Work Text:
O dia voltava a dominar os países da Ásia no horário habitual, acordando as cidades através dos raios de sol, os quais estavam mais fortes naquele verão. As pessoas deixavam suas camas com má vontade, desejando apenas mais algumas horas de sono para recompor as energias, mesmo sabendo que não ficariam satisfeitas independente da duração de sua inatividade, e se arrumavam para enfrentar seus compromissos diários. Uma cidade específica se encontrava bastante agitada: a grande Seoul. A capital da Coreia do Sul estava com as escolas fechadas para as férias e, consequentemente, as ruas estavam preenchidas por jovens usufruindo o precioso tempo que esperaram por meses. O ar era um tanto animado e agradável, apesar das reclamações do quão quente e abafado estava qualquer ambiente, e pedia por um dia acompanhado de amizades.
Park Jisung foi uns dos acordados pelos fortes raios de sol do verão. Deixou as persianas abertas na noite passada porque seu ventilador não vencia a luta contra o calor sozinho, necessitando da ajuda do vento para refrescar o pequeno quarto onde dormia, então a luz natural entrava despreocupada no cômodo, cutucando o anfitrião até que acordasse. Jisung não dormiu bem por culpa de seus pensamentos e não queria sair de sua cama, quase cedendo à vontade de fechar os olhos e tentar dormir novamente, porém não podia ter esse luxo. Não se sentia confortável dentro de sua casa. A enxergava como uma gaiola e a si mesmo como um pássaro, então logo levantou-se e arrumou uma pequena mala para passar o dia fora. Depois de tomar o café da manhã e se trocar, o jovem com seus recém dezoito anos feitos saiu rumo ao seu lugar preferido
Sempre que o tempo esquentava, Jisung tirava um ou dois dias de sua semana para ir à piscina pública de seu bairro. Ele gostava de estar entre as pessoas desconhecidas, sentindo suas boas energias ao aproveitar a água fresca; gostava de estar sozinho naquele espaço em específico, nadando aparentemente despreocupado com a vida, sem ser incomodado por qualquer um ao seu redor. Era relaxante passar horas naquela grande piscina, algo quase terapêutico e basilar para o adolescente. Todos o conheciam ali, até ficavam incomodados quando ele não aparecia, pois o dia parecia incompleto sem o gentil e quieto menino de cabelo preto mergulhando na água, sempre desacompanhado e sem interagir com muitos.
Ninguém se perguntava o motivo de Jisung ir nadar tanto ali. Todos assumiam que, assim como as outras pessoas, ele estava ali para se divertir apenas, treinar seu nado ou que tivera uma semana cansativa e usava aquele lugar para relaxar. Jisung sabia disso e ficava grato por chegarem a essa conclusão. Por conseguinte, significava que o próprio era um bom ator. O motivo de sua ida não era, nem de longe, se divertir ou relaxar. A mente de Park Jisung era inquieta, lotada de melancólicos pensamentos os quais o faziam mal. Diversos problemas rodeavam o corpo em que a alma habitava e não deixavam o pobre menino falar sobre ele, o ameaçando com dizeres que o rebaixavam de todos os jeitos. Apesar de tais pensamentos, ele não aguentava mais só guardar os acontecimentos que o atormentavam, surgia uma premência dentro de si. O jeito que adotou de deixar tudo sair era nadar na piscina pública de seu bairro, rodeado de desconhecidos que nunca notariam seus sofrimentos ou conversariam consigo.
Park Jisung vestia sua sunga preta, evitando olhar os outros homens do vestiário para não visualizar as belezas e corpos alheios, os quais viriam a se projetar na sua mente mais tarde e o lembrar que achava seu rosto bastante ordinário e seu próprio corpo magrelo e pálido nada bonito. Ele deixava o vestiário e caminhava pelo corredor, cumprimentando os visitantes com seu sorriso tímido e acenando para as crianças animadas que balançavam as mãozinhas para o jovem, deixava seus chinelos e toalha em uma cadeira, soltando um longo suspiro. Em seguida juntava toda a coragem restante dentro de si e descia a escada de três degraus da piscina, sentindo a água fria o envolver, da mesma maneira que os maus pensamentos o envolviam diariamente.
Observava as pessoas tendo bons momentos com outras, e as invejava por experimentarem tal experiência de amizade enquanto ele sequer sabia descrever com suas palavras e memórias o que seria esse laço entre indivíduos. Tal sentimento o puxava para baixo, o obrigando a mergulhar. Jisung prendia a respiração e enfiava sua cabeça dentro d'água, deixando de ver e ouvir tudo, fazendo os muitos litros de líquido o abraçar por completo, o isolando de tudo que conhecia. Ele apreciava e ao mesmo tempo estranhava essa ação, pois comparava-a com a morte: o ser é isolado de tudo, não vê, não escuta e nem respira, tampouco tem noção do que ocorre há poucos centímetros de distância. Parecia agradável, porém desesperador. Por poucos segundos, mantinha-se parado e de olhos fechados, então os abria e obtinha a visão embaçada dos corpos que estavam ali, se mexendo de forma barulhenta, a qual não produzia som o suficiente para alcançar os ouvidos de Jisung. Então, empurrava a parede com os pés, conseguindo impulso para nadar, e balançava seus braços e pernas em movimentos ensaiados da natação, desviando do que estivesse na sua frente.
Em seu caminho até o outro lado, lembrava da infância que tivera, aparentemente tranquila, porém solitária; esquecido pelos pais por causa do trabalho de ambos e acompanhado pela babá, que não gostava muito da criança, e pelo vizinho de sua idade, com quem brincava de tarde e com quem teve algo mais próximo de uma amizade. Sentia falta de ficar ao lado da criança, cujo nome foi esquecido, nas tardes de verão que pareciam correr contra o tempo. Lembrava de como era a sua primeira escola, os tempos de ensino fundamental, onde ele era um bom aluno, o preferido dos professores e conhecido como "o menino inteligente que senta sozinho no recreio". Havia crianças que conversavam com ele, conversas rápidas para quebrar o silêncio, elogiar seus desenhos, comentar sobre as matérias, perguntar sobre os acontecimentos do dia, mas nada evoluiu o bastante para superar a categoria "colegas". Faltando oxigênio, Jisung voltava à superfície, deixando sua cabeça e seus ombros de fora, a respiração ofegante por ter segurado o ar por tanto tempo. Boiava um pouco na companhia de estranhos, do sol e do barulho, devolvia as bolas de vôlei que caíam perto de si, ajudava os menores que queriam manter-se flutuando na superfície igual a ele e mergulhava logo depois de se sentir recuperado.
Outra vez imerso no silêncio e com a visão embaçada, lembrava de sua adolescência ainda em curso, sem amigos e com constante pressão dos pais para decidir o que fazer em seu futuro. Lembrava de todos os seus aniversários solitários, comemorados em seu quarto com um simples bolo que ele mesmo comprara, uma velinha azul simples e muitas lágrimas para ocupar o espaço que deveria estar preenchido com pessoas queridas. Tirava novamente a cabeça d'água e já se encontrava próximo da outra parede da piscina, parte mais vazia por ser funda. Nadava em círculos e mergulhava de novo, completando o trajeto lembrando das brigas com os pais, por não seguir as mesmas escolhas que eles seguiram, por não ser forte aos olhos deles, por ser quem era.
