— Baekhyun nos avisou, nós iremos. — Jongdae respondeu, falando por si e seu namorado. — Você vai, Kyung?
— Não sei. — respondeu brincando com a grama. — Mas eu aviso, qualquer coisa.
—Oh, seria muito legal se você fosse, Kyungsoo. — Chanyeol falou timidamente — ou era impressão de Kyungsoo? — enquanto coçava a nuca. — Vou indo agora, tenho aula daqui a pouco. Até depois.
Chanyeol saiu e Kyungsoo ficou encarando o rapaz alto de cabelos cacheados sair.
— Ele é bonito né, Kyung? — Jongdae provocou o amigo, que olhava na direção que seu crush rumou.
— Sim- não, quero dizer… — Kyungsoo encarou o amigo como se fosse o fuzilar com o olhar. — Também vou indo, tenho aula.
O mais novo saiu em direção ao seu bloco e deixou os dois Kim rindo de sua cara.
Durante o resto da semana os pequenos lembretes continuavam a aparecer, tinha dias que não apareciam, e Kyungsoo agradecia mentalmente a sua soulmate que não tinha nada para se lembrar e ter que anotar em seu braço. Mas tinha vezes que eram tantas coisas que a outra pessoa anotava que o Do se sentia como um caderno humano, de tanta coisa escrita que tinha em sua pele.
Parou de usar as blusas de mangas longas durante o dia, já que estava quente demais para sofrer desta maneira. Apenas usava casacos e moletons durante a noite. Não estava mais se importando que vissem as frases em seu braço, contato que não fosse algo constrangedor, como a primeira que lhe apareceu.
Geralmente, eram apenas lembretes de coisas para se fazer ou algum quote curto de livro ou música, e em sua maioria das vezes saíam à noite, provavelmente quando sua soulmate já estava em casa e tomava banho.
Kyungsoo começou a ter curiosidade de quem seria sua soulmate. Como ela era, o que fazia, quantos anos tinha, sua altura, seu gênero… Eram diversas perguntas sobre uma pessoa que não conhecia. Não saberia responder caso lhe perguntassem se quer conhecer sua soulmate, ainda era tudo muito novo para ele.
Havia andado visitando o Google e pesquisando sobre soulmates e descobriu que isso acontecia apenas com cerca de cinco por cento da população mundial, e era um número pequeno comparado ao total de seres humanos vivos no planeta. As soulmates podem não estar na mesma cidade, necessariamente, nem mesmo no mesmo continente, pode ser qualquer um entre esses cinco porcento e pode estar em qualquer lugar do mundo. Kyungsoo pensava na probabilidade de viver o resto de sua vida sendo riscado por alguém que não sabia quem era e talvez nunca o encontraria.
Mas Kyungsoo não sabia ainda se queria conhecer sua soulmate.
Jongdae tinha arrastado Kyungsoo até um pet shop, pois precisava comprar ração e vasilha para a gata que tinha adotado recentemente. A gata ainda era novinha, então ainda não podia pegá-la na casa da pessoa que estava doando, mas estava tão ansioso por isso que já estava preparando tudo para quando tivesse o animal em casa.
— Você já pensou em um nome para ela? — Kyungsoo perguntou.
— Tô pensando em Rubi. — O mais velho respondeu enquanto procurava os itens necessários que deveria comprar. — Estou ansioso para pegá-la com Seulgi.
— É ela que está doando?
— Sim, sua gata teve três filhotinhos. — Jongdae respondeu sorrindo, ele amava gatos. — Queria poder adotar todos.
— Imagino. — O Do riu.
Enquanto o Kim se direcionava ao caixa para pagar os produtos, Kyungsoo ficou observando os diversos objetos para animais, tinha roupinhas, brinquedos, caminhas, entre outras coisas. E então se lembrou que sua soulmate tem um cachorro, Toben, diversas vezes apareciam lembretes de comprar a ração ou outras coisas relacionadas ao animal.
Kyungsoo gostaria de saber sua raça e como era.
— Procurando algo para seu animalzinho? — Ouviu uma voz grossa vir atrás de si, reconheceu de imediato — mesmo que não conversasse muito com o dono dela — e sentiu seu corpo estremecer rapidamente.
Virou-se e viu Chanyeol sorrindo.
— Ah, não. — Sorriu para o mais alto. — Não tenho animais, não podemos ter no dormitório.
— Ah, é verdade. Uma pena.
— Você tem? — Perguntou realmente interessado. — Já que está aqui e tals…
— Ah sim, tenho um cachorro.
— Qual a raça dele?
— Cão D’Água Português, ele é tão pequeno e fofo. — Chanyeol falava apaixonadamente sobre seu animalzinho, que considerava como um filho.
Kyungsoo sorriu de volta, mesmo que o sorriso do mais alto não fosse sobre algo relacionado a ele, e sim a um animal, mas era inevitável não sorrir ao ver aquele cara alto sorrindo.
—E qual o n-...
— Vamos, Kyung. — Jongdae o interrompeu (sem saber que estava atrapalhando), se aproximando dos dois. Kyungsoo fez uma careta rápida ao ser interrompido pelo amigo, mas nenhum dos mais velhos viu. — Oh, oi Chanyeol.
— Cheeeen! — Chanyeol abraçou o Kim. — Já adotou a gata que a Seulgi está doando?
