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— Vai levar algo mais, meu jovem? — A voz da simpática senhorinha arrancou Norton dos próprios pensamentos, e o rapaz desviou o olhar até ela.
— Ah, não. É só isso mesmo.
— Tem certeza? Acho que a mocinha sortuda que vai receber esse belo buquê apreciaria um bilhete junto.
— É uma ótima opção, mas acho que nesse caso eu prefiro falar o que eu sinto diretamente pra pessoa.
— Oh, então é para uma declaração? — A vendedora perguntou, observando o rapaz que olhava o buquê posicionado sobre o balcão com cenho levemente franzido.
— Hm… É, quase isso.
Mesmo que sentisse uma enorme curiosidade para perguntar mais sobre, a dona do estabelecimento sabia perceber quando um cliente não estava afim de conversar. Anos trabalhando com vendas haviam afiado sua percepção acerca das pessoas. E, o rapaz que estava ali em sua frente, mesmo que se demonstrasse muito educado, não parecia ser alguém que falaria muito, mesmo que ela se empenhasse ao máximo para conversar com ele. E era óbvio pelo olhar dele que aquele buquê não seria realmente para uma declaração, mas decidiu que era melhor não insistir muito ao notar a falta de respostas, e pegou o dinheiro que ele a entregara para pagar.
— Tenha um bom dia, rapaz!
— Obrigado, a senhora também.
Desde que ele entrara na loja, aquela era a primeira vez que via o rapaz sorrir, mesmo que fosse discreto e contido, um tipo de sorriso que não chega até os olhos. Ela o observou deixar o estabelecimento segurando o buquê como se fosse algo extremamente frágil e valioso, tomando um enorme cuidado. O que quer que ele fosse fazer com aquelas flores, provavelmente era algo muito especial.
[...]
Campbell caminhou algumas quadras com o buquê de forget-me-not até alcançar seu destino. Havia passado na floricultura mais próxima porquê não queria aparecer de mãos vazias para ver Naib, e tinha esperanças que ele gostasse do presente. Não era nada muito elaborado, porém vê-las na vitrine automaticamente o fizeram se lembrar do mais baixo. Assim como lembrava que o rapaz nunca fora chegado em presentes valiosos e luxuosos.
— Bom, ele sempre diz que o que vale é a intenção, né? — Norton falou consigo mesmo, olhando o buquê enquanto atravessava os enormes portões de ferro pintados de branco.
Não havia frequentado o lugar muitas vezes, mas sentia como se pudesse ir até o local onde Naib estava de olhos fechados. Não sabia se era sua intuição, se algo o atraía até lá, ou se havia pensado tantas vezes no caminho que faria que o decorou completamente, mesmo que inconscientemente.
Andou tranquilamente pela pequena calçada que havia sido construída há um bom tempo atrás com blocos de pedra bem encaixados, até que se desviou dela em certo ponto e passou a andar então pela grama bem aparada do local. Os olhos percorriam a paisagem, notando diversas flores espalhadas e algumas árvores, e de longe podia avistar algumas pessoas, tanto acompanhadas quanto sozinhas, provavelmente visitando ou encontrando-se com pessoas importantes para elas.
— Ei Naib… Eu trouxe um buquê daquela flor. Forget me not. É a sua favorita, não é? — Norton perguntou assim que alcançou o lugar a que se dirigia e sentou-se na grama, colocando o buquê cuidadosamente sobre a em sua frente. — Sempre que nós passávamos em frente a algum jardim ou floricultura você apontava e ficava com um sorriso tão lindo… Não podia deixar de trazê-las ‘pra você.
Um sorriso tristonho apareceu nos lábios de Campbell, e ele suspirou. Parou por um segundo, apenas observando a lápide pouco a frente de onde havia deixado o buquê. Nela havia o nome de Naib Subedar, a data de seu nascimento e a recente data de falecimento.
