Work Text:
Os ventos da primavera brincavam como ninfas em meio as árvores. Dançando no céu azul, se balançando em galhos fortes, derrubando cascatas de flores rosas.
As pétalas planam, delicadas, com reviravoltas graciosas e sopros de vida, antes de tocarem o chão. É bonito como um quadro, e Noya se pergunta se em qualquer outra ocasião não teria sido apaixonante.
Seria, teria de ser, com as flores colorindo o cabelo de Asahi, beijando o nariz de Suga e correndo pelos sapatos de Daichi, com todos reunidos e bem vestidos, com os sorrisos, os abraços e os agradecimentos. Seria, é claro que seria, se essa não fosse uma galeria de corações despedaçados.
Noya pode vê-los, um por um, em exposição.
O de Hinata estava em suas mãos, pálidas e trêmulas, quando ele abre a boca e diz: "Obrigado por tudo. Obrigado por confiarem em mim quando ninguém mais fez, por não desistirem e por me levarem aonde sempre sonhei."
Era verdade, Hinata era como uma criança perdida, e a quadra era sua casa. O terceiro ano foi imbatível em sua jornada para deixá-lo em seu lar. Suga foi o primeiro a confiar nele, Daichi o impedia de ultrapassar seus limites e Asahi o inspirou. Eles haviam feito sua parte, e Hinata mais uma vez se encontrava sozinho na estrada rumo aos seus sonhos loucos.
O de Kageyama em seus olhos, encarrando o chão furiosamente para conter as lágrimas. "Vocês me mostraram tudo o que há de compaixão e gentileza no mundo, mesmo quando eu não as merecia. Obrigado." Se a quadra é um lar, times são famílias, e se Hinata antes era desabrigado, Kageyama era órfão. Vindo de um time forte e poderoso, mas quebrado e traumatizado. Karasuno o deu e o ensinou um tipo diferente de amor. Um tipo altruísta, onde se dá sem esperar nada em troca.
O de Tanaka estava escondido por sorrisos orgulhosos e choros alegres, mas Noya sabia mais. Noya viu cada caco dolorido no peito do amigo algumas noites atrás. Em uma ligação na madrugada silenciosa, com medos, soluços e "Eu nunca vou conseguir substituir Suga, você já o viu? Ele é perfeito, Noya, fodidamente perfeito! Enoshita é foda, se alguém consegue assumir o lugar de Daichi, é ele. Mas eu?! Noya, Suga tem um legado! Ele molda cada filha da puta que toca! Ele era a base emocional do time, e nos ajudava infinitamente sem nem estar na porra da quadra! Como eu me comparo a isso? Merda, Noya, eu não tenho sua paciência, nem sabedoria, nem bondade e eu só... Estou fodido!"
E há Daichi, Suga e Asahi. Corações partidos perceptíveis por mãos inquietas, olhares melancólicos e lágrimas não contidas. Os motivos são óbvios. Deixar tudo o que eles sempre conheceram, todos a quem amaram, pessoas de quem dependem e que dependem deles também, para se jogar na vida real. Finalmente tentar criar um significado próprio para o viver, como se já não o tivessem encontrado. Um último momento de união, de saudosismo.
É o fim de uma era. E no fundo uma parte de Suga sussurra que ele mal esteve na quadra e algo em Daichi rasteja pensando o que aconteceria se ele tivesse se esforçado um pouco mais. Mas não é real, e eles sabem que cumpriram suas promessas á seus eus do passado, eles sabem que devolveram as asas a um corvo ferido.
Asahi talvez esteja um pouco pior, porque quando tudo gira e as partes mais sombrias de sua mente o chamam de covarde, ele se vê obrigado a, mais uma vez, concordar.
E então, há a peça central da exibição, a maior, o verdadeiro motivo da criação desse museu: Noya. O coração destroçado, esmigalhado, perdido em milhões de fragmentos carmim.
A formatura chegou. Asahi partirá. Ele ficará só. Nada aconteceu. O segundo botão continua. Dois anos. Dois longos anos de fúria e paixão e esperanças. Dois anos daquela dança tola na qual Noya pensou que era correspondido. Houve tantos elogios, promessas e sussurros. Houve tantos toques prolongados, piadas internas e aqueles, oh, aqueles olhares longos, que pareciam ser a definição de amor. É assim que termina? Com seu cérebro gritando enquanto ele tenta manter o sorriso porque, merda, ele não quer estragar isso pros outros também?
