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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2021-08-12
Words:
1,803
Chapters:
1/1
Kudos:
28
Bookmarks:
2
Hits:
209

Pretérito Perfeito

Summary:

Nanami Kento era um simples assalariado. Mas um assalariado "raiz".

Ele acordava cedo e trabalhava o dia inteiro, ter bom resultados e cumprir o dever eram seus únicos objetivos.

E isso muda quando uma surpresa inusitada surge em sua vida.

Notes:

Dedicado especialmente à @babymusta, responsável por essa fanfic existir.

Primeira do fandom, não sejam exigentes com a personalidade deles. Escrevo ShinoKiba há muitos anos, não é fácil arriscar com outros personagens e sair da zona de conforto.

Não foi betada. Perdoem os erros!

Boa leitura ♥

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Nanami Kento trabalhava demais.

Ele era um mero assalariado. Mas um assalariado “raiz”.

Ele acordava muito cedo. Trabalhava a manhã inteira. Almoçava depressa em poucos minutos, e à tarde trabalhava ainda mais. Voltava para casa depois de um turno de catorze horas e só então descansava.

Sua vida se resumia nessa rotina viciosa e ininterrupta narrada em um cansativo pretérito imperfeito.

E isso mudou sem que fosse esperado ou pedido.

Aconteceu numa manhã quente de primavera. Nanami saiu impecável de casa como sempre, vestindo um terno alinhado de cor clara, que de certa forma dava mais elegância à sua silhueta. Desde que descobriu o efeito que causava nas pessoas, ele tornou essa vestimenta sua “armadura” regular. Nanami trabalhava em um escritório de vendas, impressionar os clientes era positivo e influenciava no resultado como um todo. Aumentar a comissão no fim do mês era ótimo, mas sua motivação era o dever bem cumprido.

Ele saiu de casa com a pasta em mãos, a mente fervendo e repassando todas as tarefas que deveriam ser resolvidas ainda pela manhã, para que a tarde se desenrolasse melhor. Era uma segunda-feira, o domingo representava um dia de acúmulos que tornava o dia seguinte uma verdadeira loucura! Era dia de balanço e repor as vendas do final de semana, todos os fregueses exigiam reposição o quanto antes, principalmente de produtos populares.

Era tanta coisa em mente, que Nanami passou pelo portão baixo e mal notou a pessoa parada em frente à casa. Teve noção das roupas escuras e uma duvidosa touca de lã na cabeça. Aquela criatura o cumprimentou ou foi impressão? De qualquer forma era suspeito. Ele passou direto, com os passos largos e não fez caso além de uma anotação mental de ligar para a polícia e denunciar alguém estranho rondando as residências. Estava muito ocupado com o trabalho, não podia gastar tempo lidando com assaltos.

Sua residência ficava perto de uma estação do metrô, ponto estratégico. Todo dia enfrentava aquela luta no horário de pico, tomando a condução lotada até o prédio da empresa. Era um dos primeiros a chegar e tinha sua própria sala, atuando como gerente de vendas. A secretária chegava em seguida para juntos mergulharem na rotina estafante.

Não havia nada fora da realidade: ligações desesperadas de estoques zerados, mensagens irritadas cobrando providências sobre falta de produtos, varejistas mal-educados que exigiam a solução dos problemas caídos do céu. Fornecedores solicitando mais prazo para cumprir as metas. E no meio disso tudo a empresa que servia de ponte entre aqueles dois lados da relação comercial.

Pela hora do almoço, com a cabeça latejando, Nanami conseguiu tomar apenas um café e engolir duas aspirinas, grato por ter descoberto o modelo de óculos que atenuava a iluminação e ajudava com enxaquecas. Toda a enxurrada de dificuldades estava solucionada. Sua eficiência foi algo que o ajudou a ser promovido mesmo antes dos trinta anos. Não era um homem simpático ou de personalidade envolvente, embora o jeito prático e pouco dado a dramas fosse a medida perfeita para o cargo que exercia.

