Chapter Text
Há uma sentença enfadonha e antiga cuja quase todos no planeta Terra já tiveram o (des)prazer de escutar: "a vida é feita de escolhas". Estas podem ser ruins ou boas, mas, com certeza, causadoras daquele "famoso" efeito borboleta; uma resulta em outra e, assim, uma sequência de causa e efeito prossegue.
Pode até parecer catastrófico, entretanto, Park Chanyeol afirma que sempre foi sensato ao decidir que caminho seguir e não se arrependia de nenhuma das medidas que tomou ao decorrer de seus vinte e oito anos. Não se arrepende de trocar uma xícara de café por uma de chá — algo simples — ou deixar seu país natal para trás e se aventurar do outro lado do continente.
"Nunca se arrependa" é um lema. Para que chorar pelo leite derramado?
Quando decidiu cursar História e Direito ao mesmo tempo, já tinha pleno conhecimento que estava sacrificando toda a sua juventude, mas ele aceitou as consequências tranquilo porque, no futuro, ele poderia usufruir de todo o tempo do mundo. Ele nunca temeu as mudanças drásticas e sempre as aceitou com tranquilidade, sem desespero e sem receios.
Foi um sofrimento, como foi, terminar a suas graduações, realizar dois TCC's ao mesmo tempo, defendê-los, realizar estágio obrigatório. Entretanto, ele conseguiu, com um esforço fora do normal. Não sabia, de início, que aquelas graduações iriam mesclar-se tão certo para sua carreira.
Era irônico pensar que, por conta de sua personalidade "decisiva", Park agora estivesse retornando da Argentina com um doutorado defendido e um diploma de doutor em Direito com especialização em Ciências Sociais após seis anos fora. O quanto ele desistiu, o quanto ele deixou para trás, quantas decisões ele tomou não são possíveis de listar em papéis, mas, no fundo, ele sabe que passou por cada momento e, por fim, conseguiu alcançar o seu objetivo principal: ter uma carreira consolidada. Ele pode se orgulhar disso, certo? Mesmo tomando, às vezes, iniciativas erradas, ele sente que pode bater em seu peito e bradar que realizou um dos seus maiores sonhos de ser doutor.
Agora, poderia usufruir de tudo que enterrou em sua juventude. Poderia, então, sair com seus amigos para beber, entrar de cabeça em um relacionamento amoroso, mas… ele não desejava mais isso.
O Park Chanyeol de trinta e um anos era diferente do Park Chanyeol de vinte. Irônico até, pois já não possuía os anseios que um dia jurou realizar quando tivesse tempo, porém, mais uma vez, ele não se importa com isso.
Estando finalmente de volta à Coreia do Sul, era sabido que nada seria como antes. E o pacotinho que carregava nos braços demarcava bem todas as suas novas responsabilidades — que ele aceitou com devoção.
Tinha um bebê, sua filhota, seu tesouro, seu maior presente em seu acalento, dormindo como uma boa dorminhoca que era. Park Flora foi a maior (e melhor) decisão que tomou em sua vida inteira. Nunca, jamais, em nenhuma hipótese, cogitou que um dia iria adotar um bebê, mas a sua vida gostava de pregar peças e, agora, possuía alguém que dependia de si para uma eternidade e, mais uma vez, ele não se arrepende disso.
A única coisa que Chanyeol poderia se arrepender futuramente seria caso ele fosse um pai ruim. Ele jamais se perdoaria.
Tudo bem, poderia sim errar às vezes, colocar uma fralda ao contrário, se desesperar com as cólicas; era normal para um pai de primeira viagem.
Suspirando fundo, o Park observou o céu nublado por fora da fachada do aeroporto. Sentia-se nostálgico em pisar em solo coreano depois de tantos anos.
Não teve tempo de visitar seus parentes durante o longo período que esteve fora, obviamente, a saudade de seus pais chegava em níveis alarmantes. Sabia que deveria ter dado mais atenção aos seus progenitores e visitá-los em datas festivas — como o Chuseok —, mas não podia sair da Argentina com um agente do serviço tutelar em sua cola — se bobeasse um segundo sequer, perderia todas as suas chances de ter a guarda da sua pequena florzinha. Talvez devesse ter contado sobre a adoção, mas não queria dar falsas esperanças ou causar um alarde desnecessário, então, guardou aquela pequena informação apenas para si durante dois anos.
Seria a primeira vez que seus pais veriam a sua filha.
Se estava com medo? Com certeza. Seria uma tremenda loucura sua aparecer na porta da casa de sua mãe depois de seis anos, carregando um bebê e uma mala de lado. Restava para si apenas enfrentar isso de cabeça, agarrando-se em sua coragem.
Pequenos feixes de luz transpassavam as pesadas nuvens escuras, denunciando que logo iria chover. Alguns anos atrás, o Park amaria aquele clima e ficaria alegre em saber que poderia aproveitar um friozinho bom enquanto dormia ou corria pela chuva. Entretanto, com a chegada da sua filha, passou a detestar com todas as suas forças a chegada do inverno, pois sua garotinha sempre ficava mais manhosa ou gripada por conta das baixas temperaturas.
Durante a sua última semana na Argentina, fez questão de pesquisar diligentemente como estava o tempo na Coreia do Sul e, sabendo do início do inverno, comprou centenas de roupinhas mais quentes para, assim, Flora não adoecer com a mudança drástica de clima. Decerto, teriam outras mudanças que a bebê iria estranhar além do clima, talvez a paisagem ou a língua, mas Chanyeol estava empenhado em tornar aquela migração a mais tranquila possível.
O importante era que seu bebê, no momento, estava quentinho e dorminhoco embalado com duas mantas amarelas em seu peito, usando uma touquinha azul claro e um macacão moletom quentinho.
— Florinha... — chamou sua filhota serenamente, não recebendo um pingo da sua atenção. — Bem-vinda à Coreia — saudou ao apertar mais o corpo da menininha entre seus braços longos.
Ajeitou o par de óculos de grau que estava a deslizar por seu nariz e retornou a sua mão à alça de sua mala, a puxando enquanto caminhava em direção à praça de táxi.
Era hora de reviver todo o seu passado.
...
Vislumbrando-se com a varanda branca repleta de musgos daquela média casa, a nostalgia — que antes já era grande — aumentou consideravelmente.
A residência estava mais envelhecida, mas parecia continuar do mesmo jeitinho de casa de mãe que sempre teve, do jardim de ervas e hortaliças aos potes de cerâmica maturando Kimchi. Conseguia até sentir o cheiro de grama molhada, o fazendo voltar anos no tempo como se fosse magia.