— Acho que você merecia vê-las mais uma vez, sabe? Eu… Sinto falta do seu sorriso de quando as via. Na verdade, eu sinto falta do seu sorriso em todos os contextos possíveis… — Os lábios do moreno tremeram e ele os pressionou junto, tentando ao máximo segurar o choro, mesmo que as lágrimas se acumulassem cada vez mais em seus olhos. — … Eu sinto muito sua falta.
Ele se ajeitou melhor na grama, erguendo a mão para limpar algumas folhas que haviam caído sobre a lápide, encarando o nome do rapaz. Naib Subedar. Manteve-se quieto, pensativo, e algumas memórias começaram a se destacar durante os momentos de silêncio que preenchiam o local.
“— Para com isso, Campbell! A gente vai cair, seu idiota. — A voz zangada de Naib ecoou pelo apartamento enquanto ele batia de leve no peito alheio do rapaz que abraçava sua cintura e o girava pela pequena sala de estar, longe de estar acompanhando o ritmo da música que tocava.
— Deixa de ser mal-humorado, você sempre reclama que eu fico com cara de cu mas no dia que eu 'tô minimamente animado vai reclamar também? — Norton questionou, olhando o rapaz mais baixo, que estreitou os olhos o olhando de volta. — Por favor, dança comigo, vai. Só uma música!
— Promete?
— Sim. Prometo.
— Hm… Suspeito.
— E eu por acaso descumpro alguma promessa pra você?
— Quer mesmo discutir isso agora?
—… Enfim. Me daria a honra de lhe acompanhar nessa dança, senhor Subedar? — Campbell se afastou o suficiente para se curvar em uma reverência, oferecendo a mão esquerda para o namorado e o olhando discretamente.
— Com você usando todo esse charme? Tenho opção de dizer não? — Ele deu risada, sendo acompanhado do rapaz que abriu um sorriso ao ouvi-lo.
Naib colocou a mão direita por cima da do rapaz, que o puxou pra perto e envolveu a cintura com o braço livre, enquanto ele posicionou a mão no ombro do mais alto. O sorriso que Norton possuía em seu rosto era tão contagiante que fez com que ele também abrisse um sorriso. A música que tocava de fundo não tinha nada a ver com o ritmo e o modo que dançavam, mas estavam perdidos demais um no outro para notarem ou mesmo se importarem com isso.
E, o que era para ser apenas uma dança, se transformou em várias. Aproveitaram que nenhum deles teria que trabalhar no dia seguinte para abrir uma das garrafas de vinho que Subedar havia recebido de presente de aniversário do chefe dele e aproveitar a folga, assim como a presença da pessoa que mais amavam. A dança era interrompida vez ou outra para pegarem as taças e beberem o líquido, mas nunca se afastavam muito do parceiro, logo voltando para o conforto dos braços alheios.
O momento enchia os dois rapazes de amor e paz. Mesmo que eles discutissem às vezes, momentos como aquele fazia com que sentissem que poderiam superar qualquer obstáculo que aparecesse em seus caminhos. Mesmo com todos os problemas que já haviam vivenciado e presenciado durante a vida, ter o outro ao seu lado enchia o coração de esperança. Sempre estariam ali para se ajudar, não importasse o quão difícil fosse a situação. Era quase como uma promessa silenciosa que os acompanhava naquele relacionamento."
Enquanto pensava na lembrança que parecia tão vívida quanto quando ocorrera, sentiu algumas lágrimas teimosas escorrerem por suas bochechas. Suspirou, não fazendo questão de secá-las ou de tentar contê-las. Não mais. Pela primeira vez não sentia que precisava fingir estar lidando bem com aquilo tudo. Não precisava fingir ser forte.
Não precisava fingir que estava bem. Aquilo doía.
Pegou o celular, olhando a tela de bloqueio por um momento, admirando a foto dele e Naib que estava ali. Era de uma viagem que haviam feito durante as férias, pouco antes do tão ansiado pedido de casamento. Tiveram ótimos momentos juntos. Por fim desbloqueou o aparelho, botando a playlist que haviam feito juntos com as músicas que mais gostavam, e abraçou os joelhos, dividindo a atenção entre as músicas e as lembranças.
