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Sentimentos (não) Mentirosos
Capítulo único - Regras infalíveis (ou nem tanto) para comprovar que seus sentimentos não são mentirosos, por Kim Jongin
Por anônimo
A mentira é algo intencional, vinda do puro instinto de mascarar a verdade conhecida pelo mentiroso. Tais inverdades surgem naturalmente, como um instinto da condição humana, tendo como objetivo, na maioria das vezes, que seus ouvintes acreditem nos dizeres ludibriosos como se fosse uma verdade. Com o passar dos tempos, e o impulso incontrolável em mentir, as palavras ditas começam a gerar dúvidas, sendo difícil diferenciar a verdade da mentira.
E esse emaranhado de mentiras e as diversas dúvidas que surgiam a partir destas, faziam parte do cotidiano de Kim Jongin, um dos protagonistas desta infame história.
O rapaz de cabelos acinzentados lembrava-se vagamente de mentir pela primeira vez quando ainda era uma criancinha um tanto birrenta, por algo tão insignificante que esqueceu-se à medida que o tempo passava. Mas aquela mentira tão pequeninha vinda de um ser tão inocente quanto era na época, foi o pontapé inicial para que as mentiras passassem a ter um lugarzinho em seu cotidiano, sendo um hábito corriqueiro a cada dia que se passava.
E não foi difícil para que a fama de mentiroso começasse a seguir Jongin onde quer que fosse, começando pelas salas de aula do colégio onde estudava o ensino médio. As pequenas mentiras ingênuas ditas pelo adolescente nos mais diversos ambientes que pudesse se imaginar, eram passadas de boca em boca, deixando-o em grandes enrascadas quando descoberto a verdade sobre determinado assunto que fora dito como mentiroso. Porém, podia se gabar que eram poucas as vezes que aquilo acontecia — ao menos, no início daquela fama.
Até tentou mudar toda a situação, fazendo a sua parte em apenas dizer a verdade, mas a mentira era um impulso que tinha, não conseguindo, na maioria das vezes, se controlar. Quando dava-se conta, involuntariamente, já havia proferido a mais nova mentira aos outros que ficavam ao seu redor. E lembrem-se, caros leitores, de quando mencionamos que Jongin escapava das enrascadas que surgiam com facilidade? É, pois é… O tempo passava, as mentiras acumulavam, e ficava cada vez mais difícil escapar de suas consequências.
A confiança que tinha dos amigos — por mais que já acostumados —, e principalmente dos pais, começaram a se esvaziar, chegando ao patamar da nulidade em poucos dias. A situação começou a ser tão crítica que, quando chegou nos finalmente do colégio, onde precisava prestar o temido Suneung, o Teste de Habilidades Escolares, para passar em uma das universidades coreanas para iniciar sua paixão, o curso de Dança, poucas acreditaram naquela afirmativa. Apesar disso, Jongin continuava a pensar positivo, contando com o apoio dos pais nessa decisão.
Todavia, não poderia negar que sentia-se um tantinho triste quando não acreditava em si, mas sempre tentava afastar os pensamentos tristonhos, para seguir sua vida na mais pura plenitude.
E contrariando a todos, Jongin passou com louvor naquele bendito Teste, sendo aceito na universidade que tinha o melhor curso de Dança do país. Os pais do Kim ficaram tão felizes com a notícia que ligaram para todos os familiares e conhecidos, anunciando a boa nova. Alguns ficaram surpresos e fizeram duras críticas por ter escolhido um curso que não traria tanto prestígio, mas não deixou se abalar, indo comemorar com a família e logo após com seus melhores amigos em uma churrascaria até longas horas da noite.
No ano seguinte, acompanhado pelos melhores amigos, Baekhyun e Jongdae, que iriam estudar na mesma universidade que o Kim, iniciaram um novo passo em suas vidas precoces. Não haveria mais pessoas o atazanando pelas suas mentiras, tirando a dupla dinâmica que chamava de amigos, podendo ser livre para fazer e falar o que quisesse. Estava tão animado para essa nova fase, que pensou que nada abalaria suas estruturas.
Mas estava enganado, e como estava.
Ao abrir a porta do dormitório que ficaria pelos próximos anos, suas estruturas foram abaladas por um terremoto imenso, ou melhor dizendo, pelo carinha mais lindo que havia posto os olhos em sua vida inteirinha. O rapaz, de cabelos escuros e raspados nas laterais, acompanhado dos óculos de aros redondinhos, estava concentrado, lendo algum documento em seu notebook, enquanto ouvia algo pelos fones de ouvido.
O jovem estava tão concentrado, que nem notara Jongin entrando no cômodo. Mas era um bom ponto, já que o Kim conseguiu admirar por mais alguns minutos a bela fisionomia do rapaz, ainda que não tivesse conseguido visualizar totalmente o rosto do moreno. Estava parado, encostado na soleira da porta, com a cabeça levemente inclinada, enquanto tinha um sorrisinho apaixonado nos lábios, como um bom bocó que era.
Mas como tudo que é bom dura pouco, o jovem de cabelos escuros o notou, retirando rapidamente os fones e levantando da cadeira, lhe dizendo:
— Oh, desculpe! Fico sempre imerso nos textos que leio. Meu nome é Kyungsoo, e você deve ser meu novo companheiro de quarto, certo? — perguntou, com um ar simpático, com uma das mãos estendidas, que fora prontamente apertada pela do Kim.
Ficou ali, parado e apertando a mão do roomate, perguntando-se como poderia existir alguém tão lindo como aquele homem no mundo. Fora esculpido pelos Deuses, quem sabe? É... Essa era a melhor opção dentre tantas que adornavam a sua cabeça. Agora, em frente ao companheiro de quarto, pode notar o quanto seu maxilar era delineado; o quanto seus olhos grandes combinavam com sua fisionomia e, o mais importante, seus lábios cheinhos que delineiam um coração ao sorrir. Ele era mais baixo que si, mas transmitia uma aura forte e sobretudo, séria.
Estava tão concentrado em analisar o quão lindo era o rapaz, que desligou-se totalmente do mundo exterior, esquecendo-se de que ainda estava apertando a mão do outro. Piscou os olhos, retornando a normalidade enquanto sorria.
— Me desculpe, às vezes fico meio aéreo. Meu nome é Jongin, e sou seu novo companheiro de quarto — disse, enquanto soltava a mão do mais baixo delicadamente, sorrindo. — Estou torcendo para que possamos nos dar bem nesse tempo que estarei aqui, hyung — completou, incerto. Ainda não sabia se Kyungsoo era mais velho que si, mas usar o honorífico era o certo no momento, como forma de respeito.
— Muito prazer em conhecer você, Jongin-ah. Torço também para nos darmos bem… O seu lado é aquele, pode ficar a vontade, vou continuar aqui — disse, apontando para o notebook.
— Claro, claro. Vou me manter em silêncio para não atrapalhá-lo, hyung. — Kyungsoo sorriu, concordando, mas dizendo antes que não o atrapalharia.
O restante do dia transcorreu tranquilamente, com Jongin arrumando suas roupas e utensílios, enquanto Kyungsoo continuava concentrado em ler seu texto, mas agora sem os fones de ouvido, que jaziam solitários ao lado do notebook na mesinha. Em alguns momentos durante o passar do dia, chegaram a conversar algumas trivialidades em um clima tranquilo naquele quarto, deixando Jongin nos céus por tais momentos.
E, apesar das diferenças, os próximos dias que se seguiram foram da mesma maneira: calma, em um ambiente tranquilo. Assim, pôde conhecer melhor Kyungsoo. Ele era alguém quieto e reservado, que conversava apenas o necessário em momentos específicos, mas continuava a ser alguém receptivo e que o ajudava quando possível. Quando conversavam, ficavam horas contando seus dias, principalmente sobre as novas receitas que o Do fazia — pasmem, ele fazia Gastronomia — enquanto desfrutavam de uma boa comida e alguma bebida etílica qualquer que ambos apreciavam.
Em muitas dessas conversas, Kyungsoo segredou a Jongin que estava um pouco nervoso quando o cumprimentou no primeiro dia no dormitório. Devido ao longo tempo sem companheiro de quarto, e por ser alguém mais fechado, o Do tentara o máximo possível ser alguém receptivo e passar uma boa impressão ao calouro, o que surtira efeitos positivos ao notar a forma como o mais alto agia e conversava consigo.
E foi naquele momento, ouvindo o que o mais velho contava — o Kim tinha descoberto que Kyungsoo era mais velho que si, surpreendendo-se por fazerem aniversário com diferenças de poucos dias e no mesmo mês —, que seu coração palpitou de uma maneira diferente, mais rápido, fazendo surgir uma sensação nova e diferente. No entanto, jogou para longe tal constatação, concentrando-se no que era importante naquele momento.
Os dias se passaram, e as tais palpitações no coração persistiram em continuar, passando a ser difícil ignorá-las. A sensação de coração quentinho aparecia apenas quando via Kyungsoo, falava com ele, ou até pela mera menção do mais velho por terceiros, deixava-o estranhamente bem. Com isso, a possibilidade — que o fazia ter dores de cabeças por pensar demais no assunto — de que estaria nutrindo algum sentimento romântico pelo Do, passou a crescer ainda mais em seu peito, e também nos pensamentos insistentes do calouro.
Tentando encontrar uma ajuda para esse dilema, Jongin conversou por longas horas com os melhores amigos, chegando a conclusão de que estava apaixonado pelo roomate. O rapaz de cabelos acinzentados ficou diversos minutos paralisado, com os olhos levemente arregalados, assimilando a recém descoberta. Seu único pensamento, além do choque pela realidade dos sentimentos serem jogados em sua cara, era em como iria agir perto de Kyungsoo após isso. Seus amigos sempre o diziam que era alguém transparente e não queria assustar o Do com seus sentimentos.