Em breves segundos, Park pôde recordar-se de quando era uma criança serelepe que gostava de subir nas telhas da casa para observar as estrelas ou quando era um jovem adolescente voltando da faculdade a noite e parando sentado no meio fio para pensar na vida. Querendo ou não, quase vinte anos da sua vida estavam enterrados naquele terreno médio, naquelas portas, naquelas janelas envelhecidas.
Não poderia mentir… estava temeroso em tocar a companhia daquela casa. Já podia imaginar o surto catastrófico que sua mãe teria ao ver seu rosto depois de tantos anos — absteu-se de pensar no fato que agora possuía uma filha de dois anos em seus braços dormindo serenamente. Dona Park Sunhee iria lhe fazer de saco de pancadas com toda certeza. Céus… quantos anos não via a sua mãe pessoalmente, tinha se esquecido como ela poderia ser eufórica.
Felizmente, Flora ainda estava descansando desde que saíra do avião, sem dar nem um pouquinho de trabalho para o pai de primeira viagem. Era provável que logo a garotinha despertasse faminta, por isso, deveria agilizar a sua visita à sua mãe e ir para o seu novo apartamento.
Antes mesmo de retornar ao seu país natal, foi obrigado a comprar um apartamento, mobiliá-lo e deixar de acordo com todas as normas de segurança para a vivência de um bebê de dois anos. Os agentes sociais que acompanhavam o seu caso não permitiriam a sua vinda sem que tivesse no mínimo um bom lugar para morar e uma renda fixa — renda esta que viria de seu antigo cargo de professor de Direito Penal na universidade de Seul, uma das SKY's.
Bateu seus pés contra o tapete verde da entrada, melando um pouco mais o "Bem-vindo" estampado em um branco gasto. Foram só duas batidinhas contra a porta de madeira branca para uma mulher de um e sessenta abri-la animada. Ao observar a expressão surpresa da mãe, um calafrio apossou a sua coluna e o seu estômago resolveu que seria uma boa hora para dar um nó.
Céus… sua mãe só podia dormir no formol. Como em seis anos ela não havia mudado nadinha? Chanyeol ficou perplexo ao observar o rostinho redondinho de sua mãe. Não existiam quase rugas embaixo dos seus olhos ou na testa, a pele estava erguida e não demonstrava indícios que iria murchar com o tempo. Assustador.
A dita senhora observava petrificada o homem alto à sua porta, observando cada detalhe dele para acreditar que era o seu filho ali, dos fios de cabelo ondulados escuros aos olhos grandes.
— Chanyeol?! — chamou-o desacreditada. Não tinha como não reconhecer a sua cria, porém, fazia anos que não via aquele rostinho com covinhas. — Meu Deus, é você mesmo! — clamou, dando espaço para que o maior entrasse.
Um tanto acanhado, o homem adentrou a residência, deixando sua mala apoiada no canto da porta ao lado do espaço de deixar sapatos. Como não possuía mais suas pantufas na casa da mãe, retirou seu all star preto e ficou somente de meias brancas, caminhando pelo piso de madeira sem medo que ficasse manchada.
A parte interior da casa era modesta. Sua mãe era uma doméstica aposentada e seu pai dono de uma pequena loja de penhores, então, sempre viveram em condições simples, mas o suficiente para não deixarem faltar nada para seus dois filhos.
Chanyeol reconheceu o aparador de madeira com porta-retratos com fotos de seus familiares, reconheceu a sala de estar média à esquerda, com direito a um sofá marrom de três lugares e uma mesa de madeira baixa no chão. Era um espaço amplo, dividido em três cômodos (cozinha, sala de jantar e sala de estar) no mesmo ambiente. No andar de cima, subindo pelas escadas ao lado da cozinha, encontraria a parte dos quartos; três deles, onde outrora era o seu, o da sua irmã mais velha e dos seus pais.
— Oi, mãe-
— Oi mãe nada, você nem avisou que vinha! Não preparei nem um almoço. — gritava em alarde, caminhando para todos os lados da casa.
A mulher estava três vezes mais enérgica do que Chanyeol achou que ela ficaria. Deveria ter avisado da sua vinda na última ligação que tiveram, na semana anterior, mas o homem não possuía certeza de sua vinda naquela data, pois faltavam algumas papeladas e a retirada do passaporte da sua filha para que pudesse viajar com segurança. Preferiu fazer uma "surpresa" — que não foi muito aceita por sua mãe.
— Mãe.
— Você poderia ter avisado, assim eu chamaria sua irmã e seu pai, talvez seus tios, para comemorarmos sua visita. Você nunca vem. Faz seis anos.
— Mãe… eu me mudei definitivamente para a Coreia... — Preferiu dizer a boa nova antes que sua progenitora surtasse mais.
A mulher, instantemente, cessou sua caminhada enérgica, retornando seu olhar em direção ao seu filho.
— Que notícia maravilhosa! — clamou maravilhada, batendo palmas de ter seu filho de volta.
Era esplêndida, decerto, pois seus pais acreditavam que ele iria morar na Argentina para sempre. Seu plano de finalizar seu Doutorado em direito carcerário em cinco anos (como determinava o prazo mínimo para alunos até a defesa da tese) foi por água abaixo e arrastou-se por mais seis, tudo por conta de um rostinho cheinho argentino.
Nunca imaginou que seus planos fossem mudar tão drasticamente.
Sorrindo pequeno, olhou para o rostinho da sua filha e acariciou as maçãs salientes da pequena com seus dedos longos. Não se arrependia das mudanças, no final das contas, havia valido a pena.
— Omo… quem é ela? — Oh, graças! Finalmente ela havia notado o bebê dorminhoco agarrado aos braços do seu filho.
Sunhee, curiosa, aproximou-se sorrateiramente da menina, analisando os traços ocidentais e as bochechas gordinhas. Que gracinha! Era uma fofura de noventa centímetros, com toda certeza. E aquela roupinha e mantas envolta dela fazia parecer que era tão pequena e mais fofa ainda. A senhora quase soltou um gritinho animado. Adorava crianças!
Flora, ainda sonolenta, não chorou com a nova presença, estava apenas em “modo alerta”, analisando o rosto da sua avó. Sempre foi uma criança consideravelmente calma, um tanto manhosa e chorona, mas, ainda sim, tranquila — e Chanyeol agradecia por isso.
— Minha filha — disse simplista, sem criar muito caso.
