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Maldito Dono do Morro!

Summary:

Kagome era só uma jovem garota universitária carioca, vivendo a vida dela em seu humilde apartamento da periferia. A vida poderia ter continuado assim e ela nem se importaria, mas o destino tinha outros planos.
E assim, Kagome se viu diante de Inuyasha, o Dono do Morro, no meio da madrugada em... sua cozinha?

Notes:

yohoo, flocos
oi, oi, oi, fanfiqueiros!
fizemos essa fic na zoeira baseada num print que a marhux mandou
(eu, marhux, n me lembro do print, acredita?)
esperamos que gostem, e até as notas finais!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Morar no Rio de Janeiro sempre foi visto como perigoso. Quando eu decidi que teria que fazer a faculdade aqui — já que o peso de redação na bela dessa cidade é maior —, eu não estava tão preocupada, apesar de que a minha mãe parecia que ia entrar em pânico. Pois bem, não tinha razão pra isso, afinal hoje tô aqui, viva, plena e bem, recatada e do lar. Certo, certo, parei, mas ainda assim, nunca tive tantos problemas até os últimos meses.

Sabe por quê? Porque eu fui despejada. 

O bom que cara que me alugou o apartamento queria ajudar não sei quem, o tio dele, e me mandou embora, e aí eu tive que ir morar em uma região mais… agitada, por assim dizer. Nunca tive reais problemas: ia pra faculdade, voltava da faculdade, ia pro trabalho e voltava do trabalho… minha vida não é lá tumultuada, diferente do lugar em que moro neste momento. Contudo a questão aqui é que todo santo mês, senão semana, tem um tiroteio. Sério, enche o saco! Como que eu vou descansar pra me estressar do jeito certo se esses barulhos não param?! E ainda por cima, estou vivendo no térreo de um prédio muito pequenininho. Não sei bem se isso é ruim, porém é como se eu ouvisse uma manada de elefantes no meu teto quando os tiros começam, sério. 

Nada, graças a todos os deuses que olham por essa terra, me atingiu. Ainda. E pela força do hábito, me acostumei ao barulho dos tiros. Agora, mesmo que pareça uma sessão de fogos de artifício lá fora, consigo continuar viva, plena e bem, com o ventilador diretamente no rosto — ‘tá um calor dos infernos, juro —, e assim teria permanecido se não fosse a fome marota que sussurrou no meu ouvidinho enquanto eu dormia e me mandou levantar. Então eu fui, como de costume, até a minha geladeira beber água, já que a compra ia ficar pro dia 15 e eu realmente não estava afim de cozinhar em belas duas horas da manhã. 

Só que, quando abri minha geladeira e olhei pro lado que, seja por conveniência ou inconveniência do destino, se iluminou, tinha algo de errado ali. Porque sabe, eu moro sozinha nesse apartamento minúsculo e quente no meio da periferia, entretanto tem alguém na minha cozinha. Ah, não. Ah, não, mesmo. Ele tem o cabelo preto e uma franja que parece a minha. Que esquisito, parece mestiço, igual eu. Depois de todos esses meses de tranquilidade e dança ao som de tiros, entra um cara na minha cozinha, segurando uma arma, e me observando como se eu fosse uma alien. 

O alien aqui só pode ser ele. 

— …

— …?

— S-sai da minha cozinha! O que você ‘tá fazendo?! Sai logo! Eu não me envolvo com bandido! — Beleza, admito que talvez não tenha sido a melhor maneira de se abordar uma pessoa com uma arma; no entanto, gente, eram duas da matina e eu tava morta de sede! Não tinha tempo pra lidar com criminoso não.

— Keh, fica quieta aí ou eu te corto no meio, morô. — Corta? Mas ele ‘tá carregando uma arma, então ele é perigoso e burro? — Preciso de um lugar pra me esconder.

— E tu entrou na minha cozinha? Que belo lugar pra fugir dos seus amiguinhos bandidos!

— Amiguinhos… bandidos…? — O garoto de repente fez uma cara de ódio que juro que eu ia morrer se olhar matasse. — Keh! Olha aqui, sua maldita, eu sou o dono do morro, ‘tá ligado? Faço o que eu quiser, posso te matar agorinha. 

Eita, ele ‘tá certo, porém eu também vou morrer se vierem atrás dele.

— Sai daqui, cara! Eu tô na minha, não me envolve nesse seu negócio! — Vi o esquisito respirar fundo, acho que ele queria muito me bater agora. Por que não fez isso? — Sério, ou eu ligo pra polícia!