Foi tudo sua imaginação fértil? Um sonho febril? Delírios de um jovem tomado pela paixão? Quando Asahi disse que precisava dele para viver, foi como amigo? Quando dedos longos percorreram seu cabelo, foi apenas um ato fraternal? Quando o às beijou todas as pintas do rosto de Yuu, foi puramente platônico?
Foi. Noya quer vomitar. Ele foi um idiota por sonhar de mais, por querer de mais. Ele deveria saber, é claro que deveria. Agora é tarde.
Ele segura o sorriso com todas as forças que tem, mesmo quando as lágrimas começam a encher seus olhos e molhar suas bochechas.
No fundo ele sabe que nunca existiu uma galeria, era apenas uma obra única: Nishinoya Yuu e a dor de um coração partido. Nishinoya Yuu e o egoísmo e medo de compartilhar Asahi com o mundo. Nishinoya Yuu, em sua natureza simples e completa: patético. Ele só espera que seja uma imagem bonita para os apreciadores de arte.
__
"Então..."
Nesses dois anos de amizade Noya conheceu centenas de rostos de Tanaka: o rosto de como-você-ousa-ofender-meus-amigos-?, o rosto de Kiyoko-san-acabou-de-me-encarrar-por-quase-dois-segundos-consecutivos-inteiros, e o rosto de Daichi-descobriu-que-eu-quebrei-o-teto-da-sala-do-clube,-sem-querer-querendo,-estou-mortalmente-fodido. É por isso que foi tão fácil para Noya perceber que Tanaka queria falar com ele quando os olhos do amigo quase fizeram um buraco em sua nuca.
Essa não foi a parte que o preocupou, os olhares de Tanaka tendiam a ser...intensos. O que realmente o preocupou foi que, assim que eles se afastaram do grupo, Ryuu começou a chutar uma pedra e seus olhos voaram para o chão. Essa era uma cara pior, a de preciso-te-falar-algo-mas-não-sei-como-começar-e-ou-fazer-isso. Essa, era a que fazia o estômago de Noya revirar de ansiedade e o dava vontade de pular e arrancar a verdade com as próprias mãos.
"Você está bem?" Tanaka finalmente falou.
E foi isso. Uma simples frase e Noya se entregou ao choro novamente. As lágrimas corriam e corriam por suas bochechas, formando rios de tristeza nos quais ele jurou poder se afogar. Ryuu o abraçou e ele se apegou fortemente a isso, sentindo que desmoronaria se não o fizesse. Noya chorou pela despedida, pelo final, por amor. Chorou por saudades futuras, por saudades passadas, por saudades presentes.
A camisa da de Tanaka era macia contra suas bochechas e as mãos calmantes e protetoras em suas costas. "Obrigado." Ele sussurrou no tecido preto.
"Não tem de que, cara. Eles são muito importantes para mim também, com tudo o que passamos, com idas e vindas e brigas e nacionais... Mas eu sei que é pior pra você, com o lance de Asahi e tudo mais. Você vai sentir muita falta dele, né?"
Noya acenou com a cabeça. "Puta merda, Ryuu, tanto que dói. Eu sei que eu deveria ser um espírito livre e o caralho, e eu estou mortalmente orgulhoso dele, mas é só... Eu não sei. Meio que me machuca pensar que não vai ter mais daqueles sorrisos doces após pontos, ou aqueles olhares preocupados aos meus hematomas, ou as chamadas de madrugada de 'só queria conversar' que acabavam comigo na janela dele comendo sorvete e falando besteira." Noya se afastou um pouco, secou os olhos e deu um sorriso triste. "Mas sabe o que é o pior? É saber que foi tudo coisa da minha cabeça. Talvez se eu tivesse tido mais tempo para confessar, ou... Não. Inferno, ele nem gosta de mim!"
"O que?!" Tanaka o olhou como se ele tivesse acabado de recitar o alfabeto grego ao contrário. Enquanto fazia malabarismo. Com cachorrinhos. Em chamas. " Noya, que porra...?! Vocês não estavam, tipo, namorando???"
O mundo de Noya parou. O que diabos Ryuu estava falando?! Ele finalmente pirou, é claro. Foi a vez de Noya devolver o olhar, mas dessa vez como se os cachorrinhos tivessem serras elétricas no lugar de dentes. Pelo menos ele não foi o único a se sentir confuso pelos sinais ambíguos de Asahi.