Todavia, era claro que a sua mãe iria criar caso! E seu pai nem estava ali para amenizar a situação — Chanyeol deduziu que ele deveria estar com os seus amigos jogando Omok. A tradição das quartas feiras do Gobang mantém-se em pé e intacta.
— Sua filha, Chanyeol? Como assim sua filha? Quando você teve um filho?! E cadê a sua esposa?
Caramba! Tinha uma neta! Finalmente! Tinha dois marmanjos de quase trinta anos (uma já de trinta, na verdade) e nenhum havia lhe dado netas ainda! Glória, que dia de notícias boas! Mas por que seu filho mais novo não havia lhe falado isso antes? Suspeito. E onde estava sua parceira? Mais suspeito ainda.
— É uma longa história, mãe. Mas só sou eu e a Flora — enxugou todo o seu falatório.
Não estava pronto para falar sobre isso agora. Com o tempo, pretendia contar tudo aos poucos. Sua mãe aceitou isso, focando apenas na chegada da sua netinha.
— Ah... Que linda! Quantos anos tem esse neném?
— Dois anos — respondeu sorridente.
Dois anos? Chanyeol escondeu sua netinha por dois anos? Merecia uma sova por isso! Que absurdo! Poderia estar babando e mimando aquele rostinho por tantos anos!
— E como você vai cuidar dela? Já tem emprego? Casa? — perguntou, gesticulando com as mãos ao listar alguma das coisas que precisaria para cuidar de uma criança.
Sabia que seu filho era responsável em tudo que fazia. Tinha orgulho de ter criado alguém tão bem sucedido, mas era natural que se preocupasse com ele. No final das contas, ela nunca deixaria de ser mãe.
— Tenho sim, mãe. Minha mudança foi feita essa semana. Vou só precisar contratar uma babá, eu acho — explicou calmamente.
Sinceramente falando, Chanyeol não estava confortável ainda com a ideia de deixar sua filha nas mãos de terceiros para ser cuidada, gostava de estar presente em todos os momentos. Todavia, com a nova realidade batendo em sua porta, a retomada do seu trabalho era vital e ainda possuía o futuro livro da sua tese que ainda estava escrito pela metade.
Ambos caminharam lado a lado (com a sua mãe pregada no seu braço) até o sofá, sentando-se confortavelmente no estofado antigo e o escutando rancher e vendo-o afundar. Florinha, já desperta, aconchegou mais em seu peito, esfregando a cabecinha na área.
— Omo! Baekhyun está desempregado, você poderia contratar ele. — animou-se em falar do filho da sua melhor amiga.
Oh não, lidar com Byun Baekhyun não.
Os Byuns moravam na casa à frente da sua, consequentemente, Baekhyun e Chanyeol se conheciam desde que haviam saído da barriga das mães. E não era surpresa, por terem a mesma idade, morar na mesma localidade e ter as mães amigas, que se tornaram amigos de infância.
Eram como unha e carne; onde estava um, o outro estava ao lado grudado. Foi assim da creche ao início da faculdade, onde a relação de ambos mudou drasticamente. Chanyeol não se sente bem recordando e sequer mencionou sobre com a sua mãe. Provavelmente, ela acreditava que Baekhyun ainda era o seu melhor amigo — o que estava longe de ser.
— Mãe, o Baekhyun é um jornalista que eu saiba — pontuou, sabendo brevemente da carreira que o seu ex-amigo havia seguido depois da graduação.
Seu contato com o Byun havia se quebrado muitos anos antes e, as poucas informações que recebia sobre o garoto, provinham das ligações repletas de fofocas da sua mãe.
"Baekhyun foi contratado pela KBS".
"Você não sabe… Eu vi o nome do filho da Chaewoo na televisão!".
De qualquer forma, eram poucas notícias que recebia do jornalista, então seu conhecimento sobre a vida alheia era menor ainda.
— Mas está desempregado, dê uma chance. Ele trabalhava na KBS até umas semanas atrás, mas, pelo que a mãe dele me disse, Baekhyun xingou o prefeito antes de uma entrevista e foi demitido. Você sabe como ele é, não é? Menino difícil de lidar. — fofocou sem vergonha. — Dê uma chance para ele, é um ótimo menino.
"Um ótimo menino" que perdeu o emprego por praticar violência verbal contra alguém. Hm, interessante. Ele deveria ser um bom homem mesmo! Chanyeol não duvidava disso.
— Ele nem deve saber alimentar um bebê.
Baekhyun cuidando de bebês? Uma piada. Pelo que o Park se recordava de seu melhor amigo, sem chance.
— Ele tem sobrinhos, deve saber cuidar de criança — refutou, colocando sua mão contra a cintura.
— Baekbeom teve filhos? — Como estava atrasado nas notícias!
Byun Baekbeom era o irmão três anos mais velho de Baekhyun. Também, eram amigos que perderam o contato com o tempo, então ficou perplexo em saber que o Byun tinha filhos — logo dois! Quando saiu da Coréia, ele ainda estava pensando em pedir a namorada em casamento. Foi um drama… Chanyeol se lembra como hoje o dia em que Baekbeom confessou para si e para Baekhyun que estava cogitando pedir sua atual namorada em matrimônio e o Byun mais novo quase se engasgou com café gelado que tomava.
— Dois! Uma menina e um menino. São umas gracinhas, você tem que conhecer — respondeu com entusiasmo. Os netos de Chaewoo não eram os seus, lamentavelmente, mas, de coração, os aceitava como se fossem. Agora possuía uma neta para caducar! — Dê uma chance para o Byun, ele está necessitado — Com um biquinho sem vergonha e de quebrar o coração, o Park mais novo passou a língua entre os dentes, sem saber como rejeitar a proposta.
— Vou pensar — Essa fala significava que ele não iria pensar.
Quem já se viu contratar Baekhyun? Aquele cujo, se visse a cara do Park, iria tacar fogo. Com certeza não faria isso; era uma péssima ideia.
Deixaria sua mãe pensar que sim e depois arrumaria uma desculpa esparramada, somente para ter paz na hora de contratar um profissional. Alguém que, pelo menos, já tivesse cuidado de um bebê (com responsabilidade) antes. Não um cara que xingou o prefeito, perdeu o emprego e, ainda por cima, o odiava.
— Ele deve estar em casa agora. Estão morando na mesma casa de sempre, aproveite e vá lá falar com ele enquanto eu fico aqui com a minha netinha — Ergueu os punhos para o alto, balançando em frente a garota, que só fazia observar atentamente.
— Agora não, mãe. Acabei de chegar de viagem — resmungou, sem coragem alguma de se levantar.
