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Archive Warning:
Category:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Series:
Part 1 of Fanfics Sem Fronteiras
Stats:
Published:
2021-07-18
Words:
1,553
Chapters:
1/1
Kudos:
1
Hits:
32

We Both Reached For The Gun

Summary:

Madame Teodora tem planos para defender sua Maison. E, pelo visto, ela não está sozinha nessa.

Notes:

Título descaradamente roubado da música de mesmo nome, parte do musical Chicago, embora o plot não tenha necessariamente relação com a letra.

Baseada em "O Mistério da Morte Rubra", mesa de Pulp Cthulhu mestrada por Anderson Machado no canal SemFronteiras RPG. Vida longa aos NPCs.

Work Text:

Do outro lado da porta de madeira, ele podia ouvir o som da música clássica que vinha do gramofone da dona da Maison. Apesar de, naquela casa, os sons de música alta, conversas ébrias e risos histéricos nunca cessarem enquanto houvesse noite, tudo não passava de um zumbido distante quando se parava perante aquela porta de madeira já levemente desgastada pela ação do tempo.

 

Anders Hache respirou fundo, expirando devagar enquanto os dedos pálidos da canhota livre ajustavam uma parte do terno escuro bem cortado. Em sua destra, via-se uma maleta distinta, de couro tão escuro quanto seu terno, firmemente segurada pela alça grossa. Erguendo a mão esquerda agora fechada, o homem bateu com o nó do dedo médio. Três batidas compassadas, sem pressa. O código estabelecido para que ela sempre tivesse certeza de quem era — embora ele soubesse que ela não esperava por outra pessoa. Os ouvidos atentos captaram o som dos saltos se aproximando. Uma chave girou na fechadura, a maçaneta se moveu, e, enfim, a porta rangente foi aberta.

 

— Sempre pontual, Monsieur Hache — Disse-lhe a pessoa ali parada, não esboçando qualquer expressão diferente da habitual frieza de uma mulher de negócios.

 

— Madame — Pronunciou-se ele com igual seriedade, ofertando a ela uma reverência um pouco mais longa que lhe era habitual em suas negociações do dia-a-dia.

 

A mulher se afastou um pouco, dando-lhe passagem. Acertando sua postura, o homem adentrou o escritório preenchido pela música provinda do disco a girar sob a agulha do velho gramofone. A Carillon de Bizet. A abadessa tinha lá suas excentricidades, entretanto, mais que apenas uma técnica para impedir que pessoas indevidas ouvissem suas conversas particulares, seu gosto musical era, sem sombra de dúvidas, impecável, uma vez que em muito se assemelhava ao dele. A porta atrás de si foi fechada com um suave bater. Ele ouviu mais uma vez o girar da grande e pesada chave na fechadura, e, só após isso, virou-se na direção da mulher, que, agora, permitia-se sorrir discretamente enquanto o encarava. Deixando a maleta no chão, estendeu os braços para ela, que prontamente se pôs a encurtar ainda mais a pouca distância que os separava. O mais alto a acolheu em um abraço caloroso, colando seus corpos e sentindo as pontadas das armações do corselet enquanto os lábios tingidos de vermelho vivo alcançavam os seus em um toque casto demais para a fama que aquela mulher carregava. No conforto do escritório ricamente decorado, envolta pelos braços fortes do homem que, entre sussurros, dizia amar, ela era apenas Teodora Leroux, uma mulher carinhosa e de sorriso fácil. Sua velha Teo, como ele costumava brincar apenas para tirá-la do sério. Da porta para fora, ela era Madame Teodora, a velha mariposa, proprietária da Maison Sans Frontières. A puta de maior e melhor reputação naquela área, quiçá em toda a Paris, afinal, como o nome deixava bem claro, seu poder não conhecia fronteiras.

 

— Mais um, não? — Indagou ele ao romper do contato, vendo o sorriso morrer no rosto da dona da casa.

 

— Um golpe em minha tesouraria — A mulher deixou um suspiro breve escapar por entre os lábios carnudos. — A política não perdeu um grande homem, mas a minha casa certamente perdeu.

 

— Não fale assim, sua bruxa velha — Provocou ele, divertindo-se por dentro com o estreitar dos olhos alheios. — Eu até que gostava do jovem Belo.

 

Desvencilhando-se do abraço, Teodora caminhou até sua mesa de trabalho, dando a volta e sentando-se em sua opulenta cadeira. Recostou-se e juntou as mãos sobre o colo, adotando novamente a postura rígida de comandante daquele barco. Uma rainha em seu trono, comandando com mãos de ferro seu vasto e lucrativo império no mercado de carne.

 

— Pois bem — Começou ela, a voz um pouco mais firme e centrada. O braço direito se estendeu, indicando a ele a cadeira defronte a si. — Temos negócios a tratar.

 

— Certamente, Madame — Devolveu-lhe o homem, reavendo a maleta deixada em seus pés. Puxando a cadeira e sentando-se nela, o homem colocou sobre a mesa. — Trouxe o que me pediu.

