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Outubro de 2007
— Como é esse negócio? Vocês vão ficar filmando a gente o tempo inteiro? — questionou Jongin, e a câmera apenas deslocou-se para cima e para baixo, e o rapaz entendeu a resposta. — Ok, eu não sei bem o que vocês querem que eu diga.
Aquilo podia parecer um projeto totalmente sem propósito e… Ok, realmente era algo um tanto inútil. Mas aparentemente uma emissora tinha interesse em documentar por alguns anos a vida de pessoas anônimas em uma empresa não muito grande, para depois exibir como uma série de televisão. Talvez fosse algum tipo de experimento social, quem sabe?
— Fale sobre como é a empresa, como é o trabalho, essas coisas... — Jongdae, o cinematografista, tinha um tom gentil, e a sua absurda habilidade de fazer qualquer um se sentir confortável, mesmo diante de uma câmera que vai documentar a sua vida por alguns anos, era extremamente valiosa. — O que você quiser.
— Ah, tudo bem... — Jongin suspirou e então riu, um pouco nervoso. — Bom, essa é a filial coreana da Dunder Mifflin... É... Ela abriu as portas em 2002, e eu sou o gerente! Nosso trabalho é vender papel, nossos vendedores procuram gráficas, escolas, algumas... coisas do governo... — Ele não sabia exatamente que palavra usar, estava um pouco tenso com a ideia de ser filmado e ter sua vida exposta para o mundo inteiro depois de anos. E se as pessoas o odiassem? Por Deus, ele morria de medo do fantasma do julgamento. — E então eles vendem papel. De vários tipos, tamanhos, cores, e... pra ser honesto, ser gerente de uma empresa que vende papel não era bem o que eu imaginava para a minha vida, mas eles pagam bem, e eu já fico feliz por não ter que trabalhar com a parte da venda, porque só de pensar em decorar até a espessura do papel me faz querer enfiar a cara dentro da privada. — Riu, dessa vez sem tanto nervosismo, estava começando a se soltar um pouquinho mais. — Brincadeiras à parte, eu gosto de trabalhar aqui.
Não, não gostava.
Ser gerente de uma empresa que vende papel definitivamente não era o que ele queria para sua vida. Sempre sonhou em ser dançarino, inclusive fez aulas de ballet até os seus dezessete anos, mas seu pai não ficou muito contente quando ele disse que queria se inscrever em uma academia de dança quando terminou a escola... Na verdade, não ficou nada contente. Ele disse que não pagaria por isso, mas que se Jongin quisesse cursar direito, administração, medicina, ou qualquer coisa assim, ele bancaria os estudos do filho. O rapaz guardava uma pequena mágoa do pai por isso, mas até entendia o motivo para ele agir com tamanha rigidez em relação à sua carreira: era advogado, assim como o avô de Jongin, então era até compreensível que esperasse que seu filho seguisse a mesma profissão — embora não plausível.
E Jongin até tentou pagar sozinho para estudar o que realmente queria, mas não aguentou dois meses a rotina de trabalhar à tarde e à noite — até tarde — servindo café para gente rica e estúpida, e no outro dia ter que acordar cedinho para dançar, por mais ou menos quatro horas. Se ele tinha cinco horas de sono em uma noite, já era um grande luxo. Jongin percebeu que não tinha mais condições de continuar no que gostava, então largou a academia e resolveu estudar administração. Odiava aquele curso, assim como odiaria qualquer outro dos que seu pai se dispunha a pagar, mas se formou, e até que com certo destaque nas notas, o que lhe garantiu ótimas oportunidades de emprego.
Agora, ali estava ele, sendo gerente de uma empresa que vende papel. Não detestava seu emprego, mas também não gostava do que fazia. Sentia sua vida estagnada, e era deprimente o fato de que esse era o retrato da tal vida adulta. Basicamente, seus dias se resumiam a ler e escrever relatórios, depois reescrever os que ficaram ruins, ou mandar que o relatório péssimo que recebeu fosse refeito. Tinha que analisar o desempenho dos funcionários, parabenizar aqueles que estavam indo bem, chamar a atenção daqueles que não estavam indo tão bem assim. Devia também liderar reuniões, estabelecer metas e prazos, repassar ordens da matriz, cuidar de algumas coisinhas aqui e ali... É, era realmente entediante. Mas, pelo menos, tinha uma sala apenas sua, com um computador para ver vídeos de gatos se assustando com pepinos e jogar Paciência.
— O que mais posso dizer sobre essa empresa...? — sussurrou, como uma pergunta para si mesmo.
Ele olhou através das persianas parcialmente abertas e viu todos os funcionários concentrados em suas tarefas, então sentiu aquele típico frio na espinha. Engoliu em seco e voltou seu olhar para a câmera. Não seria capaz de manter o personagem do administrador virtuoso e completamente desenvolvido emocionalmente, admirado por todo e qualquer coach comportamental e todo autor de livros de como trabalhar em equipe ou ser um bom líder. Jongin tinha um pequeno probleminha chamado... Insegurança. Em sua cabeça, estava certo de que não era respeitado por seus funcionários; porque não tentavam muita aproximação, e sempre se calavam quando ele estava por perto. Isso sempre deixava o Kim em pânico, mas ele até que era bom em esconder essa frustração, então se calava, fazia o seu trabalho, e falava com os funcionários apenas quando realmente era necessário.
Com seus vinte e sete anos na cara, tinha a timidez de um garoto de quinze.
— O trabalho aqui é tranquilo, mas... — Observou os arredores, preocupado com a possibilidade de alguém estar atento à conversa, ou tentando decifrar o que era dito. — Olha, eu acho que eles não gostam muito de mim.
— Eles quem? — Jongdae questionou, genuinamente confuso.
