Work Text:
O tecido púrpura balança nas mãos de Asahi. A linha indo e voltando, perfurando e unindo, sumindo e reaparecendo, conforme ele quer. Ele para um momento, tira os óculos, esfrega os olhos. Na mesa bagunçada, em meio a tecidos, linhas e alfinetes, há vários desenhos: modelos de roupas, padrões para tecidos, rabiscos de quando sua mente fugia.
Foi muita sorte conseguir um trabalho tão bom, com tanta liberdade artística, em uma empresa de renome logo após de formar. Suga costuma dizer que não foi sorte, foi talento. Eles viram um dos desfiles da faculdade, se interessaram pelos modelos de Asahi, e quando ele se deu conta já estava estagiando durante o curso. Mesmo assim, Asahi ainda agradece aos deuses por tamanha sorte.
Ele cruza a mesa, sem nem se importar em sentar enquanto abre alguns arquivos no computador. Ele tem que enviar um design para a sua chefe, outro para a gráfica e tem também aquele...
Tic. Tic. Tic.
O barulho de saltos contra o piso o tira de seus pensamentos. Há uma leve batida contra a porta e então uma voz feminina diz: "Azumane-san?"
"Já te disse que você pode me chamar de Asahi, Mizokuchi-san."
A porta se abre, revelando Mizokuchi. Uma mulher de estatura pequena e cabelos negros meio presos em um coque. Seu sorriso é simpático, como esperado de uma secretaria.
"Certo, Asahi-san." Ela acena brevemente com a cabeça. "Eu quero lhe perguntar algo."
Asahi gosta disso. O tom sincero e direto de Mizokuchi. Esse é grande parte do motivo dela ter sido contratada em primeiro lugar: ela é gentil, mas preparada, calorosa, mas esperta. E, mesmo sendo baixinha, ela nunca se intimidou pelo tamanho de Asahi. O lembrava um pouco uma fusão estranha de Kiyoko e Yachi.
Ele chacoalha levemente a cabeça, esperando alguma pergunta sobre prazos, novas criações, ou até mesmo fofocas da empresa. O que ele realmente não esperava era que ela o encarasse com olhos verdadeiramente confusos e dissesse:
"Quem é Nishinoya Yuu?"
Quem é Nishinoya Yuu...? Essa não era uma pergunta fácil. Como descrever alguém tão grande quanto Noya? Há tanto para se falar, elogiar e amar, que Asahi se sente perdido.
Ele deveria começar falando sobre a presença forte do menino? Aquela aura de vigor que quase parecia elétrica? Aqueles olhos destemidos que pareciam julgar o destino do universo? A tempestade contida em ossos curtos e pele gasta?
Ou talvez ele devesse falar sobre a alegria, a energia, a felicidade infantil e diabólica que sempre acabava por os meter em confusão. Sobre o sorriso que iluminava as almas mais sombrias e os gritos que animavam os mais apáticos. Sobre a impulsividade, a rebeldia e a amizade. Sobre descer escadas em lixeiras, ou escalar janelas tarde da noite.
Mas quem sabe ela não queria saber da parte mais rara, mais secreta, serena e sabia, que muitas vezes surgia nos braços de Asahi? A parte que susurrava eu te amo, que se esfregava em seu peito, que dizia "As vezes, eu preciso de você para me acalmar. Eu posso ser muito, mas você me mantém no chão, obrigado."
Então, quem é Nishinoya Yuu?
"O líbero do Chidoriyama!" Suga disse, com olhos do tamanho de pires. "Ele vem para a nossa escola, Asahi! Ele vem!"
"Espere, você quer dizer..."
"Sim! Basicamente o melhor líbero da prefeitura!" Completou Daichi.
" Uou... Isso, uou..."
É tudo que Asahi consegue dizer. É incrível, inacreditável! Claro, Karasuno tinha um histórico, mas os últimos anos não haviam sido exatamente bons, Nishinoya Yuu teria escolhas muito melhores. Talvez ele tivesse ouvido a história sobre a possível volta do velho treinador Ukai... Mas não importa. Os porquês são meros detalhes. Nishinoya Yuu vem, e essa é a verdadeira questão.
