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Não posso ficar nem mais um minuto com você

Summary:

Irene, filha de uma família rica, sempre detestou aquela vida cheia de regras e imposições fúteis. Mas depois de conhecer Santiago, um rapaz suburbano com um charme inegável, ela encontrou uma nova motivação para escrever o próprio destino.

[HunRene] [BR!au] [60's!au] [Berrie Songs - 2° ciclo]

Notes:

Quero agradecer imensamente à @kenobyun pela capa maravilhosa que ela fez para a fic no spirit, e também à @92sbaekiie pelo trabalho atencioso com a betagem. Não poderia deixar de agradecer ao berrie pelo projeto incrível!

A fic foi inspirada em Trem das Onze, do Adoniran Barbosa.

Algumas considerações aqui:
Santiago é o Sehun
Carlinhos é o Chanyeol
Matteo é o Jongdae

Quis buscar uma representatividade nessa história, então... Sim, Irene é bi!

Work Text:

Janeiro de 1963

 

Não que Irene fosse alguém que detestava tudo, apesar de detestar muitas coisas, mas ela era alguém que se entediava facilmente. O que, para falar a verdade, não era algo tão absurdo naquele salão mais lotado do que ela gostaria, com mais barulho do que ela estava a fim de suportar. Aliás, considerando a conversa que sua família tinha naquela mesa redonda, difícil seria ela não achar aquilo tudo um saco. Contudo, não era como se ela tivesse alguma escolha de estar ali ou não — se pudesse decidir, estaria em casa, lendo um bom livro, ou ouvindo a novela no rádio —, então tinha que sorrir e balançar a cabeça, fingindo estar minimamente interessada naquele papo medíocre.

Aquele era o baile de debutantes de sua prima, que comemorava seus quinze anos, então Irene precisava parecer feliz ali, junto à sua família, por mais que essa fosse uma das coisas que ela mais detestava. Ela sabia que beirava a estupidez, mas  não conseguia ficar grata pelo privilégio de ter nascido em berço de ouro, porque detestava, principalmente, o vazio que aquilo trazia em sua vida. Não podia dizer que detestava seus pais, ou seu irmão, mas sentia que deveria detestar. Com seus vinte e três anos, a sensação era de ter perdido toda a sua juventude; foi criada dentro de uma jaula. Ela nunca pôde sair para brincar com outras crianças, apenas com os filhos mimados das pessoas endinheiradas que frequentavam a sua casa. Nunca pôde se aventurar a conhecer as ruas do próprio bairro, sempre havia um motorista a esperando na porta da escola. Até seus dezoito, ela nem mesmo podia sair sozinha durante o dia, a pouca liberdade que ganhou foi para dar uma volta por aí com algumas amigas — mas apenas aquelas que seus pais permitiam. As poucas vezes em que conseguiu se divertir um pouco, passar um tempo com seus amigos, ou conhecer garotos, foi porque fugiu de casa ou matou aula, coisa que era realmente muito difícil.

Entretanto, isso tudo sempre foi muito diferente para o seu irmão, que sempre teve a liberdade para fazer o que bem entendia, ir aonde bem entendia, na hora que bem entendia, com quem bem entendia, e se tivesse vontade. Praticamente todas as regras que Irene era obrigada a seguir a vida inteira viravam pó quando se tratava de Edgar; aparentemente, ser mulher naquela família significava nascer com algemas, e Irene, obviamente, detestava isso mais do que tudo. Suas tias e primas podiam até se conformar e achar que estava tudo bem com isso. Mas ela não achava. Talvez a sua única saída fosse o casamento — porque nem faculdade ela podia fazer — mas isso seria deixar de obedecer à família para obedecer a um homem, o que poderia ser até pior. Irene não tinha qualquer perspectiva do que faria para ser uma mulher livre, talvez em algum momento acabasse fugindo de São Paulo, para procurar qualquer emprego que lhe garantisse um teto e comida na mesa. Sabia que seria melhor do que frustrar-se diariamente com um brioche no seu prato, mas tinha medo, não sabia como começar.

De qualquer modo, por enquanto ainda estava lá, então tinha que sorrir diante dos pais, do irmão, dos tios, e dos primos naquela mesa, porque havia realmente muita gente naquele baile. E praticamente a cidade inteira conhecia a família Marques; o que não era de se surpreender, eram membros importantes da elite paulistana. Irene foi treinada para sorrir em qualquer situação, mesmo com aquele vestido caro que apertava suas costelas, e com as meias calças que causavam a sensação de ter as pernas cozidas, considerando o calor de janeiro, mesmo com a conversa de merda naquela mesa, mesmo com tudo o que ela detestava bem ali... Ela sorria, porque não tinha outra opção.

— Irene, você está lembrada do Junmyeon? — perguntou sua mãe. — Aquele garoto da família coreana, vocês brincavam juntos quando eram crianças…

— Ah, lembro sim, mãe, é claro... — Quis completar que é claro que iria lembrar, afinal ela jogava areia na cara dele, e os adultos os perturbavam constantemente dizendo que eles iriam namorar quando fossem mais velhos, porque não podiam ver duas crianças burguesas brincando juntas sem pensarem em perpetuar uma linhagem rica e influente.

— Ficou sabendo que ele irá para a França em setembro?

— Não, não estou sabendo — respondeu, embora não ligasse o suficiente para o assunto.

Certo, Junmyeon era uma das crianças que frequentava a sua casa quando ela era pequena, e era um garoto até que legal, e ela ficava feliz por essa conquista dele, ou seja lá o que isso for, mas eles praticamente não se falavam desde que tinham  doze anos, e nem faziam questão disso, apenas  cumprimentavam-se brevemente e mantinham distância. Se as duas famílias não os atormentassem com aquela obsessão por um relacionamento entre eles, talvez  pudessem ter se aproximado e criado uma amizade. O ponto é que, ela não via Junmyeon como alguém além de um conhecido, e sabia que a consideração era recíproca, mas sempre que a sua mãe abria a boca para falar dele, era para dizer como ele era um homem incrível, e que Irene deveria se relacionar com aquele rapaz.

Isso era um saco.

— Ele vai fazer seu mestrado em engenharia, talvez nem volte para o Brasil.

— Que legal, mãe, fico muito feliz por ele.

Irene gostava de se fazer de sonsa; costumava fingir que não notava as intenções escondidas no tom de cada fala, assim não se incomodava tanto. Foi por isso que não respondeu do jeito que deveria. Queria ter dito que torcia muito para que Junmyeon não voltasse para o Brasil. Que ficasse na França, ou onde bem quisesse, e que fosse feliz lá, bem longe de sua família e dela. Porque ela sabia bem como os Kim tratavam o filho mais novo, e só não era pior do que a sua situação porque ele ainda teve a liberdade de estudar quando saiu da escola. Irene, por sua vez, não. Teve que ficar em casa e aprender a ser uma boa esposa, para quando tivesse a honra de ter a sua mão pedida em casamento por um homem de sobrenome importante e dinheiro no bolso. Tinha que ser uma dama apresentável à sociedade, portanto teve aulas de etiqueta, de piano, aprendeu francês e alemão, sabia pintar e bordar. Com tal formação, seria uma esposa de luxo para qualquer figurão da elite.

Sua mãe continuou falando, mas Irene já não prestava mais atenção. Seus olhos se perderam no salão, buscando por qualquer coisa minimamente mais interessante. Fossem crianças dançando desajeitadamente entre os adolescentes e adultos, fosse alguém guardando a comida cara dentro da bolsa para comer no outro dia — uma deselegância cômica, já que bastava pedir aos garçons um embrulho para os docinhos —, qualquer coisa já servia. A sua distração, no entanto, foi melhor do que ela poderia esperar. Em algum momento, encontrou um rapaz alto, com um terno bonito e um Borsalino na cabeça que definitivamente fora feito de um tecido medíocre. O sujeito estava escorado à parede, de braços cruzados, e olhava ao redor como se estivesse ainda mais entediado do que Irene.

Como se também detestasse tudo o que via.

Ela aproveitou quando sua mãe se ocupou em uma conversa com seus parentes para sair da mesa. Talvez a mulher pensasse que ela fosse ao banheiro, que encontrou uma amiga, ou algo assim, e provavelmente não daria atenção a isso, já que tinha bebido consideravelmente. Irene não gostava de bebidas alcóolicas, seu pai nunca permitiu que ela bebesse, então acabou por nem criar gosto por isso. Ela foi em direção ao bar, com a desculpa de pegar um suco... Só que, na verdade, ela queria passar perto do tal rapaz de chapéu. A uma distância segura, encarou o seu rosto por tempo suficiente para ser notada, então desviou o olhar e seguiu até o bar.

Ela pediu pelo suco, e, enquanto aguardava, sentiu que alguém parou ao seu lado. Com os ombros expostos pelas alças finas do vestido, talvez fosse possível notar o arrepio ao perceber que era o homem que ela observava. Ele não a encarava diretamente, apenas estava ali, ao seu lado. Irene imaginou que o sujeito talvez fosse tímido, mas ainda deixaria a iniciativa de uma conversa nas mãos dele, apenas ficou admirando os traços de seu rosto. As sobrancelhas passavam um aspecto frio, mas a boca pequena e cheinha davam uma impressão mais doce. Aquele moço tinha uma beleza inegável, um rosto que agradava a visão, e era difícil não olhar.

— Posso ajudar a senhorita? — perguntou o rapaz com um sorriso sem graça, talvez devesse ter dito algo antes.

— Tenho a impressão de que o conheço de algum lugar — mentiu, não sabia bem o que dizer.

— Acredito que não nos conhecemos ainda, mas seria uma honra. — Escorando um dos braços no balcão, ofereceu a mão livre para receber a da moça, e então deixou um beijo sutil no dorso. — Muito prazer, Santiago.

Santiago? — ela repetiu o nome incomum com certo gosto. — Encantador.

— Meu pai era argentino, não sei como convenceu a minha mãe. — O moço riu. — E como eu posso chamar a senhorita?

— Irene. — Seu sorriso brilhava tanto quanto os seus olhos. — Você é convidado de qual das moças? — falava sobre as debutantes.

