Chapter Text
O celular de Wynonna Earp tocava incessantemente e ao olhar o visor, a mulher soltou um suspiro muito audível e nada animador.
- Alô? – Disse ao atender.
- Senhora Earp? – Era uma voz feminina que Wynonna já estava se acostumando a ouvir.
- Bom dia, Diretora Price.
- Bom dia, Senhora Earp. Peço desculpas pela ligação, mas...
- O que Alice fez dessa vez?
Wynonna já estava com a mão na têmpora ao fazer a pergunta. Ligações da Purgatory High estavam se tornando frequentes em sua vida e sempre que o nome da diretora aparecia em seu celular, a sensação de déjà vu lhe atingia mais rápido que um trem desgovernado.
- Se a senhora puder comparecer ao meu gabinete, creio que podemos conversar com mais calma... – a Sra. Price disse com a voz branda.
- Tudo bem, estou a caminho.
A Earp mais velha colocou o celular no bolso do jeans, fechou os olhos e colocou ambas as mãos na nuca, sua mente somente imaginando o que havia acontecido daquela vez.
- Algum problema? – Sua colega de trabalho e cunhada, Nicole Haught, a tirou de seus devaneios.
- Earp é quase um sinônimo para problemas... – Wynonna bufou e pegou sua xícara, bebendo seu último gole de café. – Era do colégio.
- Alice... – Nicole crispou os lábios ao pegar algumas pastas da mesa de Wynonna. – Falaram o que foi dessa vez?
- Não. E é isso que me assusta... – a morena deu um riso sarcástico – Irônico pensar que a escola está basicamente ligando para a Delegacia...
Nicole sorriu levemente e balançou a cabeça.
- Melhor do que tê-la encontrado em uma festa onde ela definitivamente não deveria estar.
- Nem me lembre desse dia, Nicole... Parece que foi...
- Semana passada – a ruiva disse e após hesitar por alguns segundos, falou cuidadosamente – Não querendo opinar muito...
- Mas já opinando... Fala logo, ruiva. – Wynonna se levantou e gesticulou com impaciência ao recolher as chaves de seu carro.
- Não acha que foi precipitado matricular Alice em uma escola pública? É até engraçado dizer isto, visto que todo jovem tem direito a uma boa educação, mas Alice...
- Ela não é como todo jovem... – a outra completou. – Waverly me falou a mesma coisa.
- Nós conversamos sobre – Nicole explicou.
- Imaginei... – ao vestir sua inseparável jaqueta, Wynonna olhou para a ruiva, que agora era a xerife da cidade, após a aposentadoria de Nedley, sem mencionar cunhada e tia de sua filha. – Mas eu não sabia o que fazer, Nicole! Com Doc longe, eu precisava tomar uma decisão e deixar Alice em casa sozinha estava fora de cogitação!
- Sabe que não precisa lidar com tudo isso sozinha, não é?
- Eu sei, eu sei... Eu tenho vocês e blá, blá, blá, mas ela é a minha filha, mesmo que ela não me veja como uma mãe... Eu não me vejo como uma mãe. – Seus ombros caíram com a afirmação.
- Isso vai mudar, Wynonna... É só uma questão de tempo.
- Não me fale em tempo, Haught.
- Desculpe.
Wynonna verificou se pegara todos os seus pertences e fez um aceno de cabeça para Nicole, saindo da Delegacia e caminhando até sua caminhonete azul. Ao sentar-se no banco do motorista, a mulher secou a lágrima que escapava de seus olhos e sentindo-se a pior mãe do universo, dirigiu o mais rápido que pode até o colégio que uma vez também estudou.
***
Cinco anos haviam se passado desde que Wynonna dera à luz a menina Alice, em cima de uma mesa de sinuca no Shorty’s, enquanto uma horda de Retornados tentava invadir o local e As Viúvas tentavam trazer Bulshar de volta a vida.
Anos que se passaram igual a um borrão, no qual a Earp mais velha teve que lidar não somente com o fato de ter mandado sua primogênita para longe, mas também resolver seus assuntos com um Doc Holliday vampiresco, uma mãe fugida de um hospital psiquiátrico, uma irmã mais nova metade anjo e a quebra da maldição de sua família pelo demônio Cloodie.
Isso sem mencionar a odisseia que foi o resgate de Waverly e Doc do Paraiso. Ou Jardim. Ou qualquer inferno de nome que aquele lugar poderia receber. Somente as lembranças do que foram aqueles meses faziam Wynonna querer quebrar alguma coisa.
E ela conseguiu quebrar muitos narizes, uma vez que, para tirar sua irmã mais nova e seu namorado? Pai de sua filha? Interesse amoroso? Daquele lugar perdido, mais demônios e criaturas estranhas acabaram escapando, o que acarretou em novas perseguições para devolver aqueles seres ao lugar a que eles pertenciam.
A luta levou anos e quando finalmente achou que os anos seguintes se resumiriam somente em prender idiotas bêbados e aplicar multas de transito a mando de Nicole, para seu contragosto, o universo bateu a sua porta mais uma vez e mandou lembranças.
E a lembrança tinha nome e sobrenome.
Na calada da noite, por volta de três meses atrás, Wynonna recebeu uma ligação de um número desconhecido e somente o atendeu, pois, o mesmo contato havia ligado para Waverly, Nicole e todos os que estavam ligados de alguma forma a família Earp.
As palavras de Perry Crofte ecoaram por incontáveis minutos em seu ser quando recebeu a infeliz notícia de que Gus havia falecido de um mal súbito.
Gus... Uma das poucas pessoas que Wynonna confiava cegamente, apesar das diversas desavenças que tivera com a mulher, já não estava mais entre eles... E uma vez que sua tia tinha partido, isso significava que outra pessoa retornaria. Uma pessoa que ela conhecera por apenas poucas horas, muito tempo atrás.
O retorno de sua filha a apavorou assim que constatou a realidade eminente. E dois dias depois, Wynonna, acompanhada de Waverly, estavam frente a frente com a pequena Alice Michelle Holliday Earp.