"Mesmo que fosse um lugar “proibido” de se estar, esse pequeno detalhe não era tão perigoso assim para dizerem que não compensava estarem ali, principalmente pela vista que tinham do céu noturno e estrelado. Era uma antiga construção no final da cidade que estava completamente abandonada e isolada há muito tempo, e naquele momento o casal se encontrava no topo da construção, deitados em um cobertor que haviam levado, e observando as estrelas. Ambos estavam agasalhados, apesar de não estar fazendo tanto frio o local era alto e aberto, o que gerava diversas correntes de ar que passavam por eles.
— Nossa, que belo lugar ‘pra me trazer, ein Nortie? — Naib brincou, virando-se de lado para olhar o mais alto.
— Não gostou? Da próxima você escolhe ‘pra onde a gente vai então. — Ele franziu o cenho, incomodado por ter levado o comentário mais a sério do que deveria.
— Campbell.
— Subedar.
— Eu ‘tô brincando contigo, cabeça oca.
— Hm… — Norton o olhou de canto, desconfiado. — Acho bom estar brincando mesmo. Deu muito trabalho planejar tudo.
— Tudo? Você teve muito trabalho de pegar um cobertor velho e descobrir se a polícia não ia te pegar aqui em cima?
— Qual foi? Eu não subi com essas coisas todas pra você ficar debochando não. Eu tenho sentimentos, tá me ouvindo? — Norton sentou-se enquanto formava um bico com os lábios, mas logo foi empurrado por Naib para deitar novamente. O mais baixo deitou a cabeça sobre o peito alheio, o olhando.
— Eu sei que você se esforçou bastante. Obrigado. Eu adorei vir aqui hoje. Fazia muito tempo que eu não conseguia ver as estrelas tão bem assim… É muito bonito.
— Realmente, mas sabe... Não é mais bonito que você. — Campbell complementa, acariciando o rosto levemente corado do mais baixo.
— ‘Tava demorando né? O que você quer?
— O quê? Não posso elogiar o homem que eu amo?
— Pode, mas não duvido nada que você esteja querendo algo.
— Eu pareço ser tão interesseiro assim? — Apesar de não respondê-lo verbalmente, o olhar e o sorriso que Naib tentava conter serviram como resposta o suficiente para ele, que adotou um ar ofendido. — Nossa, que fama eu tenho.
— Desculpa, meu amor. Você que fez ela ser assim. — O mais baixo deu risada, aproximando o rosto do de Norton e dando um selinho demorado.
O moreno aproveitou a proximidade para envolvê-lo em um abraço, e deu vários selinhos no namorado. Ficaram daquele modo por algum tempo, apreciando os beijos, a presença e a beleza alheia.
— Ei Naib, na verdade… Eu quero algo.
— Sabia, 'tava demorando. — O rapaz afastou-se e sentou, cruzando as pernas. — E o quê você quer, Campbell? Eu juro que se for-
— Relaxa, você já vai ver o que é.
Com o cenho franzido e cheio de curiosidade, Naib observou o mais alto se afastar e levantar, caminhando até a própria mochila e mexendo como se procurasse algo.
Infelizmente, não importava o quanto tentava espiar e se inclinava para ver o que o rapaz tanto mexia ali, Norton parecia uma muralha cobrindo a visão do rapaz, o que aumentava ainda mais sua curiosidade.
— Você não pode me dar nem uma dicazinha…?
— Você 'tá pior que criança, sabia? — O mais alto riu, voltando para perto do cobertor com as mãos no bolso do casaco, e sentando próximo ao namorado.
— Claro, você não fala o que é. 'Tô até começando a ficar com medo.
— Relaxa, já já descobre. Antes de qualquer coisa eu queria conversar com você.
“Conversar? Será que aconteceu algo e eu não percebi? Ou pior ainda, será que foi algo que não aconteceu?” Naib pensava enquanto sentia um aperto no peito, subitamente com medo. Tentava não pensar que Norton não teria planejado tudo aquilo se fosse lhe dar um pé na bunda… Né? Ou será que era justamente para terem um último encontro legal antes de cada um seguir sua vida? "Adorei te conhecer, mas agora a gente precisa seguir cada um sua vida. Aprecia a vista enquanto pensa nisso!"