— Os funcionários... Menos Baekhyun. Eu tenho certeza de que eles me acham incompetente, e que gostariam que outra pessoa assumisse a gerência.
— Ah, sei... Agora... Fale um pouquinho sobre o que você tem programado para o dia de hoje, que tal?
— Eu... — Jongin encarou as anotações que tinha na página daquele dia na agenda. — Hm, não vou fazer muita coisa hoje, na verdade, eu só vou entrevistar dois candidatos para a vaga de recepcionista, pois Baekhyun, nosso antigo recepcionista, será promovido a vendedor... Hongseok, que ocupava a vaga, pediu demissão após um pequeno acidente. Nada preocupante, sequer vale ser comentado. — Fingiu um sorriso, era bom nisso.
(...)
— A demissão de Hongseok? — Baekhyun riu. Por sorte, estavam na sala de reuniões, assim os colegas do escritório não iriam ouvir o seu depoimento particular. Ele apenas estava confuso por não saber se tinha que olhar para a câmera ou para Jongdae, o cara da câmera. Na dúvida, olhava para a câmera. — Jongin e Sehun não gostam muito que a gente fique falando sobre isso, porque pode chegar à matriz, lá nos Estados Unidos, e isso pode dar uma merda muito grande. É o que eles dizem, mas eu acho que isso é bobagem e exagero deles, eu sei o que rolou.
— Você pode contar o que aconteceu?
— Claro, desde que você não diga a eles... — O baixinho se ajeitou na cadeira. — O que aconteceu foi o seguinte: alguém deixou um bilhete anônimo na mesa do RH, e, com RH, quero dizer Sehun, aquele cara forte e bonito. Esse bilhete dizia que Hongseok tinha uma ervinha, maconha, na gaveta da mesa dele. Então Sehun e Jongin foram verificar, e realmente tinha. Não era algo que você vai dizer “oh, meu Deus, como é um traficante”, não, era bem pouquinho, só um pacotinho. Mas foi o suficiente para dar merda. Muita merda, sabe?
— O que foi feito a respeito disso?
— Bom, Hongseok insistia que aquilo não era dele, e eu genuinamente acredito que não era mesmo, porque ele não fuma maconha. — Baekhyun deu de ombros. — Ele cheira cocaína, mas isso não vem ao caso. O ponto é que aquilo estava na gaveta dele, então o pessoal meio que não tinha como acreditar que não era dele, até porque todo mundo já achava que ele era sem noção pra caralho, a ponto de levar maconha para o escritório. E, vale dizer, ninguém ali conhecia maconha o suficiente para dizer se aquilo era maconha ou não. Enfim, Jongin e Sehun combinaram com ele que, se ele pedisse demissão, a polícia não seria envolvida na história. E foi assim que Hongseok foi embora mandando todo mundo tomar no cu, foi até que bem engraçado na hora.
Baekhyun olhou para os dois lados, tinha que controlar a vontade de gargalhar. Por isso, prendia o lábio inferior entre os dentes, lembrando muito uma criança de sete anos que se mijava rindo porque tinha escrito bunda no caderno do colega, e a professora viu e puniu o menino inocente, vítima de um humor perverso. Mas a criança achava aquilo verdadeiramente satisfatório, porque o outro menino tinha roubado o seu lanche diversas vezes e ficava chamando a sua mãe de vadia. Entenda a comparação como quiser, detalhes são totalmente dispensáveis, e não há qualquer prova contra o Byun. Nenhuma mesmo, pode acreditar.
— Talvez fosse só orégano naquele saquinho... quem sabe? — Balançou as pernas, então deixou um pouco da risada escapar. — Se eu tive algo a ver com isso? Absolutamente não! — Seu sorriso cínico denunciava, propositalmente, aquilo que ele escondia com as palavras. — Mas eu fico muito feliz, aquele cara era um porre, vivia me infernizando porque eu sou boiola. E, de qualquer forma, eu tenho certeza de que ele vai achar um emprego melhor do que isso aqui. Talvez ele se dê bem vendendo seguro de carro, cursos de coaching... Ou talvez até vendendo cartão de crédito clonado, ele dava dessas de vez em quando.
— Boiola...? — Jongdae questionou, achando inusitada a escolha de palavras. Mas, mais inusitado do que isso, foi ele ter se atentado ao boiola mais do que na acusação de que Hongseok, supostamente, clonava cartões de crédito. Entretanto, podemos presumir que isso é efeito da conduta de Baekhyun, que meio que retirava um pouco da credibilidade daquilo que falava sobre as acusações que fazia sobre quem não gostava.
— É, cara, eu sou gay, eu namoro o Sehun, do RH. — Sorriu bobo. — Sehun, meu amor, se você estiver assistindo isso, eu te amo!
— Ele não vai ver isso — Jongdae esclareceu.
— Não, é? — Foi possível ver como o loirinho murchou ao ouvir aquilo.
— Não, só daqui a alguns anos...
— Então, Sehun do futuro, aqui é o seu namorado do passado. Eu espero que você ainda me ame! — Ele juntou as mãos em um coração. — Enfim, Jaehyun era extremamente filho da puta comigo e Sehun, especialmente comigo, porque Sehun trabalha em outra parte do escritório, então eu era quem ficava mais próximo. Além de jogar bolinhas de papel em mim e ligar para o telefone da recepção a cada quinze minutos para desligar assim que eu atendesse, jogava o meu almoço no lixo de vez em quando e me fazia algumas perguntas bem ridículas como “Teu pai tem terra?” ou “Tifu, tifu, tifu, quantos tifu deu?”. Também teve aquela vez que ele mandou um e-mail para todo mundo do escritório falando sobre como a sodomia era a origem de todos os males do mundo e blá, blá, blá... Às vezes eu acho que ele tem um QI menor que o de uma mandioca.