"Não???Cara, você ao menos me conhece?! Você não acha que se eu estivesse namorando a porra desse deus em forma de homem eu não estaria gritando isso aos quatro cantos do Japão?"
"Sim, mas eu também conheço Asahi, e e se essa fosse uma daquelas coisas com as quais ele fica todo estranho sobre e..." É então que a realização o atinge. Noya observa sua expressão mudar para choque total, os olhos se arregalando tanto que ameaçam pular para fora. "Espere, então vocês dois NÃO ESTÃO namorando???"
"Eu já te disse que não, Ryuu! Ele nem mesmo gosta de mim assim."
"Hahahaha! NÃO! Nem aqui nem no Brasil, Noya. PORRA, VOCÊ JÁ VIU O JEITO QUE AQUELE HOMEM TE OLHA?? É, tipo, como se você tivesse criado sábado e domingo! Ele te olha do jeito que Saeko olhava para aquele pôster de anime no quarto dela!"
"O do guitarrista gostoso com piercing na boca?"
"Sim, Noya, o do guitarrista gostoso com piercing na boca!"
Isso significava muita coisa. Saeko olhava para aquele pôster como se ele fosse a coisa mais linda e preciosa do mundo. Como se ele fosse água e ela estivesse a dias vagando pelo deserto. Noya se lembra de já ter a ouvido gritar que aquele era o marido dela, pai de seus não existentes filhos. E, realmente, se Noya tivesse de admitir, o cara ERA gostoso. Portanto, Asahi não poderia olhar para ele assim.
" É... Não."
"Sim, Noya, porra! Porque você não se confessou?! Isso é TÃO fora do personagem! Você sabe disso, né?!"
Bom, Noya de fato sabia disso. "Sim, é claro! Esse FOI o meu primeiro impulso. Mas é só... É Asahi, ok? Eu achava que ele sentia o mesmo, e fala sério, estava bem óbvio que eu gostava dele. Eu queria dar a ele a chance de tomar as rédeas da situação ou sei lá. Eu não queria o apressar nem nada do tipo, então eu só deixei que ele tomasse o tempo dele. Mas, pelo visto, eu li tudo errado, porque se ele tivesse gostado de mim por um milésimo de segundo, ele não estaria com aquela porra de gakuran com botões perfeitos!" Ele explodiu. Toda essa situação já o estava irritando, se Asahi gostava dele, porque nunca tinha feito nada?
No fundo, Noya sentia inveja de Daichi e Suga, que trocaram não só botões, mas também beijos acalorados atrás do ginásio. Quando os dois voltaram, com cabelos bagunçandos, rostos vermelhos e pequenos rasgos nas roupas, Noya só pode pensar que deveria ser bom ter algum tipo de garantia. Ele podia imaginar Daichi chegando cansado e suado do treino da academia de polícia, pegando o botão e se sentando na cama, apenas para sentir o metal frio contra a pele, pensando que não importa o quanto ele erre, sempre haverá alguém a alguns quilômetros de distância que o ama. Ele também podia ver Suga, beijando o botão todas as noites e sussurrando "durma bem, Dai" antes de se deitar. Ele queria isso com Asahi, queria poder traçar o dragão inscrito, queria colocar o botão no olho como um pirata e mandar fotos para o às com a legenda 'sinto sua falta', queria uma prova palpável do seu laço.
Tanaka o olhou com toda a incredulidade do mundo.
"Cara..." Ele suspirou. "Você é um idiota."
Agora, essa era novidade. Noya estava acostumadoa ser chamado de idiota. Por professores, suas irmãs, Ennoshita e seu avô, mas não por Tanaka. Nunca por Tanaka. Tanaka, que já o viu comer sabonete, jogar água em um vespeiro e quebrar um dente pulando do telhado, e nunca o chamou de idiota, não em um tom tão sério.
"O que? Eu despejo meu coração em fragalhos para você e é isso que eu recebo em troca?"