— A polícia está aqui, idiota! É por isso que eu vim me esconder! — Ai, isso é ruim. Eu vou morrer. — Se tu me esconder direitinho, eu não vou te matar.  

— MAS AÍ QUEM ME MATA É A POLÍCIA, NÉ, SEU RETARDADO? 

— NÃO GRITA COMIGO, SUA MALDITA! 

O barulho das sirenes já podia ser notado vindo da rua, assim como o azul que logo se sobrepunha ao vermelho do giroflex, invadindo a cozinha pela minúscula janela do cômodo. Eu e o tal dono do morro nos entreolhamos, na maior cara de “estaremos ferrados se não agirmos”. Sem dúvida, houve um sentimento recíproco: era eu ou ele. Tentei correr até a janela e chamar atenção da polícia, entretanto o desgraçado conseguiu me impedir a tempo, pondo a mão em minha boca e impossibilitando que qualquer som saísse sem ser abafado e inaudível. 

Vendo que eu traí a confiança do maluco antes mesmo de conquistá-la, suei frio, temendo por minha vida. Esperar aqueles poucos segundos eternos, sabendo que assim que os PMs se mandassem eu teria — literalmente — uma arma apontada para minha cabeça, foi desesperador. Foi inevitável rezar para todos os santos e santas, deuses e orixás, rogando por salvação — foi tanta fé instantânea que me senti como minha amiga crente, a Kikyo. 

Logo o toque repetitivo das viaturas foi se esvaecendo ao longe e, quanto mais distante se tornava o som, maior era o índice de adrenalina que corria em minhas veias. A quietude foi seguida pela falta de atenção daquele que me segurava, fazendo com que eu sentisse o aperto que me impediu de entregá-lo há pouco finalmente se afrouxar. Foi uma brecha, a minha oportunidade de brilhar. Então é agora que a humilhada vai ser exaltada? Bom, é minha chance. 

Transformando toda a fé por liberdade em uma concentração de raiva e rancor, dou uma cotovelada no bucho do maldito, que se encolheu de dor no piso da cozinha. Ele deixou a arma cair e não pensei em outra coisa senão tomá-la para mim. Assim que o fiz, me sentindo toda poderosa — a própria dona do morro — e apontei pro rapaz agora tão indefeso.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — Foi um berro ecoante, talvez uma tentativa de mostrar dominância. Quem eu quero enganar, eu não tinha ideia do que ‘tava fazendo, nem como a arma funcionava, mas ao menos eu tinha controle da situação. Eu acho.  

— AAAAAAAAAAAAAAAAH! — Ele me respondeu assustado, quase em uníssono a mim,  ainda morrendo de dor. Sério que eu sou tão forte desse jeito? — O que pensa que tá fazendo, retardada? Você nem sabe usar isso aí!

— Eu posso testar para descobrir! Como é que eu… — “Bang!” fez a pistola sem que eu percebesse, furando a parede de acabamento mal feito. — Oh, então é assim. Okay, o que estava dizendo? — Voltei a direcioná-la para o rapaz. 

— Ow ow, vira isso pra lá, não vamos ter conclusões precipitadas. Eu não ia te machucar, morô, só precisava de um lugar pra esconder. Agora, passa logo meu revólver pra cá e eu esqueço que isso aconteceu.

Como é que é? Ele “esquecer” que isso aconteceu? Que ridículo, queria me fazer pensar que era ele que tava no comando, contudo nem ao menos para disfarçar o medo em seus olhos foi capaz de fazer. Aquele que indiretamente implorava por misericórdia a mim, uma universitária qualquer, era realmente o tal poderoso, assustador e impiedoso indivíduo que coordenava os crimes por aquela área? 

— ...Você é dono do morro e só carrega uma arma? — Uh, tô me sentindo o Simba do Rei Leão. Eu rio na cara do perigo. — Olha… não sei, Rick, me parece falso. 

— Eu sou sim! E é por isso que tu vai me devolver isso, eu vou embora e você nunca vai falar isso pra ninguém, ou eu volto aqui só pra te matar! — O tom dele mudou drasticamente do anterior, pareceu falar sério.

Penso por um instante. Ele teve algumas oportunidades de me machucar, mas não fez nada. Por algum motivo, acho que ele tá dizendo a verdade. Amanhã vou falar com a Kikyo e com a Sango sobre isso, quem sabe elas não me dão uma luz. 