— Ah, aquela com o vestido azul... — Apontou para a menina que dançava com um garoto no centro do salão. — Ela é irmã do meu melhor amigo, e ele insistiu para que eu viesse... Só que o indivíduo se sumiu com uma amiga e me deixou aqui sozinho. E, honestamente, eu não estou muito acostumado com essas festas chiques.

— Que situação... — Depois de um suspiro, ela teve coragem para dar um passo adiante. A ideia de conhecer aquele homem melhor era realmente muito atraente. — Eu meio que fugi dos meus parentes, então... Se quiser, podemos fazer companhia um ao outro.

— Fugiu dos seus parentes? — Ele riu. — Certo, eu irei apreciar muito a sua companhia. — Outra vez, estendeu a mão para a moça. — Me concede uma dança?

Irene olhou para trás por um momento, na direção da mesa onde a sua família estava. Estavam todos bebendo e rindo, certamente não davam a mínima para ela. Ótimo.

— Com certeza! — Sorrindo, segurou a mão do novo conhecido e deixou que ele a guiasse para o centro do salão.

Foi como experimentar a liberdade.

 

(...)

 

Não pergunte a Irene o que ela tinha na cabeça quando resolveu puxar Santiago pela gravata até o outro lado do salão, ela só lembrava das risadas, dos sussurros, e da mão quente em sua cintura, o restante não tinha a menor importância. Eles passaram por alguns cantos escuros, desviaram do caminho de diversas pessoas que conheciam Irene — e que poderiam dizer aos seus pais que a viram agarrada a um sujeito —, então finalmente atravessaram uma cortina que dava para algum tipo de depósito. O que aquela sala era não importava muito, tinha várias mesas e cadeiras, mas o rapaz encostou a moça à primeira parede que encontrou. Entretanto, quem teve a maior iniciativa foi Irene, que segurou o homem pelo pescoço e se atracou com gosto nos lábios bonitos.

Santiago era um rapaz extremamente delicado em seus toques, mas ainda sabia ter uma firmeza que amolecia as pernas da garota que o beijava. Seus dedos delineavam carinhosamente a pele das costas, exposta pelo vestido cavado, para então a mão descer até a cintura e apertar ali, vezes suficientes para Irene se encontrar dependente daquelas carícias. Entre os beijos estalados e algumas mordidas aqui e ali, eles deixavam escapar alguns risinhos tímidos, ambos sabiam que estavam no lugar certo. Se os pais de Irene soubessem daquilo, por Deus, ela estaria morta, mas aquilo não conseguia ser uma preocupação grande o bastante para inibi-la. Claro, tinha em seus braços um homem de tirar o chapéu, não seria boba de ir embora sem ficar tonta de tanto beijá-lo.

Não pense, entretanto, que eles foram parar naquela situação do nada, como se somente quisessem se agarrar por simplesmente se agarrar. Não, descobriram-se encantados um pelo outro bem antes disso. Foi um bom tempo de conversa e inúmeras danças lentas, com frustrações divididas e desejos secretos compartilhados. Irene ficou surpresa ao saber que Santiago tinha dezenove anos, quase vinte, porque, olhando para aquele homem, seria possível dar uns vinte e cinco. Talvez o chapéu passasse a impressão de mais idade. Aliás, chapéu esse que já estava no chão, porque ela não foi nada tímida ao puxar os fios negros, e ficou satisfeita com o suspiro que recebeu em resposta.

Foi muito engraçado quando, mais cedo, Irene disse que não suportava gente rica, e logo depois Santiago soube que ela era de uma das famílias da alta burguesia de São Paulo. A expressão confusa foi cômica, mas logo ele entendeu o ponto dela. Quer dizer... Era bem perceptível que aquela mulher tinha que se manter em um molde de ferro em nome da imagem da família; tinha de abnegar das próprias vontades, da própria liberdade, em nome do que outros achavam que era melhor para ele. E isso era deprimente, para falar a verdade. Por isso, foi até compreensível o brilho em seus olhos quando Santiago contou sobre suas centenas de aventuras pelos bairros mais boêmios da cidade. Ele era pobre, mas não podia mesmo reclamar de não ter vivido.

Irene só conseguia fantasiar com alguma noite em que ela fugiria com aquele rapaz, só para viver um pouco.

Mas ela já começava a sentir um pouco de vida dentro daquela sala escura, permitindo-se fugir de todas as imposições inerentes; seus pais jamais permitiriam que ela se relacionasse com um homem como Santiago, pobre e sem nome. Olhariam com desgosto já que tinha um emprego medíocre de entregador de jornal, apenas para conseguir ajudar a mãe, uma costureira, a manter as contas em dia e colocar comida na mesa. Ele já não possuía  mais o pai, morrera quando o menino tinha apenas cinco anos, sempre foi muito difícil ver a sua mãe acordada o quanto podia apenas para trabalhar mais e mais, assim poderia dar uns sapatinhos melhores ao filho. Apesar de crescer com mais preocupações do que podia contar nos dedos, acreditava não ter do que reclamar; era feliz, nada faltava.

Socialmente, Santiago não tinha valor algum, sequer tinha onde cair morto. Mas, para Irene, que diferença isso fazia? Com todo o dinheiro de sua família, era extremamente infeliz, por que tornaria os cifrões um empecilho para se aventurar com um sujeito tão interessante? Contanto que sua família não soubesse, estava tudo bem... Porque ela só poderia esperar o pior, caso ficassem cientes da companhia que a agradava. E Irene sabia que, talvez, esse fosse um pensamento imprudente, mas o que de emocionante um engomadinho que cresceu com os sapatos sobre o mármore mais nobre poderia proporcionar? Passear de carro... Comprar roupas caras... Ir ao museu... Não conseguia ver graça nisso.

Agora... Sorria ao imaginar-se aprendendo a jogar sinuca com aquele rapaz, no tal boteco que ele dizia ir em todas as tardes para arrancar dinheiro dos mais velhos com apostas. Também se empolgava com a ideia de visitar alguma praia de nudismo, curiosidade que ambos confessaram ter. Qualquer coisa, as possibilidades pareciam ser infinitas quando se tratava de Santiago... E ela mal o conhecia. Sabia que provavelmente era o seu anseio por um pouco de liberdade falando mais alto do que a razão, mas... Poxa, era errado querer se divertir um pouco? Não era como se ela tivesse algo mais interessante em sua vida para se ocupar, tudo parecia totalmente entediante. Tudo era tão detestável.

— Por Deus! — O rapaz se afastou subitamente, ainda tinha uma das mãos presas à cintura da moça, mas encarava o relógio no pulso direito. — Eu preciso ir!

— Mas já...? — Irene murmurou, ainda estava um tantinho aérea.

— São quase onze horas... Eu moro em Jaçanã, e esse é o último trem.

— Fica só mais um pouquinho... — ela pediu, e Santiago quase cedia.

— Irene, me perdoe, não posso ficar nem mais um minuto com você. — Deu um último beijo nos lábios inchados. — Mas eu adoraria te ver mais vezes.

Apesar de não poder ficar nem mais um minuto, ele deu todos os segundos que Irene precisava para sussurrar um dia, uma hora, e um local bem específico no Jardim Europa; sua casa. Na verdade, a janela do seu quarto, a terceira que dava para a rua. Não podia ser visto e nem ouvido por ninguém, a única condição. Depois disso, ele saiu correndo, não podia, de jeito nenhum, perder o trem das onze. Era filho único, e sua mãe não dormia enquanto ele não chegasse em casa.

 

(...)

 

Entre as coisas que Irene detestava — e eram realmente muitas, como já deu para perceber — estava a maldita carne de pato que sua mãe insistia que comessem todo sábado. Ela também detestava jantar com a família; tinha sempre que cuidar da postura, manter os cotovelos fora da mesa, mastigar quarenta vezes... Era um saco, cada detalhe. Também detestava ouvir as futilidades de sua mãe, quase tanto quanto detestava o discurso machista do irmão. Nesses momentos, ela preferia muito mais o seu pai, porque, por mais autoritário que fosse, pelo menos se calava no jantar, e isso já era muito precioso.

Normalmente, era difícil comer. Irene ficava tensa quando estava à mesa, a comida parecia sem gosto e descia com dificuldade na garganta. Por Deus, ela faria qualquer coisa para mandar aquilo tudo à merda e se deliciar com o bolo de chocolate que estava na cozinha — e que seus pais não a deixavam comer mais do que uma fatia, porque “tinha de manter a boa aparência”. Quer dizer... Seu irmão podia apodrecer os pulmões com nicotina todos os dias, mas ela não podia comer bolo sequer porque ganharia peso? De verdade, ela não conseguia entender como o pensamento funcionava naquela casa, achava tudo uma grande estupidez sem sentido; detestava demais aquela hipocrisia.

— Irene! — A voz de sua mãe a arrancou dos pensamentos insubordinados. — Por que não responde?

— Ah, oi? — Ela arregalou os olhos, mas sua voz ainda denotava um desânimo; isso não havia como esconder, estava descontente. — Perdão, estava distraída.

Esperava que, pelo menos, não a questionasse o motivo de sua distração, ela não saberia bem o que responder.

— Como está o jantar?

— Está bom — mentiu, detestava carne de pato.

— Você deveria aprender essa receita, tenho certeza de que seu marido irá apreciar muito.

Irene fechou os olhos e suspirou pesado. Outra vez aquela conversa.

— É, talvez... — respondeu, então bebeu um gole do suco de morango na taça.

— Acho que já é hora de começar a se preocupar com isso, minha filha. — Ah, claro que iriam começar com aquilo novamente. — Você tem quase vinte e quatro anos, e rejeita todos os seus pretendentes... Logo você vai chegar em uma idade em que os homens não irão mais procurar você.

— Claro... — Quis dizer que é claro que estava chegando na idade em que não serviria mais para os homens, porque eles sempre buscavam as moças mais novas, de pele macia, corpo modelado; isso não era novidade alguma, Irene só não se sentia uma presa como sabia que era vista, na verdade, comparava-se a um produto com prazo de validade. Isso era desprezível de tantas formas. — Mas eu não me importo tanto... Se eu quiser me casar, será por amor, com certeza.

— Você vai morrer sozinha se ficar esperando... — Seu irmão riu. — Você tem que aprender a amar um homem, mas rejeita absolutamente todos.

