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Ao alcançar a varanda da casa, Emma esboçou um sorriso, tendo enfim encontrado quem estava procurando. Ela caminhou animadamente em sua direção, entretanto, interrompeu seus passos antes de conseguir alcançá-lo. A ruiva observou atentamente o garoto, que estava inclinado sobre a grade de madeira que cercava a varanda, usando um dos braços como apoio para a cabeça. Mesmo estando com um lado da face oculta por causa do ângulo, Emma foi capaz de notar perfeitamente a expressão serena que Ray carregava no rosto. Aquilo a fez sorrir suavemente e ela se manteve imóvel, não ousando interferir naquele momento.
― Por quanto tempo pretende ficar aí me observando? Isso é bastante esquisito, sabia? ― ele falou, no seu tom sarcástico habitual, em seguida virou a cabeça em sua direção.
A ruiva apenas riu do comentário. ― Desculpe. Você parecia tão concentrado que eu não quis atrapalhar. ― ela se aproximou dele, encostando-se na grade, em seguida os dois passaram a observar a paisagem juntos.
O verde da natureza se estendia em frente a eles, da grama que cobria o chão até o topo das árvores, quem visse aquela cena jamais imaginaria que havia uma cidade cinzenta e barulhenta não muito longe dali. Eles deram sorte ao terem conseguido encontrar aquela casa, a residência era grande suficiente para comportar todos os seus irmãos e irmãs, o espaço também era ótimo para os menores brincarem e como ficava fora dos limites da cidade, eles tinham total privacidade e não precisavam se preocupar com olhares curiosos sendo direcionados a eles ― ou mais especificamente, aos seus pescoços. Em resumo, era o local perfeito para que todos levassem a vida calma e pacífica a qual sempre almejaram.
― Parece surreal, não é? ― Ray perguntou, olhando para Emma com a visão periférica. ― Que nós podemos nos dar ao luxo de ficar atoa dessa forma e apenas observar as coisas. ― ele fez uma pausa e soltou um suspiro. ― As vezes me pergunto se realmente mereço isso.
― É claro que sim. ― a ruiva olhou de volta para ele. ― Todos nós passamos por muita coisa, principalmente você. Se há alguém que merece desfrutar desta vista, é o Ray.
O garoto riu. ― Você e seus discursos inspiradores. ― falou com certa ironia. Emma inflou as bochechas em aborrecimento, fazendo-o rir novamente.
― Ei! Qual é a graça?
― Nada, nada. ― o garoto moveu a cabeça para o lado, tendo assim uma visão melhor da ruiva. ― Mas eu discordo. Se for para escolher alguém, você é a maior merecedora deste futuro. ― ele falou, com convicção. ― Você foi a que mais lutou por ele e ainda teve de pagar o preço de passar dois anos longe de todos que você amou, tudo para podermos estar aqui. Por isso, mais do que qualquer um, você merece estar aqui, Emma.
― Verdade… Eu estava longe, não é? ― ela fez uma pausa, soltando um suspiro. ― Longe e sozinha, apenas comigo mesma para contar.
Ao ouvir o tom melancólico da ruiva, Ray se repreendeu mentalmente por ter se deixado levar pela emoção do momento e citado a época de seu desaparecimento.
― Mas hey, tudo aquilo já passou agora. Os demônios, o tempo que estivemos separados, tudo isto acabou. ― falou de forma calma, esboçando um sorriso. ― Eu nunca mais vou permitir que nada assim aconteça outra vez. ― o garoto estendeu sua mão para segurar a dela, porém, Emma se distanciou antes que ele pudesse alcançá-la.
Ray ficou confuso e deu um passo em sua direção, mas a ruiva continuou se afastando. ― Emma?
― Desculpe, é que me lembrei de algo importante. ― ela continuou andando para trás, então de repente, seu corpo começou a gradualmente se desfazer em pequenos fragmentos, que por sua vez se transformaram em pó e sumiam no ar. Os olhos de Ray se arregalaram em choque e confusão. ― Eu não pertenço a este cenário.
― Emma, espere… ― sua voz soou desesperada e ele continuou tentando alcançá-la, mas não importa o quanto andasse, parecia estar perpetuamente preso ao mesmo lugar enquanto Emma ficava cada vez mais distante. ― Emma, não me deixe de novo.
― Eu não estou te deixando, você apenas nunca me encontrou. Então, prometa que vai continuar me procurando, ok? ― ela esboçou um enorme sorriso, nessa altura, boa parte de seu corpo já havia sumido.
Ray tentou pular em sua direção, com os braços abertos para segurá-la, entretanto, sua fragmentação foi concluída e tudo o que ele pôde fazer foi observar enquanto Emma era levada pela brisa do verão.
Com a respiração ofegante, o garoto abriu suas pálpebras, olhando em todas as direções possíveis. Sua mente estava nublada e confusa, então levou alguns minutos para enfim conseguir raciocinar o que havia acontecido. Ray havia passado a noite anterior em claro memorizando mapas dos lugares onde ele e seus irmãos ainda não haviam explorado durante sua busca por Emma. Faziam 2 anos que sua vida era resumida a isso, memorizar mapas para conseguir arquitetar rotas nas quais pudessem cobrir uma vasta quantidade de território no menor tempo possível. Ele começou a negligenciar coisas como sua alimentação ou horário de sono, pois qualquer minuto de seu tempo era valioso demais para ser gasto se preocupando com tais coisas triviais. Ray não podia se dar ao luxo de relaxar enquanto sua parceira de vida estava lá fora em um mundo desconhecido e sem ninguém para apoiá-la.
Por conta disso, já havia se tornado normal para ele desmaiar de cansaço e ultimamente, esses desmaios vinham acompanhados de pesadelos como aquele, onde Emma, apesar de estar bem ali na sua frente, estava sempre longe de ser alcançada. Isso apenas contribuiu para que ele adiasse ainda mais sua hora de dormir, mas o garoto não era uma máquina, então não importava o quanto tentasse, o sono hora ou outra o arrebataria e com ele viriam os pesadelos.
Ray soltou um suspiro e afastou os cabelos para trás com ambas as mãos, ele encarou os diversos mapas que estavam espalhados por sua mesa e a voz da Emma imaginária preencheu seus ouvidos, como se fosse o sussurro de um fantasma.
“Então, prometa que vai continuar me procurando, ok?”
O garoto bateu na mesa com um punho fechado, seu rosto adquirindo uma expressão séria. ― Não importa se eu precise descer ao inferno ou subir até o céu, eu vou trazê-la de volta.