— Naib. Nós já estamos juntos há algum tempo, certo? — O rapaz começou, segurando as mãos do mais baixo junto das próprias, tentando esconder ao máximo o nervosismo que sentia. Não queria estragar tudo que havia planejado por tanto tempo e com tanta dedicação. — E eu venho pensando muito sobre o nosso relacionamento. Eu te amo muito, acho que como eu jamais amei alguém, mas-
— Norton. Você não vai terminar comigo, vai? — Subedar o interrompeu, franzindo o cenho. Houve alguns instantes de completo silêncio, antes de Norton explodir em risadas, o que fez com que o mais baixo ficasse irritado. — Você vai, né? E ainda fica rindo da minha cara! Caralho que filho da puta-
— Naib, de onde caralhos você tirou isso? Eu não vou terminar com você, mas você também não me deixou terminar o que eu ia falar.
— Ah. — O rapaz se encolheu, sentindo o rosto arder de vergonha. — Tudo bem, continua.
— Como eu ia dizendo, eu tenho pensado muito sobre a gente, e acho que não dá mais pra gente namorar. Mesmo gostando muito de você, não dá pra continuar assim.
Ele fez uma pausa dramática, se segurando para não rir com a expressão de pura incredulidade do rapaz. Se um olhar matasse, ele provavelmente morreria naquele momento. Mesmo que estivesse muito ansioso, tentava ao máximo aparentar calma. Não queria sair da pose de mistério que estava se esforçando ao máximo para manter naquele momento.
— Então, eu queria te perguntar algo. Naib Subedar… — Conforme falava, pegou uma caixinha do bolso do casaco, ajoelhando-se na frente do rapaz que observava os movimentos alheios sem piscar, e a abriu. — Você me daria a enorme honra de ser seu marido e passar o resto das nossas vidas juntos? Você quer casar comigo?
— É sério isso? — Ele questionou, desviando o olhar da caixinha que continha duas alianças para o rosto de Campbell, que assentiu com a cabeça, esperando a resposta ansiosamente. — Nossa, vai se fuder. Você quase me matou do coração. Sim, eu aceito. Mas nunca mais me assusta assim!
Em meio a risadas e alguns tapas no braço, os rapazes colocaram as alianças na mão direita alheia, passando algum tempo apenas as admirando juntas. Mesmo que não fosse uma jóia muito extravagante, os rapazes estavam muito felizes pelo noivado. O relacionamento dos dois nunca fora movido por meio de bens materiais, mesmo que Campbell quisesse fazer de tudo para mimar Subedar ao máximo com presentes. Ao contrário do agora noivo, ele ficava extremamente feliz com coisas pequenas e simples, para ele a intenção era muito melhor que qualquer coisa cara ou extravagante.
Norton aprendera com ele a valorizar pequenos detalhes da vida, com seus próprios valores. Não precisava ser algo de alto valor monetário ou super requisitado para ser um bom presente".
A mão de Norton foi até a própria aliança que agora andava pendurada em uma corrente no pescoço, como se fosse um pingente de cordão. Gostava de mantê-la próxima de si e do coração, sempre o lembrando que mesmo que o rapaz não estivesse mais entre os vivos, estaria próximo dele. Eles sempre estariam juntos, e nada nem ninguém os separaria. Nem mesmo a morte.
— Eu ainda lembro como você brigou comigo mais tarde naquele dia, dizendo que eu não precisava ter comprado as alianças. “Eu aceitaria casar com você de qualquer jeito, seu bocó”. — Imitou o rapaz, dando uma risada baixa enquanto sentia mais lágrimas descerem pelo rosto. — Assim como eu lembro que você ficou todo bobinho com isso tudo. Era tão lindo ver você planejando as coisas do casamento… “ A gente não precisa fazer nada exagerado, eu já fico muito mais que feliz da gente reunir só nossos amigos e comemorar”...
