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Na gênese de suas íris

Summary:

Mais acabado, desgastado nas bordas e podre por dentro, mas inegavelmente Mikey.

Mikey encara essa versão desconhecida de si, cautela disfarçada sob uma máscara de indiferença ameaçadora.

 

Ou: há dois estranhos que não são estranhos na sala dos Sano. Isso leva a uma conversa um tanto perturbadora.

Notes:

Considerando a fanfic em que me inspirei, isso era para ser algo leve e divertido. Meu plano original era que fosse algo leve e divertido. Mas, como venho descobrindo, quando começo a escrever, as ideias e palavras ganham vida própria, organizando-se como acharem mais conveniente. Não que o resultado seja ruim.

Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Se Mikey tivesse uma tesoura, ele poderia cortar a tensão na sala de tão espessa que ela era. 

Ele lança um olhar curioso para as costas de Shinichiro. Em pé atrás do sofá, Izana pôs uma mão em cada um de seus ombros, apertando de leve. Emma sentou ao seu lado no sofá, segurando seu braço com força. 

— Que bonitinho.

Com esse comentário, seus irmãos ficam ainda mais rígidos, cada um deles chegando para mais perto de si. Era um tanto sufocante, honestamente. 

Mikey inclina a cabeça, tentando ver além de Shinichiro, mas Izana puxa-a de volta, mantendo-a em linha reta com  as costas de seu irmão mais velho. 

— Fique quieto, idiota — Izana ordena baixinho. 

— Idiota é você, idiota — Mikey retruca, mal-humorado. Ele já estava começando a suar.

Alguém ri, uma risada oca, sem humor ou calor. Mikey nunca ouviu alguém rir assim. 

— A vida é uma caixinha de surpresas, não é? Ou eu deveria dizer a morte? 

Emma crava as unhas em sua camisa, beliscando a pele por baixo. Mikey estremece. Um pouco mais de força e ela iria tirar sangue. Ele começa a resmungar, xingando Izana e Emma, esses brutos. É quando Shinichiro diz:

— Quem são vocês? — Em frente aos três Sanos mais novos, Shinichiro se erguia em toda a sua altura de 1,70, com músculos magros e cabelo bagunçado. 

Se a camisa branca dele não estivesse cheia de furos e suja de graxa, ele poderia passar uma imagem intimidadora. Do jeito que estava, era só um pouco menos patético do que o normal. Vergonhoso. 

A voz, entretanto, não tinha intenção de respondê-lo, menos patético ou não, perguntando em vez disso: 

— Você está mesmo vivo? 

E isso Mikey não poderia ignorar. Ele se livra das mãos de Izana e Emma, ignorando seus protestos ao erguer-se e ficar ao lado de Shinichiro. Shinichiro coloca uma mão à sua frente, silenciosamente mandando ele não se aproximar mais. Mikey poderia obedecer seu irmão mais velho quando ele parecia tão aflito. Principalmente porque Mikey sabia que ele não estava nem um pouco preocupado com a própria segurança, só se importando com a de seus irmãos mais novos. Shinichiro era imprudente assim.

Mas adivinha só? Dois podem jogar esse jogo. 

— O que você quer dizer? — Mikey perguntou com seu tom mais autoritário, o que ele usava durante as reuniões de Toman e que fazia todos obedecê-lo. 

O sorriso que ele recebeu em resposta, porém, sangrava desobediência e desprezo.

— Eu não estava falando com você.

Mikey reconhecia praticamente tudo: o formato do nariz e do queixo, a inclinação das sobrancelhas quando os olhos encolhem com o sorriso, a quase inexistente cicatriz perto da linha do cabelo de uma traquinagem infantil. Até mesmo a cor escura dos cabelos. A tatuagem é novidade. De onde está, Mikey só consegue ver algumas linhas pretas, mas o resto ele viu ao se olhar no espelho todos os dias. O cabelo era do tom do de Shinichiro. 

Mas os olhos... Eram os olhos que o incomodavam. Eles não eram os olhos de Mikey, apesar de todo o resto (com exceção do cabelo e da tatuagem) ser.