Pela tarde fazia uma ronda pessoalmente, indo até as lojas parceiras, fortalecendo laços com os clientes e renovando contatos estratégicos. Não conseguia visitar todos, então essa tradição costumava se repetir na terça e na quarta-feira. Muitas vezes passava das oito horas no escritório, retornando para casa quando a noite já caíra totalmente. Os planos nunca mudavam: chegar em casa, tomar um banho e comer algo comprado na konbini do bairro.

Mas naquela segunda-feira, o término do dia não ocorreu bem assim.

Nanami descobriu duas coisas: a) esqueceu por completo de ligar para a polícia e denunciar a pessoa suspeita vista pela manhã e b) tal pessoa continuava no mesmo lugar: em frente sua residência, sentado no chão ao lado do portão.

— Olá! — o rapaz cumprimentou com um aceno, enquanto se erguia.

Intrigado, Nanami Kento analisou o desconhecido: não muito alto, vestido todo de preto, com uma touca de lã sobre cabelos de fios curtos e castanhos. Um desconhecido estranhamente familiar.

— Desculpe-me?

— Nanami-san! Sou Ino! Takuma Ino! Prazer em conhecê-lo.

O pobre homem levou o golpe e sofreu o impacto sem defesa. Takuma. Tudo fez sentido. Seu melhor e único amigo, com o qual ainda mantinha laços apesar de ele ter se mudado para Kyoto logo após a formatura. E que lhe enviou uma carta no mês passado, pedindo que abrigasse seu irmão caçula enquanto o rapaz cursava a faculdade em Tokyo.

Um arrepio fez o sangue de Nanami gelar. Ele tinha respondido e informado que não podia assumir essa responsabilidade!

— Seu irmão não recebeu minha carta? — por mais incrível que pudesse parecer, Takuma (o mais velho) não usava celular e repudiava tecnologia.

Takuma coçou a nuca, enquanto ajeitava a pequena sacola no ombro.

— Aniki tá incomunicável no templo — sorriu — Mas ele fala tão bem de Nanami-san que nem esperei a resposta para vir.

— Temos um problema aqui, meu jovem. Eu expliquei na carta que não posso abrigar mais uma pessoa. Minha casa é pequena e eu sou apenas um assalariado.

— Não, se preocupe, Nanami-san! Nós damos um jeito!

Foi impossível não suspirar. Ao invés de responder, Nanami se aproximou dois passos, apoiou a mão vaga nas costas de Takuma e o empurrou de leve, afastando-o da casa.

— Sinto muito pela confusão. Diga a seu irmão que esse arranjo é impossível. Adeus.

— M-mas, Nanami-san, não posso voltar pra casa. Comprei uma passagem só de vinda.

— Isso foi imprudente, pago a volta e depois você me ressarce — ele não queria ouvir nem mais uma palavra.

Em poucos segundos lembrou como seu grande amigo era problemático e em todas as confusões que se meteu quando eram adolescentes, até mesmo na faculdade! Ao se tornar adulto, o homem criou juízo, se acalmou e começou a servir em um templo, descobrindo a verdadeira vocação. Perfeito. Exceto que cada geração vinha pior, as chances de aquele rapaz ser sinônimo de encrenca era inversamente proporcional à vontade que Nanami tinha de querer enfrentá-la.

— M-mas — Takuma gaguejou enquanto era empurrado pela calçada sentido rua abaixo — Nanami-san!

Takuma livrou-se do empurrão e virou-se para encarar o outro homem. A alegria havia sumido do rosto jovial, assim como o brilho nos olhos ao encontrar o tão famoso Nanami-san de quem ouviu muito falar.

— O aniki disse que Nanami-san era legal! — lamentou decepcionado — Consegui passar na faculdade com uma bolsa, mas meu irmão não pode bancar que eu viva aqui. Fiquei esperando esse tempo todo pra nada? — ambos não tinham pais ou qualquer outra família que os amparasse.

Nanami respirou fundo. “Fiquei esperando esse tempo todo pra nada?”. Desde a manhã cedo? Aquele jovem teria se alimentado? Seu irmão servindo no templo recebia salário ainda pior do que o de assalariado, que ao menos era regular e contava com bônus.

E o que poderia fazer?

Acolher Takuma Ino estava fora de questão. Não ia ganhar uma responsabilidade de tal tamanho! Mas... ao menos ofereceria teto por aquela noite, uma refeição e pela manhã cedinho despacharia a encrenca direto para Kyoto. E nem pediria ressarcimento da passagem.