Contudo, um detalhe intrigou as irmãs Earp assim que seus olhos pousaram em Alice: ela não estava tão pequena assim.
- Perry? – Waverly engoliu em seco, seus olhos exibindo um espanto sem tamanho – Acredito que exista uma explicação para isso, não?
Waverly e Wynonna estavam dentro do carro de Perry, e observavam pela janela uma menina de cabelos castanhos e pele clara sentada na varanda da casa que o rapaz disse pertencer a Gus. A jovem, aparentemente, tinha a idade aproximada de 13 anos, e não cinco como as irmãs imaginaram.
- Perry? – Waverly insistiu.
- Pode parecer maluquice... – o homem iniciou, escolhendo bem as palavras.
- Perry, se tem uma coisa que a gente entende, essa coisa é maluquice, então por tudo que é mais sagrado, me explique porque raios a minha filha está daquele tamanho! – Wynonna falou em desespero do banco ao lado do motostista, gesticulando as mãos para Alice e as batendo no vidro da janela – E porque eu não fui avisada!
- Gus não queria te preocupar... – Perry respondeu, coçando a nuca – O que eu achei totalmente errado.
- Bom trabalho Gus! – Wynonna chutou a parte interna da porta – O que aconteceu, merda! Desembucha! – Ela sentia todo o corpo tremer. Aquela menina não era sua filha, não podia ser...
- É algum tipo de maldição? – Waverly olhou atentamente para Perry, que confirmou com a cabeça a olhando pelo retrovisor.
- Sim – ele respondeu com seriedade – Quando vocês confiaram Alice para nós, viemos para essa cidade afastada justamente para a menina não ser encontrada por ninguém. Contudo, cerca de uns dois meses depois, começamos a reparar que Alice começou a fazer coisas que não condiziam com seu tempo de vida...
- O que aconteceu? – Wynonna olhou para ele, entretendo, sua mente gritava todos os palavrões do universo.
- Ela falou o nome da Gus.
Um silêncio perdurou por longos minutos dentro do carro, cujo o ar estava ficando pesado e quase claustrofóbico.
- Alice falou com dois meses? – Waverly fez força para falar.
- Sim. Pensamos ser algum tipo de alucinação, afinal, estivemos em Purgatory e sabemos que tudo é possível, mas então, nos dias e semanas seguintes, Alice falou mais palavras e começou a apontar.
- E o que você e Gus fizeram? – A mais nova falou, uma vez que Wynonna parecia estar em estado de choque.
- Depois de nos desesperarmos? – Ele riu nervosamente – Nós buscamos ajuda. Cogitamos entrar em contato com vocês, mas desistimos, pois sabíamos que qualquer contato com Purgatory revelaria nossa localização. Foi então que eu encontrei um cara na internet, que conhecia outro cara...
- Que conhecia mais um, acredito? – Waverly completou.
- Sim. Eu só sei que depois de passar por umas nove ou dez pessoas diferentes, eu cheguei no sobrenome Winchester. Vocês conhecem?
- Não... – Waves e Wynonna falaram baixo e os olhos da mais velha não saiam de Alice, que agora a encarava.
- Entrei em contato com dois caras chamados Sam e Dean Winchester. São americanos, Kansas, eu acho, mas enfim... – Perry limpou a garganta – Assim como vocês, eles caçam demônios. Negócios da família, foi o que me disseram... De qualquer forma, conversei com eles, que de início não deram muito crédito para o meu relato, até eu mencionar Purgatory e a maldição dos Earp.
Wynonna virou o rosto para o homem e o encarou, seu interior uma tremenda bagunça, custando a acreditar que se via novamente dentro de uma maldição.
- Você quer dizer que somos famosos? – Indagou com ironia.
- Aparentemente sim – disse Perry.
- E se esses dois Winchester são mesmo caçadores, porque não chegaram antes e nos deram uma ajudinha? – A voz de Wynonna era ácida.
- Wynonna... – Waverly ia falar, mas foi interrompida pela irmã.
- Enfrentamos tanta merda, baby girl, uma ajudinha de seria boa...
- Eu os indaguei sobre isso – Perry informou – E de acordo com os Winchester, eles chegaram a ir até Purgatory, tanto a cidade quanto ao Purgatório mesmo... – as irmãs arregalaram os olhos com a informação – É, eu e Gus fizemos a mesma cara que vocês. Mas continuando, eles foram até a cidade e conheceram o lugar, tentaram fazer algo, mas por se tratar de uma maldição, e uma que falava especificamente da Família de Wyatt Earp e seus descendentes, não puderam fazer muita coisa.
- Então eles simplesmente foram embora? – Wynonna indagou incrédula.
- Sim. De acordo com eles, receberam um chamado na época, algo referente a Miguel e Lúcifer numa jaula, mas não deram mais detalhes e mudaram de assunto.
- Okay, eles não puderam ajudar com a maldição da nossa família, foram embora e você os encontrou, o que mais? – Waverly fez um gesto com a mão, indicando para que Perry continuasse.
- Alguns dias depois que conversei com eles pelo telefone, os dois vieram nos visitar. Chegaram assim, do nada e sem aviso, num Chevrolet Impala...
- Perry, foco.
- Conversamos por horas e nisso Alice já estava andando pela sala. Contamos sobre vocês, a cidade, os Retornados, a PeaceMaker, tudo e mais um pouco. Depois os dois foram até o carro e ficaram conversando sozinhos e quando voltaram estavam com uma infinidade de materiais e artefatos que os ajudariam a entender o que estava acontecendo com Alice.
- Se você me disser que eles machucaram Alice... – Wynonna começou e Perry negou.
- Gus foi a primeira a dizer que os mataria se fizessem algo de ruim para Alice.
- É bem a cara dela mesmo – Waverly se permitiu dar um sorriso saudoso.
- Alice precisou de hipnose para dormir. E isso é outra coisa que devem saber, ela não dorme...
-COMO ASSIM ELA NÃO DORME? – As mulheres exclamaram em espanto.
- E eles começaram a trabalhar – Perry continuou como se não tivesse sido interrompido – E o que eles fizeram foi... Eles – ele riu sem fôlego – Eles invocaram um demônio.
