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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2021-09-07
Words:
1,724
Chapters:
1/1
Kudos:
3
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1
Hits:
42

quem que precisa ir dormir?

Summary:

—quando eu te tenho perto de mim?
Arene pode nunca escapar dessas memórias e desses sentimentos, mas ele ao menos sabe alguém que compartilha parte de tudo.

Notes:

hmm isso é um pouco vergonhoso hihihi
oi! eu amo muito esses dois, estava há meses escrevendo isso e depois de muito tempo, decidi arrumar alguma coragem para postar! eu nããããão sei até que ponto está tudo canon, admito que tomei a liberdade para inventar porque, bem, não tem tanto conteúdo deles por ai! mas de qualquer jeito, eu só espero que quem que esteja lendo isso goste

Work Text:

Ácido.

Aquela era uma palavra que se repetia até a falta de sentido com Arene, até terminar marcada em sua carne por completo. Seu toque era ácido, seus lábios eram ácidos, seu olhar e o ar ao seu redor eram ácidos. E naquela noite, como eram sempre todas as noites, Arene havia acordado se sentindo terrivelmente ácido. Seus sonhos eram uma coletânea de rostos rasgados que ele havia esquecido, momentos que já não importavam e uma cidade brilhante que ele nunca havia gostado, uma vida para a qual nunca retornaria.

Tudo era pior no escuro, tudo era pior à noite.

Havia sempre a realização tardia, a sensação corrosiva que se estendia da boca do estômago para o peito, vazando para todo seu corpo. Era o soco no travesseiro, a forma agressiva que ele empurrava o abajur de sua escrivaninha, o grito silencioso que ninguém ouvia. Ele sentia aquilo o corroer mais forte exatamente por saber que não era a primeira vez que aquilo acontecia. Seus lábios tinham gosto de gasolina, ele queria assistir algo ou alguém se contorcer enquanto o ácido as destruía de fora para dentro.

A-CI-DO

Ele gostava de como soava, havia algo pouco sentiente naquilo e Arene não se considerava tanto uma pessoa já há algum tempo. Ele era um conceito, um perigo, uma arma-coisa. Arene não se incomodava de se ver como uma arma, mas vez ou outra tentava compensar o fato. Naquela noite, o anjo lavou assiduamente o rosto marcado pelo sono, procurou as roupas novas que reservava para aquelas horas e bateu as unhas contra a madeira da escrivaninha para provocar o som de garras. Tentava compensar o fato, mas também não esquecer que era uma arma. Então abriu a porta do quarto.

Silêncio e escuro o engoliram, vindo com o arrependimento de saber que já não teria coragem de voltar. Era bobo pensar que sair mudaria alguma coisa, mas ele também não suportaria a própria companhia. Aquele quarto parecia odiável durante a noite, escuro e silencioso como um pesadelo da qual se acordava, mas não se podia deixar de viver com os olhos abertos. Quando Arene se virou para fechar e trancar a porta, o quarto se despedia, como alguém que já esperava sua próxima visita.

Os corredores de Rhodes Island eram muito piores à noite, porque no silêncio, eles pareciam familiares demais para seu gosto

Cruzar de uma ponta para a outra parecia uma madrugada sem fim que se estendia e estendia. Ele estava esperando algo ao virar um corredor, esperando que acontecesse e que ele pudesse impedir de acontecer. A vida de Arene havia sido uma grande espera, a espera que o departamento de engenharia terminasse o check-up de seu cajado, a espera de que o doutor terminasse seus afazeres para atendê-lo, a espera que ouvisse batidas na porta e vozes o chamando…

A espera por seus pais.

Memórias de sua família eram mais perigosas quando ele as evitava. Quando Arene havia se acostumado a viver sem elas, a ideia de relembrá-las voltava a parecer repugnante. E ele sabia que pensamentos assim não deveriam ser ignorados, eles continuariam insistindo até que ele cedesse, apenas fragmentos que esperavam Arene completá-los. Noites em claro tão similares com aquela, manchas negras em sua pele, a chegada dos oficiais para tirá-lo de casa por sua infecção.

Ele deveria achar alguém, mas não sabia quem e nem o que faria quando encontrasse. O doutor sugeriria um copo de leite e que Arene controlasse sua respiração, mas ele sentia que só descansaria quando o ácido que se acumulava em seu peito saísse de alguma forma. No fim, serviria apenas para distraí-lo e nenhum deles seria capaz de aliviar os problemas do outro. Arene era uma arma cheia de problemas, o ódio apenas um efeito colateral de todos eles. Ele deixava o sentimento consumi-lo e se banhava nele com gosto, era o veneno que temperava sua lâmina e tornava seu ataque letal.

Ele era a melhor arma que ele próprio conhecia. Então seus pés o guiaram por corredores que poderiam ser de Rhodes Island ou das catacumbas abaixo de Laterano. Sua mente cheia de pessoas, cidades, armas e anjos.

Arene estava parado diante de uma porta que não era sua, já batendo.

"... Vai logo, Ad." Ele murmurou, pela cacofonia conhecida que veio após sua batida.

Adnachiel abriu a porta com um pedaço de ferro-velho numa das mãos.

"Pode entrar!" O anjo sorriu, convidando ele a entrar. O que era uma bobagem, porque Arene já havia entrado.

O quarto do outro Sankta tinha pedaços de armas velhas espalhados por todo lado, mas também tinha Adnachiel. O que juntava num único lugar os objetos de desprezo e adoração de Arene. Porque ele já se considerava uma arma perfeita, ele não precisava e não aceitaria ser trocado por outra.

"Achava que seu quarto seria mais arrumado..." Ele atacou primeiro, enquanto Adnachiel deixou a peça em sua escrivaninha e se virou para observar Arene.