Mais acabado, desgastado nas bordas e podre por dentro, mas inegavelmente Mikey

Mikey encara essa versão desconhecida de si, cautela disfarçada sob uma máscara de indiferença ameaçadora. 

— Não importa. — Izana deu a volta no sofá, ficando do outro lado de Mikey. — Responda: por que você está perguntando se Shinichiro está mesmo vivo? 

Se dois podem, três não deve ser um problema. 

O Mikey de cabelo preto inclina a cabeça, olhando para Izana com as sobrancelhas levantadas. Mikey odeia que ele ainda sorria de modo tão relaxado. Ele também não gosta da forma como aqueles olhos frios percorrem Izana da cabeça aos pés. Faz com que ele queira agarrar seu irmão e levá-lo para o mais longe possível. 

Quando ele fala, o tom desse Mikey é desapegado, quase como um monólogo, apesar dele estar nitidamente falando com Izana: 

— No início, pensei que isso — ele gesticula para a sala no geral — era algum tipo de delírio por desnutrição e desidratação. Não lembro a última vez que comi ou bebi algo, mas lembro claramente da sensação de uma bala perfurando meu crânio. Então pensei que fosse algum delírio por causa da perda de sangue. Só que — ele para, o sorriso ficando maior, mais desprendido, desinteressado — eu não tenho ideia de quem você seja.

Ele realmente era magro, Mikey percebe com uma rápida avaliação. No entanto, não parecia desnutrido. Mas o que Mikey sabia sobre pessoas que aparecem do nada nas poltronas das casas dos outros, por mais que essas pessoas sejam versões estranhas suas? 

— Ele é nosso irmão mais velho. 

Falando em pessoas que aparecem do nada e que são versões distorcidas suas. 

Mikey vira a cabeça, olhando para essa outra versão. Ele esteve em silêncio desde que apareceu, cabeça baixa. Agora que ele a levantou, entretanto, era inconfundível: igual. Nariz, queixo, sobrancelha, cicatriz — tudo igual. Haveria uma tatuagem em seu pescoço também? Como outro, o que mudava nele eram os olhos e o cabelo. O cabelo era branco. Como o de Izana. 

Mikey não tem certeza se quer saber o porquê dessa diferença. 

— Ah, é mesmo? — Por um momento, Mikey de cabelo preto pareceu verdadeiramente interessado. Mas só foi por um segundo mesmo e logo o sorriso vago estava de volta. — Não tive o prazer de conhecê-lo. 

— Não seja por isso. — Izana levanta o queixo, um sorriso imperioso no rosto. Mikey quase levanta a mão para socá-lo, mas consegue se controlar por pouco. É automático, desculpe. — Não há momento melhor que o agora: Sano Izana. Você é? 

— Você é um Sano… — Mikey de cabelo branco repete baixinho. 

Shinichiro ouve e, se é que é possível, fica ainda mais tenso, a mão caindo em punho ao lado de seu corpo. 

Izana, no entanto, não se importou. Mikey de cabelo preto também não. 

— Sano Manjiro, mas acho que vocês já sabem disso. 

— Sim. Ambos são Mikey. Versões adultas dele. — Emma levanta, desviando das mãos de Shinichiro ao ficar entre seus irmãos e os agora confirmados (dez pontos para Mikey por adivinhar certo!) Mikeys futuros. — O que querem? Como vieram parar aqui? 

O que é que Mitsuya costumava dizer mesmo? Algo sobre Sanos serem superprotetores com aqueles que amam? Mikey tinha que concordar com ele.

— Eu já tinha quase esquecido do som da sua voz. — Pela primeira vez desde que apareceu, Mikey de cabelo preto não estava sorrindo ao falar, rosto impassível. 

Mikey perdeu o fôlego com as implicações nessa frase. Na verdade, toda essa conversa tinha mais implicações do que ele estava disposto a reconhecer. Ele só queria que esses Mikeys perturbados sumissem. Agora .

Emma estremeceu, mas não recuou, mesmo quando Mikey, Izana e Shinichiro a puxaram para trás, decidida a obter respostas. 