Ainda anestesiado, saiu do dormitório dos amigos, pensando no que iria fazer a partir daquele momento com a novidade. Se declarar, como aconselhado por Baekhyun, era uma péssima ideia no momento. O Kim não queria, em hipótese nenhuma, assustar o mais velho e o afastar repentinamente da amizade que mal havia iniciado. O melhor, concluiu, era manter calmo, e sobretudo, com seus sentimentos guardados as setes chaves, e quando fosse o melhor momento, tentaria ver a possibilidade de se declarar.
Mas, nem tudo que desejamos acontece, não é mesmo?
Aos poucos, a situação de Jongin começou a ficar cada vez mais complicada. A proximidade entre ambos os rapazes se tornava ainda maior com o passar dos dias, deixando o Kim cada vez mais assustado na possibilidade de não conseguir esconder o que sentia pelo mais velho. Ficava ainda pior quando o Do aparecia mostrando para si algo importante para ele, com aquele típico sorrisinho contido, morrendo de vergonha por estar fazendo aquilo. E daí, como Jongin resistia à aquele homem? Exato, não tinha como. Essa era a resposta mais simples.
E com isso em mente — além do sorriso lindo do Do —, decide que a melhor opção seria se declarar para o mais velho. Seria o certo a se fazer, pois uma hora ou outra, os suspiros que soltava quando Kyungsoo passava à sua frente lendo algo em seu livro de culinária, ou os sorrisinhos apaixonados que abria quando o ouvia falar sobre alguma receita que gostaria de fazer, iriam denotar seus sentimentos.
A declaração era o melhor a se fazer, correto?
Entretanto, o mais novo tinha apenas um pequeno problema: a mentira. É, meus caros, Jongin não conseguiu iniciar a nova fase de sua vida sem a presença das temidas mentiras, e Kyungsoo, por uma infelicidade, já tinha conhecimento da temida fama do companheiro de quarto. Inclusive, o mais velho já havia presenciado diversos momentos em que o Kim mentia na maior cara de pau , sem escrúpulos algum, chegando até a assustar o mais velho com esse jeito estranho de levar a vida.
Logo, a fama que tentou deixar no tempo do colégio, se espalhou pelo campus da universidade e, bem… Nem Jongin e nem outro alguém conseguiu impedir que a fama não se alastrasse, principalmente pelo o Kim ter uma facilidade quase palpável em mentir. E essa fama era o principal problema na visão do dançarino, já que tinha medo das consequências que poderiam acarretar.
E se o Do não acreditasse em si? E se achasse que era mais uma mentira? E se achasse que estava brincando consigo?
Vários “e se?" rondavam os pensamentos do rapaz de cabelos acinzentados, mas como aquele ditado: a esperança é a única que morre , Jongin se apegaria até o último fiozinho de esperança que tinha.
Jongin tinha uma única certeza: se caso não desse certo sua declaração, nas piores das hipóteses, iria receber a recusa de seus sentimentos pelo mais velho e de praxe, um coração partido em diversos pedacinhos, e uma superação que iria demorar bastante tempo, já que ao acordar iria ver o motivo das palpitações do seu coração, e ao dormir também. Todavia, esse era um risco que o Kim iria correr, pois tinha certeza que mais na frente se arrependeria por não ter se declarado para a pessoa que estava apaixonada.
E agora, caros leitores, convido-os — oficialmente — a ler essa declaração de amor um tanto quanto atrapalhada mas, fofinha ao mesmo tempo. Já lhes adianto, vocês não perdem por esperar!
[...]
O evento do ano — leia-se “a declaração do ano” — iria acontecer na sexta-feira à noite no dormitório onde passavam a maior parte do tempo, após as aulas noturnas dos rapazes, pois no sábado Kyungsoo viajaria com os amigos, e a coragem que Jongin mantinha guardada para de declarar estava de esvaziando dia após dia. Assim, não poderia esperar mais nenhum segundo.
Havia traçado todo o seu itinerário até chegar o grande momento. Na quarta feira tinha feito a encomenda em um restaurante muito bom e próximo da universidade — sim, Jongin era um pouco apressado — da comida preferida do mais velho: tteokbokki . E também, havia ido em uma loja de doces, comprando bombons de frutas e tradicionais. Pensou em comprar flores, mas se lembrou a tempo das palavras do Do, informando que era alérgico a pólen, e desistiu da ideia.
Estava tudo prontinho e não tinha como dar nada errado. Mas como tudo não são flores, Jongin se enganou… E como se enganou!
Na sexta-feira, o dia mais importante, o professor de Jongin resolveu passar um trabalho na metade da aula, fazendo com que seus planos atrasassem; apressado, enviou uma mensagem ao restaurante, suplicando para fazer a comida um pouquinho mais tarde, para que estivesse quentinha quando fossem comer mais tarde. Depois de explicar toda a situação, o gerente concordou em ajudá-lo. Nunca foi tão grato em toda a sua vida por isso.
Quando a aula acabou, saiu correndo da sala, causando espanto em muitos alunos e no professor, mas não ligou, pois tinha algo muito mais importante do que ficar parado que nem uma mosca morta na sala. Chegou no local esbaforido, respirando sonoramente alto enquanto se apoiava nos joelhos para se recompor, mas com o gostinho de desejo cumprido ao ver a sacola bem enfeitada com a comida que pedira.
— Olha, não sei nem como agradecer direito. Meu pai, vocês foram uns anjos hoje! Sério mesmo, vou indicar esse restaurante pra todo mundo — disse, enquanto pagava a encomenda, recebendo risos em respostas e agradecimentos.
Se despediu dos funcionários, e andou apressadamente em direção aos dormitórios, pois não queria chegar em uma situação degradante. Em todo o percurso, apenas torcia para que o Do também tivesse que ficar em sala de aula, fazendo alguma atividade culinária requisitada pelo professor, como todas as outras sextas-feiras anteriores.
Só que mais uma vez, a vida lhe deu uma rasteira, pois ao abrir a porta, deu de cara com Kyungsoo saindo do banheiro, com uma toalha enrolada na cintura, enquanto secava os cabelos com uma outra toalha. Em outros momentos ficaria observando aquela belíssima cena extasiado, quase indo para outro planeta, mas agora, só conseguia pensar o quão azarado era!
O plano perfeito aos poucos começava a escorrer pelo ralo, causando um amargor na boca do Kim. Tinha planejado arrumar todo o quarto, deixando-o o mais apresentável possível, mas não deu certo mais uma vez. Apenas queria causar uma boa impressão ao mais velho, seria pedir muito? É, pelo andar da carruagem, seria… E como seria! Entretanto, como bom articulador que era, Jongin logo analisou todas as opções para que um improviso ocorresse, para que seu objetivo fosse concretizado.
— Ah, você chegou… Comprou comida? — A voz de Kyungsoo fez o Kim despertar dos pensamentos que estavam a mil, tentando achar uma solução para aquele problema que estava atrapalhando seus planos.
Fechou a porta, colocando as sacolas em cima da bancada pertencente ao Do, virando-se para ver melhor o mais velho. Kyungsoo encarava-o com um vinco nas sobrancelhas, com curiosidade sobre todas aquelas sacolas que havia trazido consigo. O moreno, no tempo em que passou paralisado na porta pensando no que fazer, havia vestido apenas uma bermuda clara, sem nenhuma peça no tronco.
Em outros tempos pensaria o quão sortudo era por ver de perto aquele monumento em forma de pessoa a sua frente, mas agora só conseguia pensar o quão azarado era.
— Comprei comida pra gente — comentou, sorrindo. — A semana foi bem complicada, então nada melhor do que encher o buchinho de comida, né?
— Ah, muito gentil da sua parte, Jongin-ah. Estava te esperando pra pedir algo pra comer mesmo. Vou guardar a toalha no banheiro e já te ajudo a montar a mesa… — Sem esperar a resposta do Kim, o Do andou a passos lentos ao banheiro, não conseguindo notar a rápida movimentação de Jongin pelo quarto.
Jongin pegou a pequena mesinha dobrável ao lado da escrivaninha do mais velho, arrumando-a no pequeno espaço entre as camas. Após pegar as sacolas com as comidinhas, posicionou-as a cada extremidade da mesa, juntamente com os hashis ao lado. No pequeno frigobar, pegou duas garrafinhas de sucos naturais de laranja, depositando-as na mesinha, com dois copos descartáveis.
— Oh! — Interrompeu seus afazeres quando ouviu o exclamar surpreso do Do. — Eu falei que ia te ajudar… — falou.
Jongin podia jurar de pé junto que a pequena frase tinha um ar um pouco manhoso vindo do mais velho, mas dispersou tais pensamentos à medida que o menor chegava perto de si.
— É, quis dar uma folga para você — disse, coçando sua nuca em um sinal de nervosismo. Afinal, iria se declarar para o seu crush . — Pode se sentar e ficar à vontade, comprei a sua comida favorita.
— Não me diz que é tteokbokki ? — Jongin assentiu, enquanto abria ambas as marmitinhas de isopor, revelando a comida gostosa e o cheirinho maravilhoso dos temperos. — Às vezes fico surpreendido com você, porque era justamente isso que iria sugerir para comermos hoje.
Jongin riu, levando a comida suculenta à boca, a deliciando.
Iniciaram o jantar, comendo em silêncio, inundados de seus próprios pensamentos, no entanto apenas um estava nervoso, com os pés batendo rapidamente no chão frio; as mãos, um tanto trêmulas, eram disfarçadas a cada minuto que levava a mão a nuca ou coçava a cabeça. Estava, inutilmente, tentando mascarar algo que era impossível de esconder.
E sabia, lá no fundinho, que logo Kyungsoo notaria o modo atípico que estava agindo, ainda mais por ser alguém falante durante o jantar. Apesar disso seria até melhor, não é? Assim, poderia externalizar o que estava, a tanto tempo, pensando. Nos últimos dias vinha formulando a melhor forma de se declarar; quais palavras usar? Prepararia o terreiro ou seria direto? E o principal, como iria reagir quando Kyungsoo estivesse a par de seus sentimentos?
E o suspiro alto do rapaz de cabelos acinzentados foi o estopim para que o Do perguntasse aquilo que o Kim já estava esperando, dado ao seu comportamento.