- O QUE? – As duas gritaram.
- Eu também gritei quando vi aquele homem dentro do pentagrama no chão. – Contou Perry.
- Como...
- Não faço ideia, Waves...
- Quem era? – Wynonna quis saber.
- Hypnus.
Outra vez silenciaram e a lembrança de Wynonna atirando no demônio que colocou a cidade de Purgatory para dormir durante meses lhe atingiu.
- Eu o matei. – Ela disse firme. – Tenho certeza disso.
- E Dean e Sam o chamaram. Outra vez, não me perguntem como... – Perry sabia que o que contava poderia parecer a maior lorota do universo, mas se tratando das Earp, nada seria tão estranho assim – Mas pelo que pude entender, Alice disse, durante o sono de hipnose, outra palavra: poppy. Para Gus e eu, isso não significou nada, mas para os Winchester, foi um nome.
- Poppy é a filha de Hypnus – Waves se lembrou.
- Que fugiu depois que eu... – os ombros de Wynonna caíram derrotados.
- Esse tal de Hypnus apareceu na sala de estar, rindo... Acho que ele de alguma forma sabia do que se tratava... Ele admitiu que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo com Alice. Que a maldição do sono que lançou na cidade, anos atrás, era somente isso, para fazer todos dormirem. Mas era nítido que ele sabia de algo, e depois dos Wincherter persuadirem o velho, ele contou, a contragosto, que isso poderia ter o dedo de Poppy.
- Vingança... – Waverly colocou as mãos na boca.
- Sim – Perry confirmou – Poppy, de alguma forma, descobriu o paradeiro de Alice e a amaldiçoou com esse crescimento acelerado...
- Ela vai continuar crescendo... – Waves tinhas os olhos marejados e olhava para a menina na varanda.
- Vai... Se em cinco anos ela tem a aparência de quase quatorze... Faça as contas.
As verdades nas palavras de Perry doeram e Wynonna voltou a olhar para a garota na varanda, que continuava lhe encarando.
- Como fazemos para quebrar a maldição? – Wynonna encarou Alice de volta.
- Uma vez que não se sabe o que foi utilizado para realizar o feitiço, por assim dizer, somente Poppy pode desfazer.
- E deixa eu adivinhar: ela está desaparecida.
Wynonna não fez uma pergunta, foi uma afirmação. E pelo silêncio de Perry, soube que estava certa.
***
Sentada em sua caminhonete, Wynonna observava o prédio que um dia considerou uma prisão e que agora, ironicamente, ela esperava que lhe ajudasse a manter sua filha segura.
Sua filha... A palavra ainda lhe soava estranha e outra vez sua mente foi até o dia em que se reencontraram, com a menina de feições desconhecidas lhe observando impassível da varanda de Gus.
O que será que ela estaria pensando, Wynonna se perguntou com frequência naquela tarde. As palavras de Perry não pareciam reais, mas eram tão verdadeiras quanto o ar que as faziam respirar, apesar de este ser invisível aos olhos.
O rapaz foi cuidadoso ao fazer as apresentações, apesar de ter dito, ainda no carro, que Alice sabia de toda a história. Ou seja, sua filha a conhecia. E isso aterrorizou Wynonna.
Não houve abraços, apertos de mão ou sorrisos complacentes. Eram apenas duas pessoas se olhando nos olhos pela primeira vez, não sabendo por onde iniciar uma convivência. E os límpidos olhos azuis de Alice intimidaram Wynonna.
A pessoa que procurou quebrar o iceberg que aquela residência se transformou foi Waverly e Wynonna agradeceu mentalmente a tudo que era mais sagrado por sua irmã ter ido com ela. Não saberia o que fazer se estivesse sozinha com a menina. Não que fosse saber o que fazer dali em diante...
A família, com auxílio de Perry, levou o corpo de Gus de volta a Purgatory, onde seria velada e sepultada ao lado de Curtis. Wynonna e Waverly concordaram que aquilo era o certo a se fazer.
E junto a elas, foi a jovem Alice, com sua mudança de cinco anos de vida cabendo em duas malas de rodinhas e algumas poucas caixas.
Após as celebrações fúnebres, Waverly pediu para o amigo dar uma volta com Alice pela cidade, lhe apresentando os lugares, uma vez que todos iam se reunir para decidirem o que fazer com a pequena e sua condição peculiar.
Alice, que considerava Perry como um irmão mais velho, não contestou, e vendo sua criança sair com o rapaz pela porta da frente da Homestead, Wynonna se permitiu chorar pela primeira vez.
- Wynonna... – Doc se aproximou e a abraçou.
O homem de bigode e nesse instante sem chapéu estava abalado. Era visível em seus olhos, que desta vez estavam vermelhos por estar emotivo e não por estar com sede de sangue. Ele afagava os fios castanhos de Wynonna, que não conseguia parar de derrubar as lágrimas que tanto segurou.
Waverly também estava nos braços de Nicole, sem saber se chorava pela irmã ou pela sobrinha. E a ruiva, enquanto acalentava a namorada, olhava para os amigos Jeremy e Robin, que estavam sentados à mesa da cozinha e aguardavam o melhor momento para começarem a debater e bolar algum plano para ajudar Alice.
Ninguém ousaria interromper aquele momento e por isso esperaram...
Depois do que pareceu horas, Wynonna se afastou de Doc e passou a mão pelo rosto e cabelo, observando os rostos conhecidos a sua volta. Waverly foi quem se aproximou, a abraçando de lado carinhosamente, gesto que a mais velha retribuiu com igual afeto.
- Então... O que faremos? – Falou por fim.
- Perry nos contou sobre a maldição e sobre Poppy. Acredito que temos que começar por aí – Jeremy se manifestou.
- E pelo que ele nos disse, temos que ser rápidos. Afinal, cinco anos se passaram – Robin completou a fala de Jeremy.
- Poppy pode estar em qualquer lugar – Nicole falou – Qualquer lugar mesmo... E o mundo é um pouco, hm, grande?
