Work Text:
Condenada à morte. Ela estava condenada à morte.
Não que fosse uma surpresa. Sua lista de crimes era extensa, extensa demais para que pudesse ser revertida, mesmo que ela tivesse muito dinheiro e poder.
Naquele momento, a nação inteira estava contra o seu sobrenome. Não havia o que ser feito além de aceitar que morreria.
Mas era difícil. Já fazia uma semana desde que recebeu a notícia, e ainda não conseguia lidar com o fato de que iria morrer. Nunca pensou muito a respeito do que vem depois disso, depois desta vida, porque resolveu que era melhor focar no hoje do que entrar nessa discussão. Era melhor buscar maneiras de melhorar o que temos do que pensar incessantemente sobre o que virá.
Agora, a morte era tão certa quanto respirar, e isso a apavorava. Por esses motivos, não saiu de casa desde que recebera a notícia, mesmo sabendo que talvez devesse aproveitar seus últimos momentos. Claro, ela poderia tentar fugir, mas todo o país conhecia seu rosto e ela não tinha certeza se queria isso. Para onde iria, o que faria? Ser outra pessoa não lhe interessava, e não havia realmente nada importante que ainda quisesse fazer. Seu dinheiro iria para a caridade e seus bens, para qualquer destino que o governo decidisse. Não havia nada. Exceto, talvez…
Não viu Kara desde o julgamento, e se perguntava como ela estava lidando com isso. Uma vez que se uniram para derrotar Lex, imaginou o que viria quando tivessem acabado com tudo. Durante essa união, parecia que elas realmente estavam fazendo as pazes, que tudo ficaria bem. Mas então veio o julgamento e sua antiga melhor amiga testemunhou contra ela. Disse que tinha, sim, ajudado Lex Luthor a destruí-la.
E como poderia culpá-la? Era a verdade. Estava tão profundamente machucada que agiu sem pensar, não cogitou as consequências, e agora isso custaria a sua vida e uma vida que ainda desejava viver, uma vida ao lado dela.
Deveria partir sem permitir que Kara soubesse o quanto a amava? A ideia a destruía. Ela nunca saberia sobre os seus sonhos, seus desejos secretos e expectativas. Nunca ouviria sobre a melhor história de amor não contada: a história na qual uma Luthor se apaixonou por uma Super, e o preço acabou sendo a morte.
Com isso, ela tomou sua decisão.
Aquele era seu último dia de vida, e queria passar sua última noite com a pessoa que mais amava — mesmo que ela não soubesse disso.
…
Duas batidas na porta. Já eram sete horas da noite e ela não tinha convidado ninguém, então quem poderia ser? Certamente não Alex, que estava numa lua de mel com Kelly, e também não Brainy ou Nia, já que estavam num encontro naquele dia. E as outras possibilidades…
Em nenhum canto da sua mente, chegou a considerar que a pessoa atrás da porta seria Lena Luthor.
Kara era imbatível. Sem que houvesse kryptonita por perto ou que fosse atacada por alguma arma alienígena, seu corpo não sofreria danos externos.
A única coisa que conseguiria machucá-la fisicamente era seu cérebro.
As pessoas subestimam a forma com a qual o corpo reage a danos emocionais, Kara o fazia, pelo menos até receber a notícia: Lena Luthor morreria. Ela estava lá quando a juíza bateu o martelo e sentiu o choque percorrer sua espinha. Depois daquilo, perdeu suas estruturas, de todas as formas possíveis.
Sua visão tornava-se turva apenas por pensar que, a cada minuto, Lena se aproximava mais da morte. Seu rosto ficava gelado de repente e ela não conseguia comer pelo resto do dia. Foram noites difíceis, mas ela fingia que não. Tentava agir como se aquilo fosse algo positivo, um fim que vinha aguardando há muito tempo. Para os amigos, Kara estava ótima, tanto que Alex se sentiu segura para viajar com a esposa. Por dentro, a kryptoniana estava completa e totalmente destruída.
Por isso, quando Lena apareceu ali, encarando-a daquela forma tão... calma, foi como se tivesse levado um golpe forte. Seu peito pesou, seus olhos escureceram e foi como ter sido derrotada, finalmente.
Por alguns segundos, elas não falaram nada, apenas se encararam pela primeira vez desde o tribunal. Lena estava mais magra do que antes e sua pele, mais pálida. Seus olhos pareciam cansados, como se tivesse desistido e apenas aceitado definhar.
Aquilo fez Kara querer abraçá-la, dizer que sentia muito. No entanto, a loira apenas cruzou os braços, tentando se conter enquanto esperava que a antiga amiga dissesse algo.
