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Meteoro da Paixão

Summary:

Ser idiota era a maior missão de Park Chanyeol, a segunda era irritar o baixinho otaku da classe; Byun Baekhyun. Até aí, tudo aparentava estar em pura (des)ordem no colégio de Bucheon. Entretanto, um meteóro milenar inventa de se amostrar para a população da Terra e, encarando aquela formosura, Baekhyun faz um pedido: que Chanyeol engolisse todas as suas palavras. E não é que daria certo? Bom… engolir ele não engoliria, porém, agora as únicas coisas que os lábios de Chanyeol proferiam eram… elogios para o Byun?!

Work Text:

Detestável! Park Chanyeol era simplesmente detestável!

Tão irritante quanto propagandas do Rakuten Viki a cada dez minutos de seu dorama favorito ou baixar, sem querer, um vírus que abre milhares de páginas ao mesmo tempo em seu computador e ter que fechá-las uma por uma. Entende a profundidade deste discurso de ódio? Talvez não, não ainda. Porque Chanyeol realmente era i-rri-tan-te, um bastardo colossal cuja, aparentemente, somente Byun Baekhyun tinha a plena noção.

Dotado de uma intelectualidade acima da média dentre os alunos do terceiro ano do ensino médio e uma altura muito abaixo — estando mais para um aluno de sexto ano com seus (não tão) suficientes 1,51 —, Baekhyun orgulhava-se de não ser besta o bastante de cair no feitiço de achar Chanyeol um cara… legal, mesmo que ele tivesse tudo — sem epifania — para encaixar-se perfeitamente no padrãozinho de marmanjo popular e quebrador de corações; aquele cujo dono do primeiro amor ou crush colegial de garotinhos e garotinhas do ensino médio ao ensino fundamental dois; aquele, também, que recebe dúzias de cartões e chocolates caseiros no White Day e que, provavelmente, perderia todos os botões de seu uniforme no dia de sua formatura.

O carinha aparentava realmente perfeitinho, sabe? Park Chanyeol era alto — tão alto quanto uma geladeira Electrolux, seus quase dois metros chegava a deixar as pernas de muitos bambas! —, suas madeixas eram encaracoladas e amarronzadas, naturalmente bagunçados, brilhavam quando estavam na presença do Sol morno da manhã — o que elucidava que o rapaz não lavava, puro óleo —, seus olhos tinham cor de amêndoas e eram saltados e redondinhos — sempre cheios de colírios para não ressecar —, possuía um queixo retangular bem desenhado mordível, lábios redondinhos e finos beijáveis e uma covinha no canto da boca. Beleza era algo que nunca sentira falta.

Recorrentemente, o jovem prodígio das quadras era elogiado por sua lealdade e por sua personalidade detalhista e perfeccionista, sendo alguém digno de carregar a responsabilidade de ser o capitão do time de basquete, levando o seu time do colégio, muitas vezes, ao pódio no lugar mais alto e carregando uma bela taça de campeão. Por isto e muito mais, era o queridinho tanto do treinador, quanto do coordenador do ensino médio. Todos o amavam fervorosamente, sobretudo, o prestígio que ele, com muito esforço, trazia para toda a instituição escolar.

Perfeito, não? Não!

Chanyeol NÃO era perfeito coisa nenhuma, pelo menos, não quando azucrinava o nerd do terceiro ano B-203 por motivo algum.

Tudo bem, tudo bem, o Byun podia admitir sincero que não era a pessoa mais descolada do seu colégio, bom… estava um pouquinho longe de ser, como a distância daqui para Marte. As pessoas o creditam como um nerd esquisitíssimo, de poucas palavras por, principalmente, ser muito tímido e de notas excepcionais, por sempre estar com o rosto enfurnado em livros didáticos enquanto estava em ambiente escolar — porque quando estava em casa… era o dia no Crunchyroll. Não era detentor de uma aparência invejável (pensava). Tinha sim suas pintinhas fofinhas espalhadas pelo corpo cheinho, mas esguio, um rosto bem delineado e sem muitas espinhas, cabelos lisos de mechas tingidas de rosa claro e um sorriso cheio bem "fofo''. Era bonitinho.

Mas, mesmo sendo “esquisito”, Byun Baekhyun nunca, jamais, nem aqui e nem na Lua, tratou Park Chanyeol mal ou com um pingo de falta de respeito. Então, por que cargas d'água era O Escolhido para ser o receptáculo das brincadeirinhas sem graça dele? Desde que pisou no colégio no início do ano letivo, meses atrás, era alvo de piadinhas. Chanyeol era um pé no saco! Por isso, chegou a formular três hipóteses para tentar entender aquele perturbar gratuito:

a) Chanyeol invejava sua estupenda inteligência;

b) Chanyeol o amava muito (o que era extremamente improvável);

c) Chanyeol era um babaca.

De qualquer forma, sendo uma ou outra ou nenhuma das três, Chanyeol era um idiota metido a perfeitinho e o Byun mais ainda por nunca confronta-lo seriamente quando era foco de suas peripécias, apenas agia com acidez ou desdém. Mandava um "vai se lascar" ou simplesmente ignorava.

Era uma troca de farpas levemente hilária. Todos do colégio amavam aquelas ceninhas infantis.

Baekhyun carregava aquele estarrecimento diário tão pesado que não prestava sequer atenção em seus melhores amigos bem ao seu lado — estes que pareciam muito bem notar sua falta de vontade de estar ali. O nerd não conseguia segurar a matraca e cessar seus resmungos irritados sobre o seu pesadelo diurnal. Ah, é claro, Byun Baekhyun também pode ser dramático quando quer — ou sempre.

— Ah, Baekhyun-hyung, deixa de ser quebra clima, esquece isso, idiota. — pediu seu amigo, que já estava cansado de escutar tantas reclamações.

Tsk! O Byun cruzou seus braços finos sobre suas tetinhas, inflando as bochechas, formando um biquinho em seus lábios pouco carnudos e deixando seus óculos pretos de armação arredondada deslizarem por seu nariz empinadinho. Era um ato inconsciente, sempre acaba por fazer quando ficava irado da vida, bem infantil, decerto. Suas pernas travaram no solo arenoso e seu rosto, como um furacão, virou em direção ao moreno ousado que havia ditado aquilo para si, os olhos semicerrados e os dentes retinhos trincados.

Era muito fácil dizer “esquece isso”, muito fácil mesmo quando não era ele a ser o aborrecido da questão. A “princesinha” de Park Chanyeol — como os seus colegas de classe haviam carinhosamente o apelidado — era Baekhyun. Princesinha nunca!

— Esquecer 'pra você é fácil! Pimenta no olho dos outros é refresco! Eu ‘tô por aqui com aquele chocalho de satanás — ralhou, fechando os punhos e desvencilhando os braços, enquanto compenetrava seu olhar indignado em direção ao moreno poucos metros longe de si.

Entretanto, com o intuito de apagar aquela fúria, Lee Taemin, o segundo mais novo, desceu sua mão pequenina sobre as costas arqueadas do amigo, deixando um carinho morno naquela região e um pedido mudo para que ajeitasse sua postura e voltasse a andar ou perderiam o horário de um dos mais belos eventos da natureza. E, se caso o Byun o fizesse perder aquele show do espaço, ele mesmo mandaria aquele garoto para fora da Via Láctea com um pontapé bem fundo na sua buzanfa relativamente grande. Seu sorriso cínico e seus olhinhos pequenos esmagados por suas bochechas grandes demonstravam muito bem isso.

— Não enche o saco do Jonginnie, ele ‘tá certo. Estamos indo ver a primeira chuva de meteoros de nossas vidas! Para de ser chato e esquece o Chanyeol — pediu, ainda com paciência, carregando aquele sorrisinho presunçoso que ninguém, repito, ninguém na face da Terra, conseguiria declinar algum pedido.

Byun acabou cedendo, como sempre, e voltou a caminhar com auxílio da lanterna vermelha que surrupiou da caixa de ferramentas da sua amada mãe — que ela a perdoasse, mas era preciso.

O caminho que seguiam era bastante escuro, por mais que aquela noite fosse aluarada e as estrelas surgissem com mais força. Então precisaram, cada um, surrupiar as lanternas de seus pais.

Baekhyun não estava com humor de sair naquele início de final de semana, sua sexta-feira à noite era sagrada! Reservada especialmente para suas maratonas de animes e acabar com o estoque de porcarias na dispensa da sua casa, começando a semana com, pelo menos, dois quilos a mais na balança.

Almejava estar em casa, dentro do alento de suas cobertas com estampas de Attack on Titans, rodeado, claro, de muitos salgadinho, uma garra de dois litros de Coca-Cola, seu computador cheio de fita adesiva e seu doguinho, Saitama, ao seu lado. Havia planos melhores do que esse? Virar a madrugada inteirinha reassistindo todos os episódios de Charlotte para passar o sábado achando-se o incrível enquanto escutava sermões de sua mãe por ter passado a noite acordado? Incrível!

Mas, claro, todos sabem que a vida não é 'pra lá de perfeita. Não mesmo.

O Byun sabia muito bem também, quando era dia de maratona e estava no meio de uma floresta às margens de Bucheon enquanto praticava uma das coisas que mais odiava nesse planeta: se exercitar. Estava dando difíceis passos em direção a algum lugar mal iluminado dentro de um monte de mato e insetos desconhecidos, logo ele: o sedentário de carteirinha!

Por mais piegas e clichê que isso soasse, o “nerd” do terceiro ano detestava praticar esportes tanto quanto detestava os apelidos que recebia do capitão do time de basquete. Para si, era mil vezes preferível gastar seu precioso tempo de ócio lendo algum mangá novo ou antigo ou comendo alguma porcaria ou, sei lá; realizando qualquer tarefa que não exigisse tamanho esforço físico. Era sedentário mesmo, mas e daí? Era feliz assim, com suas voltinhas em sua cintura e coxas grossas, não sentia que possuía aptidão para esse estilo de vida “atlético”, estava mais para otaku roedor de livros de robótica avançada.

E ali estava, comicamente, muito mal acompanhado de seus melhores amigos em uma noite sagrada para si. Tudo para ver a tão famigerada chuva de meteoros que iria acontecer e que seria, teoricamente, visível a olho nu. Esperava que todo aquele esforço valesse a pena no final e que não tivesse sido ludibriado pela NASA.

— ‘Tá, tá, tanto faz… só é difícil esquecer que ele passou o dia inteirinho me chamando de Moranguinho e princesinha — comentou o Byun com uma pontinha de angústia, desfazendo sua carranca. Em contrapartida, o mais novo ao seu lado desatou a rir com aquele apelido genioso. Tinha que concordar: Chanyeol era criativo. — Não ri, corno!

O moreno alto tentava segurar sua risada escandalosa com sua mão direita e, logo, ela foi cessando aos poucos (principalmente depois de ter visto o olhar sério vindo do seu segundo hyung).

— Olhe para sua cabeça e veja quem é o corno aqui! — Jongin exautou-se, apontando em direção ao topo da cabeça do outro adolescente.