- Certo. Eu vou atrás de Poppy – Doc falou com a voz dura e decidida – Vou conversar com Perry, acredito que ele queria ajudar...
- Ele se importa muito com Alice – Waves informou – Com certeza vai ajudar. Ainda mais com os recursos que ele dispõe.
- Ótimo. Vou tentar entra em contato com os tais do Winchester também, algo me diz que eles podem ser úteis.
- Eu vou com você – Wynonna disse com a voz vacilante.
- Não vai não... – todos os presentes falaram ao mesmo tempo e a morena os encarou.
- Wynonna, Alice precisa de você – Doc a fitou com os olhos afiados.
- Ela precisa de você também, papai. – A Earp mais velha falou com mais rispidez do que pretendia.
- E eu com toda certeza ficaria, mas se eu não for atrás de Poppy, quem vai? – Holliday rebateu.
- Todos nós? – Nicole arriscou, e olhou para Jeremy e Robin, que agora estavam de pé.
Wynonna sentiu os olhos marejarem mais uma vez, mas agora o motivo era o fato de seus amigos estarem dispostos a ajudá-los, não importava o que pudesse acontecer.
- Wynonna, você tem que ficar. – Waverly fez a irmã olhá-la – Alice não falou uma palavra desde que veio com a gente, ela não dorme...
- Ela não dorme? – Jeremy arregalou os olhos.
- Sabe-se lá o que deve estar passando pela cabeça dela... – de repente, os olhos de Waverly demonstraram seus temores – Nonna, nós não sabemos nada da Alice. Só sabemos que ela tem cinco anos de vida e está em um corpo de uma adolescente. Isso não é normal.
Wynonna sentiu vontade de chorar outra vez.
- Perry nos contou que Alice tem uma inteligência acima do normal, mas não soube dizer se isso faz ou não parte da maldição. – Jeremy voltou a falar – De todo modo, acredito que isso ajudou no desenvolvimento de sua cognição e percepção do mundo, afinal, ele nos disse que ambos conversam normalmente, como se ela realmente fosse uma adolescente, por mais bizarro que possa parecer... Cara, eu adoraria fazer um teste de QI nela.
- Fique longe da minha filha, nerd! – Wynonna apontou para o rapaz, mas um esboço de sorriso se formou em seus lábios.
- Eu vou ficar com você – Waverly garantiu – É a minha sobrinha, por Deus! – Ela riu.
- Eu ficarei também. – Nicole fez coro, sorrindo para Waverly. Nunca que a deixaria sozinha.
- Sendo assim vocês dois – Doc apontou para Robin e Jeremy – Venham comigo. Vou precisar da nerdice de vocês.
- Okay? – Jeremy falou incerto.
- Vamos, temos que fazer as malas então – Robin puxou Jeremy pelo braço e depois que saíram, Doc se aproximou outra vez de Wynonna.
- Eu não voltarei enquanto não trouxer a Poppy. É uma promessa. – Ele deixou um beijo carinhoso na face da morena – Diga a Alice que eu amo e que quando eu voltar, vou ensiná-la a atirar.
***
Alice Earp estava sentada ao lado da sala da Diretora Price. Seus olhos estavam fechados e seus dedos da mão direita batiam incessantemente na madeira do banco. Usava um jeans e all star surrado, uma camiseta de uma banda de rock e tinha uma mochila colocada de qualquer maneira ao seu lado.
Wynonna congelou quando a viu. Ela estava vendo a si mesma naquele banco.
- Eu só não digo que virei minha mãe porque ela estava num hospital para loucos... – resmungou baixinho – Talvez minha próxima parada seja por lá.
Mãe e filha se encaram outra vez, e como de costume, não trocaram palavras. A secretária da diretoria informou que Wynonna poderia entrar, uma vez que estava sendo esperada, e assim ela o fez.
- Senhora Earp, que bom que veio – a diretora se levantou e estendeu a mão.
- Olá, diretora Price – a Earp a cumprimentou e após um aceno da outra, se sentou. Seus olhos percorreram o local. Estava diferente, e ao mesmo tempo familiar, o ambiente e ela riu internamente, perdendo as contas de quantas vezes estivera ali quando tinha a idade de Alice.
A idade de Alice?
- Lembranças? – A diretora perguntou divertida.
- Elas têm aparecido com muita frequência...
- Eu posso imaginar.
- É... Eu não era muito amigável com figuras de autoridade – confessou.
- O mesmo acontece com sua filha.
- Eu bem sei... O que ela fez de ruim dessa vez?
- Dependendo do ponto de vista, nada.
- Como é? – Wynonna não compreendeu.
- A não ser que você considere uma crise de choro compulsiva algo ruim.
- Eer... Eu...
- Nós consideramos que deve ser observado – a diretora pousou os braços por sobre a mesa – Senhora Earp, tem algo acontecendo em sua casa?
Wynonna bufou. Como explicar o inexplicável?
- Diretora Price, eu, nós contamos a você e a psicóloga sobre Alice...
- E sua situação extremamente peculiar – a outra continuou – Sim, temos ciência, tanto que Alice não está frequentando as aulas com os demais alunos.
- Não?
- Ela não te disse?
- Ela deveria ter me dito algo?
- Eu acho que vocês estão falhando na comunicação...
- Com certeza estamos – Wynonna admitiu e suspirou, baixando um pouco a cabeça – Palavras não tem sido bem o nosso forte.
- Pois deveriam. Assim, você estaria sabendo que sua filha está com um tutor particular aqui no colégio, que junto com nossa psicóloga, está verificando o nível de aprendizado de Alice.
- Eu jurava para você que estava com medo de ela não se adaptar aqui...
- Mas ela não está adaptada, Senhora Earp. – A mulher foi firme – Alice passou por um trauma e está vivendo uma situação totalmente fora do comum. Acredito que ela só venha para cá, por livre e espontânea vontade, pois conseguiu se sentir à vontade aqui, apesar de algumas circunstâncias.
- Eu sei que ela deveria estar numa maldita creche, mas não é minha culpa se ela está amaldiçoada! – Falou alto.
- As paredes tem ouvidos, Senhora Earp.