— Aconteceu algo? Você está um pouco estranho...
Jongin parou de mexer a comida, levantando os olhos e encarando a imensidão expressiva chocolate que eram os olhos do Do. Ele o encarava com curiosidade, piscando em expectativa, aguardando sua resposta pacientemente. O rapaz mais alto tomou um longo gole do suco de laranja, depositando o copo na mesa em um baque mudo, mas que fez o mais baixo arquear as sobrancelhas.
Aquela era hora, Jongin tinha certeza. Respirou longamente antes de encarar Kyungsoo nos olhos e lhe dizer:
— É, aconteceu. Não sei nem como começar a te dizer isso, na verdade. Pensei muito essa semana em como iria te falar, mas nada que pensei foi o suficiente. — Jongin esticou o braço e apertou levemente a mão do roomate, querendo trazer mais seriedade ao momento. — Posso estar fazendo a maior burrada da minha vida, mas era o certo a se fazer. Kyungsoo, eu estou apaixonado por você! — Junto com a declaração, o Kim pegou com o braço vago os chocolates escondidos embaixo da cama que o Do gostava, o entregando. O sorriso genuíno nos lábios do Kim cintilavam.
Os minutos seguintes pareceram se arrastar, ainda mais pelo silêncio vindo da pessoa pela qual Jongin estava apaixonada.
Kyungsoo estava estático, com os olhos arregalados por trás dos óculos redondinhos e apertando fortemente a mão entrelaçada com a do mais novo. Em outros momentos poderia considerar a cena fofa, mas agora era diferente. Estava diante de uma realidade que o assustava em níveis astronômicos, deixando-o a cada segundo que passava mais apreensivo pela falta de resposta do outro rapaz.
Mas o que pareceu uma eternidade teve seu fim no momento que Kyungsoo se mexeu, largando a mão do Kim. O mais velho piscou os olhos chocolates, focando-os no copo plástico entre os dois. Ele abria a boca repetidas vezes, tentando dizer algo, mas sempre desistindo quando seus olhos cruzaram com os de Jongin. Entretanto, quando Kyungsoo conseguiu formar alguma frase que prestasse, não fora exatamente o que o mais alto queria ouvir.
— Eu… Nossa… — disse Kyungsoo, em estado de torpor. — Eu… Muito obrigada pelos chocolates… Não estava esperando isso, Jongin. Quer dizer…
— Sei que foi repentino, hyung. Mas, pensei que fosse o certo a se fazer, estava com medo de como reagiria caso descobrisse por si só ou por terceiros, e então decidi fazer esse jantar para me declarar...
— Sim, sim. Te entendo, só estou… Tentando assimilar tudo isso.
As mãos de Kyungsoo sinalizaram entre os dois, e logo passou as mãos pelos cabelos. Jongin conhecia muito bem Kyungsoo para saber que aquele gesto significava que ele estava nervoso. Mas, entendia muito bem o mais velho, afinal, não era todo dia que alguém, que era seu colega de quarto e te via todo santo dia, se declarava para você. Era algo que acontecia apenas em filmes e livros.
— Eu não sei nem o que dizer… Não sei nem como acreditar nisso, para falar a verdade, Jongin.
E é nessa hora que um balde imaginário de água fria foi despejado na cabeça do rapaz de cabelos acinzentados. As palavras nem acreditar rodavam em sua cabeça como se estivessem em um roda gigante, na velocidade máxima. Como assim ele não acreditou? Olhar nos olhos do mais velho e se declarar da forma mais genuína possível não havia o feito acreditar nos seus sentimentos?
— Por quê “nem como acreditar”, hyung? Não entendi muito bem isso. — Jongin perguntou, um pouco atônito, unindo as mãos sobre a mesinha.
— É que fica um pouco difícil de acreditar por causa da sua fama. Digo, a fama de mentiroso. Não sei se o que você está dizendo quanto aos sentimentos são verdadeiros ou não, e isso me preocupa.
— Mas, hyung, são verdadeiros. Juro de dedinho, oh… — Em um gesto infantil, Jongin uniu os dedos indicador e médio de ambas as mãos, mostrando ao Do que estava falando a mais pura verdade. — Eu sabia que isso poderia ser um problema, mas fiz tudo isso com o objetivo de convencer que eu estou realmente apaixonado por você, Soo hyung. Eu olhei no fundo dos seus olhos…
— Você já olhou diretamente nos olhos de muita gente e me segredou logo depois que era mentira. Como vou saber que você não está brincando comigo? Não vou entrar de cabeça em algo já sabendo que futuramente irei juntar os estilhaços do meu coração despedaçado. — O mais velho sorriu, envergonhado.
Um novo silêncio se fez pelo quarto, com ambos os jovens se encarando fervorosamente, mais uma vez imersos em seus pensamentos.
De um lado estava Kyungsoo, tentando assimilar a declaração inesperada vinda de seu colega de quarto. Fora uma surpresa gigante a exposição dos sentimentos que o mais novo nutria; e ficava ainda mais surpreso consigo mesmo, pois, apesar de estar com um pé atrás, pensando que aquilo era mais uma mentirinha qualquer, queria, lá no fundo, que fosse verdade. Queria viver algo romântico com o roomate, apesar de todas as consequências que poderiam trazer futuramente.
Enquanto do outro, Jongin tentava achar uma saída que o ajudasse a convencer o rapaz de cabelos escuros de que sim, estava perdidamente apaixonado em cada pedacinho dele. Seu coração chegava a doer diante daquela “recusa” implícita. Olhando para ele, só conseguia pensar o quão sortudo seria caso conseguisse uma única chance com o rapaz; iria, de todas as formas possíveis, a cada dia que se passava, reafirmar o quão apaixonado estava pelo baixinho.
— Hyung, e se eu provar que meus sentimentos são verdadeiros?
A pergunta, feita em um tom inocente pelo Kim, fez Kyungsoo sorrir, e trouxe um pequeno fio de esperança ao rapaz mais alto.
— Não trata-se de “provar”, mas sim, de demonstrar. Não quero que seja algo forçoso, mas sim leve, genuíno — ripostou o Do, com seu olhos brilhando. — Vou te confessar algo… Desde o primeiro dia te achei alguém muito lindo e muito fofo, principalmente pela manhã… — Ambos riram com a constatação, sabendo do jeitinho manhoso que o Kim tinha pela manhã, não querendo acordar e sair da cama. — Apenas tenho medo de entrar de cabeça e quebrar a cara depois. Não estou negando nada, só tenho…
— Eu entendi, hyung. Apenas receio por causa das mentiras… Mas, te garanto, meus sentimentos são os mais sinceros e verdadeiros possíveis.
Kyungsoo assentiu, esboçando um novo sorrisinho, desta vez um tanto envergonhado. O que foi suficiente para ter certeza de que se caso se esforçasse em demonstrar que tudo que sentia era verdadeiro, poderia ter uma chance com o moreno. E, caso isso acontecesse, iria agarrar com unhas e dentes, mostrando a cada dia que tinha valido a pena a escolha do Do. Entretanto, como faria isso?
Não teve muito tempo para pensar naquele momento, já que Kyungsoo pigarreou, chamando a atenção do mais alto.
— Vamos retornar a comer… Já está ficando frio! — Comentou, levando a comida a boca, incentivando que Jongin fizesse o mesmo, que fora prontamente atendido por ele.
Durante o restante do jantar tentaram manter o clima agradável, porém era impossível para o Kim agir de maneira espontânea e focado nas histórias que o Do contavam sobre mais uma de suas receitas, quando pensava em uma maneira de demonstrar que gostava do outro. As ideias em sua mente ainda eram um tanto nubladas, contudo, iria descobrir algo mais cedo ou mais tarde.
[...]
Jongin andava pelos corredores do dormitório, um tanto perdido em seus pensamentos. Desde que havia se declarado ao companheiro de quarto, sua cabeça estava a mil, pensando em como iria demonstrar seus sentimentos ao mais velho. Sua cabeça estava até doendo com tantas possibilidades, e por isso decidiu procurar seus amigos para iluminar suas próximas decisões.
Pelo menos, Kyungsoo não estava no mesmo recinto que si mesmo no final de semana, já que havia viajado com seus amigos naquele final de semana. Era um alívio no meio do dilúvio que estava sua vida naquele momento.
— Preciso da ajuda de vocês! — Ditou, assim que Baekhyun apareceu na porta. Entrou, sem aguardar seu convite pessoalmente.
— A que devemos a honra de vosso senhorio? — perguntou Byun, enquanto se jogava na cama.
— Ontem me declarei para o Kyungsoo, mas ele não acreditou muito nos meus sentimentos por causa das mentiras que falo. Daí, propus provar meus sentimentos, e ele falou sobre demonstrar. Já pensei em todas as possibilidades possíveis e nada parece bom o bastante …
— Se acalma, Jongin. Respira… Inspira… — Ajudou Jongdae, segurando seus ombros, o levando para se sentar na cama junto a Baekhyun.
— Ele não te rejeitou totalmente, não é? — Negou a pergunta do mais velho. — Menos mal, pelo menos não te descartou por completo. Ele falou exatamente o quê?
— Hm… Basicamente disse que sou lindo e fofo, mas que tem medo de entrar de cabeça em um relacionamento comigo, e depois se iludir pensando que tudo não passava de uma mentira. Mas, hyung, não é, vocês bem sabem disso!
— Sim, Jonginie, sabemos disso. — Jongdae confirmou, sorrindo. — Iremos te ajudar o máximo que pudermos.
E pela próxima hora, os três rapazes iniciaram uma busca implacável pela opção perfeita para demonstrar os famigerados sentimentos ao Do, mas nada parecia o suficiente. As opções giravam em ideias idiotas ou que não pareciam serem suficientes, já que sempre faltava algo, e se sentir insatisfeito a cada chance jogada no lixo não era algo tão impossível assim.
Todos os rapazes presentes naquele cômodo estavam exaustos de tanto pensar em uma possibilidade, principalmente Jongin, que estava com sua cabeça latejando ainda mais intensamente do que quando chegou ali.