Tocava com as pontas dos dedos o azulejo azul à sua frente e direcionava seu corpo para cima, voltando à realidade fora d'água. Algumas pessoas o notavam de longe, captavam apenas um jovem ofegante e sozinho. Se analisassem de perto o seu rosto, poderiam ver a profunda tristeza entre as gotas que escorriam nele. Mesmo sem mergulhar, lembranças melancólicas ainda surgiam nitidamente como um filme, e isso fazia Jisung ter certeza de que sua mente era masoquista: ele não desejava reviver os maus momentos de sua vida, eram dolorosos demais para serem lembrados. Entretanto, eles sempre estavam ao seu lado.
Entre as memórias ruins, ele também lembrava dos bons momentos de sua vida. Ele nunca esqueceu os elogios das crianças e dos professores do fundamental; de quando ia para as festas dos colegas de sala ou mesmo de estranhos e passava a noite dançando, comendo e beijando uma ou duas pessoas; de como era satisfatório notar sua evolução na dança; quando conseguia conversar por bastante tempo com pessoas novas; o tempo que tinha um cachorro nomeado de Loki, em homenagem a um dos seus personagens preferidos e quando descobriu o clube para nadar. Essas memórias eram seu combustível para levar uma rotina todos os dias, mas nem sempre eram o suficiente para deixa-lo bem.
A vontade de chorar o dominou. Não queria que ninguém assistisse suas lágrimas aparecerem, portanto tratou de se esconder novamente de todos, realizando o percurso de volta. Cortava as águas da piscina com seu corpo exatamente ao meio, ainda envolto pelas memórias de sua vivência, desta vez lembrando dos primeiros sinais de sua desistência: não queria levantar da cama, para não enfrentar a chuva de negatividade e rejeição que insistia em banhá-los todos os dias; perdera a vontade de dançar, algo que era sua paixão desde criança; não encontrava mais dentro de si a esperança de ser aceito em algum lugar, apenas a derrota ocupava seu ser. O familiar aperto no coração se manifestou pela primeira vez no dia, levando seus olhos a marejarem quase no mesmo instante, na tentativa de aliviar o caos que estava dentro do frágil menino. As lágrimas e o aperto só aumentavam na medida que sua mente avançava na linha do tempo de sua vida, chegando na época marcada pela destruição de sua autoestima, quando todas as características valorizadas por Jisung se tornaram odiadas em um curto período, quase da noite para o dia.
Interrompia seu trajeto, dava meia volta e voltava para o lado fundo da piscina. Sabia que não conteria suas lágrimas e nem suas expressões faciais — depois de milhares tentativas, aquilo tornou-se um fato, uma verdade absoluta — e não queria ninguém testemunhando seu estado. Sentava na escada não utilizada pelos banhistas e movimentava seus braços e pernas enquanto chorava, sentindo o impacto das gotas quentes com a pele gelada. Deixava todas elas correrem seu corpo todo até alcançar a água clorada, se tornando parte dela, o que trazia satisfação para Jisung. Esse foi o meio encontrado a fim de sentir-se um pouco melhor: ver seu choro se fundir com o meio em que se encontrava, se tornar parte dele rapidamente e sem esforços, ser útil sem incomodar ninguém próximo de si. Ele indagava se algum dia tal ritual chegaria ao fim e por qual motivo — sua melhora, sua deixa do mundo ou simplesmente por cansar-se dali.
Passada algumas horas — geralmente duas — Park Jisung deixava a piscina, caminhava até onde estavam suas coisas, se enrolava na toalha, calçava seus chinelos e ia para o vestiário, tomar banho e se vestir com poucas pessoas fazendo presença ali, pois ainda não era o momento preferido para os integrantes do clube irem embora. Andava até sua casa, com os olhos levemente vermelhos, os quais não levantavam preocupações de outros na rua já que acreditavam que estava daquele jeito por ter nadado bastante, apreciando o calor oferecido pelo sol até entrar em sua casa, encerrando a sua terapia com todos seus pensamentos calados.
Muitos dias ensolarados ocorreram dessa forma. Os mesmos atos, os mesmos sentimentos e o mesmo lugar, se assemelhando a um livro sendo relido demasiadas vezes por um leitor fascinado pela história. A única mudança eram as novas lágrimas produzidas pelos seus olhos, que percorriam com satisfação o caminho até a piscina, ansiosa para serem acolhidas naquela imensidão, e as novas angústias. Depois de alguns meses, Jisung passou a achar aquilo repetitivo e insuficiente, desejando um acontecimento novo, porém não conseguia o causar e não se sentia bem deixando aquele clube.
Certa vez, acordou mais tarde do que o usual e chegou mais tarde no clube, entrando junto com um jovem nunca visto por ali. Esse jovem o encarou com curiosidade, não sendo realmente notado até ambos estarem lado a lado se trocando no vestiário. Jisung apenas dirigiu totalmente sua atenção para o moço quando o outro notou que ambos estava fechando o armário com cadeados idênticos.
— Uau — O desconhecido exclamou, expondo sua personalidade animada — Uma coincidência dessa não deve significar qualquer coisa.
Jisung não entendera a afirmação, mas logo olhou para os dois cadeados.
— O que poderia significar?
— Algo grandioso. Que mudaria alguma vida.
Jisung apenas riu e colocou a toalha em seu ombro.
— Parece exagerado. Por que dois cadeados carregariam tanto peso?
— Tudo bem, admito que sou supersticioso, mas cadeados representam muitas coisas, e esses estão lado a lado por acaso. Talvez estejam fechando caminhos, ou liberando-os.
— Talvez, ou podem ser apenas objetos que trancam coisas que precisam ser trancadas.
— Você está acompanhado? — Jisung negou — Então podemos descobrir o isso pode ser durante essa tarde. O que acha?
Aquelas perguntas surpreenderam Jisung. Por alguns segundos, seu corpo recusou a responde-lo, mas logo tomou controle e aceitou o convite. Entraram na piscina e nadaram até o meio dela, onde não era raso, mas ainda era o suficiente para tocar com os pés sem estar completamente submerso. Enquanto isso, ia conhecendo sua companhia. O menino chamava-se Zhong Chenle, era um ano e dez meses mais velho, vinha da China passar alguns dias para visitar alguns parentes que moravam na Coreia do Sul, porém não era muito próximo daquela parte da família, então quis ter um tempo sozinho. Chenle era o oposto de Jisung: nada o segurava, irradiava confiança e era um imã de pessoas. O clima que o chinês construía deixava qualquer um confortável rapidamente, pois ele fazia questão de ser atencioso e engraçado, dando total espaço para o outro ser ele mesmo, e isso deixou Jisung admirado.
— Você é alguém de poucas palavras — Chenle comentou, após ficar quase dez minutos falando sem ser interrompido.