 

Abrindo uma gaveta próxima a seu joelho, a velha abadessa tirou dali um gordo envelope de papel amarelado, lacrado com um selo de cera vermelha. Entregou-o a ele, que o pegou e guardou em um bolso interno, sem se preocupar em conferir seu conteúdo. Das muitas coisas que Leroux era, desonesta não estava entre seus títulos. Empurrando a maleta para ela, esperou que a mulher a virasse e a abrisse, encontrando o objeto encomendado algumas semanas antes. Os olhos da proprietária brilharam ao se deparar com a imagem da pistola Luger que ali havia, acima de um punhado de documentos oficiais. Ele podia jurar que viu um sorriso se ensaiar na boca da agora dona da arma, mas ela, mestra na arte de não revelar mais do que o necessário, endureceu sua expressão antes que seus reais desejos fossem expostos e tornou a fechar a mala, colocando-a debaixo da mesa.

 

— Não sabe o que tive de fazer para conseguir essa porcaria.

 

— Não me interessa o que teve de fazer — Devolveu-lhe Teodora, ríspida. — Está sendo mais do que bem pago. Tem mesmo de fazer mais do que aqueles dois inúteis lá embaixo.

 

— Você não tem mesmo fé na polícia, velha.

 

— Fé? Rá! — A exclamação era ácida. — PH e O'Neill não resolveriam um crime nem mesmo que o assassino se jogasse na frente deles gritando "c'était moi!".

 

— Tem certeza de que quer fazer isso?

 

Silêncio por parte da mulher. Ao fundo, o disco continuava a tocar. Farandole. Levou alguns segundos para que a meretriz se movesse na cadeira, visivelmente desconfortável.

 

— Eu não lhe disse que faria coisa alguma, mon cher — Disse ela, postando em seus lábios um sorriso ligeiramente hipócrita. — É apenas uma precaução.

 

— Talvez precaução demais.

 

— Não posso permitir que ele se aproxime da minha casa outra vez, Anders — A mulher se adiantou, espalmando as mãos sobre a mesa e curvando levemente o corpo na direção dele, como um animal pronto para o ataque. Sua voz agora era mais áspera. — Eu tenho certeza de que ele está metido nisso, e vou te provar. Aquele maldito Barde — O nome foi pronunciado num esgar, o nojo estampado em seu tom e em cada linha de expressão de sua pele branca.

 

Sem pensar duas vezes, o político também se adiantou na direção da mulher, colocando a mão grande em sua nuca e a puxando para um beijo dominador. Leroux não ofereceu resistência.

 

— Só lhe peço para que tenha cuidado — Enunciou ele, fitando-a no fundo dos olhos cor de avelã. Seu tom era sério e preocupado, e esperava que ela pudesse sentir a veracidade em suas palavras. — Não quero que se machuque.

 

Fils de pute — Grunhiu ela, em meio a um sorriso lascivo.

 

— Não sou seu filho, Teo — Respondeu o político, devolvendo-lhe o gesto enquanto tornava a se ajeitar em sua cadeira.

 

— Bastardo.

 

A conversa ainda durou mais alguns minutos antes que Anders Hache tivesse de voltar ao gabinete. Despediu-se de sua querida com um beijo devasso (e algumas coisas mais) antes de permitir que a porta fosse aberta. Do lado de fora, como parte de seu há muito estabelecido acordo de confidencialidade, elevou o tom de voz ao lhe despejar um "bonsoir, Madame" formal e polido. Ao retornar ao salão principal, já parcialmente preenchido pelos figurões que, diferente dele, vinham ao estabelecimento à procura de amor em troca de um punhado de moedas, aproximou-se do balcão, e, ajeitando o chapéu no alto da cabeça, deu dois tapas no tampo pintado.

 

— Tarcísio?

 

— Eu mesmo! — Respondeu o simpático atendente e braço direito de Teodora que, por anos, comandara o bar da Maison. — O de sempre, Monsieur?

 

A confirmação veio em um leve meneio da cabeça. Agraciado em poucos segundos com uma generosa dose de Edouard Pernod, virou de uma só vez o líquido esverdeado, bateu o copo no balcão, meteu a mão em um dos bolsos, e, dali, tirou um punhado de notas mal dobrado ao meio — alguns francos a mais do que o produto realmente valia. Um pequeno reconhecimento pelos serviços paralelos prestados não apenas à casa, mas também a ele em sua condição de político e amante (e também contrabandista) da Mamãe. Tarcísio agradeceu com um sorriso largo, enfiando com extrema discrição as notas no bolso da calça e tocando rapidamente na aba do chapéu-coco que usava. Retribuído com um gesto igual por parte do estadista, voltou a se concentrar em suas obrigações enquanto o homem se afastava.

 

Ao passar pela singular porta vermelha, despedindo-se dos seguranças Álvaro e Raoul, o oficial do governo seguiu seu caminho até o carro, estacionado há vários metros de distância do excêntrico prédio de tijolos vermelhos. Adentrando o veículo e fechando a porta do motorista, levou uma das mãos ao volante enquanto a outra alcançava o puxador do porta-luvas, abrindo-o e lançando um olhar frio para o interior do compartimento.

 

— Não precisará fazer nada se eu o pegar primeiro, Teo.

 

E tornou a fechar a portinhola, ocultando novamente a Modèle 1935 que ali guardava desde que Onana Kayama fora encontrada morta. Ele também desconfiava do "maldito Bardo", como sua velha costumava chamar o infeliz. Há muito ele queria botar as mãos naquele patife, e, se descobrisse que ele era mesmo o responsável por sabotar os negócios de sua abadessa, matá-lo-ia antes que Leroux conseguisse erguer a Luger na altura do peito daquele porco.

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