- Pare de me chamar de senhora!
- Okay... – a diretora maneou a cabeça.
- Desculpe... eu não queria... – Wynonna bufou outra vez e fechou os olhos – Eu estou tentando lidar da melhor forma que posso, está bem? Eu tentei conversar com ela, mas ela não fala comigo, por mais que eu tente...
- Ela fala conosco. E ficamos sabendo que ela conversa com a tia, Waverly.
- Como? Waverly conseguiu falar com ela?
- Foi o que ela nos disse hoje. Inclusive, quando a encontramos chorando em um dos vestiários, ela nos pediu que ligasse para Waverly e não para você.
Aquela informação partiu em mais pedaços o coração de Wynonna.
- Mas não conseguimos contato, então... – a diretora continuou.
- Eu preciso ir... – Wynonna falou baixo e se levantou.
- Wynonna... – a diretora se levantou ao mesmo tempo – Alice quer se conectar com você, mas não consegue...
- Como não?! – Wynonna exclamou e passou a mão pelo rosto cansado – Eu estou aqui!
- Está mesmo?
Antes que pudesse responder, a secretária abriu a porta apressadamente e seu rosto estava consternado.
- O que foi? – A diretora olhou para a colaboradora.
- A-Alice... Ela fugiu.
***
Uma das vantagens de se trabalhar no Departamento de Polícia, agora Wynonna admitia, era ter o poder de colocar um alerta para qualquer motivo. E foi exatamente o que ela fez ao sair em disparada do Colégio e entrar em sua caminhonete, que quis testar sua paciência e demorou a funcionar. Como resultado, o volante recebeu pancadas tão fortes que a Earp sabia que sua mão ficaria roxa.
A mulher cerrou o punho e encostou a cabeça no encosto do banco, buscando acalmar a respiração agitada. Fechou os olhos ao mesmo tempo em que as palavras da diretora ficavam em looping em sua cabeça.
“Alice passou por um trauma e não está adaptada... Alice conversa com a tia... Alice estava chorando...”
Só de imaginar a filha em lágrimas, as próprias escorreram pelo rosto de Wynonna, que procurou secá-las da melhor forma. A morena nunca imaginou passar por aquilo. De fato, desde que entregara a filha para Gus e passara por um período de quase luto, a Earp escondeu todos os sentimentos a respeito bem no fundo de seu ser, dentro de uma caixinha que ela fez questão de ocultar, afinal, ela fez o que fez para proteger Alice, sabendo que ela seria bem cuidada por Gus. E foi.
Contudo, certas coisas não saem como planejado. Toda bagunça que aconteceu em Purgatory despois do nascimento da menina que o diga. Entretanto, Wynonna não esperava ter que lidar com uma miniatura sua, em todos os sentidos.
Em seus sonhos, quando se permitia sonhar com Alice, a mulher imaginava uma criança que crescia na mesma velocidade que as outras, passando pelos mesmos perrengues que crianças de cinco anos passam...
- O que crianças de cinco anos passam? O que eu sei sobre isso? – Ela resmungou e seu celular tocou. Um nome conhecido apareceu – Fala, Nicole.
- Que papo é esse de um alerta para Alice? Wynonna, o que...
- Ela fugiu. Eu estava conversando com a diretora e ela simplesmente sumiu!
- Procuraram pelas propriedades do colégio? – A ruiva perguntou séria.
- Sim. E ela não está aqui! – Havia desespero em sua voz.
- Wynonna, calma, nós iremos encontra-la ok? – Nicole tentou tranquiliza-la – Avisou Waverly?
- Ainda não. Você sabia que ela e Alice conversam? – Wynonna deu outra partida no carro, que dessa vez funcionou. E notando que Nicole não respondeu, bufou – Mas é claro que você sabia.
- Wynonna... Eu...
- Depois nos falamos – foi dura na voz – Qualquer novidade me avise.
Não esperou pela resposta de Nicole e jogou o celular no banco do passageiro, saindo com o carro e começando sua busca, apesar de não fazer ideia de onde começar a procurar...
- Se ela sou eu, onde eu estaria se fosse ela?
Wynonna riu sem emoção. Sabia onde estaria. Na casa de algum amigo, bolando planos de como entrariam sem serem vistos em shows de rock, ou em bares de aparência duvidosa. Quanto mais motocicletas na entrada, melhor. Identidades falsas com certeza estariam envolvidas. Isso se ela não estivesse aos amassos com o tal amigo, depois de algumas doses.
Instantaneamente, a imagem de Alice fazendo o mesmo mexeu com ela, em diversos sentidos, principalmente aquele referente a proteção materna. Seguido do fato de que sua menina era apenas uma criança. E era mesmo, por tudo que era mais sagrado, ela era apenas uma criança.
“Por mais que tenha uma inteligência de gênio. Isso ela deve ter puxado da Waves...”, pensou e seu coração apertou. “O que eu fiz para ela não falar comigo? ”
Continuou a dirigir pela cidade, seus olhos atentos a qualquer sinal de reconhecimento, mas nada aconteceu, o que só aumentou sua angustia. Aos poucos a luz do dia foi dando espaço para a noite fazer seu trabalho e quando achou que não receberia notícias, seu celular tocou outra vez. E o nome do visor a surpreendeu de muitas formas.
- Kate? – Disse incerta.
- Olá, Wynonna. – Kate disse polida.
- Você ligou porquê...
- Estou tenho algo que possa te interessar.
- O que? – O coração de Wynonna saltou – Alice? Alice está com você?
- Sim.
Wynonna não pensou duas vezes em acelerar o carro em direção a residência dos Gardner, que ficava em um lugar afastado. O típico lugar que as pessoas gostam de ir para se isolar e não serem encontrados. Pelo menos não tão cedo.
“Porque não pensei nisso antes? ” – Ela se repreendia. “Talvez por nunca imaginar que Alice poderia se embrenhar numa floresta e acabar na casa da Mercedes! ”
Chegou em tempo recorde na propriedade, que estava com as luzes internas acesas. Seria um cenário bonito de se admirar se não estivesse tão aflita, e agora tal sentimento havia dobrado, uma vez que Alice estava com Kate.