— E Jongin não estava ciente disso? O que ele fez em relação ao e-mail?
— Ah, o pessoal não manda esses e-mails pra ele, só coisas relacionadas ao trabalho. E ele também não sai muito da sala dele, então não via o que acontecia. Mas agora tá tudo certo, aquele maluco tá bem longe daqui.
— Por que não mandam esses e-mails para Jongin? Fale um pouquinho sobre isso.
— Então, meu chapa, Jongin mora na frente da casa dos meus pais, e por acaso eu ainda moro no porão dos meus pais, mas isso não importa, e eu nem sei por que eu tô falando disso. — Seu rosto ficou vermelho assim que notou que expôs aquilo que considerava ser o seu fracasso diante do sistema capitalista. — O que eu quero dizer é que... Eu conheço bem Jongin, posso dizer que sou o único amigo dele aqui nesse escritório. E, caramba, ele é tão tímido que não gosta de falar com as pessoas porque acha que todo mundo odeia ele, ou alguma coisa assim, e eu já falei pra ele relaxar, que ninguém tem motivo pra não gostar dele. O que acontece, na verdade, é bem o contrário. Por ele não falar muito e ficar trancado na sala dele o dia inteiro, o pessoal do escritório acha ele bem intimidante... porque o cara é muito reservado. Eu não diria que as pessoas têm medo dele, mas que o respeitam muito, porque a sensação que ele passa é de que ele leva o trabalho extremamente a sério, e por isso não se relaciona muito dentro do escritório.
— Então você conhece seu chefe melhor do que os seus colegas?
— Claro que sim, e posso dizer que ele é um docinho! — Deu risada. — Só não sabe demonstrar isso da melhor forma.
(...)
Jongin encarava a câmera como um pedido de socorro, com o queixo apoiado sobre a sua mão, e alguns suspiros cansados escapando de suas narinas. Yifan não calava a boca, e a cada palavra do chinês a vontade de morrer crescia dentro de Jongin. Às vezes ele repensava muito as escolhas da sua vida. Uma delas era a de ter cogitado ser uma boa ideia deixar que Yifan fizesse aquela entrevista para a vaga de recepcionista. Olha, ele não era alguém ruim, apenas alguém de competência genuinamente questionável. Ele trabalhava no depósito, e lá já era conhecido por matar tempo jogando basquete, ou dizendo que ia contar caixas, mas esquecia de fazer isso e, no final do expediente, dizia um número totalmente aleatório somente para não levar esporro por não ter trabalhado. Mas, de qualquer forma, tomava esporro dos colegas por foder toda a organização e por ter que fazer todo mundo trabalhar em dobro para corrigir sua cagada.
As maravilhas do trabalho em equipe.
Mas, agora que tinham iniciado a entrevista, Jongin apenas terminaria de fazer as perguntas que a matriz o obrigava a fazer, e mandaria Yifan de volta para o depósito. À noite, a escolha de sua vida que questionaria seria a de ter pensado que seria bom trabalhar como gerente. Talvez devesse ter escolhido a contabilidade, assim teria que lidar apenas com números o dia inteiro, não pessoas. Pessoas são estranhas, falam merda, causam dor de cabeça e surtos de ódio. Números apenas causam dor de cabeça e surtos de ódio, o que já era bem melhor do que trabalhar com pessoas.
— O que você faria, Yifan, se acabasse se envolvendo em um conflito com algum colega do escritório?
— Ótima pergunta, chefe! Pois bem, o escritório não é lugar para conflitos, desavenças pessoais devem ficar da porta para fora... — Ele até que estava indo bem naquela resposta, o que fez Jongin endireitar a postura na cadeira para prestar mais atenção. — Por isso, minha forma de resolver um conflito com um colega de trabalho, seria marcar um lugar e hora, depois do expediente, para decidir tudo na porrada. Proibido armas, inclusive armas brancas, apenas a força do ódio e a sede por vingança.
Jongin fechou os olhos e massageou as têmporas. Era tarde demais para escolher ignorar o despertador e ficar na cama, ao invés de se levantar para ir trabalhar? Um lado positivo daquela entrevista, no entanto, era bem nítido: Wu Yifan, com certeza, era alguém daquela empresa com quem Jongin não queria ter um conflito. Ele preferiu ignorar aquelas perguntas sobre comportamento em grupo e toda aquela bobagem que parecia ter sido roteirizada por um coach, e pulou direto para as perguntas mais técnicas. Esperava mesmo que, naquela parte, Yifan mostrasse algum talento, porque, se o outro candidato fosse pior do que ele, Jongin não sabia o que iria fazer.
— Yifan, você sabe usar uma impressora?
— A impressora é que tem que aprender a me usar — respondeu, com um olhar de quem realmente havia dominado aquela conversa. Jongin entrou em pânico.
— Sabe enviar um fax?
— O que é isso?
— Deus... — resmungou. — Você sabe pelo menos transferir ligações?
— É bem simples, chefe! O sujeito liga aqui pra empresa, então eu, o recepcionista foda, atendo. — Ele representou isso teatralmente, usando o telefone que Jongin tinha em sua mesa. — “Ah, quer falar com o chefe? Beleza, meu amigo!” Então eu afasto o telefone assim... E chamo o senhor. — Yifan afastou o telefone e cobriu a parte de baixo com a mão. — “Ô, chefe, telefone!”
Jongin teve que tapar os próprios ouvidos com o berro que o rapaz deu, e quase quis chorar de frustração.
— Yifan, você sabe que eu tenho um telefone aqui por um motivo... Para que o recepcionista não tenha que gritar toda vez que alguém liga para falar comigo, apenas transfere a chamada para o meu telefone, entende?