— Se vocês não calarem a boca, eu juro que empurro vocês do penhasco. Nem namoram pra ter chifres.

Sem mais delongas (antes que o Lee batesse em todos), procederam a caminhada trepida dentre a vegetação mais arbustiva. Baekhyun escorregou algumas vezes dentre o caminho enlameado que tomaram — pobre de seu All Star preto — e foi socorrido por seus amigos e, outras vezes, Taemin correu abobalhado de possíveis barulhos de insetos que afirmava de pé junto serem mortais.

Kim Jongin, o mais novo, era o único sensato da questão — ou muito pelo contrário, já que foi o primeiro fresco a negar inúmeras vezes sentar-se no chão terroso úmido da floresta e sujar sua calça jeans que já era surrada, mas, quando os lábios grossos de Taemin tremilicaram por míseros segundos, a bunda do Kim encontrava-se colada naquele maldito solo que acabaria com o resto de seus trajes. Contudo, era muito pior ter a visão do “doce” Lee em pratos. Deus o livre!

Até mesmo chegaram a apostar quem chegaria em primeiro lugar — claro que Jongin ganhou de lavada por conta de suas pernas mais longas e sua determinação (somente para zoar os amigos). Ambos os garotos teriam que, futuramente, realizar um dos pedidos perversos do Kim. Poderia ser qualquer coisa! Por isso, o mais novo decidiu pensar com cautela e os avisar-lhes em um futuro próximo.

Que eles se preparem para o pior!

Então, os três melhores amigos finalmente estavam descansando depois daquela longa e árdua caminhada, sentados despojadamente sobre o solo lixiviado e olhando estupefatos para imensidão bela que existia sobre suas cabeças. O céu e seus longos mistérios eram uma das coisas mais assustadoras e, ao mesmo tempo, calmantes que o ser humano poderia observar.

— Diante dessa magnitude toda, eu me sinto a última Coca-cola do deserto — O mais velho dentre os três pensou alto, procurando insistente as constelações que eram possíveis serem vistas a olho nu naquele hemisfério.

Será que conseguiria ver o Serpentário? Ou a de Órion? O céu estava limpo, longe da luminosidade produzida pela cidade, então, as estrelas podiam brilhar livres e serem mais facilmente observadas. Baekhyun esperava poder ver os desenhos formados por elas, como um secreto fã de astronomia (às vezes, de astrologia também).

— Tão poético, Byun… — ironizou Lee ao revirar seus olhos pesadamente. — Eu me sinto especial…

Uma brisa noturna cortou os corpos e todos os três tremeram um pouquinho, mesmo estando devidamente agasalhados com seus moletons coloridos para o fim do outono. Tremeram de frio, mas não diminuíram a empolgação, contentes de estarem tendo a oportunidade de vislumbrarem o céu tão bonito, cheio de estrelas brilhantes (vantagens de morar em uma província e não na capital).

— Mas é! Já imaginou o tanto de coisas que nos rodeia e nós somos, tipo, tudo?! Ou nada, não sei. Tipo, imagina só se tem um planeta bem longe daqui olhando 'pra gente — brincou risonho, arrancando umas risadinhas sopradas dos amigos. É, eles eram tudo ou, talvez, nada. Em um relapso, o Byun lembrou-se de algo que queria fazer naquela noite, assim que viu uma estrela cadente cortar o seu escuro. A chuva logo começaria. — Vamos fazer um pedido! — Os meninos assentiram e fecharam seus olhos, levemente esperançosos.

Era sabido por todos que aquele mero desejo tinha um total de 0% de ser atendido, mas a graça era acreditar que daria certo e que podiam sentir aquela "magia" acontecer. Afinal de contas, eram adolescentes que gostavam de crer em teorias da conspiração e sonhar acordados.

Taemin pediu para passar de ano com tranquilidade;

Jongin pediu por uma namorada legal;

Só o Byun que fora mais… específico.

— Não vai pedir para sua sei lá o que 2D vire real, pelo amor de Deus. — brincou Jongin, que nunca perdia a oportunidade de zoar o otaku (mesmo que, secretamente, ele também fosse).

— Não fala da minha Waifu!

Respirando fundo, o Byun mentalizou o seu pedido, pois já tinha plena noção do que requerer àquela estrela. Mãos unidas e pensamento focado, desejou: “Que Chanyeol engula todas as palavras de merda que ele diz a mim”.

 

-

 

Mais um dia havia começado, infelizmente, uma segunda-feira.

Em frente a porta branca e azul da sala de aula do terceiro, Baekhyun já ostentava uma expressão de receio — e nem era oito horas da manhã direito — ao encarar o espetáculo enorme que estava impedindo-lhe de adentrar a classe e esperar a primeira aula com professor de Sociologia em sua carteira. Park Chanyeol e sua beleza estupenda estava parado à sua frente, impedindo a entrada e carregando um sorriso presunçoso e uma aura divertida — como sempre.

Baekhyun poderia comentar como ele estava bonito, mas preferia ferino ficar calado. Mesmo que os cabelos castanhos médios estivessem cobrindo um pouco de seus olhos, que o sorriso sacana dele era muito charmoso, que o moletom dele vermelho sob o blazer da instituição lhe caía muito bem. Byun não vai comentar sobre isso, nem morto!

Ainda era cedo e vários alunos eram vistos espalhados sobre as carteiras conversando ou trocando olhares para o desenrolar da cena, prontos para ver qual era o apelido do dia inventado pelo capitão do time para o nerd, típicos alunos covardes.

Diferentemente dos outros dias, Baekhyun estava sem nenhuma paciência de ser chamado de princesa ou de baixinho. Estava com um tremendo mau humor por ter dormido muito pouco — culpa da sua inusitada vontade de reassistir Cavaleiros do Zodíaco no meio da madrugada. Não estava nem um pingo a fim de escutar a voz do Park ou nenhuma de suas gracinhas, era até capaz de revidar de uma mais agressiva; um belo chutão no meio das pernas.

Que ele saísse do meio, Baekhyun não tinha medo de bater! — era só preguiçoso, na maior parte do tempo. Preguiça que se resumia em não se engalfinhar com o capitão do time de basquete.

— Com licença? — pediu o Byun educadamente, esquivando-se para tentar entrar na sala e falhando miseravelmente.

Toda vez que dava um pequeno passo para um lado, o maior o seguia com astúcia, irritando-lhe de uma forma inimaginável. Por que precisava ser tão chatinho e bonitinho? Céus!

Baekhyun estava tão ocupado retraído em sua bolha de timidez e chateação, encarando seus tênis All star preto muito sujos de terra, que não chegou a notar o olhar suspeito do Park rodeando todo o seu ser, de cima para baixo.

Irônico.

— Bom dia, princesa! 'Tá bonito hoje — Soltando aquela frase fora de seu longo repertório de piadinhas, em um ímpeto, Chanyeol arregalou seus olhos já grandes. Não havia pensado em falar isso… proferiu sem querer, que estranho… era apenas um pensamento inoportuno seu, um iníquo pensamento — Seu nome deve ser mentira porque você é muito lindo ‘pra ser verdade.

Hein?! O menor levantou seu olhar veloz, entreabrindo os lábios em puro choque. Que merda?! Park Chanyeol lhe elogiando descaradamente? Baekhyun estava acordado mesmo ou será mais uma criação maléfica de seu subconsciente enquanto dormia? Provável. Deveria ser brincadeira, só poderia ser.

Parabéns Chanyeol, você é um idiota de nível 2. Está subindo na escala.

As pernas do Byun ficaram levemente bambas quando suas orbes castanhas entraram no encarar penetrante do maior, ele quase estabacou-se no piso de cerâmica do colégio. Seu estômago deu uma tremenda cambalhota e seu coração quase saiu pela boca de tão forte que retumbou em seu peito. Não era todo dia que recebia um elogio e muito menos um moleque muito bonito que lhe enchia o saco de vez em quando. Era um elogio, né?

Okay, ele não estava preparado para isso. Como ele deveria responder? Um chutão? Um "vai se lascar"? Ficava difícil seguir o script das briguinhas infantis de ambos quando o roteiro começava a ficar… tenso.

Não era para levar aquele elogio a sério, até porque, ele não deveria ser. Chanyeol apenas deveria estar brincando com sua cara com suas frases irônicas. O Byun havia se olhado no espelho essa manhã e tinha noção que carregava uma expressão cansada e um arroxeado ao redor dos olhos por suas poucas horas de sono. Decerto, o maior deveria estar salientando o quão merda sua cara deveria estar em dado momento. De qualquer forma, não deixava de ser desconcertante escutar ele o elogiar daquela forma.

— Hm, sei. Posso entrar agora? — proferiu carregado de desinteresse.

Envergonhado, o esportista passou sua mão direita sobre o pescoço. Recomponha-se homem. Cadê a sua aura prepotente? Onde estão suas famosas frases irritantes?!

— Não sou manteiga de cacau, mas adoraria amaciar seus lábios. — tentou soltar mais uma de suas brincadeirinhas que, furtivamente, deu errado. Como "como está o clima aí embaixo" virou uma cantada enfadonha?!

Ponderando em responder-lhes, Baekhyun dera um passo para trás, voltando-se a pensar sobre os acontecimentos da noite de sexta-feira passada. Mas será…? Não… Pedidos bobocas feitos à meteoros não eram realizados, certo? Okay, havia algo muito errado em Park Chanyeol, porque não era possível ele estar em plenas faculdades mentais proferindo aquelas sentenças para si.

Park não demorou a dar as costas ao Byun e seguir em passos largos para sua cadeira, em sua face gritava uma expressão de desentendimento. Que merda! O que estava acontecendo...? Por que estava cantando o Byun? Desgraça, como podia deixar essas frases saírem tão despudoradamente?! Chanyeol passou seus dedos longos sobre os cabelos encaracolados rapidamente, espichando as mechas já bagunçadas.

“Enlouqueci?” deduziu ao sentar-se em sua carteira, virando a face em direção ao seu melhor amigo, Oh Sehun — que tinha grande confiança depositada —, tomando proximidade e cochichando em seu ouvido um pedido enfadonho mas necessário. Ele não abriria mais a boca até compreender o que estava acontecendo, ademais, estaria vomitando sentenças estranhas para o Byun e não suas brincadeirinhas infantis.

Tinha algo errado. Comeu algo diferente pela manhã?

Após maquinar inúmeras hipóteses para justificar o novo comportamento do Park, Baekhyun saiu, finalmente, da frente da classe e caminhou em direção ao fundo da sala, especificamente o lugar onde o líder do time de basquete sentava. Sua mente estava presa na lembrança da sexta-feira e em seu pedido durante a chuva de meteoros e, se fosse realmente aquilo, por que então Chanyeol estava lhe cantando e não calado? Suspeito…

Em frente a mesa amarronzada do maior, o dito nerd apertou a alça de sua bolsa mais forte, ponderando em ditar algo, pois ainda possuía muito medo da aura prepotente que aquele orelhudo exprimia e Baekhyun continuava sendo sedentário para entrar em uma briga, com meteoro ou sem meteoro — será que deveria ter pedido super força?

