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Dazai podia imaginar tudo desde o possível ao impossível vindo de Nakajima, como ele lhe perguntando o porquê dele usar faixas no pescoço, de ter saído da máfia, qual era a cor preferida de Kunikida, quais eram as palavras que Yosano mais gostaria de ouvir, até mesmo se Ranpo tinha ou não um crush em alguém — não que ele soubesse, mas nada que fosse impossível descobrir —. Mas claro que o garoto era uma caixinha de surpresas e tinha que lhe pedir conselhos amorosos.
— Eu poderia dizer várias coisas, mas tenho certeza de que só tenho uma coisa a ser dita. — O rapaz colocou a mão sobre a mesa, deixando a marca dela no vidro graças ao calor que emanava de sua pele. — Isso é um crime.
— Não entendi — respondeu o outro garoto, confuso. Dazai podia ver nos olhos de Atsushi o quão desorientado ele estava com sua acusação.
— Atsushi-kun, para conquistar alguém, você precisa… esquentar as coisas. — Osamu mexia sua mão livre, gesticulava como se procurasse as palavras certas para que o amigo entendesse aonde ele queria chegar.
— Sim…? Por isso a comida estava quente.
— Não, não é esse tipo de esquentar — falou em um grunhido baixo, cobrindo o rosto com as mãos enquanto puxava suas bochechas para baixo ao deslizar as palmas por elas. — Você tem que tomar uma iniciativa, mostrar que está interessado em algo a mais, jogar verde.
— Ohh, entendi.
Dazai descobriu depois que Nakajima seguiu seu conselho ao pé da letra , pois literalmente jogou uma alface por cima da comida quente. Os orbes cintilavam como se ele estivesse fazendo certo agora e estava pronto para receber um elogio, o que fazia Osamu jurar que Atsushi mais parecia um cachorro esperando para ouvir “bom garoto” ao invés de um tigre.
— Atsushi-kun — chamou, suspirando e passando a mão na testa. Isso estava ficando difícil. — Também não é isso. — Calmamente, o homem se aproximou do albino e colocou as mãos nos ombros dele. — Você precisa ganhar a pessoa amada pelo estômago, ou mostrar que está a fim dela, foi isso que quis dizer com “jogar verde”, não colocar algo verde na comida.
— Significa que se eu jogar tinta verde no Akutagawa, ele vai entender? — A expectativa brilhava no rosto de Nakajima e Dazai não sabia como negar a esperança no olhar do pupilo.
— Eu vou ligar pro Chuuya.
Desistindo de todo seu esforço até então, o detetive resolveu ligar para o mafioso e ignorar sua mente gritando para falar com Kunikida, mostrando-lhe que o amigo seria muito mais confiável do que seu namorado. Mas teimoso como era, discou o número do amado.
— Me salva — foi a primeira coisa que disse quando o outro atendeu. — Como fazer o Atsushi mostrar pro Ryuu que ele gosta dele?
Após alguns minutos no telefone que mais pareceram horas, eles chegaram a uma conclusão: Osamu precisava ser direto para Atsushi entender.
— Eu preciso apimentar as coisas? — Nakajima pendeu a cabeça para o lado. — Só assim o Akutagawa vai entender o que sinto?
— Sim e não. Apimentando vai ficar mais… direto, você vai dizer exatamente o que quer.
Atsushi concordou, fazia sentido. Agradeceu todos os ensinamentos de Dazai, alegando que faria um grande uso deles, o que preocupava o mais velho, por motivos óbvios.
Ele só não esperava descobrir no dia seguinte que Nakajima não apimentou a relação deles e sim a comida.
— Não foi isso que eu disse. — Frustrado era a palavra certa para descrever o estado de Dazai Osamu naquele momento. — Quis dizer pra você falar que queria ficar com ele, beijá-lo, abraçá-lo, dormir com ele e outras coisas que casais fazem.
Atsushi passou um tempo em silêncio, olhando para seu instrutor com uma sobrancelha arqueada.
— Mas isso nós já fazemos…? — Nem mesmo o próprio Atsushi sabia se aquilo era uma afirmação ou uma pergunta. — Eu só queria saber se o prato estava bom ou precisava colocar algo a mais.
Dazai o encarou com as sobrancelhas cerradas, como se procurasse arrancar toda a verdade de dentro daquele serzinho à sua frente.
Um segundo se passou e Osamu ainda o fitava como se ainda faltasse algo, uma explicação; dois segundos, sua expressão foi suavizando e uma perplexa tomou conta de si; três, Dazai repetiu as palavras do pupilo em sua cabeça novamente; quatro, a realização de tudo que falou no dia anterior o acertou em um baque; cinco, ele estava horrorizado.
— Eu matei o Akutagawa — sussurrou, os olhos arregalados estavam presos agora no rosto de Atsushi, esperando alguma negação.
— Ele vive, não se preocupe. Descobri que ele gostou da ideia de apimentar a comida ao ponto que ele levou uma pimenta pra cama e disse para nos basearmos nela.
Talvez, Osamu pensou, que Atsushi não fosse tão inocente assim quanto ele achava.
— Agora nós vamos plantar várias pimenteiras para termos nossa própria horta de pimentas — comentou feliz, animado com a ideia de cuidar de plantinhas. — Ah, e ele pediu para te contar algo.
Temendo pela sua vida, ou melhor dizendo, pelos seus ouvidos, Dazai perguntou o que era.
— “Se você não sabe apimentar a própria relação, não dê conselhos culinários para a dos outros”.
O detetive tinha certeza que, naquele momento, ser morto por ingerir pimentas demais seria menos constrangedor do que escutar seu fracasso; que na verdade, era só um mal-entendido, já que Atsushi em nenhum momento especificou que queria saber sobre como estava a comida ou perguntou se ela estava boa.