— Eu não vou te devolver nada, sai da minha cozinha! Eu só queria beber água e ganho um traficante de brinde.

— ME DEVOLVE LOGO! — Ele tentou vir pra cima de mim, porém meus reflexos de quem desviava de chinelada da mãe vieram a tona e me permitiram esquivar com sucesso. 

— Devolvo é o caralho! Vai, anda! Não vou te denunciar, então vaza antes que e-

Ah, ele já foi. Que conveniente. 

 


 

Faculdade, ah, minha faculdade. Tudo tranquilo, pessoas e calor insuportáveis mas, o principal, nada de donos de morro nela. E agora que já tá acabando, posso falar com a Kikyo, já que ela fica no mesmo prédio que eu. Ah, achei. 

— Kikyo, garota! — Que tristeza, ela não gosta quando chamo ela de “casada”. — Nem te conto o que me aconteceu ontem!

— Oi, Kagome. Aprendeu a rezar o terço, é? 

— Quase isso! É que ontem tava tendo um tiroteio perto do meu prédio de novo… e o tal do dono do morro se escondeu na minha casa, acredita?! E ele teve a audácia de ficar na minha cozinha! 

— A-AMIGA, COMO ‘TÁS VIVA? Ah, eu digo, Deus é misericordioso…!

— Kikyo, é… é que eu dei uma cotovelada nele e roubei a arma...

— …

— …

— E cadê essa arma, sua doida?! Leva isso pra polícia! 

— Eu não! Vai que ele volta?! Eu chamo isso de “preparo”. Sou o Batman carioca. — Acabei de me chamar de “Batman carioca”? Socorro, meus neurônios morreram ontem e sobrou só o retardo. — De qualquer modo… ele era muito esquisito. Tinha o cabelo parecido com o meu, ficava me chamando de maldita e ainda por cima era esquentadinho pra caramba. Não sei como que virou dono do morro. 

A Kikyo ficou pensando um pouco, até que me solta um “aaaah…”. Senhor, eu desconfigurei a minha amiga. 

— Kagome, essa descrição aí parece a do meu ex! 

Que?

— O que…? K-Kik, tu namorou o dono do morro?! — Então a filha de Deus tem um passado obscuro? Mas gente… 

— Claro que não! Na época, ele disse que iria pra igreja por mim, mas aí virou traficante do nada e a gente nunca mais se viu. Quer dizer que já é dono do morro…? Hum…

Ok, calma, vamos recapitular. O dono do morro, que também é o ex da minha amiga, se escondeu na minha casa ontem. Ele podia ter me matado e me machucado, mas não fez isso. E também me xingou um monte de vezes, e eu xinguei de volta.

— Eh, Kik? Tu não acha isso uma coincidência muito grande? E se ele voltar lá? E SE ELE SOUBER QUE EU SOU TUA AMIGA? 

— Ai, Kagome, supera! Aquele moleque nem sabe mais da minha existência. — Ela pareceu me olhar como se fosse a deusa suprema do universo. Ironia, né? Logo ela que não me chama de anjo porque anjo só os de Deus. — Se quiser tu pode ficar na minha casa hoje. 

Ah, não, eu com certeza não quero. Diferente de mim, a Kikyo é burguesa safada. Mora sozinha com a irmã e os pais deixaram herança. Tudo bem que ela ‘tá sempre estudando e procura pagar as coisas com o próprio dinheiro, mas não muda o fato de que meu apartamento cabe no banheiro de visitas dela. 

— Imagina, ‘tá tudo bem, moça. Visse a Sango hoje? — Ai, tudo sob controle. A Kik vai ser parcial pra me ajudar já que é o ex dela, então preciso de ajuda da Sango que, como eu, é do povo, trabalhadora e chefe de cozinha nível miojo queimado. 

— Vi não, deve ter dormido com o namorado dela. — Namorado? Eles não tavam só ficando? — Toma cuidado, viu, Kagome? Com esse tal dono do morro. 

— Uhum, pode deixar. Inclusive, Kik… qual o nome do teu ex? 

— É Inuyasha.