— Acontece que nenhum dos que vocês me apresentaram me interessou o suficiente para que eu quisesse tentar aprender a amar. — Irene só usou o termo apresentar para não dizer que fora obrigada a conversar e forçar sorrisos durante um jantar inteiro. — Então, sim, estou disposta a esperar pela oportunidade de me casar com o homem certo.

— E por que não Junmyeon? — arriscou sua mãe, e a moça só ergueu os olhos silenciosamente, encarando a mulher, não podia estar falando sério. — Você o conhece desde pequena, deveria se casar e ir para a França com ele.

— Eu não tenho a menor pretensão de me casar com Junmyeon, mãe. E poderíamos, por favor, encerrar esse assunto?

— Não pode fugir disso para sempre... — Seu irmão resmungou.

Irene travou a mandíbula, com aquela carne horrível sobre sua língua, e ficou quieta. As orelhas ferviam de raiva, e a ponta de seus dedos tremiam e embranqueciam com a força com que ela apertava os talheres de prata, mas, ainda sim, ela ficou quieta; porque, se começasse a falar, não iria parar, diria coisas que não deveria dizer, e arrumaria problemas dos quais não precisava. Ela ficou quieta porque foi isso que ela cresceu ouvindo que tinha que fazer, foi tudo o que a ensinaram. Mesmo que embrulhasse seu estômago, ela tinha que se calar e fingir que estava tudo bem, mesmo que não estivesse.

Porque ninguém naquela casa daria razão a ela.

Então era melhor se calar por um tempo, pelo menos até todos saírem da mesa. Quando finalmente foi para o seu quarto, fez o possível para ocupar a cabeça com qualquer outra coisa, somente para não pensar no quanto odiava a sua miserável vida burguesa. Preferia lembrar-se que, quando o relógio marcasse dez horas, ouviria uma pedrinha acertando sua janela, porque tinha combinado com Santiago que aquele era o horário ideal para uma visita, ainda que fosse realmente chato que ele tivesse que ir embora antes da onze, ou perderia o último trem para Jaçanã. Preferia lembrar-se, portanto, que precisava vestir algo bonito para recebê-lo — mas nada daqueles vestidos chiques que ela detestava, Santiago certamente não fazia a menor questão de manter formalidades.

As poucas vezes em que Irene se arrumava com gosto era quando estava chateada e queria ficar um pouco bonita para si mesma... Porque normalmente não tinha ânimo algum para se arrumar para outras pessoas, já que quase sempre era para algum jantar onde ela seria apresentada como a dama jovem, solteira, bem-criada, de boa família e pronta para encontrar um esposo. Que vontade ela deveria ter de se dar ao trabalho de ficar bonita para isso? Entretanto, ela sorria ao desfazer a trança em seu cabelo, e sentiu-se incrível quando os fios ondulados caíram sobre seus ombros. Seu vestido era azul, simples, mas de tecido nobre — coisa que não surpreendia —, com um laço branco na cintura.

Mal podia esperar pelo inverno... Achava calças infinitamente mais confortáveis, mas estava quente demais para que ela conseguisse usá-las. Sendo assim, teria de se contentar com roupas mais leves, mas já era ótimo não precisar usar vestidos apertados no peito, e longos demais nas pernas. Por Deus, ela era um ser humano, por mais bonita que fosse, e também sentia calor. Mas isso não importava tanto assim, sua mãe apenas dizia que ela devia vestir aquilo e ela vestia, porque ela não foi criada para questionar, mas para obedecer. E ali estava, pensando outra vez em como detestava a vida que levava.

Ao contrário do que esperava, não ouviu o som de uma pedrinha; ouviu três batidas sutis no vidro. E isso só era possível porque Irene insistira, quando era menor, que queria um dos quartos do andar de baixo, que deviam ser para visitas, porque era uma suíte com banheira. Ela rejeitou o quarto do segundo andar com closet e banheiro apenas por esse pequeno detalhe, então ele acabou sendo de seu irmão. Agora, na verdade, aquele quarto tinha novas vantagens; ficava longe da família, e a janela dava para a rua. Portanto, podia receber o homem que seus pais não deviam sonhar que a encontrava.

Com as mãos trêmulas de nervosismo — e euforia —, abriu a janela e deixou que Santiago entrasse. A sua destreza e agilidade ao pular para dentro comprovava todas as histórias que ele havia contado sobre suas fugas da escola, ou sobre como não foi esfaqueado em brigas de bar. Apenas algumas lembranças  esparsas daquele rapaz pareciam ser infinitamente mais interessantes do que a sua vida inteira. Não que ela quisesse colocar a própria vida em risco em algumas aventuras... Só queria experimentar o que era sentir medo um pouquinho em sua vida. Sem ser o medo de quando seu pai erguia o tom, ou de quando um amigo da família com o dobro da sua idade aparecia querendo noivar. Esse tipo de medo era totalmente rejeitável.

— Que bom que você veio... — Irene segurou as mãos do garoto. — Minha noite foi péssima.

— Brigou com alguém? — ele questionou preocupado, encarava o rosto da moça com carinho; ficava maravilhado com o quanto ela era bela em qualquer momento.

— Antes fosse... Certamente eu estaria melhor se tivesse brigado. — Um suspiro pesado precedeu a atitude de guiar o mais novo até a cama. Não havia segundas intenções, apenas queria se deitar ao lado dele, aproveitar um pouco do conforto que ele tinha a oferecer, e então dar alguns beijinhos. — Minha família insiste que eu devo me casar com um dos diversos homens que eles me apresentam constantemente... Mas eu não gosto de nenhum deles.

— Fuja de casa! — sugeriu com um sorriso travesso, era possível ver que ele tentava levantar um pouquinho o ânimo de Irene. — Eles não podem obrigar você a se casar se não souberem onde você está.

— Ah, essa é uma ótima ideia... — Ela riu, então deitou a cabeça sobre o ombro do rapaz, que tinha um perfume marcante demais para ela não inspirar satisfatoriamente. — Por favor, me fale sobre qualquer coisa, só preciso esquecer um pouco aquela gente.

— Tudo por você, senhorita!

Talvez eles tivessem um pouquinho mais de quarenta minutos juntos... Mas, definitivamente, cada segundo valeria a pena. Porque, mesmo sem nem botar o pé para fora de casa, Irene já conseguia sentir um pouco da liberdade que jamais teve.

 

Fevereiro de 1963

 

Minseok era uma das pouquíssimas amigas com quem Irene podia sair. Na verdade, era a sua única amiga. Porque, de todas as garotas com quem conviveu por conta da família, era a única que parecia ter uma mínima percepção da realidade; as outras eram companhias até agradáveis, mas pareciam estar tão cegas com joias, vestidos, e os mais diversos luxos, que sequer viam qualquer problema em toda a rivalidade que travavam entre si, quase sempre instigada pela necessidade introjetada de ser a melhor dama para o melhor marido. Irene não as culpava, sabia que foram criadas para serem assim; ela foi criada daquela forma. Entretanto, poucas eram as que conseguiam perceber a manipulação que sofriam em cada simples aspecto.

A melhor mulher era aquela fútil, que não questionava e se contentava com superficialidades para ignorar o que acontecia ao seu redor.

Minseok, no entanto, não era como a maioria. Minseok entendia muito bem como era vista, e como fora criada para ser, mas, diferentemente de sua amiga, tinha mais coragem para se impor contra isso. Mesmo sendo da família de Junmyeon — era prima dele —, logo alguém da elite, conquistara a sua liberdade à força; podia sair quando bem quisesse e com quem bem quisesse, desde que não fosse presa, não engravidasse, e nem fosse parar no hospital. Irene julgava aqueles termos justos, aceitaria cada um deles sem protestos, se tivesse a oportunidade. Mas, além de tudo, Minseok era uma grande confidente, Irene sabia que podia contar tudo a ela, e seus maiores segredos estariam seguros.

E como ela poderia não falar de Santiago?

— Queria tanto que você o conhecesse... — O sorriso bobo no rosto da moça mais nova chegava a ter graça. — Santiago é um homem extremamente encantador.

— Do tanto que você fala desse rapaz, eu duvido que ele não seja... — Minseok riu. — Vocês têm se encontrado muito?

— Menos do que eu gostaria, nos vemos umas duas noites por semana. Mas já fico feliz por poder estar com ele.

— Ah... E vocês já foram para os finalmentes? — Foi impossível não arregalar os olhos diante do questionamento sugestivo de Minseok, e do sorriso mais sugestivo ainda.

— Minseok! — Acertou a amiga fracamente com o cotovelo. — Não! Estamos nos conhecendo... Não chegamos nessa parte.

— Pois quando chegarem, quero detalhes! — Ela puxou o braço de Irene, que quase deu de cara com uma placa quando viraram a esquina. — Olha aí, você tá toda distraída por causa desse homem.

— Você é muito pervertida, Minseok... — Riu baixinho. — O que acha de pararmos para tomar um suco?

Elas adentraram o primeiro boteco que encontraram; era, sem dúvidas, simples demais para o padrão dos locais que elas costumavam frequentar, mas não era como se elas ligassem muito para isso. Tendo uma bebida bem geladinha para aquele calor infernal de quarta-feira e não encontrando nenhuma barata no chão já era lucro. Mas o ambiente até que era bem agradável, para falar a verdade, com a vitrolinha tocando algum samba romântico, e o som das bolas de sinuca se batendo, juntamente às risadas dos homens que apostavam algumas notinhas naquele jogo... Dava um gostinho da liberdade que Irene quase nunca tinha.

Acontece que, entre aquelas risadas, Irene reconheceu uma bem específica; era Santiago, ela tinha certeza disso. Virou-se bruscamente em direção à mesa de sinuca, e encontrou o rapaz lá, com uma camisa arremangada acima dos cotovelos, calças brancas, sapatos baratos, e sem o seu chapéu. Ela jamais deixaria de se sentir atraída pela postura elegante que aquele moço conseguia manter mesmo com as vestes mais simples. Além disso, era perceptível que ele tinha cortado o cabelo. Estava especialmente mais bonito naquela tarde. Tão automático quanto o impulso de andar até ele, foi chamar pelo seu nome. Ela só percebeu quando já estava perto demais para que ele não notasse a sua presença.