— Sim, mas hoje estou falando bem mais do que o costume.
— Queria ter um pouco dessa habilidade de ser quieto. Às vezes falo mais do que deveria.
— Não diria que é uma habilidade. Isso atrapalha tanto a minha vida, essa é uma das razões de eu não ter amigos. Não converso direito com ninguém.
— Eu estou achando sua conversa muito agradável. Você é simpático.
Jisung sentiu suas bochechas se avermelharem enquanto este ficava envergonhado. Não sabia lidar com elogios, além de não serem algo tão presente em sua vida, ele sempre duvidava da veracidade das palavras. Chenle notou o seu novo amigo ficar sem graça e deu uma gargalhada.
— Você fica bonito com o rosto corado — Com essa fala, Jisung não impediu que uma careta se formasse, mostrando-se desacreditado — Não venha falar que discorda.
— Discordo sim, olho meu reflexo todos os dias.
— Eu não sou o único a pensar assim, aqueles dois ali do outro lado estão te olhando desde que chegamos aqui. Sei que não estão olhando para mim, quando eu os encaro eles não desviam, diferente de quando você olha na direção deles... — Jisung negava suas afirmações — Você se diminui demais, Jisung.
— Ah — pensou se deveria ser sincero e liberar parte da verdade para Chenle. Ao encarar os olhos escuros e brilhantes do chinês, ele decidiu que seria uma ótima escolha — Não aconteceu nada na minha vida que me deram uma imagem positiva de mim mesmo. Não fico me diminuindo, é apenas a verdade.
— Não pode ser simples assim... não tem um jeito de lidar com essas situações que te deixam mal?
— O único jeito seria ir ao psicólogo. Enquanto moro com meus pais, isso é bastante inviável.
— Por isso você vem aqui? É como uma ajuda? — Recebeu uma afirmação como resposta — Então vamos embora. Precisamos de um local que te faça esquecer um pouco das coisas.
— Você se sente tão confortável em ficar passeando com pessoas que mal conhece?
— Se não fizer isso, como conhecerei os outros?
Sem dar tempo para Jisung o responder, o chinês logo saiu da piscina e o esperou. Voltaram para o vestiário e se arrumaram para ir a outro lugar. Chenle continuava falando entusiasmado, na tentativa de fazer o outro entrar na conversa — ato que estava funcionando aos poucos — e ambos não prestavam atenção nos caminhos que tomavam, de tão entretidos que se encontravam. Por coincidência, estavam perto da cafeteria preferida de Jisung, onde ele comprava seu bolo de aniversário todos os anos. Subitamente, ele se sentiu muito animado e a ideia de convidar Chenle para tal lugar surgiu com urgência.
— Aqui é um lugar muito bom! Gostaria de entrar?
A súbita alegria de Jisung surpreendeu Chenle e o deixou satisfeito por estar conseguindo causar uma mudança na rotina do outro, mesmo que fosse por um dia.
— Claro, parece bem agradável.
E foi ali que gastaram as horas restantes da tarde. Sequer notaram o sol deixando o céu, dando lugar para a noite negra acompanhada de alguns pontinhos brancos. Nem mesmo perceberam que o calor do café tinha se dissipado e que não terminaram de comer o pedaço de bolo que estava na mesa há 3 horas, esperando para ser degustado por eles. Apenas prestavam atenção nos assuntos que surgiam, visto que dois desconhecidos possuem muito a apresentar um ao outro. Ao terem passado o número de telefone ao outro e acabado suas refeições, Jisung insistiu em acompanhar Chenle até onde estava hospedado, por medo que este se perdesse na cidade, e assim foi feito.
— Aqui é minha deixa então — Ele disse, depois que Chenle apontou para a porta da casa onde sua família se encontrava — Foi muito bom te conhecer.
— Consegui te convencer que aqueles cadeados foram um sinal?
— Não. Estou convencido de que aquilo foi uma coincidência qualquer e que você apenas aproveitou-se da situação para conversar com alguém.
— Totalmente errado não está, mas ainda mantenho minha opinião. Escuta, vou ficar mais uma semana aqui, quero te ver mais vezes — Jisung fez uma cara de surpresa, fazendo Chenle rir — Não gostou?
— Gostei, só é incomum para mim. Quando você quer se encontrar de novo?
— Se for possível, todos os dias. É só uma semana, seria bom aproveitar — Recebeu um aceno positivo de cabeça e um sorriso como resposta — Então nos vemos amanhã, combinamos por telefone os detalhes. Até mais.
Jisung observou Chenle entrar na casa e não foi embora até a porta se fechar à sua frente. Então, começou a caminhar tranquilamente de volta para casa, revendo todos os momentos do dia enquanto isso. O estranhamento e a felicidade faziam festa dentro de seu cérebro e de seu coração, percorrendo o corpo todo em seguida. Pela primeira vez em três anos, ele se esqueceu completamente dos problemas e das memórias que tanto o atormentavam por algumas horas e se divertiu como se divertia quando era um amante frequente da dança.
Ao ficar frente a frente com o que deveria ser seu lar, a felicidade se retraiu e os problemas o cumprimentaram. Com um suspiro pesado, ele passou pela porta e foi direto ao banheiro, se despindo e entrando debaixo da água morna e relaxante. Apesar da maior parte de sua mente estar sendo consumida novamente pelos usuais pensamentos melancólicos, uma pequena parte lutava para o manter feliz, lembrando-o de seu novo amigo.
Seu novo amigo.
A frase soava como um delírio, quase impossível. Jisung se perguntava o que chamou a atenção de Chenle, o que o manteve do seu lado por todo aquele tempo, o que o fez dirigir palavras a ele. Não pensava em uma resposta, nada parecia chamativo em sua pessoa, constantemente julgada e rebaixada pelo próprio, entretanto, sabia que não era alguém confiável para essa pergunta, então apenas restava passar a semana com o amigo e descobrir aquilo por ele. Com esse pensamento, terminou de se banhar e deixou o banheiro, os lábios involuntariamente esticados em um sorriso, para ir ao seu quarto e voltar a conversar. Deitou-se na cama e pegou seu celular, enviando mensagens em seguida:
"Olá, cheguei em casa há 10 minutos. Tudo bem por aí? "
A resposta não demorou para chegar. Em menos de um minuto, apareceram novas mensagens:
"Tudo bem aqui, só meio chato :/ "
"Foi tranquilo o caminho? Está tudo bem com você? "
— Por que tanto sorri com esse celular? Arranjou alguém para namorar?
Jisung se assustou com a voz de sua mãe. Ao olhar para a porta, a viu encostada no batente, o olhando com uma expressão séria e curiosa.
— Não, só um amigo.
— Estava com ele hoje? — Jisung assentiu — Deve ter se divertido para voltar tarde desse jeito.
— Sim.
— Que bom. Vamos ver por quanto tempo isso vai durar.