— Tenho que esperar mais uns dias para ir buscá-la. — Jongdae respondeu animado. Seu sorriso lembrava o de um gato. — Estou tão animado.
— Fico feliz por você, amigão.
— Obrigado. Agora temos que ir, vamos estudar, até mais Chanyeol.
— Ok, até mais. — Chanyeol acenou para os dois, que se afastaram dele. — Espero te ver por aí, Kyung…
Kyungsoo apenas sorriu para ele e saiu do pet shop.
Quando já estavam a dois quarteirões da loja, Jongdae olhou para Kyungsoo e viu um pequeno sorriso em seus lábios. — Você realmente tem um crush no Chanyeol.
— O quê- não, não tenho nada!
— Tem sim, fica todo cheio de sorrisos quando o vê.
O mais novo evitou olhar para o amigo, que tinha um sorriso nos lábios finos e felinos. Ele realmente deixava muito explícito que não conseguia evitar sorrir quando via o grandão?
— Não tem problema em admitir isso, Kyung. — Jongdae mostrou um sorriso para o amigo, tentando confortá-lo. — Chanyeol é um cara muito legal.
— Ele parece ser bem legal mesmo, mas nunca tive uma chance de conversar de verdade com ele, sempre apenas diálogos rápidos, como agora há pouco.
— Talvez devesse o chamar para sair. — O Kim deu a ideia.
— Não, estou bem, obrigado. — Kyungsoo respondeu rapidamente.
Ele nunca iria chamar Chanyeol para sair, tinha medo de ser rejeitado, sempre tivera esse medo em relação a muitas coisas. Jongdae não insistiu naquele assunto e logo eles estavam entrando na biblioteca da Universidade.
Naquele dia, a soulmate de Kyungsoo não escreveu nenhum bilhete.
— Já pensou em escrever algo no seu braço? — Junmyeon perguntou certa vez.
— Não, não gosto de me riscar hyung, desde pequeno.
— Mas você está sendo riscado por outra pessoa.
— Creio que ela não sabe que tem uma soulmate, já que nunca me risquei. — Kyungsoo deu de ombros. — Nem irei me riscar.
Junmyeon pegou seu copo de café com o barista da cafeteria e agradeceu.
Os dois tinham a tarde livre naquela quarta-feira e resolveram se encontrar para conversar. Kyungsoo adorava a companhia do mais velho, já que o Kim entendia de muitas coisas e estava sempre falando algo novo para o Do.
— Sabe Kyung, quando minha prima descobriu sobre ter uma soulmate, nossa avó nos disse que isso acontecia com pessoas que estão destinadas a ficarem juntas em todas as encarnações. — Junmyeon disse ao sentar em um banco. — Isso quer dizer que não importa quantas vezes você reencarnar, você sempre vai se esbarrar com essa pessoa.
— Mas eu li que só apenas cinco porcento da população mundial tem uma soulmate, e que não é genético, simplesmente acontece.
— A ciência não pode explicar tudo, Kyung. E isso não tem nada a ver com ciência, já que o que reencarna é a alma. — O mais velho disse e tomou um gole de seu café, reclamando da temperatura em seguida. — Acho que ninguém pode explicar essa coisa de alma gêmea. O que minha avó disse pode não ser verdade, mas é algo que ela e outras pessoas acreditam. É crença.
— Você acredita nisso, hyung? — Kyungsoo encarou o mais velho, que franziu as sobrancelhas.
— Acho que sim. — Falou após algum tempo pensando. — Talvez você tenha encontrado sua soulmate em todas as outras encarnações, e isso pode parecer chato, mas você nunca saberá que a conheceu antes, porque você não sabe quem você foi em sua última vida. Então, tudo é novo, de novo.
Kyungsoo não respondeu, apenas ficou pensando em todo aquele papo de outras vidas e reencarnação. Ele não sabia se acreditava nisso. Kyungsoo nunca foi um rapaz de muitas crenças, ele nem mesmo tinha uma religião. Essa coisa de soulmate ainda era muito estranha para ele.
Aceitar o fato de que tinha uma pessoa por aí no mundo que estava destinada a ser sua alma gêmea lhe causava estranheza.
— Mas hyung, essa pessoa pode estar em qualquer lugar do mundo, talvez eu nunca a conheça.
— Acho que a vida, ou o destino, não sei quem está comandando isso, não seria tão filho da puta assim, Kyung. Você vai encontrá-la, mesmo que demore um pouco.
— Como tem certeza disso?
Junmyeon sorriu. Uma pessoa lhe vinha a cabeça. — Eu posso não ser como você ou minha prima e ter uma pessoa destinada a ser minha, mas eu acredito no amor, Soo, e eu acredito que encontrei minha alma gêmea, mesmo que ela não estivesse destinada a mim desde o início. Se você tem uma soulmate, é porque ela vai ser alguém importante na sua vida, só não se sabe como agora, mas você vai descobrir.
Kyungsoo observou seu hyung falar aquelas palavras. Junmyeon falava com paixão, dava para sentir em suas palavras todo seu amor pelo namorado. Jongdae era um cara de sorte.
Outra vez, Kyungsoo não respondeu ao mais velho, mas ficou pensando que queria ser tão apaixonado por alguém quanto Kim Junmyeon era por Kim Jongdae. E que fosse recíproco.