"Não! Noya, é só que... Porra, você mesmo disse: é Asahi! Inferno, vocês não deveriam ter toda aquela conexão estranha de às-libero, amanhecer-entardecer, Asahi-Yuu?! Você está se esquecendo disso! Todo esse tempo, qual foi a dinâmica de vocês? Você o força a ir aonde ele quer, mas tem medo, ele o força a não matar alguém. E não querendo jogar toda a evolução dele no lixo, porque, porra, ele é corajoso, ele está indo para fodendo Tóquio fazer moda! Mas, ainda assim, esse tipo de coisa é difícil! Especialmente para alguém tão romântico e sentimental como ele, nem todo mundo trata amor como nós, Noya! Já é difícil o bastante para ele ter que se formar e deixar tudo pra trás. Do jeito que vocês são idiotas, ele provavelmente NEM SABE que você gosta dele! Porque você, o forte, imparável e impulsivo Nishinoya Yuu, está aqui se lamentando, esperando Asahi fazer algo, ao invés de ir até lá e aproveitar a última chance de pegar seu homem??!"
Muita informação junta. O cérebro de Noya parou por um momento, conseguindo apenas murmurar um pequeno "Você quer dizer que..."
Tanaka o agarrou pelos ombros, o forçando a olha-lo nos olhos, o balançando enquanto falava, como se para enfatizar o ponto. Noya se arrepiou com o tom do amigo, confiável e sólido, mais uma ordem que um conselho.
" O que eu quero dizer é que o segundo botão representa o coração. É por isso que se dá para alguém: para demonstrar confiança, amor. Significa que você confia a coisa mais frágil que tem à aquela pessoa. Que você está cedendo, de bom grado, a sua vida, o seu tudo. Você sabe porque Asahi não te deu o segundo botão, Noya? Porque você guarda o coração dele a muito tempo! Não faz sentido ele te dar algo que você já tem."
Puta merda. É então que Noya percebe o quão idiota ele foi esse tempo todo.
Puta merda, ele é Nishinoya Yuu! Ele não é do tipo que espera, ele vai atrás, se esforça e se tudo der errado, ganha mais uma história para contar! Ele confia nas pessoas, ele tem coragem para fazer o que precisa, ele acredita que não há tempo melhor que o agora.
Ele estava cego. Cara, o amor enlouquece qualquer um. Asahi não fez nada? Que pena, então ele irá lá e fará! Seu avô lhe disse, a tantos anos atrás, que o medo era um desperdício. Talvez a autopiedade em excesso também.
Antes que ele pudesse perceber seus pés já estavam correndo, passo contra passo no concreto do chão.
"Onde você vai?" Tanaka pergunta.
"Pegar meu homem!"
Conforme se afasta, Noya só pode ouvir os gritos e assobios de seu melhor amigo.
Asahi precisava de tempo? Oh, não, Noya tinha acabado de egota-lo.
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Ele sai em disparada tropeçando pelo chão. Correndo, correndo e correndo. Suas próprias pernas de repente parecem curtas de mais, desastradas de mais. Quando ele alcança Hinata, mal tem tempo de desacelerar e logo os dois estão no chão.
"Noya-san?" O primeiro ano diz, levemente confuso.
Noya percebe que talvez não esteja em sua melhor aparência, seja pelo rosto vermelho do choro ou o cabelo despenteado da corrida, caído sobre um kohai perdido e com a expressão mortalmente focada. Ainda assim, ele não está pensando direito, então tudo o que consegue dizer é:
"Onde está Asahi?"
Hinata, de algum jeito, fica ainda mais perplexo, inclinando a cabeça como um cachorrinho. É fofo, realmente, mas Noya não tem tempo para isso. "Eu... Ele subiu para a sala dele, no andar do terceiro ano?"
Parece mais uma pergunta que uma afirmação, mas é o suficiente. Noya se vê, mais uma vez, se movendo. Lançando-se em meio a alunos chorosos e professores orgulhosos, batendo em ombros e ouvindo gritos, mas seus ouvidos zumbem e ele não consegue se importar com nada além de Asahi.
Apenas Asahi. Asahi, e em como ele tremia quando conheceu a mãe de Noya, porque "se ela é tão importante para você, ela é ótima". Asahi, e em como suas mãos pareciam encaixar perfeitamente nas dele, de algum jeito macias, mesmo que calejadas graças a agulhas. Dedos compridos e palmas fortes, que podiam criar e destruir com a mesma facilidade. Asahi, e a leve inclinação em seus olhos, contortada por cílios longos, e preenchida por algo que parecia chocolate recém derretido, porque eram calorosos, doces e Noya sabia que mal conseguiria dormir se ingerisse muito, mas isso nunca o impedia. Asahi, e o jeito como sua rissada parecia uma fonte de água, no começo tímida e silenciosa, mas logo aumentando, borbulhando, infinita e alta, fazendo coisas estranhas com o peito de Noya. Asahi, e seus cabelos longos e espessos, que flutuavam em volta de seu rosto, sempre tão charmosos e fluidos, como alguma divindade mágica de filmes de fantasia. Asahi, e como ele saltava na prática, uma imagem de pura força, as panturrilhas se contraindo, o peito largo se inflando, e aquela bunda, que o fazia...
