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O ensino médio, por assim dizer, é um período complicado. A transição da adolescência à vida adulta, agenda muitas vezes inflexível e horários apertados devido a trabalhos escolares e provas fazem parte da rotina de qualquer secundarista. Questões sobre o futuro como ensino superior e estabilidade financeira também transitam e rodeiam esse período tão singular que é a juventude. Não que as outras fases da vida não tenham suas particularidades, mas os sentimentos à flor da pele causados pela nova onda de hormônios parecem causar tanto, em tudo. Tamanha é a intensidade quanto seus próprios dilemas, fazendo com que esses três anos pareçam os mais longos de suas histórias.
Mas nem só de estudo vive o estudante. Passeios não são exceções à regra e estão incluídos na grade curricular dos alunos, seja para aprendizado ou entretenimento. Viajar em grupo é essencial para fortalecer laços interpessoais e despertar o espírito de coletividade, muitas vezes adormecido. Que há tempos é o caso de Todoroki Shouto.
O ambiente foi uma novidade assim que entrou em uma sala de aula, caminhou pelos corredores e se alimentou no pátio da instituição durante os intervalos. Ele sabia da existência de escolas, mas desde sempre recebeu ensino domiciliar por conta de seu pai. Shouto mal saia de casa, seus poucos fragmentos de interação social envolviam apenas parentes e mesmo assim, até o contato que tinha com os próprios irmãos era quase nulo. Nada como se sentir deslocado dentro da própria família.
É inegável que o Todoroki caçula está tentando mudar. Pra quem entrou no primeiro ano dizendo que não espera fazer amigos e agora, no segundo, tem mais de cinco, pode-se dizer que isso é uma evolução. E o passeio caiu como uma luva a quem pretende se aproximar de uma pessoa em específico que vem reparando nos últimos meses.
Afinal, qual o problema em querer passar o tempo com um amigo?
Nenhum, oras.
Faltavam duas semanas e no decorrer desse tempo, Iida Tenya inteirava seus colegas sobre a decisão do diretor e dos professores, repassando informações sobre o que levar, o que não levar, normas do local onde ficarão hospedados, horário de partida e chegada – todos os trâmites de uma excursão escolar. Shouto reparou que uma pessoa ou outra bocejava com o falatório que parecia mais do mesmo, mas se ele pudesse, o ouviria palestrar até sobre o assunto mais tedioso possível. Repetidas vezes.
Todoroki não se lembra quando começou a notar Iida com tamanha frequência. Talvez na metade do primeiro ano? No início do segundo? Ele gostava de observar como o representante de classe parecia exercer o trabalho de sua vida em tudo que se propunha a fazer. Verdade seja dita, Iida se dedicava de corpo e alma, metódico tal qual ele é. Mas à primeira vista, Shouto tem lembranças de o achar muito barulhento, quase teatral. Tenya não usava apenas sua voz para se comunicar, mas sim o corpo todo. Inclusive sendo assim até hoje.
… No que pensava, mesmo? Outro fato curioso sobre pensamentos constantes onde Iida era o centro de suas atenções é que ele se perdia facilmente na própria linha de raciocínio ao pensar no amigo.
Claro. Iida Tenya. Todoroki Não se lembrava quando começou a enxergá-lo com outros olhos. Era isso.
Ele não consegue apontar o momento em que percebeu como Iida fica mais sério que o normal, quando muito concentrado em sua leitura. Ou de como ele tenta disfarçar a risada ao ouvir aquela piada ridícula que Kaminari não cansa de tentar contar, já que sempre ria antes mesmo de começá-la. Ou quando ele tira o terno de seu uniforme por conta do calor, sendo possível notar braços definidos – não só os braços, afinal, ele pratica atividade física. E detalhe: Iida tem preferência por roupas ajustadas ao corpo.
Talvez Todoroki não estivesse bebendo água o suficiente para sentir a garganta tão seca e apertada com uma visão dessas, mesmo com nada de fato físico o sufocando. O que o faz lembrar de Iida aconselhando seus colegas, inclusive Shouto, a se manterem hidratados. Talvez precisasse de um cardiologista para conferir se o seu coração está em dia porque não era normal os seus batimentos acelerarem do nada. E o representante de classe sempre lembrava a todos sobre a bateria de exames que precisavam fazer, pelo menos, uma vez ao ano.