Já fazia quase três semanas que estava sendo riscado por outra pessoa, e não tinha nenhuma pista de quem fosse. Kyungsoo estava começando a acreditar que a pessoa pudesse estar em outro país, outro continente. Talvez eles nunca se encontrassem…
De alguma maneira, Kyungsoo começou a se importar com aquilo. Estava intrigado com toda aquela história. Era apenas uma pequena parcela da população do mundo que tinha uma soulmate, e ele tinha dado a sorte — ou o azar, não sabia ainda — de ter uma também.
Não conhecia ninguém que tivesse uma, apenas sabia da prima de Junmyeon, mas não a conhecia. E pelo o que sabia, ela conheceu sua alma gêmea e se casou com ele.
E se Kyungsoo nunca chegasse a conhecer sua soulmate? Estaria destinado a passar o resto da vida vendo os rabiscos em sua pele sem poder saber quem estava escrevendo aquelas palavras.
Mas Kyungsoo não sabia o que fazer em relação aquilo. Não sabia se devia procurar, nem como procurar. O jeito era sentar e esperar que a vida — ou o destino — fizesse algo a respeito daquela situação.
Kyungsoo estava andando pelo campus sozinho quando avistou Chanyeol sentado em um banco tocando seu violão. O garoto baixo de olhos grandes parou e ficou o encarando por um tempo, cogitando a ideia de ir até ele.
Eles nunca ficaram a sós por muito tempo e nunca tiveram a chance de conversarem e se conhecerem a fundo. Sempre eram conversas rápidas quando se esbarravam pelo campus ou aos arredores da Universidade. E Kyungsoo queria conhecer mais de Chanyeol, queria saber como era o cara por quem tinha um pequeno crush.
Juntou um pouco de coragem e aproveitou que não tinha nenhum conhecido por perto e caminhou até o músico.
— Oi. — Falou ao se aproximar do banco. — Posso sentar aqui?
Chanyeol tirou o lápis de entre os dentes e encarou o mais novo. — Claro, Kyung, espere- deixe-me tirar essas coisas. — Falou enquanto tentava tirar os cadernos e a capa do violão de cima do banco, e se atrapalhando, pois estava com o violão sobre o colo.
Kyungsoo riu do jeito atrapalhado do mais velho, achando fofo, e o ajudou a pegar as coisas.
— Obrigado. — O Park agradeceu, colocando tudo sobre a grama, ao lado do banco. — E aí, o que anda fazendo?
— Ah, nada, estava só andando pelo campus e te vi aqui, resolvi dizer oi. — Kyungsoo sorriu. — Oi.
— Oi. — Chanyeol sorriu de volta. — A gente nunca teve muita oportunidade para conversar e eu sempre quis parar para conversar com você…
Kyungsoo arregalou os olhos ao ouvir aquelas palavras. Seu coração começou a palpitar só por ouvir aquilo. Maldito crush.
— Ah, eu também sempre quis conversar mais com você, — Kyungsoo falou timidamente evitando olhar para o Pak. — Mas a gente nunca teve oportunidade de se conhecer além do formal.
— Então vamos nos conhecer agora. — Chanyeol disse com um sorriso enorme no rosto. Seu sorriso era tão bonito, pensou o Do. — Quero saber quem é Do Kyungsoo. — Falou de um jeito brincalhão que fez o mais novo alargar seu sorriso. — Por que faz Letras Inglês?
— Ahn… — Kyungsoo nunca tivera que responder aquela pergunta antes, mas se esforçou para achar uma boa resposta e verdadeira. — Eu sempre gostei da língua, desde mais novo eu gostava de assistir séries e filmes americanos ou britânicos com o áudio original acompanhado de legenda em coreano, e eu sempre ouvi muitas músicas em inglês, então eu aprendi a língua rápido, sempre gostei de estudar. E também, quero ser professor.
— Wow, isso é muito legal. — Chanyeol continuava sorrindo. Como alguém sorria tanto? — Acho que você poderia me ajudar com inglês, já que gosta tanto e quer ser professor.
— Em que poderia te ajudar?
— Eu gosto de muitas músicas em inglês e até gravo cover de algumas, mas minha pronúncia não é muito boa…
— Você quer que eu te ajude com isso? Agora?
— Pode ser, eu estava pegando uma música antes de você chegar, mas acho que vou precisar de algumas aulas.
Chanyeol estava flertando consigo? Ou Kyungsoo estava imaginando coisas?
Kyungsoo ficou encarando o mais velho, que sorria mais timidamente agora. Ele não podia acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo. Preferia pensar que era coisa da sua mente.
— Quer ouvir a música que eu estava aprendendo? — Chanyeol perguntou e o mais novo afirmou com a cabeça.
O Park sorriu para ele antes de focar sua atenção em seu violão. Posicionou-o direito em seu colo e começou a dedilhar as cordas, logo transformando em notas. Em poucos segundos Kyungsoo reconheceu a música, era All of Me, do John Legend. Essa música era muito bonita.
Kyungsoo focou em prestar atenção na voz do mais velho, que era grossa, mas suave. Chanyeol cantava de olhos fechados, como se sentisse a música e tentasse passá-la em sua voz para quem ouvisse.
