Chapter Text
A verdade é que vou começar tudo com uma frase clichê.
Ninguém vai te amar mais, do que aquela pessoa que fez de tudo por você mas, que quando você quis ir embora, te deixou partir.
Por que não existe nada mais doloroso que continuar com alguém que quer ir embora.
Eu não penso que isso vá ser fácil de engolir, minha psicóloga só me falou pra escrever o que estava pensando, o que já tinha vivenciado e colocar as mágoas e confusões no papel.
Se isso vai me ajudar de verdade ou não, deixo nas mãos dela.
[...]
Tudo começou numa padaria, estava tentando comprar um bolo de aniversário pra minha irmã quando o vi pela primeira vez.
Ele é a personificação do "a primeira impressão é a que fica", sempre sorridente, com as roupas largadas e desabotoadas, com fones ou não, mas sempre com seus amigos e seu chapéu de palha.
Pensei que ele fosse da roça no começo, só fui ver que era, de fato, da cidade quando passei a encontrar ele naquela padaria várias e várias vezes.
Colocaria a culpa em Lami se me perguntassem o motivo de ter puxado assunto quando o encontrei na fila. Não era de meu feitio falar com pessoas aleatórias.
Mas ele não parecia aleatório, parecia colocado ali pra atiçar minha curiosidade.
Ele tinha aparência de menino faceiro, só depois descobri que tinha 20 anos. Tinha um jeito infantil de querer tudo do jeito dele, era impulsivo e exagerado. Ele era tudo que eu queria longe de mim.
Inesperadamente, não fui capaz de me afastar. Tinha algo que me cativava nele, como magnetismo e, aquela velha cantada parece inteligente demais pra usar com ele, mesmo assim o fiz.
— Você acredita em gravidade?
— O que? — foi tudo que ele disse, antes de voltar a comer.
Nesse momento, na verdade, cerca de um mês depois disso, só aí fui perceber que aquele cara, 5 anos mais novo que eu, com todas as características aos quais fugia os meus padrões de possível par romântico, tinha despertado de fato em mim uma libido, uma vontade de socializar a passos mais largos do que uma simples amizade.
Numa tradução rápida: eu estava a fim dele.
Estar a fim de alguém era algo. Significava que eu gostava dele? Que ele era meu tipo? Eu nunca tinha passado por nada como aquilo!
Estava no meu segundo ano da faculdade de Medicina, sabia que queria ser igual meu pai, cuidar da minha mãe e irmã, cuidar da minha família, virar amigo do meu psicólogo a ponto de ter de trocar de profissional pela nossa proximidade, pois eu já o via como um irmão. Eram coisas as quais eu queria, mesmo sendo o cara fechado e antissocial da turma, mesmo tendo dois amigos na universidade inteira, pela simplesmente comodidade de não querer socializar com mais ninguém.
Se eu sabia quem era, então o que aquele cara representava de novo na minha vida?
[...]
Quando me dei conta do que já eramos, tinhamos piadas internas, ele vivia no meu apartamento, tinha as chaves do lugar e até me dava caronas na sua moto.
Eu sabia de seu aniversário, endereço, hobbies e hábitos muito bem, parecia louco que só haviam se passado cerca de três meses desde que o vi pela primeira vez.
E Luffy não era o cara mais comum do mundo, e eu não era o cara mais atencioso do mundo, só que por ele, as coisas mudavam de ponto.
Um ponto de vista que não era normal pra mim, mudar minha rotina pra em dois dias da semana esperar ele chegar da academia pra jantar comigo. Marcar o dia do cinema ou o dia que ele dormiria na minha casa. Nada parecia o que eu faria com Kidd ou Bepo, então por que com ele era diferente?
E o modo como eu me sentia perto dele também era estranho, era uma paz absoluta, o que contradiz a lei natural dos livros de romance meloso que já encontrei e li nas coisas da minha irmã.
Onde estavam os batimentos acelerados e as borboletas no estômago que não passavam de romantização de uma concentração de sangue no estômago por excitação ao ver a pessoa a qual você sente atração?
Era confortável estar com ele, mesmo que fosse como estar no centro de um furacão. Ele era intenso, mas como era calma a convivência.
Era quentinho e confortável quando nos aconchegávamos um no outro pra caber dentro da mesma coberta, deitados na minha cama vendo algum filme ou série aleatório, só pra depois dormir agarradinhos como um casal de namorados. E então logo deixar evoluir aquilo mais um pouco.