Bom, não deveria temer, havia de tirar suas conclusões sobre as cantadinhas e os elogios que recebeu logo de manhãzinha, porém, antes de entreabrir seus lábios, teve uma voz um pouco grossa e arranhada de um dos membros do time de basquete chegando aos seus ouvidos atentos.

— Chanyeol ‘tá fazendo voto de silêncio, ele não sabe que brisa deu nele agora, ‘tá ligado? — Então, a fala de Oh Sehun havia sido a comprovação que precisava.

Chanyeol não sabia o que estava dizendo, ou seja, o seu pedido havia repercutido em um mirabolante (e muito estranho) feitiço! Obrigado, Deus dos meteoros e dos desejos! Um sorriso brilhante sambou nos lábios do Byun explodindo em ganância, era agora que teria sua vingança suja contra Park, iria sim zoar ele em frente a classe inteira, o que ele podia fazer contra? Dizer como estava bonito? Baekhyun pagaria para ver aquele rostinho bonitinho avançar sobre si (até porque o Byun sabe correr, pernas para que te quero, e uma surra não levaria).

Deboche resumia a expressão que tomou a face do baixinho, suas mãos agora espalmadas sobre a mesa de madeira, tendo suas costas arqueadas para ficar bem próximo do rosto emburrado e receoso do Park. Conseguia ver com clareza cada detalhe daquela face bonita, até mesmo o leve rubor que dispersou-se pelas bochechas altas e pelas sobrancelhas grandes. Poderia sim distrair-se facilmente com aquela bela imagem, entretanto, sua nova missão adotada era de mais importância: irritar Chanyeol. Havia que deleitar-se muito bem com a oportunidade que recebera dos cosmos.

— Olha só quem é o maioral agora? Diz vai! — pediu o menor em um tom alto. Assim, chamaria a atenção da classe rapidamente. — Park Chanyeol é um idiota, idiota, idiota, lá, lá, lá… — cantarolou divertido.

Vingança era um prato que se comia frio!

Em negação, Park cruzou seus braços longos feroz e cerrou seus olhos. Não, Chanyeol, você não pode cair na ladainha do Byun. Tudo bem ele está super infantil — ler-se fofinho — saltitando ao seu redor com um sorriso sapeca brilhante, não lhe dê atenção! Não podia abrir a boca, pois algo dentro de si avisava-lhe que, caso deixasse palavras rolar, acabaria lhe delatando; pronunciaria com todas as vogais e consoantes que ele estava insuportavelmente lhe irritando de formas diferentes, que inferno. Um gostinho amargo subiu vagarosamente por sua garganta ao temer que a sua "princesinha" descobrisse algo que ele, com certeza, não deveria saber. Não somente o Byun, mas como todos do colégio. Não podia deixar isso acontecer.

Chanyeol escondia muito sendo "ele mesmo".

— Você é tão- — Chanyeol não completou a frase, tomando um grande inspirar e cerrando os olhos. Ele não iria cair nas implicações do cotoquinho. Ele não podia.

As pontas dos lábios do Byun elevaram-se ainda mais, chegando a esboçar algo maníaco.

— Tão o que? Não vai dizer? Olha só que galinha… só falta cacarejar! — incentivou o de madeixas rosas.

Mas olhar toda aquela ceninha, que deveria ser divertida, não estava agradando o amigo do capitão que estava sentado próximo a briguinha. Sehun, carregado de sua aura séria e uma expressão plácida, ergueu sua destra em frente ao Byun, sem levantar-se da cadeira de madeira.

— Chega, cara. ‘Vamo ‘rapa fora antes que o Chanyeol levante dessa cadeira e te dê uma voadora — Sehun interviu em um tom brincalhão e um sorriso amistoso.

Na maioria do tempo — leia-se, quando não estava rindo das provocações do Park com o Byun —, Oh Sehun era uma pessoa legal. Era a carne da unha de Chanyeol, ou seja, viviam grudados andando para todos os lados daquela instituição. Não se via um sem o outro. Também era um membro do time de basquete, que possuía carteirinha de hétero top, porém, era um dos mais calados e silenciosos — somente esboçava alguma reação quando estava com o Park. Baekhyun nunca o viu zoar alguém ou algo do tipo, então o Byun presumia que ele era um cara legal — menos na parte de ser amigo do capitão do time de basquete.

— Ele? Por favor... — desfiou, estreitando seus olhos e a pontinha dos lábios em um sorriso debochado.

— Cala a boca, perfeitinho.

Baekhyun saltitou mais uma vez. Obrigado, meteoro! Estava tão animado que deixou para lá a busca por explicações para os elogios ou de ficar tímido como sempre ficava.

— Eu sei que sou perfeito, e o que mais? — pediu para continuar, sabendo que sairia algo interessante dali.

— Eu sei que as coisas não estão fáceis ‘pra você, mas eu ‘tô — Chanyeol queria ter dito “Queria esmurrar esse seu sorrisinho de merda”, mas simplesmente não conseguia. As palavras estavam saindo de sua boca todas erradas! Mas que carambas!

— Esse é o ponto alto da minha vida! Dias de glória, né pai? — comemorou o Byun sorridente, saltitando em volta da carteira do Park antes que tivesse que dar um tempo em sua brincadeirinha — Mas saiba que minha boquinha você não terá nunca!

A porta da classe foi arrastada para a esquerda lentamente, ecoando um som arranhado dentre as quatro paredes e assustando todos os alunos presentes que, antes, estavam hipnotizados pela cena Park-Byun que desenrolava-se. O professor de Sociologia atravessou a porta com a lentidão de sempre, dando tempo suficiente para todos os alunos apressados sentarem-se em suas carteiras em uma postura ereta e pudessem dar início a mais um dia letivo.

Mas, óbvio, Baekhyun retornaria a seus deboches quando o sino avisasse sobre a troca de aulas. Tinha que agarrar as oportunidades que a vida dá, certo?

 

-

 

Pois é, o nerd da turma aproveitou as seis aulas da manhã como nunca antes! Bendito seja aquele feitiço! Seu pedido havia valido a pena.

Ele podia ter pedido para sonhar com os números da loteria, pedir para ter um estoque eterno de Choco Pie ou um ticket vitalício de serviços de streaming gratuitos, mas estava feliz com o seu desejo realizado, ele achava. Era bom até demais.

Entretanto… bem… Quando o intervalo para almoço fora avisado pelo coordenador de salas, o capitão do time de basquete evaporou da vista do Byun e aquela brincadeira estava aos poucos perdendo a graça, pois, por mais que Baekhyun corresse à procura de seu alvo, não encontrava a imagem de Chanyeol pelo colégio — parecia que o Byun utilizava algum repelente do rapaz, e um bem forte. Havia procurado nos banheiros masculinos do fundamental e do ensino médio, pelo pátio da cantina, entre as salas de aula do terceiro ano e no ginásio, entretanto, não encontrou nada, nem rastros de Park Chanyeol. Meia hora de seu almoço gasto por ter procurado incansavelmente aquele garoto, poderia ter entrado na fila da merenda mais cedo, mas preferiu procurar aquele poste, no final das contas, não o achando para poder zoar mais um pouquinho.

E, claro, escutar mais algumas cantadas legais.

Somente desistiu de sua caçada mesmo quando olhou para seu relógio de pulso e notou que só teria mais dez minutos para comer, por isso correu uma maratona por dentro dos corredores da instituição educacional para chegar a tempo de pegar algo que preste na cantina. Ah, Park pagaria se não tivesse mais bolinhos de chocolate e seu café com leite gelado!

Nos últimos minutos do segundo tempo, Baekhyun havia conseguido passar pela fila e pegar sua comida, não pensando duas vezes antes de sentar-se na mesa onde estavam seus dois melhores amigos do terceiro e do primeiro ano. Seus lábios estavam molhados de tanto que salivou ao encarar seu sanduíche, estava com tanta fome! Todavia, antes de abocanhar seu lanche, uma mão morena chamou-lhe atenção, tocando seus ombros. Jongin pediu mudo para que ele olhasse para a mesa mais afastada, bem a do fundão. Não entendeu de início, até ajeitar seus óculos levemente caídos melhor em sua face e forçar a vista.

Chanyeol estava ali! Bem ali, escondidinho dentre os colegas de time na mesa dos atletas. Ah, sabichão! Claro que Baekhyun não o conseguiria encontrar no meio de tantos gigantes.

— Vai lá irritar o capitãozinho, cadelinha — inferiu Jongin, fazendo gestos com a mão esquerda para que ele sumisse dali.

Ele até poderia, mas… não estava realmente interessado. Ver o Park tão escondido e temendo a si havia deixado seu estômago agitado, não de uma forma boa, não era legal ver alguém com medo, por mais que fosse engraçado e fofinho ver o orelhudo com raivinha de si e se segurando para não abrir a boca. Não conseguia compreender, de fato, qual era a diversão naquilo, o que Chanyeol via de tão legal em lhe atazanar feito um palhaço? Não sabia.

— Não 'tô mais afim — Ao soltar aquela frase, os dois outros garotos na mesa arregalaram os olhos em outro choque. Sério mesmo?

— Byun Baekhyun não está afim de ir fazer vingancinha idiota com Park babaca Chanyeol? Estamos realmente na realidade ou caímos em uma matriz? — desdenhou o Kim de braços cruzados.

— Fecha a matraca, montador de lego infantil!

— Você que feche esse bueiro de esgoto que você chama de boca, cosplay de Sakura.

Em mais uma briga deveras infantil entre o Kim e o Byun, Taemin interviu, mas somente porque estava realmente curioso. Decerto, não fazia sentido o Byun não almejar correr até o Park e tirar sarro de sua cara em frente ao colégio inteiro. O Lee conhecia Baekhyun muito bem para saber que era exatamente o que ele deveria estar fazendo nesse exato momento, ao invés de estar lamuriando que NÃO queria irritar o capitão do time.

Muito suspeito.

E nem mesmo o próprio Byun conseguia compreender o que era aquela massa pesada peculiar que remexia-se em seu peito. Era uma doença?

— Por que não quer ir lá? — perguntou Lee, variando seu olhar entre o Byun e o comilão roubador de lanches Kim Jongin.

O de madeixas rosas remexeu seu sanduíche ainda intacto, não muito incomodado com os olhares atentos dos amigos, e sim, com seu comportamento.

— Sei lá… Chanyeol me diz coisas estranhas, sabe? Coisas legais, mas estranhas e não quero ficar zoando ele… é um problemão, ‘tá ligado? Porque eu até gosto quando ele fala algo maneiro… e me sinto mal por zoar. Sei lá, 'tô estranho — tentou explicar, seus olhos perdidos pelo seu almoço.

Poxa, estava com tanta fome alguns minutos atrás, agora nem sabia o que queria.

