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Sob o manto escuro de uma noite sem brilho, o Demônio caminhava tranquilamente por aquela terra desolada. O palco que uma vez quase recebera o espetáculo de sua própria morte agora jazia tranquilo longe daquele mundo de sonhos. Embora este último fato não fosse mais tão verdade.
Na realidade, aquela terra já não era mais tão desolada ou solitária como antes. Não graças a ela. No que antes foi seu mundo dos sonhos agora se tornara seu ninho. O poleiro onde sempre voltava e, de seu lugar privilegiado no alto daquelas montanhas, observava a cidade abaixo. Suas luzes ofuscando a luz de qualquer estrela no céu. Mas apenas no céu.
Pois lá embaixo, na terra, caminhando entre pessoas comuns, havia seu astro particular. Uma a qual o brilho só ela conhecia. E só ela protegia. Porque ela era a ladra de sua luz, mas também a que voluntariamente escolheu ser consumida por aquele fogo.
No alto do domo, suas asas esvoaçavam com o vento. Abaixo de seus pés, podia sentir as engrenagens girando. Suas próprias criações trabalhando incessantemente rumo ao seu maior medo. Ironicamente, embora fosse senhora do tempo, era esse quem empenhava-se contra ela. A cada momento mais próxima daquilo que temia e também do que buscava.
De seu observatório particular, o Demônio fitava Mitakihara estendendo-se até o horizonte. Embora para olhos comuns, numa noite como aquela, fosse realmente impossível ver qualquer outra coisa. Para a garota aquela cidade já havia sido muitas coisas. Campo de inúmeras batalhas, leito de sonhos conturbados, cenário de mortes, mentiras, dor e sofrimentos intermináveis. No entanto, também era lugar de momentos de felicidade, escassos, mas tão importantes quanto o resto.
Senhora de tudo aquilo, como o era, a garota não podia deixar de se admirar com o mundo em suas mãos. Embora ela soubesse, era um mundo perfeito, condenado por seu pecado desde seu início. Ainda assim, a sensação daquela imensidão ainda a pegava desprevenida de vez em quando.
O Demônio se deixou cair para trás, mergulhando na escuridão profunda daquela construção ainda vazia, exceto por ela mesma e, é claro, seu mais precioso tesouro. Que, de fato, não lhe pertencia de verdade, mas sob sua tutela repousava resplandecente sobre o monumento que havia sido concebido inicialmente apenas em seu benefício. Ela tomou um tempo para observar aquilo que tanto protegia e, inconscientemente, suplicou sozinha na escuridão em prol daquela a quem tanto amava.
— Só mais um pouco, Madoka.