— Não pensei que seria tão difícil… — disse Baekhyun, suspirando, tendo a concordância dos calouros. — Ainda mais com o Jongin discordando das ideias que pareciam ser as melhores.
— Falou certo, “pareciam”, mas não eram. Ou eram ideias toscas, ou fora do orçamento, ou muitos blés , ou só… Não era pra ser, tá legal? Tem que ser algo singelo, que demonstre realmente meus sentimentos, e não uma coisa muito elaborada. Vai que ele entende tudo errado? Daí, lascou!
— O único problema em você não decidir o que fazer, é o simples motivo de estar pensando demais, e isso está te afetando. — Jongdae disse.
— Talvez sim, talvez não. Só quero que nada saia errado, por isso estou me importando tanto.
— Não tem como sair 100%, Jongin. E você sabe bem disso! — Baekhyun falou, apontando o dedo para si. — Mas enfim, vamos continuar a procura.
Será que eles estavam certos? Estaria ele pensando demais sobre aquele simples assunto?
Suspirou, afundando sua cabeça no travesseiro fofinho do Byun, tentando arrumar seus pensamentos, e procurar algo que prestasse para o ajudar nesse grande impasse na sua vida amorosa. E precisava disso urgente!
Sem mais ideias possíveis, resolveu recorrer à única ferramenta que poderia lhe dar uma luz nessa procura incansável. Abriu a aba do famoso tio Google, enquanto ouvia seus amigos discutirem algo que o ajudasse. Procurava furiosamente em diversos sites sobre dicas para demonstrar os sentimentos, mas a maioria mostrava as coisas mais óbvias possíveis e que não o agradava de maneira nenhuma.
Entretanto, e se o óbvio fosse o certo?
Em meio a esse questionamento específico, achou um site que continha todas as respostas que necessitava. Era nada mais, nada menos que um site contendo as principais dicas para demonstrar seus sentimentos, e era mais simples do que imaginava. Tudo bem que não era aquilo exatamente que precisava naquele momento, mas quem sabe não teria algo que iluminasse sua cabecinha?
Jongin se pôs a olhar tudo que aquele texto todo enfeitado com os mais diversos emojis dizia. Pode constatar que as palavras que mais se destacavam ao longo dos quatro parágrafos lidos eram a simplicidade , à espontaneidade e a maneira como se portava em todos os movimentos que iriam ser feitos.
E com base naquele site frufru, diversas ideias começaram a explodir pela cabeça, fazendo um grande sorriso surgir nos lábios do universitário de dança. Aos poucos, o esboço do que poderia considerar regrinhas para demonstrar sua paixão ao roomate davam sinais de vidas, causando uma esperança que estava precisando desde o momento em que se declarou e por todo o final de semana.
— O Jongdae hyung disse que eu estava pensando demais, e que isso estava afetando meu desempenho em pensar em algo. — Jongin iniciou, retirando o olhar da tela do celular e dirigindo aos amigos — E, de fato, é verdade. Estou tão preocupado em sair tudo direitinho, que não estou pensando que isso pode ser a fonte dos erros. O que estou dizendo é, tenho que fazer algo simples, que tocará o coração de Kyungsoo, mas também ser o mais espontâneo possível; ser do meu jeitinho, como ele me conheceu. Criar algo que se conecte comigo, entendem?
— Entendemos sim, e era justamente isso que estávamos tentando dizer. Por linhas um pouco tortas, mas era isso… — Comentou Baekhyun. — Já tem algo em mente?
— Ele estuda sobre culinária, estava pensando em fazer algo nesse sentido? Quem sabe, fazer café da manhã?
— Tipo, mimar ele? — perguntou Baekhyun com uma das sobrancelhas arqueadas, enquanto batucava um dos dedos no queixo, pensando. — Acho que daria certo. Um café ali, um jantar acolá, um chocolatinho de sobremesa aqui… — completou.
— Boa ideia, hyung. Vou anotar aqui no celular! — disse, animado, enquanto abria o bloco de notas para escrever a mais nova ideia.
1º MIME O CRUSH
Abaixo do título escreveu todas as exemplificações do que poderia ser feito a partir das opiniões dadas pelos amigos, pois quanto mais informações colhia, melhor seria na hora de botar aquela regrinha em prática. Quanto mais itens adicionava, mais aquele sentimento romântico reluzia em seu peito, ansiando por fazer cada coisinha que estava escrevendo.
— O que vocês acham de por essa “regrinha” em ação esse final de semana? O hyung estendeu a viagem e só volta no domingo à noite, e estava pensando em deixar um mimo na cama dele… Quem sabe chocolate?
— Ótima ideia, Nini! Tenho certeza que ele ficará tocado por este gesto… — Concluiu o Byun, pensativo. — Estava pensando aqui, será você participar de algo que ele vai cotidianamente seria uma boa?
— Acho que sim, contanto que o Nini não force muito a barra — respondeu Jongdae.
— Tá bom, vou anotar aqui.
2° PARTICIPAR DE UM MESMO PROGRAMA QUE O CRUSH
E mais uma vez escreveu abaixo do título colorido e gritante a palavra “culinária”, para lembrá-lo de conferir se havia algo que o Do faria nos próximos dias e, dependendo da complexidade, iria participar conjuntamente com o mais velho.
— Não sei se vai ficar no mesmo sentido que essa segunda “regrinha”, mas chamá-lo para algo que ele goste acredito que seria legal. — Comentou o Kim mais velho.
— Sim, também acho, porque seria como um encontro. Escreve isso aí também, Nini! — Baekhyun mandou.
3° LEVE O CRUSH PARA UM PROGRAMA QUE ELE GOSTA (leia-se, um encontro, sem dar pinta que é um)
— Tá certo… Acho que já deu, não é? Não quero escrever um monte de coisas que não conseguirei cumprir e, além do mais, tenho medo de ser um pouco insistente e levar o hyung para longe — disse Jongin, observando com afinco todas as informações que havia escrito nas notas.
Os olhinhos chocolates do Kim passavam por todas as linhas, lendo e relendo o que havia anotado, enquanto ouvia os amigos conversarem sobre o que poderia ser feito dali para frente, em quais passos seguir. Sua cabeça também estava fervilhando de ideias, mas não conseguia afastar o medo caso o Do interpretasse algo contrário do que estava imaginando.
Por esses motivos, decidiu escrever a última “regra”, que considerava ser a mais importante dentre todas as anotadas.
4° SE NOTAR QUE KYUNGSOO SE SENTIU INCOMODADO COM QUALQUER COISA QUE FOI FEITA, A MISSÃO SERÁ ABORTADA. E TAMBÉM, SE CASO, DEPOIS DE TODAS AS REGRINHAS FEITAS NÃO SURGIREM EFEITOS ALGUM, NÃO INSISTIR!
E com todas as ideias novas sendo postas "à mesa", mal podia esperar para iniciar e demonstrar seus sentimentos mais genuínos ao seu hyung, e esperava, do fundo do seu coração, que o mais velho acreditasse nele. Mas também, já se preparava antecipadamente se nada desse certo, iria seguir seu caminho, como também Kyungsoo faria o mesmo.
Todavia por agora, Jongin iria apenas pensar em seu pequeno plano de convencimento e de como iria fazê-lo ao certo.
[...]
O pequeno plano de convencimento dos sentimentos de Kim Jongin a Do Kyungsoo se iniciou naquele final de semana, no final do domingo, quando o veterano chegou de viagem. Assim, deu início a primeira “regrinha”.
Durante a tarde, foi ao shopping universitário à procura de algo comestível para presentear o mais velho, preferindo comprar uma barrinha energética e uma garrafinha de suco natural de laranja. Afinal, o roomate estaria voltando da sua viagem naquela noite, a qual havia comentado anteriormente que seria em um local distante, e muitas horas de ida e volta.
Quando chegou ao quarto, deixou a barrinha de cereal em cima da cama, juntamente com um bilhete escrito à mão com a seguinte mensagem: “Você esteve em uma grande viagem recentemente, e acredito que precise de algo mais para renovar suas energias. Além da barrinha, tem suco de laranja (seu preferido) no frigobar. Att. Jongin” . O conteúdo, apesar de simples, transmitia um tantinho do que o Kim estava sentindo e não poderia estar mais feliz. Deixou o pequeno bilhete abaixo da comida, guardou o suco no lugar adequado e foi ao banho,
Sem mais nada do que fazer após guardar a garrinha com o conteúdo amarelado no local adequado, resolveu se banhar.
Depois de sua higienização, deitou na cama e se cobriu o máximo que podia. Infelizmente, por mais que esteja sendo a pessoa mais corajosa do mundo em botar seu plano em prática, não estava pronto para ver qual seria a reação do moreno quando visse o que havia comprado, apesar de — lá no fundinho — ter uma pontinha o cutucando para ficar acordado e ver toda a cena com seus próprios olhos.
E, caros leitores, foi o que Kim Jongin fez.
Com seu jeitinho de ser, deixou apenas seus olhos aparecerem por entre o emaranhado de cobertores, pois seria mais fácil camuflar sua “sonolência” caso Kyungsoo o observasse após ver o que tinha deixado em cima da sua cama. Tudo estava esquematizado em sua cabecinha e tinha a certeza de que nada daria errado; conseguiria ver a reação do mais velho e logo depois dormiria feliz — pelo menos era o que pensava o calouro.
Após um tempo consideravelmente longo para Jongin, passadas pesadas e vozes altas, apesar de abafadas, começaram a ser ouvidas vindas do corredor no dormitório. As novas movimentações fizeram o rapaz de cabelos acinzentados se encolher sobre a cama, pois conseguia distinguir que uma das vozes era de Kyungsoo por estar se despedindo dos amigos e destrancando a porta.