— Agora sim, Park Chanyeol.
Merda. Teria que falar com Baekhyun. Que desgraça para o seu primeiro dia na Coreia.
Deixando sua filhota no chão, olhou em direção à mãe, em um pedido mudo para que cuidasse dela durante a sua breve saída. Confiava na progenitora — até porque, ela tinha cuidado dos dois filhos muito bem.
Podia chegar aos sessenta anos, mas continuaria obedecendo todas as ordens da sua mãe. Então, seguiu para realizar aquela temida missão: contratar Byun Baekhyun.
…
Há quase seis passos — talvez apenas três para Chanyeol, "pernas longas" — à frente, há dois meio fios e há uma travessia de rua, estava a tão temida casa dos Byun; lugar que o Park jurou de pé junto que não iria mais retornar desde seus vinte e um anos.
Não guardava rancor da casa em si, nem de quem morava nela, porém, algumas memórias e pedidos do passado retornavam a sua mente todas as vezes que observava a vidraça das janelas largas da casa de tijolos vermelhos.
Como o usual, a porta da frente estava aberta para quem quisesse entrar, como se fossem bem-vindos. O professor de Direito adentrou o local mesmo sem ser convidado, deixando seus sapatos guardados na entrada enquanto observava as paredes brancas repletas de porta-retratos pregados. Eram tantas fotos dos irmãos Byun's naquelas paredes que não conseguia contar nos dedos — se Chanyeol procurasse direito, iria encontrar, também, uma foto sua do tempo de infância.
Só precisou de três passos para escutar o rangido das tábuas de madeira do chão, deixando uma memória significativa pairando no cérebro do Park: ele e seu melhor amigo correndo com suas bolsas nas costas, atrasados para o início de suas aulas quando ainda estavam no ensino médio. O chão sempre rangia quando eles corriam com seus sapatos brancos e pisadas fortes.
— Mãe, você trouxe o miojo que eu te pedi? — Só podia ser Baekhyun com aquele tom de voz gasguito.
Chanyeol segurou ferrenho um resmungar no pé da garganta. Podia não ter mantido contato com seu ex-melhor amigo por seis anos, mas era notável que aquele garoto de vinte e três anos continuava sendo identico o de (quase) vinte e nove. A personalidade mimada e desleixada dele continuava intacta, incrível!
Ao chegar próximo ao sofá, observou a imagem bagunçada do mais baixo. Seus cabelos tingidos de rosa estavam desengonçados, despontando para todos os lados; os lábios cheinhos repletos de migalhas de biscoito água e sal e um par de óculos redondo deslizando pela ponta do nariz fino — absteu-se de observar o macacão moletom azul claro que o homem estava usando para não prejudicar mais a sua imagem em seus pensamentos.
Em um geral, sua aparência física parecia continuar do mesmo jeitinho de sempre, assim como a aura energética e ativa que ele estava recorrentemente a exalar por onde passava — a pintinha na parte superior dos lábios, as das orelhas e as da mão estavam ali, avisando ao Park que aquele era realmente o Byun Baekhyun de anos atrás.
— Você continua do mesmo jeito — comentou enfadonho, antes de se sentar na mesa da sala de jantar, por trás do cômodo da sala.
Ora, ora, ora, se não era Park Chanyeol. Um sorriso agridoce adornou os lábios do Byun ao constatar a nova presença. Era claro que ele iria reconhecer aquele ser irritante somente pelo tom de voz mesmo após tantos anos. A maneira áspera e suave que ele falava já estava marcada em seu pensamento e persistia contra a sua vontade.
Grr… como odiava que sua mente se prendesse a pequenas coisas. Simplesmente odiava ter marcado sua vida com alguém tão… insignificante quanto Park Chanyeol.
— E você continua sendo um filho da puta — xingou, finalmente virando-se para observar como aquele garoto tinha evoluído ao decorrer dos anos.
Uou… Mudar ele não havia mudado, mas tinha… amadurecido? Aqueles traços juvenis haviam sumido dentre os traços dos olhos grandes; no nariz afilado; no maxilar bem mercado. Era lindo, mas não deixava de ser um filha da mãe.
— Minha mãe gosta de você — refutou, dando de ombros.
Claro que a senhora Byun o amava. Quem não?
— Eu também gosto dela, menos de você. A que lhe devo a honra de sua nobre presença? Não esperava ver sua cara nunca mais.
Grr... Baekhyun lhe tratava como se fosse um monstro. Era incomodo demais escutar aquela forma de tratamento, não poderia mentir.
Constrangido, o Park coçou a sua nuca, raspando suas unhas curtas na área. Não a melhor saudação que havia recebido na vida, mas já estava esperando por ela. Por favor, estava conversando com Byun Baekhyun, como poderia esperar algo além disso?
— Voltei para a Coreia essa semana — explicou tranquilo, envolto de sua aura naturalmente cínica.
— Que merda. Podia ter continuado lá… aonde mesmo? Brasil? — Baekhyun palpitou desinteressando, gesticulando com sua mão direita suja de manteiga.
— Argentina — corrigiu o mais alto, já sabendo que aquilo era somente implicância do Byun. Era claro que ele sabia para onde o Park havia se mudado. — E você? Ainda xingando prefeito por aí?
Sério, Chanyeol? Tão baixo? Baekhyun esganiçou um palavrão baixinho, em respeito ao resto de dignidade que o sobrava. Quem era Chanyeol na fila do pão para falar da sua vida? Francamente… que inferno.
— Estou pensando em me tornar um streamer.
Revirando os olhos, o Park começou a cogitar a ideia de que talvez Baekhyun não soubesse que em sua carteira de identidade marcava que ele tinha trinta anos. Trinta e um, para ser mais exato.
— Você também precisa de dinheiro para isso para uma webcam, um computador, para os jogos e de uma casa própria porque sua mãe não vai aguentar seus gritos enquanto joga LOL. Ou seja… bom, você precisaria de um planejamento financeiro, talvez um empréstimo, mas só se você tiver credibilidade com o banco-
— Chanyeol, sério cara, eu não tô afim de escutar sermão não, 'tá ligado? Já basta minha mãe — resmungou impaciente, remoendo o balde verde de biscoito água e sal no seu colo. Um puro adolescente marmanjo.
