Work Text:
— Kiri, temos um problema. — anunciou Izuku, entrando no quarto de Eiji, com as mãos na cabeça. A porta se abriu num estrondo e se fechou em outro. Midoriya estava com fios de cabelo grudados na testa pelo suor, e estava ofegante.
— Você acabou de correr uma maratona? — supôs Kirishima, cruzando as pernas em sua cama. Midoriya apoiou as mãos nos joelhos e deixou o oxigênio entrar controladamente.
— Eu... subi.... as escadas... correndo.
— Ah. Isso explica o suor. Você tá fora de forma mesmo, hein? Bem que dizem que quando as pessoas casam elas ficam relaxadas.
— Que? Eu não tô casado! Calma, você acha que eu tô namorando?
Kirishima piscou duas vezes, com a cara séria.
— Você não tá?
— Não! Eu e o Todoroki somos só amigos.
— Ah . Mas vocês se gostam, né?
Izuku balançou a cabeça com força.
— Isso não importa! Eu tenho um problema.
— É verdade, você tem. Vocês passam todos os dias juntos e ficam agarradinhos em todas as festas, e ninguém oficializou isso ainda? O Todoroki eu até entendo, mas eu achei que você já teria feito algo sobre isso!
Midoriya enrubesceu e se sentou na cama.
— Você acha que eu deveria?
— Óbvio, Izuku. Ele claramente gosta de você, e você claramente gosta dele. Então… problema resolvido? Eu tava prestes a ir na cantina pra comer um negócio e…
Kirishima estava se levantando da cama quando Midoriya o puxou de volta.
— N-não era esse o problema sobre o qual eu vim falar!
— Ok, então qual é o problema?
Izuku procurou as palavras certas antes de falar.
— Eu… não tenho uma memória das melhores. E por isso eu anoto tudo em cadernos.
— Ok, nenhum problema até aí. Digo, nenhum novo.
— E em um desses cadernos eu… escrevi todas as coisas que o Todoroki gosta. E as que não gosta. Pra eu não esquecer.
Kirishima continuou esperando, mas Izuku não disse mais nada.
— Tá, e…?
— Eu tava esperando você me dar uma bronca sobre como isso é errado.
Eiji deu de ombros.
— Sabe, eu sou um conselheiro romântico de primeira. Eu conquistei o Katsuki Bakugou derrotando ele numa luta, não sou ninguém pra julgar seus métodos. Dá pra gente ir logo pra parte do problema?
— Tá. Hoje, no horário do almoço, eu coloquei o caderno na mesa pra escrever que eu descobri a matéria favorita dele, que é química. Mas… ele não tava na minha mochila.
Kirishima começou a abrir a boca.
— Meu deus.
— Aí eu fui no meu quarto e… procurei por tudo.
— Meu deus.
— Eu perdi o caderno secreto das coisas favoritas de Todoroki.
— Ok, o almoço pode esperar. Vamos refazer seus passos.
*****
Todoroki estava de toalha quando encontrou. Jogado embaixo da cama dele, um caderno moleskine com uma capa preta. Ele o pegou, colocou em cima de sua escrivaninha e se vestiu antes de olhar.
“CADERNO SECRETO DO MIDORIYA (NÃO TEM NADA DE ESPECIAL AQUI, NÃO ABRA)”
E como um bom amigo, Todoroki não olhou. Não nos primeiros dez minutos.
A primeira página tinha o título real do caderno, Caderno Secreto das Coisas Favoritas de Todoroki, e ele se perguntou se aquilo era uma pegadinha. Ele não tinha tantas coisas favoritas assim, ou tinha?
Na segunda página, uma lista de comidas. Em primeiro, Soba frio. Até agora, nada de errado. Mas por que Izuku tinha um caderno pra escrever essas coisas? O resto da lista tinha várias comidas, e ele notou um padrão: eram todas comidas que ele tinha pedido nos encontros deles.
A página seguinte tinha Hobbies. Dormir, comer doces, treinar, congelar coisas (?), esquiar e “ser o melhor”. Mas quem não gosta de ser o melhor? Essa página poderia ser sobre qualquer pessoa! Todoroki ficou da cor de sua cicatriz. Midoriya prestava tanta atenção assim nele?
As páginas 4 até a 10 tinham uma coisa por página, e um desenho da coisa em questão. Bananas, inverno, jogar Uno, correr com o Kaminari, tomar chá com a Momo, ler livros com capas feias (Todoroki se sentiu um pouco ofendido com essa constatação) e ir ao cinema.
A página onze tinha como título “manias”. Coça a cicatriz quando fica nervoso, esfrega as mãos quando está animado, não costuma piscar quando fala de seu pai, odeia quando comem uvas na frente dele (como Izuku percebeu isso? De qualquer jeito, uvas SÃO nojentas, pensou Todoroki), não mantém contato visual com garotas (esse fez Todoroki se sentir observado demais) e sempre arruma a cama pela manhã (o que é o certo a se fazer!)
Todoroki respirou fundo, e percebeu que estava se divertindo lendo aquilo. Izuku prestava muita atenção nele.
A página seguinte tinha, bem grande, “Não elogie a individualidade de fogo dele! Ele vai achar que você faz de propósito pra irritá-lo.” e na seguinte “Se você não elogiar a individualidade de fogo dele, ele vai achar que você o odeia por causa de seu pai!”
A página depois dessas tinha “coisas que Todoroki ODEIA”.
- ENDEAVOR
- Uvas
- Lugares barulhentos
- Pessoas quietas demais
- Kacchan
Todoroki parou. Ele ainda chamava Bakugou de Kachan? Ugh .
Ele folheou mais algumas, e percebeu que o caderno não tinha mais nada escrito. Então, pegou uma caneta preta e escreveu na primeira página em branco.
Depois, colocou o caderno onde encontrou, embaixo de sua cama, e saiu.
*****
— E se não estiver lá?!
— Bom, a gente já foi em todos os outros lugares, só pode estar lá! — exclamou Kirishima. — O problema não é estar lá, é estar lá e ele já ter visto .
Izuku bateu na porta de Todoroki três vezes, como sempre, e ninguém respondeu. Ele respirou aliviado, abriu a porta com a chave que ficava escondida embaixo do tapete, e ligou a luz.
— E aí, achou? — perguntou Kirishima, que estava na porta vigiando.
Midoriya pegou o caderno embaixo da cama, suspirou e o folheou. Quando viu seu nome escrito em uma das páginas com a caligrafia afiada de Todoroki, seu coração parou.