Quando o mais velho adentrou, de fato, ao cômodo, pode ouvir ele se mexer, deixando objetos jogados em alguns cantos e passadas por todo o local de maneira calma, como o moreno era. Queria ver o que ele estava fazendo, mas a posição que estava não o deixava ter uma visão mais clara do ambiente. Além disso, não queria estragar o seu belo plano tentando ver algo tão corriqueiro como Kyungsoo andando para lá e para cá, como todos os dias.
Jongin queria ver apenas uma cena, e apenas essa o interessava.
E como um sinal dos deuses, conseguiu ver Kyungsoo colocar a mala sobre a cama, a abrindo. De onde estava, podia perceber o moreno distraído, procurando algo por entre as roupas perfeitamente arrumadas. Foi apenas quando pousou uma caixinha enfeitada que todos os seus movimentos pararam. Naquele exato momento, um comichão se formou no baixo ventre de Jongin, e se segurou o máximo possível para não fazer barulhos que o denunciasse.
O veterano se aproximou, pegando a barrinha e o bilhete o examinando com atenção. Jongin morreu de amores quando o mais velho espremeu os olhos, tentando ler o conteúdo escrito no pequeno papelzinho, justamente por estar sem seus costumeiros óculos de grau. Agradeceu pelo Do estar parcialmente virado em direção a sua cama, dando a plena visão daquela cena tão fofa e engraçadinha.
Aos poucos, um sorriso se formou nos lábios de Kyungsoo, fazendo-o ficar cada vez mais lindo sob a luz fraca do abajur. Ele ficava intercalando o olhar entre o bilhete, a barrinha, o pequeno frigobar escondido entre a porta do banheiro e a escrivaninha do Do. Lentamente, observou virar-se e ir em direção a algum lugar do quarto que não conseguiu ver ao certo, fazendo-o se corroer em curiosidade. Mas antes que fizesse algo impensado, no puro impulso, se controlou.
Não teve muito o que pensar, pois logo os passos começaram a ser ouvidos e pelo andar, podia deduzir que estava vindo em sua direção. De imediato fechou os olhos, tentando manter aquela farsa inventada. Entretanto, o que Jongin não contava era que o roomate iria chegar perto demais de si, se aproximando perto demais, deixando totalmente alerta pelos próximos movimentos.
Mas o que não poderia contar era que Kyungsoo depositou um beijinho sobre sua testa.
Um beijinho na testa!
— Obrigado, Nini… Você é o melhor! Boa noite… — sussurrou, depositando mais um beijinho do mesmo local que o anterior.
Por diversos minutos não soube como reagir ao pequeno afeto que havia recebido. Ele estava no céu, sem acreditar que aquilo havia acontecido; na verdade, era a única resposta para o que havia acontecido. Instantaneamente virou-se, ficando de frente para a parede, longe do homem que revirava seus pensamentos como nunca havia acontecido em sua — não tanto — pacata vida.
Pela madrugada que se seguiu, podíamos dizer que Jongin se acalmou, mas não foi bem isso que aconteceu. As horas passavam e o calouro tocava o local que foi beijado constantemente, com um sorriso nos lábios, lembrando-se das sensações que havia sentindo com um ato tão inesperado como aquele. Era algo tão surreal que, simplesmente, passou todas aquelas horas pensando nesses acontecimentos e em como reagiria quando visse Kyungsoo pela manhã.
Depois de uma madrugada conturbada em claro, sem conseguir dormir, resolveu levantar quando os primeiros raios de sol despontavam ao longe. Foi a passos lentos ao banheiro, onde se trancou ali até que estivesse em um estado, no mínimo, apresentável. Quando saiu do pequeno cubículo, pôde notar melhor como estava o quarto, com a mala jogada no chão, totalmente aberta com algumas roupas largadas do lado de fora. Bem incomum para alguém tão organizado como o Do.
Contudo, o que deixou o coraçãozinho do Kim um tantinho acelerado foi a embalagem vazia da barrinha de cereal largada na cômoda, juntamente com a garrafinha de suco vazia. Ficou tão inerte nos pensamentos quanto ao beijo que nem ouviu quando o mais velho comeu o que havia lhe presenteado.
E por isso, resolveu preparar algo para ambos comeram no café da manhã. O hábito, não tão corriqueiro pelas manhãs, seria uma grande surpresa para Kyungsoo quando acordasse e visse os sanduíches e o café que havia preparado. Mas agora era diferente, pois iria se dedicar ainda mais para sair algo magnífico. Seria algo gostoso, bonito e fizesse o vetereno ficar feliz. Ou, ao menos, iniciar seu dia mais feliz.
Preparou tudo com a maior calma, pois o tempo era bem amplo, já que o horário era cedo. Mas, na correria e nos pensamentos controvertidos, esqueceu-se que o sono do Do era leve, o que o fez acordar antes mesmo que pudesse preparar as bandejas para colocar os sanduíches. Assim, virou-se para o moreno, que esfregava os olhos, se habituando a luz solar, logo passou os olhos por sua cama e, vendo que não tinha ninguém, o olhar passou por todo o cômodo até o encontrá-lo.
— Você está aí, caiu da cama por acaso?
— Nah, só não consegui dormir mesmo. Resolvi te dar uma folguinha para preparar o café, já que estava sem sono — respondeu, levantando a comida pronta e empratada para a cama do mais velho, onde pôs a sua frente.
— Você está me dando muitas folgas ultimamente... — Retrucou, dando a primeira mordida no sanduíche.
— Meio que você merece. Mas me conta, como foi a viagem? — Desconversou, pois não queria começar a explicar os motivos que estavam o levantando a mudar seus hábitos tão repentinamente. Kyungsoo sabia ser bem persuasivo quando queria.
— Legal… Sabe, a gente turistou, visitou vários restaurantes, comemos muitos pratos deliciosos… Foi interessante, um dia vou te levar lá para você conhecer e se encantar, como aconteceu comigo.
— Vou cobrar, hyung. — Com um sorriso maroto, Jongin respondeu.
O coração do Kim errou uma batida quando digeriu o que o mais velho acabara de dizer, pois estava criando uma pequena esperança em seu pobre coração. Não deveria estar pensando sobre isso em decorrência de uma frase insignificante sobre levá-lo para viajar mostrando diversos lugares. Afinal, ele poderia estar dizendo aquilo no sentido de apenas bons amigos, nada mais que aquilo.
Suspirou longamente, dando a primeira bocada no sanduíche. O suspiro chamou a atenção do mais velho, que arqueou uma das sobrancelhas em questionamento. Limitou-se a apenas abanar a mão solitária, com um sinal claro para o outro esquecer o suspiro audível, voltando a comer em silêncio.
— Vou me arrumar, já estou um pouco atrasado. Obrigada pelos sanduíches, Nini! — disse o mais velho, afagando seu ombro enquanto ia para o banheiro,
Jongin pensou em dizer algo, mas desistiu quando ouviu a porta bater e o registro pra lá de enferrujado girar daquela maneira rangente, fazendo a água cair por entre os azulejos. Suspirou mais uma vez, recolhendo os pratos e copos, levando-os para a pequena pia a fim de lavá-los. Depois de terminar a tarefa, arrumou os materiais que usaria naquele dia na aula. Esperou Kyungsoo sair do banheiro para se despedir adequadamente, saindo do quarto.
Andava em passos lentos pelo corredor, pensando no que fazer nas próximas horas, ou até nos dias seguintes. Mas o principal, era no próximo presente que daria ao Do.
E, assim, pelos próximos dias, passou a fazer todos os itens que estavam descritos nas notas do celular. Em dias alternados fazia o delicioso café da manhã, em outros momentos deixava pequenos mimos na escrivaninha ou na cama do Do, principalmente quando estava estudando ou havia voltado de um dia muito corrido. Ou ainda, ficava nos intervalos com Kyungsoo, dividindo a marmitinha que havia comprado.
Podia ser considerado um louco por estar fazendo aquilo, mas toda vez que via o sorriso gigante que Kyungsoo abria quando chegava perto dele com alguma coisa, fazia-o esquecer de qualquer outra coisa. Além disso, conforme fora dando os presentes ao Do, acabava recebendo algo também, com a premissa de que estava recebendo muito, e não dando nada, fazendo sentir-se mal.
A cada vez que recebia algo, seu coração parecia explodir, em um sentido único.
Mas, apesar de sentir que Kyungsoo gostava de tudo que estava fazendo, aos poucos teve a sensação que estava fazendo algo repetitivo, como um disco arranhado, e precisava fazer algo para mudar isso. Por isso, depois de muito pensar, resolveu seguir para a segunda “regrinha”.
[...]
Havia apenas um porém, e era no que faria para colocar o plano em prática, e nada melhor em saber tais informações do que a pessoa que vivia grudada com o Do na universidade.
Era por isso que naquele momento estava andando rapidamente por entre os alunos, tentando não perder de vida o rapaz gigante que ria escandalosamente com outros rapazes.
— Ei, Chanyeol hyung! — chamou alto, prendendo a atenção do rapaz maior que virou-se rapidamente.
— Ah, oi Jongin, como vai?
— Vou bem. Por acaso você teria um tempinho para conversarmos? É rapidinho…
— Claro, o que seria?
— Então, como você e o hyung são melhores amigos… Por acaso saberia se o hyung irá lecionar alguma aula ou coisa assim essa semana aberta ao público? — perguntou, com um sorriso amarelo. Na mesma hora, a expressão no Park mudou, ficando séria.
— Seria para que? — Desconfiado, perguntou,
— Ah, não me leve a mal, é que vou fazer umas mudanças no meu lado do quarto e não queria fazer quando o hyung estivesse no quarto. Sabe como é, ele estuda demais e não queria atrapalhá-lo com o barulho — respondeu o Kim, rapidamente.
Jongin nunca ficou tão feliz em sua vida por estar mentindo sobre algo, pois com certeza conseguiria a informação que queria do melhor amigo do crush.
— Ah, sim. Ele não gosta de barulho mesmo… — ripostou o Park, um tanto pensativo. — Ele vai ter uma aula amanhã à tarde… Por algumas horas.
— Uh, sério? Então amanhã vou arrumar o quarto. Muito obrigada pela ajuda, hyung! — Sorriu, segurando as mãos do mais velho e as balançado, em um sinal de gratidão.