— Santiago! — O sorriso surpreso carregava uma descrença por encontrá-lo justamente em uma das poucas oportunidades que tinha para sair de casa.

— Boa tarde, senhorita! — Ele parecia feliz ao ver a garota, tanto é que nem se preocupou se tinha um jogo para terminar; entregou o taco a um dos homens que estavam ali e deu toda a sua atenção a ela. — O que você faz em um lugar tão deplorável como esse?

— Ah, não é tão péssimo... — Irene segurou a mão do mais novo, que a guiou até uma das mesas. — É um lugarzinho legal. Então é aqui que você arruma brigas e dá calote em apostas?

— É sim, mas... — Ele parou de falar, algo atrás de Irene chamou a sua atenção. — Parece que a sua amiga caiu nas graças do meu parceiro Carlinhos…

Confusa, ela virou o rosto na direção que Santiago olhava, e teve que rir diante da cena; Minseok estava escorada na parede, conversando de um jeitinho até que bem desinibido com um garoto alto — talvez até um pouquinho maior que Santiago. Era engraçado como aquele sujeito não conseguia tirar os olhos da mulher, assim como ela parecia interessada demais no que quer que ele estivesse falando. Minseok tinha uma lábia inegável, chegou a quase conquistar Irene em alguns momentos, de tão boa que era em seus flertes. Minseok caiu nas graças do amigo burguês de Santiago? Não, isso não tinha a menor chance.

— Eu tenho certeza de que foi o contrário — devolveu, ela conhecia muito bem a amiga que tinha.

— E sobre nós? Você acha que caiu nas minhas graças, ou o apaixonado sou eu?

Inevitavelmente, Irene sorriu.

— Espero genuinamente que esse tenha sido um erro mútuo. — Sua mão serpenteou sobre a mesa, até tocar gentilmente o dorso da destra alheia. — Seria um pouco constrangedor se eu fosse feita de tola por um rapaz mais novo do que eu.

— Fico feliz em saber que se apaixonar não foi um erro apenas meu... Seria constrangedor demais se eu fosse feito de tolo por uma moça da burguesia.

Conversa vai e vem, eles mal notavam o tempo passando; apenas riam enquanto saboreavam os sucos de laranja que Santiago pediu ao dono do boteco para que pusesse em sua conta, mas que provavelmente não acertaria depois. Só não foram dançar aquele samba gostoso que tocava porque sabiam que acabariam se enfiando em algum canto para trocar uns beijinhos... E achavam melhor conter os ânimos um pouco, pelo menos em público. Portanto, contentaram-se com flertes e um chameguinho bem discreto. Mas logo o sol iria começar a sumir no horizonte... E seria esse o momento em que Irene teria que ir, porque não podia ficar nem mais um minuto com Santiago.

Acontece que, antes desse momento chegar, o pior aconteceu. De repente, ouviu um grito de uma voz familiar, e então uma mão agarrou o seu braço. Primeiro ficou confusa, mas logo olhou para cima e viu o que a deixou assustada; viu o rosto de seu irmão, bem próximo ao seu, com os olhos vermelhos de raiva e os dentes rangendo. Irene sentiu medo. Seu irmão por vezes era muito mais controlador do que seu pai, porque tinha uma preocupação absurda com toda aquela bobagem fútil de imagem; em outras palavras, gostava de ser estúpido e dizer que Irene não podia agir como uma vagabunda, porque a família sofreria com isso.

Então é claro que ela teria grandes problemas se fosse encontrada em um lugar como aquele, com um homem como Santiago.

— Edgar?! — Tentou soltar o seu braço, aquele aperto doía, mas não tinha força suficiente. — O que você tá fazendo aqui?!

— Eu é quem pergunto! Você sai de casa pra dar pra esse vagabundo?!

— Solta ela! — Santiago empurrou o outro rapaz, que acabou largando o braço de Irene.

— Calado! — Edgar avançou na direção dele, apontando o dedo em seu rosto. — Você sabe de que família ela é? Sabe o problema que pode ser ela se meter com um sujeitinho como você?!

— Sujeitinho como eu?! — Ele mostrou os punhos, provavelmente queria brigar. — Vamos ver se você se garante com esse sujeitinho.

— Ei! — Irene se colocou entre os dois homens, antes que algo pior acontecesse. — Podem parar... Por favor.

Ela olhou bem fundo nos olhos de Santiago, como uma súplica; aquilo tinha tudo para dar errado, e era melhor que ninguém se machucasse. Ele entendeu, e não ousou contestar, sabia que ela estava certa. Sendo assim, abaixou as mãos, e recuou uns dois passos para trás. Não era o que realmente queria fazer, mas soube que era o mais prudente quando viu o suspiro de alívio deixando os lábios da moça. O problema era que ele sabia que aquilo seria muito pior quando ela fosse para casa. Por Deus, era angustiante pensar no quanto ela sofreria. Entretanto, não era como se ele soubesse o que fazer a respeito.

— Vamos embora, por favor — Irene pediu ao irmão.

— Entra no carro! — Edgar apontou para o veículo. — Agora.

Sem dizer uma única palavra, e sabendo que podia esperar pelo pior — porque era óbvio que ele contaria tudo aos seus pais, o que só aumentaria todo aquele caos —, ela entrou e se acomodou no banco de couro. Logo o seu irmão entrou, e bateu a porta com força. Ela torcia para que, pelo menos, ele não enchesse os seus ouvidos no caminho para casa.

— Quem é ele? — foi a primeira coisa que perguntou à garota. — Qual é o nome dele?

— Você não precisa saber — respondeu. — Vão me impedir de vê-lo de qualquer forma, que diferença faz?

 

Março de 1963

 

A madrugada estava quente, mas o calor não os incomodava, estavam confortáveis até demais sob o cobertor de tecido nobre. Santiago acariciava as costas nuas da sua namorada, pensando em como não se arrependia de ter ignorado o último trem, só para poder ficar mais vários minutos com ela. As chances não eram as mais favoráveis, mas ele esperaria amanhecer para ir para casa... Por ela. Aquilo que eles mantinham tinha tudo para dar errado, mas eles não conseguiam se importar, só queriam apreciam enquanto podiam. Gostavam da companhia alheia muito mais do que deviam, e agora já não tinha como voltar atrás.

— É muito arriscado ficarmos nos encontrando desse jeito... Na sua casa. — A voz do rapaz saiu em um sussurro. — E se alguém me encontra aqui? Não quero nem imaginar o que fariam com você.

— Não pense nisso... Acredito  que não tem nada que possa ser feito, eu não posso mais sair de casa, e também não quero parar de ver você, de forma alguma.

— Eu também não quero, mas tenho medo do que pode te acontecer se descobrirem... — Ele suspirou. — Olha só, essa semana eu fiz uma entrevista de emprego, e é muito melhor do que eu tenho agora. Logo vou saber se fui contratado, e eu quero muito me casar com você quando eu puder pagar por uma boa casa para nós, o que você acha disso?

— Eu acho perfeito, é claro! — Ela sorriu. — Como não vou amar?

— Eu sei que pode parecer tudo muito rápido, é só que... Eu tô apaixonado por você, e eu sei disso porque normalmente não me submeteria a me esconder em casa de gente rica por ninguém. E, estranhamente, não me soa nada absurdo fazer isso por você. Sem falar que... Você tem tanto a perder, e mesmo assim insiste em ficar com um pé-rapado como eu. Como é que eu não vou ficar apaixonado?

— Não me importo com dinheiro, nada disso me faz feliz. — Ajeitou-se no colchão para poder encarar o rosto do mais novo. — Meus sentimentos por você são verdadeiros, Santiago, saiba disso, independentemente de qualquer coisa.

De fato, às vezes os dois sentiam que estavam indo rápido demais; talvez isso fosse mesmo verdade. Só que isso não era algo que os incomodava. Pelo contrário, acreditavam até que não podiam perder muito tempo, já que a sensação era de que, mesmo que tivessem todos os minutos da eternidade, nada disso seria suficiente. Irene não via a hora de deixar a vida de sua família, para viver a sua própria, ao lado de Santiago. Queria ser dona do próprio destino, e escolher qual seria o seu futuro, não se submeter ao que outras pessoas achavam que era o melhor; não pertencia a ninguém.

Entretanto, ela sabia que sua família iria se opor a isso de todas as formas possíveis; seria um escândalo e tanto se Irene Marques, filha de uma das famílias mais ricas de São Paulo, ignorasse o sobrenome e a fortuna para viver com alguém sem nome e sem herança. Ela sabia que essa seria a abordagem, porque normalmente se achava um absurdo que uma mulher de família tão endinheirada pudesse escolher com quem se casar, ainda mais se escolhesse alguém como Santiago, que não tinha onde cair morto. Porém, se ela não dava importância para isso, não entendia por que os outros tinham que dar. Além do mais, é claro que tudo também atingiria Santiago, diriam que ele se casou por interesse, em uma forma desesperada de tentar tomar a fortuna daquela família. O que definitivamente não só beirava o absurdo como caía dentro dele; Santiago era o que mais tinha interesse de se afastar da família Marques e de tudo o que eles representavam, queria que Irene fosse livre, e isso não seria possível sob o controle daquela gente.

A elite era indiscutivelmente podre.

— Eu não vejo a hora de poder te apresentar a todos como minha esposa — confessou o rapaz. — Espero poder te fazer feliz.

— Você já me faz feliz, não tenha dúvidas disso. — Aninhou-se contra o peito dele e beijou a pele quente. — Se não fosse por você, eu detestaria todos os meus dias.

Não que Santiago fosse algum tipo de herói que resgatava a princesa em perigo ou algo assim... Ele era a esperança que Irene tinha para poder traçar o próprio futuro.

Irene?! — Ouviu a voz de sua mãe através da porta trancada. — Com quem você tá conversando?!

Os dois jovens arregalaram os olhos e saltaram da cama. Santiago foi atrás de suas roupas, e Irene correu para vestir a camisola. A mulher ainda tentava abrir a porta, e isso só ficava cada vez mais desesperador. Já vestido, Santiago pulou pela janela, e Irene correu para falar com a sua mãe, sem esquecer de pegar o radinho em cima da cômoda. Tinha certeza de que o seu quarto estava em ordem, não deixaria suspeitas. Apenas torcia para que ninguém tivesse visto o moço saltando para fora; seus vizinhos não eram fofoqueiros, mas todo cuidado era pouco.