— Eu acho isso muito mais trabalhoso. — Como quem não queria nada, apoiou os pés sobre a mesa do chefe. — Por que o senhor não pergunta se eu sei mandar e-mail, hein?
— É claro que eu sei que você sabe enviar e-mails, Yifan. Todos os dias você lota a minha caixa de entrada com correntes sobre uma tal de Samara que morreu no arame farpado e que vai matar a minha mãe se eu não enviar aquilo para dez pessoas! — Suspirou. — Vou te dar mais uma chance, quais habilidades você acredita ter?
— Eu sou bonito e sei tocar piano.
Jongin encarou o outro homem por alguns segundos, piscando lentamente e lutando para convencer a si mesmo que não tinha realmente ouvido aquilo. Não podia acreditar. Talvez o seu silêncio contínuo — que deve ter durado mais de dois minutos, já que Jongin simplesmente não sabia o que dizer depois daquela resposta — tenha feito Yifan crer que tinha ido tão bem naquela entrevista que deixou o Kim sem palavras.
— Te surpreendi? — perguntou, tinha um sorriso travesso no rosto.
— Eu não sei exatamente como isso ajudaria no serviço de recepcionista...
— Ah, chefe, você deveria saber... O recepcionista é a face do escritório. A primeira coisa que a pessoa que entrar aqui vai ver é o meu rosto. E eu sou bonito demais para que alguém queira ir embora depois de olhar para essa belezinha aqui.
Não, Jongin não iria continuar se submetendo àquilo.
— Tá certo, Yifan. — Levantou-se e estendeu a mão para um cumprimento, queria encerrar aquele caos ali mesmo. — Eu vou entrar em contato.
A câmera, então, passou a acompanhar Yifan, que tinha um sorriso convencido quando apertou a mão do chefe, e logo saiu da sala com o peito estufado. Ele parou em pé, bem em frente ao outro candidato — que era comicamente bem menor do que ele, e isso ficava evidenciado mesmo que o baixinho estivesse sentado —, e apontou o dedo em seu rosto.
— Já pode desistir, cara, a vaga é minha!
Naquele exato instante, Jongin parou na porta da sua sala, com um papel em mãos, pronto para chamar o outro rapaz.
— Doh Kyungsoo! — chamou, lendo o nome na folha que segurava, e então levantou o olhar.
Viu um sujeito de cabelos negros, e com uma expressão séria. Encantou-se com os braços nitidamente esculpidos sob a camisa branca de botões, e a única coisa que encarou mais do que os músculos do moço foi a boca de lábios cheinhos e convidativos demais. Inevitavelmente Jongin ficou com as bochechas vermelhas. Então, discretamente, virou o rosto para a câmera e deu um sorriso bem pequeno.
Aquilo dizia tudo.
(...)
Não duvide, jamais, das habilidades cinematográficas de Jongdae. Ele tinha que usar a faculdade de cinema para alguma coisa, e era realmente muito bom no que fazia. Ele cuidava da câmera, Minseok monitorava os microfones, e era assim que as coisas funcionavam. E, por ser alguém extremamente bom lidando com a câmera, conseguia ser discreto ao captar toda e qualquer cena inusitada. Era comum que percebessem a sua presença em algum momento, mas normalmente demorava o suficiente para que alguma situação cômica fosse registrada. Por isso, ali estava a maldita câmera, dentro da sala de Jongin, filmando os funcionários através das persianas parcialmente fechadas.
Ainda era cedo, o escritório estava aberto há uns quinze minutos, e Baekhyun tinha um andar pomposo e uma postura vitoriosa ao andar até a antiga mesa de Hongseok e largar sua caixa de papelão ali em cima sem qualquer sutileza. Então apontou bem para o rosto de Chanyeol, o vendedor na mesa em frente, e respirou fundo antes de gritar.
— Toma essa, Park!
O rapaz apenas rosnou em resposta e voltou a atenção para o computador, tinha muito trabalho para fazer, e não estava nem um pouco a fim de perder seu tempo com as infantilidades do Byun. É que Baekhyun tinha esse talento de fazer pessoas de pouca paciência o odiarem... E nem era por mal. Ele apenas era uma pessoa um pouco barulhenta, inconsequente, infantil, e... era muitas coisas irritantes, na verdade, é difícil enumerar com precisão. Mas, no fundo, era um garoto adorável, tanto é que conquistou o coração do bonitão do RH, e sempre ganhava cachecóis de lã que Seungyeon, a senhorinha da contabilidade, fazia no inverno. Também era ele quem conseguia levar o chefe — supostamente — intimidante para tomar cerveja uma vez por mês. Isso só porque perturbava os ouvidos de Jongin até ele aceitar ter alguma interação social na sua rotina broxante.
A intriga que Baekhyun tinha com Chanyeol, no entanto, se devia à incompatibilidade entre a insensibilidade do Park e a falta de noção — talvez até lerdeza — do outro. Tudo começou quando Baekhyun completou uma semana de trabalho na Dunder Mifflin; Chanyeol deixou uma folha na mesa da recepção e disse para ele fazer uma cópia, enquanto o cara estava atendendo o telefone — já é possível prever que algo daria errado —, e, de alguma forma, Baekhyun misturou o que estava ouvindo e entendeu que deveria descartar aquele papel no picotador. Chanyeol, é claro, surtou, porque aquele era o relatório das suas vendas no mês, e precisava entregar uma cópia para Jongin. Ele ficou tão puto, mas tão puto, que xingou até a primeira geração da família de Baekhyun. Acontece que o baixinho tem paviocurto, e xingou Chanyeol mais ainda, falando que ele parecia criança ao dar chilique por um erro tão pequeno, e que se não fosse estúpido o suficiente para esquecer de salvar o arquivo antes de imprimir, isso não seria um grande problema.