E com isso, deixou o quarto do filho. Este suspirou pesado novamente, vendo que seu plano de evitar seus pais era sempre impossível de ser realizado. Mas logo se sentiu melhor ao responder as mensagens que continuavam chegando. Assim ficou até meia noite: bastante entretido nos diversos assuntos que surgiam na tela de seu celular, até que decidiram que era hora de dormir e guardarem energia para a semana que passariam juntos. Jisung colocou seu relógio para despertar às nove da manhã, colocou seu celular para carregar e ajeitou-se na cama, notando que sua cabeça estava mais leve ao coloca-la no travesseiro. A princípio achou estranho não ter seu corpo pesado como um chumbo, mas enquanto o sono ia o dominando, ele passou a gostar e apreciar a sensação de leveza, desejando que ela ficasse por mais tempo.
Então sua semana iniciava-se. Jisung acordava e reclamava do compromisso logo cedo, apenas depois de lavar o rosto e se trocar que surgia sua animação para sair de casa. Ia para a cozinha quando o lugar estava vazio e comia sua primeira refeição do dia calmamente, com sua mente viajando por longos universos. Enfim, escovava os dentes e deixava sua casa, indo até onde seu amigo estava hospedado. Ao encontra-lo, se surpreendia com a agitação do outro durante uma manhã e sempre fazia algum comentário sobre isso. Chenle apenas o apressava para irem ao ponto de ônibus e chegarem o mais rápido possível no local combinado. Cinema, parques, shoppings, museus e ruas cheias de lojas foram marcada pela presença dos dois jovens cheio de entretenimento para oferecer entre si e para os que estavam ao seu redor, pois suas risadas, comentários estranhos e situações vergonhosas não passavam despercebidos, muito pelo o contrário, até construíam amizades. Quatro novas pessoas entraram em sua vida em apenas uma semana, uma delas na verdade já conhecida da escola, porém ambos eram muito tímidos para iniciar uma conversa.
Jisung ficou encantado com o jeito que estava agindo. Quase concluiu que era outra pessoa tomando conta de seu corpo, que estava irreconhecível, mas depois de longas conversas com seus novos amigos e com seu próprio reflexo no espelho, ele entendeu que tudo aquilo era apenas uma parte de sua personalidade que fora reprimida por muitos anos, precisando de algo que quebrasse o cadeado que a aprisionou. Estava sendo o que ele sempre quis, mas o que nunca pode ser.
Chegou também à conclusão de que Chenle estava certo: aqueles cadeados realmente eram alguma coisa.
Além disso, estava experimentando um sentimento que nunca havia apoderado de si nos longos dezoito anos de vida: um enorme desejo de beijar alguém. Apesar de já ter sentido isso por outras pessoas, dessa vez era diferente. Era intenso, algo que poderia obriga-lo a mover montanhas por esse ato; seu corpo inteiro vibrava com o pensamento; seus olhos brilhavam ao ver quem tanto queria; eram tantos sentimentos que ele sequer sabia lidar com isso.
Jisung queria muito beijar Chenle.
Notou isso no segundo dia que saíram juntos. Não hesitou em reparar nos detalhes de seu rosto, nos lábios rosados que sempre se esticavam em um bonito sorriso, nos olhos que transmitiam tudo que passava dentro de si, nas mãos que procuravam contato com seu corpo a cada instante, na energia confortável e animada que o chinês tinha e muitas outras coisas que preencheriam um grosso livro. Ficava envergonhado toda vez que Chenle flertava consigo, não tinha coragem o suficiente para dar passos e sanar sua vontade. Não negava que sentia um pouco de ciúmes quando alguém tentava ficar com o amigo, pensando que essa pessoa tinha mais chances do que ele e que o tiraria do caminho, e ficava aliviado ao ver tal alguém ser recusado.
Em sua última noite juntos, os dois estavam saindo do cinema junto com outro jovem que tinham conhecido nos dias anteriores, comentando sobre o quão clichê foi o filme de terror que acabaram de assistir, além de rir dos sustos que os espectadores ao seu redor. Assim que o jovem foi embora, Chenle pediu para que Jisung ficasse mais um pouco com ele, pedido que não foi negado. Perto dali havia um evento. Eles não quiseram saber do que se tratava — apesar dos cheiros agradáveis de comida deixar óbvio o tema — e foram até lá procurando bancos para sentarem. Encontraram um vazio e logo ocuparam-no, ficando em silêncio nos primeiros minutos, apenas apreciando o ambiente.
— Aqui seria um ótimo ponto para observar o céu se não tivesse todas essas luzes — Chenle comentou — Se der um apagão agora eu não reclamaria.
— No meio desse evento cheio de luzes e máquinas? Iam ficar bravos, eu não gostaria de presenciar isso.
— Então como vamos ver as estrelas?
— Indo para outro lugar. Bem afastado da cidade. Talvez a sua casa no campo seja uma ótima escolha.
— Você vai gostar bastante de lá, é calmo e tem uma piscina — JIsung concordou e soltou uma risada fraca — Você vai voltar a ir na piscina pública depois que eu for embora?
— Não tenho certeza, depende de como me sinto no dia.
O silêncio caiu novamente. Chenle desviou o olhar e observou o céu vestido de poluição visual como se a conversa tivesse acabado ali, porém Jisung sabia que ele estava curioso para saber mais sobre aquele hábito, apenas não queria correr o risco de invadir o espaço do amigo.
— Pode perguntar o que quiser.
— Mesmo? — Jisung balançou a cabeça positivamente — Por que justo lá?
— Eu gosto de nadar, é relaxante. E também se eu chorar lá ninguém vai perceber, vão me deixar sozinho desabafando com a água enquanto as minhas lágrimas se tornam parte da piscina. Me sinto importante mesmo que seja insignificante para o espaço.
— Entendi. Espero que essas visitas diminuam.
— Eu também — Mais uma pausa. Uma pergunta que já fora feita antes, mas não respondida, saltitava na mente de Jisung e ele resolveu coloca-la para fora —Por que você veio falar comigo naquele dia?
— Além do cadeado igual? Não sei dizer ao certo. Algo me atraiu para o seu lado e você estava sozinho, eu logo quis conversar.
— Pessoas sozinhas em lugares são seus alvos frequentes?
— Pior que sim. Sempre que tem alguém do meu lado sozinho o meu cérebro arranja rapidamente algum assunto e sem que eu note eu já estou falando.
— Apenas isso? Eu admiro a sua facilidade em conversar. É tão natural e boa.
— Você acha? Fico feliz desse jeito. Minha mãe disse que desde criança eu gosto de falar com todo mundo e que chorava quando ficava sozinho. Dei trabalho para ela, coitada.
— Imagino que tenha quase ido embora com alguém que conheceu em menos de cinco minutos.
Chenle gargalhou com a memória e contou as quatro vezes que aquilo aconteceu, cada uma que Jisung considerava mais absurda do que a outra. Enquanto escutava as histórias, Jisung não deixou de reparar — novamente —nos detalhes de Chenle: seu cabelo tingido de loiro; seus olhos pretos que refletiam as luzes do evento; seus lábios se mexendo de forma rápida; o contorno de seu rosto; os gestos que sempre acompanhavam sua fala e a animação contagiante que ele exalava. Jisung sempre foi uma pessoa observadora, era comum ele analisar terceiros, mas naquele momento ele sentia algo diferente e não estava disfarçando.