— Com ninguém mãe — disse, assim que abriu a porta. — Eu não conseguia dormir, então estava ouvindo o radinho.

— Entendi... — Ela parecia estar convencida com aquela resposta. — E por que você deixa essa porta trancada? Pelo amor de Deus, Irene.

Com vinte e quatro anos, não podia trancar a porta do seu quarto.

— Eu tenho medo de assaltantes, mãe... Se eles entrarem aqui em casa, vão atacar todos que encontrarem em seu caminho.

— Com aquelas grades enormes, você acha que alguém consegue entrar? — A mais velha riu.

Sim, porque já era a enésima vez que Santiago conseguia entrar sem ser visto.

— Eu tenho medo... Só isso.

— Tudo bem, boa noite, minha filha. — Ela deu meia volta, e Irene ficou aliviada ao ver que sua mãe se afastava.

— Boa noite, mãe…

Depois disso, ela trancou a porta outra vez, e correu para a janela do seu quarto. Santiago ainda estava lá, será que ele tinha ido embora? Seu coração ainda estava disparado, era difícil descrever o medo que sentiu, mas podia dizer que entrou em desespero durante aquele tempo em que sua mãe esteve por perto. No entanto, conseguiu se acalmar quando colocou o tronco para fora da janela e viu Santiago ali.

— Eu vou embora a pé... — Ele se aproximou e deu um último beijo no rosto da amada. — Não se preocupe comigo.

 

Abril de 1963

 

Irene detestava todos aqueles jantares com amigos da família; cada um deles, sem exceção. Detestava as conversas fúteis na mesa, detestava como resumiam qualquer interação com ela à “necessidade” de ter um bom marido — lê-se marido rico —, detestava como forçavam uma intimidade que não existia — porque, adivinhe só, ela detestava aquela gente. E, naquela noite, especificamente do dia 12, estavam na casa dos Kim, jantando com Junmyeon e seus pais. E Irene detestava como o garoto parecia assustado, porque sabia que a família dele era quase pior que a sua, e que tratavam o filho como uma marionete. Se não estava assustado, estava no mínimo tenso, o que fazia Irene questionar as reais intenções daquele encontro, considerando o tempo que as duas famílias passaram sem se ver.

— Irene, querida... — A mãe de Junmyeon chamou a sua atenção. — Como vão os pretendentes?

E o interesse acabara de se revelar.

— Ah, eu não sei... — Ela forçou um sorriso, mesmo que só quisesse chorar de frustração, e encarou o seu prato. — Eu não costumo ver muitos rapazes.

— Como pode? Uma moça tão bonita…

— Irene é extremamente seletiva — Agora, foi sua mãe quem falou. — Ainda não encontrou um noivo à sua altura.

Por sorte mantinha a cabeça baixa, assim podia revirar os olhos para descontar um pouco da própria indignação em meio àquele assunto que, não surpreendentemente, ela detestava com todas as suas forças. Sim, ela já tinha aceitado um pretendente, e, com certeza, era um noivo à sua altura. Acontece que, para a sua família, era incogitável que ela se desse ao luxo de escolher com quem se casaria; era absurdo que ela se desse ao luxo de priorizar o amor e negligenciar o dinheiro. E era exatamente por isso que Irene vivia se perguntando se não havia nascido na família errada; não conseguia encontrar uma única semelhança naquelas pessoas que também carregavam o seu sobrenome.

— Pois Junmyeon também não teve a oportunidade de se relacionar com uma boa mulher — O patriarca dos Kim comentou —, acredito que vocês dois estejam na mesma situação.

A motivação suposta implícita era tão óbvia e gritante que chegava a deixar o ambiente constrangedor. Aquilo era desconfortável em tantos níveis, até mesmo beirava o humilhante. Era notável o desespero das duas famílias para que os dois jovens de sobrenome nobre e herança milionária se unissem em matrimônio e perpetuassem uma linhagem burguesa e “relevante”. Aquilo era totalmente questionável e reprovável como uma prioridade, sobretudo quando tornavam isso uma espécie de meta de vida e cerceavam a liberdade de alguém em nome de uma estupidez como essa. Irene queria crer que nasceu para algo mais importante e significativo do que isso, porque... Que broxante seria existir somente para gerar uma criança de origens ricas.

Queria ter um propósito muito maior do que esse.

— É mesmo? — Ela fingiu uma mínima preocupação no que foi dito, mas ainda escolhera se fazer de idiota, era assim que lidava com muitos problemas. — Espero que ele encontre uma boa esposa.

“Porque não serei eu”, quis dizer.

Olhando para o lado, notou o olhar de reprovação de sua mãe. Mas o que podia fazer? Ela não conseguia aceitar aquilo passivamente, tinham que ficar felizes por ela não ser grosseira — embora merecessem a pior das respostas, e ela definitivamente não estaria errada. Se assim estava ruim, certamente se corroeriam internamente se Irene disse o que, de fato, todos naquela mesa precisavam ouvir; exceto por Junmyeon, que, assim como ela, era uma vítima naquela situação verdadeiramente ridícula. Não havia palavra melhor para definir, era ridículo, com todas as letras e fonemas. E Irene queria ter tanto a coragem necessária para expor isso; no momento, podia apenas se esquivar e oferecer seu silêncio.

Escusado será dizer que aquele jantar se seguiu com as conversas que Irene também detestava. Ela se mantinha alheia a tudo, bebendo aquela água com limão, e esperando ansiosamente pelo momento em que aquela palhaçada toda terminaria e ela poderia ir para casa. Porque, sejamos francos, não era como se ela não tivesse seus próprios planos para aquela noite; era aniversário de Santiago, e ela se arriscaria a fugir para comemorar com ele. Por ele. Só precisaria estar em seu quarto novamente um pouco antes do amanhecer, e não deixar que ninguém a reconhecesse na rua. Embora, honestamente, se ela não tivesse tanto medo, nem voltaria para casa.

Mas ali, na casa dos Kim, cada minuto parecia se passar na lentidão de uma hora; enquanto, com Santiago, cada minuto parecia ser apenas um segundo. Até falaram com ela algumas vezes, mas tudo o que receberam foram sorrisos forçados e respostas breves. Irene não estava com muita paciência para sustentar teatros, e nem fazia a menor questão de manter qualquer conversa. Novamente, queria mesmo entender se tinha nascido na família errada ou se tinha sido uma pessoa horrível na vida passada. Por Deus, até preferiria permanecer na ignorância, se soubesse que a angústia seria tanta ao perceber qual era o seu papel naquela família e, infelizmente, na sociedade.

O relógio marcava dez horas quando ela finalmente ouviu que iriam embora. Suspirou aliviada, é claro, e agradeceu a qualquer entidade que pudesse ouvi-la. Nesse momento, se ela pareceu simpática ao despedir-se dos Kim, era só pelo simples motivo de que estava feliz demais por poder ir embora e, logo, poderia fugir da própria família por algumas horas. O aniversário era de Santiago, mas, pelo que tudo indicava, quem receberia o presente seria ela. E, por falar em presente, devia o mundo à Minseok; ela fez a gentileza de comprar o exato perfume que Irene tinha pedido e levar até a casa da amiga, porque ela não podia sair de casa para comprar algo para Santiago.

Se anjos da guarda fossem reais, Minseok certamente seria o seu.

— Irene... — Junmyeon chamou a sua atenção, ainda durante a despedida, estava perceptivelmente nervoso. — Você gostaria de dar uma volta comigo? Eu levo você para casa depois.

Ainda que não soubesse bem como era a família dele, poderia dizer que ele fazia aquele convite por pura pressão. Irene encontrava essa mesma pressão ao olhar para os seus pais e ter os dois a encarando incisivamente, como se recusar não fosse uma opção. Não... Eles até podiam obrigá-la a conversar com homens em quem ela com certeza não se interessava, podiam obrigá-la a sorrir e fingir que se importava com todas aquelas situações sociais para as quais era arrastada. Mas, naquela noite, não. Era um dia especial demais para ser arruinado. Não daria esse gosto a eles, por si mesma. Não se submeteria àquilo, teria a sua liberdade pelo menos uma única vez.

— Eu adoraria, Junmyeon, mas está tarde, e eu preciso descansar... — Sorriu doce, Junmyeon não tinha culpa daquela situação deplorável. — Mas podemos fazer isso outro dia, o que acha?

Ao ver um alívio no breve sorriso que o rapaz mostrou, olhou em seus olhos como quem dizia “eu sei muito bem o que você passa”, e esperou genuinamente que ele compreendesse. Provavelmente ele recebeu a mensagem, porque apenas assentiu silenciosamente, desejou boa noite mais uma vez, e então foi para dentro de casa. Irene ficou contente por poder ir para o carro e chegar em casa sem ouvir uma única repreensão de seus pais ou de seu irmão, pareciam bem ocupados com outros assuntos banais, e não atormentaram a sua paz. Ainda estava de bom-humor, apesar de toda a raiva que sentiu durante aquele jantar.

Irene era muito esperta, e fez o possível para parecer que, realmente, estava morta de sono. Bocejou e andou letargicamente na frente dos pais, e resmungou ao dizer boa noite ao irmão. Certamente não imaginariam que ela estaria fazendo qualquer outra coisa, senão dormindo, e não a perturbariam. Mas como é que ela conseguiria sentir sono? Estava elétrica, não conseguia parar quieta em seu quarto. Andava de um lado para o outro se arrumando, e seu único cuidado era não acender as luzes ou fazer qualquer barulho, tinham que pensar que ela estava dormindo. E, depois de pronta, foi para a janela esperar por Santiago.

Ele não demorou a chegar. Apareceu por lá com o carro de Carlinhos — era o tal melhor amigo endinheirado, cuja irmã debutou no baile da elite em janeiro —, e foi engraçado como ele andava o mais lentamente possível, apenas para não fazer barulho. Irene pulou a janela sem dificuldades, e correu para o carro. Estava tão ansiosa para ver Santiago que a primeira coisa que fez foi agarrá-lo ali mesmo, no meio da rua. Quase ficou sem ar de tanto que o beijou. Ambos estavam um pouquinho zonzos quando se separaram, mas sorriam como nunca. Esse era o amor e o seu poder de deixar as pessoas idiotas.