Asahi já o viu em quadra antes. Rápido como um raio, pequeno como um pássaro, ágil como um lobo. Cabelos arrepiados, visão focada e salvamentos insanos. Asahi mal conseguia assistí-lo sem se arrepiar. Com ele, eles formariam um time.
Ainda no começo do segundo ano, Asahi está no caminho para se tornar o às da equipe, a recepção de Daichi cada dia se torna mais como uma rocha, e os levantamentos de Suga melhoram mais e mais. Há aquele primeiro ano novo, Tanaka, que é barulhento, mas tem garra, tem fome, e é isso que importa. E agora com Nishinoya...Sim, eles não se prendem mais às amarras do passado. Com Noya, eles finalmente poderão...
"Chegar aos Nacionais!" Diz Daichi. "Agora que temos o melhor líbero da prefeitura, nós somos imparáveis!"
Quem é Nishinoya Yuu?
Nishinoya é, de algum modo, menor ao vivo. Seus braços parecem tão frágeis que Asahi acha que poderia quebra-los com as mãos. Mas ele sabe mais. Nishinoya é incrível.
Na verdade, parado em frente ao pequeno menino com olhos âmbar, é isso que o assusta. Nishinoya Yuu é ótimo, poderoso, forte e ele é... Asahi. Asahi é simplesmente Asahi, que parece grande, mas é tímido e frágil, que não é nenhum gênio do vôlei. Que pode, realmente, ser forte, por alguma sorte na loteria genética, mas não tem nada além disso. Ele deveria representar algo como o às do time, mas ele só... não.
Nishinoya já deve ter conhecido milhares de jogadores infinitamente melhores que ele. Talvez Noya o veja jogar e imediatamente desista do time, porque se esse é o às do Karasuno o resto só pode ser ainda pior, e então eles ficarão sem líbero, não irão ao nacional, Daichi e Suga não vão conseguir encará-lo mais e tudo será culpa dele.
Parabéns a Asahi que acabou de afundar o time de Karasuno para sempre e...
"Azumane-senpai!" Perdido em seus pensamentos, Asahi quase perde o líbero parado em sua frente, com aqueles grandes olhos amendoados de quem vê muito. É agora, Asahi pensa melancolicamente. "Seu cabelo é lindo, posso toca-lo?!"
Noya sorri, e Asahi cora tanto que acha que já pode ser considerado morto.
Quem é Nishinoya Yuu?
Asahi acordou suado, ofegante. Por um mês, seus pesadelos são os mesmos: o barulho da madeira quebrando, da cerâmica partindo, da confiança despedaçando. Os olhos de Noya também estão lá: magoados e machucados.
"Porque você faltou do treino, Asahi-san?"
Ele é um covarde.
Mas, quem é Nishinoya Yuu?
Antes que Asahi perceba, há glacê em seu nariz.
"Boop" Diz Noya, enquanto espalha o creme azul com o dedo indicador.
"Noya!" Ele responde, ofendido.
É uma tarde quente e Noya o chamou para o aniversário do avô. No começo, Asahi negou, não querendo atrapalhar uma reunião familiar, mas Noya era insistente então aqui estavam eles.
Sentados na calçada da frente, observando o céu se transformar em vermelho. A grama era verde, e a brisa fresca carregava um cheiro refrescante.
Asahi passa o dedo pelo seu próprio pedaço de bolo e sai correndo atrás de Noya.
"Não, não, não!" Noya grita, também correndo.
"Vamos lá, Nishi, é uma questão de justiça!" Asahi sorri.
"Ainda bem que eu sou totalmente contra essa tal de justiça..."
Eles se perseguem pelo jardim até que Asahi o alcança. Eles voltam para a casa de Noya completamente lambuzados e sujos, e o avô de Noya apenas sorri.
Asahi gosta de dias assim. Onde eles só são jovens e irresponsáveis e felizes. Sempre é assim com Noya, ele percebe. Com Noya sempre há tempo.
Quem é Nishinoya Yuu?