Chanyeol parou de cantar após o primeiro refrão da música.
— Então, o que achou? Como tá meu inglês?
— Você canta muito bem, Chanyeol, sua voz é linda… — Kyungsoo respondeu no automático, dando-se conta de suas palavras só após falá-las. “Ah-” Sorriu tímido. — Seu inglês não é ruim, só algumas pronúncias precisam ser melhoradas, mas você tem um inglês razoável.
— Obrigado, Kyung. É bom ouvir isso vindo de você.
Eles ficaram se encarando por alguns segundos, que pareceu muito tempo para eles, mas não se importaram. Chanyeol soprou um riso e desviou o olhar primeiro. Kyungsoo se sentiu envergonhado ao perceber o que acabara de acontecer.
— Tenho que ir, Chanyeol, tenho que estudar para uma prova. — Kyungsoo não estava mentindo, realmente tinha que estudar para uma prova, e agradeceu mentalmente por lembrar dela. — A gente se vê outra hora.
Antes do mais novo se levantar, Chanyeol segurou seu braço, fazendo-o ficar sentado. — Espera.
— Sim?
— Ahn, é… — Chanyeol parecia nervoso. — É… Podemos ir tomar um café qualquer dia, se você quiser, é claro.
Kyungsoo sorriu largamente, fazendo seus lábios tomarem forma de coração, o que encantou o mais velho. — Sim, podemos.
— Te vejo por aí, Soo.
— Até mais, Chanyeol. — Disse se levantando de vez e caminhando para longe.
Kyungsoo tinha um sorriso no rosto, que talvez pudesse ser visto em suas costas.
A soulmate de Kyungsoo estava escrevendo menos lembretes em sua pele, o que fez o rapaz estranhar tal ação vindo daquela pessoa desconhecida, mas nada podia fazer, já que não sabia quem era.
Chanyeol o chamou para ir a uma cafeteria dois dias depois daquele pequeno encontro no campus. Kyungsoo aceitou, claro. Estava encantado com o jeito do mais velho.
Park Chanyeol era estudante de Música há dois anos e pretendia ser produtor, ele amava tudo que envolvesse música desde pequeno, tocava diversos instrumentos e além de cantar, sabia fazer rap, mas preferia mais o canto.
Kyungsoo mencionou que sabia fazer beat box e acabou tendo que mostrar seus dons em meio à lanchonete por insistência do mais velho. Eles ficaram algumas horas conversando lá, conhecendo mais um do outro, e Kyungsoo não podia ficar menos encantado ao conhecer mais do mais velho.
A maneira como se despediram foi um pouco estranha, mas bastante engraçada. Os dois estavam perdidos, não sabia como se cumprimentar para irem embora. Um olhava para o próprio tênis enquanto o outro coçava a nuca, ambos pensando no que falar antes de rumarem para lugares diferentes.
Tudo acabou em um aperto de mãos desajeitado e sorrisos nervosos.
Era sexta-feira à noite e Kyungsoo estava em um bar.
Era aquele mesmo bar que eles foram conhecer duas semanas antes, e agora eles passavam a frequentar quase todas as sexta-feiras. Só que nessa era diferente, pois Chanyeol iria tocar lá, e Kyungsoo estava um pouco ansioso em ver seu crush tocando ali.
O casal de Kim estava lá, assim como Baekhyun, estudante de Direito — e melhor amigo de Chanyeol —, e Luhan e Minseok, outro casal de amigos, o primeiro fazia Letras Coreano (e era seu colega de quarto no dormitório) e o outro, Arquitetura. Aquela era a turminha de bar de Kyungsoo, e que incluía Chanyeol também.
Kyungsoo observava Chanyeol sentado em um banco sobre um pequeno palco, ele estava afinando seu violão. Faltavam poucos minutos até que começasse a tocar e o bar estava começando a lotar.
— Acho que seu crush é recíproco. — Jongdae falou para o mais novo.
— Por quê acha isso? — Kyungsoo perguntou, tirando seus olhos do Park e encarando seu amigo, que tinha um sorriso nos lábios. — Pare de sorrir assim, Chen. Às vezes, você me assusta.
— Não desvie o assunto. — Jongdae riu. — O jeito que o Chanyeol te olha, é a mesma forma como você o olha.
— Você acha? — Um pequeno sorriso surgiu nos lábios do Do. Ele desviou o olhar novamente para Chanyeol, e o mais velho o encarava sorrindo. — Droga, ele estava olhando.
Jongdae riu da reação do amigo. — É engraçada a maneira que você reage a ele.
— Parece que muitas coisas em minha vida são engraçadas para você, Jongdae. Um verdadeiro show de comédia.
O mais velho apertou uma bochecha de Kyungsoo e balançou seu rosto. — Pare de resmungar, seu crush vai começar a tocar.
A mesa estava animada, todos conversavam, riam e bebiam. Kyungsoo apenas bebia um refrigerante, já que não gostava de cerveja e não queria beber algo mais forte.
Chanyeol bateu suavemente no microfone ligado, causando um pequeno barulho incômodo, mas que logo cessou.
— Boa noite. Eu me chamo Park Chanyeol e esta noite eu vou tocar para vocês por algumas horas. — Os clientes presentes no bar aplaudiram e gritaram, muitos ali eram seus conhecidos de faculdade. — Obrigado.