— Me olha desse jeito que vou ser obrigado a te beijar.
JIsung arregalou os olhos e sentiu todo seu corpo ser esquentado por um forte constrangimento. Ficou tão surpreso com a frase dita que não conseguiu mexer seu pescoço para desviar o olhar.
— Você? Por que eu mexeria desse jeito com você?
— Eu fiquei com vergonha de contar, mas esse "algo que me atraiu para o seu lado" na verdade era minha vontade de ficar com você, mas fiquei sem coragem de pedir.
—Então, você ia embora sem tentar?
— Se não fosse por essa secada que você me deu, eu iria — Jisung sentiu seu rosto esquentar novamente pela vergonha — Você me beijaria? Seja sincero.
— Sim. Eu pensei várias vezes nisso, mas por falta de confiança e por medo de estragar a amizade eu nunca tentaria algo.
Chenle se arrastou no banco para ficar mais próximo a Jisung, entrelaçou seus dedos com o do outro e se inclinou, deixando poucos centímetros de distância entre suas bocas.
— Ainda bem que seu corpo fala mais do que você.
E assim, acabou com o espaço restante entre eles. Inicialmente, os dois lábios apenas se tocaram, num simples selar. Sentindo-se mais confortável, eles aprofundaram mais o beijo e ficaram por minutos naquele ato, dando pausas para se olharem e beijarem seus rostos e logo voltando a sentirem a boca e a língua do outro. Jisung abrigava diversos sentimentos de uma só vez: encontrava-se ainda surpreso com a atração de Chenle por si; estava agitado, seu coração batia rapidamente como se estivesse correndo; estava feliz por beijá-lo, muito feliz, e estava receoso por não querer que o amigo notasse sua genital ereta por todo aquele contato. Ele não queria parar, poderia ficar horas sentado naquele banco, abaixo de um céu sem estrelas e rodeado de luzes e burburinhos de estranhos, apreciando as carícias de Chenle. Essa vontade aumentava ainda mais ao lembrar que ele iria voltar para a China no dia seguinte e nada se sabia sobre o reencontro.
— Tudo está perfeito, mas você está pensando demais em alguma coisa — Chenle disse enquanto brincava com o cabelo bem preto de Jisung.
— Desculpa, só lembrei que você vai voltar para casa.
— Ah, isso. Relaxa que não é o que parece.
— Como assim? — A pergunta não foi respondida — Não podemos ter segredo entre nós, você acabou de beijar a minha boca.
— Eu sou um cara misterioso — Chenle recebeu um olhar sarcástico — Tudo bem, eu sei que é mentira, mas esse assunto eu não vou contar, terá que esperar para ver com os próprios olhos.
— Você vai voltar mais vezes para cá?
— Já disse que não vou contar. Vai valer a pena a espera, eu prometo.
— Se não valer, você vai me pagar um lanche.
— Agora você vai cobrar um lanche para cada coisa que farei na vida? — Jisung assentiu e riu, dando mais um beijo em Chenle — Vamos indo, não quero você voltando para casa tão tarde.
Eles se levantaram e foram caminhando para a casa da família de Chenle, que era perto de onde estavam, enquanto discutiam sobre Jisung ir de táxi para casa ou não. Jisung não se importava de caminhar mais quinze minutos de noite e não queria que gastassem dinheiro com a condução por ele, mas Chenle havia colocado em sua própria cabeça que não deixaria ele ir embora sozinho e já estava contando as notas que estavam em sua carteira. Assim que chegaram no destino de um deles, Chenle logo correu para o táxi que estava por perto e entregou ao motorista o dinheiro da corrida e o endereço.
— Você não tem escolha, pode entrar aí e me avisar que chegou assim que pisar em casa.
— Quanta preocupação comigo — JIsung puxou o loiro para um abraço — Vou sentir saudades.
— Eu também vou, mas vamos continuar nos falando, ainda tenho muito para descobrir sobre a sua vida e muita história minha para contar — Eles deram mais um último selinho e se afastaram. Jisung entrou no carro e deu boa noite para o motorista — Até mais.
— Até mais. Tenha uma boa viagem.
E com essas palavras, o motorista ligou o carro. Chenle foi ficando cada vez mais distante, acenando para Jisung até que não conseguisse mais vê-lo. Este se ajeitou no banco e olhou para suas mãos com um pequeno sorriso no rosto, repassando todos os detalhes do dia, inclusive os últimos momentos da noite. Em pouco tempo, o táxi parou em frente à sua casa. Jisung agradeceu ao motorista e deixou o carro, entrando em sua casa absorto em seus pensamentos, quase esquecendo de mandar mensagem avisando que havia chegado. Se arrumou para se deitar, mas não estava com sono, então pegou seu celular para ouvir música, colocou a playlist que ele mais gostava para tocar e encarou o teto enquanto as melodias invadiam seu cérebro. Sua boca ainda sentia o contato que tivera durante a uma hora passada com Chenle, assim como suas bochechas e suas mãos. Ele não esperava ficar tão marcado por um beijo. Os anteriores, apesar da maioria ter sido boa, não tinham causado tamanho efeito, então nunca esperou que aquilo acontecesse.
Ele se perguntava se era apenas uma atração.
Se havia algo a mais dentro dele.
Queria um romance?
Ou estava apenas lisonjeado pelo jeito que as coisas ocorreram?
Jisung concluiu que era a segunda hipótese. Fora um momento carinho com quem já tinha formado uma ligação afetiva, coisa que não aconteceu das outras vezes. Só poderia ser aquilo, ele pensava.
Jisung dormiu minutos depois da reflexão. Acordou sete horas depois, depois de um sonho agitado e confuso. Ainda processando os últimos acontecimentos do sonho, ele sentou-se na cama e ficou encarando o nada à sua frente. Não demorou para lembrar-se que Chenle ia pegar o avião naquele dia; pegou o celular e mandou mensagem desejando uma boa viagem e um gif de um desenho aleatório acenando com empolgação, que foi respondida quase que no mesmo instante com um "obrigado", avisando que chegaria na China em três horas e encerrou as mensagens com dois gifs de desenhos mandando corações.
O dia de Jisung passou rápido e tranquilo. Suas férias acabavam em dois dias então ele foi comprar um novo caderno, pois o primeiro semestre havia obrigado os estudantes a usarem todas as páginas e mais algumas soltas. Se encontrou com Na Jaemin na papelaria, amigo que já conhecia na escola e já havia sentado com ele e os outros dois amigos durante o intervalo, e juntos passaram uma boa parte da tarde. Quando o sol já cedia lugar a lua, eles se despediram após combinarem de se encontrar para ir à escola e foram para casa. Apenas mais tarde que JIsung foi olhar o celular e notar que Chenle havia chegado em seu país há quase sete horas e não havia mandado nenhuma mensagem. Preocupado, resolveu perguntar se ele estava bem, mas não obteve nenhuma resposta.