— Kara... — ela começou. Sua voz era baixa, rouca. — Eu vou morrer amanhã — disse, e então seus olhos brilharam com lágrimas presas.
Kara já havia visto aquela cena antes, quando Lena apareceu dizendo que ajudaria a derrotar Lex. Agora, a lembrança só fazia a loira se remoer à noite, porque naquele dia, não abraçou Lena, não a segurou firme, como deveria e como a Luthor merecia.
— Eu sei — respondeu num suspiro, soltando todo o ar que não sabia que estava segurando — Eu sei...
Como nada mais foi dito, Lena se permitiu chorar por alguns instantes, deixando que todo o medo ficasse estampado no seu rosto.
Ela tinha medo da morte, sim. Mas, muito acima disso, ela tinha medo de que Kara nunca a perdoasse. De que partisse sem que a loira soubesse. Por isso, tentou segurar as lágrimas para que pudesse continuar, em vão. Elas não paravam.
E porque elas não paravam, Supergirl a abraçou como se segurasse o mundo em seus braços; como se nunca mais fosse solta-la — e não o fez.
— Vamos entrar — Kara sussurrou.
Ela separou o abraço e passou um dos braços sob os joelhos de Lena, o outro apoiando as costas da Luthor. E, tentando retribuir, a morena depositou um dos seus braços ao redor do pescoço de Kara e escondeu seu rosto naquela curva, sentindo o cheiro doce do perfume que a heroína usava. Sua heroína, Kara Danvers.
A heroína que não poderia salvá-la do que viria.
Kara sentou no sofá e deixou Lena em seu colo, ainda a abraçando como se fosse a coisa mais frágil do mundo. Em algum ponto, sentiu as lágrimas deixando seus olhos e então seu corpo se partiu. Sem precisar trocar qualquer palavra, elas se entenderam na dor, em seus soluços frios.
Rao, Kara não queria deixar Lena. Queria pedir para que ela não fosse embora, como se a Luthor pudesse escolher ficar. Queria fugir com ela, como se tivessem para onde ir, como se ninguém pudesse atingi-las longe dali. Queria poder respirar calma, sabendo que a tranquilidade de Lena a esperaria após um longo dia.
— Eu... eu me arrependo, Kara. Eu me arrependo tanto...
Com aquelas poucas palavras, a loira sentiu tudo começar a ir embora novamente e seu único instinto foi segurá-la mais perto de seu corpo. Não a Supergirl, não a Kara Danvers, mas a Kara Zor-El, que só conseguia existir ao lado de Lena, sem o peso do mundo em suas costas.
— Está tudo bem — a loira sussurrou. — Você estava machucada... Eu entendo.
— Eu não estou falando disso, Kara.
Silêncio, apenas a respiração embargada por lágrimas ainda presas era escutada ali. A heroína afastou-se, somente alguns centímetros para que pudesse olhar nos olhos de Lena.
— Eu me arrependo de não ter amado você do jeito que... do jeito que eu gostaria de amar.
— O que... — Kara sussurrou. — Você... como assim?
Ela esperava que a resposta não fosse o que imaginou. Não queria que Lena a amasse do jeito que ela a amava, pelo menos não quando faltavam horas para que uma delas morresse.
Uma das mãos da Luthor passou pela bochecha corada e molhada de Kara, e a loira perguntou:
— Lena... o que você quer dizer?
— Quero dizer que eu amo você, Kara Zor-El — respondeu num sussurro.
Ela se mexeu no colo de Kara, levantando-se apesar do protesto da heroína. Segurou as mãos juntas na frente do corpo e se pôs a andar de um lado para o outro, próxima ao sofá em que estavam.
— É um pouco egoísta dizer isso agora, não é? — começou. — Dizer que eu... que eu te amo e que sempre fui tão apaixonada por você, que não enxerguei a verdade na minha frente por quatro anos. Que faria o que fosse necessário para te dar o mundo, se você pedisse.
O coração de Kara estava acelerado, suas mãos começaram a tremer a ela as apoiou em seu colo, enquanto observava e escutava Lena.
— Eu vou morrer e só consegui pensar em você na última semana, se você tinha me perdoado e como você reagiria se eu dissesse isso... Eu amo você, Kara. Não como amiga, não como... como uma melhor amiga. Eu amo você do jeito que nunca amei ninguém. Do jeito que quer beijar quando te vê, que não quer sair de perto. E tudo bem se você não quiser que eu continue aqui, eu posso...