Ou talvez só devesse admitir que estava apaixonado e não fazia ideia de como lidar com isso.
O som de carteiras e cadeiras arrastadas o despertou dos devaneios. Onde estava com a cabeça ao pensar uma coisa dessas? Assim que acordou de seu transe, viu a sala se esvaziando aos poucos e não sabia se tinha algo a fazer. Também notou que alguns de seus colegas colocavam uma folha de papel na mesa do professor, com Iida as recebendo.
Ah, sim. As autorizações.
Todoroki tirou uma das folhas que estavam no meio de seus livros e guardou os materiais. Estaria mentindo se dissesse que não demorou de propósito, esperando que a sala ficasse quase vazia. Levantou-se e foi em direção a Iid- à mesa .
Foi em direção à mesa para entregar o certificado, apenas.
“Boa tarde, Todoroki!” disse Iida enquanto ajeitava os papéis, já que alguns foram jogados sobre a superfície de madeira.
“Boa tarde.” Todoroki assentiu, entregando sua autorização. Iida recolhe, a examinando enquanto ajustava o óculos.
“Uhmn...” Tenya estava em pé e a diferença de altura dos dois não era tão aparente. Mesmo assim, inclinou um pouco seu rosto para olhar nos olhos do colega. “Você me entregou o seu atestado médico,” disse. Deu um breve sorriso, devolvendo o comprovante e voltando à postura de antes.
“Ah.” Todoroki queria cavar um buraco e se esconder. Se tivesse checado antes, não passaria por isso. “Me desculpa,” disse, pegando a folha de volta com certa pressa.
O movimento brusco fez com que encostasse sem querer nos dedos de Tenya. Ainda com o atestado em mãos, Shouto procurava o outro papel em sua mochila, tentando não demonstrar a ansiedade que sentia naquele momento. Se era pelo engano ou por tocar, mesmo que acidentalmente, nos dedos do colega, ele não saberia dizer.
“Tudo bem,” disse Iida, voltando sua atenção ao que organizava antes. “Você pode entregar até semana que vem caso tenha esquecido.”
“Eu trouxe,” respondeu Todoroki, retirando cadernos e livros de sua bolsa, os abrindo. “É que elas são bem parecidas… Acabei me confundindo.”
Elas não eram parecidas.
Mas Shouto encontrou o que queria e isso basta. Guardou novamente os materiais, ainda nervoso, mas não tanto quanto antes.
“Aqui.” Entregou o certificado, inquieto.
O representante de classe pegou a folha, a analisando para ver se faltava alguma coisa.
“Tem estado bem distraído esses dias, Todoroki,” disse Iida. “Está tudo bem?” perguntou, olhando nos olhos do amigo mais uma vez. “Não precisa responder se não quiser!”
Iida Tenya é atencioso . O que não deveria ser novidade, visto que ele é assim com todos os seus colegas. Mas ouvir tais palavras dele parecia… Diferente? Reconfortante, até. Mas não é hora para imaginar coisas.
“Sim, eu só…” Todoroki abaixa a cabeça, evitando contato visual. “Final de período, provas… Sabe como é,” disse, coçando a nuca. Sentiu a pulsação em seu ouvido, latente.
“Imagino.” Iida coloca a autorização junto das outras com uma mão e ajusta o óculos, mais uma vez, com a outra. “Espero que essa viagem te ajude a descans-” Ele hesitou, mas se corrigiu a tempo. “Espero que todos possam descansar com essa viagem! É necessário manter a mente limpa e rejuvenescida para seguir com os estudos!”
“Sim…” Todoroki concordou, meio vago.
Tenya ainda o olhava, expectativo, porque realmente parecia que Shouto tinha algo a dizer.
Mas não o fez. Sentia um aperto no peito, como se estivesse cometendo um grande erro. Em vez de dizer o que queria, contentou-se em murmurar, “Vai ser divertido.”
“Esse é o espírito!” respondeu Iida, colocando em uma pasta a papelada prestes a ser entregue na sala dos professores.
Todoroki esboçou um sorriso forçado, tímido, mas Iida não viu.