Se fosse para ficar escutando aquele papo chato sobre custo de vida e blá, blá, blá, ele teria chamado os seus pais para encherem seus ouvidos. Sequer havia dado espaço para Chanyeol e ele já estava dando pitaco na sua vida, francamente… O Park deveria ter esquecido que eles NÃO eram mais amigos, muito menos namorados, o que lhe dava um total de zero intimidade entre os dois, ou seja, ele estava sendo um intrometido de marca maior. Quem foi que fofocou para aquele idiota que ele estava desempregado? Queria realmente saber quem fez chegar aquela informação nas orelhas grandes do Park para ter uma séria conversinha.
— Você tem trinta e um anos e fala como um adolescente, meu Deus — implicou o Park. — Eu vim aqui te oferecer algo.
— Diga rápido e não desperdice o meu tempo. Vai começar o Running Mans e eu não quero perder — Apontando em direção a televisão desligada à sua frente, explicou o seu cronograma do dia. Esperava que o Park não fosse bundão ao ponto de estragar a sua rotina de teleguiado.
Mas… por que diabos Park Chanyeol havia vindo visitar mesmo? O que? Queria ver o seu rostinho lindo depois de seis anos? Ele deveria ser muito burro ou esquecido para deixar de lado um simples detalhe: Byun Baekhyun era rancoroso. Ademais, havia, anos atrás, sentenciado com todas as letras possíveis que não queria ver aquela carinha nunca mais enquanto estivesse respirando. Então, por que cargas d’água aquele infeliz veio lhe implicar logo nesse dia e logo nesse momento? Sinceramente, Baekhyun não estava com paciência de revirar o passado. A conta de caridade e empatia que tinha relacionado ao doutor em direito tinha ido para puta que pariu muitos anos atrás e, se Chanyeol tivesse um pingo de sensatez, teria ficado bem longe de si quando tivesse inventado de voltar para a Coreia.
Chanyeol suspirou ao escutar aquela sentença cômica demais para ser verdade. Era estranho ver alguém que tinha tanta paixão pela área e pelo trabalho moscando em um sofá em pleno horário comercial. Entretanto, Park não deveria estar sequer surpreso com isso, pois conhecia muito bem o gênio forte do melhor amigo e duvidava muito que aquilo mudasse com o decorrer dos anos. Baekhyun era osso duro de roer, não importasse onde fosse trabalhar, era fato que a sua personalidade forte estaria fortemente presente.
Respirando fundo e se inclinando na cadeira de madeira da sala de estar, decidiu que deveria ir direto ao ponto, sem enrolações. Não estava acreditando que o Byun fosse aceitar prontamente a sua proposta, tinha plena noção que seria rejeitada e somente se dava ao trabalho de falar sobre por insistência da sua mãe. Quanto mais rápido fosse rejeitado, mais rápido seria para ir atrás de um real profissional para cuidar da sua filha e ponto final.
— Eu tenho uma filha de dois anos, preciso de uma babá para cuidar dela em tempo integral, pois estou trabalhando no livro da minha tese e não terei tempo o suficiente. Um salário mínimo por mês, moradia, carteira assinada, sem custo de alimentação, água e energia do meu apartamento. Só o salário e cuidar de uma criança de dois anos.
Simples, fácil, prático. Chanyeol citava como se a cuidar de um bebê fosse tão tranquilo como lavar uma louça só de copos. Baekhyun quase cuspiu o biscoito que lhe restava na boca ao escutar aquela sentença, sentiu até um pouco de baba escorrer pelos cantos dos lábios de tão surpreso que havia ficado. Como assim ele tinha uma filha? Ele havia acabado de voltar da Coreia! E queria que Baekhyun, Byun Baekhyun, jornalista Byun, o cara que xingou o prefeito em rede nacional, para cuidar da sua filha de dois anos? Que absurdo! Chanyeol não tinha um pingo de juízo naquela cabeça de bola de boliche!
— Como já dizia Jack, o estripador: vamos por partes. Você tem uma filha, certo. Você vai me deixar viver na sua casa? Uau. Mas tu tá sabendo que eu sou jornalista, né? Não um trocador de fraldas — explicou paciente, enquanto gesticulava com as mãos para ver se ele entendia.
Baekhyun tentava sintetizar em seu cérebro todas as informações que havia recebido no decorrer daqueles míseros dez minutos. Chanyeol havia retornado da Argentina, okay; ele tinha uma filha de dois anos, okay; ele o queria como babá, nada okay. Que tosquice! Até mesmo se ajeitou no sofá, batendo em suas roupas para tirar as migalhas espalhadas, endireitar seu corpo e os seus pensamentos.
— Você tem que ficar com a Flora se eu precisar sair. E, que eu saiba, você está desempregado — o Park replicou a fala da sua mãe.
Maldito desemprego que havia vindo o assolar.
Possuía uma carreira brilhante seis semanas atrás. Uma estrela do jornalismo da Coreia! Mesmo que não estivesse passando nas telinhas, o seu nome era sempre creditado nos telejornais de maior audiência da KBS, os de horário nobre! Queria realmente saber como a sua burrice havia sido testada no fatídico dia que decidiu abrir a sua boca e chamar uma figura pública de "filho de uma puta que faz pedalada fiscal e paga de bom samaritano na televisão''. Um merdinha seboso” antes de um debate importante.
Sua carreira deu um “xau, xau” assim que sofreu uma canetada do seu chefe, assinando a sua demissão por justa causa e sem chance de receber seguro desemprego. Aquela corja da politicagem, aparentemente, tinha contatos com os donos da emissora. Baekhyun deveria saber disso — inconsientemente, ele sabia —, mas foi idiota ao ponto de ameaçar sua inteira carreira e jogá-la na lama.
Se queria voltar a ser jornalista? Demais. Mas era praticamente impossível arrumar um emprego em uma emissora ou jornal impresso quando o seu nome estava “sujo” e as más línguas espalharam aquela história de boca em boca, o denominando de “jornalista boca suja” e "impossível de empregar”. Só lhe restava lamuriar no sofá da sua mãe — depois de ficar impossível bancar o seu apartamento —, enquanto assiste televisão o dia inteiro e espera um dos seus trezentos currículos enviados receberem respostas.
— Park Chanyeol, o cara que sai — desdenhou em um reflexo. Não era sua culpa Chanyeol ser tão travado no final de seu TCC. Era sim uma luta para tirá-lo de casa, mas isso estava no passado agora. Em um bem distante. — Isso aqui é temporário, você vai ver, daqui a pouco vou estar entrevistando o papa e não limpando a bunda de criança.
— Okay, não tem como te levar a sério. Não sei qual foi a da minha mãe de ter essa ideia burra de te contratar, sinceramente — Sem cabeça para continuar aquela conversa, o Park levantou-se da cadeira, indo em direção a porta de entrada barra saída.