Desde então, ofensas e alfinetadas se tornaram corriqueiras. Entretanto, podiam dizer que eram inimigos-amigos, porque talvez a ideia do orégano tenha sido de Chanyeol, e, talvez, eles tenham se unido para derrotar um inimigo em comum. Porque Hongseok vivia roubando as canetas, os clientes, e os chicletes de Chanyeol, além de ficar mandando pornografia por e-mail fingindo ser um comprador, para enganar o coitado, que abria o arquivo e, de repente... Um gemidão ecoava pelo escritório e matava o Park de vergonha. É interessante comentar, também, que ele achava jogo sujo Hongseok atormentar a vida de Baekhyun por conta de sua sexualidade. Quer dizer, Chanyeol odiava Baekhyun porque ele era insuportável, não porque ele era gay.
— Vai chorar? — perguntou Baekhyun, enquanto ajeitava as suas coisas na mesa, e sonhava com os lugares para onde levaria Sehun com o salário que passaria a receber.
— Byun, se você não calar a boca, juro que eu vou enfiar essa régua na sua bunda.
— Foi o que ela disse — devolveu, e então Chanyeol mostrou a régua de trinta centímetros que mantinha em sua mesa.
Um pouco em choque, Baekhyun olhou para os dois lados, e viu que estava sendo observado pelo grande irmão — foi como apelidou a câmera. Ele começou a acenar como um idiota, e Jongdae rapidamente virou a câmera para o outro lado da sala, para filmar Jongin, que segurava um espelho próximo ao seu rosto e ajeitava o cabelo milimetricamente, como uma obsessão ra estar totalmente apresentável. Coisa que, honestamente, não era nada difícil. Jongin era um cara muito bonito.
— Ei! — O gerente se envergonhou ao notar que estavam gravando. — Dá pra virar essa câmera para o outro lado?
Jongdae, então, passou a capturar o que acontecia na mesa da recepção, onde Kyungsoo, o novo recepcionista, ajeitava as suas coisas. Sua postura transmitia certa seriedade — a que Baekhyun jamais tinha, e a que os outros funcionários juravam que Jongin tinha —, e a sua organização era até bem metódica. Só que foi particularmente bem engraçado quando ele, apreensivo, olhou para os dois lados, provavelmente tentando se certificar de que não era observado — pobre homem, ainda não estava ciente das câmeras —, e então colocou um pequeno vasinho com um cacto bonitinho sobre o balcão. A plantinha tinha até uma flor.
Quando a câmera virou um pouquinho para o lado, conseguiu flagrar Jongin espiando a cena através da persiana com um sorriso bobo.
Novembro de 2007
De dentro da sala de Jongin, a câmera acompanhou Baekhyun desde o momento em que ele cruzou a porta, até se sentar em frente à mesa do gerente. Como quem não entendia nada, ele olhava confuso para os lados, e até agitava as pernas distraidamente. Na verdade, ele sabia muito bem o que seu chefe queria quando o chamou para conversar, mas preferia se fazer de idiota, porque o esporro por ser sonso normalmente era menos pior do que o esporro por ser infantil. E por isso ficou encarando o maior com uma perfeita — e falsa — cara de inocência, até que ele falasse alguma coisa; não era louco de se acusar primeiro.
Jongin olhou para a câmera, sua expressão não era das melhores, então voltou sua atenção para o rosto do vendedor. Conhecia bem Baekhyun, sabia quando ele era genuinamente idiota ou quando estava fingindo que era, e se perguntava como aquele cara era capaz de manter aatuação até aquela altura da conversa. Honestamente, queria ver Baekhyun ceder e começar a se explicar e pedir desculpas pelo que sabia que tinha feito. Não por qualquer questão moral, ou algo do tipo... é só que seria muito engraçado. Mas Baekhyun também era teimoso, e certamente não iria dar aquele prazer ao outro rapaz.
— Baekhyun, me ajude a entender por que um cliente ligou para o escritório reclamando de você, por favor — disse, por fim.
— Hm, eu duvido que tenha sido um dos meus compradores, tenho um ótimo relacionamento com todos. — Ainda assim, não se acusaria. — Eu acredito que tenha sido Chanyeol se passando por um cliente, aquele cara é um invejoso. Eu daria horas extras de trabalho pra ele.
— Não, Baekhyun, não foi Chanyeol. — Jongin suspirou pesado. — O Sr. Kang disse que você fez o neto dele chorar na recepção da empresa.
Agora não havia mais como se abster e fingir ignorância.
— Olha só, eu tive que fazer isso, tá legal?! — Ficou em pé, nervoso, e começou a andar pela sala. Ficava irritado só de lembrar da cena. — Aquele pirralho ficava me mostrando o dedo do meio, então falei que ele era adotado, só pra ele ficar um pouquinho em choque e me deixar em paz.
— Baekhyun, você disse a um garoto de sete anos que ele é adotado! — O gerente fechou os olhos e apoiou a cabeça na cadeira estofada.
— Ele estava ofendendo a minha honra!
— Sete anos, Baekhyun! Eu realmente não sei o que eu faço com...
Antes que Jongin pudesse terminar de falar, alguém bateu na porta, e o Kim ajeitou a postura no mesmo instante. Já imaginava quem era, e por isso arrumou os cabelos uma última vez antes de autorizar que o funcionário entrasse. Baekhyun percebeu bem como o chefe mudou da água para o vinho quando o recepcionista bonitinho entrou na sala; de alguém que parecia ter toda a sua energia sugada e que estava a ponto de desistir de tudo para viver vendendo sua arte na praia, passou para um homem viril, com uma disposição e vitalidade absurdamente altas. Não era novidade, entretanto, pois já havia quase um mês que Kyungsoo trabalhava na Dunder Mifflin; ou seja, quase um mês que Jongin ignorava as suas maiores frustrações e ficava completamente idiota quando via o baixinho.