Mikey de cabelo preto de repente ri, mais uma vez o som oco invadindo a sala. 

— É realmente bonitinho. Hilário. Que piada de mau gosto do caralho . — Ele parecia com raiva, os dentes raspando violentamente para manter seu sorriso. Cruel, amargo, ressentido, desesperado . O sorriso mais emocional que ele já deu. Também o mais honesto. — Respondendo às suas perguntas: não quero nada e não sei como vim parar aqui. Estou morto, até onde sei. Acredito que seja o mesmo com você? 

A pergunta foi dirigida a Mikey de cabelo branco, mas esse tem sua atenção dividida entre encarar Izana e Emma, olhos opacos absorvendo intensamente cada pequeno detalhe. Os dedos de Mikey se contraem involuntariamente. 

— Vou aceitar isso como um sim. Satisfeitos? — Ele levanta as sobrancelhas. 

Mikey se pergunta se ele percebeu que parou de sorrir mais uma vez. 

— Por que vocês morreram? — É Shinichiro quem pergunta, dedos apertando com força a manga de Emma. 

Mikey de cabelo preto dá de ombros. 

— Você não quer saber. — Ele se reclina contra a poltrona, a raiva coberta sob uma camada de diversão perversa. — Com certeza ninguém aqui quer. E eu não quero dizer. Pra que manchar a família feliz com meus pecados? 

Mikey quer. Ou ele pensa que quer. Mas quando ele encontra os olhos dessa versão destruída sua por cima do ombro de Emma ele entende que não, ele não quer. 

Ele não quer ficar igual a nenhum desses Mikeys. Não quer saber o que eles fizeram para ficar assim. 

Mesmo que ele sinta seu estômago se contorcendo em desconforto, os dedos gelados apertando a bainha da camisa. Por que eles são Sano Manjiro. Ele é Sano Manjiro. Que garantias ele tem que não vá ficar igual ou pior que eles? 

— Eu consigo ouvir seus pensamentos daqui. — Mikey se assusta com a voz de Izana, tirando os olhos do Mikey de cabelo preto para encara-lo. Izana, entretanto, não o olhava, avaliando os dois Mikeys com olhos estreitos. — Eu sei que você não é muito inteligente, Mikey, mas pense : são duas versões suas, dois futuros distintos. Universos paralelos talvez? Seja como for, eles não são você. Vocês três são pessoas completamente diferentes, vivenciaram situações diferentes e, pelo que entendi, tem famílias diferentes. Eles não são você. Não seja estúpido.

— Sério, Mikey? Você nem consegue pentear seu próprio cabelo. Esses caras parecem que já cometeram mais crimes do que a quantidade de dorayaki que você comeu durante toda a vida — a voz de Emma era um tanto histérica, mas principalmente irritada, virando a cabeça para fuzilar Mikey com os olhos. 

— Não tem como você se tornar algo meramente próximo a eles. Você não é assim. Nós não permitiremos que seja. — Shinichiro lhe dá um tapa na cabeça, os dedos permanecendo em seu cabelo em um carinho singelo. 

Mikey abaixa a cabeça, sentindo os dedos de Shinichiro caírem para o lado. Acontece que ele tem garantias. Três garantias que demonstram sua preocupação por meio de xingamentos, provocações e certezas inabaláveis. 

A dor em sua barriga diminui quando Mikey inspira profundamente. Ele larga a bainha da camisa. 

Quando ele ergue a cabeça, Mikey de cabelo preto o observa atentamente, um sorriso de lábios fechados no rosto. 

— Bem, não complemente certo, mas errado não tá — diz e fecha os olhos. 

Mikey de cabelo branco encostou as costas na poltrona, encarando o teto, parecendo ter perdido o interesse neles. 

O silêncio cai na sala. Mikey sente Shinichiro pressionar a mão em sua cintura, empurrando de leve enquanto puxa a manga de Emma. Mikey entende. Ele não sente nenhum perigo real, mas não acha prudente continuar no mesmo cômodo que esses dois. E ele meio que está com fome. Talvez seja por isso que sua barriga doeu mais cedo… Humm… dorayaki… 

— Pare de sonhar acordado — Izana rosna ao agarrar seu pulso, puxando-o com força. 