Em todo o momento Chanyeol parecia estar confuso, mas foi rápido o bastante em agradecer mais uma vez e dar-lhes as costas, saindo esbarrando em alguns alunos que o xingaram pela falta de atenção. Mas o que poderia fazer? Estava como uma informação de ouro nas mãos e precisava utilizá-la. Quando já estava um tanto longe do local que havia encontrado Chanyeol, ouviu um grito, que o fez virar-se e encontrar o mesmo rapaz alto com um sorriso de orelha a orelha, mostrando todos os dentes.
— As vagas ainda estão abertas, caso esteja interessado. — E sem esperar sua resposta, virou-se e continuou andando com os amigos pelo corredor extenso.
Após aquela cena um tanto esquisita, só conseguia pensar — além da informação de outro que tinha — que, talvez, estivesse perdendo o dom de mentir. Apenas talvez . Mas balançou a cabeça, lançando para longe esse pensamento, concentrando apenas no que fazia sentido: a aula de culinária que precisava se inscrever o mais rápido possível antes que findasse as vagas.
Depois de uma corrida estilo “the flash” até o prédio de culinária, entrou na primeira salinha que designava-se ser da administração. Pensou que seria apenas chegar lá e pedir para se inscrever na bendita aula, mas não contou com a atendente se negando a recebê-lo pois aquele era o horário do seu lanche. Após muita insistência, conseguiu convencê-la a deixar entrar e escrever seus dados na folha em cima do balcão. Agradeceu a garota infinitas vezes pela ajuda, imensamente feliz.
Pelo restante do dia se programou para como iria se portar naquela aula de culinária, já que era uma pessoa com zero noção em fazer algo comestível; a única coisa que sabia fazer, sem queimar o alimento ou o local onde estava, era seus deliciosos sanduíches.
Durante a noite, quando Kyungsoo voltou ao quarto e passaram alguns momentos juntos antes de focarem em suas próprias lições, tentou agir da maneira mais tranquila possível, sem deixar transparecer nada do que faria no próximo dia. Se bem que, seria um pouco difícil não desconfiar, já que estava agindo um tanto estranho nos demais dias anteriores que se passaram. Entre conversas, tentou agir normalmente, como se uma grande coisa não fosse ser feita no outro dia.
No dia seguinte, durante a aula pela manhã não conseguia permanecer quieto; sempre mexendo os pés, mordendo o topo da caneta e sem prestar atenção alguma na aula mais importante da semana. Mas o que poderia fazer? Estava pensando nas mais diversas formas de como se portar e não fazer nenhuma burrada. Porém, não estava tão certo assim que sairia tudo certo.
No horário marcado no banner divulgado nas redes sociais, estava esperando junto a outros alunos na pequena fila de credenciamento, para depois entrar de fato onde ocorreria a aula. À medida que a fila andava, um comichão se formava em seu baixo ventre, tamanha era sua ansiedade. Tantas perguntas rondavam a sua mente… Como iria se portar? Como Kyungsoo iria reagir quando o viria? E o principal, será que iria fazer alguma merda, a ponto de se envergonhar e se esconder pelo resto da semana no quarto?
Com tais dúvidas em mente, entrou na sala e se posicionou na segunda bancada do cômodo, onde teria melhor visualização de onde o Do estaria ensinando seja qual era a comida. Mas seus pensamentos foram interrompidos quando uma mão tocou seu ombro, o assustando.
— Como foi a arrumação do quarto? — Virou-se para o rapaz alto, que sorria debochado, encostado o quadril na bancada.
— Hm… Acabei não fazendo, — Riu nervoso em resposta. — Você tinha dito que tinha vagas em aberto, então eu só me inscrevi. Simples, né?
— Mentiras, mentiras… — Soltou, maneando a cabeça.
Chanyeol o encarou por o que parecia horas, analisando-o de cima a abaixo, em silêncio. Engoliu em seco, soltando uma risada envergonhada e — talvez — com um pouquinho de medo, uma vez que o gigante o olhava com uma expressão nada boa.
— Kyungsoo me contou o que você anda fazendo e só te digo uma coisa, não vai me querer ver com raiva caso você faça algo que deixe meu amigo mal, entendido Jongin-ssi? — Assentiu rapidamente. — Ótimo, desejo sorte. Vou lá ajudar o Soo! — E com isso, saiu dali.
Com a saída do maior, conseguiu respirar normalmente; nem havia notado que estava prendendo a respiração como toda aquela dura que o loiro dera. Se apoiou na bancada, soltando mais uma lufada de respiração pesada. Já não bastava ter que lidar com toda essa atmosfera de nervosismo, agora teria que lidar duplamente com Chanyeol e sua bronca.
Jongin só conseguia pensar em onde havia enfiado seu burrinho. Mas balançou a cabeça... Era por uma boa causa.
— Boa tarde pessoal… — A voz melodiosa e rouquinha de Kyungsoo se fez por todo o cômodo. Levantou a cabeça, encontrando o moreno no centro, sorrindo. — Sou Kyungsoo, estou no quarto período de Culinária. A pedido do orientador do curso, a partir de hoje começarei a dar aulas de algumas receitas específicas para vocês. São aulas com foco nos alunos do curso, mas são abertas para o público também. Esse aqui ao meu lado é Chanyeol, e me ajudará com vocês ao longo das aulas. Então, sintam-se à vontade…
O calouro de dança se desligou totalmente do mundo exterior, entrando em seu próprio mundinho à medida que via Kyungsoo andar e explicar sobre os procedimentos daquela aula. Apoiou a cabeça nas mãos, admirando a forma como o Do mexia as mãos ou explicava para que cada utensílio servia, respondendo as perguntas pertinentes.
Kyungsoo já era, aos olhos do Kim, alguém lindo… Mas se tornava ainda mais extraordinário quando explicava algo que, claramente, era sua paixão. Poderia estar cometendo um grande erro em não prestar atenção no que o outro dizia, mas era algo maior que si próprio, não controlando essa vontade.
— … Acho que era isso sobre explicação dos utensílios que iremos usar, mas se estiverem com dúvidas, podem me chamar ou a Chanyeol — disse sorrindo, passando o olhar por toda a sala.
E foi naquele momento em que seus olhos encontraram com os de Jongin. O mundo pareceu parar, com ambos os rapazes conectados pelos seus olhares, como imãs. A sala pareceu mais silenciosa do que estava habituado desde que chegou ali, mas não ligou, pois importava apenas olhar para Kyungsoo, mesmo que a expressão dele fosse curiosa, com as sobrancelhas arqueadas. Mas algo tão bom como aquela troca de olhar se findou quando o Do desviou o olhar, claramente envergonhado.
Molhou os lábios em formato de coração e continuou seu monótono, dessa vez, olhando diretamente a pequena turma.
— Ah, desculpe. Continuando… Se precisar de ajuda, pode nos chamar. — Um suspiro alto foi ouvido, mas logo ele continuou. — Houve uma enquete no nosso perfil se seria ensinado uma comida doce ou salgada. A doce ganhou de lavada e, após, foi aberta uma caixinha para possíveis sugestões que foram levadas ao coordenador para escolha. E o escolhido por ele foi o Cheesecake japonês. É um bolo fofinho, que tenho certeza que todos irão adorar fazer. Todos os ingredientes estão em cima da bancada para o preparo, sim? Agora, mãos à massa!
Jongin desviou o olhar do Do, olhando para todos os ingredientes da bancada. Tamborilou os dedos no mármore, entrando em um pequeno estado crítico, o famoso pane no sistema . Não era segredo para ninguém que qualquer coisa relacionada a cozinha, que fosse complexo, e o Kim, era para se ter medo. Um grande sinal de alerta piscou nos pensamentos do calouro para desistir daquela ideia infame, mas é como diz aquele ditado: “quem está na chuva, é para se molhar”.
Parou um momento para ouvir o Do, que pedia para peneirar a farinha de trigo e a maizena em um bol. Olhou para a sua bancada procurando esses ingredientes, mas nada estava muito claro na mente do Kim o que seriam tais elementos. Deu uma espiadinha nas demais bancadas, vendo os outros utilizarem as farinhas brancas. Mas havia um problema, havia três conteúdos brancos!
Bufou e resolveu utilizar o melhor método para distinguir: o paladar. De primeira, já conseguiu descartar um dos três itens, já que tratava-se do açúcar e, pelas outras bancadas, não parecia ter a mesma consistência. Colocando a tarefa na mão de Deus, começou a peneirar com a maior calma possível. Com o canto dos olhos, pode perceber uma movimentação muito próxima de sua bancada, mas resolveu não dar importância, pois precisava se concentrar no que estava fazendo.
— Tudo certo por aqui? — A voz rouquinha, sussurrada perto de seu ouvido, causou arrepios em sua espinha e de brinde, uma peneira voando pela bancada. A sua trapalhada vergonhosa, fez Kyungsoo rir enquanto juntava a peneira, colocando longe das suas mãos. — Acho melhor deixar isso aqui, já está bom de quantidade.
— Pessoal, vejo que todos terminam o primeiro passo. Agora, vocês irão reservar o que peneiraram. Peguem um novo bol e juntem queijo cremoso, manteiga e leite e batam bem. Eu e Kyungsoo estaremos passando nas bancadas para ver o ponto exato. — Chanyeol falou, sorrindo.
Com o Do ao seu lado, pegou um novo bol e juntou os novos ingredientes. Estes, por incrível que parecesse, eram mais fáceis de se distinguir.
— Você não me disse que iria se inscrever, fiquei surpreso.
— É, era surpresa. Quis me aventurar um pouco no seu mundo, mas estou começando a achar que não foi uma ideia muito geniosa não. — Falou, pegando uma colher grande para mexer todo o conteúdo.
— Você vai gostar, tenho certeza. Quando menos esperar, já vai ser um expert na cozinha.
— Nah. Certeza que vou ser um expert em desastre na cozinha, hyung. — Comentou, fazendo o Do sorrir grande.