Graças a Deus que o Byun não tinha aceito! Assim ele facilitava e muito a sua vida.
Baekhyun, então, parou para cogitar verdadeiramente aquela ideia. Estava precisando de um emprego com urgência e não aguentava mais escutar os esporros da sua mãe. Talvez não fosse tão ruim assim cuidar de uma criança de dois anos… certo?
Precisava fazer uma decisão rápida e, temendo perder a oportunidade, jogou-se de vez contra a maré. — Chanyeol... Eu aceito, mas só porque eu não quero ver você entupir a sua filha do Estatuto da Criança e do Adolescente.
— Pegue com a minha mãe o meu número e marcamos o resto — orientou antes de retirar-se da residência.
Baekhyun jogou sua cabeça para trás depois de escutar a porta principal ser fechada, deferindo-a contra o estofado duro três vezes e sentindo aquela área latejar de dor. Estava descrente que tivesse acabado de aceitar a proposta de emprego mais tosca da sua vida inteirinha: seria babá da filha do seu ex-namorado!
...
Baekhyun não estava colocando muita fé na coisa, sinceramente falando. Não que ele fosse pessimista ou algo do tipo, porém, ele sabia que qualquer coisa que fosse ocorrer entre ele e Chanyeol estava fadada a dar errado de múltiplas maneiras possíveis. Ambos juntos era como a Lei de Murphy: se algo fosse dar errado, daria da pior maneira possível. Era sempre assim.
Chanyeol e Baekhyun juntos era uma péssima ideia. E, agora, não eram mais amigos, não eram mais namorados, a única coisa que possuía conectando ambos era um vínculo empregatício. Quem tinha certeza que daria certo?
Ademais, não queria cuidar de criança, pois sequer tinha a mínima noção de como isso era feito. Sim, tinha dois sobrinhos serelepes de cinco e quatro anos, mas isso não significava que estava com eles em todos os momentos, no máximo, cuidava deles nos finais de semana para dar uma folga ao irmão.
Estava com um tremendo medo de cagar no pau. Chanyeol havia sido bem rígido na hora de lhe contratar, pediu, até mesmo, a sua (vazia) ficha criminal e lhe repassou uma enorme lista de "coisas para não fazer perto da Flora", contendo tópicos como: "não fale palavrão", "não fume", "não beba" e muitas outras mais exigências que fizeram Baekhyun quase não assinar o contrato.
Com certeza seu melhor amigo, Oh Sehun, estaria rindo de si caso soubesse da situação. Não iria relatá-lo de forma alguma, seria como dar informações de primeira mão para o seu pior inimigo e aceitar ser zoado por uma eternidade. Iria manter segredo até que isso terminasse — o que presumia ser em breve. Só precisava esperar a poeira baixar e a sua reputação manchada sumisse feito fumaça entre as fofocas entre os jornalistas e políticos.
Somente algumas fraldas sujas, Baekhyun, somente algumas fraldas.
Suspirando, saiu do elevador em passos mansos, segurando com a mão esquerda a alça de sua bolsa média entupida de roupas e, na direita, a sua gata dentro de uma malinha transportadora roxa e preta. Jamais deixaria Luna sozinha com a sua mãe! Era óbvio que traria seu neném consigo nessa loucura que estava se enfiando.
Luna era como seu filhote, seu bebe mais precioso. Tirando o fato que a adotou com Chanyeol sete anos atrás, tudo naquele gatinho preto gordo era importante para si.
Não precisou chegar no início do corredor de portas cinzas de apartamentos para se vislumbrar com a figura alta do Park plantado em frente a sua residência. O semblante sério do maior causou um pequeno calafrio na coluna do Byun, bem pequeninho… Não estava acostumado a lidar com a expressão irada do ex-amigo; os olhos lançavam adagas em sua direção, o seu cenho estava franzido, os lábios retos e, para fechar com chave de ouro, os braços longos estavam apoiados em sua cintura, apertando a área com seus dedos longos.
A cada segundo que observava Chanyeol, notava a clara mudança de personalidade (esta que contribuiu para ser mais uma coisa que o jornalista não gostava nele). Viu como não dariam certo? Pela misericórdia!
— Você está atrasado.
De fato, ele estava, mas Chanyeol precisava saber que o Byun não era muito fã de relógios e muito menos de pontualidade. Levava sua vida com uma tranquilidade (ler-se desleixo) fora do normal com um gostinho de "YOLO" — you just live once (só se vive uma vez). Não era de pensar muito antes de agir, achava perda de tempo — olhar o tempo antes de sair? Se chovesse, que chova, ele não poderia fazer nada, no final das contas. Deixava tudo correr naturalmente.
Esquadrinhando o "garoto" de cima para baixo, o Park segurou a expressão de desgosto. Ele não tinha outra roupa? Estava usando novamente aquele macacão moletom terrível. Meu Deus… era o primeiro dia de trabalho dele e já estava completamente errado! Quem já se viu uma babá usando aquelas roupas? E logo no primeiro dia! Péssima escolha ter contratado ele, Chanyeol, péssima escolha.
Baekhyun riu anasalado, claramente desacreditado que o Park estaria implicando com o seu atraso de… meia hora? Quarenta minutos? Hm, quase nada. Não dava sequer para notar que ele havia se atrasado. Quanto drama.
— E você me esperou na porta? Cara, ninguém chega nos horários hoje em dia, supera — denotou, deixando umas tapinhas marotas no ombro do mais novo (por meses).
Baekhyun era jornalista, tinha horários "flexíveis". Atuava na área de produção e, às vezes, pagava de freelancer para diversas mídias sociais — sobretudo, depois do desemprego. Ou seja, ele ficava afastado das câmeras, apenas como um caçador de entrevistas, de informações e de sugestões de pautas.
Achava-se o melhor da sua área até um politicozinho de merda estragar a sua carreira. E não foi por conta de uma CPI envolvendo o seu nome, fora simplesmente porque não conseguiu segurar sua língua contra aquele corrupto nojento. Carambolas, como ele odiava aquela corja da politicagem — mesmo que bebesse da fonte para produzir suas matérias.
— Espero que você não seja tão desleixado quando estiver cuidado da minha filha — repreendeu sem ao menos notar.
Respirando fundo — para não dar meia volta e ir embora —, o pseudo jornalista adentrou a o novo ambiente assim que o espaço fora cedido. Deu graças internamente pelo Park não ter falado nada da companheira que havia vindo de brinde consigo — também não existia motivos para tal aborrecimento, o próprio Park que havia adotado também (mesmo que tivesse-a abandonado).