"Nisinhoya Yuu! Onde estão seus modos, garoto?!"
Noya esbarra fortemente em alguém que ele percebe, tarde de mais, ser a professora de Química. "Me desculpe, Kamihara-sensei!" Ele grita, mas não para. Merda, ela provavelmente vai passar a odia-lo agora, e Noya já pode prever centenas de sermões no próximo ano. Mas não importa, não quando ele está perseguindo sua última chance de ter Asahi. Ela nunca gostou muito de Noya, de qualquer jeito.
Então ele segue, entrando no prédio, zumbindo pelo andar do primeiro ano, mal vendo por onde anda, enquanto sobe para as escadas. Ele salta os degraus, amaldiçoado suas pernas pequenas pela demora. Um, dois, três, quatro. Merda, merda, merda! Porque o tempo parece se alongar nesses momentos? Se derretendo e pingando, fazendo curvas estranhas só para aumentar a ansiedade de Noya.
Quando o primeiro lance de escadas acaba, Noya se joga loucamente para o próximo. Subindo, subindo e subindo. Ele tropeça, cai, joelhos e cotovelos batendo conta o chão. Mas não há tempo. Chutando o ar, ele se poem de pé novamente, seguindo com a mesma velocidade de antes.
Chega o terceiro e último lance, o coração de Noya dispara no peito. Thum. Thum. Thum. Pensamentos inundam sua cabeça a cada passo.
Ryuu é o melhor, quando ele ficou tão sábio?
Suas calças provavelmente estão sujas do tombo.
Ainda há mais de dois meses de férias antes de Asahi ter de partir para Tóquio.
Seu cabelo deve estar uma bagunça graças ao vento, talvez até com algumas pétalas da cerejeira.
Será que seu avô estaria orgulhoso? É um paralelo bonitinho com o avô perseguindo o trem da avó à uns 60 anos atrás.
Se tudo der certo, ele sai daqui namorando o cara mais doce, gentil e bonito que há no mundo.
Se tudo der errado ele sairá com um coração partido e uma expulsão ao mesmo tempo.
Bem, o que é a vida sem riscos?
"Eu só espero que minha mãe não me mate", é o último pensamento que ele tem enquanto leva o gakuran a boca, forçando os fios contra os dentes e arrancando o botão.
__
Ele entra no corredor deslizando, as solas do sapato gemendo contra o piso polido. Noya conhece o caminho para a sala de Asahi tanto quanto o para sua própria, depois de quase um ano caminhando para o clube juntos. Ele passa pela esquina aonde quebrou o vaso tanto tempo atrás, e o que antes era uma memória amarga, agora se torna doce.
O corredor está cheio, lotado de alunos em pequenos grupos que se despedem de salas, histórias, momentos. Um mar de pessoas, lotado e barulhento, mas Noya não se importa. Ele pode ser mais barulhento do que isso. É agora, é tudo ou nada.
" Asahi-san!!!"
Ele grita, e de repente várias cabeças se viram para encara-lo. Há murmúrios e olhares de descrença, mas não é a primeira vez que ele invade e cria um espetáculo nessa parte da escola.
É quase como se os olhos de Noya já tivessem se acostumado há sempre procurar os do às, a persegui-los como se eles fossem sua casa, porque, mesmo que Asahi esteja do outro lado do corredor, ele os encontra no momento em que entra.
"Ni-Nishinoya?" Noya quase pode vê-lo gaguejar, surpreso pela atenção repentina.
Asahi está ali, do outro lado do corredor. Tão perto. Tão longe. Nunca aquele trajeto pareceu tão grande, e Noya já veio até aqui, ele não pode esperar mais.
Parado, ainda na entrada, ele chacoalha o botão.
" É seu! Meu botão, meu coração, meu tudo! Sempre foi seu, Asahi-san!"