— Eu também te amo, Lena — Kara interrompeu, calando a Luthor, que parou de andar de um lado para o outro, em choque. Lena ouviu certo? Kara a amava?
Como se quisesse confirmar o que havia acabado de dizer, a loira ficou de pé, de frente para Lena, ambas em silêncio. Então, não tendo nada a perder, por que Kara não faria aquilo?
Ela se aproximou da Luthor, uma mão em sua cintura e a outra em seu pescoço, e fez o que queria — o que deveria — ter feito há anos.
Foi bom. E doloroso. Era como se não pudesse sobreviver se soltasse Lena depois dali — no fundo, sua consciência dizia que ela jamais conseguiria habitar um mundo sem Lena. Seu coração apertava mais a cada batimento e, enquanto ainda beijava sua amada, Kara sentiu lágrimas de profunda tristeza escorrerem pelo seu rosto mais uma vez.
Ela não tinha Krypton, nem seus pais biológicos, até Jeremiah estava morto e agora, Lena estava a poucas horas da morte.
Num nível subatômico, Kara também estava. Beijar Lena era seu último suspiro antes de se afogar.
A loira separou o beijo, lembrando-se que Lena era humana.
— Vamos fugir — ela disse. — O DEO ainda tem minha capsula, nós podemos ir para Argo e aí...
— Kara.
— Não, não, você pode ficar tranquila! Tem água e comida lá, humanos podem sobreviver e...
— Kara — Lena segurou seu rosto com as duas mãos, calma. — Eu não resistiria a viagem... E Argo não está mais lá.
Era incrível como Lena fazia tudo parecer possível, até mesmo em situações como aquela. Rao, Kara esqueceu do maior evento do universo porque queria um jeito de salvar a vida da mulher que amava.
— Argo não está mais lá, Kara.
Tudo sempre pode piorar.
Ela havia perdido seu planeta há alguns meses. Perdeu suas duas casas, sua família e amigos. Perdeu mais do que imaginava conseguir aguentar, mas pensava que ainda poderia se agarrar a Lena quando tudo passasse, quando a tivesse de volta.
Entretanto, no dia seguinte, também lhe tirariam Lena e Kara não podia aceitar.
— Então... nós... nós precisamos fugir para algum lugar aqui. Eu não posso deixar, eu não vou aguentar viver num mundo sem você, Lena.
Sua voz saía desesperada entre as mãos da Luthor, suas lágrimas escorriam sem pausa e seu rosto estava vermelho. As mãos de Kara seguraram as de Lena sob as suas, e ela fechou os olhos. Beijando a palma da mão da morena, ela disse:
— Eu não quero viver num mundo sem você. Não agora, não quando eu sei que é recíproco. Eu preciso de você, Lena, eu pensei que conseguiria superar com o tempo, que conseguiria assistir esse show ridículo amanhã mas... não, eu não vou conseguir.
— Você precisa — Lena disse.
Seus olhos eram calmos e tristes, uma combinação ainda mais fatal para o coração de Kara. Lena aceitou. Lena estava em paz com o que viria, mesmo que triste por não poder ter Kara.
— Eu só tenho algumas horas.
— Vamos fugir...
— E eles vão nos encontrar de qualquer forma.
— Não...
— Nós temos uma noite.
— Eu amo você.
— Eu também te amo, meu bem — Lena disse, secando as lágrimas na bochecha da outra. — Só por essa noite.
Kara balançou a cabeça lentamente, concordando enquanto sentia mais lágrimas caírem. Elas tinham uma noite. E nessa noite, a kryptoniana deveria fazer as últimas horas da mulher que amava serem as melhores de sua existência, mesmo que seu coração estivesse partido.
Naquela noite, naquela única noite, elas iriam esquecer que o amanhã viria e se amariam. Era a última chance delas, afinal, e não poderiam desperdiçá-la.
Uma última noite. Uma última noite antes do mundo desabar.
…
Em Paris, pessoas comentaram ter visto Supergirl voando de um lado para o outro, como se estivesse ocupada, apesar de não ter salvado ninguém. As notícias locais falavam de uma heroína desfrutando o melhor que a cidade poderia oferecer, discurso este que, em alguns meses, seria usado para aumentar o turismo ainda mais. Se até Supergirl amava Paris, deveriam aproveitar a cidade ao máximo.
O que os jornais não contaram é que Supergirl havia comprado um vestido bonito. E comida, a preferida da mulher que amava, que ela não gostava tanto de Paris quanto eles imaginavam; também não foi dito que ela passou apenas minutos em Paris antes de voltar para National City, onde uma linda mulher de cabelos pretos e olhos verdes a esperava com um sorriso, apesar de tudo.