— Pode ficar essa noite. Mas amanhã vai voltar para Kyoto — decretou com firmeza.

A frase serviu como um interruptor que devolveu a alegria ao outro.

— Obrigado, Nanami-san! — Takuma sorriu, dando a impressão a Nanami de ter feito a coisa certa.

O pobrezinho parecia cansado. O gesto humanitário de estender abrigo por uma noite não era nada demais, apenas uma vírgula na narrativa de sua vida. Assim que se livrasse do rapaz na manhã seguinte, a rotina voltaria aos eixos e tudo seria como antes.

Exceto que não foi.

Porque na manhã seguinte, feliz com tudo o que recebeu (e isso se resumia a um bento pronto e pouco apetitoso, banho quente e uma cama de armar no quartinho da bagunça), Takuma mostrou que sabia ser grato.

Nanami acordou cedo com um inusitado cheiro de café da manhã. Surpreendeu-se ao entrar na cozinha e descobrir a mesa posta com comida caseira quentinha, e um sorridente cozinheiro esperando para dividirem a refeição.

Takuma dominou o momento, contando sobre a viagem e deixando clara toda a sua admiração pelo grande amigo de seu irmão mais velho. Nanami se descobriu sendo o protagonista de várias histórias em que salvava o amigo, uma impressionante lenda viva! E todas eram verdadeiras, sem exagero. Na adolescência Takuma (Nanami esperava que apenas o mais velho) era um caso perdido.

Ao invés de despachar o rapaz para a estação, o dono da casa se ouviu desejando boa sorte quando ele revelou que iria procurar um arubaito para ajudar com as despesas (oras, quem sabe não pudesse alugar uma quitinete e se mudar dali em seguida? Jovens viviam bem em lugares pequenos...).

Na hora de sair para trabalhar, que surpresa, tinha um bento pronto para Nanami levar de almoço! (Mas esse rapaz atrevido fuçou nas suas coisas?!).

Concentração para as tarefas? Sim, Nanami teve. Mesmo intrigado e incomodado com o súbito (e até então provisório) novo morador da sua casa, conseguiu se dedicar em cem por cento às tarefas cotidianas. Nanami Kento era assalariado raiz, afinal de contas. Só não conseguiu cumprir as catorze horas auto impostas. No término do expediente, às dezoito horas, pela primeira vez em anos (e para choque geral da repartição), ele bateu o cartão do ponto, pegou a pasta e saiu do escritório.

Encontrou Takuma na sala, preenchendo alguns currículos à mão. O rapaz não teve sorte em encontrar emprego, mas não desistiu! Diante do espírito empolgado, não teve coragem de enfiar o rapaz no metrô e acabar com o sonho de cursar a faculdade, decidindo ser generoso e repetindo o gesto humanitário de permitir que ficasse mais uma noite. Ou... até que conseguisse o arubaito e alugasse um lugar para si, fato que não demoraria muito dada a grande oferta de empregos temporários.

Planos que nunca saíram da mente de Nanani. Porque aquele “um dia a mais” virou uma semana. E uma semana virou um mês.

Os meses se somaram em anos e os anos consolidaram duas vidas.

Nanami sequer se deu conta de quando tudo mudou e aquele jovem incômodo passou a ser um parceiro no dia a dia, integrado à rotina e foi além. De repente não mais dormia no quartinho da bagunça, indo dividir os lençóis da cama de Nanami (que sofreu ao descobrir quanto o garoto chutava dormindo!)

Takuma se formou e foi aceito no departamento de polícia, sendo um detetive brilhante. A vida de Nanami se transformou, ainda que muita coisa permanecesse do mesmo jeito. Ele continuou como um assalariado, se dedicou em igual proporção, embora não cruzasse mais limites pouco saudáveis. Ele tinha um motivo para voltar mais cedo para casa, um motivo que saiu de Kyoto e o encontrou.

Esse motivo reformou seu pretérito. O passado imperfeito agora era simplesmente perfeito, porque o presente também passou a ser.

Notes:

Capítulo único, mas será única fanfic?

Reflitam!!