Sua visão está borrada pelas lágrimas, sua voz falha, suas mãos trêmulas e seu peito frio. Nesse milissegundo que tudo para, ele tem a leve noção de que deve parecer um louco. Sujo, desarrumado, o cabelo meio caído e o uniforme rasgado. Gritando, rouco, não só assumindo seu amor em uma cena digna de filme, como se assumindo. Desnudado sua alma, que nunca foi realmente muito coberta, na frente de todos. Ano que vêm será foda. Bom, pelo menos ninguém pode dizer que não foi romântico.
O corregedor caiu em um silêncio estranho, ninguém ousando se mover e estragar o momento.
Ele respira mais uma vez. Junta mais ar. Olhos focados, escuros e determinados. Mãos em punho ao lado do corpo. Gritos que o balançam por inteiro. A cena do começo do ano se repetindo novamente. Só que dessa vez, tudo está diferente. Ele, Asahi, o tempo.
" Você vai ser homem, uma vez na vida, e dar o seu para mim também, ou eu vou ter que ir até aí e arranca-lo com as minhas próprias mãos?!"
Asahi o encarra. Com aqueles grandes olhos profundos, folhas marrons flutuando em águas brancas, um mapa para casa. Noya conhece essa expressão. É aquela que Asahi usa em todos os jogos. Aquela de 'tudo o que existe é o objetivo a nossa frente'. Quase um transe, onde a mente de Asahi, antes tão barulhenta, se foca só no aqui e no agora.
O corredor parece se abrir conforme ele anda, passo após passo, até Noya. Ombros eretos e passos determinados. O mundo todo se torna um zumbido e Noya só pode assistir, um mero telespectador de sua própria vida.
Asahi está lindo, realmente. Como sempre. O cabelo solto, o queixo forte, os lábios grandes. Asahi é quente como o inferno e fofo como um anjo, é meio injusto. Aqueles grandes braços se erguem, e Noya tem noção de que, por um momento, todos os idiotas que ainda acreditam nos rumores falsos sobre Asahi ser algum tipo de valentão de gangue, congelam, esperando que um soco se siga.
Mas não vem.
Em vez disso, há apenas o estalo alto da linha rompendo.
"Você tem razão." Asahi diz, assentimento levemente. Seu rosto cai para algo de algum jeito ainda mais belo. Sorriso gentil e olhar doce. 'A imagem do amor' sussurra o cérebro de Noya.
Asahi leva as mãos até as do líbero, mas Noya não consegue desviar o olhar de seus olhos. Tudo o que ele pode fazer é sentir o choque elétrico que o percorre quando suas peles se tocam, as mãos de Asahi quentes contra as suas. Até que ele sente algo gelado também. O botão.
Ele esperou o dia todo por isso. O ano todo. Sua vida toda. Está alí. A prova que ele precisava. Asahi também gosta dele.
Asahi, com seus olhares sábios, comentários bobos e gentileza substancial. Asahi que o deu seu casaco, que o abraçou, que está a centímetros de distância.
É como uma barragem se rompendo. O inunda com tanto calor e alegria e puta merda! Ele vai beijar Asahi nesse exato momento e...
Mas então os olhos do às se arregalam, voltando a realidade, parecendo finalmente perceber o que acabou de acontecer. Ele olha para o seu uniforme, fios bagunçados e tecido gasto onde ele arrancou o botão.
"Puta que me pariu..." Asahi murmura, perdendo a cor, pálido como um fantasma. "Eu teria desfeito os pontos se soubesse..."
Isso faz Noya cair em uma enorme gargalhada. Ombros chacoalhando, joelhos dobrando. Como esse homem pode ser tão perfeito?
Ainda com o maior sorriso possível no rosto, Noya puxa Asahi pela mão para a sala mais próxima, deslizando pelo chão frio e fazendo o mais velho se curvar. Eles fecham a porta bem a tempo para se esconder da comoção no corredor.
"Uou..." Asahi suspira, se apoiando levemente em uma carteira, olhos grandes, ainda meio confuso com o que acabou de acontecer.
"Uou..." responde Noya, as mãos seguindo a forma das de Asahi, o riso gentil mal contido.
"Então isso quer dizer que você..." Mas Asahi não teve tempo de terminar.
Enquanto o encarava, com as bochechas coradas e o uniforme surrado, Noya só conseguia pensar em uma coisa: fodasse, você só vive uma vez.