A sutileza que se dane, não é? 

Mas os Mikeys não prestam atenção neles, perdidos em seus próprios mundos bagunçados. Mikey e seus irmãos chegam até o batente da porta antes que Mikey de cabelo preto volte a falar, congelando-os:

— Eu respondi a todas as suas perguntas... — começa e Mikey vira para encará-lo. Mikey de cabelo preto está olhando diretamente para ele. — Então me responda ao menos uma. 

— Claro — Mikey concorda. Ele tenta sair do casulo protetor de seus irmãos. Eles, porém, o puxam de volta, agarrando-se protetoramente a ele. 

Mikey de cabelo preto sorri com ironia. 

— Eu preciso saber… Aqui, neste universo ou seja o que for, estão todos vivos? 

Mikey levanta as sobrancelhas. 

— Todos quem? — questiona, com uma leveza que não sentia. 

Emma prende a respiração a sua frente e o aperto de Izana se torna doloroso. Shinichiro empurra, mas Mikey não se mexe, esperando.

— Todos. — Ele dá de ombros. Com a falta de resposta, esclarece, sem humor, por mais que seu tom seja de uma leviandade doentia que faz todos, com exceção do Mikey de cabelo branco, empalidecerem: — Shinichiro, Baji, Emma, Draken, Mitsuya, Pah-chin, Kazutora, Chifuyu, Hakkai. Todos. Vivos? 

— E Izana — Mikey de cabelo branco completa. 

Shinichiro cai pesadamente contra o batente da porta, largando Mikey para esfregar o rosto com as duas mãos, exasperado.

— Estamos aqui na sua frente, não estamos? — responde, voz trêmula. 

— Estão mesmo? — O sorriso fica maior. — Como posso saber se tudo isso é real? 

— Quer que eu chute você para que saiba que isso não é um sonho? — Izana prontamente se oferece. 

— Mais como um pesadelo. E recuso, obrigado. — Ele pousou os cotovelos nos joelhos, apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas. 

Até mesmo Mikey de cabelo branco o encara agora. Mikey olha de um para o outro. Para os narizes, os queixos, as sobrancelhas, as cicatriz. Os cabelos. Preto e branco. Shinichiro e Izana. Seu próprio cabelo é loiro. Emma. 

Preto, branco, loiro. 

Seus olhos, a forma como eles veem o mundo não é igual. Eles não são a mesma pessoa. Logicamente Mikey sabe disso. Só que, em algum ponto, na gênese, nos fundos de suas íris escuras e vazias, eles são semelhantes

Shinichiro, Izana, Emma. 

Se Mikey os perdesse… 

— Todos estão vivos. — Desta vez, é Mikey quem puxa seus irmãos, trazendo-os para mais perto. — Draken, Baji, Mitsuya, Kazutora, Pah-chin e todos de Toman estão vivos. Shinichiro e Izana também. E Emma. Vivos e bem. 

— Bom. — É Mikey de cabelo branco quem respondeu, encolhendo-se em si mesmo, cabeça apoiada nos joelhos. Tem uma tatuagem de hanafuda em seu pescoço. 

— E Takemitchy? — Mikey de cabelo preto pergunta. 

Mikey pisca. 

— Que Takemitchy? 

— Você não sabe quem é Takemitchy? — Mikey de cabelo branco levanta a cabeça. 

Mikey cava no fundo de sua mente, mas a resposta é a mesma: 

— Não. 

A questão era essa: desde que esses dois Mikeys apareceram, Mikey e seus irmãos dançaram conforme a música que eles tocavam. Eles tinham todas as cartas do baralho, jogando-as como achavam adequado e Mikey e seus irmãos teriam que pegá-las, não importa para que direção fossem. Mesmo quando perguntavam sobre a vida das pessoas, eles só queriam uma confirmação, algo para cimentar o que já sabiam. Eles estavam um passo à frente, sempre no futuro. 