Assim que tudo se silenciou, Chanyeol começou a dedilhar as cordas de seu violão, iniciando o repertório que preparou para aquela noite com Youth, do Troye Sivan. Sua voz era reproduzida nas caixas de som que estavam espalhadas pelo estabelecimento, agradando aos clientes do bar. Alguns cantavam juntos, outros apenas ouviam atentamente aquele rapaz de voz profunda.
Kyungsoo não conseguia tirar seus olhos de Park Chanyeol.
Eles estavam se conhecendo. Se encontravam na cafeteria do campus e conversavam por horas, Kyungsoo ouvia atentamente as histórias do mais velho e se encantava com algumas.
Chanyeol não era perfeito, ninguém era, mas Kyungsoo não se importava.
Não se importava com a mania que o mais velho tinha de bater os dedos na mesa quando estava impaciente — o que notou enquanto eles esperavam o pedido que fizeram chegar —, nem o jeito atrapalhado e distraído dele, que o fazia se esbarrar em objetos diversas vezes. Também não ligava que ele falasse muito e um pouco rápido, às vezes não entendendo o que falava. Eram essas, e outras, manias que formavam a personalidade de Chanyeol, e ele estava encantado.
No fundo, Kyungsoo desejava que sua soulmate fosse Chanyeol, mas ele sabia que não podia criar aquele tipo de expectativa.
O Park terminou a primeira música e logo começou uma segunda. Todos no bar estavam animados com a música ao vivo, até faziam pedidos para ele, que tentava atender a todos, ou pelo menos cantar aquelas músicas que conhecia.
Baekhyun e Jongdae estavam rindo por algo bobo que Junmyeon falou, mas era efeito do álcool. Kyungsoo continuava com seus refrigerantes, mas se divertia com as palhaçadas dos amigos. Realmente gostava da companhia daqueles caras.
Após mais ou menos uma hora Chanyeol parou de tocar e disse que iria fazer uma pausa. Kyungsoo o viu ir até o bar e falar com um atendente.
— Kyung, acho que você vai ter que ficar fora do seu quarto hoje. — Baekhyun falou rindo.
— Já cansei de ser expulso do meu próprio quarto. — O mais novo dentre os amigos respondeu. — Procure um motel, Luhan.
Luhan fez um biquinho para o mais novo, mas não protestou.
— Kyungsoo só está chateado porque não tem motivo para te expulsar do quarto, Luhan. — Jongdae provocou, rindo alto.
As bochechas de Kyungsoo ganharam um tom avermelhado, enquanto seus olhos se arregalaram. Todos riram da reação do mais novo, que escondia seu rosto vermelho entre as mãos.
— Qual é a piada? — Chanyeol perguntou sentando ao lado do mais novo.
— Nada, não é nada. — Kyungsoo respondeu rápido e encarou seus amigos com um olhar ameaçador. — Era sem graça. — Sorriu para o mais velho, que retribuiu.
— O que acharam da minha performance?
— Você canta muito bem, Chanyeol. — Junmyeon se pronunciou. — Você quer mesmo apenas ser produtor? Sua voz poderia ser muito famosa.
— Nah, não é isso que eu quero. — O músico respondeu enquanto enchia um copo de cerveja. — Prefiro produzir e ficar sentado em frente a uma mesa com vários botões e funções.
— Então você deveria produzir o Baekhyun, ele canta muito bem. — Disse Jongdae, fazendo seu amigo ficar tímido. — Yaa Baekhyun! É verdade.
— Estou bem com a profissão que escolhi exercer, Chen, mas obrigado pelo elogio. — Respondeu rindo.
Os sete universitários ficaram conversando e rindo das palhaçadas que os menos sóbrios falavam. Kyungsoo estava se sentindo muito confortável com eles ali. Chanyeol às vezes voltava sua atenção apenas para si.
— Você não me contou que tem um violão. — O Park falou, totalmente aleatório do que o resto do grupo falava.
— Como?
— No seu braço, tem escrito que precisa comprar cordas novas para o violão. — Chanyeol apontou para o braço esquerdo do mais novo. — Engraçado, pois anotei a mesma coisa no meu braço. Sua letra até é parecida com a minha…
Kyungsoo arregalou os olhos e encarou o próprio braço. Aquela frase não estava ali há vinte minutos, pelo menos. Não, suas caligrafias não eram parecidas, pois aquela não era sua caligrafia. Puxou o braço de Chanyeol e viu a mesma coisa escrita no braço do mais velho.
O mais novo cutucou Jongdae. — Chen…
— Sim, Kyung?
— Chen… — Kyungsoo puxou o braço de Chanyeol e juntou ao seu, mostrando a mesma frase escrita em ambos os braços.
Jongdae arregalou os olhos e puxou o queixo de Junmyeon, para que ele visse também, mas sua ação fez com que todos à mesa parassem de falar e prestassem atenção neles.
— Amor, Chanyeol é a soulmate do Kyung.
Kyungsoo estava assustado e Chanyeol não entendia nada do que estava acontecendo.
— Eu sou o que? — Perguntou encarando o mais novo. — Gente, o que tá acontecendo?
— Eu preciso de ar. — Foi a única coisa que Kyungsoo conseguiu falar antes de se levantar da cadeira e sair apressado do bar.