E o que falar do nosso primeiro beijo? Não foi romântico, não parecia pelo menos. Depois da primeira vez, virou algo comum, como um cumprimento de amigos, nos beijamos quando ele chegava na minha casa, quando eu ia tomar banho roubava um selar de seus lábios e quando ele ia embora dávamos dois, três ou cinco beijos seguidos pra enfim, nos separarmos de fato.
O sexo. Não foi necessário muito pra saber que essa era a próxima etapa que tínhamos que dar no nosso relacionamento. E não tinha ninguém nos obrigando a fazer isso, porque não havia relacionamento algum ali.
A nossa primeira vez com sexo foi chata. Foi algo que foi rapidamente descartado, era esforço demais para satisfação de menos, não teve clímax e até começar tinha sido difícil.
Depois disso, paramos nossa relação, ou o que sei lá nós tínhamos, nos encontros e beijos simples, momentos em que ficamos juntos sem pensar em mais nada.
E de fato, parecia o certo a se fazer.
[...]
Três anos depois, Luffy decidiu fazer faculdade. Ele entrou em dança, hip hop era modinha e ele se arriscava nos passos de uma forma desleixada que deixava meu coração aquecido e minhas bochechas doloridas e vermelhas de tanto rir.
Foi quando percebi que ele não era só a pessoa que convivia comigo, ele tinha seus amigos e irmãos. E tinha a tal famosa popularidade que eu vinha fugindo desde sempre. Mas ao contrário de mim, ele não fugia.
As pessoas gostavam dele, as pessoas falavam dele e, mais importante, davam em cima dele.
Chamavam pra sair, propunham noites de sexo e qualquer outra coisa. Como eu sabia dessas coisas? Meu amigo Kidd me contou, como estava desesperado pra ficar com o calouro sorridente do curso de dança.
Foi quando entramos num acordo, não tínhamos uma relação e nenhum de nós dois queria rótulos pra se prender mas, tínhamos um ao outro.
Tínhamos alguém. E daquele momento adiante, a paz tinha voltado a reinar. Confiava dele de um jeito que não pensei que faria com ninguém. Acho que nunca confiaria tanto em mais ninguém.
Ele nunca traiu minha confiança. É uma certeza na minha vida, uma das únicas.
Ninguém conhecia mais ele do que eu. Nem seus próprios irmãos, eu sabia quais eram seus sorrisos verdadeiros e sabia quais eram puro fingimento. Em contrapartida, ele conhecia minhas carrancas como ninguém e sempre sabia quando eu estava de fato feliz, com raiva, ou simplesmente cansado.
Nossa sintonia era fora do normal e conseguiamos saber o que o outro queria dizer mesmo sem deixar nenhuma palavra escapar.
A gravidade nunca fez tanto sentido, mas continuávamos a pensar o que, de fato, sentiamos em relação um ao outro.
[...]
Nossa relação nunca foi secreta e eu sempre pensei que por ele ser totalmente sem pudores, falaria na primeira oportunidade sobre mim pra seus amigos.
Me enganei feio ao perceber que ele sabia guardar segredos muito bem, e virou meu confidente, mais do que Rocinante um dia fora.
Tínhamos conversas sérias periodicamente, se ele entendia algo fingia não entender e aquilo me fazia rir na maioria das vezes. Isso quando não me irritava.
Era bom ter alguém pra descontrair, só relaxar e ser quem você é. Falar sem pudor, não ter medo de ser julgado e confiar tanto ao ponto de contar suas maiores inseguranças.
Nossa relação era assim. Ele confiava em mim pra me falar o que sentia e eu fazia o mesmo com ele.
Tínhamos fidelidade, confiança, diálogo e muitas outras coisas as quais um bom relacionamento precisava. Só nos faltava o amor.
Até aquele momento éramos nada mais que amigos confidentes, íntimos ao ponto de colocar nossa amizade num patamar maior que amizade e, menor que uma relação amorosa. Era amigos que se beijavam.
Eu estava feliz por estar ao lado dele mas, ao mesmo tempo, queria me apaixonar por ele.
Outro clichê: Não podemos escolher por quem iremos nos apaixonar.
Eu não me apaixonei por mais ninguém. Nem mesmo por ele.