— Em que posso ajudá-lo, Kyungsoo? — perguntou com a voz um pouco mais mansa do que o normal.
— Deixaram um recado para o senhor... — Quando ele fez menção de entregar o bilhete em que havia anotado a mensagem, Jongin tratou de fingir que estava ocupado digitando algo no computador.
— Você poderia ler para mim, por favor?
— Claro. — Kyungsoo espremeu os olhos para enxergar o que havia escrito, tinha esquecido os óculos em sua mesa. — Sr. Kim, saiba que hoje acordei pensando em como o senhor é um homem belo e de intelecto admirável.
— Que adorável! — Jongin sorriu. — Quem enviou?
— O rapaz não se identificou, senhor.
— Ah, é uma pena... — Lamentou-se falsamente, porque, talvez, ele soubesse bem quem tinha mandado aquele recadinho. Entretanto, aquela coisa toda só funcionava porque Kyungsoo não sabia que Jongin estava ciente de quem era o tal admirador que ligava de vez em quando mandando mensagens, as quais ele geralmente lia em voz alta. — Muito obrigado, Kyungsoo.
— Disponha... — Kyungsoo abaixou a cabeça sutilmente, em um gesto educado, e então saiu da sala.
Nesse exato momento, Baekhyun mostrou o sorriso mais tendencioso possível, enquanto alternava o olhar entre a mesa da recepção, visível através das persianas, e o rosto do seu chefe. Jongin começou a ficar vermelho, pensou na possibilidade de Baekhyun estar começando a entender a situação. Quer dizer, Jongin era um pouco ingênuo. O Byun já tinha sacado há muito tempo que ele tinha um leve... penhasco pelo novo recepcionista. O que ele entendeu, naquele momento, era que Jongin era péssimo ema sua vida amorosa, porque, parando para pensar, o que estava fazendo só não era ridículo porque era fofo .
— Você tá ligando para o escritório pra mandar esses recados só pra ouvir o cara lendo pra você?
— Não sei do que você está falando, Baekhyun! — Jongin voltou a sua atenção para o computador, já nem lembrava mais que tinha que dar um esporro no seu funcionário.
— Sabe sim, e eu sei que é você quem tá fazendo isso!
— Não sou eu que tô ligando... É o Yifan do depósito, eu tô dando uns trocos pra ele fazer isso. Mas não é pra causar ciúmes não, ok?
— Eu sei que não é pra causar ciúmes, cara! — Baekhyun riu. — É só pra ouvir ele falando essas coisas bonitinhas pra você. Pode deixar que eu vou dar um jeito nisso!
— Não, Baekhyun, você não vai fazer absolutamente nada!
— Confia em mim, você ainda vai me agradecer... — E ele saiu correndo de lá como se não tivesse um sermão para levar por ter feito uma criança chorar mais cedo. — Tchauzinho!
E foi só depois que o Byun saiu e bateu a porta que Jongin se lembrou de que tinha que terminar de dar um esporro no maldito.
(...)
Jongin detestava a hora do almoço. Porque tinha que comer e, ok, ele amava essa parte, mas o problema é que ele era preguiçoso demais para preparar algo para levar para o escritório, assim como morria de preguiça de sair para almoçar. Mas, no fim, pegava seu carro e ia até uma churrascaria brasileira que não ficava muito longe dali. A comida era boa e barata, não tinha do que reclamar, mas era um saco dirigir todos os dias só para almoçar. Porque, veja só, o tempo que ele levava dentro do carro, para ir e voltar, poderia muito bem ser aproveitado para uma sonequinha. O sofá da sua sala era bem confortável, e seria mentira se Jongin dissesse que nunca tinha se acomodado ali para um ou outro cochilo no meio da tarde.
Quando o relógio marcou meio-dia, o gerente desligou o computador, calçou seus sapatos — que em algum momento da manhã ele se via na obrigação de tirar, porque apertavam seus calcanhares —, pegou o casaco atrás da porta, e saiu para almoçar. A câmera o seguiu até a porta, mas então se voltou discretamente para Baekhyun, que observava o caminho do chefe de trás de um dos pilares do escritório, como se não quisesse ser visto. Até que, depois de alguns segundos, ele saiu de lá, e foi correndo até Kyungsoo, que já se deliciava com um hambúrguer extremamente gorduroso, cheio de queijo e maionese.
— Kyungsoo, meu querido colega... — sussurrou com certo desespero, não queria ser ouvido pelos outros. Kyungsoo tinha abocanhado sua refeição, e apenas olhou para o vendedor, estático com aquele lanche na boca, sem dizer uma única palavra. — Podemos conversar um pouquinho?
— Ah, sim... — respondeu o outro, de boca cheia, e limpou o queixo com um guardanapo. — O que foi?
— Então, cara... logo vai ter a Ação de Graças do escritório, você vai trazer sua namorada? — Baekhyun não era de um todo idiota, sabia bem sondar uma pessoa. O problema, entretanto, era a sua falta de discrição.
— Eu não tenho namorada. — Kyungsoo demonstrou confusão em seu rosto, perguntando-se de onde aquele maluco tinha tirado isso.
Na verdade, Kyungsoo já estava bem ciente de que Baekhyun era uma peça bem inusitada. Ele sempre aparecia com uns papos estranhos, principalmente para falar mal de Chanyeol, já disse até que desconfiava da possibilidade de o Park ser um maçom que fazia rituais bem explícitos com um boneco... Você não vai querer detalhes da imaginação fértil de Baekhyun, acredite, é verdadeiramente traumatizante. Aquele cara também surgia com umas perguntas bem aleatórias, para dizer o mínimo; da última vez, chegou ao escritório perguntando se Kyungsoo tinha assistido ao programa sobre tubarões, e detalhou, bem desnecessariamente, a história de um surfista que perdeu o braço no Caribe.