Jongin e Taemin trocaram um olhar cúmplice, em uma conversa muda sobre os papinhos que ambos tinham quando o mais velho dentre os três não estava presente. Será que a hipótese formulada por ambos estava correta?

Bom, há muitas hipóteses corretas nessa história.

— E você gosta dele? Digo, queria pegar ele? — O segundo mais velho continuou com seu questionário, sob o olhar atento do Kim.

“Talvez” pensou o rosado, mas não quis admitir em voz alta. Ele realmente pensou "talvez"? Algo de errado não está certo.

— Essa não é a questão, Tae. — Mudou o rumo de seus pensamentos, empurrando completamente seu sanduíche para longe. Não estava com fome, estava confuso.

— Sei não… dizem que ódio e amor andam de mãos dadas… — comentou o Kim como se não quisesse nada e, ainda com uma aura meio perdida, puxando o sanduíche do amigo para si.

Se ele não queria, há quem queira.

— Vai te catar — xingou o Byun.

Iria ter um surto se seus amigos começassem aquele papo imbecil de amor blá blá blá ódio blá blá blá se amam blá blá blá.

Tudo começou por um ato impulsivo seu. Ao perceber que Chanyeol estava diferente, seu primeiro pensamento foi zoar ele, mas, depois de um tempo, viu que aquelas suas ações não eram tão legais assim. Sinceramente, queria se desculpar por ter causado constrangimento ao Park, mesmo que ele fosse, muitas vezes, o culpado por isso. Ele também implicava com ele, mas não era certo pagar na mesma moeda.

Respirando fundo, o Byun caminhou em direção a mesa dos atletas que, normalmente, passaria longe. Que loucura de dia, estava indo em direção, por querer, a Park Chanyeol. Nunca pensou que se envolveria tanto com uma pessoa daquela natureza. Não o entenda não, só possuía uma ideia meio ruinzinha em relação aos "populares".

Seus amigos o observaram de longe, assim como todos do refeitório que pararam de comer seus almoços. Qual seria a da vez? Chanyeol iria revidar?

O capitão do time de basquete estava mastigando seu almoço tranquilo, não havia visto sombra do Byun — também, havia fugido loucamente daquele baixinho. Estava, teoricamente, seguro dentre aquela muralha de pessoas girantes do time de basquete, era safe.

— Chanyeol… — Chanyeol assustou-se ao ter seu nome chamado pela àquela voz que tanto conhecia. Droga, o achou.

— Me deixa em paz, Byun. — pediu ríspido, sem nem ao menos encarar a face do garoto.

Só queria comer em paz!

— Agora ‘tá irritadinho? Eu não vim aqui te provocar, vim mesmo me desculpar e perguntar o porquê de gostar tanto de me irritar. Você ‘tá sentindo na pele o que eu passo diariamente por conta de você, seu imbecil. 'Te manca!

— Porque eu gosto de você, tá feliz?! Você fica tão fofinho com aquelas bochechinhas cheinhas que, aght! Eu quero apertar. E quando eu falo da sua altura, é só pra brincar, porque você tem uma altura perfeita! Deve ser ótimo dar um abraço e ficar agarradinho. Seu cabelo também é muito lindo, parece uma princesa e combina com suas bochechas quando fica envergonhado — Park, irritado, soltou tudo que guardava secretamente; cada pensamento. Estava cansado de simplesmente se segurar por toda aquela manhã. Que se dane as aparências, iria dizer. Não sabia o que estava acontecendo consigo, então iria seguir e ceder as duas vontades. — Eu sei que você gosta de anime também e, olha só, eu também gosto! Ficaríamos a tarde inteirinha assistindo e tomando Coca-Cola. Depois eu te levaria para casa de mãos dadas e-

Por alguns milésimos de segundo, o colégio inteiro aparentou parar ao escutar aquela declaração. O mundo parou. Havia mesmo escutado aquela esdrúxula declaração no meio do refeitório provinda do popularzinho capitão? Baekhyun não conseguia acreditar, nem mesmo piscando freneticamente para comprovar que aquilo era de fato real. Seu corpo pequeno estava paralisado, todos os membros. Puts grila!

As orelhas do Park estavam vermelhas como morangos maduros e as mais, que agora estavam esteiras em direção ao Byun, tremiam fervorosas. Estava nitidamente nervoso, mas aliviado por ter dito aquilo.

— E eu super apoio um tal de casal… eu e você, sabe? — completou, por fim.

— O-o que?! — Baekhyun se viu perdidinho da Silva.

Carambolas!

— Eu gosto de você, Byun Baekhyun. Por favor, saia comigo e seja a Bulma do meu Vegeta! Vamos fazer vários cosplays de Boku No Hero Academia. Deixo até você mexer nos meus figuarts de One Piece e no meu travesseiro de Waifu.

Não?! Sim?! Sair…? O que ele deveria dizer? A pressão do Byun foi ao chão (e quase ele também).

— O-okay? Eu… nossa, nem sei se gosto de você, mas ‘tamo aí nos trabalhos, né? — tentou dizer algo todo embolado. Cara, que situação. — Q-quem é s-sua waifu…? — o garoto embolou-se mais uma vez, procurando a sua dicção.

Os dedos grossos e longos do Park rumaram ávidos para o queixo do menor, tocando-lhe com pressa e puxando a face para mais próximo de si, tão perto que pôde roçar seus lábios redondinhos com os bem desenhados do Byun.

— Agora você é minha Waifu — respondeu, deixando um selinho demorado nos lábios do Byun perdido.

Roubou. Um. Selinho.

Céus! Baekhyun não conseguia acreditar nem que se beliscasse. Que loucura! E, pelos movimentos que o Park estava a realizar, iria ter outro. Outro s-e-l-i-n-h-o.

Somente cessaram o contato quando o inspetor do refeitório deu início a seus praguejos de dar nos nervos, avisando que àquela instituição não era um cabaré, e sim, um lugar de respeito.

Pouco Baekhyun sabia que aquele meteoro não realizava feitiços “da paixão” e muito menos fez o Park apaixonar-se por si. Como o Byun havia requisitado: Chanyeol engoliu suas palavras de merda e somente restou-lhe as verdadeiras; elogios e cantadas para Byun Baekhyun.

-

Quando Park Chanyeol declarou-se para Byun Baekhyun, todo o universo congelou, parando para perguntar: é sério isso? Não era uma piada? Seria todo dia primeiro de abril? Bom, certamente não era uma brincadeira, não é? Bom, Baekhyun — a peça principal — não sabia responder exatamente essa incógnita — igual a todos os x’s das questões de álgebra 2 naquela bendita prova.

Por conta de um certo jogador de basquete, sua última semana havia sido confusa e desgastante. Desconcentrava-se facilmente de seus estudos, não possuía vontade alguma de assistir seus animes recém lançados e de ir tomar sorvete na vendinha na esquina de sua casa com os seus amigos. Veja bem, se Baekhyun não estava almejando tomar seu precioso sorvetinho favorito de chocolate com morango e pedaços de biscoito, algo estava muitíssimo errado na questão. E essa falha cósmica, claro, era uma completa culpa do orelhudinho cuja altura era, inacreditável, grande.

Após o beijo, o otaku baixinho ficou detonado. Realmente, não sabia se poderia levar aquilo a sério, poderia com facilidade afirmar ferrenho que deveria ser apenas um dos joguinhos sem graça arquitetados pelo clube de basquete. Eles tinham perfil de que eram bem encrenqueiros e insuportáveis. Todavia, o Byun nunca fora alguém que expunha sua sexualidade para os outros, muito menos para os seus colegas de classe.

Sim, ele era gay. Dois anos antes, quando apenas possuía dezessete primaveras completas, descobriu que a atraía-se mais pelo Kuroo do que pela Shimizu em Haikyuu e shippava loucamente seu otp da vida: Kageyama e Hinata. Obviamente, isto lhe gerou certas desconfianças… mas tudo foi esclarecido quando deu seu primeiro selinho em um cara parcialmente mascarado em um dos eventos anuais de otakus — Nisekoi Festival.

Se lembrava como ontem como foi ser tocado pela primeira vez nos lábios por um rapaz trajando um cosplay de Tuxedo Mask de Sailor Moon e segurando uma plaquinha de “um beijo por uma rosa”. No final, Baekhyun ganhou mais do que uma rosa de plástico e um beijo, havia levado consigo, também, a descoberta de gostar de dar bitoquinhas em homens.

Sua mãe havia sido a primeira a ficar sabendo da novidade — até porque, Baekhyun sempre lhe confidenciou tudo — e, por um tempo, acreditou fielmente que era sua culpa o seu filho ser daquela forma, já que, por ser mãe solteira, não deu “exemplos de homem” para ele. Porém, com o passar dos meses, a senhora aprendeu que Baekhyun era assim por ser ele mesmo e o apoiou, nem mesmo implicava com os pôsteres de Love Stage ou Bananafish na parede do quarto do adolescente, achava engraçadinho.

Agora, todo o colégio tinha pleno conhecimento de seus gostos, tudo por conta de Chanyeol. Havia estampado em sua cara “gosto de homens” após retribuir veemente o beijo do garoto alto — e que beijo! Um selinho muito memorável. Sinceramente, não sabia mais com o que deveria se preocupar; com a prova que deveria estudar; com o pedido de Chanyeol; com o beijo que havia ganho ou com o colégio inteiro fofocando sobre a sua vida privada. Era confuso e estressante.

Temia ser alvo de zombarias muito mais pesadas do que as brincadeirinhas de Chanyeol. Era assustador viver em uma sociedade onde tinha medo de expressar-se e causar um incêndio de preconceito. Além disso, envolveria seus amigos naquela bendita confusão. Não sabia o que fazer! Havia conversado com a sua progenitora na noite do fatídico dia em que tudo começou a desandar em sua vida e ela, complacente, disse que apoiaria qualquer ideia que o garoto tivesse — claro, se não fossem muito esdrúxulas. O de cabelos rosas pensou até em mudar de colégio, mas seria muito difícil para si despertar cedo para embarcar em dois ônibus subsequentes, decerto, inviável. Droga, Chanyeol!

Por que ele tinha que entrar em sua vida logo agora?! Faltavam meses para terminar a merda do colégio infernal em paz, era apenas o invisível — que também era princesinha do líder do time de basquete. Grande coisa. Com certeza era melhor do que ser a nova fofoca de todo o colégio, manchete principal: o beijo de cinema que Chanyeol deu em Baekhyun — muito aumentado.

Acesse mais para chanbaek fatos.

Ficou tão desconcertado que sequer estudou corretamente para a prova e, enquanto a fazia naquele péssimo dia de quinta-feira, sabia que levaria uma bela de uma bomba. Havia rodado feio na prova de Álgebra 2. Geometria espacial havia entrado por seu ouvido e saído pelo outro, porque não estava entendendo coisíssima nenhuma daquelas questões de cilindros e pirâmides, não fazia o menor sentido — além das suas lágrimas de desespero. Acabou entregando a prova em branco, apenas com seis rabiscos pedindo desculpa e vestígios de lágrimas. Estava ferrado.

