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Era uma tarde de segunda-feira. Uma criança de cabelos bicolores que continha um belo par de olhos heterocromáticos brilhantes entrou timidamente na sala de aula. Ele havia se mudado recentemente de cidade, então ainda não estava familiarizado com a nova escola.
Sentou-se numa fileira encostada à parede onde havia janelas e abriu sua mochila para pegar os materiais. Colocou na mesa primeiro o seu estojo vermelho e depois o seu caderno.
O pequeno adorava o primeiro dia de aula, pois amava vislumbrar o novo kit escolar. Abriu o caderno e sorriu, olhando para a cartela cheia de figurinhas do seu herói favorito, All Might. Contudo, o menino odiava usá-las. Sempre deixava os adesivos guardados consigo — isso jamais mudaria.
De repente, um menininho loiro de cabelos espetados como espinhos chegou sorrindo até ele.
― Oi, meu nome é Katsuki Bakugou. Qual é o seu nome?
― Meu… meu nome é Shoto Todoroki ― disse o menino, corado.
― Maneiro! Me mostra os colantes do seu caderno?
Shoto somente assentiu com a cabeça e abriu o caderno, revelando a coleção de figurinhas.
― Uau, quanto colante! Agora olha o meu! ― Bakugou apresentou-lhe o caderno também cheio de adesivos do All Might.
― Legal! ― Todoroki sorriu.
― Ei, vamos trocar? Eu quero aquela figurinha ali! ― Katsuki propôs animadamente enquanto apontava o dedo para a figurinha desejada.
― E-eu não troco… ― respondeu Todoroki.
― Sério? Então você me dá!
Como uma criança impulsiva que era, Katsuki puxou um dos adesivos do caderno do aluno novo e colou sobre a capa de seu caderno com um sorriso enorme.
― Prontinho!
― Você… ― Os olhos heterocromáticos de Shoto ficaram brilhantes ao se encherem de lágrimas, mas ele tentou não emitir o choro em sua voz. ― Você arrancou minha figurinha! Devolva! ― Todoroki gritou alto.
― Qual é o problema? ― perguntou inocentemente o Katsuki, conforme arqueava uma sobrancelha. ― Eu posso dar uma figurinha para você. Pode ser qualquer uma destas.
― Eu não quero! ― Shoto olhava para o buraco deixado pela falta do adesivo. ― Ficou um buraco! Eu te odeio!
― M-mas…
― Eu não quero mais falar com você!
Katsuki nunca pensou que uma figurinha arrancada do caderno pudesse fazer tão mal ao menino Shoto. Ele queria de verdade amigar com ele, não fez por mal, porém seu desejo de obter a figurinha falou mais alto naquele momento.
O garoto ainda queria a amizade do novo colega de classe, mas ele o ignorava durante os intervalos. Pensou em comprar uma cartela nova de adesivos como presente de desculpa, mas lembrou-se de que sua mãe, Mitsuki, nunca aceitaria tal ideia.
Numa tarde de sábado, enquanto brincava sozinho na calçada com uma bola de futebol, Katsuki avistou, na esquina da rua, um senhor gigante de cabelos vermelhos segurando um balde de água com o carro estacionado. Uma ideia iluminou em sua cabeça, então correu até o homem.
― Tio, eu posso ajudar a lavar o seu carro?
― De onde surgiu, pivete? ― questionou o adulto ao arquear a sobrancelha.
― Não importa. Posso lavar seu carro? ― O menininho abriu um enorme sorriso.
― Não. E por que quer lavar o meu carro, garoto?
― A mamãe não quer me dar dinheiro para comprar colante… ― respondeu Bakugou, arrastando o chinelo do pé no asfalto.
― O que é colante? ― estranhou o senhor.
― Figurinha para colar...
― Ela está certa, pirralho. Tem que aprender a economizar o bolso.
― Mas não é para mim, tio… ― Katsuki abaixou a cabeça com um semblante tristonho, reforçado pelo bico que fazia. ― Um menino ‘tá bravo porque arranquei um colante do caderno dele…
O adulto ficou pensativo por alguns segundos.
― E por acaso a sua mãe sabe que você está pedindo para lavar o meu carro?
― Não. ― Bakugou balançou a cabeça. ― Se descobrir, mamãe vai me bater com chinelo.
― Pivete, acho muito bonito da sua parte querer me ajudar para comprar figurinhas para o seu amiguinho, mas você não deve esconder as coisas de sua mãe. Aliás, cadê ela?
― ‘Tá conversando com a nova vizinha. ― Katsuki apontou o polegar atrás de si.
O adulto esticou o pescoço e observou por cima do carrão, de forma que avistou a mãe do menino e a tal vizinha (sua própria esposa) entrarem numa casa. Na verdade, ele e a mulher haviam se mudado recentemente para aquele bairro, então provavelmente sua esposa estava fazendo amizade com a vizinha.
Com certa pena do garoto, o homem deixou que lavasse seu carro, mas sem cobrar nenhum esforço dele. Mais tarde, ele informaria tudo para a mãe do menino; afinal, a mulher tinha o direito de saber onde seu filho se meteu.
Ele olhou o pequeno fazer a maior bagunça com seu carro, molhando-se todo com água e sabão. Porém, Katsuki achou aquilo divertido e tomou um banho de mangueira. O homem sorriu pelo esforço e deu uma caixinha de dez reais para ele, que agradeceu com um enorme sorriso no rosto.
Numa segunda-feira, Katsuki entrou na sala e Shoto virou o rosto.
― Me desculpe… ― começou o loiro, tímido. ― Eu não queria brigar com você…
Logo em seguida, Bakugou depositou três cartelas de figurinhas do All Might na mesa de Todoroki.
― Aceita o meu pedido de desculpas?
Aquilo não iria diminuir a pena do Katsuki, mas os olhos heterocromáticos brilharam. Ademais, nem seu caderno tinha tantas figurinhas do herói favorito.
― Tudo bem, mas só desta vez.
― Agora somos amigos? ― Bakugou ergueu a mão, esperando receber o aperto.
― Acho que sim. ― Shoto apertou a mão dele. ― Mas nunca mais arranque adesivos do meu caderno, entendeu? Mamãe me disse que roubar é feio!
― Ok, prometo... ― O loiro coçou a cabeça e sorriu envergonhado.
A partir daquele dia, Katsuki não roubava mais figurinhas do Shoto, e sim o seu tempo com ele, os sorrisos e o seu coração.