O papo não durou muito, já que Kyungsoo não estava ali para conversar consigo, mas sim para ensinar e monitorar todos os outros alunos presentes. Após a sua saída, se concentrou em terminar aquela bendita mexida até ficar em uma consistência homogênea, esta que fora aprovada com um joinha e um sorriso por Chanyeol quando passou pela sua bancada.
O próximo passo era separar a clara da gema dos seis ovos que estavam em uma tigela. Aquilo seria fácil e com certeza iria tirar de letra . Porém, não contava que o conteúdo transparente do ovo fosse tão gelatinoso. Uma careta de nojo formou-se no rosto do Kim a cada ovo que quebrava e separava a parte transparente da amarelada. Só conseguia pensar, mais uma vez, onde havia enfiado seu burrinho.
Entretanto, tudo correu bem. Apesar da carreta no rosto, motivo que virou chacota por Chanyeol e Kyungsoo quando passaram por si, conseguiu vencer aquele desafio mais uma vez.
Fez todos os próximos procedimentos com cautela e precisão, sendo sempre assistido por Kyungsoo, que passava em sua bancada de tempos em tempos, muito mais vezes que nas demais. Como um bom esperançoso que era, seu coração se enchia do mais puro sentimento amoroso e também, de diversos questionamentos.
Estava tão absorto nesses pensamentos, que demorou a sentir um cheirinho diferente, e não fora o único que sentiu, já que um burburinho entre os presentes começou a se formar também em decorrência disso. Não demorou muito para distinguir que aquele cheirinho maravilhoso vinha da sua própria bancada. É, meus caros leitores, bem que Jongin avisou que não se dava bem com a cozinha.
Com rapidez, pegou alguns panos para retirar a forma de dentro do forno, só não constava que, por ser alguém um tanto estabanado, quando fosse retirar o bolo queimado de dentro do forno e o tacar de qualquer jeito na bancada, iria, por azar do destino, queimar sua mão nesse meio tempo.
— Merda! — Xingou, enfiado a mão dentro da água gelada. — Merda, merda…
— Ei! — Kyungsoo logo estava ao seu lado, segurando um pano limpo. — Deixa comigo.
O veterano retirou com cuidado a mão do Kim de dentro da pia, ouvindo xingamentos por parte do mais novo, que mexia os pés incansavelmente devido à dor. Kyungsoo, tentando acalmar um pouco o Kim, acariciou carinhosamente a cintura do outro, o que surtira efeito, pois Jongin se desligou um pouquinho do incômodo que estava sentindo nas mãos, direcionando as mãos na cintura.
Aquilo estava realmente acontecendo? Não estava sonhando?
— Está melhor? — Jongin se limitou a apenas assentir, inerte no momentos que estava vivenciando, querendo prolongar um pouquinho mais. — Vou te levar para fazer alguns curativos. Vamos! — Assentiu mais uma vez, sendo conduzido pelo Do para a saída.
Os dois andaram pelos corredores para um lugar muito conhecido pelos dois, uma vez que estavam indo para o quarto que dividiam. O caminho foi silencioso, com Kyungsoo segurando sua cintura e com a outra mão segurava o pano envolvendo a sua mãe. Se sentia até um pouco inútil por estar calado e deixar que o Do fizesse tudo, mas o que poderia fazer? Ainda estava um pouco inerte com todos os acontecimentos,
Seu coração estava palpitando tanto, que parecia até anormal.
Já dentro do quarto, Kyungsoo foi atrás da caixinha de primeiros socorros que deixava no banheiro, voltando logo depois para tratar do pequeno queimada na mão. Na verdade, não era nada demais, era apenas um queimadinho, mas como o Do era alguém muito preocupado, enquanto ele não tratasse o machucado, não aguentaria quieto.
Depois de terminado, o Do acariciou sua mão, sorrindo contido.
— Melhor?
— Sim, pode ficar tranquilo, hyung — O tranquilizou, sorrindo também. — Foi só um queimadinho, sou estabanado por natureza mesmo, quer ver então na cozinha.
— Está certo. Mas uma dica: na cozinha, aja com cautela, por favor.
— Eu estava, mas pode deixar, vou levar essa dica pra vida. Sem bem que, não vou chegar perto da cozinha por um longo tempo, vou ficar fazendo só sanduíches que é a minha especialidade. — Piscou, com um sorriso maroto nos lábios.
— Vou cobrar. Queria ficar aqui com você, mas tenho que voltar só pra garantir que tudo está saindo certinho. Depois eu volto aqui e a gente pede algo… Não tente nada, já volto. — Sem esperar a resposta do Kim, Kyungsoo se aproximou, deixou um beijo na testa do maior e saiu.
Com a saída iminente, deixou um Jongin desnorteado, que lançou-se sobre a cama, batendo os pés e as mãos, enquanto ria. E naquela hora, teve total certeza que deveria continuar seu plano mais que diferente, e partir para a terceira “regrinha”.
[...]
Naquela mesma tarde, antes que o Do retornasse para o quarto, começou a procurar feiras de culinária que estariam a pleno vapor, e encontrou uma perfeita que ocorreria no sábado e não seria tão longe da faculdade. Conseguia visualizar a ida ao local a pé, onde poderiam conversar sobre as mais diversas trivialidades. Poderia estar sendo apenas um bobo apaixonado, mas que mal faria sonhar um pouquinho?
A noite, quando o mais velho debatia sobre qual restaurante iriam pedir a comida, propôs o que tanto estava pensando:
— Soo hyung, você vai ter algo para fazer no sábado? — perguntou, acanhado.
— Por enquanto nada, só iria revisar umas coisas de uma matéria aí, nada lá muito importante. Por que a pergunta?
— Estava pensando em te levar em um lugar, você aceitaria?
— Dependendo onde seria, aceito sim — respondeu, sentando ao seu lado, ainda concentrado na procura de um bom restaurante,
— Seria surpresa — disse, esperançoso. Esfregava suas mãos, aguardando a tão esperada resposta. Enfim, Kyungsoo levantou os olhos, o encarando seriamente, e respondeu:
— Certo, irei com você, apesar de não gostar muito de surpresas. — No mesmo instante, um sorriso largo adornou a face de Jongin, feliz pela resposta.
— Você não vai se arrepender, hyung, pode deixar — disse, sorrindo maroto.
Pelo decorrer das horas daquela noite estrelada, conversaram sobre o que havia acontecido e os motivos que o levaram a se inscrever em uma aula de culinária em que o Do ministrava. Como esperado, mentiu sobre o que levou a tomar a decisão, inventando que queria desafios novos em sua vida. Aparentemente, Kyungsoo engoliu a mentira mequetrefe, apesar de ficar longos minutos o encarando antes de concordar.
Quando o dia tão aguardado chegou, Kyungsoo e Jongin saíram do prédio do dormitório em passos lentos, indo em direção ao centro da cidade, onde a feira de culinária estaria localizada.
Durante o trajeto, o mais velho tentou de todas as formas possíveis arrancar onde estava levando ele, mas foi irredutível em relação. Mesmo que o Do, às vezes, ficasse mexido e quase dava com as línguas nos dentes quando o menor chegava mais perto si, o abraçando pelos ombros, enquanto pedia para lhe contar. Seu coração desmontava naqueles momentos, mas logo se reconstituía novamente.
Ao chegarem no destino final, Jongin continuou andando e demorou a notar que estava só e, ao se virar, viu Kyungsoo parado, levemente com a boca aberta em surpresa.
— Tá tudo bem, hyung? — perguntou preocupado, voltando alguns passos e ficando em frente ao mais velho.
— Tá tudo… Incrível! — Exclamou, sorrindo gigante. — Você me trouxe para uma feira de culinária, tá brincando? Eu amo tudo isso! — Dizendo isso, Kyungsoo pegou a mão do roomate, o puxando para apreciar as primeiras barraquinhas.
E pelas próximas horas, Jongin conseguia definir com a maestria o que viveram: mágico, como em um conto de fadas.
A cada barraquinha que passavam, o Do lhe explicava com a mais bonita paixão como cada comida era feita, Explicando sobre a importância de saborear cada pedacinho que lhe era oferecido, dizendo sobre a arte de identificar ingrediente que fora utilizado naquela receita até chegar ao resultado final, explodindo em sua boca em explosões deliciosas.
Do Kyungsoo era alguém tão sábio e era magnífico ouvir cada palavrinha que saia de sua boca.
Seu coração quase saia pela boca quando suas mãos se encostavam ou quando, de fato, se entrelaçavam, continuando daquela maneira por intermináveis minutos. Como se fosse em um encontro!
Estava tão centrado em cada barraquinha que passava e em cada explicação, que mal viu a hora passar. Logo a noite já caia e a grande maioria das barraquinhas já estavam se fechando e um sentimento de vazio começou a apossar o peito do calouro. Não queria que aquele terminasse, estava tão bom. Nunca havia se sentido tão livre como naquela tarde.
— Isso foi magnífico, Jongin! — Kyungsoo disse, se sentando em um banquinho próximo da vila.
— Fico feliz que tenha gostado, esse era o meu objetivo. — Sorriu, envergonhado. Seu peito explodindo pela forma que o Do envolvia os braços em seus ombros.
— Você é uma das melhores coisas que me aconteceram. — Olhando nos seus olhos, Kyungsoo disse.
Suspirou pesadamente, encostando a cabeça no ombro do mais velho, totalmente rendido à atmosfera que os envolvia.
— E por que não a melhor?
— Existe a culinária — disse rindo, encostando a cabeça sobre a sua.
E com aquela visão magnífica do pôr do sol, passaram o restinho da tarde sentados no banco da vila, apreciando aquele sentimento que concretizava-se aos poucos entres os dois universitários.
[...]
Dias haviam se passado após a ida a feira de culinária e nada na relação com Kyungsoo havia mudado. Continuam amigos, que dividiam um quarto. E por isso, havia se convencido de que iria seguir para a quarta “regrinha”, a da desistência.
Não iria mais insistir nesse plano de convencimento dos sentimentos.
