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Como uma pessoa matutina, logo após o nascer do sol, Sukuna despertou. O calor e conforto o seduziam para que voltasse a dormir, mas ele apenas respirou fundo e piscou algumas vezes, livrando-se daquela sonolência. A luz já entrava pelas finas cortinas da janela, localizada na parede atrás de si, iluminando decentemente o cômodo.
Sua atenção se fixou na pessoa que jazia adormecida em seus braços. Yuuji estava com a cabeça enterrada em seu peito ; o queixo de Sukuna estava apoiado de leve nos cabelos rosados e macios. Seu braço esquerdo servia parcialmente de apoio, embaixo do pescoço do outro, enquanto o direito abraçava Yuuji.
Sentia uma das mãos dele em seu peito, enquanto o outro braço descansava em sua cintura. Não resistiu e apertou um pouco o garoto no abraço, depositando um beijo no topo da cabeça. Sentiu o cheiro do shampoo adocicado , e mesmo que não fosse o maior fã das coisas doces da vida, aquele era um dos seus aromas prediletos.
Ouviu um pequeno resmungo e se afastou para verificar se havia o acordado sem querer, mesmo sabendo que seu gêmeo dormia igual uma pedra. A face de Yuuji estava serena e Sukuna aproveitou para contemplá-la.
Seu polegar deslizou em um toque suave pela bochecha macia, tão lentamente de baixo para cima e vice-versa. Então, sua atenção focou na fina linha, logo abaixo de cada olho. Mapeou-a de ponta a ponta, um costume que adquiriu com os anos, como uma confirmação que ainda estavam inteiramente ali. As linhas eram idênticas às suas.
Todos achavam incrível aquelas semelhanças na aparência dos gêmeos, e isso sempre gerava comentários genéricos e repetitivos a respeito, embora suas personalidades distintas fossem o suficiente para que ninguém os confundissem.
Para Sukuna, suas marcas de nascença eram a única semelhança que importava, além de considerar uma prova irrefutável de que eles pertenciam um ao outro. Como almas interligadas por diversas eras, ou qualquer coisa piegas relacionada — e que jamais falaria em voz alta para alguém — ele sabia que Yuuji pensava o mesmo, era o que bastava.
Pequenas centelhas de preocupações a respeito do futuro dos dois crepitavam no cérebro de Sukuna, afinal, um dia o mundo saberia sobre o relacionamento dos irmãos Itadori. E sinceramente, Sukuna não poderia se importar menos com a opinião alheia, mas o que poderiam falar ou fazer para Yuuji era o centro do problema. Ele nunca suportava que fizessem qualquer tipo de mal ao seu irmão e amante.
Perdido em pensamentos, notou tardiamente que estava cativo naquele olhar âmbar repleto de ternura. Um carinho em seu rosto o despertou para o mundo real, a mão do outro apoiava seu rosto e fazia leves movimentos circulares com o polegar. Pelo jeito esteve refletindo por tempo demais, o suficiente para seu Yuuji dorminhoco acordar.
— Bom dia — Sukuna se inclinou levemente ao toque, com um pequeno sorriso nos lábios.
— Bom dia — Yuuji sorriu de volta, com o dedo ainda ocupado no carinho terno — Acordado há muito tempo?
— O de sempre.
— Você parecia muito concentrado, no que estava pensando?
— Nada relevante — Sentiu o polegar parar no meio do caminho — É sério, Yuuji — Reforçou, enquanto se afastava e apoiava as costas no colchão.
A mão de Yuuji acompanhou o movimento, entrelaçando os dedos na mão esquerda de Sukuna, que descansava no seu torso. Com a cabeça na mão livre, Yuuji ergueu o suficiente para que pudesse encarar seu irmão — e não dar chance de fuga para os olhos carmesins.
— Sukuna… — Viu as íris rolarem tipicamente, só provando que havia mesmo algo a mais.
— Só estava pensando em nós.
O tom desdenhoso não era páreo para a conexão que tinham, o que Sukuna considerava um pé no saco em certas situações. Era difícil esconder algo do outro. Yuuji entendeu o significado implícito daquela frase, o olhar levemente arregalado se suavizando.
— ‘Kuna… — Ele se inclinou sobre os olhares ainda conectados — Você sabe que não precisa se preocupar. Não importa — A falta do sorriso luminoso reforçava a expressão séria.
— Como não? Você sabe que eu sempre me preocupo quando o assunto é você.
— Eu sei, não é como se eu também não me importasse com você. É só que… — Yuuji desviou o olhar e encarou as mãos unidas — Certas coisas estão fora do nosso controle. Algumas pessoas nunca vão nos aceitar ou entender, mas não importa porque eu amo você e nada nesse mundo vai mudar isso.
Yuuji se inclina mais e beija o nó dos dedos do amado. Queria passar segurança e paz para o outro, ainda que ele próprio tivesse os mesmos medos e inseguranças.
— Eu sinto que já te amei por várias vidas e poderia amar por outras muitas mais — Completa com um sorriso e as bochechas coradas.
Sukuna leva sua mão livre à nuca de Yuuji e o puxa, depositando um beijo em sua testa. Desentrelaçando as mãos, ele envolve a cintura do irmão e o traz para cima de si. Yuuji descansa a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas um pouco aceleradas do coração de Sukuna, logo sentindo um delicado cafuné em seus cabelos.
— Eu sinto o mesmo, pirralho — Yuuji não consegue ver as bochechas rosadas do irmão — Se você está comigo, sinto que posso dominar o mundo.
Com uma risadinha, Yuuji encara-o.
— De novo esse assunto? O que você vai fazer com um planeta todo?
— Destruí-lo — brincou, embora seus olhos brilhassem em vermelho vivo numa fração de segundos — Eles poderiam nos servir! E então ficaríamos o dia todo na cama como agora.
— Hummm, muito tentador — Voltou a relaxar no peito alheio — Mas isso daria muito trabalho e com muitas chances de as pessoas quererem te atacar.
— Hah, não conseguiriam nem um mísero dedo meu — Sorriu orgulhoso.
— Não quero arriscar. Preciso dos seus dedos — disse inocente.
Sukuna ao ouvir isso, envolve o corpo de Yuuji com seus braços e pernas, prendendo-o, e vira para o lado.
— Precisa é? — pergunta enquanto enche o pescoço do outro de beijos e leves mordidas.
— Sukuna! — diz enquanto se debate sem intenção de fugir.
A risada dos dois ecoa pelo quarto, até Sukuna soltá-lo temporariamente para puxar o cobertor esquecido nos pés da cama.
— Mais cinco minutinhos? — Yuuji pergunta, já se ajeitando nos braços do irmão.
— Mais cinco minutinhos — Sukuna respondeu num suspiro, com o rosto nos cabelos rosados.
Abraçados e com as pernas entrelaçadas, Sukuna e Yuuji voltaram a dormir, com a felicidade de estarem onde sempre pertenceram.