— Os jornais não param de perguntar o que Supergirl estava fazendo em Paris — disse a humana, erguendo uma sobrancelha. Kara havia feito questão de arrumar tudo da melhor forma possível para o que chamava de "o melhor encontro que ela teria", e a animação da loira quase fez Lena esquecer que aquele seria seu último.
— Como a Alex diria, sendo gay — deu um largo sorriso, logo depois dando um beijo na mulher por quem era apaixonada antes de se afastar para pôr a comida na mesa. — Vai se vestir! Eu me arrumo rápido.
A morena assentiu, sabendo que não seria capaz de negar nem se tentasse. Era adorável que Kara estivesse fazendo tudo aquilo por ela. Parecia uma espécie de sonho, um que logo terminaria em um pesadelo.
Mas não pensaria nisso agora.
Enquanto Lena colocava o vestido vermelho que Kara havia comprado, a grande super-heroína tentava arranjar a mesa da melhor forma possível. Quando finalmente terminou — depois que quinze tentativas — Lena se aproximou do local e sua alegria foi tão grande que realmente esqueceu-se da manhã seguinte.
O ambiente estava à meia luz, sabe-se Deus como a loira fez aquilo com as lâmpadas comuns de seu apartamento. Sobre a mesa, a comida favorita de Lena, com uma vela e uma garrafa de vinho; dois pratos e duas taças sobre uma toalha branca.
Perfeito, Lena pensou.
Kara saiu e voltou em dez segundos, usando um vestido azul, com os cabelos soltos e sem óculos. Para a Luthor, era a mulher mais linda que já vista.
— Vinho, senhorita Luthor? — brincou, arrancando uma risada leve da acompanhante enquanto a servia uma taça de vinho tinto. — Na última vez que eu te vi bebendo vinho, você disse que… Que eu acreditava que tudo era bom e que esse era um dos motivos pelos quais você me amava — e deu um sorriso tímido, agora pondo sua própria taça.
— Sinceramente, Kara, como você nunca percebeu? Eu flertei com você desde o momento em que nos conhecemos! — isso arrancou uma risada da loira, que agora se sentava à mesa junto com Lena — É sério! E então veio o Mike…
— Não estrague tudo citando o nome dele, Lena Luthor — falou num tom de brincadeira — O Mike… Ele está melhor no futuro, mantenhamos ele lá. E… Eu não sei! Talvez parecesse improvável demais alguém como… Como você se interessar por mim.
— Sim, porque eu que sou a super-heroína — Kara estalou a língua em resposta, pegando os talheres para começar a comer. — Você é linda, Kara. Todo mundo flerta com você.
— Não? Ninguém flerta comigo — a loira franziu a testa, pensativa enquanto Lena ria da sua reação. — É sério! O último que tentou foi o William — revirou os olhos, lembrando da insistência irritante dele e da sua posterior traição, quando foi descoberto que ele trabalhava para o Leviathan.
— Você apenas não percebe, meu bem. Já vi metade da CatCo flertar com você. Depois de amanhã, não vai demorar pra achar alguém para me…
— Não diga isso, Lena Luthor — Kara cortou. — Ninguém vai te substituir. Você é única, e… E eu amo tanto você. Amo como nunca amei ou vou amar ninguém — passou o braço para o outro lado da mesa, unindo uma de suas mãos a dela. — Eu amo você, Lena Luthor. E queria ter dito isso quando ainda tínhamos tempo — seu tom de voz era mais baixo enquanto uma lágrima solitária caía pela sua bochecha.
— Eu também te amo, Kara Danvers, mas você prometeu que não teríamos tristeza nesse jantar — secou a lágrima do seu amor com a ponta dos dedos, tentando parecer mais forte do que era; tentando fingir que ela própria não queria chorar.
Kara deixou a mesa que compartilhava com Lena e ligou seu rádio. Surpreendentemente, valsa deixou as caixas de som do aparelho. A loira sorriu para sua amada.
— Me concede a honra? — perguntou, estendendo a mão para Lena, que se entregou.
Naquele momento, se o mundo acabasse, Kara não ligaria. Sua sala virou um salão, e era como se estivessem num baile. Lena sorriu quando a heroína a girou em seu colo, um som alegre deixou sua garganta e foi a mais bonita das melodias para a loira.
Lena estava nos braços de Kara. Segura, firme, feliz. Era um sentimento bom demais, que nunca mais seria experimentado.
Que o mundo acabe, a kryptoniana pensou. Que o mundo acabe para que eu não esqueça de você.
— Você já voou comigo uma vez — a loira disse.