Kyungsoo genuinamente gostaria de saber como ele tinha um relacionamento com Sehun, que parecia ser a pessoa mais equilibrada e na posse de suas faculdades mentais daquele escritório. Só que... de forma geral, Baekhyun não era ruim, apenas alguém de comportamento preocupante, sem qualquer maldade. As únicas situações em que aquele indivíduo de intelecto questionável realmente representava algum perigo era quando estava discutindo calorosamente com Chanyeol, seu arqui-inimigo declarado — mas que tomava cerveja com ele de vez em quando. Honestamente, as pessoas daquele escritório eram engraçadas, Kyungsoo podia dizer que gostava delas... e o trabalho não era péssimo.
— É mesmo, é? — devolveu o Byun. — E namorado?
— Também não... — Ele já começava a estranhar muito as intenções daquela conversa, até porque Baekhyun não foi nada sutil na última pergunta.
O vendedor olhou para os dois lados, mas não notou a câmera, pois Jongdae estava atrás dele, e era bom em disfarçar o que fazia... Muito diferentemente de Baekhyun, definitivamente. Depois disso, ele se inclinou na direção de Kyungsoo para sussurrar ainda mais baixo. Instintivamente, o moreno foi para trás com a cadeira, deslizando um pouco as rodinhas. Não gostava daquela proximidade quando estava comendo. E com razão, é claro, a hora do almoço era sagrada, por mais que certos elementos não a valorizassem e utilizassem aquele tempo livre para fazer fofoca e bancar o cupido. Nem todos eram espertos.
— E o que você faria se alguém do escritório estivesse interessado em você?
E foi nesse exato instante que Kyungsoo se indignou. O que aquele sujeitinho estava insinuando? Seria muita cara-de-pau se Baekhyun estivesse, de alguma forma, dando em cima dele. Seria uma atitude de merda, na verdade, considerando o fato de que seu namorado estava a menos de trinta metros dali. Além do mais, seria completamente estúpido da parte de Baekhyun pensar em colocar chifres na testa de Sehun. Poxa, nas oportunidades que teve de conversar com ele, só presenciou um homem doce e gentil. Como Baekhyun podia ser otário a esse ponto? Tentar trair seu namorado com alguém que ele conhecia há menos de um mês... Inacreditável!
— Espera aí! — Kyungsoo endireitou a postura na cadeira, e olhou para o outro rapaz com a descrença explícita no olhar. — Você não tem namorado, não?
— Eu tenho, por quê? — Baekhyun devolveu, sem entender o motivo daquele questionamento.
— Por que você tá com essa conversa estranha? Saiba que Sehun vai ficar ciente do canalha que você é!
— O quê?! — Ele arregalou os olhos, e parou de sussurrar sem nem perceber. — Não, não! Não me entenda errado, Kyungsoo! Não tô falando de mim, jamais faria isso com Sehun!
— Você não tá dando em cima de mim, então? — Kyungsoo arqueou uma das sobrancelhas, estava quase pronto para berrar o nome de Sehun.
— Não, claro que não! — Baekhyun riu em desespero. — Eu tô falando é do chefe! Ele tá meio que bem interessado em você.
— Jongin tá interessado em mim?!
Foi então que Baekhyun notou a cagada que fez. Não era pra ele ter vomitado aquela informação sem filtros, o intuito da conversa era sondar Kyungsoo e criar um ambiente propício para que ele e o gerente se aproximassem em algum momento. Mas as coisas acabaram saindo do seu controle e... Ele abriu a boca. Não era necessariamente uma novidade, vindo de Baekhyun.
— Puta merda! — gritou e saiu correndo do escritório, o que chamou a atenção de todos os colegas.
A câmera, então, deu um zoom no rosto de Kyungsoo, e captou bem o sorrisinho que ele falhou miseravelmente em conter.
(...)
O final do expediente era sempre um alívio para Jongin. Bastava o relógio marcar o fatídico horário que ele já afrouxava a gravata, soltava um suspiro, e abria o primeiro botão da camisa. Nesses momentos, ficava extremamente ansioso para chegar em casa e se acomodar no sofá para ver televisão até os olhos pesarem de sono. Só assim para esquecer o fato de que tinha um emprego que não gostava, em uma área que não gostava, e que desistiu daquilo com que mais sonhava. A vida adulta era dura e dolorida, mas nada que comédias românticas e programas sobre apreensões de drogas em aeroportos não pudessem ajudar a amaciar. De vez em quando tinha a companhia de uma taça de frisante, outras vezes pedia uma pizza para comer sozinho... Jongin era alguém frustrado & solitário, para falar a verdade.
Por isso, às vezes, ficava um pouco triste quando chegava o fim do expediente... Porque o escritório era o único lugar em que ele tinha algum contato com outras pessoas que não fossem seus pais, seus tios, ou seus primos casados e felizes. De qualquer forma, Jongin não era alguém triste... Apenas alguém decepcionado, e lidava com isso diariamente sem grandes complicações. Aliás, ele tinha três gatos, não estava sempre sozinho. Mas não podia mentir, era carente de um pouco de contato humano. Queria amigos para abraçar — que não fosse Baekhyun, porque esse era grudento demais —, ou um amorzinho para beijar... Estava aberto a possibilidades.
Jongin estava desligando o computador quando ouviu alguém bater na porta. Já estava um tantinho cansado, então nem pensou muito antes de permitir que a pessoa entrasse; não quis nem imaginar quem era. Por isso, acabou ficando um pouquinho surpreso quando viu Kyungsoo ali, ainda com um semblante bem-humorado demais para quem já tinha suportado um dia inteiro de trabalho. Essa era uma particularidade interessante do recepcionista. Apesar de sempre passar uma postura extremamente séria e profissional, ele ainda conseguia manter uma expressão doce. Certamente era alguém muito agradável para se ter por perto, e uma ótima opção para trabalhar na recepção do escritório.