Lascado.

Frustrado.

Tomando no meio do furacão.

Quando saiu porta afora da sala de aula, pôde respirar fundo e tentar colocar seu pensamento no lugar. Tudo bem, seu lugar no ranking do colégio iria cair, assim como ficaria em recuperação em Álgebra 2, não tinha muito o que fazer e não poderia agora se martirizar. Precisava dar um fim naquilo tudo antes que seu boletim inteiro estivesse vermelho e ele a beira da reprovação.

Para irritar-lhes mais, os corredores brancos e longos da instituição estavam repletos de estudantes perambulando de um lado para o outro após saírem do teste. Eram tantos fardados que Baekhyun, por ser tão baixinho, perdia-se com facilidade dentre a multidão alvoroçada. Mais do que nunca, o jovem almejava furar aquela barreira de alunos para alcançar os portões da saída do colégio, onde ele facilmente encontraria o grupinho do time de basquete — aka, o bando de Chanyeol. Todavia, a cada passo que dava nas cerâmicas marrons, seu constrangimento se elevava.

Cada movimento seu aparentava estar sendo vigiado e comentado por alguns adolescentes. Sua vida nunca havia sido tão exposta. Que merda Chanyeol havia feito com a sua vida, sinceramente… tinha que inventar de falar aquelas coisas no meio do refeitório? Assim, de graça? Francamente, que cringe.

Tentando ignorar furtivamente os olhares vigilantes, o garoto caminhou até a saída, esbarrando em muitas pessoas pelo percurso. Só queria sair dali, droga.

O Byun agradeceu aos céus fervorosamente quando pôde sentir o ricochetear de uma fraca brisa ao sair do prédio da instituição. Ainda havia diversas pessoas lhe encarando, mas fez-se de desentendido e seguiu em direção ao jardim bem arborizado, repleto de mesas de cimento feita para os alunos descansarem — se seu conhecimento sobre a falsa hierarquia daquele colégio estava certo e de como separava-se as tribos urbanas, o capitão do líder de basquete estaria sentado na mesa sob uma das maiores árvores de cerejeira, comendo besteiras e rindo alto. Normalmente, eles descansavam ali após a aula para seguirem para o ginásio treinar o período da tarde e da noite inteirinha.

Bom, certo ele estava. E sequer precisou de muito esforço para encontrar aquele rapaz de altura estupenda e sorriso de mostrar todos os dentes. Chanyeol estava papeando com seus colegas de time como se nada tivesse ocorrido, tudo seguindo de vento em popa. Como ele conseguia? Baekhyun já estava cheio dos olhares, dos comentários sobre sua sexualidade e Chanyeol estava ali, tranquilo e sorridente, como se nada daquilo, nenhum dos comentários negativos que eram direcionados para si, o afetasse.

Ao olhar aquela cena, o Byun ponderou em jogar umas boas verdades na cara do indigente e procurar saber a verdade por trás da declaração. Tinha alguma coisa errada, não era possível. Sem perceber, múltiplas dúvidas preencheram sua cabeça e a coragem esvaindo-se rapidamente.

O dia anterior havia sido um surto coletivo? Ou… um sonho/pesadelo seu…? Porque, bem, certamente, não poderia ter sido algo real. Deveria tudo ser culpa daquele meteoro amostrado e seu desejo imbecil. Estava pagando com a língua seus dizeres e seu “feitiço” lançado em Chanyeol já, aparentemente, havia o deixado. Depois do pedido, o capitão do time não havia mais lhe dirigido a palavra.

Por.

Uma.

Semana.

Se bem que não sabia se realmente acreditava naquele tal de feitiço da paixão provinda daquele pedido. Tudo bem que foi estranho — muito estranho — a sessão de elogios proferidos do Park e como ele havia subitamente declarado-se de uma forma tão fofa para si — vergonhoso, mas fofo. Faria total sentido ter sido um mero desafio feito ao líder por um amigo, quem não queria zoar com o esquisitinho? Jovens são estranhos e inconsequentes algumas vezes, provavelmente, não sabiam quão os sentimentos dos outros são preciosos.

Não era como se Baekhyun tivesse ficado interessado também. Não mesmo! Ele estava muito bem, bem mesmo! De Chanyeol, somente queria distância.

Frustrado, levou sua destra até os cabelos róseos e os bagunçou, à procura de esfriar sua cabeça e tentar esquecer de todos aqueles pensamentos esquisitos. Além disso, deveria parar de ficar cutucando aquela história mesmo, sua vingancinha já havia terminado e precisava estudar para não reprovar em Álgebra 2.

— Me sinto num episódio de Love Stage. — resmungou para si mesmo.

-

Mesmo possuindo um jeitinho de estudante exemplar e notas acima da média, Baekhyun não era muito fã de livros didáticos — fórmulas estruturais de Química Orgânica não o agradavam nem um pouco. Principalmente, quando havia de estudar em seu tempo livre — deveria mesmo era ler seus mangás e assistir seus animes — ou entrar em um fórum para discutir quem era o personagem mais overpowering. Porém, para o seu azar supremo, tinha o dever de estudar Álgebra e Química Orgânica para não rodar mais ainda e, também, tinha que ocupar sua cabeça para não ficar pensando em merda — muita merda; Chanyeol e o meteoro.

Poxa, era só um adolescente descobrindo esse universo de namoros e beijar na boca, era comum que senti-se eufórico e acabasse perdendo seu foco, mas, ao mesmo tempo, não podia.

Chanyeol não podia deixá-lo eufórico e ansioso.

A temerosa semana de provas estava chegando ao seu fim naquela sexta-feira. Foi uma longa caminhada de revisões e de noites de poucas horas de sono e muito estudo.

Estudar 14 horas por dia em um país que valoriza bastante a educação era uma tarefa um tanto complicada. Sua mãe não o pressionava — não diretamente —, mas o sistema competitivo de notas e os seus professores — que implicam com o aumento de suas notas para manter o ranking — não facilitam a vida do Byun.

O ditado popular dos professores sempre chegava aos seus ouvidos: "Se você dormir três horas por noite, você pode entrar em uma das melhores universidades SKY". Ou seja, estude sempre e mais para manter o prestígio da instituição e, poxa, o Byun só poderia assentir calado — mesmo que ainda não tivesse a mínima ideia do que fosse cursar no ensino superior e que já estivesse completando seus dezenove anos.

Depois de desistir vergonhosamente de conversar com Park, o estudante ferrado se exilou por debaixo da arquibancada do ginásio do colégio. Seus dois melhores amigos não deveriam fazer a mínima ideia de onde ele estava, deveriam pensar que ele havia corrido para casa, bem no centro da sua cama — exatamente como queria estar. Então, o rosado teria um pouquinho de sossego naquele lugar para tentar entender como que calculava o apótema de uma pirâmide quadrangular reta. Como era tão bom em robótica e tão ruim em matemática? Bom, ele havia estudado para prova direitinho, ele sabia as fórmulas… só não lembrou de nada na hora da prova. Aquele maldito nervosismo o atrapalhou e esqueceu de tudo feito mágica. Tudo culpa de Chanyeol! Simplesmente o estudante não conseguia mais focar em nada, tudo o levava a lembrar daquele maldito beijo estupido.

Beijo estupido! Chanyeol estupido! Álgebra estupida! Não aguentava mais.

Encontrava-se sentado no chão de cerâmica, ao seu redor estavam diversos livros e cadernos de resumos espalhados, cada um sendo minuciosamente averiguado antes de realizar os cálculos. Era fanático por resumos, pois sempre o ajudavam muito na hora de revisar o conteúdo e treinar as suas técnicas de letring com suas canetinhas coloridas. A baixa luminosidade no local e o silêncio contribuem muito para os seus estudos — felizmente, havia ido ao local em um ótimo horário, quando todos os alunos já haviam se escafedido para suas residências.

O garoto estava tão concentrado que sequer notou uma nova presença bem atrás de si, alguém estupidamente alto e sorrateiro — quando queria, porque quando não… era pior que a sirene da polícia.

Bem caladinho, o capitão do time de basquete colocou ambas as mãos grandes sobre os olhos do Byun, fazendo-o gritar assustado.

Que mulesta dos cachorros doidos era aquela?

Baekhyun saltou gritando, machucando sua pobre bundinha naquele chão duro e Chanyeol não aguentou; rio alto, batendo palma da cara assustada do mais baixo. Hilária. — Cara, sua cara foi de lascar! — desdenhou ainda rindo fraco e limpando as lágrimas no canto dos olhos grandes.

Com a maior cara de tacho, o Byun grunhiu, buscando um de seus cadernos mais grossos e começando a bater no maior. Bem feito, e que doesse. O caderno de capa azul era fielmente utilizado para bater na cabeça e no braço o Park com muita força, mas o agredido somente conseguia rir mais e mais.

— P-para, seu… — levou mais uma cadernada no topo da cabeça — merda!

Mas Baekhyun não deu a mínima para os praguejos.

— Você — bateu mais uma vez — que é! Quer me matar do coração?!

Finalmente parando de bater, o Byun respirou fundo, ofegante. Nossa, gastou muita energia para bater naquele desgraçado, precisava de um copo de Coca-Cola. E o mais revoltante era que, aparentemente, suas cadernadas não haviam surtido nenhum efeito, o mais alto somente rio. Inferno.

Na próxima vez, traria seu travesseiro de Waifu cheio de pedras dentro! Tinha que dar um jeito para aquele rapaz parar de lhe surpreender assim, sobretudo quando estava fugindo deste.

Não tinha um minuto de paz nessa merda!

Almejava somente estudar para sua prova. Por que não fez como Taemin e pediu para passar de ano com tranquilidade?! Por que?! Agora possuía o cara que mais odiava na sua cola soltando mil e um gracejos imbecis. Ninguém merece, francamente…

— Eu não! Quero super bem ao seu coração... — protestou o atleta risinho. Seu sorriso era tão grande, contemplava todos os seus dentes. — ...cuido das coisas que me pertencem. — galanteou sapeca.

Tsk… Chanyeol não tinha jeito mesmo. Indiferente a declaração piegas, o rosado torceu o nariz e grunhiu. Se aquela declaração viesse de outra pessoa talvez, o Byun teria achado bonitinho ou fofo, mas, quando provinha do capitão do time de basquete, era esquisito. Baekhyun não conseguia ainda comprar aquele “rapaz apaixonado”, não depois de tantas piadinhas com o seu tamanho. Todavia, não pôde negar que sentiu um calafrio na espinha e seu estômago deu algumas voltinhas de nervoso.

— Aí aí como você é um emocionado, Park Chanyeol — desdenhou, ajeitando-se no chão novamente, pronto para retornar aos estudos.

Precisava desviar seu foco de Chanyeol antes que suas mãos começassem a soar frio.