O rapaz fungou, sentindo como se seu interior fosse uma construção muito antiga, que se encontrava desabando aos poucos devido às condições climáticas que estava exposta, até tornar-se algo irreconhecível. Só que naquele caso eram suas emoções que pareciam estar destruindo cada pedaço do rapaz da forma mais dolorosa possível.
"Várias pessoas olhavam confusas ao ver o carro passando muito acima da velocidade permitida, ultrapassando os demais carros que transitavam pela avenida. Alguns dos que observavam pensavam que a pessoa que dirigia estava atrasada para um compromisso importante, outros o achavam irresponsável, e ainda haviam os que tentavam imaginar o que fazia com que o motorista andasse em tal velocidade.
E Norton, apesar de gostar de velocidade, pela primeira vez dirigia rápido para chegar no local ao qual estava indo por pura tensão. O hospital. No momento que recebeu a ligação deixou tudo que estava fazendo, avisou no trabalho que precisava sair por causa de uma emergência envolvendo o noivo, e saiu. Não se importou se o chefe havia contestado ou ameaçado demiti-lo. Nada importava.
Ele só queria poder ver Naib.
Assim que estacionou no estacionamento do hospital respirou fundo, aliviando o aperto que mantinha no volante e que sequer havia percebido por estar tão focado em chegar logo ao local. Flexionou os dedos algumas vezes, sentindo uma dor suportável nas ligações. Pegou o celular e as chaves, trancou o carro e correu para dentro do hospital. Sentiu o olhar zangado do segurança parado próximo da porta de entrada enquanto avançava direto para a recepção, franzindo o cenho ao ver que não havia ninguém ali.
— Cadê o pessoal da recepção? — Campbell questionou, olhando para o segurança.
— Ela foi resolver um problema, já deve estar voltando.
— Ah, que ótimo. Valeu. — O rapaz acenou com a cabeça, apoiando-se no balcão.
O barulho do sapato de Norton batendo contra o piso branco ecoava no local, e vez ou outra o rapaz olhava para os lados, inquieto, esperando ver a recepcionista aparecer. Poucos minutos depois, que pareciam horas, ele já considerava entrar e ir procurar Naib por conta própria, mas ficou com medo do segurança o arrastar para fora. Seria mais difícil ainda conseguir informações sobre o estado do noivo se não pudesse entrar ali.
— Boa tarde, senhor. Posso lhe ajudar? — A recepcionista perguntou quando apareceu, notando o rapaz inquieto próximo ao balcão.
— Eu recebi uma ligação de um conhecido dizendo que eu precisava vir ‘pra cá porquê era 'pra onde ‘tavam trazendo o Naib. O nome dele é Naib Subedar. Você tem alguma notícia dele? — A voz do rapaz falhou algumas vezes enquanto ele quase atropelava algumas palavras pela velocidade que falava.
— Infelizmente nós não podemos dar informações sobre o estado de pacientes. O senhor por acaso tem algum parentesco com o senhor Subedar?
— Sim, ele é meu noivo. — A recepcionista arqueou uma sobrancelha, olhando torto para Norton, ao passo que o rapaz estreitou os olhos enquanto se inclinava sobre o balcão, sentindo uma súbita irritação. — O que foi? Vai falar não pode passar informação dele 'pra mim? Por que mesmo não tendo ligação sanguínea a gente já teve bastante ligação quando-
— Não, precisa continuar. Já compreendi. Eu só preciso coletar algumas informações antes.
O moreno concordou com a cabeça, fornecendo todos os dados que lhe fora pedido, tais como documentos e endereço, e a moça confirmou que Campbell estava de fato listado como contato de emergência de Naib. Ela questionou se o paciente tinha mais alguém que pudesse ser contatado para ir ao hospital, porém logo a opção foi descartada.
A mãe do rapaz morava longe demais para ir até lá e esperar por notícias que não sabiam quando sairiam. Ele havia optado por ligar para ela assim que tivesse notícias concretas de Subedar. Não queria assustá-la ou desesperá-la sem sequer saber como estava o quadro de saúde do noivo.