— Sim, quando você me salvou, pra variar.
— Vamos voar de novo hoje. Eu sei que você não gosta, mas prometo que nada de ruim vai acontecer.
Bom, algo vai acontecer, Lena pensou, porém não era sobre Kara.
— Você só precisa confiar em mim, meu bem — a heroína falou.
— Vamos.
Elas nem terminaram de comer e estavam no céu, sob as estrelas que cobriam National City. Pela primeira vez em toda sua vida, Lena Luthor não sentiu medo de voar. Ela não sentiu medo de nada, na verdade. Kara Danvers... não. Kara Zor-El nunca deixaria nada acontecer com ela.
Sabendo que estava se enganando, a morena sorriu para si mesma quando quis chorar. Kara não tinha mais a opção de salvá-la.
— Eu tenho a melhor visão da Terra e ainda não sei qual é a cor exata dos seus olhos — Kara disse. — Eu nunca vou conseguir descrever do jeito certo.
— E pra quem você vai descrever os meus olhos, Kara?
Para os meus filhos, a loira pensou. Meus, não nossos.
— Eu preciso descrever pra não esquecer.
A heroína da cidade notou algo nos olhos de Lena naquele instante, mas não sabia descrever. Não soube descrever nada a partir dali, na verdade, mas gostava do que era. Gostava da ideia de estar vivendo algo indescritível com a mulher que amava, mesmo que essa mesma mulher fosse ser tirada dela dali há algumas horas.
E quando ainda faltavam minutos para para às 3 da manhã, Lena a beijou. Não como no primeiro beijo delas, horas atrás, mas de uma forma mais profunda, com desejo.
— Vamos voltar — Lena disse, interrompendo o beijo.
Kara nunca conseguiria decifrar aquelas cores, porém sempre lembraria das pupilas dilatadas de Lena, perdidas em desejo por ela.
Assim se arrastaram, pelo que sobrava da noite. E por Rao, foi bom, melhor do que qualquer uma das duas havia experimentado durante a vida. Existia respeito, vontade e, acima de tudo, o amor que sentiam.
Faltavam duas horas para o final da madrugada quando Lena deitou sobre o peito de Kara. Era o fim.
— Kara.
— Sim?
— Me promete que vai viver — Lena começou. — Você não deve sua vida a ninguém. — Eu devo a você, a loira pensou. — Você merece viver tanto quanto os outros. Então não se jogue em buracos do tempo, não enfrente kryptonita sem proteção, não faça qualquer besteira. Viva, Kara. O mundo precisa de você viva.
Não era um pedido fácil, levando em consideração que o amor da vida de Kara Zor-El morreria em algumas horas.
— Você promete?
— Vou dar o meu melhor.
— Não, isso não basta — ela a olhou bem nos olhos, tentando fazê-la entender. — Eu não... Eu não vou ficar em paz sabendo que você não prometeu.
A olhando nos olhos, Kara seria capaz de mentir para deixá-la morrer em paz, porque viver teria um conceito diferente sem Lena em sua vida. Viver num mundo sem Lena e todas as coisas e sensações que ela trazia, seria apenas existir.
Por mais terrível que soasse, era a verdade.
— Eu prometo.
Aceitando o que a voz disse sem falhas, Lena a beijou, delicada como nunca.
Elas levantaram e tomaram banho juntas, comeram e deitaram novamente, agarradas uma à outra, aguardando o final definitivo para aquilo.
Os agentes federais, Kara não sabia como, tinham a localização da Luthor. Eles chegaram junto com o nascer do sol.
Lena possuía bolsas escuras sob os olhos por não ter dormido, por não querer desperdiçar um segundo ao lado de Kara.
Tudo foi muito rápido. A Luthor não tinha que levar nada consigo, apenas levantar e sair pela porta, então foi o que fez. Kara a acompanhou, segurando uma de suas mãos até a porta como se pudesse protegê-la do que viria a seguir.
Mas ela não podia. Assim que alcançaram a porta, a loira foi impedida de continuar seguindo com os agentes federais. Afinal, Lena era uma das personalidades mais importantes do país e, agora que estava indo para a sua morte, todo cuidado era pouco.
E ali, antes de serem separadas por toda a eternidade, trocaram aquele que seria o último olhar antes do destino que aguardava a morena… O verde dos olhos de Lena encontraram os azuis de Kara num suspiro pesado.
Acabou, Lena pensou, sentindo no peito a dor de Kara. Ela sabia muito bem que a sua kryptoniana tinha um estoque infinito de esperança. Aquilo a tranquilizava e preocupava na mesma proporção.