— Kyung? — Jongdae chamou o mais novo, que estava encostado a um poste, na esquina da rua.
— Oi.
— Você está bem? — Perguntou se aproximando. Tocou o ombro do mais novo, que apenas encarava a rua. — O que você está pensando?
— Estou assustado, Chen.
Kyungsoo suspirou. Já fazia alguns bons minutos desde que deixara o bar, e apenas ficou se perguntando se aquilo era alguma brincadeira do destino.
Ele não esperava encontrar sua soulmate assim tão rápido, estava conformado que talvez nem chegasse a conhecê-la, mas ela estava ali ao seu lado, o tempo todo. E era Chanyeol. Céus! Sua soulmate era o cara por quem tinha uma queda. Muita ironia do destino.
— Eu não imaginava que fosse encontrar minha soulmate tão de repente, eu… eu estava conformado que talvez não a encontrasse, mas ela é o Chanyeol, e… eu tô confuso, Chen.
Jongdae sorriu sem mostrar os dentes, apenas tentando mostrar conforto ao mais novo, e o abraçou de lado. — Está tudo bem, Kyung, as coisas vão se esclarecer. Você não está feliz por ser Chanyeol?
— Eu não sei… — sussurrou. — Ele é o cara por quem estou afim, não esperava que ele fosse minha alma gêmea, e agora ele sabe dessa coisa estranha. Eu nem sei se ele sabe que esse tipo de coisa existe, e ele pode querer se afastar de mim…
— Hey Kyung. — O Kim o interrompeu. — Calma, ele não vai se afastar de você, ele é um cara legal. Junmyeon está explicando para ele o que é toda essa história. Ele está um pouco confuso, mas não parece rejeitar a ideia.
— Sério?
— Sim. — Respondeu abrindo um sorriso, vendo o mais novo sorrir também. — Ele só precisa do tempo dele para entender e se acostumar com a ideia, vocês vão precisar conversar sobre isso depois, mas vai ficar tudo bem, Kyung.
Kyungsoo estava mais aliviado, mas sabia que depois teria mesmo que conversar com o Chanyeol. Ele tinha medo. Tinha medo de ser rejeitado. Estava gostando tanto de se aproximar e conhecer o mais velho que não contava que isso acontecesse. Também não sabia o que o outro achava de si, com que olhos lhe via.
— Kyung, agora que sabemos quem é sua soulmate…
— O que tem?
— A única coisa que pensei enquanto Jun explicava toda essa coisa para Chanyeol é que ele usa sabonete anal.
Kyungsoo gargalhou pela primeira vez desde que saiu do bar. — Eu não me lembrava mais disso, você não vai esquecer?
— Desculpa, ainda continua engraçado.
— Você não pode contar isso para ninguém, Chen, por favor. — Disse ainda rindo.
— Não irei, relaxa. — O mais velho secou uma lágrima solitária que escorria no canto do olho. — Então, o que vai fazer agora?
— Acho que vou voltar para o dormitório, não sei se consigo conversar com Chanyeol sobre isso agora.
— Tem certeza? — O mais novo confirmou com a cabeça. — Ok, não vá andando, chame um táxi
— Eu já chamei, aliás, ele está ali do outro lado.
— Ok, não pense muito sobre isso, tudo bem? — Jongdae sorriu como um irmão mais velho, talvez ele fosse como um para Kyungsoo. — Vou avisar que você já foi.
— Obrigado, Chen. — Kyungsoo sorriu e sentiu sua testa ser beijada pelo mais velho.
O mais novo atravessou a rua e entrou no táxi, que deu partida em poucos segundos.
Se Kyungsoo tivesse ficado mais um pouco, Chanyeol teria conseguido alcançá-lo a tempo.
Durante todo o final do semana, Kyungsoo não viu nenhum dos amigos. Ficava revezando entre seu quarto e a biblioteca, já que tinha que estudar para algumas provas da semana seguinte.
Não estava evitando Chanyeol, não propositalmente, mas talvez preferisse não o ver por enquanto, ainda estava muito confuso com aquela história e queria pensar. Porém, sua mente não lhe deixava em paz ao se perguntar o que o mais velho estava pensando sobre aquela história.
Junmyeon lhe disse que ele estava destinado a sua soulmate, mas ele não sabia o que iria acontecer dali em diante. Kyungsoo gostava de Chanyeol, mas não sabia o que outro sentia. Ele desejou que o Park fosse sua soulmate, mas não imaginava que ele seria de fato.
Uma hora iria se esbarrar com Chanyeol pelo campus e iria ter que conversar com ele sobre aquela história.
Era difícil se esbarrar com Chanyeol pela faculdade, ao menos que os dois tivessem horários livres ao mesmo tempo e se reunissem com os amigos, já que seus blocos ficavam distantes um do outro.
Kyungsoo estava nervoso. Sempre que andava pelo campus olhava para todos os lados procurando o mais velho, o que iria fazer caso o achasse? Fugir ou encarar? Não sabia.
Desde a sexta-feira, Chanyeol não anotou mais nada na pele, e Kyungsoo meio que sentia saudades daqueles lembretes que não lhe pertenciam. Agora que sabia quem era o dono daquela caligrafia, sentia que conhecia um pouco mais de Chanyeol. Agora sabia que seu cachorro se chamava Toben e que toda quinta tinha que buscá-lo no pet shop.