— Bom, ele está na urgência, chegou agora mesmo e está sendo atendido pelos médicos de plantão. — A recepcionista disse por fim, desviando o olhar da tela do computador para Norton, que exalava tensão e preocupação, mantendo uma expressão séria e de cenho franzido. — O senhor pode esperar aqui, assim que possível uma das enfermeiras irá lhe chamar para poder vê-lo.
— Tudo bem, obrigado.
O rapaz sentou-se em uma das cadeiras da recepção, esperando ansiosamente. Vez ou outra via pacientes ou acompanhantes passando por si, e imaginava como Naib estava. Esperava que não fosse nada além de um susto, e que logo poderiam voltar para casa.
— Norton Campbell? — Uma moça de altura mediana chamou, saindo de uma porta que provavelmente levava para as alas de Urgência e Emergência do hospital.
— Sou eu. — O rapaz se levantou em um pulo, caminhando a passos rápidos. — Como ele 'tá? Eu posso ir ver ele?
— Pode sim, eu vou levá-lo até o paciente. Porém sinto lhe informar que infelizmente não poderá ficar lá por muito tempo, são regras do hospital.
— Não tem problema, eu só quero ver ele e saber se 'tá tudo bem. — Norton disse, seguindo a enfermeira até a ala de Urgência, onde haviam várias camas hospitalares e cortinas de pano branco, que separavam as camas em pequenos cubículos.
— Ele está no penúltimo leito, se precisarem de algo podem me chamar ou a qualquer outro enfermeiro que esteja por perto.
— Tudo bem, obrigado.
Norton tentou se comportar ao máximo, evitando correr até Naib e se jogar em cima do noivo. Não era o lugar e nem o momento para aquilo, não sabia o quão mal o rapaz estava e muito menos o quanto podia piorar a situação se fizesse isso. Todo cuidado era pouco naquele momento.
Assim que alcançou o cubículo, parou em frente a cama, olhando o mais baixo que estava com a cabeça e os braços já enfaixados. O rosto apresentava diversos cortes, que aparentavam estar limpos e bem cuidados. Supôs que haviam feito a limpeza necessária para os machucados externos e mais simples, enquanto esperavam os exames que ele havia feito.
— Oi, meu amor...
— Hm? Ah, Nort! Oi meu amor. — Naib desviou o olhar do teto e virou o rosto para olhá-lo melhor, a feição se contorcendo por conta da dor que sentira ao virar o pescoço.
— Fica quieto com esse seu cabeção aí, não é pra ficar virando se 'tá sentindo dor.
— Nossa, muito educado você né?
— Sim, gostou? — O mais alto deu um pequeno sorriso, dando a volta e carregando a cadeira de plástico branco que havia ali no pequeno quarto improvisado até estar próxima ao lado esquerdo da cama, onde sentou-se para conversar com Subedar. — Como você ‘tá?
— Honestamente? Parece que vários caminhões passaram por cima de mim.
— Você é forte, vai sair dessa.
— Se eu sair vai ser mancando e com várias cicatrizes novas.
— Ah ‘tá tranquilo então. Vai ficar mais charmoso do que já é.
— Aham, vai nessa. — Os rapazes sorriram, mas logo a expressão de Naib se desfez e ele segurou a beirada do lençol, enrolando o indicador da mão esquerda em um fio solto da costura. — Os médicos te falaram algo da situação?
— Nada, e eu 'tava tão preocupado que quando disseram que eu podia vir te ver até esqueci de perguntar.
— Ah…
— E o quê te falaram?
— Bom, eles disseram que a situação não era muito boa, e que ‘tavam esperando o resultado dos exames ‘pra saber o que iam fazer.
— Ei. — Norton esticou a mão e tocou a mão que enrolava o fio no dedo, a apertando gentilmente por cima das ataduras que a cobria. — Vai ficar tudo bem, ok? Você vai se recuperar, daqui a pouquinho vai estar firme e forte.
— É, tomara… Eu só… Tenho um pouco de medo de como isso tudo pode acabar...