Horas passaram e, num instante, já era tarde e estava na hora de tudo que temiam, que queriam ignorar, vir a tona como um grande tsunami.
A presidente queria que o evento fosse público, um verdadeiro espetáculo que, para boa parte da população, era um retorno a uma época de barbárie que muitos não gostariam de reviver.
Jornais de todo o mundo anunciavam a queda da família Luthor, depois de tanto tempo de luta. O evento — a morte de Lex e Lena — seria transmitido ao vivo para o globo, e a morte seria por guilhotina, em praça pública.
Não era uma ideia progressista, e alguns chamaram aquilo de cruel e desumano. Todavia, a maioria não se importou. A maior parte do país estava tão intensamente consumida pelo ódio que se cegaram ao show de horrores que ocorreria em National City naquela tarde. E apesar das tentativas desesperadas da repórter Kara Danvers e até mesmo da heroína Supergirl, não foi concedido aos irmãos mais odiados do continente um final digno. Seriam mortos à vista de todos, da forma mais humilhante e devastadora que poderiam fazer. Naquele momento, o coração de Supergirl estava cheio de dor.
Ela e o primo estavam ali numa posição de poder, os uniformes azuis se destacando em meio a multidão. Clark segurava o braço da loira, e os jornais diriam que estava lhe dando forças para aguentar o que veria ao seguir. Para Kara, o primo pressionava seu braço para tentar evitar que ela salvasse a pessoa que mais amava naquele planeta.
Porque ele sabia, assim como qualquer um que prestasse atenção por mais do que um segundo. Estava nítido em seus olhos desde que se viram pela primeira vez e mesmo ali, só era necessário observar suas lágrimas para notar que algo estava errado; que apesar de tudo, a Super não queria que os Luthor morressem. Ou, pelo menos, que Lena morresse.
Atrás deles, equipamentos de guerra do governo estavam postos caso alguém tentasse impedir a execução, até mesmo kryptonita era exposta para que todos vissem: eles poderiam ser Super, mas o governo estava acima. Era um recado não verbal para qualquer um que pensasse em tentar seguir os passos de Lex e também uma mensagem para que os primos não ousassem sequer pensar na palavra compaixão.
Por trás da roupa imponente e da capa, o coração de Kara Zor-El batia forte, como se fosse pular para fora do peito. Era como ver a destruição de Krypton sem poder fazer nada para impedir, mais uma vez. Assistiria seu mundo desabar e seria obrigada a seguir em frente como se não fosse nada, como se seus sentimentos, seu coração, também fossem de aço. Ela não suportaria perder Lena, mas não havia nada que pudesse fazer para mudar aquilo. Ela ficaria ali como uma mascote do governo, uma pintura bonita para que dissessem que eram imbatíveis.
Diriam que ela era uma arma enquanto a loira estava tão quebrada que não conseguia se lembrar de respirar.
Quando finalmente o relógio bateu duas horas da tarde, gritos de euforia foram ouvidos conforme duas pessoas eram levadas para cima do palanque. A multidão gritava, assoviava, e alguns até cantavam músicas felizes como se fosse feriado. A alegria era contagiante, mesmo os poucos que não gostavam tanto da ideia da guilhotina se juntaram à comemoração. Para quem ignorasse toda o conceito de moralidade, aquela era uma festa, e eles deveriam agir como tal.
Lena estava linda. Para seu leito de morte, ela escolheu um terno preto com renda na parte do pescoço. Seu cabelo estava num rabo de cavalo, como geralmente ficava, e seus lábios continham um tom de vinho que a fazia parecer ainda mais poderosa do que era, mesmo que naquele momento não tivesse nada.
Ao seu lado, Lex também usava um terno preto, mas uma rosa vermelha destacava-se no bolso do seu terno, como se aquilo fosse um casamento, não seu destino final.
E então tudo estava pronto. O pescoço de Lena apoiado na madeira, aguardando um destino bárbaro, não usado há quase um século na humanidade.
Kara sentiu o desespero atingi-la de um jeito nunca visto antes. Sua respiração acelerou, sua postura tornou-se ereta, e seus olhos refletiam seu desespero em azul. Kal notou que algo estava errado e apertou a mão ao redor de seu braço, tentando impedi-la de fazer alguma estupidez.
No fundo, seus ouvidos escutaram um sino tocar, o sinal de que era o fim. Por um instante, seu coração parou de bater, apenas para que voltasse ainda mais rápido.
— Lena — ela sussurrou. — Lena... Não, não, não.
— Supergirl? — Kal chamou, notando que Kara tentava sair dali. — Supergirl, fique aqui.