E é por isso que Noya se jogou em cima de Asahi. Pulando em seu colo, prendendo as pernas em seus quadris e se lançando em uma mistura voraz de lábios, pele, calor. Os fios de cabelo caindo com o impacto e se juntando instantaneamente aquela dança insesante, as mãos os procurando, percorrendo, puxando para mais perto. Carne, pelos, gemidos, paixão. O mundo de Noya explodindo e renascendo com o menor toque de lábios. Cores, sons, branco, silêncio.
Sinestesia do amor.
Um beijo. Só um beijo e Noya já se sentia assim, como se todo o ar de seus pulmões sumisse, queimasse.
"Sabe..." Noya disse entre beijos. "Eu vou adorar ter toda aquela conversa filosófica sobre o que nós somos, porque eu sei que você está pensando nisso. Só me dê mais uns cinco minutos disso, ok?"
Mais uma vez ele caiu sobre Asahi, a carteira rangendo sob o impulso repentino. Nenhum dos dois era realmente experiente com beijos, e podiam não estar fazendo tudo certo, mas tudo bem, com a sensação que enchia seus peitos o mundo parecia derreter, se resumindo a isso.
"Aí caralho!" A exclamação os trouxe de volta ao mundo real, Noya saltando com tanta pressa que acaba caindo no chão. "Como vocês são rápidos!"
É Suga e Daichi, parados na porta. Eles a abrem, entram e fecham novamente.
" Suga..." Asahi suspira, envergonhado, se escondendo atrás das próprias mãos. Noya, do seu lugar no chão, apenas começa a rir.
"Mas, sabe, eu só queria avisar que controlei a situação!" Suga diz, o sorriso resplandecendo. Daichi o abraça por trás e se apoia em seu ombro.
"Claro, se você chama começar a me beijar, no corredor lotado, de 'controlar a situação'." Suga desdenha, chacoalhando as mãos.
"Ahhh, pelo menos agora eles têm outra coisa para falar!"
Noya se estica mais no chão. O botão nunca saindo do aperto de sua mão. Ele está feliz. Merda, ele está TÃO feliz! Agora ele tem Asahi e férias e oh, tudo está ótimo!
Do outro lado da janela, as flores de cerejeira continuam a voar, inocentes, em contraste com o céu azul. É lindo. Noya promete se lembrar dessa imagem para sempre. É lindo, só perde para o sorriso que Asahi deu a ele enquanto eles caminhavam para casa naquela noite. Asahi, seu namorado.
" Eu teria te matado se você não tivesse me dado esse botão hoje!" Asahi apenas sorri, balançando a cabeça.
" Eu teria morrido se eu não te desse, de qualquer jeito."
"Fofo, mas meio dramático, Asahi." Noya aperta um pouco mais suas mãos.
" Eu sei, mas você gosta."
" Tem razão, eu gosto."
A noite está escura, o vento frio. O coração de Noya segue em exposição: grande, cheio de vida, completo. Asahi não é nenhum crítico de arte, mas essa é, com certeza, sua obra favorita.
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No domingo, Noya é acordado por um grito vindo do andar de baixo.
"NISHINOYA YUU! O QUE DIABOS VOCÊ FEZ COM SEU BOTÃO?! COMO VOCÊ ESPERA IR PARA A ESCOLA ANO QUE VEM COM O UNIFORME RASGADO?!"
Opa.
Ele está frito.
Valeu a pena.
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Asahi mexe os ovos na frigideira. O apartamentos é meio frio, mas ainda assim aconchegante. Seu colega de quarto, Masumi, também é muito legal. A faculdade começou há uma semana, e por enquanto tudo correu melhor do que o esperado. Ele adiciona um pouco de sal aos ovos.
Ping!
Seu telefone vibra no canto, chamado sua atenção. Há uma mensagem, ele a abre.
Uma imagem.
Uma selfie tirada de cima: Noya em seus pijamas, o cabelo para baixo, um sorriso deslumbrante nos lábios. Um de seus olhos está fechado enquanto ele apoia o botão de Asahi entre a bochecha e a sobrancelha, como um tapa-olho de pirata. Sua mão se estende em um sinal da paz ao lado do rosto.
Uma mensagem a acompanha.
'Sinto sua falta'
'Eu também' Asahi responde.
E, talvez, só talvez, ele anexe uma foto de sí mesmo fazendo biquinho, com o botão de Noya entre os lábios.