Como Chanyeol estava se sentindo ao saber que seus lembretes pessoais estavam sendo vistos por outra pessoa? Kyungsoo se sentia um invasor. Queria poder conversar com o maior e poder lhe explicar tudo, mas não sabia como fazer isso.
Kyungsoo estava em uma aula quando viu uma frase em seu braço. Era Chanyeol. Estava pedindo que o encontrasse em frente ao bloco C em dez minutos.
O mais novo cutucou Jongdae e mostrou seu braço, perguntando-lhe o que fazer.
—Vá, vocês precisam conversar.
Então Kyungsoo foi.
Pegou suas coisas e saiu da sala, pedindo licença ao professor. Como não costumava faltar as aulas, estava tudo bem sair aquela vez, não lhe faria mal. Cogitou responder, mas decidira que era melhor apenas ir até lá e o esperar.
Kyungsoo chegou em menos de dez minutos, já que seu bloco era próximo ao bloco que Chanyeol citou. Poucos minutos depois avistou o mais velho vindo em sua direção, correndo.
— Chanyeol, eu posso… — O mais novo começou a falar quando o mais alto parou em sua frente, mas foi silenciado com um beijo.
Chanyeol segurava seu rosto com as duas mãos e pressionava seus lábios contra os lábios carnudos do Kyungsoo. Ali, no meio do campus, em frente ao bloco C, Chanyeol beijava Kyungsoo sem mínima pressa, apenas aproveitando aqueles lábios em forma do coração em contato com os seus.
O mais velho separou suas bocas e encarou Kyungsoo, que tinha um olhar surpreso, mas seus lábios se curvaram minimamente em um sorriso.
— Por que me beijou? — O mais baixo perguntou, sem deixar de encará-lo com aqueles olhos grandes.
— Porque eu gosto de você, Kyungsoo.
— Como?
Kyungsoo não podia acreditar que ouvira aquelas palavras saindo da boca do cara que estava gostando. Tudo parecia um sonho, e se fosse, ele não queria acordar, porque estava muito bom.
— Eu sempre tive uma queda por você, Soo, e eu queria te chamar para sair já há bastante tempo, mas eu tinha vergonha. E naquele dia, quando você sentou ao meu lado e começou a conversar comigo, eu mal pude acreditar que aquilo tava acontecendo, principalmente quando aceitou tomar um café comigo. Eu me arrependo de não ter te chamado para sair antes, por não ter dado nenhuma pista, mas eu tinha medo de assustar você…
— Medo? — Kyungsoo sorriu. — Não precisava ter medo, Chanyeol.
— Como não? Eu não sabia se seria rejeitado.
Kyungsoo sorriu ao ver o pequeno bico nos lábios de Chanyeol. Ele era tão fofo quando tímido.
— Chanyeol, nós temos que conversar.
— É, eu sei… — O mais alto coçou a nuca e olhou para o céu, suspirando. — Junmyeon hyung me explicou essa coisa que está acontecendo com a gente, e eu acho que entendi mais ou menos o que é…
— E o que você acha disso? Como se sente? — Kyungsoo o encarava, ele não conseguia desviar seu olhar, queria ver as feições de Chanyeol ao responder suas perguntas. — Quero dizer… eu via tudo que você escrevia em si mesmo, não é estranho para você?
— Sim, é estranho, muito. — Chanyeol riu. — É estranho saber que você viu meus lembretes… quando isso começou?
— Mais ou menos um mês, lembra daquela noite que você acenou para mim na biblioteca?
Chanyeol arregalou os olhos e sua boca abria e fechava várias vezes. — Não foi naquele dia, né?
— Foi… — Kyungsoo respondeu baixo, um pouco envergonhado por lembrar-se da minha primeira frase que lhe apareceu.
— Não, não, não… — Chanyeol balbuciou ainda de olhos arregalados. — Tinha que ser justo aquela frase a aparecer? Porra Destino!
Kyungsoo não aguentou e começou a rir, o que deixou o mais velho mais frustrado. — Ya~, não ria, Kyungsoo!
— Desculpe, mas pensando melhor, é engraçado sim. — O mais novo não conseguia parar de rir, e Chanyeol estava vermelho de vergonha. — Hey, tudo bem, já passou.
— Que vergonha, Kyung. — Disse enquanto escondia seu rosto com as mãos.
Kyungsoo se aproximou de Chanyeol e abraçou sua cintura, enquanto ele ainda escondia seu rosto com as mãos.
Seu coração estava acelerado. Primeiro, havia sido beijado por Chanyeol, e agora estava o abraçando. Nunca lhe passou pela cabeça que aquilo estaria acontecendo.
— Está tudo bem, Chanyeol. — Ele disse enquanto passava uma mão pelas costas do mais velho. — Mas por que precisava comprar um sabonete anal?
— Higiene anal? — Chanyeol falou como se fosse óbvio. — Sabia que existem milhões de doenças que podemos contrair lá? Eu cuido bem da minha saúde, e meu cu é tão importante quanto o resto do meu corpo.
— Ok, é válido. — Os dois riram.
— E você, como se sente com essa história?
— Um pouco confuso ainda. — Kyungsoo suspirou. — Até sexta você era só o cara por quem eu tava tentando ser notado, hoje somos soulmates… é, é estranho.