Em contrapartida, o capitão soltou mais uma de suas risadas contagiantes, quase fazendo Baekhyun rir em conjunto. O maior aproximou-se dos livros do Byun, pegando-os e pilhando um sobre o outro, claro, o dono destes estranhou veemente os atos. Por que ele estava juntando seus livros? Querendo lhe atrapalhar mais do que já estava?

— Emocionado só por você, Byun Baekhyun. — cantou sem vergonha alguma, carregando aquele sorriso de canto que Baekhyun, particularmente, detestava. — Então, ‘tava pensando assim… a gente ir comprar uns mangás hoje. Saiu a nova edição de One Piece. — Óbvio, o Park tinha alguma intenção por trás de seus atos.

— Vá você e seu marinheiro que estica para bem longe de mim.

— Você disse que ia sair comigo e promessa é dívida — rebateu o maior.

— Eu tenho que estudar para a prova e você também!

— Qual é, Byun? Hoje é sexta, sai dessa! — praguejou o maior, absmado com a fala do "nerd".

Tão "nerd"...!

Sem poder declinar, o rosado assentiu, buscando os últimos cadernos e estojos espalhados para guardar em sua bolsa preta — esta que foi tomada pelo Park e foi carregada por todo o percurso. Iriam de fardamento mesmo, já que nem o Byun e nem o Park estavam afim de pegar um coletivo para irem para suas casas e depois retornarem para o centro de província — onde era o colégio de ambos e a banca de mangás. Não se importaram, também, com os alunos observando atentamente seus passos enquanto saíam do ginásio lado a lado mantendo uma conversa divertida.

Até que, na visão do Byun, eles ficavam bonitinhos caminhando até a banca, com seus fardamentos beges e pretos com direito a blazers e o brasão do colégio. Gostou muito da forma que conversavam sobre seus gostos com uma tranquilidade estupenda, como o Park simplesmente aparentava ser outra pessoa… aquele, decerto, não era o capitão do time de basquete. Ele, com certeza, estava "meteorizado" ainda.

Chanyeol ousou segurar em sua mão durante o caminho até a banca.

Desgraçado.

Que Baekhyun achava que não gostava…

-

Droga. Chanyeol era realmente um cara legal. E não era aquele tipo de "cara legal" que se diz só da boca para fora para amenizar situações, ele realmente era gente fina.

Park Chanyeol, para Baekhyun, era o tipo de pessoa que a companhia agradava-lhe demais, cujo poderia passar horas e mais horas conversando besteiras enquanto comiam salgadinhos com refrigerante ou poderia passar o final de semana juntos assistindo animes e jogando LOL. O capitão do time de basquete era agradável ao ponto do "nerd" emprestar os seus mangás sem pensar duas vezes e sem advertir para ter cuidado — porque sabia que ele teria —; havia um grande potencial para ser o seu (talvez) melhor amigo/(talvez) a pessoa que lhe deixaria na Friendzone — o que não era possível, já que o próprio atleta tinha se declarado para ele.

A mínima possibilidade de estar gostando do capitão era… assustadora. Três semanas foram o tempo suficiente para toda a visão que ostentava daquele garoto mudasse completamente, a um ponto de desejar conhecer mais dele e passar mais tempo ao seu lado, assim como nutrir estranhos sentimentos que o deixavam nervoso ao pensar nele, estar ao lado dele e cogitar a mínima possibilidade de beijá-lo.

Humpf! O Byun tornou-se um tornado de emoções estranhas quando Chanyeol "brotava" na saída do colégio puxando o seu braço para que fossem juntos à banca de mangás da rua 13 — mais conhecido como "a toca dos otakus". Suas mãos suavam em demasia, um friozinho tomava o fim de seu estômago loucamente e o seu nervosismo subia de uma forma que seu corpo inteiro tremia como se ele estivesse em um terremoto. Sabia dos sintomas: estava criando um crush naquele garoto alto.

Para piorar toda a situação, havia mais um detalhe que deixava o rosado ainda mais desnorteado: Chanyeol era um cara carinhoso. E não era somente alguns abraços que o fazia ganhar esse adjetivo — quem dera fosse —, era sim completamente grudento. Sempre que estavam juntos caminhando em direção a rua 13, passando pela avenida do terreno baldio, Park agarrava a mão do rosado ou passava seu braço longo por trás do pescoço do outro garoto. Também, em qualquer brecha deixada pelo Byun, o capitão dava beliscões em sua cintura, em sua bochecha ou deixava um selinho em seu pescoço — era certo; Baekhyun estava concentrado em sua leitura? Chanyeol iria dar um beijinho em seu pescoço. Por fim, ao final das duas horas que passavam juntos algumas vezes na semana, Chanyeol deixava um beijinho entre as madeixas rosadas de Baekhyun. E, por mais que o Byun não fosse lá a pessoa mais carinhosa do mundo, confessava para si mesmo que ficava todo molinho com aquela atenção.

Ele não é tão detestável assim.

Se as fofocas sobre a sua sexualidade e seu "casinho" com o capitão do time ainda rodavam no colégio? Com certeza. Mas o "nerd" não dava mais a mínima para elas. Era mesmo a nova atração do colégio e que falassem o que quisessem falar, suas preocupações eram outras. Muitas outras — e a possibilidade de estar gostando de Park Chanyeol era a maior delas.

Se fosse uma brincadeira? Uma tosca aposta? E se, simplesmente, desse tudo errado antes mesmo de começar? Baekhyun nunca havia namorado antes, isso, decerto, era assustador. Criou tantas possibilidades para sanar suas dúvidas que estas não poderiam ser contadas nos dedos.

Era enlouquecer o Byun que o Park queria? Pois parabéns, havia conseguido.

— Não vai comer não? — indagou Jongin, retirando o Byun do seu longo transe.

O Kim apontava certeiro para a marmita térmica prateada do Byun, recheada de bolinhos de ovo enrolados, arroz molhadinho e salsinha em formato de polvo. Era de dar água na boca, mas o dono da comida não estava nem um pouco afim de comer, então, apenas empurrou a travessa pela sua carteira de madeira em direção ao amigo.

Tudo que fosse comer iria parecer insípido.

Taemin, que até pouco tempo estava atento ao seu celular entre suas mãos, jogou o smartphone sobre a carteira — que nem era sua —, olhando para o lado (onde era a cadeira de seu amigo mais velho). Uma particularidade do Lee era ser extremamente curioso, sobretudo, em relação aos seus amigos. Então, não segurou a língua e foi direto na questão que o importunava:

— E a língua? Conhecendo muito a do Chanyeol? — indagou como alguém que não quer nada. Só para saber, sabe? Nada demais.

— Não, eca! — rebateu, torcendo seu nariz em desgosto.

— Não quanto ele queria — murmurou o Kim.

Algo dentro do Byun remexeu-se forte. Ele queria beijar aquela boca? Nem… Beijar Chanyeol (novamente) estava em sua lista de coisas para nunca fazer enquanto se respira.

— Eu não estou ficando com o Chanyeol, parem de encher meu saco!

A conversa a pouco havia começado e o de madeixas rosas já estava ficando irritado. Seus amigos não perdoavam também, só queria um tempo para pensar sobre aquilo em paz.

— Por que não? Ele se declarou tão fofinho! — inquiriu o segundo mais velho.

— Porque não. Ele pode fazer mil declarações, eu não vou acreditar nele. Qual é? Passou metade do ano enchendo meu saco, fazendo piadinha comigo e do nada ele se declara? Por favor, né. Não sou besta, isso deve ser uma aposta do time de basquete 'pra zoar comigo. E eu nem gosto dele. Sai fora! — estava revoltadíssimo (e inseguro).

Sério? Mente mais, Byun.

— Todo iludido, o pobre. Deixa dessa leseira! É só mandar ele se desculpar; diga que você não gostou e que não vai dar uma chance até que se desculpe. Grande coisa. Tu também não facilita nada, né? — Jongin, que estava com a mão sobre o estômago por ter comido demais, se intrometeu na conversa.

Tudo era simples, ora essa! Baekhyun que criava confusão.

— Não é tão fácil assim. E se for uma desculpa da boca para fora? Sabe, Jongin, quando você pede desculpas para alguém, muitas vezes é algo bem hipócrita, porque a pessoa não mudou seus atos. Para mim, dizer “obrigado” e “desculpa” não valem nada se você não demonstrar que realmente mudou ou que está agradecido — dissertou sobre seu profundo pensamento enquanto gesticulava com sua mão esquerda.

— Filosofou. Mas você não acha que o Chanyeol mudou? Porque assim, eu nunca o vi implicar com alguém além de você e ele agora está todo caidinho por ti. Ele parece aquelas crianças que provocam para ter atenção, mó zuado — refutou o moreno novamente. Nem sabia porque defendia o Park, mas, indiretamente, estava.

Talvez a ideia de Baekhyun e Chanyeol juntos fizesse sentido na sua cabeça. Era uma visão harmoniosa — e, no fundo, todos sabiam que eles se gostavam.

— Eu vou pensar — foi tudo que Baekhyun conseguiu dizer.

Byun estava cansado de falar sobre isso. Cansado de pensar sobre isso. Não tinha como dar uma pausa? Porque, caramba, tudo era ele e Chanyeol. Não havia uma hora corrida que não pensasse em Chanyeol, no beijo, nos elogios, nas cantadas, nas tardes que iam juntos à banca de mangás e no carinho que recebia frequentemente. Decerto, iria enlouquecer.

— Enfim! Vai ter outra edição do Nisekoi Festival esse ano e nós vamos! Mano, vai ser incrível! — Jongin mudou de assunto ao perceber a inquietação do amigo.

Iriam falar de coisas boas! O festival favorito do trio estava se aproximando. O Nisekoi festival ocorria todos os anos, no início do segundo bimestre. Eles sempre iam juntos prestigiar a enorme feira de artigos geeks — de cosplay ou não —, para gastar suas mesadas e se divertirem observando os concursos. Era sempre divertido e isso, com certeza, iria animar o Byun.

— Não ‘tô no clima. Quero ficar em casa. — Baekhyun foi o primeiro a negar. Estava muito cansado, precisava recarregar suas baterias sozinho em casa.

Taemin e Jongin, obviamente, contorceram seus rostos. Eles esperavam o ano todinho para irem ao festival, como assim o mais velho dos três escoteiros não iria? Isso era tudo por conta de Chanyeol? Credo. Isso não estava certo, Baekhyun deveria ir sim, assim poderia tirar sua cabeça daqueles pensamentos e desestressar.

As pessoas não tinham noção de como gostar de alguém poderia ser estressante, às vezes.

— Mas é claro que você vai, bebê. Esqueceu que perdeu a corrida no dia do meteoro? Você vai, Baekkie, e ainda vai segurar uma plaquinha pedindo beijinho — Jongin disse maquiavélico. Seu sorriso crescia a cada palavra, assim como suas sobrancelhas desciam.

E ainda teve a coragem de simular algumas beijocas no ar.

Era agora que iria aplicar o seu desejo. Nas últimas semanas, o adolescente deu tudo de si para aquela brincadeira.

— Ah não… — suspirou o Byun.

Estava lascado.