— Lena! — ela gritou em alto e bom som, para que todos ali escutassem. — Lena! Não, não, não! Não façam nada com ela, ela pode pagar de outra forma, Lena!
— Supergirl, controle-se! — Kal disse.
Os olhos de todos estavam sobre Kara, menos os dela. A loira jamais ficaria sabendo que o mesmo desespero, que não a atingiu durante a semana, fazia o coração de Lena bater mais rápido.
Mas o fim dela seria rápido, indolor.
O de Kara não.
Então, quando Kara gritou mais uma vez o nome de sua amada, um guarda, ignorando tudo, puxou uma corda.
E o mundo parou ao redor de Kara Zor-El, seu coração mudo entre a barulheira da multidão.
Os braços de Kal a seguraram, ela achou, não tinha certeza. Não lembrava de quando suas pernas falharam e caíram sobre seus joelhos. Ela não fazia ideia de como havia parado na sacada do escritório de Lena, nem como conseguiu parar de chorar.
Passou as mãos sobre o sofá delas, a cadeira de Lena, que sempre levantava para recebê-la com um abraço e um sorriso, a mesa que usavam para comer juntas durante o almoço.
O prédio vazio, sem a L ou Luthor-Corp, não escutou seus gritos. Seu peito, querendo arrancar a dor de ter perdido a mulher que amava, a fazia gritar, chorar, chamar por Lena, na tentativa de cansá-la para que tudo fosse embora.
Não iria. De fato, não foi.
Semanas passaram. Meses.
Nada fez o brilho dos olhos de Kara Zor-El voltar.
O prédio da antiga L-Corp foi vendido, do mesmo modo que o apartamento de Lena, e Kara não ligava. Durante as noites, variava entre as sacadas, na esperança de ouvir a voz dela. Às vezes, cansada, ela adormecia ali e sonhava com isso. Ao acordar, não sabia se era um pesadelo ou uma lembrança boa, onde ela ainda tinha aquela voz para lhe dizer oi.
Em algum ponto, Alex parou de telefonar todos os dias. James e Nia também. Brainy ainda arranjava um jeito de se comunicar, insistente, e sempre era ignorado por Kara. Ninguém poderia imaginar aquilo acontecendo anos atrás.
Ela estava prestes a sair para mais uma noite nos prédios quando escutou duas batidas na porta, Rao, como queria que fosse ela.
Não era, infelizmente, e Kara quase chorou.
— Samantha — disse com desdém enquanto a outra franzia o cenho.
— O que houve com você? — Era uma pergunta idiota. Todos sabiam o que havia acontecido com ela. — Kara…
— Você está bem? Algo aconteceu com a Ruby? Precisam de mim? — Não deixou a outra completar.
— Não, nada aconteceu — ela respondeu. — Olha, algumas coisas da Lena ficaram comigo, quase nada. Fotos, troféus da escola, coisas que ninguém queria. Eu achei isso no meio delas. — Só então Kara notou a caixa nas mãos dela.
— O que…
— Eu também não sei, não abri, mas sei que é pra você.
Ela hesitou antes de pegar a caixa. Era dela e Kara não era capaz de falar sobre isso, nem sequer proclamava o nome em voz alta. Só pensava, desejava e esperava por ela todas as noites.
— Kara, eu sei que nunca fomos muito próximas, mas você… você não é isso. Você não é assim. A Lena não gostaria de te ver assim.
A loira pegou a caixa e, antes que Samantha pudesse continuar, disse:
— Sai — com a voz trêmula e olhos brilhando. — Me deixa sozinha.
Ela deixou.
Os moradores da madrugada viram Supergirl cruzar a cidade mais uma noite, dessa vez, a caminho do apartamento da Luthor. Ela parou na sacada e sentou no canto, onde há um ano, uma morena de camisa verde a esperava.
— Lena… — ela disse, passando a mão pela tampa da caixa branca e com lágrimas descendo pelo rosto. A loira parecia tão pequena...
Dentro da embalagem, um vidro de perfume cheio, o perfume de Lena, o favorito de Kara. Sob ele, uma carta escrita antes do julgamento e nunca enviada.
Kara Danvers,
Eu tenho esperança pela primeira vez em meses. Hoje à noite, quando você apertou a minha mão e disse que nós derrotaríamos Lex juntas, senti que poderia fazer tudo.
Você tem esse efeito sobre mim.
E eu sei que fiz muitas coisas erradas, que terei que pagar por isso, mas não importa. Terei tempo para dizer tudo que preciso dizer.
Preciso dizer que eu te amo, Kara.