— Feliz aniversário... — Ela entregou o pacote com o presente a ele. — Eu infelizmente não pude comprar pessoalmente, porque... Você sabe. Mas eu espero muito que você goste.

— Irene, você não precisava comprar nada... Eu fico muito feliz só por você estar comigo hoje.

E era verdade, já era mais do que suficiente estar com a mulher que amava.

— Eu não podia aparecer de mãos vazias! — Ela riu. — Agora abre, por favor!

Com as mãos trêmulas, ele desfez o laço que mantinha a caixa fechada, e então tirou a seda que envolvia o frasco de perfume. Nunca tinha tocado em algo tão caro como aquilo, e sentiu-se até culpado por aceitar um presente como aquele. Santiago tinha conseguido um emprego que o permitia comprar sapatos bons e roupas um pouco melhores, tanto é que vestia um terno com um tecido até que carinho, e que sua mãe costurara com tanto amor. Mas, ainda assim, aquele perfume provavelmente custava mais do que tudo que tinha em seu corpo naquele momento. Apesar da culpa, permitiu-se sentir o cheiro do cosmético; limão.

Era como se Irene tivesse escolhido especificamente aquela fruta, porque ele se lembrava de, um dia, ter dito a ela que era a sua fruta favorita.

— E-eu adorei... Muito obrigado.

— Você merece tudo, Santiago... — Inclinou-se e deixou mais um beijo no rosto bonito, era boba demais por aquele homem. — Agora, por favor, vamos sair daqui.

— Você é quem manda! — Ele acelerou, ainda cuidando para não fazer barulho. — O que acha de aprender a dirigir?

— Sim! Meu Deus, eu te amo!

 

Maio de 1963

 

Irene podia dizer que teve bons sonhos naquela noite. Não tinha visto Santiago no dia anterior, mas dormiu sorrindo porque pensava nele. Sonhou que já morava com ele, que tinham ido para uma casinha simples, mas bonita, perto da casa em que ele crescera em Jaçanã; eles pintavam as paredes juntos, mas faziam isso com certa pressa, porque Irene tinha que ir para a faculdade. Sim, ela estudava em seu sonho, essa era uma de suas maiores vontades. Irene gostaria tanto de ser professora, talvez de história ou de francês, e ela seria a mulher mais feliz do mundo se pudesse realizar isso. Porque... Sua família jamais permitiria. Tinha de servir para esposa, não para trabalhar. E não seria diferente se ela se casasse com um homem rico; um daqueles que seus pais sempre a obrigavam a conhecer. Se deixasse de ser a filha bem-criada para ser a esposa feliz de algum figurão, sabia que seu marido não permitiria que ela tivesse qualquer ocupação além de governanta ou mãe.

Um dos motivos para amar Santiago e ansiar pelo momento em que viveria com ele, era o fato de que sairia das garras de sua família, para compartilhar a sua vida com um homem que, além de realmente despertar seus mais sinceros e bonitos sentimentos, jamais faria oposição a qualquer vontade de Irene. Ambos tinham plena consciência de que se amavam, não se pertenciam. Santiago não queria uma mulher para lavar suas roupas ou dar banho em seus filhos, queria uma mulher para estar ao seu lado, independentemente das dificuldades que enfrentariam. Ele admiraria sua esposa por ser honesta, inteligente, com um ótimo senso de humor, não por saber usar talheres chiques ou saber fazer qualquer coisa na cozinha. Seria até engraçado, na verdade, um homem que não sabia usar guardanapos de tecido e que fazia feijão quase todos os dias — porque sua mãe trabalhava duro, e ele tinha o bom senso de não permitir que ela se sobrecarregasse com as tarefas domésticas, o que era o mínimo — ter algum tipo de exigência em relação aos dotes de sua futura mulher.

Santiago era um sujeito que sairia pelas ruas orgulhoso, e comentaria com um sorriso em cada jogo de sinuca ao dizer que sua esposa era professora. Ele não tinha muito interesse em estudar, nunca teve ambição de ser médico, advogado... Qualquer coisa do tipo. Era feliz tendo uma vida simples, e mais feliz ainda agora, que conhecera a mulher da sua vida. Podia se imaginar dali dez anos, no mesmo emprego, na loja de tecidos no centro, ansioso para ir para casa e encontrar Irene ajudando o filho deles a ler suas primeiras palavras. Sim, queria ter filhos com Irene, quantos ela quisesse, e torcia muito para que todos eles puxassem a inteligência da mãe — e a beleza do pai, poupando a modéstia. Esse era um futuro que faria Santiago pensar que nada faltaria.

Irene se sentia de um modo muito semelhante, apenas não era tão certa assim em relação aos filhos. Achava que, por enquanto, eram jovens demais para isso — e com razão, Santiago havia completado seus  vinte anos no mês passado —, seu medo era de que não tivessem condições de criar um filho com o mínimo de conforto que uma criança precisa. Ela não era ingênua, sabia que não poderia contar com o dinheiro da família, logo seria totalmente inviável manter três com apenas o salário de Santiago. Não que ela esperasse que apenas o dinheiro dele os sustentasse, é que não haveria como ela trabalhar e estudar tendo um filho. Não seria o fim do mundo, era algo a se enfrentar, e amaria ser mãe, sem dúvidas, mas ela acreditava ser muito mais seguro dar continuidade a essa ideia apenas quando tivessem uma maior segurança financeira. Ela não pretendia abandonar o sonho de estudar.

Entretanto, Irene só não esperava que qualquer possível imprevisto viesse tão cedo... Em outras palavras, não esperava abrir os olhos pela manhã completamente tonta, e ter que ir correndo para o banheiro para vomitar, porque estava terrivelmente enjoada. Ela não raciocinou muito quando isso aconteceu, apenas atendeu a necessidade de seu corpo, sem parar para pensar. Foi só depois que ela colocou tudo para fora que um medo absurdo a consumiu. Ela arregalou os olhos e se afastou da privada letargicamente, em choque pela possibilidade. Com cuidado, sentou-se no chão, e então percebeu que seu irmão estava na porta do banheiro, encarando a cena com certa confusão.

— O que você tem? — ele questionou.

— Eu acho que comi alguma coisa que me fez mal... — Era mentira, tinha dormido sem jantar, e não comeu absolutamente nada forte durante o dia. — Talvez os ovos não estejam muito bons.

— Ah, pode ser... Quer que eu te leve ao médico?

Não, de forma alguma! Aquilo era simplesmente uma péssima ideia. Se fosse ao médico, e o pressentimento fortíssimo da moça estivesse correto, sua família descobriria sobre a gravidez antes mesmo que ela pensasse em como falar. E, caso isso acontecesse, ela muito provavelmente não teria a oportunidade nem de deixar Santiago ciente de que era pai, porque era quase certo que sua família daria um jeito de trancá-la o mais longe possível dele. Isso tinha tudo para dar errado.

— Não! Não! — Irene logo percebeu que respondeu com desespero demais. — Eu acho que não é necessário, só preciso descansar um pouco.

— Tudo bem então... — Ainda confuso, Edgar saiu dali, e a garota se odiou por ter esquecido de trancar a porta do quarto antes de ir dormir.

Depois de um longo suspiro, ela levantou a camisola até expor sua barriga. Não queria pensar no pior, apenas sabia o que estava acontecendo, porque se recordava bem de uma madrugada de negligência com Santiago, no carro do amigo dele. Ela acariciou a região do ventre com cuidado, tentando manter uma calma que certamente não existia. Isso mudava tudo, e ela precisava falar com Santiago. Ainda que morresse de medo da possibilidade do rapaz se assustar e fugir; não sabia se era um pensamento racional, apenas temia fortemente. Porque, infelizmente, Irene sabia como eram os homens, e tinha medo de que o homem que ela amava fosse como todos eles.

 

(...)

 

Mesmo que repetisse mil vezes, Irene jamais acharia o suficiente para expressar o fato de que Minseok era o seu anjo da guarda. Não existia constatação, sua amiga sempre dava um jeito de fazer o que parecia ser impossível — ou, no mínimo, difícil demais — para ajudá-la. O negócio é que... Desde que ela se enroscou com Carlinhos, o tal amigo de Santiago, naquele boteco de quinta, não havia outro nome que saísse da boca da moça. Talvez ela também tenha caído nas graças daquele sujeitinho burguês que, só Deus sabe como, vivia para cima e para baixo com o amigo proletário que não gostava muito de gente rica. E Minseok manteve o contato com o rapaz, e foi isso que permitiu que um bilhete de Irene chegasse até Santiago sem que ela tivesse que sair de casa — porque não era como se ela tivesse essa possibilidade.

Ela escreveu que precisava urgentemente falar com ele, às dez horas da noite, e deu ênfase nisso com diversos pontos de exclamação. Minseok só teve o trabalho de levar o recado até Carlinhos, que logo deu um jeito de encontrar o amigo para entregar a ele. E deu certo, claro, porque bastou que o ponteiro se posicionasse no número exato para que as mesmas três batidinhas suaves no vidro da janela, que Irene estava mais do que habituada a ouvir, roubassem a atenção da moça. Ela passou o dia inteiro angustiada, chorou em alguns momentos, principalmente pela incerteza de não saber o que fazer. E, à noite, parecia até que iria furar o chão, porque andava de um lado para o outro enquanto esperava por Santiago. Ainda bem que ele nunca se atrasava, ou ela acabaria tendo um surto.

Irene correu até a janela, e abriu para que o rapaz entrasse. De primeira ele já notou as mãos trêmulas e a respiração ofegante, e não conseguia parar de se perguntar o que de tão urgente ela tinha para falar. Falando a verdade, não era como se Santiago pudesse dizer que teve um dia minimamente tranquilo. De jeito nenhum. Recebeu o tal bilhete enquanto almoçava, e ficou tão nervoso que, além de não conseguir colocar mais nada na boca, sentia que poderia vomitar tudo o que tinha comido, porque sua cabeça começou a criar as piores possibilidades possíveis para aquela urgência que, pela escolha de palavras, talvez não trouxesse boas notícias.