— Não se preocupe, neném, Taemin-hyung já desenrolou comigo sua fantasia de Madoka Magica! E eu fiz 'pra ele uma de Hinata, não vai ser lindo?! — proferiu com tanta euforia que suas mãos agitaram-se no ar, remexendo ao explicar seu plano mirabolante.

"Ah, não" de novo. Estava muito, mas muito, lascado. Que merda, por quê não correu mais rápido? Desceu sua cabeça até bater na carteira de madeira, que o seu crânio rachasse!

Mil vezes merda.

— Eu te odeio — os dois outros garotos em volta de Jongin rogaram, completamente emburrados por conta da situação que iriam passar no evento.

-

O chat de conversas no celular do Byun estava a todo vapor, mas não por um bom motivo.

Jongin montador de lego: Tamo atrasado Baekhyun!!!!! Sai daí agora!!!
[12:45]
Otaku fedido: Nunca!!!
[12:47]
Lee Francesco Taeminie: Se vc não sair vo entrar
[12:47]
Otaku fedido: indo.
[12:50]
Otaku fedido: eu tô ridículo
[12:50]
Otaku fedido: seus bostinhas
[12:51]
Oh céus… Baekhyun não conseguia acreditar que iria sair de casa com aquela roupa ridícula. Aquele vestido curto de babado rosa era terrível e ainda mostrava suas pernas não depiladas, além daqueles detalhes brancos de tecido nas mangas que parecia que ia sufocar os seus braços. Que horror! Aquele maldito colar choker rosa também não colaborava com nada, muito menos aquele sapato de salto rosinha. Onde bulhufas Jongin havia encontrado essa fantasia?! Que maldição! Sua mãe ainda lhe ajudou a arrumar toda a saia apertada e rodada e fez os seus minúsculos rabos de cavalos, um de cada lado. Francamente… ridículo.

Seria errado rasgar tudo e jogar fora? Só de olhar para aquelas luvas brancas que usava, tinha vontade de explodir em mil pedacinhos. A mínima ideia de sair de casa com aquela vestimenta era trágica. Seria tão zuado — mesmo que a fantasia estivesse muito bem feita. Até o pingente do colar e as meias brancas três quartos estavam presentes na vestimenta! Realmente, Jongin era ardiloso, deveria estar planejando aquilo fazia meses. Não era possível arrumar um cosplay daquele tão detalhado em tão pouco tempo… maldito.

Baekhyun foi forçado por sua mãe e seus amigos a sair de seu quarto e ir em direção ao carro da progenitora, que os levaria para o evento do Nisekoi Festival no centro da província. Ela achava graça em tudo e fazia questão de fotografar todos juntos para guardar de recordação, adoraria mostrar para os seus amigos o quanto seu filho era feliz. Se orgulhava muito dele.

Enquanto caminhava para fora do quarto, Jongin, vestido de Naruto (com direito até a peruca e bandana), agarrava um de seus braços e Taemin, com seu cosplay de Hinata (com até lentes de contato brancas!), segurava no outro, empurrando o rosado para andar para frente, em direção a sua humilhação. Chegaram a porta de entrada com o Byun se contorcendo entre as chaves de braço. Queria fugir, céus, como queria!

— Meu bebê não está uma gracinha? — comentou a senhora Byun animada, levantando a sua câmera Canon para tirar fotos dos três amigos juntos.

— ‘Tá sim, tia! — respondeu o Kim energético. Seu plano maligno estava finalmente funcionando!

— Fiquem juntinhos para a tia tirar uma foto — pediu a mulher mais velha, logo sendo obedecida. — Digam cheese!

Os três gritaram a palavra, ostentando seus sorrisos — Baekhyun teve que se render ao momento, claro. Jongin fez sua clássica pose de ninja da aldeia da folha, enquanto Taemin ergueu seus dedos pequenos em um "V", enquanto Baekhyun sorriu, tombando sua cabeça em direção ao segundo mais velho e levantando sua perna esquerda para trás.

A foto havia ficado boa, com certeza seria revelada e colocada em um dos trezentos álbuns de foto da senhora Byun — que seriam mostrados para o seu futuro pretendente. Baekhyun era filho único, era normal que a sua mãe o minasse um pouquinho.

— Vamos antes que eu desista dessa merda — bufou o de madeixas rosas.

Não tinha para onde fugir, ou ia ou ia.

Passaram alguns minutos dentro do carro até chegar a um parque de uma faculdade que sediaria o aclamado evento pelos otakus. Baekhyun praguejou a viagem inteira, enquanto seus dois amigos mantinham uma conversa eufórica com a senhora Byun. Falaram sobre suas roupas, sobre como funcionava o festival — mesmo que a senhora já soubesse, levava os meninos todos os anos — e como seria divertido, pois era a primeira vez que iriam ao cosplay. Jongin era o mais animado, por ter se empenhado naquela missão.

Após chegarem ao local, despedindo-se da senhora e marcando o horário que voltariam — e que ela deveria vir buscar os três meninos —, os garotos receberam suas pulseiras — depois de passar muito tempo na enorme fila — e puderam admirar a enorme instalação do evento.

O vasto local ostentava diversas barracas com vários artigos interessantes. Maravilhados, fizeram questão de bater perna por todos os locais possíveis, do stand de fanartistas ao palco onde seria as apresentações de dança e da banda cover.

Durante o caminho, foram parados várias vezes. Todos queriam tirar fotos ou receber beijinhos da Madoka Mágica — porque, claro, Jongin fez questão de, no início do evento, comprar uma plaquinha e escrever "beijinhos por conta da casa" para o Byun carregar. Todavia, o mais velho apenas dava beijos na bochecha e pedia desculpas quando queriam selinhos, mas ninguém o forçou a nada, felizmente.

Baekhyun tirou várias fotos com várias pessoas, chutaria umas cem. Estava até mais confortável com a sua vestimenta, não havia sido tão ruim assim, muitas pessoas elogiaram e pediram até o seu Instagram — caso ele fosse um cosplayer, o que ele não era.

Foram duas horas divertidas, riram e sorriram de seus estômagos doerem e os lábios também. Agora, caminhavam em direção ao outro lado do evento, saindo da ala dos mangás e indo em direção ao refeitório. Estavam mortos de fome! Suas barrigas roncavam irritadas clamando por algum alimento — de preferência, bem gorduroso. Pediam por refrigerante e salgadinhos sabor camarão e muito mais besteiras!

— Olha o tanto de gente que já parou o Baek 'pra pedir foto! — comentou Jongin olhando para a tela do celular. Havia tirado algumas fotos com os amigos e com outros cosplayers. — Diga aí, eu arrasei! — orgulhou-se, batendo em seu peito.

Os dois outros tiveram que concordar. Por conta do Kim, aquela saída havia sido (e ainda estava sendo, pois ainda teriam metade do festival) muito divertida. Riram muito e iriam se divertir ainda mais olhando os artigos otakus e vendo as competições — ainda tinha o karaokê que, obviamente, Taemin obrigaria os outros dois a participar consigo cantando alguma música de abertura de anime.

Em certo momento, o de Madoka Magica cessou seu caminhar. Sua vista se focalizou em algo que não via a um considerável tempo, algo memorável e que, decerto, não esperava ver nem tão cedo.

Aquela fantasia de Tuxedo, ele conhecia.

A longa capa preta balançando enquanto caminhava, o terno alinhado com direito a gravata, a máscara preta de vinil, o chapéu cartola bem erguido e, para fechar com chave de ouro, uma rosa vermelha de plástico entre os dedos longos. Com certeza, era o rapaz que Baekhyun havia perdido o seu BV. Meu Deus. E ele vinha em sua direção. Meu Deus.

De tantas pessoas que transitavam na área, aquele rapaz misterioso vinha certeiro para onde o trio de cosplayers estava parado e o mundo aparentava abrir espaço, criando uma vasta passarela para que ele chegasse a si.

Byun não se lembrava dele ser tão alto assim... Estava nervoso, começando a transpirar exacerbado e sequer ousou se mexer. Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Será que ele se lembrava? Fazia um tempo já, não era possível ele se lembrar, certo? Baekhyun iria surtar ou ter um ataque cardíaco. Era muito para o seu coraçãozinho!

Ostentando um sorriso de canto, o dito Tuxedo ficou de a frente com o Madoka. Era um encontro estranho, decerto, mas que deixava o coração do Byun todo agitado.

— Um beijo por uma rosa? — pediu o galanteador.

Mais um? Byun não estava muito interessado. Tudo bem que, no passado, aquele medo selinho havia marcado a sua vida por completo, mas agora, havia um indigente infestando a sua cabeça que não o deixava pensar em outras bocas.

Em contrapartida, o mais alto retirou a máscara com a mão direita, estendendo a rosa falsa com a esquerda em direção ao de cabelos rosados.

Chanyeol?!

Não.

Não podia ser.

Com certeza não.

Que merda, seu primeiro beijo havia sido com Park Chanyeol.

Temeroso, o Byun tomou a rosa de plástico das mãos do Park, sabendo o que viria após realizar aquela ação. Ganharia um beijinho.

Ele realmente estava fazendo isso? Caramba…

Com o beijo concedido, o Tuxedo aproximou-se vagarosamente do outro rapaz, abaixando um pouco para chegar próximo aos lábios — salientando, também, os vinte e poucos centímetros que ambos tinham de diferença. Os lábios se tocaram tímidos e mornos, era suave e, ao mesmo tempo, temeroso.

Era somente para ser um selinho simples, o capitão do time não queria invadir mais o espaço do "nerd" — pelo menos, não mais do que já havia. Porém, entretanto, todavia, o menor fez questão de puxar mais forte o corpo do mais alto em sua direção, pelo blazer do terno, para aprofundar aquele contato e invadir os lábios do outro rapaz, sentindo um beijo de verdade.

Uau… o capitão só conseguiu suspirar, totalmente entregue. Por um instante, lembrou-se de como foi parar ali, à mercê daquele tampinha.

A vida de Park Chanyeol não era tão boa quanto parecia. Todos à sua volta adoram salientar como o garoto possuía uma vida… perfeita. Possuía notas sempre na média, era bom em esportes, era popular e tinha muitos amigos. Parece bom, não parece? Mas, quando observamos a vida dos outros, com aquela pontinha de inveja, sempre ressaltamos o que há de bom, e não o que a pessoa realmente vivencia; o que ela realmente é. Somente ela pode dizer o que está passando. A vida de Chanyeol era tão boa assim como as más bocas diziam aos sete ventos? Nem um pouco.

Ele, decerto, queria ter uma vida tão boa o quanto fofocavam que era.

Se ter uma vida onde sua progenitora praticamente o odeia e seu pai passa o dia trabalhando em um supermercado para bancar a sua escola — e, futuramente, a sua faculdade — é uma vida boa, Chanyeol vivia nas nuvens.