Seu cérebro, acostumado com o hábito de criar paranoias no dia a dia com poucos motivos, já começou a trabalhar em mil cenários que poderiam se aplicar na situação de Chenle, cada um que o desesperava mais do que o outro. Pensou principalmente na possibilidade de um sequestro e mais tarde pensou que ele não queria mais manter contato e que tinha sido apenas aquela mágica semana que a amizade se manteve, ideia que apesar de ser desagradável foi a que o tranquilizou, pois não machucava ninguém fisicamente. Os outros dois dias correram sem qualquer notícia de Chenle, alimentando as preocupações do jovem. Nem ele nem os amigos que o conheceram na semana passada conseguiram saber de algo e achavam estranho o sumiço, porém não havia nada para fazer, então apenas esperaram por algo.
O último mês de férias se encerrou e as ruas subitamente se esvaziaram, perdendo seus adolescentes para o ambiente escolar mais uma vez. Jisung foi acordado sem a presença dos fortes raios solares do verão cutucando-o, já que o sol ainda não havia nascido e o verão havia partido. Mesmo indisposto, deixou a cama e foi ao banheiro em passos arrastados, esperando que ao lavar o rosto a água fria o acordasse por completo. Feito isso, gastou quarenta minutos para tomar o café da manhã e se arrumar, saindo de casa assim que esteve pronto. Jaemin o esperava no ponto de ônibus, vestido roupas bonitas e bem passadas, como todo aluno em seu primeiro dia de aula, mas não havia penteado seu cabelo, o que não impedia seus fios pretos de brilhar bastante quando a luz pousava neles. Jisung conseguia ouvir a música alta que saía dos fones de ouvido do amigo e foi logo puxar um dos lados para chamar sua atenção.
— Desse jeito você vai ficar surdo, sabia disso?
— Não puxe assim, pensei que iam me roubar — Jaemin reclamou, pegando o fone da mão de Jisung — E eu sei disso, mas essa música é muito boa para ser apreciada em volume baixo. Quatro minutos não vão me derrubar.
— Como se fosse quatro mesmo. Preparado para encerrar nosso último ano?
— Não, parece assustador.
O assunto de terminarem o colégio seguiu e foi dando origem a outros totalmente desvinculados a vida escolar enquanto esperavam o ônibus e quando já estavam dentro dele. Ao chegarem, estavam em cima na hora, pois o transporte havia demorado para passar, e tiveram que correr para suas devidas salas. Jisung odiavam estar atrasado ou quase atrasado, mas gostou de correr desesperado com alguém do seu lado enquanto riam da própria situação.
As primeiras aulas não foram interessantes. Jisung não se interessava por química e nem biologia, então reuniu muita força de vontade para copiar o conteúdo da lousa e fazer os exercícios rapidamente. Feito isso, começou a fingir que lia os textos enquanto sua mente pensava em outras coisas, e dentre elas estava Chenle. O amigo não tinha dado as caras desde o dia de sua viagem e Jisung não aguentava mais ficar sem saber do falso loiro, apelido que deu a ele durante a semana juntos. Sentia muita falta mesclada com preocupação, porque sabia que não era do feitio dele demorar para responder e muito menos sumir todo aquele tempo. Seus pensamentos eram interrompidos pela correção dos exercícios e ele deixava, por alguns minutos, esse assunto de lado.
Quando o sinal do intervalo soou, Jaemin apareceu na porta de sua sala acompanhado de duas pessoas, animado para gastar os vinte minutos de pausa com todos eles. Era apenas a terceira vez dos quatro reunidos no pátio para comerem, mas conversavam como se aquilo acontecesse há anos, o que surpreendeu Jisung. A conversa fluía bem, ele se sentia acolhido, as memórias tristes de sua solidão tentavam o convencer de que o grupo fazia isso apenas por dó e educação, mas Jisung conseguiu reprimi-las no momento, não queria que nada atrapalhasse os bons momentos que estava conseguindo aproveitar depois de tanto tempo. O grupo, formado por Jaemin, o menino de cabelo platinado chamado Jeno e a menina dos piercings em ambas orelhas chamada Yuna, acabaram se identificando bastante com o novo amigo e não mediam sua animação durante as conversas com ele. Ao soar novamente o sinal, indicando o fim do intervalo, eles já tinham criado um grupo virtual para tentarem conversar na aula, visto que nenhum deles estavam na mesma sala, e se separaram, combinando se voltarem juntos para casa ao fim do dia.
Jisung sentou-se em seu lugar ainda sorridente. Aquilo era tudo que ele sempre pediu, e agora que estava experimentando tal realidade, ele não conseguia esconder o entusiasmo. Queria contar para Chenle sobre seu primeiro dia de aula e as conquistas que teve, mas além de ter uma aula importante, o garoto estava sumido. Antes que as hipóteses sobre tal situação voltassem a dominar sua mente, ele focou na aula de história que havia acabado de começar. Jisung amava as aulas de história, passaria o dia inteiro sem tirar os olhos do livro que narrava o passado de seu país — longo e agitado passado — com muita boa vontade. Apenas as aulas de coreano conseguiam superar esse amor por história, inclusive era com o que queria trabalhar. Ser professor de coreano era seu sonho desde pequeno, o único que se manteve vivo durante o seu pior período.
O resto do dia não teve nada de especial além de sua matéria preferida e umas mensagens no grupo recém-formado. Apenas na última aula que os quatro concordaram em faltar a última aula, química não era uma matéria que interessava Jisung e o professor já tinha dito que teria apenas um filme para ser assistido. Jisung pegou sua mala e tentou sair sem chamar atenção, objetivo que foi realizado com sucesso por sua carteira ficar no fundo da sala e do lado da porta. Foi em direção ao bebedouro, onde Jeno e Yuna já estavam esperando.
— Eu tinha a impressão de que você ia recusar — Jeno comentou enquanto Yuna concordava.
— Não é algo que eu faria com frequência, mas aula de química no primeiro dia e uma hora da tarde não deixa eu recusar uma oportunidade dessa.
— Eu espero não te convencer a faltar em quase todas — disse Yuna. Jisung já a viu saindo de sua sala várias vezes quando era o último período do dia — Mas caso quiser, me procura que quase sempre estou disponível — Deu uma piscadela para Jisung que fez ele rir.
— Você vai nos tornar um bando de vagabundos — Jeno lançou um olhar repreensivo carregado de ironia — Eu não era assim antes de andar com você
— Você que nos enfiou nessa vida, fica quieto. Onde está o Jaemin? Não é possível que está até agora na sala, a aula já começou.
— Ele está voltando do banheiro.
Como Jisung dissera, Jaemin saiu do banheiro arrumando seu cabelo e distraído, quase passando reto pelos amigos. Voltou para a realidade apenas quando Jeno falou com ele.
— Demorou para se arrumar, amorzinho.
— Eu fiquei meia hora com vontade de ir mijar, estava saindo rios de xixi. Nunca mais eu seguro por tanto tempo.
— Dá infecção, não faça isso mesmo. Então, onde ficaremos? Vamos pular o muro igual a última vez?
— Yuna, você quase quebrou o braço e ainda não aprendeu com os erros?