 


 

Eu desci do ônibus tão cansada que parecia que a gravidade se intensificou dez vezes apenas em volta do meu corpo. ‘Tava acabada, só o pó da rabiola, se batesse um vento eu caia de cara no chão e dormia ali mesmo. Contudo eu resistiria até voltar pro meu apartamento, pois o maior prazer do estudante universitário é chegar em casa, são e salvo, avistar seu amado e deitar sobre ele até o amanhecer. Ah, com “amado” eu me refiro ao meu colchão. E sim, naquele momento era tudo o que eu mais queria.

Meu corpo se movia quase que por conta própria pelas ruas da daquela periferia tão familiar, já que controle consciente não era algo que eu tinha mais. Apressei os passos para encurtar o tempo, já não aguentava ficar de pé nem por mais de um segundo.  

Chego na entrada do prédio, e logo um desespero — não só pois queria adiantar minha entrada e a chave do portão insistia em não querer encaixar, mas porque ouvi um estouro, logo seguido de mais um e então mais trezentos. Era aquele som pipocante que ocorria quase numa rotina: sem dúvida eram tiros. Fiquei obviamente atormentada, foi como se do nada todo meu cansaço sumisse e virasse instinto de sobrevivência.

“ENCAIXA, ENCAIXA, ENCAIXA, CHAVE DE MERDA!”, gritei mentalmente, na vontade de tacar longe o objeto infeliz. “ENCAIXOU! GIRA, GIRA, GIRA, ABRIU!”. Nem dei chance ao azar, puxei o portão assim que passei e fui em disparada lá pra dentro do prédio. 

A vantagem de morar no térreo é esta: não preciso lidar com escadarias. Me vi diante do meu apartamento num instante, abrindo a porta como se fosse o fim do mundo — talvez até fosse, considerando a quantidade de tiros que rolava ali por perto. Passei pela entrada e logo senti um alívio, suspirando o resto do ar de meus pulmões como se tentasse me livrar do estresse de tão pouco tempo.

Arremesso minha mochila num canto qualquer da casa e vou logo tirando o excesso de roupa pra me deitar. Jogo-me naquele paraíso que comprei na promoção, vulgo minha cama, e fecho os olhos já pronta para acordar apenas na semana seguinte. No entanto nem pude pegar no sono, pois um susto me desconcentrou novamente. Pior, foi uma uma sinfonia barulhenta iniciada pelo ensurdecedor quebrar de vidro, seguido pelo derrubar de vários utensílios e muito, muito som de coisas sendo espatifadas aos pedaços vindo da minha cozinha. Gelei. Moro sozinha há uns anos, tumultos não eram tão frequentes assim. Um ontem, e agora hoje também?

E se… for o tal dono do morro outra vez?

E se ele tiver voltado para me matar?

Eu preciso ligar para a polícia, onde está o meu… celular?

Puta que pariu, deixei na minha bolsa lá na sala e pra chegar nela eu vou ter que passar pela confusão na cozinha. Porém como que vou fazer isso? E se tiver realmente alguém lá esperando pra me matar? Eu vou morrer sozinha, pobre e só de calcinha? 

Coragem, Kagome. Ou você morre lutando ou morre sem lutar, então tenha dignidade, mulher! Assim, peguei o primeiro objeto que parecia ser capaz de me ajudar na defesa — creio eu que deva ser um pedaço de madeira de algum móvel aí que simplesmente foi deixado para trás — e sigo adiante. Um passo após o outro, ansiedade que enchia até o rabo, chego na porta da cozinha. Duas opções: enfrentar o perigo ou passar despercebida, qual escolhe, Kagome?

No final, ainda sou uma covarde e achei melhor evitar os riscos. Passarei correndo, na esperança de não ser vista e...

— OW OW OW, GAROTA! — Chamou o indivíduo de modo a confirmar que, não somente eu não estava sozinha, mas que havia sido notada. Pior, estava ferrada, reconheci aquele timbre de voz. Era o rapaz do dia anterior, sem dúvida.

Paralisei. Então ele realmente tinha voltado para me matar. Bem, chegou a minha hora. Foi bom enquanto durou, vou sentir falta desse apartamento, dessa vida. Talvez eu devesse me arrepender dos meus pecados ou algo do tipo, entretanto por onde começar? 

— Pai, senhor amado, nossa senhora cheia de luz, eu nunca fiz nada nessa vida. Eu sou apenas uma estudante, por favor, não me faça morrer agora, eu ainda nem sei a diferença de “mas” pra “mais” direito, por favor, ó santidade divina que habita…

— Ow, sua maluca, vai ficar aí murmurando ou vai me ajudar? — Ele geme de agonia no final da frase.