Desde do início da sua adolescência, o Park tinha noção de que as garotas não o atraíam tanto quanto os garotos. Ele tinha plena noção de que era gay, mas sua progenitora nem tanto, ela não simpatizava nem um pouco com essa ideia. Todavia, ingênuo aos seus dezesseis anos, acreditou que aquele pensamento retrógrado poderia mudar. Foi muito utopista ao crer que sua mãe mudaria e lhe aceitaria de braços abertos, lhe amaria da mesma forma e continuariam sendo a família que eram.

O dia em que falou a verdade para os seus pais está gravado em sua mente. Foi em um jantar cotidiano, todos sentados ao redor da mesa — Yoora, sua irmã mais nova, sua mãe e seu pai. Estavam todos tranquilos comendo, até que, da boca do filho mais velho, saiu uma "bomba" e, assim, tudo tornou-se um furacão. Sua progenitora surtou, fez centenas de discursos e, uma semana depois, saiu de casa com a premissa de que não suportaria um filho gay e jurou que eles não se veriam novamente.

"Ele iria para o inferno e ela não queria se juntar a ele".

Em compensação, eles perderam uma boa parte da renda da casa. Tiveram que se mudar para um lugar menor e o Park mais velho — cujo produzia o que, em sua maioria, sustentava à todos —, passava seu dia passando compras e repondo estoques em um supermercado para sempre, não importa o que, sustentar os seus filhos — não importava se Chanyeol gostava de homens ou de mulheres, o amava de qualquer jeito. Com muita dificuldade, pagava a luz, o aluguel da kitnet, a internet, a água, a feira e as mensalidades dos filhos, sem muitas regalias.

Chanyeol pouco via seu pai em casa e, procurando ajudar a situação, arrumou um trabalho de meio período em uma loja de conveniência vinte e quatro horas — no qual trabalhava no período da noite como caixa. Ou seja, ele estudava pela manhã, treinava pela tarde e trabalhava pela noite, ainda tendo um tempo nos finais de semana para dar atenção a sua irmã de dez anos — que, claro, sentia falta da presença de seu pai, da sua mãe e de seu irmão mais velho.

Vida boa? Vida boa.

Comia no trabalho as comidas que estavam prestes a se vencer para não dar custos em casa, usava quase sempre as mesmas roupas, usava seu dinheiro para complementar a renda da família e estudava e treinava muito para tentar uma bolsa integral em uma faculdade. Ele só queria dar o mínimo de trabalho possível, porque sabia, em seu âmago, que toda aquela situação era sua culpa — o que, decerto, não era.

Tudo dele era uma tremenda correria, mas ainda teve tempo de se apaixonar por aquele nanico dos cabelos rosas.

Droga, seu coração não tinha um pingo de paz nessa porcaria.

Quando o ano letivo começou, o tormento do capitão do time teve início.

Baekhyun era muito bonito — além de fã do que ele gostava, secretamente — dentro daquele fardamento preto sem sal do colégio, tão feinho, mas ficava até que bonito no Byun, incrivelmente.

Tudo ficava incrivelmente bem em Byun Baekhyun, Chanyeol havia de aceitar. Aqueles óculos pesados que salientavam suas bochechas — deixando mais fofa a forma que ele lhe encarava com raiva —, aquela bolsa preta repleta de bottons de anime ou aquele All Star todo riscado e sujo que vivia usando. Byun Baekhyun era a mistura de todas as coisas que Park Chanyeol gostava no planeta Terra, porém, por uma série de infortúnios, Park Chanyeol tornou-se a coisa que Byun Baekhyun mais odeia na face da Terra.

Era o tipo de pessoa que Chanyeol queria por perto e desejava ter bons momentos. Ele poderia ter seus amigos do time, mas não era aqueles que estavam consigo a cada momento e que poderia contar, aqueles cujo possuía confiança de contar mais sobre si. Todavia, possuía temor sobre contar e receber a mesma reação que a da sua mãe… era difícil para si falar sobre aquilo e se abrir mais.

Formou alguém de sorriso fácil, mas fechado.

Por mais que Baekhyun fosse igual a si, ele não entenderia. A mãe do Byun compreendeu com o tempo, o aceitou e eles conseguiram tranquilamente se manterem — porque a senhora trabalhava como advogada e recebia uma pensão do falecido marido juiz. Não era de chamar atenção no colégio e pouco as pessoas se importavam com os seus pensamentos ou sua forma de ser, porque o garoto simplesmente não dava a mínima se o achassem nerd ou esquisito; o contrário do Park.

Ele se importava até demais.

Chanyeol era um mentiroso de primeira, aprendeu a mentir tão bem que até ele mesmo acreditava em suas próprias palavras sujas. Mentia para se afastar do Byun e, seguindo a mesma linha tênue, ficar mais próximo. Era idiota, ele bem sabia. Mas quando todo o universo parecia conspirar para que ele se declarasse de uma vez, não teve como nadar contra a correnteza, foi de vez. Saíram gracejos, elogios, cantadas e tudo que foi possível e, caramba, como gostou de dizer tudo aquilo; como se apaixonou mais por aquele garoto a cada momento que partilharam juntos.

Poderia sim ser apenas um romance colegial, mas, nossa, estava gostando demais de poder vivenciar aquilo com aquele garoto. Baekhyun, que lhe deu um selinho no Nisekoi festival do ano anterior, que o ignorava ou o respondia ácido, que aceitava seus carinhos, que, às vezes, dividia seu lamen apimentado com o capitão do time enquanto liam mangás. De que adiantava correr contra o que ele, de fato, era?

Havia, certamente, sido um baque para todos do colégio, inclusive o time de basquete. Mas, felizmente, nenhum deles o julgou ou o tratou mal. Ele foi bem recebido e… acolhido. Pronto para tentar, seguro, mais uma vez conquistar Byun Baekhyun.

Ele não tinha mais medo algum.

— Eu não te entendo, Chanyeol. — proferiu em um sussurro, assim que findaram o ósculo.

Caramba, caramba, tinha beijado Chanyeol por querer.

— Real, que beijo gostoso o teu. Sentiu a conexão da gente? — o falso Tuxedo sussurrou pela proximidade que tinha do falso Madoka.

De fato, eles tinham algo. Algo que os puxava, que os interligava de maneira feroz e que tornava a ideia de ficarem juntos muito boa. Entretanto, não era por isso que o Byun simplesmente iria jogar seus preceitos para o ar e aceitar o Park de braços abertos, como se suas piadinhas chatas do passado não tivessem nunca existido. Baekhyun possuía princípios!

— Cala boca, eu 'tô falando um bagulho sério aqui. Você foi tão idiota comigo por gostar de mim? Isso não é desculpa, Park. Manda a real, aí vejo se rola algo entre nós. — praticamente murmurou a última sentença.

Estava pensando seriamente em dar uma chance ao cara que jurou odiar pela vida inteira? Sim, estava. Se fosse pensar isso meses atrás, iria negar até a sua última hora de sangue, iria ditando que em nem outro multiverso iria namorar Park Chanyeol. Entretanto, o Park o qual se referia, jogador babaca de basquete, era outra pessoa, não o real Park Chanyeol otaku, geek, jogador de LOL e de WOW e, às vezes, de Candy Crush, viciado em One Piece e que era carinhoso por demais da conta; esse rapaz ele queria namorar — ah como queria.

Necessitava apenas de pequenos gestos, pequenas palavras, para que, então, pudesse perdoá-lo. Poderia aparentar ser dramático, mas ele não deixaria-se abater com esse pensamento. Ele queria esclarecimentos antes de seguir.

— E não é. Eu realmente sinto muito por ter sido um bosta com você. Eu só queria chamar sua atenção, entende? Mas não foi do jeito certo, me desculpa. Eu não queria que eles soubessem sobre mim, mas acabou acontecendo por eu gostar de você — explicou o maior com sinceridade, seus olhos estavam carregados daquele sentimento pleno.

Escutando aquela frase, Baekhyun deu um passo inseguro para trás.

— Então você acha que gostar de mim é ruim? — sua voz vacilou.

Céus, Baekhyun era um cara difícil. O capitão bufou baixinho, passando sua mão direita sobre o chapéu cartola. Precisava ser mais claro com suas palavras para fazer aquele garoto entender como ele gostava demais de si.

— Claro que não, Baekhyun! Gostar de você é libertador. Gostar de você significa liberdade de ser quem eu sou, de fazer o que eu gosto e de estar com uma pessoa incrível que me faz incrivelmente bem. Gostar de você me faz superar meu medo de me expor e ser julgado porque eu passo a tacar um dane-se para tudo só para estar contigo falando sobre anime ou jogando LOL.

Chanyeol era muito bom com palavras, droga. Como não cair na lábia dele? Impossível.

E então, o Byun finalmente compreendeu a luta interna que Chanyeol travava consigo mesmo para estar ali e, de alguma forma, pressupos que àquelas duas partes que conheceu do otaku barra jogador de basquete era apenas uma pequena fração do que ele realmente era; de quem Baekhyun queria muito mais conhecer.

— Vamos comer, Tuxedo. Você vai me pagar um lanche. — Baekhyun chamou em um sorriso morno. Não queria dizer mais nada; não precisava dizer mais nada.

Não era seu namorado, qual o problema de tirar uma casquinha? Ou… um lanche inteiro.

— Tudo por você, Sailor Moon — aceitou o capitão, erguendo suas mãos para o ar.

— Mas eu sou a Madoka! — inqueriu sem entender a referência.

— O Tuxedo fica com a Sailor Moon, Baebae — declarou sorridente, enquanto, copiosamente (para passar despercebido) levou sua mão direita para a cintura do cosplayer de Madoka.

Carambolas, gostava daquele clichê. E olha que ele nem gostava de anime shoujo! Mas, de contrário, ele gostava do que ele escrevia agora em sua vida.

— Que clichê. Ano que vem nós fazemos o cosplay de novo, da maneira certa.

— Somos um clichê, tampinha — afirmou, deixando um fraco peteleco na testa do mais baixo que, prontamente, revidou com uma cotovelada na costela esquerda do Park. — Baek — Recebeu um murmúrio em resposta — Você tem um mapa? Porque eu acabei de me perder no brilho dos seus olhos.

— Eu mereço…

Baekhyun não perdeu tempo, em resposta àquele gracejo piegas, puxou o maior pela nuca e tascou um beijo bagunçado e preguento. Não era um beijo entre pessoas confusas ou de alguém tentando conquistar alguém, era um beijo de recém namorados. Um beijo apaixonado e preenchido de verdades.

— Será que a gente pode lanchar agora? — palpitou Jongin, quebrando totalmente o clima romântico e, consequentemente, o beijo dos garotos.

O casal sequer havia notado que existiam centenas de pessoas ao seu redor encarando aquela cena meio piegas em um evento de anime. Obviamente, ficaram constrangidos até o último fio de cabelo, com os rostos avermelhados pelo sangue que subiu e as orelhas tão vermelhinhas quando morangos.

— Eu espero que eu passe de ano direto. — resmungou Taemin. Seu desejo tinha que se realizar também, certo?

Espera… Jongin iria arrumar uma namorada?!