— Isso mesmo, Jaemin. Dessa vez não vai acontecer nada demais. Confia.
— Seria bom sair mesmo — Jisung concordou e os dois meninos olharam para ele incrédulos enquanto Yuna entrelaçou seu braço do dele — Gente eu estou com fome, aqui não tem o que comer.
— Decidido. Vamos pular o muro.
O grupo conseguiu pular o muro com facilidade e já se encontravam longe da escola, em um restaurante que todos gostavam esperando o almoço chegar. Jisung se sentiu um pouco errado por não estar na aula no momento, porém, como ele mesmo disse, não queria ter aula de química. Além disso, os vinte minutos do intervalo foram bons demais e ele ficou ansioso e agitado demais para esperar o relógio anunciar duas horas da tarde.
Enquanto almoçavam e preenchiam o silêncio do restaurante vazio — o lugar abrigava apenas os garçons, os cozinheiros, um casal de idosos acompanhado de seu neto adolescente e os quatro estudantes —, o celular de Jisung vibrou diversas vezes, indicando mensagens à serem lidas. De tão entretido nas conversas, ele não as notou.
Saíram do restaurante próximo das três da tarde, e como Jeno tinha que ir ao médico, eles resolveram voltar para casa. Andaram juntos até uma parte do caminho e se separaram depois dali. Apenas nesse momento que Jisung pegou seu celular e viu que havia quatro mensagens de um número desconhecido. Desconfiado, pois não via motivo para um estranho falar com ele pelo telefone, ele abriu a conversa.
"Jisung!!!!! É o Chenle"
"Desculpa sumir, aconteceram umas coisas"
"Pode me ligar quando ver isso? "
"To livre o dia inteiro"
Surpreso com as mensagens, ele apertou o passo para chegar em sua casa mais rápido. Assim que chegou, tirou os sapatos e foi correndo ao seu quarto, perguntou se poderia ligar naquele momento e no mesmo instante recebeu uma resposta positiva. Apertou o botão para telefonar e esperou o outro atender.
— Jisung! Tudo bem com você? — A voz animada de Chenle fez o coração de Jisung bater mais rápido e um alívio percorreu todo seu corpo. Dois terços de suas hipóteses pessimistas foram descartadas naquele mesmo momento.
— Eu que te pergunto! Você está bem? O que aconteceu?
— Então, eu estou bem, só cansado de tanta coisa que fiz nesses dias. Meu celular foi roubado quando eu estava no aeroporto; percebi isso só na hora de dormir e comprei no outro dia, mas não achava o papel que você me deu com seu número. Achei hoje e mandei mensagem na hora.
— Nossa, e eu mandando você jogar o papel fora naquele dia.
— Exatamente, eu teria que te procurar no twitter se eu tivesse jogado fora, e vai saber quantos Jisungs existem no twitter.
— Meu user não é meu nome.
— Nossa, eu estaria fudido se fosse o caso. Me passa logo sua conta, eu quero te marcar nas coisas.
— Não, assim eu não posso reclamar sobre você.
— Você reclama de mim olhando nos meus olhos! — Eles riram e ficaram quietos por alguns segundos — Eu senti saudades.
— Eu também senti. Pensei que não fosse mais falar comigo.
— Por um momento também pensei, já que não encontrava nenhum contato, mas mesmo que não achasse seu número a gente ainda se falaria.
— Sim, você visitaria sua família e se encontraria comigo, mas até isso acontecer seria muito tempo.
— Bom, nada a declarar sobre isso.
— Com esse mistério eu vou dizer que você viria mais cedo do que pensei.
Chenle novamente fez mistério sobre a afirmação e logo tratou de mudar de assunto. Até o anoitecer, eles ficaram juntos pela ligação, contando sobre os últimos dias agitados que tiveram e embarcaram em diversos assuntos para compensar o tempo sem contato que tiveram. Jisung estava tão aliviado e entretido que sequer se incomodara com a chegada de seus pais em casa ou com o olhar de estranhamento que eles deram ao passar pelo seu quarto. Nada importava ao seu redor até o fim daquela conversa.
Depois desse dia, a rotina de Jisung teve uma grande mudança. Em seu período escolar agora estava sempre acompanhado e constantemente motivado a testar suas habilidades sociais com novas pessoas. Almoçava em casa ou nos restaurantes baratos perto da escola, passava a tarde fazendo lição, tentava reviver algum de seus antigos hobbies quando terminava suas obrigações e conversava com os seus amigos virtualmente, principalmente com Chenle. Quando dormia, não se sentia tão pesado quanto costumava. Novas preocupações surgiam para alimentar sua ansiedade, mesmo assim ele sentia um pouco de paz, um conforto ao saber que ele não estava mais por conta própria e poderia lidar melhor com as coisas tendo apoio.
Meses se passaram daquele mesmo jeito. O último ano de escola de Jisung, que antes parecia tão distante, já estava em sua última semana. Apesar de ainda terem aulas, eram poucos os alunos que estavam prestando atenção nos conteúdos, pois a mente não tinha muita força restante e o clima extremamente frio não ajudava os estudantes. Jisung era um dos que ainda lutavam para manter o foco, apesar de não precisar saber daquilo.
— Oi, Jisung — Yuna o cumprimentou ao encontra-lo no fim da aula — Quer ir embora comigo? Os dois vão ficar na biblioteca fazendo sabe-se lá o que.
— Vamos, eles com certeza estão se beijando lá.
— Sim — Eles começaram a fazer o trajeto para casa enquanto conversavam —. Me sinto traída com eles não se assumindo logo para nós, é tão óbvio esse caso secreto deles.
— Já foram tão descuidados a ponto de se beijarem na nossa frente e não falaram nada, um absurdo. Diferente de você que chega contando emocionada sobre qualquer um que te dá a mão.
— Vocês deveriam seguir meu exemplo, fingir que a gente é um diário humano. Aliás, se for tudo bem perguntar, esse tal de Chenle aí, tem alguma coisa entre vocês, certo?
Jisung ficou sem jeito no mesmo instante, até tropeçou em seus próprios pés, fazendo Yuna soltar uma risadinha, mas logo decidiu que era uma boa ideia contar os seus sentimentos.
— Olha, nunca falamos sobre essas coisas sem ser de brincadeira, mas eu penso muito nisso. Eu fico meio confuso, sabe? Sinto muitas coisas que eu não sei se estou apaixonado ou estou muito apegado por ele ter sido meu primeiro amigo.
— Entendo. Se eu fosse julgar seu caso, eu diria que você está apaixonado, você fala dele com um tom que só os apaixonadinhos têm. Já se beijaram? — Jisung assentiu — Olha só o sorrisinho bobo, que coisa mais fofa. Eu acho que você já sabe a resposta disso tudo.
— Talvez.... Então por que eu ainda fico inquieto com esse assunto?
— Pode ser por medo. É uma coisa nova na sua vida, você pode estar inseguro com o que pode acontecer. E eu não sei se pode ter a ver com a sua orientação sexual, o que você acha?