Melhor do que Baekhyun, que falava coisas estranhas demais para clientes que ligavam apenas para pedir informações.
— Sr. Kim, deixaram mais um recado para o senhor — disse o baixinho. — Quer que eu leia?
Se Jongin fosse algum animal, suas orelhas já estariam em pé, tamanha a estranheza do que ouviu. Havia um simples motivo: ele não pediu para Yifan ligar para passar mais um único recado, e é claro que o chinês não faria isso por iniciativa própria, ele gostava era de sugar as notas da carteira de Jongin. E, além do mais, quem realmente ligava para o escritório para deixar recados pedia para que o gerente telefonasse mais tarde, e não deixava a mensagem para o recepcionista — isso era incomum, na verdade.
— Ah, sim, por favor.
— “Sr. Kim, gostaria que você soubesse que é um homem encantador, e que eu acho fofo que você seja tímido o suficiente para mandar alguém ligar para o escritório só para eu dizer coisas legais para você.” — Quando terminou de ler, Kyungsoo encarou o chefe com um sorriso sutil.
— Deus... — Jongin, envergonhadíssimo, deitou o rosto contra a mesa, tentando esconder o rubor nas bochechas. — Baekhyun abriu a boca?
— É, ele abriu. — Kyungsoo riu. — Mas não fica bravo com ele, fico feliz que ele tenha feito isso.
— Eu juro que vou parar, Kyungsoo, me desculpe.
— Não, não, eu acho isso muito legal, na verdade. — Ele pôs sua mão sobre a do outro com certa delicadeza, Jongin ainda escondia a sua cara. — O que acha de sair pra tomar uma cerveja?
— Tomar uma cerveja? — De repente, o maior levantou a cabeça para encarar o funcionário.
— Ou qualquer outra coisa, sei lá, vinho... O que você achar melhor. Só tô a fim de sair com você, não quero conversar só por recadinhos.
Jongin, então, direcionou o olhar para a câmera, que o filmava do lado de fora da sala. Jongdae, quando foi notado, passou a filmar o chão. Mas os microfones captaram muito bem os passos dos dois rapazes, que saíram juntos da sala e, logo, do escritório.
(...)
A maioria dos funcionários estranhava, mas Baekhyun já tinha perdido qualquer critério de julgamento. Então ele não se importou quando Jongdae e Minseok, os caras que sempre estavam filmando o pessoal do escritório, pediram para entrar no porão da sua casa — casa dos seus pais — para gravarem a porta de Jongin através da claraboia lá embaixo. Só que era uma manhã de sábado, e, mesmo assim, ele não se incomodou com isso. Na verdade, Baekhyun e Sehun estavam espiando pelo vidro também. E o choque foi imenso quando Jongin abriu a porta, apenas de roupão, e Kyungsoo saiu de lá... com a roupa que usava no trabalho no dia anterior.
E, para surpresa ainda maior, eles deram um puta de um beijão na frente da casa de Jongin. Foi até que engraçado ver o recepcionista apertando com gosto a bunda do gerente. As coisas começaram a ficar um pouquinho mais quentes entre aqueles dois, tanto é que voltaram para dentro de casa às cegas, com Jongin esbarrando as costas na parede vez outra. Não era muito adequado seguir gravando. Bem discretamente, Jongdae virou a câmera para o casal que bisbilhotava a vida amorosa do gerente. Foi engraçado ver o sorrisinho tendencioso no rosto de ambos.
— Caralho… Mas já? — comentou Sehun, sem tirar os olhos da porta da outra casa.
Baekhyun, então, virou o seu rosto em direção à câmera com a expressão mais maliciosa possível.
— Foi o que ela disse.
(...)
— Minhas expectativas para o futuro...? — Jongin repetiu a pergunta feita por Jongdae, encarando o teto, extremamente pensativo. — Se você me perguntasse isso há, sei lá... um mês... Eu diria que não sabia, porque as coisas parecem sempre iguais, e eu não imaginava qualquer possibilidade de mudança, provavelmente me veria aqui nos próximos dez anos.
— E agora...?
— Bem, eu ainda digo que não sei. — O gerente riu, estava um tanto sem jeito. — Mas é porque agora eu tenho certeza de que tudo pode mudar... Quando algo bom está na sua frente, você precisa agir para ter aquilo... Precisa arriscar, ou tudo vai seguir na mesma. E é isso que eu vou fazer.
— Você pensa em abandonar a Dunder Mifflin?
— O quê?! É claro que não! Eu preciso do emprego, não sou idiota! — Ele encarou mais uma vez o folheto sobre a sua mesa que pegou a caminho do escritório; era de uma escola de ballet. — Eu decidi que vou fazer aulas de ballet à noite, não é nada grandioso como uma faculdade de dança, mas eu já considero muito na minha situação. E, em dez anos, realmente não sei o que eu vou estar fazendo da minha vida... Pode ser que eu siga aqui, em um emprego entediante, mas rodeado de pessoas incríveis... Pode ser que eu esteja dançando na Rússia... Pode ser que eu esteja em casa, fazendo o almoço enquanto espero o meu alguém especial voltar do trabalho. Qualquer possibilidade já é uma nova expectativa.
— Tem algum motivo específico para você ter feito essa decisão?
— Sim, um ótimo motivo... — Jongin olhou através das persianas, e sorriu ao ver Kyungsoo escorado ao balcão da recepção, bebendo chá na sua caneca com a foto do Bob Marley. — Mas eu prefiro mantê-lo só para mim.