Olhei para aquele que falou comigo, ‘tava todo fodido jogado no chão da cozinha, essa que graças a ele era obra de arte contemporânea composta por bagunça e vermelho espalhado sobre o piso. Ele estava ferido, vulnerável. O dono do morro ‘tá na minha casa, ferido e vulnerável.  Será que eu devo repetir mais uma vez para acreditar?

Era minha chance de entregá-lo para a polícia — ou até para uma gangue rival em troca de proteção. Seria um favor para a sociedade, um rato a menos causando confusão por essas bandas. Eu poderia ser uma heroína, meu nome seria reconhecido como “KAGOME: Aquela que capturou o Dono do Morro”. Não seria difícil, é só discar três números e logo ele vai embora.

Corri para o meu telefone, ignorando completamente os gritos de ajuda irritantes que vinham do cômodo ali perto. Não posso ter empatia por aquele rapaz que invadiu minha casa, ameaçou tirar minha vida e fudeu com minha cozinha inteira.

Eu sinto muito, Inuyasha, mas é você ou eu, certo?

Um minuto, se ele veio para me matar, por que está machucado?

Ele… não está aqui por isso. Foi só coincidência, o rapaz se feriu por perto e entrou aqui para se abrigar (PS: lembrar de fortalecer as trancas das janelas). Não posso tirar proveito dessa situação. 

Bloqueei a tela do celular e voltei para onde ele estava. 

— Okay, eu vou te ajudar com uma condição.

— QUE CONDIÇÃO O QUE, MALDITA! EU VOU MORRER AQUI SE NÃO FIZER NADA, ENTÃO VEM LOGO E ME AJUDA!

— É justamente por isso que precisamos de um acordo. Você está nas minhas mãos, certo?

— Tsk… Maldição. — Pareceu se contentar com muito desgosto. — ‘Tá bom, o que você quer? Drogas, dinheiro?

— Não, nada disso… Pera, você disse dinheiro? Quer dizer, não, não é isso o que eu quero. 

— Então pare de enrolar e me diga! Eu vou morrer por falta de sangue se continuar enrolando assim.

— Pois bem, eu quero paz.

— E eu tenho cara de ONU agora? — Ele caçoou.

— Eu quero que sua gangue pare de causar tiroteios de rotina por essas bandas.

— Heh, pois não cabe a mim decidir isso. Fale com os nossos rivais, já que são sempre eles que começam.

— Olha, eu não tô nem aí que são eles que começam, vocês, donos do morro e traficantes, estão todos errados. Bem, mas como sou uma moça de bom coração, vou sugerir outras duas opções. — Cruzei meus braços e levantei as sobrancelhas. — Um, você vai ser tratado e sobreviver… na enfermaria da prisão.

— Passo — respondeu rápido com um tom sarcástico. Como que consegue ser tão audacioso assim, tendo uma hemorragia no corpo? Suspiro diante o orgulho aparentemente intransigente do meu interlocutor.

— Segunda alternativa: você morre aqui e eu te entrego a polícia.

— Ow, mas que porra de opções são essas?!

— A proposta inicial ainda está de pé.

— Gatinha, acho que não entendeu que não cabe a mim resolver problemas entre gangues. Posso ser do caralho, mas não sou mágico.

— Compreendo. — Volto meus olhos ao telefone.

— Ei… Ei, ei! O-O que você tá fazendo?

— Ligando para a polícia, duh.

— Você não faria isso…

— Será mesmo? — Mostrei a tela do celular com o número de emergência já digitado, faltava-me apenas escorregar e discar. — Nossa, o dedo chega a coçar pra clicar.

— Você não ousaria…

— Quer arriscar descobrir? Ah, espera, talvez você nem esteja vivo até lá.

Sua única resposta imediata foi um estalar de língua inconformado. Podia jurar que tinha o deixado sem outra saída, no entanto não cantei vitória antes da hora, já que, pela cara daquele bocó de ego inflado, parecia que preferiria morrer a fazer um acordo comigo. Foi uma troca de olhares intensos guarnecida por um silêncio inquietante, e ainda assim eu estava inabalável — nunca sentira meu nariz tão empinado quanto agora, é isso que chamam de “confiança”?

— Beleza, eu vou ver o que consigo fazer. — Finalmente se rendeu. — Agora me ajuda aqui.

— Ótimo — falei como se me contentasse com sua resposta. Bem, de fato estava satisfeita, porém era até demais. 