Não confiava em Kate. Mas ironicamente confiava em partes em Mercedes. Vai entender. E antes que pudesse bater à porta, a mesma se abriu, revelando a figura da vampira, que exibia um sorriso pomposo.
- Eu não preciso te convidar para entrar – Kate falou simples e Wynonna marchou para dentro da casa.
- Onde está minha filha? – Olhou para os lados e em seguida para a mulher.
- Na sala.
O caminho não precisou ser indicado e a passos largos, Wynonna caminhou até o cômodo, que estava com uma luz tênue e extremamente agradável. Encontrou Alice deitada no sofá, com uma manta a cobrindo, mas foram os olhos fechados da menina que a assustou.
- O que você fez com ela? – A Earp vociferou, correndo até o sofá e ajoelhando ao lado da menina, passando a mão por seu rosto e observando atenta seu pescoço.
- Nada, Earp. Ela só está dormindo. – Kate revirou os olhos.
- Kate, ela não dorme! – Wynonna se levantou e estava prestes a partir para cima de Kate quando uma terceira voz apareceu no cômodo.
- Calma ai, cowgirl! – Mercedes fez Wynonna congelar no meio do caminho – Sua cria está mesmo dormindo. Sou testemunha.
- Mercedes, Alice não dorme e o que você está fazendo aqui? Pensei que tinha ido embora... – ela estava confusa.
- Eu fui, mas voltei – a ruiva explicou – Aí eu fui novamente, retornei outra vez – ela foi até o aparador onde ficavam as bebidas e pegou três copos – Acho que aquele ditado que o bom filho a casa torna cai bem em mim...
- E você deixou ela ficar aqui? Imaginei que iria desconvidá-la para sua casa? – A Earp se referiu a Kate, que agora pegava o copo de whisky que Mercedes lhe serviu.
- Mercedes não pode me desconvidar, uma vez que quando encontrei a casa, ela estava vazia. Pelas regras, eu não fiz nada de errado – Kate falou – Quantas vezes preciso explicar isso?
- E eu acabei me acostumando com a presença vampiresca de Kate – Mercedes disse – Aceita? – Ela perguntou para Wynonna e apontou para o Whisky.
- Um macaco recusa banana?
- Essa é a minha garota. – A ruiva sorriu e serviu uma quantidade generosa para Wynonna e lhe entregou o copo e serviu-se em seguida.
- Agora podem me explicar o que aconteceu? – A morena perguntou ao sentar-se ao lado de Alice, que continuava dormindo pesadamente.
- Kate precisou usar de seus encantos para fazê-la dormir, Nonna – Mercedes informou.
Ao ouvir aquela informação, a Earp agradeceu por ter bebida alcoólica em suas mãos.
- O que foi bem difícil, diga-se de passagem – Kate continuou – A maldição que está nela é poderosa.
- Nem me fale... – Wynonna bebeu um gole generoso – Mas como ela veio parar aqui.
- Eu a encontrei na estrada – Mercedes contou, sentando-se no outro sofá – Estava chorosa e agitada. De início ficou receosa, mas aceitou vir comigo quando contei que lhe conhecia.
- Sua filha ao mesmo tempo que pode ser inteligente para algumas coisas, é inocente para outras, Earp – Kate comentou sabiamente – Aceitou carona de uma desconhecida, mas assim que contei que era uma vampira, pediu para eu mordê-la e assim tentar congelar a maldição.
- ELA O QUE? – O copo que Wynonna segurava foi ao chão.
- Isso mesmo que ouviu – foi Mercedes quem falou – A não tão pequena Earp pediu para Kate mordê-la, e usou como justificativa o fato de que não envelheceria mais, o que a faria ter mais tempo de vida, coisa que ela alegou não possuir.
Mais uma vez, Wynonna congelou e sentiu o coração quebrar. Quantas vezes um coração poderia ser quebrado por causa de uma pessoa?, ela pensava. Engoliu em seco, segurando a vontade que seus olhos sentiam de marejar outra vez.
“Inferno! ”. Odiava o fato de estar emotiva. Precisava ser racional. Sua filha precisava dela inteira... “Que piada...”
- Alice se desesperou quando neguei, dizendo que eu era sua única chance – Kate revelou – Nada me restou a não ser fazê-la dormir, o que foi complicado. Talvez ela fique adormecida por algumas longas horas. Ou dias. Não sei dizer qual efeito terá no organismo dela.
A Earp mais velha olhava a bebida escorrer pelo chão, ainda sem saber como processar aquela nova informação. Alice tinha total consciência de que teria um envelhecimento precoce e estava prestes a tomar atitudes desesperadas para viver por mais tempo.
- Doc ainda está à procura de Poppy, certo? – Mercedes perguntou e Wynonna confirmou com a cabeça.
- Doc tem ótimas habilidades de rastreio, vamos torcer para que ele a encontre. – Kate falou – Sem contar que eu não quero ser a responsável por transformar a filha de Doc Holliday. Isso é uma decisão que cabe somente a vocês dois – Kate se referiu também a Wynonna.
- O que quer dizer? – Ela olhou para Kate. – Que Alice deve ser mordida?
- Nunca excluía a possibilidade. – Kate falou com seriedade – Caso Poppy não seja encontrada, um plano B deve existir.
***
Menos de uma hora depois, Wynonna estava retornando para casa, com Waverly dirigindo sua camionete e a morena no banco do passageiro, segurando uma Alice ainda completamente apagada ao seu lado. A frente, Nicole dirigia um dos carros da delegacia, uma vez que a ruiva quem trouxera a Earp mais nova para buscar as outras duas na casa das Gardner.
O silêncio entre as irmãs era incomum e isso era estranho para elas. Acostumaram-se tantos com as loucuras dos últimos anos, sempre discutindo, planejando ou simplesmente conversando sobre qualquer coisa, que agora, quando tudo parecia “normal”, as palavras faltavam.