— Olha meu amor, eu vou estar aqui pra te ajudar. Nós vamos passar por isso juntos.
Os olhares se encontraram, e Norton deu um sorriso pequeno mas tão genuíno que fez um aparecer também no rosto de Naib. Ele ergueu um pouco a mão do noivo, depositando um beijinho, o que levou o sorriso do rapaz a aumentar. O mais velho o encheu de perguntas, sobre como tudo tinha acontecido, como ele tinha se sentido e que tinha se passado na cabeça dele até então.
Ele não se lembrava de muito além de que haviam ido atender a algum chamado de acidente em um prédio abandonado, e que estava explorando o local quando o chão cedeu e ele despencou de sabe-se lá quantos metros.
— Me fez lembrar daquele prédio que nós fomos naquela noite....
— Ah para com isso, aquele prédio 'tava em perfeito estado! Eu fiz questão de checar tudo antes.
— Devia me preocupar com você invadindo prédios?
— Que nada, se preocupa em melhorar agora.
Naib concordou com a cabeça, olhando para as duas mãos próximas. Sempre ficava fascinado com a diferença de tamanho entre a própria e a de Norton, e como mesmo assim sempre se encaixavam tão bem. Assim como eles. Mesmo com as diversas diferenças e desavenças, se encaixavam tão bem que chegava a ser um pouco cômico como eles ainda sim conseguiam ser tão bons um para o outro.
Em certo momento, um médico se aproximou carregando diversos exames em seus braços, todos de Naib. Quando disseram para Norton que o noivo havia sido submetido à uma bateria de exames, não havia sido exagero. O doutor explicou para os garotos o que havia de fraturas e o porquê teriam que fazer, a princípio, uma cirurgia de emergência.
Claro, a parte de que a situação do rapaz era preocupante devido a uma suposta hemorragia interna fora deixada de lado, e apenas dita para Norton. Segundo o médico, não queria criar pânico para o jovem pouco antes da cirurgia ou deixá-lo ansioso.
— Vai ficar tudo bem, Naib. Você vai ver. Vou estar te esperando lá fora, e assim que você sair da cirurgia a primeira coisa que vai ver sou eu lá, do seu lado.
— Promete? — O mais baixo perguntou, receoso em deixar Campbell sair de perto de si quando foram notificados que o mais baixo precisava ir para a cirurgia.
— Prometo, meu amor. Eu não vou sair do seu lado. — Campbell deu um beijinho por cima das ataduras da cabeça do noivo, e então se abaixou para depositar um selinho nos lábios alheios, o que gerou um pequeno sorriso. — Boa sorte e boa cirurgia.
— Obrigado. E… Norton? Eu te amo, meu amor.
— Ah. Eu também te amo. Muito mesmo.
— Até depois. — Subedar deu um pequeno sorriso, olhando Norton acenar para si de longe, enquanto era encaminhado para uma outra ala do hospital.
[...]
— Senhor, eu sinto muito. Não é possível autorizar a sua entrada na área, apenas com liberação médica. Porém, você pode ficar na sala de espera, se quiser.
O rapaz assentiu, seguindo a recepcionista até a dita área. Havia voltado para a recepção do hospital, esperando por notícias de Subedar por horas, mas não conseguia se conter, e foi até a recepção perguntar por novidades do noivo várias vezes, além questionar a todo médico ou enfermeiro que passava pelo local olhando como se procurasse alguém a mesma coisa. Norton tinha esperança que esse alguém que tanto procuravam na recepção quase vazia fosse ele.
O local para o qual ele fora levado era uma sala ampla que possuía saída para vários corredores diferentes, todos com as portas fechadas e indicadores de quais áreas eram estampadas nos vidros. Havia algumas poltronas e cadeiras, uma máquina de café e um bebedouro com um dispenser de copos plásticos ao lado, e Norton fora avisado que havia uma cantina ali perto, seguindo por um determinado corredor. Agradeceu as informações, mesmo que não sentisse fome alguma, apenas uma ansiedade esmagadora para saber o estado de Naib.