— E o que você quer fazer?
— Eu não sei, isso muda tudo. Eu sabia que tinha uma soulmate, mas não imaginava encontrá-la tão cedo, eu não imaginava que ela estava perto o tempo todo. — Soltou as palavras de uma vez, estava nervoso de novo. Levantou a cabeça e encarou Chanyeol. — Eu não esperava que fosse você, e eu tô feliz por ser você.
Chanyeol abriu um sorriso que parecia que sua boca iria rasgar. Estava feliz demais ouvindo aquelas palavras saindo da boca do mais novo.
Kyungsoo sorriu de volta. Ainda não conseguia acreditar em tudo aquilo que estava lhe acontecendo.
Tudo mudaria dali em diante. Os dois sabiam dos sentimentos um do outro e sabiam que estavam destinados a ficarem juntos, mesmo que ainda lhe causasse estranhamento saber que estavam ligados por causa do Destino, o que quer que fosse, mas estavam felizes.
Chanyeol pôs suas grandes mãos sobre as duas bochechas do mais novo e aproximou seu rosto. Kyungsoo ainda não estava acostumado com aquilo e seu coração estava acelerado. Sentiu o hálito quente do mais velho tocar sua pele e o encarou mais uma vez antes de fechar os olhos e seus lábios se tocarem pela segunda vez naquele dia.
Havia se passado dois anos desde que descobriram ser soulmate um do outro e estavam namorando há um pouco mais de um ano.
Após aquele dia, em que se encontraram em frente ao bloco C, eles passaram a sair juntos para se conhecer mais. Mesmo sabendo que se gostavam, eles não queriam começar um namoro de imediato, queriam que as coisas acontecessem naturalmente.
Com o passar do tempo, Kyungsoo descobriu que Chanyeol era implicante quando queria, e que o irritava quando o mais baixo não estava com bom humor, e, nisso, Chanyeol descobriu que o baixinho podia ser agressivo quando estava irritado (mas isso não queria dizer que ele deixaria de perturbar o mais novo).
Um tempo mais tarde, Chanyeol descobriu que o casal de Kim’s sabiam sobre o sabonete anal, o que causou a primeira discussão entre os dois. Custou para Chanyeol entender que Kyungsoo não contou aquilo por mal, e sim porque os dois descobriram antes mesmo de Kyungsoo saber toda aquela história de soulmate. Por fim, Park foi convencido por alguns beijos e por uma promessa de lhe ser comprado uma barca de sushi no fim de semana.
A maneira como começaram a namorar foi totalmente diferente e inesperada (pelo menos, por parte de Chanyeol).
Eles estavam num supermercado, e Kyungsoo foi ajudar Chanyeol com suas compras. Enquanto passavam pela sessão de produtos de higiene pessoal, Kyungsoo encarava Chanyeol escolher entre duas marcas de shampoo e percebeu que queria ficar com aquele ser alto e atrapalhado pelo resto da sua vida. Mesmo se não fossem soulmates, Kyungsoo queria ficar com Chanyeol. Nunca se imaginou amando tanto alguém quanto amava aquele cara com jeito de criança.
Chanyeol lhe perguntava qual seria melhor levar enquanto ele estava viajando em seus pensamentos. Assim que o mais velho conseguiu o fazer voltar a realidade, ele soltou a pergunta limpo e seco, surpreendendo o mais velho. Chanyeol estava estático enquanto segurava um shampoo em cada mão, sem saber se aquilo era real, foi preciso que Kyungsoo o beliscasse e repetisse a pergunta, para finalmente o maior respondesse que sim e o abraçasse.
Em seu aniversário de um ano de namoro, Chanyeol convidou Kyungsoo para morar consigo, já que morava sozinho em um apartamento perto do campus, e o mais novo aceitou. O apartamento era pequeno, mas cabia os dois e todo o amor que eles emanavam um pelo outro. Kyungsoo estava fazendo um estágio e Chanyeol tocava naquele mesmo bar de dois anos antes, durante todo o fim de semana, assim eles conseguiam manter o apartamento e as contas.
Talvez Junmyeon estivesse certo, pensava Kyungsoo. O destino não seria tão filho da puta em não fazer Chanyeol e Kyungsoo se conhecerem.
Kyungsoo passou a acreditar que mesmo se não fossem soulmates, eles estavam destinados a se conhecer. E mesmo se Chanyeol não fosse sua soulmate, ele não iria querer outra pessoa ao seu lado ao não ser aquele gigante.
Costumava rir todas as vezes que se lembrava como toda aquela história havia começado com um lembrete sobre sabonete anal em sua pele. Depois daqueles dois anos, aprendera a não ter vergonha sobre aquela história, nem mesmo quando Jongdae se lembrava daquilo e fazia piada.
Mesmo que insistisse que o mais velho usasse um bloco de notas, ou até mesmo o aplicativo de Lembretes do seu celular, Kyungsoo não achava ruim quando surgia uma frase escrita com a caligrafia de Chanyeol em seu braço.
Se Chanyeol não tivesse essa mania de escrever no próprio corpo ao invés de usar um papel eles nunca teriam descoberto ser soulmate um do outro. E se Chanyeol não tivesse perdido o medo de se confessar, não estariam juntos.