Mas no fundo elas sabiam o motivo da quietude: estavam preocupadas com Alice. E era uma preocupação sem precedentes. Sem mencionar o sentimento de culpa que as assolava, tanto a mãe como a tia, porque pensavam que tinham protegido a pequena a mandando para longe que era a insanidade de Purgatory, porém, parecia que coisas ruins sempre perseguiriam o sobrenome delas, não importa onde estivessem.
Ao chegarem em casa, Nicole as ajudou a levar Alice para o antigo quarto de Waverly. Assim que a sobrinha chegou, a jovem disse que a menina poderia se instalar em seu quarto, o que fez com que Waves quase que automaticamente, se mudasse para a residência de Nicole, ato que a ruiva intimamente adorou.
As três observaram a Earp caçula deitada na cama por longos minutos, e nesse pequeno espaço de tempo, Wynonna se pôs a observar o cômodo.
O lugar ainda continha os traços de Waverly, entretanto, era possível ver a personalidade da nova moradora aqui e ali, como tênis e peças de roupas jogadas, porta retratos da pequena com Gus e Perry e materiais de estudo e livros. Muitos livros, diga-se de passagem. E esse detalhe intrigou Wynonna.
- Desde quando temos tantos livros? – A mais velha indagou.
- Não temos – Waverly respondeu – São da biblioteca pública. Alice os pegou.
- E desde quando Alice tem cadastro na biblioteca pública?
- Desde que ela chegou?
As irmãs Earp se entreolharam e Nicole pigarreou antes de falar.
- Acho melhor conversarmos lá embaixo...
As mulheres saíram do quarto e antes de fechar a porta, Wynonna deu mais uma olhada em sua filha, um tanto quanto receosa se deveria ou não deixa-la sozinha. Internamente, estava com medo dela acordar e fugir novamente. Balançou a cabeça e procurou não pensar no assunto. Desceu as escadas e encontrou Waverly e Nicole na cozinha, ambas de braços cruzados.
- Você precisa conversar com ela, Wynonna. – Waverly disse assim que viu a irmã se aproximar.
- Como, Waverly? Ela não fala comigo! – Wynonna falou alto, mas ela pretendia isso.
- Ela é sua filha! Ela precisa de você!
- Eu sei! Mas eu não sei como conversar com ela, ou como me aproximar! – A mais velha passava as mãos pelo rosto, impaciente – Eu juro que tentei quando ela chegou, mas ela não me respondia, ou saia quando eu estava falando e... Eu não sabia se tinha o direito ou não de insistir, de ser invasiva, de ir atrás dela, de obrigá-la a fazer algo ou de qualquer coisa que mães fazem porque eu não sei como ser mãe!
Waverly e Nicole a observavam e tinham o olham compadecido. Sabiam pelo que Wynonna estavam passando e compartilhavam do mesmo sentimento, afinal, as duas foram as que entregaram a pequena para Perry, sentiam-se tão responsáveis quanto Wynonna.
- Eu não sei o que você fez, Waverly, para conseguir conversar com ela, mas por tudo que é mais sagrado, me diga... – a mais velha olhou para a mais nova, com o olhar suplicante e agora transbordando em lágrimas – Eu não vou conseguir...
- É claro que você vai, Wynonna... – Waves tomou a irmã nos braços, a apertando o mais forte que conseguia – Todas nós estamos preocupadas com ela, mas o que aconteceu é que cada uma de nós reagiu de uma forma... e você...
- Você congelou, Wynonna... – foi Nicole quem respondeu. – Eu não estava junto quando você e Alice se viram pela primeira vez, mas pelo que Waves me contou, você congelou...
- Eu não... – a mais velha se afastou ligeiramente dos braços da irmã.
- Você travou, Nonna... – Waves disse com carinho – E quem pode te recriminar por isso?
- Eu não podia... – as palavras não saíram e Wynonna sentiu os ombros pesarem uma tonelada.
- Não podia, mas aconteceu... – Waverly puxou uma cadeira e fez a irmã se sentar, fazendo o mesmo sem seguida – Não está fácil para ninguém, Nonna...
- Eu não imaginava que ia ser tão complicado... Digo... Eu não imaginava nada, eu mandei Alice embora e não pude pensar em como seria... E agora – ela respirou fundo – Porque tem que acontecer tanta merda na nossa família? Não que Alice seja uma merda, Deus... – ela se corrigiu e fechou os olhos – Mas ela... Era para ela ter somente cinco anos e tropeçar em cima do estrume de um cavalo e me deixar possessa por ter que lavar uma roupa nojenta.
- Wynonna, você não ia lavar a roupa dela nesse caso, você ia jogar fora.
A observação de Nicole as fez rir. A ruiva se sentou numa cadeira ao lado de Wynonna, que tentava limpar o rosto molhado.
- Talvez tenha sido aura angelical de Waverly que tenha feito Alice se sentir pronta para conversar com ela, mesmo que aos poucos – Nicole falou.
- Você está me dizendo que minha aura é infernal, ruiva? – Wynonna a olhou de cara feia.
- Não, mas se a carapuça serve... – provocou e levou um tapa tanto de Wynonna quanto de Waverly, mas estes não foram violentos.
- O que eu quero dizer é que você, Wynonna, ficou e ainda está emocionalmente instável. – Nicole se corrigiu.
- Palavras bonitas para falar que eu estou uma bagunça...
- Alice também está uma bagunça, Nonna... – Waverly informou – E no fundo você sabe disso.
- E como é que eu posso ajudar ela estando assim? – Os olhos de Wynonna pareciam suplicar por respostas concretas mais uma vez.
- Isso é algo que você e ela terão que descobrir juntas...
- E com muita paciência... – Nicole completou.
- Deus, vocês estão completando frases uma da outra... – Wynonna balançou a cabeça incrédula.
As duas sorriram e Nicole tomou a palavra.
- Quando eu disse pela manhã que você não estava sozinha, eu falei sério Wynonna. Você poderia ter pedido nossa ajuda a qualquer momento.
- Por um momento imaginei que pudesse lida sozinha... Digo, Alice é a minha responsabilidade. – A morena argumentou.
- O minha virou nossa, Nonna... – Waves pegou as mãos de Wynonna na sua. – Sempre foi, na verdade.