Iria apenas deixar rolar , e ver o que o destino reservaria para ele.
— Ainda acho que você está se precipitando, Nini. Só se passaram alguns dias, e se é realmente o que você diz, você não acha que ele iria tentar te dizer? Kyungsoo é a pessoa mais sincera que eu conheço, ele já teria te dito se não quisesse nada. — Baekhyun falou, em tom de bronca.
— Eu sei, mas você me conhece, sabe como eu sou e… — Não conseguiu terminar a frase, pois uma marmitinha foi deixada à sua frente, junto com uma garrafinha de suco de laranja. Olhou para o lado, encontrando Kyungsoo sorrindo.
— Você saiu muito rápido hoje de manhã e eu não tive tempo de te entregar seu lanche. E como você não comprou nada, resolvi vir te dar. É a sua comida preferida. — Tamborilou os dedos sobre a tampa, e seus olhos automaticamente desviaram para pote, abrindo e encontrando sanduíches .
— Eu… — Jongin tentou dizer, mas foi interrompido pelo Do.
— Eu sei, um pouco inesperado. Mas isso é apenas um agradecimento por tudo que você fez. Os chocolates, barrinhas de cereal, sucos entregues em momentos mais difíceis. Pelos cafés da manhã, jantares… Enfim, por tudo. Sei que é pouco, mas é apenas o começo. — Envergonhado, disse. — Eu queria ficar, mas estou um pouco atrasado. Te vejo à noite no dormitório! — Depositou um beijinho em seus cabelos e foi embora, como se não tivesse feito nada extraordinário.
Ficou paralisado por um longo tempo, tentando assimilar o que havia acontecido a pouco. O coração, palpitando forte de esperança. Seus amigos comemoram em palmas e assobios, dizendo coisas repetidamente rápidas, que não conseguia ouvir, já que estava imerso no que havia acontecido a pouco e no pequeno pote com sanduíches.
Não perdeu tempo e saboreou os lanches deliciosos feitos pelas mãos de Kyungsoo. Estavam divinos, como imaginava. Comeu todos sozinhos, ouvindo as lamúrias dos amigos, mas não dividiu nenhumzinho com eles. Jamais poderia fazer aquilo!
Ainda ouvindo os amigos reclamarem, rumou para as aulas faltantes do dia. Queria que elas passassem o mais rápido possível, mas parecia que quanto mais pedia, mais lerdas passavam. O ponteiro do relógio acoplado na parede demorava milênios para passar de um minuto para outro. Seus pensamentos estavam a mil, questionando-se o que estava acontecendo e se poderia acontecer algo quando chegasse ao quarto que dividiam, logo mais.
Entretanto, suas dúvidas foram respondidas quando abriu a porta, deparando-se com um Kyungsoo em pé, balançando os pés em nervosismo, enquanto havia um pequeno banquete disposto na mesinha dobrável que utilizavam com frequência.
A surpresa estava estampada no rosto do Kim, não entendo ao certo o que de fato estava acontecendo ali. Mas não poderia negar que uma fagulha de esperança estava presente em seu peito.
— O quê...? — perguntou, fechando a porta e largando a mochila sobre a cama.
— Eu sei, eu sei. Hãm… Surpresa? — Kyungsoo abriu os braços, sorrindo envergonhado. — Jongin, quando você se declarou, fiquei muito surpreso, e fiquei ainda mais quando você propôs demonstrar seus sentimentos. No começo, não entendi muito bem, mas depois fui assimilando que cada coisinha que você me dava, a cada momento que você tentava entrar no meu mundo eram essa demonstração — disse, perto o suficiente para olhar em seus olhos e segurar seu rosto com as mãos delicadas.
“Esses momentos fizeram meu coração quase saltar pela boca, em felicidade por ver você tentando me agradar, mesmo não precisando disso. Fui claro com você quando disse que era atraído pela sua pessoa, lá quando se declarasse, e isso não mudou em nada. Pelo contrário, isso se expandiu a cada nova demonstração. O que estou querendo dizer é que quero tentar algo como você. Jongin, estou completamente apaixonado por você!”
Sem esperar uma resposta do Kim, o moreno se aproxima um pouco mais, encostando os lábios em formato de coração nos carnudos do dançarino. Os lábios se encostaram em um selinho raso, como se estivesse pisando em um campo minado, sem saber qual próximo movimento faria. Mas se dependesse de Jongin, não haveria campo minado nenhum.
O rapaz de cabelos acinzentados apertou carinhosamente o quadril do menor, puxando-o para mais perto de si, aprofundando aquele beijo apaixonado e tão esperado por ambos. Explosões de sentimentos envolviam aquele beijo, em uma exposição lenta e fervorosa.
Findaram o beijo e encostaram suas testas, respirando acelerados devido a falta de ar momentânea. Sorrisos genuínos adornavam seus lábios, demonstrando a felicidade por exporem seus sentimentos um ao outro.
— Prometo que te farei o homem mais feliz do mundo, enquanto você desejar. — Jongin falou, puxando o mais velho para mais um beijo fervoroso.
A passos lentos e desengonçados, começaram a ir em direção à cama. Gemidos abafados eram escutados em todo o caminho, enquanto mãos fortes apertavam o quadril de Kyungsoo, deixando-o totalmente rendido ao momento. Ao se deitarem na cama, a mão de Jongin percorreu a lateral do corpo do Do por baixo da camiseta de botões, apertando a carne macia.
Estavam tão imersos naquele momento que assustaram-se, parando as carícias e os beijos, quando ouviram algumas pessoas no corredor. Riram com aquilo, e Kyungsoo voltou a se aproximar, depositando vários selinhos consecutivos nos lábios carnudos do maior.
— Vamos comer? Tenho certeza que teremos todo o tempo do mundo para nos beijarmos. — Mesmo contrariado, o Do levantou-se junto com o Kim, pegando alguns pratos, trazendo para a cama. Afinal, não queria se distanciar do roomate.
Com dois copos de suco na mão, Kyungsoo se sentou entre as pernas abertas de Jongin, colocando as suas próprias sobre as do Kim, se aninhando no peito largo do dançarino.
No primeiro momento, comeram em silêncio, meio abraçados, curtindo a companhia. Sorrisinhos eram abertos a cada momento em que se olhavam, assim como beijos nos pescoços e bochechas, ou apenas selinhos despretensiosos. Apesar do clima manter-se ameno, uma dúvida martelava nos pensamentos do Do, e resolveu perguntar.
— Posso te perguntar algo? — Sussurrou o moreno, quebrando o silêncio do ambiente.
— Pode sim.
— Há uns dois dias atrás, mais ou menos, encontrei o Baekhyun no corredor e ele começou a dizer umas coisas sem sentido, sobre planos, choros… E eu fiquei assim “ué, o quê aconteceu?”, mas ele desconversou e começou a falar coisas que não faziam sentido algum. Como ele é seu amigo, você sabe o quê está acontecendo?
Jongin bufou ao ouvir aquilo, não acreditando que o amigo tinha sido tão fofoqueiro. Nem esperou que ele próprio dissesse ao Do, sobretudo.
— Mas é um linguarudo… Amanhã ele vai ver… — Praguejou, chamando a atenção do moreno, que o olhava com curiosidade. — Eu juro, ia te explicar mais adiante, mas como o Baekhyun é um boca aberta, vou ter que falar agora. Eu meio que… Hm… Criei um plano para demonstrar melhor meus sentimentos para você.
O dançarino esperou a resposta de olhos fechados, afinal, não sabia como seria a reação do mais velho. E se ele entendesse da forma contrária do que tinha pensado? E se pensasse que era mentira? Mas diferente do que pensava, a risada contagiante preencheu todo o cômodo, trazendo um alívio imediato em seu peito. Os olhinhos espremidos por trás dos óculos redondinhos, deixava o Do ainda mais bonito.
— Eu não acredito! — Anunciou, limpando os resquícios de lágrimas acumuladas nos cantos dos olhos. — Pera, não me diz que a sua inscrição na aula de culinária fazia parte desse plano?
— É, meio que sim. Era a segunda “regrinha”. — Coçou sua nuca, em desconforto. O ato fez o Do soltar mais uma gargalhada gostosa.
— Bem que eu estava achando muito estranho todo aquele papo de desafios novos. Desde que eu te conheci, você trata uma panela como se fosse um ser de outro planeta, que vai te matar a qualquer momento. Não dá para acreditar nisso… O pior, é que, caso não saiba, essa inscrição é para mais quatro aulas e você é obrigado a comparecer.
— Tá de brincadeira? — O calouro perguntou chocado, levando as mãos à boca para a tampa. Mas logo se recompôs, respondendo: — Se você ficar nessas aulas restantes como professor, acredito que não vai ser algo muito ruim.
— Se você diz… — Kyungsoo sorriu, puxando Jongin para mais um beijo calmo, sentindo cada pedacinho que o maior estava doando. — Me conta mais sobre esse plano, estou curioso para saber.
E Jongin contou, nos mínimos detalhes, aliás. E, em todo momento, Kyungsoo gargalhava e indagava mais e mais sobre o assunto, totalmente imerso em todas aquelas histórias.
Durante o decorrer da noite, abraçados sobre a cama, entre carícias e beijinhos inocentes — ou não tanto assim —, conversaram sobre os próximos passos desse relacionamento que iniciava naquele momento, sobre a luz do luar. Apesar de estarem totalmente apaixonados um pelo outro, decidiram que o tempo responderia como o relacionamento deles seguiria — apesar de que essa decisão não fosse demorar tanto assim para ocorrer como pensavam.
E, enquanto uma resposta não chegava, iriam apenas se curtir intensamente, como se não houvesse um amanhã. Como se cada dia fosse o último, lembrando-se que, no final, em meio a tantas mentiras , sempre havia um fundinho de verdade.
Nessa história, o fundinho de verdade, era a paixão que Jongin nutria por Kyungsoo, e graças as regrinhas infalíveis , o Do havia acreditado fielmente nestes sentimentos apaixonados.