Desde o primeiro dia, quando você e o Clark apareceram. Você estava tão atrapalhada e eu sabia, algo dentro de mim sempre soube que te amaria. E eu amei — eu ainda amo — com tudo no meu coração.
Por isso doeu tanto, não é? Por isso eu senti tanto quando descobri sua identidade.
Então, eu decidi hoje. Vou te dizer tudo, não importa o quanto me assuste. Depois do julgamento, vou te falar tudo que sinto. Quero saber se você vai sorrir, se vai fazer a mesma cara de surpresa de quando eu comprei a CatCo, se vai se assustar. O futuro me deixou curiosa, e é uma sensação tão boa!
Uma sensação que só consigo sentir quando você e essa bolha de esperança e amor que construiu estão por perto. Você é o sol, Kara, e eu sou eternamente grata por ter iluminado minha vida quando eu mais precisei.
Kara Danvers ("Zorel" ou "Zor-El"?), eu queria me apaixonei pela minha melhor amiga kryptoniana e estou muito feliz por ser a maior decepção de Lillian Luthor.
Ps.: essa é a coisa mais gay e sem sentido que já escrevi.
Ao fim da página, Kara estava chorando como não fazia há tempos, sentindo cada parte de sua dor escorrer pelo rosto. Sentia saudade de Lena, de como ela fazia a loira se sentir em casa, sem a responsabilidade do mundo em suas costas. Zor-El. Lena gostaria de aprender kryptoniano? Não, não poderia pensar naquilo.
Passou o perfume em seu pulso e sentiu o cheiro de Lena mais uma vez, a primeira em tanto tempo. Colocou o vidro e a carta de volta na caixa e a segurou como se fosse o maior tesouro da humanidade.
Para ela, era.
Kara entrou na casa de Alex pela janela, que estava aberta, o que era estranho para os padrões daquela Danvers.
Na sala, no meio da madrugada, a ruiva que tomava uma xícara de chá levantou para socorrer a irmã. Correu até ela, que não soltou a caixa por nada.
Kara chorava de joelhos, tão pequena quanto a que chegou numa nave tantos anos atrás.
— Alex… ela… ela queria um futuro comigo, ela… ela… Lena… eu amava a Lena, Alex, eu amava a Lena — a loira apoiou um dos braços pelo pescoço da irmã, frágil, e Alex a segurou firme. — Eu… amava.
— Você ama, Kara — a ruiva disse. — Você nunca vai parar de amar. Mas você precisa aceitar que ela morreu, meu bem. Ela não vai voltar, mesmo que você queira muito.
Com isso, ela chorou mais, pois sabia que a irmã estava certa.
— Ela morreu — Kara repetiu. — Ela não vai voltar.
— Não vai — Alex a segurou conforme ela relaxava o corpo em seu colo, no chão do cômodo. — Mas você ainda está aqui — olhando nos olhos da irmã, a ruiva continuou. — Quem vai lembrar desse amor se você não sobreviver?
— Você… você estava me esperando?
— Todas as noites.
Ali, Kara respirou fundo e falou sobre Lena e a última noite delas pela primeira vez em meses. Seu coração pesou menos, suas lembranças ficaram mais claras e até mesmo sua voz pareceu mais leve. Ela precisava disso, precisava mais do que podia imaginar.
— Lena. — Foi a última coisa que disse antes de dormir.
Elas tiveram uma chance, e isso era ter mais sorte do que a maioria. Por uma noite, se amaram até o nascer do sol, e isso era o suficiente. Ficariam na memória uma da outra, e seus sentimentos seriam lembranças felizes para Kara, seus filhos e os que viessem depois disso. Afinal, todos deveriam saber:
Um dia, uma Super amou uma Luthor, e o resultado foi a mais bonita história de amor.
Naquela noite, antes de chegar em casa, Kara encontrou nos céus de National City o que buscava no escritório e na cobertura de Lena: um sinal.
Não era a voz ou o abraço, nem o sorriso. Era a calma que Lena sempre trazia, passando por ela no frio do céu de National City.
E enquanto sentia o vento frio contornar o seu corpo em meio às nuvens, ela soube.
De alguma forma inexplicável, ela soube. Lena estava ali, e estava olhando para ela. Provavelmente sorria e a admirava com os olhos brilhando, orgulhosa por estar finalmente vendo sua heroína em paz.
E, porque soube, Kara não teve pesadelos naquela noite ou na noite depois dessa. Lena estava ali, com ela, em algum lugar. E a kryptoniana torcia para que, junto de Rao, Lena sorrisse.
Porque ela sorriria de volta.