Passou a tarde toda perturbado, e até levou um sermão do chefe por cometer alguns erros. É que ele não conseguia parar de teorizar o que devia ter acontecido. E se o relacionamento deles tivesse sido descoberto? E se Irene fosse mandada para a casa de sabe-se lá que parente rico? E se Irene estivesse sendo obrigada a se casar com algum sujeito rico — provavelmente velho e grosseiro —, como um ultimato de sua família? E se... E se ela simplesmente tivesse desistido de Santiago, porque talvez a vida difícil não valesse tanto a pena assim, e quisesse dar um fim naquilo tudo que eles tinham? E se Irene não o amasse mais?

Qualquer uma das possibilidades doía.

— Você tá bem, Irene? — Foi a primeira coisa que perguntou, e provavelmente a sua voz trêmula denunciava que ele estava com medo do rumo que aquela conversa poderia ter.

— Eu não sei... Quer dizer, sim, mas é difícil. — O simples gesto de segurar as mãos do mais novo e levá-lo até a sua cama foi o suficiente para acalmar um pouco o nervosismo de Santiago. — Você quer viver ao meu lado independente de qualquer coisa? Me diga a verdade.

— Mas é claro que eu quero! — Tocou o rosto da moça, e acariciou a bochecha pálida com o polegar. Irene fechou os olhos, ainda estava apreensiva, embora encontrasse sinceridade no tom que ele usou. — Eu te amo!

— Então eu espero que você não mude de ideia com o que eu vou te dizer... — Ela respirou fundo. — Eu tô grávida.

— Grávida...? — Santiago repetiu baixo, um tanto descrente, e tentando entender o significado real daquelas palavras, embora fosse óbvio. — Meu Deus!

Irene ficou confusa quando seus braços foram espremidos em um abraço, demorou alguns segundos para compreender que, não, Santiago não fugiu. Ele não ficou bravo, não se afastou, não correu... Nem mesmo reclamou. Sua reação foi abraçá-la, e foi esse calor que trouxe algum conforto em meio ao caos, e Irene não conseguiu mais segurar a vontade de chorar. Ela estava muito assustada, mas ver que não estaria sozinha era a sua esperança. Quando Santiago notou que ela chorava, segurou o seu rosto outra vez, e entrou em desespero por não saber exatamente o que fazer para acalmá-la. Nada fazia muito sentido.

Ambos estavam em um estado bizarro demais.

— Por favor, me diz o que eu posso fazer, ver você chorando me deixa em pânico…

— Não faz nada, só fica aqui... Eu achei que você ia fugir. — Agarrou o maior pela gola da camisa, e escondeu o rosto em seu ombro. — Obrigada por não ir embora.

— Eu só... Claro que isso é... — Ele não sabia exatamente que palavra usar para não ser um troglodita, mas iria arriscar. — Muito estranho, porque eu tenho medo, e você com certeza também tem... Mas eu jamais fugiria. Eu não seria capaz de fazer isso com você.

— E o que nós vamos fazer? Eu não posso simplesmente contar à minha família, isso seria absurdo, não consigo nem imaginar o que eles fariam comigo.

— Vamos fugir! Agora mesmo, arrume suas malas e vamos embora! A minha casa é pequena, mas tenho certeza de que a minha mãe vai ficar muito feliz em ter você conosco.

— Não... Quer dizer, sim, eu quero fazer isso! Mas eu não posso fugir sem mais nem menos, meus pais podem colocar a polícia, ou qualquer um, para me procurar, isso pode dar um problema enorme. Eu acho melhor pelo menos avisar que vou embora.

— É, você tem razão…

— Amanhã, às nove, me espere na porta. Eu vou fazer as minhas malas e falar com os meus pais, então nós vamos para bem longe daqui. Pode ser?

— Tudo por você, senhorita!

 

(...)

 

Com o coração acelerado e os movimentos ariscos, Irene guardava as roupas que mais gostava — as mais confortáveis, vale apontar — na mala que levaria para a casa de Santiago. Não iria levar muita coisa, achava que tinha roupas até demais, e queria apenas aquilo que sabia que seria útil e prático. Do que adiantava levar todos aqueles vestidos longos, cheios de brilhantes, sapatos apertados e altos demais, e todas aquelas vaidades que usava por pura insistência de sua mãe em situações sociais? Imaginava-se muito mais usando calças e um sapatinho simples para correr pelas ruas com Santiago, sem qualquer tecido caro pesando em sua pele ou comprimindo o seu peito.

Era outra forma de liberdade.

Além do mais, sentia que era necessário deixar para trás tudo aquilo que a fizesse se lembrar da vida medíocre e deprimente que levava em nome das futilidades e da fortuna de sua família; detestava tudo isso, queria enterrar no seu passado. Agora que seria mãe, tinha em mente que deveria criar o seu filho, ou a sua filha, como alguém simples; não que tivesse que demonstrar algum amor pela pobreza, mas que não tivesse uma superficialidade de caráter tão grande pelo amor ao dinheiro, como a família de Irene. Ela queria ensinar que o valor do amor era muito maior do que o de uma mansão com piso de mármore, ou do que o de diamantes de sabe-se lá quantos quilates. Ela tinha certeza de que sua vida teria sido muito mais fácil se seus pais tivessem esse pensamento.

Àquela hora, Santiago certamente já esperava em frente ao portão — a pé, iriam a Jaçanã de trem —, e, mesmo assim, Irene continuava nervosa. Um pressentimento terrível a devorava, e suas mãos suavam demais para o friozinho de maio, mas ela simplesmente preferia ignorar isso; fingia que estava tranquila, quando sentia medo, porque era forte, e sabia disso. Tinha de enfrentar a sua família e assinalar o ponto final daquilo tudo, seria o momento em que quebraria todas as correntes que a envolviam, pois seu futuro — livre e com amor — a esperava do lado de fora. Irene iria embora para ser feliz.

Com tudo pronto, ela foi até a sala, onde seus pais e seu irmão estavam, eles assistiam a algo na televisão, e pareciam até bem entretidos. Irene não se lamentava por pretender perturbar a paz deles. Foram vinte e quatro anos com a sua mente sendo perturbada, moldada, e manipulada de todas as formas. Podia sim aborrecê-los por uma noite com a sua insubordinação — que nada mais era do que tomar as rédeas da própria vida e colocar em prática o tal do livre arbítrio que supostamente tinha. Seria a primeira e a última vez que iria se impor, porque não precisaria fazer isso novamente.

— Irene, o que é isso?! — perguntou sua mãe, assim que a viu segurando duas malas.

— Estou indo embora de casa.

— Do que você está falando, menina?! — Agora foi seu pai quem estranhou a situação.

— Meu noivo está me esperando lá fora, irei viver com ele.

— Noivo?! — Outra vez, os gritos exaltados de sua mãe. — Que história é essa de noivo?

— Eu tenho um noivo, e eu estou esperando um filho dele, vocês não o conhecem, e prefiro que não o conheçam, porque jamais aprovariam nosso relacionamento. — Seu tom era frio e firme, mas a verdade era que ela queria chorar de pavor.

— Você está grávida?! — Edgar levantou a voz, e Irene sentiu mais medo. — É daquele vagabundo com quem você tava naquele bar?

Mas ela não admitiria que falassem de Santiago daquela forma. De jeito nenhum.

— Você é o último que pode chamar meu noivo de vagabundo! — Passou a falar na mesma altura que o irmão. — Ele trabalha, muito diferente de você, que conta com a herança pra viver. Eu não quero essa vida para mim, não quero depender de mais ninguém.

— Você está ficando louca, Irene... — Sua mãe estava nitidamente espantada com tudo aquilo.

— Viver da forma que vocês me fazem viver é que me enlouquece... — respondeu. — Agora, se me dão licença, estou indo embora.

— Você não vai! — Seu pai se levantou e agarrou o seu braço. — Não vou permitir que você jogue a sua vida fora por conta de um maloqueiro que acabou de conhecer, isso é loucura. Você tem tudo nas mãos, e ainda acha ruim?

— Do que adianta ter tudo se eu detesto cada um dos meus dias? Às vezes eu gostaria de nem ter nascido! — Tentou livrar-se da mão de seu pai, mas não tinha força suficiente. — Me solta!

Naquele momento, Irene se viu como a menor pessoa do mundo, era quase como se não tivesse voz. Ela tentou conter o choro, mas não conseguiu, não se sentiu capaz de reagir nem mesmo quando Edgar se aproximou para tomar as malas de sua mão. Apenas caiu sobre os próprios joelhos ao ver o irmão atirá-las para o outro lado da sala. Ela tentou gritar pelo nome de Santiago, mas nada saía.

— Você não vai — determinou o patriarca, ainda segurando o seu braço. — Pode ter certeza de que eu faria a vida de vocês um inferno.

Do lado de fora, Santiago não conseguia parar de roer as unhas. Estava nervoso, com medo, Irene demorava demais. Ele se perguntava se algo não havia acontecido a ela... E ele teve certeza disso quando viu o irmão problemático da moça saindo pelo portão. A expressão de raiva indicava que, definitivamente, ele não tinha qualquer intenção amigável ao se aproximar. Na verdade, prova disso foi o soco que ele acertou no rosto do rapaz, de forma totalmente inusitada. Santiago foi pego desprevenido, e acabou perdendo o equilíbrio. Já caído no chão, pôde notar que Edgar se abaixava, certamente queria acertá-lo outra vez, mas ele foi mais rápido e ficou em pé, logo se posicionando para brigar com aquele burguês maldito.

— Onde está Irene?! — perguntou, irritado, com os punhos à mostra em um sinal de ameaça.

— Vá embora, desgraçado! Suma da vida da minha irmã, suma da vida da nossa família!

— Eu não vou embora sem ela!

— Ela não vai com você. — Devolveu o moço mais velho, com uma calma que há segundos não existia. — Você vê aquela casa ali na esquina? É onde mora o delegado. Se você não sumir daqui agora mesmo, eu posso te arrumar grandes problemas.