— Bom, acabei de aceitar minha bissexualidade e é minha primeira vez que posso estar gostando de um menino, deve ter muita influência. Acho que a distância também me dá medo.
— A primeira menina que gostou foi uma menina que mora em outra cidade, a segunda em outro estado, agora me vem gostar de um menino de outro país. Agarra logo esse cara senão a próxima pessoa é de outro continente.
— Tipo o seu webnamorado da América do Sul?
— Tipo ele. Uma pena que terminamos, ele é bem legal, mas estudos em primeiro lugar. Enfim, se você ficar calmo e deixar os sentimentos virem de boa, a conclusão é que provavelmente você gosta dele, não é?
— É, ignorando as pressões que eu ponho nesse assunto, acho que ficou meio óbvio agora. Nossa, falar com você abre minha mente em muitas coisas.
— Experiências e compreensão fazem isso, amor. Fale sempre que quiser comigo, e me deixe atualizada sobre esse homem.
— Não serei um Jaemin e Jeno da vida, confia.
— Eu agradeço. Pior é pensar que eles estão até agora naquele lugar e depois vão falar com a gente como se eles nunca tivessem engolido a saliva do outro.
— E naquele dia que tinha um roxo enorme no pescoço deles e os dois mentindo que caíram da escada?
— Eu não tive nem coragem de falar nada nesse dia de tão absurdo. Bom, aqui é minha deixa. Amanhã eu volto com toda a fofoca que eu descobrir sobre aquela menina que a gente estava falando.
Eles se despediram animados e foram pegar seus ônibus em pontos diferentes, que não demoraram para chegar. Depois que o transporte o deixou no ponto próximo de sua casa. Jisung pegou o celular para trocar a música que ouvia em seus fones, mas recebeu mensagem de Chenle no mesmo momento.
"Ei, tenho uma novidade"
"Daqui a pouco te mostro"
Jisung fez careta ao ler aquilo e logo respondeu
Pra que falar que tem novidade se não vai contar na hora?
Tenha consideração com seu melhor amigo
"Mas esse daqui a pouco depende de você"
Como assim depende de mim?
"Essa resposta custa 1 beijo"
Não me oferece essas coisas que eu me apaixono
"Ainda não me ama?"
"Tá de brincadeira eu já falei pra minha cachorra que eu quero te namorar e você me iludindo"
Quem tá me iludindo é você com esses papos
"Eu nada, você acha que eu falo brincando essas coisas é?"
"Mano sai do celular você vai pisar na minha cachorra"
Assustado com a resposta, Jisung desviou sua atenção do celular e olhou para o chão, onde havia uma cadela branca de pequeno porte e de roupinhas perto de si. Olhou para frente e ali estava ele, o cara que invadia sua mente diversas vezes ao dia, parado em frente à mureta de sua casa com um sorriso no rosto.
— A Daegal queria muito vir para te conhecer, então eu tive que realizar o desejo dela.
— Só ela queria vir? — Chenle assentiu, escondendo o riso — Ela é minha prioridade aqui então.
— E eu que paguei a passagem para nós dois não ganho nem um aperto de mão? — Ele encarava com uma irônica decepção enquanto observava Jisung agachar para fazer carinho na cadela, que pulava e lambia a mão de seu novo amigo.
— Não, porque você não queria me ver.
— Certo essa é a maior mentira que eu já ouvi na minha vida, estou há seis meses esperando por isso.
Jisung riu e se levantou rapidamente, chegou mais perto de Chenle e deu o abraço bem apertado que esteve esperando todo esse tempo para dar. A felicidade e o conforto que preencheu seu corpo ao sentir os braços o rodearem e retribuir o ato na mesma intensidade era indescritível para Jisung. Ficaram assim por quase um minuto, até que se separaram e ficaram se encarando, acompanhados do vento gelado, a única coisa que fazia algum som naquele momento.
— Eu estava com saudades — Jisung falou, fazendo o sorriso de ambos crescerem um pouco mais.
— Eu também estava. Mas não se preocupe que agora você vai sentir bem menos vezes.
— Vai ficar mais tempo aqui? — Sem responder a pergunta, Chenle pegou Daegal no colo e se encostou na mureta da casa de Jisung — Deixa de mistério, me deixa ansioso.
— Vou ficar mais tempo sim. Na verdade, vou me mudar para cá — Os olhos de Jisung brilharam — É uma casa aqui na rua de cima, vou estar do seu lado sempre.
— Eu não acredito nisso. O que te trouxe para cá?
— Entrei na faculdade aqui. Faz tempo que quis estudar administração aqui na Universidade Nacional de Seoul, então fiz de tudo para vir para cá. Legal, não é?
— Uau, parabéns, Chenle. Isso é incrível demais, eu não sei nem o que dizer.
— Fala que vai trabalhar para pagar as contas junto comigo nessa casa que pode ser nossa.
— Quer morar comigo tão rápido assim?
— Claro. Além de eu ter sua companhia todo dia, você vai ter mais independência para fazer o que precisar sem ter seus pais o impedindo, o que vai deixar você melhor.
— Calma, estou em choque ainda. Você está falando sério?
Chenle riu e olhou para o chão, parecendo se preparar para falar algo muito importante. Em poucos segundos, ele levantou a cabeça e sorriu novamente.
— Sim, eu estou. Falei sério nas mensagens também, que eu falei para ela que quero ficar com você.
— É o que? Quer dizer que você gosta mesmo de mim?
— Claro que gosto, besta. Me declarei umas quatro vezes e você levando na brincadeira, eu não acredito nisso.
— Ah, não me parecia possível aquilo ser verdade e seu tom estava muito brincalhão para eu achar que era de verdade. Mas eu fico bem feliz com isso, porque eu também gosto de você. Muito.
— Agora eu que não sei o que dizer.
— Para que falar alguma coisa? Vamos pular logo para a parte em que a gente se beija e namora.
Os dois riram e Chenle gesticulou — com um pouco de dificuldade por estar com a cadela em seus braços — para que Jisung fosse mais perto dele. Atendido o pedido, não enrolaram para ter o tão desejado beijo. Sentir os lábios e a língua quentes no meio do frio da cidade dava uma sensação ainda melhor para Jisung, que gostaria de ficar o dia inteiro só ali, apenas beijando Chenle enquanto segurava seu rosto. E realmente ficaram ali por bons minutos, trocando carícias e olhares — e brincando com a cadela que pedia por atenção — até que flocos de neve começaram a cair do céu.
— A primeira neve! Nós vimos isso juntos, não é lindo? — Chenle comentou empolgado.
— É clichê demais.
— Não seja amargurado, estamos inaugurando um romance aqui.
— Vai me dizer que essa neve é a oficialização do nosso relacionamento?
— Vou. É o começo da nossa relação, que vai ser seguido por nós dois em uma faculdade, trabalhando para morar juntos, criando uma cachorrinha e cuidando de você para essa sua cabeça bonita ter a paz que ela merece. Entendido?
Jisung sorriu, procurou os dedos de Chenle para entrelaçar com os seus e olhou no fundo dos olhos pretos que tanto gostava.
— Entendido.