O apartamento era simples demais para pertencer a Park Chanyeol. Não havia pôsteres de One Piece espalhados ou algum boneco da DC, não havia sequer o balde de pipoca edição limitada da estreia de Deadpool — que, curiosamente, foram juntos assistir e que tornou-se um item importante para o fanático dos super-heróis da DC. Tudo que conseguia ver espalhado pela sala de entrada do apartamento eram brinquedos e mais brinquedos espalhados, de ursinhos a chocalhos. Havia uma cadeira acolchoada rosa pequena repleta de desenhos azuis de elefantes ao lado de um sofá médio marrom e em frente a uma televisão Smart média — esta que reprisava algum episódio aleatório de Pororo. Totalmente uma casa sóbria de família; nada de novo.
Não tinha a menor aura de Park Chanyeol dos vinte anos em nenhum cômodo que havia visto daquele apartamento médio.
Era tão… sem graça. Monótono, sem entusiasmo, neutro; tudo que Baekhyun não gostava. Gostava da frenesi da vida, cores vibrantes. Viver.
Em um clima de velório, deixou seus sapatos na entrada, roubando uma das pantufas maiores do Park para não sujar suas meinhas vermelhas do Spideypool. Ia morar ali mesmo, que diferença fazia compartilhar ou não compartilhar os pertences? Chanyeol que se acostumasse (novamente) com o seu jeitinho “compartilhador” de ser. E, olha só, se ele estivesse em casa, nem estaria usando pantufas, estaria descalço! Apreciava solenemente o friozinho do chão contra a sola de seu pé, então, o dono da residência que o agradecesse por ser tão educado.
Aproveitou, também, para deixar a transportadora de Luna na entrada, pois a soltaria depois, quando a barra estivesse limpa. Seu bebê compreenderia que só poderia bagunçar o ambiente novo quando o dono dele estivesse fora.
O Park perambulava pela entrada do apartamento, inclinando-se vez ou outra para pegar algum brinquedo que estivesse pelo chão. Não havia se dado ao trabalho de explicar onde eram os cômodos do local, pois era bem autoexplicativo por não ser lá muito grande, apenas o suficiente para uma família de dois (mais um babá desleixado).
Céus! Ele iria morar com Baekhyun. Decerto, a vida era cheia de altos e baixos e, com certeza, esse era um dos baixos. Podia até gostar do amigo no passado, mas, com o desenvolvimento da sua personalidade, notou que a maneira que o Byun se portava não o agradava mais; aquele ar de irresponsabilidade irritava-o demais.
No início da cozinha, Flora mantinha-se sentada em sua cadeira de refeição, brincando com um carinho sobre a superfície e usando uma jardineira jeans. Observou seu pai se aproximar de si com um sorriso grande morando nos lábios e, logo, ergueu seus braços em direção ao maior, ignorando a nova presença no recinto. E,sem nenhuma objeção, Chanyeol ergueu a garota para o seu colo, sendo prontamente recebida nos braços longos do pai coruja. Mesmo que já tivesse dois aninhos, fosse já grandinha e soubesse andar e comer sozinha, gostava de pedir colo ao seu pai e receber os carinhos deste enquanto apoiava sua cabecinha contra o peito do grandão.
Droga… Baekhyun quase desmanchou-se ao observar aquela cena fofa se desenrolar bem em frente ao seus olhos. Somente naquela ocasião havia conseguido ver um sorriso tão sincero adornar os lábios do Park. Já tinha o visto antes daquela maneira tão leve, tão… ele, mas foram a tantos anos atrás que sequer se lembrava direito das nuances brilhantes dos olhos dele.
Não era de ferro. Poderia não querer uma criança para cuidar, mas as venerava quando estava na presença de uma. Era um tio babão que amava mimar seus sobrinhos que tudo que podia no mundo inteiro — quando era o tio rico, claro. Era um lascado agora, somente juntava dinheiro para comprar bons presentes em datas importantes.
Magicamente hipnotizado pelo rostinho gordinho da garota, Baekhyun aproximou-se com a sua cabeça tombada para o lado e uma expressão sapeca, como se fosse atacar aquela barriguinha fofinha com cosquinhas e dar cheirinhos no pescoço só para escutar a risadinha fofa.
— Flora, esse é o tio Baek — apresentou, porém, a garotinha só parecia querer saber do pai e da covinha fofinha que nele morava.
— Papa — a garota balbuciou, inserindo seu dedo novamente no rosto do pai grandão.
Como sempre, Chanyeol desmanchou-se com a fofura da sua menininha, deixando um cheirinho na orelha dela rapidamente. Do outro lado, Baekhyun observava tudo compenetrado.
— Tio Baek, amor… — tentou apresentar novamente, apontando em direção ao homem mais baixo à sua frente.
A garota não deu trégua, continuando a dar atenção ao rosto do pai. Assim, Chanyeol preferiu não insistir, pois ambos teriam muito tempo para se conhecer — mas esperava que não. Dava uma semana para Baekhyun entregar sua carta de demissão.
Analisando o rosto da garotinha de traços ocidentais, cabelos encaracolados e um total de zero traços de Chanyeol, o Byun viu-se curioso. Era jornalista, usualmente ficaria curioso para descobrir sobre certas coisas. Também possuía o fato que o Park estava sozinho, sem nenhuma sombra de parceiro, então como tinha tido um filho? Havia uma história ali por trás, uma bem interessante, mas que não fazia desrespeito a ele.
— Vou ser indelicado aqui, mas… filha…? — incerto, Baekhyun acabou por perguntar.
Sua língua era mais ágil do que a sua consciência.
Ao tocar naquele assunto delicado, o Park retesou seus ombros e comprimiu seus lábios em duas pequenas linhas retas. Nunca havia conversado sobre aquilo com alguém além da mãe da sua filha e os agentes sociais que acompanharam o caso… Ninguém sabia sobre, seja seus amigos argentinos e coreanos ou seus pais.
— Flora é adotada. Conheci a mãe dela em uma penitenciária na Argentina — Chanyeol sussurrava como se a criança ao seu lado fosse entender alguma daquelas palavrinhas — o que não fazia o menor sentido para a menininha que preferia dar atenção ao seu chocalho do que o falatório de seu pai — E você sabe que eu sou gay — Baekhyun riu com a afirmação. Claro que ele sabia.