Agora? Agora eles estavam na mesma página. Mikey continuava perdido. 

É desconcertante, para falar a verdade.

— Você não sabe quem é Takemitchy. — Mikey de cabelo branco repete. Uma afirmação, não mais uma pergunta. 

Ele parecia tão abalado. Mikey nem sabia que ele podia sentir alguma coisa.

— Takemitchy não existe. — Mikey de cabelo preto ri. Uma risada incrédula, delirante, em um alívio desesperado que beira a insanidade. Tão diferente de sua risada oca costumeira. — É claro que esse mundo não poderia ser perfeito. 

Mikey abre a boca, prestes a perguntar mais uma vez, confuso até o amargo com a súbita mudança de ambiente. 

É quando os Mikeys somem. 

A boca de Mikey fica aberta, as palavras na ponta da língua, mas a sala sem as risadas desequilibradas de um Mikey que nunca vai existir não vai lhe dar as respostas que ele quer. 

Ainda assim… 

Você não sabe quem é Takemitchy.

Takemitchy não existe. 

Ele nunca ouviu falar em alguém que se chame Takemitchy. 

— Oh, graças a Deus — Emma soluça. Ela passa os braços ao redor de Mikey, as mãos não parando até encontrar a camisa de Izana. Izana vem quando ela puxa, uma mão em seu ombro e outra na cintura de Mikey. Shinichiro os prende em seus longos braços, o queixo descansando na cabeça de Mikey enquanto ele suspira aliviado. 

É acolhedor, quente e doce. Mikey definitivamente está sufocando. 

É claro que esse mundo não poderia ser perfeito. 

Ele segura a blusa de Emma e coloca a própria mão sobre a de Izana, recostando-se em Shinichiro enquanto fecha os olhos. 

Seus irmãos e amigos. Mikey os tem, todos. Sua família. Como isso pode não ser perfeito?

*

— Shin e Emma acham que você está se culpando. 

Mikey nem levanta a cabeça com a voz de Izana, concentrado no dorayaki meio comido em sua mão. 

— É mesmo é? — Ele abre bem a boca, dando uma grande mordida. Delicioso. 

— É. Querem levar você ao psicólogo de novo. 

Mikey mastiga lentamente, considerando. 

— Takeomi é um bom psicólogo. Não me importo de passar uma hora da minha semana com ele. — Ele dá de ombros e engole o dorayaki em sua boca. 

Os olhos de Izana são como lasers em seu rosto.

— Eu disse a eles que você está bem. Dizer que você só está sendo você só iria preocupa-los ainda mais. 

Mikey deita de lado, encarando Izana diretamente. Izana está encostada no batente da porta, brincos de hanafuda balançando a esmo. Eles são idênticos a tatuagem do Mikey de cabelo branco.

— Eu sendo eu? — Ele coloca o último pedaço de dorayaki na boca. 

Izana dá de ombros, impulsionando o corpo para longe da porta. 

— É, o de costume. — Ele o olha criticamente. 

— Costume? — Saí meio abafado, os dentes ocupados mastigando as pequenas panquecas de castela.

Obsessivo — Izana esclarece, saindo do quarto. — Afinal, quem é Takemitchy? 

Mikey engole, observando o corredor. Izana nem fechou a porta, mal educado. Se a situação fosse invertida, com Mikey invadindo o quarto de Izana, ele também não teria fechado a porta ao sair  

Ele odeia como eles são parecidos. Tira o gosto doce de suas papilas gustativas, substituindo por algo azedo e picante. 

Pelo menos seu cabelo é loiro. 

*

Antes que Shinichiro peça, Mikey coloca a chave de fenda em sua mão. Shinichiro lhe dá um sorriso agradecido e há graxa em sua bochecha. Ele volta a mexer no motor da moto e Mikey observa seus músculos sob a camisa (branca, cheia de furos e suja de graxa) se moverem junto. 

É um silêncio confortável o qual eles estão, os únicos sons sendo de Shinichiro ao consertar o motor quebrado que ele achou em um ferro-velho. 