“Venha quando eu não estiver trabalhando, então.” Que era uma resposta cruel demais, porque Arene simplesmente responderia:

"Você está sempre trabalhando."

Adnachiel pendeu a cabeça para o lado, como quem considerava o que ele dizia, não concordava, mas também não queria dizer nada. Arene se sentia 3 vezes mais perigoso apenas com o silêncio.

"É mais um estudo…" Pontuou, dando de ombros.

"Achei que prodígios não estudavam."

Adnachiel riu docemente.

"Se eles querem ser algo além.. " Responde, antes de ir para sua mesa no canto, voltando a trabalhar enquanto dava atenção para o outro anjo.

Mas Arene já estava pensando na verdade suprimida. Na matéria de estudo muito mais do que no interesse do outro Sankta em fazer algo para si mesmo. Adnachiel estava caminhando para algo grandioso, ele era apenas um ajudante dos engenheiros de Rhodes Island quando ele o havia conhecido. Agora ele estudava mecanismos e armamentos que só deveriam ser vistos por alguém com o dobro de sua idade. Rhodes Island era uma banheira rasa demais que transbordava.

Arene era só uma arma, mas agora ele se sentia trocado por armas melhores. De novo.

"Não faça essa cara." O outro Sankta o avisa.

"Pfft. Que. Cara?" Arene brinca com um sorriso ácido, expectante. Adnachiel ri com um pouco de desistência.

"Por que você é assim?" Há algo admirável na forma como ele a fala, diferente do tom que qualquer outra pessoa usaria em Arene. Ele falava "assim" como se o outro anjo fosse uma pessoa.

"Você pode perguntar aos meus pais e Laterano." Ele responde com uma risada.

"Em outras palavras, acho que nunca vamos saber." Os garotos riem, saboreando a outra pessoa que compreendia um pouco de seu humor compartilhado e estranho.

"... Ainda assim." Adnachiel prossegue, hesitante. "As faculdades de Laterano são as melhores nesse ramo…"

"Faculdade." Arene se vê repetindo acidamente.

"Você não precisa falar assim, também."

"Estou repetindo o que você disse." Ele riu de novo, mas o outro anjo não o acompanha.

Não era culpa de Arene ser uma arma.

"Não diga isso assim." Ad responde, por fim.

"Eu só estou repetindo o que você disse." Mas ele sente a vergonha queimar em uma conjuntura de emoções diferentes e corrosivas. E ele sente a vontade de piorar uma conversa que já estava caindo aos pedaços. "Você precisa? Tem muitos engenheiros bons aqui."

Ad larga o que quer que ele está fazendo. Arene o percebe mais claramente agora: algo pontiagudo, brilhante e de aparência letal. Parecia um espelho para si mesmo.

"Se eu quiser fazer certo.." Agora é ele que está olhando para Arene de uma forma que ele não gosta.

"Eu fiz uma." Apesar de que para Arene, havia sido mais pela necessidade de se controlar, do que seu interesse nas Arts em si.

"E eu farei outra." Ad sorri satisfeito, o que só torna tudo pior.

Está escrito em seu rosto.

"Tanto faz, eu só estava dizendo que esses lugares são chatos."

Adnachiel para outra vez, por muito mais tempo.

"Por que você está agindo assim hoje?"

Porque ele era uma arma e ele fazia o que armas deveriam fazer. Ele era corrosivo, incontrolável e problemático. Como uma chuva ácida e Adnachiel havia esquecido seu guarda-chuva. E agora, ele se sentia trocado por uma arma muito melhor que si, observando enquanto Ad voltava a fazer o que quer que estivesse fazendo com aquelas peças.

"Você poderia parar com isso?" Ele diz no fim, em seu próprio ataque final e cortante.

"Bem, você poderia ter avisado que estava vindo.”

Arene lançou um olhar fulminante na direção do outro anjo.Um olhar que foi sustentado com o de Adnachiel até que ele sentisse algo em si quebrando e uma vontade imensa de confesar uma coisa.

Ele riu, acidamente.

“Tanto faz, se você quer perder seu tempo em tudo isso. Só achei que eu poderia aparecer para você não morrer de tédio com você mesmo.” Arene está pronto para sair e cortar a conversa da mesma forma que ele estava sempre acostumado a fazer. Mas não muito antes de uma mão pará-lo.

“Ok, ok, só leve isso com você.” Adnachiel sorri, desistente, de uma forma que faz Arene querer jogar o que quer que ele está segurando no chão, mas ele se contém.

Naquelas mãos, tinha…

“Isso é… Uma parte de cetro?”

“Você disse que você estava ficando entediado de sempre usar as mesmas coisas, eu pensei que poderia tentar fazer algo diferente.”

Arene olhou o pedaço metálico, afiado e cheio de espinhos que poderiam facilmente destroçar um ser-vivo. Era a coisa mais linda que ele tinha visto depois do sorriso de Adnachiel. O mundo deixou de ser tão insuportável, só um pouquinho.

“B-Bem… Você gostou?” O anjo continuou, com o silêncio. Num sorriso tão contido e envergonhado que Arene faria qualquer coisa por.

“É— Ok…” Mas o seu rosto estava quente.

“Eu esperava um ‘obrigado’ mas acho que isso é o máximo da sua educaç— Ai!” Arene o parou com um golpe do exato pedaço metálico, afiado e cheio de espinhos em sua cabeça. E entretanto mesmo entre a dor, era impossível não notar o sorriso de canto que ele mantinha fixo no rosto.

“Cansado?” Arene inquiriu baixinho para o outro anjo que lentamente negou.

Aquela poça corrosiva de ácido estava lentamente se acalmando e deixando de vazar em tudo que ele tocava.

“Bom.” Foi tudo que ele disse antes de se aproximar para beijar Adnachiel.