A mais velha deu um sorriso fraco, observando sua mão unida as de Waverly e soube que talvez nunca tivesse palavras o suficiente para agradecer por tudo que ela fez e que com certeza ainda iria fazer pela sobrinha.
- Wynonna, nesses três meses que Alice está conosco, vocês realmente nunca conversaram? – A ruiva perguntou.
- Quase nada, Nicole... – ela respondeu tristonha – Se eu congelei, como vocês falaram, então talvez ela tenha se sentindo, sei lá, receosa de falar comigo... Como se tivesse...
- Medo. – Waverly respondeu...
- Medo do que? – A morena olhou a irmã.
- De você mandá-la embora... Ou de você ir embora... – Waves disse baixo, apertando suas mãos.
- Waverly, eu nunca... Eu nunca faria isso de novo... Eu...
- E foi o que dissemos para ela, Wynonna – Nicole respondeu – Waverly sempre diz e eu reforcei quando a encontrei naquela festa semana passada...
- O que aconteceu naquela festa, a propósito? – A Earp virou-se para Haught – Você disse que a encontrou lá, mas eu fiquei tão fora de mim...
- Alice nos contou que você ficou nervosa – Waverly falou.
- Como não ficar?! – Wynonna exclamou alto de novo – Ela não tem maturidade suficiente... Ou tem, eu não sei!
- Quando a encontrei na festa, ela estava bem – Nicole começou a falar – Me disse que estava conversando com algumas pessoas do colégio, que eles a convidaram e ela foi... De qualquer forma ela estava bem, apesar de ligeiramente deslocada.
- Não é para menos, vocês fizeram uma batida policial, Nic – Waverly ponderou.
- E eu nunca ia imaginar que ela estaria lá – a ruiva se defendeu – Mas assim que a vi, liguei para vocês. Ela estava bem... Não deveria estar lá, mas estava bem. E no caminho para casa, ela falou que foi até a festa para tentar fazer amigos, pois tinha medo de perder a gente...
Wynonna sentiu um bolo subir pela sua garganta e suas entranhas se reviraram como se algo queimasse dentro dela. Sua fala não saia, mas ela soube que tinha que fazer algo para que sua filha visse que ela não iria a lugar nenhum.
- O que Alice foi fazer na casa da Mercedes? – Waverly questionou.
Não haviam conversado sobre o assunto ainda e Wynonna relatou para as mulheres ao seu lado o que se passou na residência dos Gardner. Seu peitou doeu ao recordar das palavras de Kate, mas tinha ciência de que continham certas verdades... Era preciso ter um plano, para caso o plano A não funcionasse.
- Alice pediu para Kate mordê-la?
Wynonna confirmou para Waverly, que agora tinha as mãos na boca.
- Céus... – foi o que Nicole conseguiu dizer.
- E a falta de notícias de Doc e dos meninos... – a mais nova começou.
- Não é nada animadora. – A ruiva completou – Há quantos dias estamos sem novidades?
- Cinco. – Wynonna respondeu sem emoção. – Amanhã vou tentar falar com o Doc outra vez...
- Vocês também não estão se falando muito, não é?! – A pergunta de Waverly estava mais para afirmação.
Wynonna não respondeu, mas não era necessário, e com um suspiro, ela passou o rosto pelas mãos mais uma vez e olhou para a irmã e cunhada.
- Obrigada...
- Não por isso, Nonna... – Waves passou seus braços ao redor da irmã e deixou um beijo em seu rosto.
- Vai ficar tudo bem – Nicole colocou a mão no ombro da cunhada e o apertou.
- É... O que Alice conversa com vocês? – A Earp indagou com uma ponta de esperança na voz. – Para tentar começar de novo.
- Bem... Por onde começar... – Waverly sorriu fraco – Ela é incrível, Wynonna.
- Claro que Alice é incrível, foi eu que fiz! – A mãe sorriu orgulhosa.
- E aí está a Wynonna que eu conheço – Nicole riu.
- Eu acho que a graça maior vai ser você descobrir um pouco mais da Alice a cada dia, Nonna. Comece aos poucos, e mesmo que ela não se sinta segura de se abrir com você, não desista – Waverly aconselhou.
- Ou seja, mesmo que possa parecer que você está falando com as paredes, não desista – Nicole brincou.
- Mas falar com adolescentes não é isso?
Waverly e Nicole riram e Wynonna as acompanhou.
- Ela pode ter agido um pouco igual a você, mas ela não é você, Nonna. – Waves falou.
- Waves está sutilmente tentando dizer que Alice é mais esperta que você. – Nicole alfinetou. – Deve ter puxado o Doc nessa parte.
- Hey! A inteligência e esperteza ela puxou de mim, okay! – Waverly cruzou os braços
- É claro, babe, eu mencionei o Doc para provocar sua irmã mesmo. – Nicole admitiu e Wynonna rolou os olhos.
- Aquilo que Perry disse a Jeremy sobre a inteligência dela é verifico e surreal. – Waverly contou – A mente dela evoluiu de um jeito inexplicável e eu realmente acho válido ser feito um teste de QI nela qualquer dia.
- Eu não quero que minha filha seja testada... – Nonna falou na defensiva.
- Mas Wynonna, talvez isso seja necessário. – Nicole falou com cuidado – Precisamos saber como ela está de saúde. Fazer exames, saber quantos anos o corpo dela acha que ela tem, realizar projeções de crescimento...
- Será que ela já menstrua? – Waverly se perguntou.
- Oh Deus... – Wynonna escondeu o rosto com as mãos.
- Melhor irmos com calma... – Nicole falou – Mas pense nisso, Wynonna. Por mais que eu também tenha os dois pés atrás com a Kate, ela está certa, precisamos de um plano por aqui também...
- Okay... – a voz de Wynonna saiu fraca – Mas me deixem tentar falar com ela primeiro...
- Claro. – A ruiva esboçou um sorriso.
- E mesmo você achando que não – Waverly deixou outro beijo na face da irmã – Eu acredito que você vai ser tudo que Alice precisa, Mama Earp.