Faz calor, e o Sol brilha contra as folhas das árvores no parque. A grama verdejante o acalma.
Noya está do seu lado, esparramado pelo chão, os olhos fechados em paz sonolenta. Asahi apoia os cotovelos nos joelhos dobrados. A luz encharca sua pele e ele não pode deixar de sorrir.
Uma borboleta amarela passa, solitária. Chacoalhando as belas asas desenhadas. É uma gracinha, Asahi pensa, e não pode evitar estender a mão para toca-la.
Como uma bailarina, a borboleta da voltas e mais voltas antes de pousar em seu dedo. Ela não parece temê-lo e fica alí, parada, como se soubesse que estava sendo apreciada.
É arte. Asahi adoraria se congelar nesse momento para sempre.
Ele aproxima um pouco a mão para observa-la mais de perto. A curvatura das asas, as pequenas patas, a cor brilhante. Faz um pouco de cosquinha na sua mão. Não mais que a grama sob a outra.
Parece um pouco com Noya: vivida, frágil, poderosa. Uma pequena borboletinha em uma tarde de verão, o trazendo tanta felicidade.
Mas, de repente, a borboleta voa e Asahi está no chão, Noya sobre ele, joelhos ao lado de seu quadril.
"Nishi...?" É tudo o que ele diz, cheio de surpresa.
"Uou, Asahi, eu só...Você estava aí, parado, com esses olhar doce de poeta que você faz as vezes, e o Sol estava iluminando tanto seu rosto que parecia que vocês tinha saido da porra de um filme! E o seu cabelo está tão bonito, e está tudo tão perfeito, e seu sorriso faz algo estranho com as minhas estranhas e..." Noya suspira, caindo em seu peito. "Porra, eu te amo tanto!"
"Eu também de amo, Yuu." Sussurra Asahi, e Noya absolutamente quebra.
Asahi sabe que ele tem um fraquinho por ser chamado pelo primeiro nome. O sorriso de Noya se ilumina ainda mais e ele começa a encher Asahi de beijos. Na testa, bochechas, queixo, boca.
"Merda, Asahi. O que seria da minha vida sem você?"
Noya é como uma borboleta em tardes de verão. O trazendo tanta felicidade, com tão pouco.
Quem é Nishinoya Yuu?
O menino que cambaleava pela rua de Asahi na madrugada. A jaqueta ondulado contra o vento, os braços abertos enquanto ele corria pela noite. Se Asahi apertasse os olhos, ele quase poderia ver as asas de um pássaro. A imagem da liberdade era aquela: Nishinoya Yuu
e se sorriso gigante contra a escuridão. Com reviravoltas e saltos e gritos e tanta paixão.
"Yuu..." Asahi riu baixinho. "É tarde, você vai acordar a vizinhança..." Mas ele não queria realmente que o outro parasse, era um espetáculo e era contagiante.
"Desculpe, Asahi, é só que eu não posso evitar...Estou tão feliz! Estou com você, o céu está lindo e está tão silencioso. É como se o mundo fosse todo nosso!!"
Todo nosso. Noya sempre se apoçava de tudo que tocava. Asahi raramente se sentia dono de algo. Mas, aqui, ele pode compreender a sensação completamente.
"O mundo é sempre nosso, Noya."
O sorriso do líbero pareceu entristecer levemente. Mas os olhos cresceram, focados e cheios de determinação.
" E ainda assim eu quero mais..."
Asahi sabia. É claro que sabia. Eles já haviam conversado sobre isso antes, assim que se formasse, Noya pegaria um avião e cruzaria o mundo, perseguindo seus sonhos loucos e saboreando tudo que a vida podia lhe dar.
E Asahi ficaria. Sozinho, abandonado, com frio. Afundando na poça de amargura e escuridão que seria o cotidiano sem Noya para ilumina-lo.
Exceto que não. Isso não era um romance clichê e mesmo que Asahi o amasse, sua vida não se baseava nele. Asahi estava bem com isso. Há tanto mais para se viver e aspirar e logo sua faculdade começa e ele finalmente terá coragem de mostrar seus desenhos e sua costura. Sua confiança no vôlei aumentou desde sua saída ano passado e ele jogará no time da Universidade. Haverá amigos novos, novas piadas, novas metas. Manias novas e oportunidades infinitas de divagar vendo poesias melancólicas ou belas aonde não há. Ele está feliz como o inferno e saber que Nishinoya também estará é tudo o que ele pode pedir.