— Você acha que eu tenho medo de quem nunca teve que andar descalço? — questionou Santiago, então partiu para cima do rapaz.

Ele não sabe dizer — ou, então, prefere não o fazer — por quanto tempo eles trocaram socos. Apenas soube que durou o suficiente para que ouvissem diversos gritos, inclusive os de Irene, e, então, sirenes. Ele e Edgar apenas se afastaram porque dois policiais puxaram Santiago para longe; o outro homem, porém, não foi tocado por um único dedo. Enquanto ele era arrastado para uma merda de viatura, e ouvia Irene chamando desesperadamente por seu nome, ele soube... Foi burro e impulsivo; perdera, portanto, a mulher que amava. Porque seria inocência demais crer que Edgar não premeditou aquela briga, para que assim Santiago não tivesse como ir atrás de Irene.

E só Deus sabia quanto tempo os separaria.

 

Julho de 1970

 

Entre as coisas que Irene mais odiava, visitar a sua família era uma delas. Não que ela detestasse o Brasil, seria tolice, porque também não era como se ela vivesse na França porque genuinamente queria isso. Apenas não teve escolha. Seus pais disseram que, se ela não noivasse até o último mês de 63, tomariam seu filho; sem eufemismos, tirariam a criança de seus braços assim que ela nascesse, e dariam um jeito para que Irene nunca mais o visse. Ela, desesperada, recorreu a Junmyeon, por dois simples motivos: era um dos pouquíssimos homens que conhecia e não a causava repulsa, e ofereceria sustento ao seu filho. Aquele matrimônio, entretanto, foi por pura necessidade dos dois jovens. Junmyeon não queria se casar, cedera à pressão dos pais. Ele gostava de rapazes, mas jamais teve coragem de revelar isso a sua família — sabia bem como isso terminaria. A única que sabia disso era Irene, pois ele estava ciente das únicas motivações da moça para aceitar casar-se com ele.

Eles foram juntos para a França. Como Irene dava a ele a liberdade de sair e se relacionar com os homens que bem entendia, sem nem cogitar falar sobre isso a qualquer um, Junmyeon decidiu oferecer a ela a liberdade que sua família jamais ofereceria; pagaria seus estudos. E, para que a maternidade não obstruísse sua vida acadêmica, fez questão, também, de investir em conforto, pagou uma babá para que ajudasse a cuidar do menino enquanto Irene estivesse estudando. Irene registrou o garoto como Santiago Marques, um filho bastardo. Desde que o pequeno podia entender quem eram as pessoas ao seu redor, sabia que Junmyeon era seu padrasto, e que, apesar de ser bom para ele, não era seu pai.

Quando ele perguntava sobre o seu pai, Irene dizia a que tinha dado a ele o seu nome, e que alguns problemas da vida acabaram os separando, mas ele sempre seria o melhor homem que ela já teve a honra de conhecer. Porque ele ainda era pequeno demais para entender o que seu tio e seus avós faziam pensando em status e dinheiro; assim como provavelmente não compreenderia o significado de seu pai ter sido preso. A semelhança física do menino com Santiago era realmente impressionante, seu rosto quase não lembrava o de Irene. Em alguns momentos, ela chorava quando olhava demais para o filho, porque só conseguia pensar no quanto queria estar com o homem que amava, cuidando do fruto do amor deles. E, desde que Carlinhos foi embora para o Rio de Janeiro com a família, Minseok também não teve mais notícias de Santiago para mandar à amiga. Irene não tinha a menor ideia de seu paradeiro.

Talvez por isso também detestasse visitar a sua família. Era uma verdadeira decepção embarcar no avião para a França outra vez, porque isso significava que ela não tinha reencontrado o seu amor. Acreditava que cada vez era uma oportunidade perdida, isso se o rapaz ainda estivesse vivo. E escusado será revelar os outros motivos para Irene detestar visitar a sua família; simples, detestava a sua família, e agora não se repreendia por se sentir dessa forma. Detestava aquelas pessoas, e detestava como eles tinham tirado o seu poder de escolha em relação ao próprio futuro. E ela detestava ter que fingir que ainda nutria algum respeito por eles. Porque, se havia uma única pessoa que ela amava como alguém família, além de seu filho, esse alguém era Junmyeon; criaram um amor fraterno por compreenderem um ao outro, e darem um ao outro a liberdade que não tiveram.

Era verão na Europa, Irene, Junmyeon, e o pequeno Santiago estavam de férias. Aos seus 31 anos, a moça amava o seu trabalho; era professora de história, e, mesmo sem ganhar muito, estava extremamente satisfeita com a sua profissão. Entretanto, um descanso sempre seria bem-vindo. O problema é que... Visitar a família jamais seria um descanso para Irene, mas sim um desgaste mental. E ela detestava a forma como tentavam imbecilizar o seu filho sempre que o viam, com presentes caros e assuntos para os quais crianças não deveriam dar a mínima. Por sorte, a cabeça crítica foi uma herança do pai e da mãe, e o menino sempre ficava brincando com uma miniatura de avião e fazendo sonzinhos com a boca, enquanto seu tio ou seu avô falavam sobre as mesmas bobagens de sempre; qual a profissão é que tinha que seguir, qual era o tipo de mulher que devia escolher para se casar, como devia falar.

Por Deus, o menino tinha seis anos, quase sete, tudo o que fazia era falar de aviões o dia inteiro, por que diabos ele tinha que saber algo sobre tipos de mulheres e casamento? Ele definitivamente não estava nem aí para essas conversas, e Irene achava tudo aquilo uma grande estupidez. Ela ficava até que contente pela figura masculina presente na vida dele ser Junmyeon, e não algum dos homens de sua família, porque a influência que ele exercia sobre o garoto era positiva; incentivava ele a estudar, e até alimentava aquela paixão excêntrica por aviões comprando brinquedos e livros — cheios de imagens e passíveis da compreensão de uma criança, é claro.

Normalmente, quando estavam no Brasil, ficavam em um hotel. Esse era um consenso de Junmyeon e Irene, porque nenhum dos dois queria muito contato com as famílias, aquelas viagens eram meio que... Por obrigação, nada além disso. Era uma tarde de sexta-feira quando eles chegaram a São Paulo, saíram para caminhar um pouco pelo centro, para aproveitar as poucas horas de paz que teriam antes de irem a um jantar com as suas famílias. E Irene estava certa de que detestaria cada segundo na presença daquelas pessoas, Junmyeon se sentia da mesma forma, e por isso ela sabia que não estava sendo rancorosa demais.

Quando passaram em frente a uma loja masculina até que bem luxuosa, Junmyeon parou de andar, e ficou encarando algo lá dentro, estático. A sua expressão assustou Irene um pouquinho.

— Junmyeon, o que foi? — perguntou preocupada.

— É o Matteo... — disse baixo.

Irene, então, olhou para dentro da loja, e viu o tal alfaiate encarando Junmyeon da mesma forma; ele era exatamente como o rapaz havia descrito. Matteo foi o amor que Junmyeon teve de abandonar, porque iria para a França, e iria casado com uma mulher. Irene sorriu, feliz pelo reencontro, porque pensava em como estaria se reencontrasse o homem que amava.

— Vá falar com ele! — Ela deu dois tapinhas em seu ombro. — Eu vou dar uma volta com Santiago, faça o que o seu coração mandar.

Dito isso, segurou a mão do filho com mais firmeza, e observou enquanto Junmyeon adentrava a loja. Então, ela e o menino começaram a andar, e não se afastaram muito dali, apenas atravessaram a rua até o bar que Irene conhecia bem... Era onde Santiago jogava sinuca, e onde Edgar a encontrou. Ela andou até lá impulsivamente, apenas com uma esperança que beirava o irreal; sempre passava naquele lugar quando visitava São Paulo. Nas vezes em que passou na frente, não viu Santiago ali. Entretanto, dessa vez ela acreditava que seria diferente, embora sentisse que se decepcionaria outra vez, e seria mais uma frustração para a lista.

Acontece que... Ela viu Santiago lá, e ela chegou bem no momento em que ele começava a arranjar confusão com outros homens por conta de algo que aconteceu durante a partida de sinuca. Irene não pensou muito, aproximou-se dele com seu filho, sem conseguir parar de encarar o rosto que, agora, tinha uma barba até que atraente, e sem conseguir ignorar o cheiro de cigarro que agora ele exalava. Se soubesse que ele estava fumando, isso partiria o seu coração. Seu coração batia mais e mais forte a cada passo que ela dava na direção daquele homem, como se qualquer pessoa pudesse aparecer para impedir.

Não impediram.

— Santiago! — chamou por ele, que rapidamente virou o rosto, ao reconhecer a voz. O sujeito que agarrava a sua gola, pronto para acertar-lhe um soco, se afastou. Era prudente não fazer isso na frente de uma criança.

— Irene?! — Seu olhar assustado alternou entre a moça e o menino ao seu lado. No mesmo instante ele correu até ela e tocou o seu rosto, com cuidado, viu as marcas sutis da idade, e achava que ela estava mais linda do que nunca. Então voltou a olhar para a criança, e, sem saber muito bem o que dizer, preferiu arriscar uma pergunta. — É meu...?

— Sim... O nome dele é Santiago.

Foi então que, chorando, ele se abaixou até ficar na altura do garoto, que olhou confuso para a mãe. Ele estranhou quando o desconhecido segurou a sua mão, mas não tentou se afastar.

— Mamãe, por que o tio tá chorando?

— Amorzinho, esse é o seu pai... — Agora, ela é quem tentava não chorar, enquanto acariciava os cabelos do filho.

— Ele é o meu papai? — perguntou, então olhou para o rapaz outra vez. — Eu vou ter uma barba que nem a dele?

— Vai sim, quando você for mais velho... — respondeu o homem, mostrando um sorriso trêmulo entre o choro. Então ele olhou para Irene. — Vamos embora?

Por um breve momento, ela olhou para trás, observando através da vitrine da loja onde Junmyeon estava. Ela o viu sorrindo, enquanto conversava com Matteo, e soube que, assim como ele só poderia ser feliz em um futuro com aquele alfaiate, ela só seria feliz em um futuro com Santiago. Não era louca de fugir do seu final feliz.

— Vamos... Não posso ficar nem mais um minuto sem você.