As horas seguintes foram extremamente torturantes e pareciam não passar nunca. Ele não conseguia permanecer sentado por muito tempo, estava extremamente inquieto, então se levantava e andava pela área de espera de tempos em tempos, olhando os detalhes do lugar em uma tentativa falha de distrair sua atenção do rapaz e sua cirurgia. A cada movimentação que passava por perto ele se virava para olhar, esperançoso por uma boa notícia sobre o estado de Naib.
A notícia veio apenas no final da tarde, e a situação não era nada boa.
— Senhor Campbell? — Norton escutou uma voz desconhecida o chamando, e virou-se para olhar na direção que viera, encontrando uma médica do hospital. Ela parecia ser jovem, provavelmente a idade era próxima a dos rapazes, e segurava uma prancheta.
— Sou eu. Como ele 'tá? — O rapaz questionou assim que se aproximou, sentindo o estômago pesar no instante que a doutora desviou o olhar.
Não.
— Olha, senhor, sendo sincera… A situação dele não é boa. Ainda há uma chance de melhora, porém não é alta.
Não. Não. Não.
— Eu posso ver ele? Ele 'tá acordado ou…?
— Pode sim, vou te levar até lá. — A médica concordou com a cabeça, e o guiou por um dos corredores. — Houveram algumas complicações durante a cirurgia por ser um caso mais delicado do que esperávamos e pelo estado de choque em que entrou. Mas garanto que nossa equipe está se empenhando ao máximo para ajudá-lo. Por enquanto, nós estamos o mantendo em coma induzido para evitar um maior sofrimento.
Eles passaram por diversas portas idênticas em um longo corredor, até alcançarem uma que se encontrava um pouco aberta. A médica a abriu mais, revelando uma pequena poltrona em um canto próximo à cama hospitalar e aparelhos próximos ligados a Naib, que se encontrava encolhido em meio às roupas de cama e o rosto com uma expressão serena, como se estivesse dormindo. Campbell aproximou-se, observando o mais baixo com o cenho franzido. O rapaz agora possuía mais curativos pelo corpo, isso sem contar os que provavelmente ainda estavam ocultos pelo lençol que o cobria. Norton agradeceu com um aceno de cabeça para a médica, que acenou de volta e saiu do quarto.
— Eu não vou sair daqui enquanto você não melhorar. Me recuso. — Ele se aproximou da cama hospitalar, acariciando a bochecha do rapaz. — Eu te fiz uma promessa, e vou cumprir. Não vou te deixar sozinho."
O sol começava a se pôr, e Norton estava abraçando os joelhos contra o peito com força, chorando copiosamente. Conforme se lembrava dos momentos finais ao lado do noivo, sentia a mesma dor de antes, mas a diferença era que sentia como se estivesse aumentando gradativamente. E, principalmente, sentia a dor da perda, mais vívida que nunca.
— Você lutou tanto, meu amor… Tenho muito orgulho de você. E me desculpa por não poder te ajudar mais. Eu busquei todos os meios possíveis e imagináveis… Mas, no fim, já não tinha muito o quê fazer. Você lutou sua batalha muito bem, e agora pode descansar em paz.
Ficou mais alguns minutos em silêncio, perdido em pensamentos. Em certo momento ouviu um guarda avisando para um grupo de pessoas próximas de si que o horário de visitas se encerraria em breve, e curvou-se mais uma vez para acariciar a lápide do jovem. As lágrimas cessaram aos poucos e ele limpou as que ainda escorriam. Ele se levantou e limpou a grama que havia grudado em sua roupa, conferindo se não estava deixando nada grudado em si. Fez uma pequena reverência, abrindo um pequeno e tristonho sorriso.
— Não sei se existe realmente uma vida após a morte ou se vamos para algum outro lugar depois daqui, porém… Espero que você esteja bem agora, Naib. E que um dia nos encontremos novamente. Seja nessa vida ou em qualquer outra. Sempre vou te amar. — Norton começou a se afastar, olhando por cima do ombro como se realmente houvesse alguém ali a quem se dirigir. — Nos vemos em breve, meu anjo.