Shinichiro gosta de consertar coisas quebradas. Sempre gostou. 

— Você sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, não é? — Shinichiro faz uma pausa, limpando as mãos na camisa e acendendo um cigarro. 

— Sei. — Mikey apoia o queixo na mão, seus olhos seguindo o subir e descer do peito de Shinichiro quando ele coloca o cigarro na boca. 

— Bom — diz. A fumaça corta o ar, branca e débil. Eles não dizem mais nada. Não é necessário. 

Shinichiro volta a mexer no motor. Mikey observa suas costas. 

*

— Se você quiser, eu vou falar com Takeomi — Mikey oferece. 

Emma revira os olhos. 

— Eu não quero que você faça isso por mim. — Ela balança a cabeça e rouba o controle remoto da mão de Mikey. A TV zumbi, pisca e um programa de culinária começa a passar. — Eu só… Não sei. Só quero ter certeza que você está bem. 

— E eu estou. — Mikey pega o controle de volta e o anime que ele estava assistindo aparece mais uma vez. 

— O pior é que eu sei disso . — Emma toma o controle. Esse programa de culinária é muito chato. — Sei como você fica quando não está bem. Mas não consigo deixar de me preocupar. Algo mudou em você desde aquele dia. 

Aquele dia. É assim que eles se referem ao dia em que duas versões deturpadas de Mikey apareceram nas poltronas da casa. As duas poltronas ao lado do sofá. Eles não sentam nelas há mais de duas semanas. Desde aquele dia.

Mikey acha que ouviu Shinichiro dizer que queria vendê-las. 

— Bem, foi uma experiência única. Tenho que tirar alguma coisa dela. — Mikey tenta pegar o controle de volta, mas Emma pula em pé, fora do seu alcance. 

Ela se senta na poltrona que o Mikey de cabelo preto esteve. 

— Quem me dera você fosse o tipo de pessoa que aprende com seus erros — diz, sorrindo com suave melancolia. 

Mikey não tenta mais pegar o controle. Ele adormece antes do primeiro intervalo do programa. 

*

Eles não vendem as poltronas.

Seus irmãos parecem ter desenvolvido algum tipo de carinho obsessivo por elas, descansando nelas sempre que podem. 

Demora um pouco, mas Mikey também volta a se acomodar nelas.

*

Três vezes Mikey de cabelo preto perdeu o controle: quando Emma falou com ele, quando ele ficou com raiva, quando o nome "Takemitchy" só significou algo para ele e o Mikey de cabelo branco. 

Quem é Takemitchy?

*

Mikey de cabelo branco esteve distante desde que apareceu. Era quase como se houvesse paredes invisíveis ao seu redor, uma fortaleza que o acorrentava do lado de dentro sem deixá-lo sair, transformando-o lentamente em um eco do Mikey que foi um dia. 

Seja quem for, Takemitchy fez os muros de sua fortaleza ruírem.

*

Mikey fez o possível e o impossível para não pensar em como Takemitchy seria. 

Deve-se dizer que ele falhou. Miseravelmente.  

Porém, chorão, fraco e com ombros tão largos que parecem poder carregar todo o mundo neles — nem em seus delírios mais loucos ele imaginou isso. 

Ele também não imaginou os grandes olhos azuis que são como pedaços de céu.

Ele não poderia, na verdade. Mikey nunca teve uma mente muito criativa. E a gênese da cor das íris de Hanagaki Takemichi não é algo que um mero mortal como ele possa explicar. 

Ele, no entanto, quer. Por isso diz: 

— Takemitchy, seja meu amigo. 

Notes:

Essa é uma das fanfics que eu paro e penso "foi realmente eu que escrevi isso?". Sério, muito orgulhosa por ter conseguido escrever algo assim.

Também, a caracterização dos personagens. Esse é um ponto que sempre me incomoda, mas que eu senti que consegui desenvolver bem.

Espero que tenham gostado!

 

Vão ler as fanfics de @/dandelion_weed, é uma perfeição maior que a outra.

Ah, tenho uma conta no Twitter @ anubler

Nos lemos por aí~~