O Park, ainda carregando um semblante sério, decidiu encerrar a história por ali. Preferia resumir daquela maneira para Baekhyun, assim não entraria no tópico do pesadelo que passou para ter sua filha nos braços enquanto estava na Argentina. E nem mais possuíam a intimidade de antes, por quê ele iria compartilhar algo tão pessoal seu?
Baekhyun, sem muito interesse, deu de ombros, andando pela cozinha média do apartamento e averiguando como era o seu novo cafofo. Ah, como sentia falta do seu apartamento em Gangnam… maldito prefeito que não aguentava um xingamentozinho.
Semanas antes, recebia o seu contracheque quase três vezes mais do que receberia sendo babá. Mas não podia reclamar, agora poderia juntar o dinheiro para retornar aos poucos a sua vida anterior.
Pegou uma maçã que dava bobeira em uma fruteira de plástico laranja e a levou para boca, ignorando o fato de que ela não lhe pertencia. A comida era por conta do Park, no final das contas; estava no contrato! E contrato era contrato. Toda a comida do Park também era sua.
A cozinha americana era arrumada e limpa; louça lavada; geladeira repleta de lembretes e desenhos coloridos. Fofo, mas ainda sem graça. Precisava urgentemente dar uma repaginada naquele lugar, antes que enlouquecesse por viver em um ambiente tão monótono.
— Eu coloquei tudo de importante sobre a Flora na geladeira. O horário da soneca, a dieta dela e o meu número. Se faltar alguma coisa, me liga. O plano de saúde dela está na pasta em cima da mesa se precisar ir ao hospital e eu deixei dinheiro para emergências em um envelope grudado também na geladeira. É para emergências, Baekhyun — reprisou tudo aquilo que já havia lhe passado por mensagem durante a semana que estavam fechando o contrato. — Fora isso, a Flora pode estranhar você, mas é só brincar com ela que vai ficar tudo bem. Se ela começar a chorar e não for fome ou sede ou sono, você coloca um desenho na Netflix.
Baekhyun, então, finalmente notou como Chanyeol levava a paternidade a sério. Não havia caído a ficha para si que o seu ex-melhor amigo agora era pai porque… bem, quando eram apenas universitários nunca pensaram ou conversaram sobre aquele temido tópico. Ser pai era uma tremenda responsabilidade, ia além de alimentar e limpar, era dar amor, carinho, educar sobre o certo e o errado para que, no futuro, aquele pequeno ser se torna-se uma boa pessoa. Só de pensar naquilo, o Byun se tremia por completo.
A ideia de ter filhos, além de assustadora, nunca foi algo importante na sua vida. Construir família não estava em seus planos e se achava até novo demais para ter um, mas, vendo o seu ex-namorado barra ex-melhor amigo sendo pai, modificava um pouco a sua perspectiva — não que ele quisesse um bebê agora, claro. Já tinha Luna!
— Tá, eu me viro. Tenho trinta e um anos — falou despreocupado.
Relaxa, Chanyeol, claro que o Byun ali sabia bem o que estava fazendo (ironicamente falando).
— Mas você não é pai — cortou rapidamente. — Tenho que ir. Vou estar em reunião, mas pode me ligar se acontecer qualquer coisa — explicou antes de deixar Flora na cadeirinha alta de jantar e deixar um beijo generoso em sua testa. — Tchau, meu amor. Papai já volta.
Era tarde, cerca das sete e meia da noite, iria trabalhar a essa hora?
Somente agora o Byun notou as vestes formais no corpo do Park. Uma calça preta formal e uma blusa branca social cuja Baekhyun a tempos não vestia… Sentia saudades do seu emprego, como sentia. Seus olhos até chegaram a pinicar de saudades do seu crachá de jornalista. Seu brasão do orgulho.
Apressado, Chanyeol ergueu-se sua postura e foi em busca da sua carteira e do seu celular. Iria pedir ainda um carro por aplicativo para ir à universidade rapidamente, pois tinha que chegar na reunião com o seu orientador coreano antes das oito horas.
Um carro fazia falta nessas horas. Não era rico, chegava a classe média que conseguia viver com tranquilidade com a renda que recebia — juntando a bolsa do doutorado (que estava quase acabando), as graduações e seu emprego de professor. Comprar um automóvel agora, no seco, era impossível e sinônimo de endividamento, por isso, começou a pagar um consórcio todos os meses para financiar um com tranquilidade.
Por enquanto, táxis, ônibus e o Kokoa seriam os seus melhores amigos e maiores aliados para a sua locomoção pela enorme capital.
Quando o homem alto retirou-se do apartamento, olhando para o seu celular compenetrado e nem se despedindo do “babá”, Baekhyun soltou todo o ar do seu pulmão. Não entendia como ainda ficava tenso na presença do Park… isso era um saco. Mas estava mais tranquilo somente em ter a criança e ele presente — só um pouquinho nervoso por sua inexperiência.
Inclinando-se devagar, alcançou a altura da menininha, atendo-se a ser cauteloso e passar carinhosamente seus dedos finos no cabelo cheio, mas pequeno, dela em movimentos circulares. Ela era tão fofa! Até os olhinhos ocidentais castanhos claro encantavam o Byun. Será que Chanyeol ficaria irritado se ele tirasse fotos com ela e postasse no seu Instagram? Bom, não estava nas regras implícitas e a opinião do Park não importava muito, então, de uma forma ou de outra, acabaria postando umas fotinhas de vez em quando.
O mundo precisava conhecer aquele rostinho fofo!
— Oi, cute cute, agora somos só eu e você... — Carregado uma voz fina e "fofinha", explicou para a menina. Enquanto falava, escutou o miado da sua gata ainda presa na transportadora. — ...e a Luna — Apontou em direção à entrada, fazendo questão de apresentar o outro "novo amiguinho" dela.
Se Baekhyun fosse escrever uma matéria sobre a sua vida na coluna dominical de algum jornal online ou impresso, estaria muito embananado. Seria, com toda certeza, a maior piada do século XXI: um ex-jornalista de sucesso cuidando de um bebê de dois anos que, olha só que interessantes, era filho do seu ex-namorado filha de uma boa mãe que havia quebrado o seu coração seis anos atrás! Uhul! Essa revista sim iria vender bem, viu?
Lamentavelmente, Flora engatou um choro sofrido ao ver seu pai cruzar a porta de saída do acostamento. Sem saber que medidas tomar, Baekhyun tomou a menininha em seus braços para acudi-la e, então, descobriu da pior maneira possível o que tanto a afligia: cheirinho de coco. Mas como é que se trocava uma fralda mesmo?
Se a vida é feita de escolhas, Byun Baekhyun não sabe se escolheu as certas.