Tentei ao máximo não fazer um escândalo de alegria, deixando escapar um pequeno sorriso estampando o canto de meus lábios. Eu, Kagome Higurashi, a moça que há poucos meses foi despejada de casa, tinha o tão temido, famoso, impiedoso e superestimado Dono do Morro comendo em minha mãozinha. Tamanho foi o poder que agora eu possuía, eu basicamente mandava no morro por tabela! Nada estava fora de meu alcance, nada mais me inibiria!

— Você bem que poderia botar uma roupa antes. É meio… constrangedor.

Olhei para baixo, vendo a mim mesma. Eu ainda ‘tava só de calcinha.

— Pa-Pare de olhar!

 


 

Minha rotina não foi mais a mesma desde que eu decidi bancar a altruísta para com o mestre do crime. Contudo o que pareceu que seria um acordo extremamente vantajoso pro meu lado, que traria calmaria aos meus arredores, tornou minha vida um verdadeiro inferno. Claro, vendo o lado positivo, a violência tão naturalizada havia diminuído como combinamos, passavam-se semanas entre alvoroços e tiroteios antes rotineiros — mas paz foi algo que não ganhei.

Aquele tal Inuyasha parecia ser um saco de pancadas, alvo de tiro ambulante, quase uma peneira de tantas cicatrizes de furo que ele, por algum motivo, insistia em vir a minha casa tratar. Eu tinha cara de SUS agora, é? O maldito ainda tentava justificar dizendo que não podia ir para algum hospital qualquer já que, obviamente, estaria cercado de pessoas que poderiam reconhecê-lo e assim acabaria preso. Só que acredito que tenha esquecido de um pequeno detalhe: EU NÃO SOU ENFERMEIRA, INFERNO.

Não fazia sentido continuar vindo a mim, alguém com tanto conhecimento medicinal quanto uma pessoa que pesquisou tutoriais de cinco minutos de como fazer curativo, confiando sua vida num indivíduo que quase o entregou a polícia duas vezes seguidas.  Porém parecia que lógica não era algo que orientava a vida do dono do morro.

— O que é que você quer dessa vez, hein? Não parece estar machucado, veio aqui só me atazanar?

— E se for isso?

Eu não esperava aquela resposta. Foi tão… descontraída, espontânea, fora dos limites de réplicas arrogantes entre gritos que costumava me dar. Não pude evitar de me sentir confusa, pega de surpresa, sem saber como reagir.

— O quê?

— Heh, eu só vim porque queria te ver, lerda. — Inuyasha disse, acompanhado de um sorriso tão tolo que eu fiquei com vontade de esmurrar. Ele ‘tá zoando com a minha cara, só pode.

— E eu lá sou sua amiguinha?

— Você cuidou de mim todas as vezes ao invés de me entregar, parecia até uma médica de guerra, daquelas que morrem em explosões. Mas eu só queria te ver, retardada. 

O Inuyasha tem problema, só pode. Ah, ele… ele sabe meu nome? 

— Eh, mas você não sabe o nome da sua médica de guerra. 

— E eu deveria saber? — Não acredito na audácia desse dono do morro. Acho que vou matar ele. 

— Deveria, Inuyasha! 

— Eu não preciso saber seu nome para vir te ver. Falou, Kagome! 

E saiu andando, como se tivesse o direito de brotar com o meu nome direto do quinto dos infernos e nem dar explicações sobre isso. Contudo, vendo ele sair batendo pé, com as roupas ridiculamente chamativas e o cabelo por algum motivo muito parecido com o meu, eu senti alguma coisa no meu peito, como se meu coração estivesse apertando.

Meu deus, eu vou infartar. Antes isso do que descobrir que tô sentindo alguma coisa. Parece mangá shoujo de qualidade duvidosa. Bom, se a qualidade é duvidosa, resta uma certeza:

O tal poderoso dono do morro é…

De fato…

Um tremendo idiota.

Notes:

Primeiro, precisamos agradecer umas pessoas: VampireWalker, que fez a betagem e ficou incrível, obrigada, floco! Agradecemos de verdade por ter corrigido o texto!
GhostMel, que incentivou essa história all the timekkkkkkkkkkkkkkkk
E Lexyee, que aprovou essa brisa eterna e ainda disse que ficou bom, gracias!

Por fim, você, que leu até aqui!
Nos vemos nos coments ou uma história qualquer!