Ainda assim, Noya passa os braços em volta de sua cintura e sussurra com tanto amor e calma que quase parte seu coração.
"Deixe-me ir."
Faz frio e Asahi se vê cada vez mais puxado para seu calor.
" Eu nunca nem pensei em te impedir."
Então ele deixa Noya ir, ele deixa Noya voar. Não que ele pudesse o parar ou algo do tipo. Noya era como uma força da natureza, forte, surpreendente, imparável. Mas ainda assim, ele deixa Noya ir. Ele deixa, naquela rua pacifica iluminada pela luz das estrelas, e essa é a parte mais bonita nisso tudo: não dói.
Quem é Nishinoya Yuu?
E então a lembrança de sua última noite juntos o inunda. Lábios vermelhos, bochechas coradas e cabelos desgrenhados. Os raios prateados do anoitecer banhando a pele de Noya.
Alí, em seus braços, ele parecia etéreo. Imortal. Irreal. Muito para Asahi. Como uma divindade contra o lençol branco. Com pulsos pálidos, olhos cheios e gemidos suaves. Contendo tanto poder que em qualquer outra ocasião o assustaria, mas aqui só o puxava para mais perto.
Asahi desejou poder congelar o tempo e pintar dezenas de pintura sobre Noya. Escrever centenas de poemas. Criar milhares de romances. Tudo o que fosse preciso para capturar cada pequeno detalhe do homem em suas mãos: a delicada curva do nariz, os longos cílios escuros, o doce arco do cupido. Nem assim seria o suficiente. Noya era quente e aconchegante e grande e perfeito e, com certeza, indescritível.
Até hoje, o pensamento fazia seu peito doer. Milhões de pessoas no mundo, e ele foi quem teve a honra de observar o desenrolar dos músculos do abdômen, de sentir a pulsação das veias contra os lábios, de ter o nome chamado com tanto ardor. Alí, com o líbero tão próximo de sí, ele foi capaz de entender o significado de santidade, de pureza (o que é irônico porque Noya nunca foi santo ou puro). De repente ele se tornou completo. Por um momento todas as peças se encaixaram e ele pode contemplar o verdadeiro sentido de tudo.
Os sussurros daquela noite ficaram marcados em sua pele. Juras de amor lançadas em meio ao frio do inverno.
"Prometa que você se lembrará de mim, é tudo o que eu preciso."
As mãos de Noya eram quentes contra as suas bochechas, acariciando levemente, demonstrando toda a ternura que existia alí.
"É claro, Asahi. Há como te esquecer?"
No dia seguinte, quando Asahi solta suas mãos no aeroporto, é fácil. Ele sabe que Noya voltará.
Noya...
Yuu...
A pergunta continua, pairando no ar, e Asahi tem de responde-la. Depois de tudo isso, quem é Nishinoya Yuu?
Estranhamente, a resposta vêm com facilidade, assim como quase tudo que envolve Noya.
Mizokuchi o encara com olhos pacientes, mas curiosos. Os de Asahi, por sua vez, parecem sonhadores, apaixonados. Ele é incapaz de conter o sorriso que o enche.
Nos últimos anos, Asahi cortou incontáveis fios. Com tesouras, estiletes, até mesmo dentes. Mas sempre houve um, comprido e vermelho, que ele tem certeza que nunca conseguiria cortar. Não é como se ele planejasse tentar, de qualquer jeito.
Quem é Nishinoya Yuu?
Asahi não hesita.
" É o homem da minha vida."
Mizokuchi sorri, pequeno e doce, como uma mãe orgulhosa. Seus olhos marejam levemente. Ela dá um passo a frente, o olhando profundamente.
Asahi quase desmaia quando ela abre a boca e diz:
"Que bom, então. Porque ele está lá em baixo, procurando por você."
