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Ninguém sabia como, nem quando e nem por que aquele relacionamento existia, aparentemente Ranmaru e Camus nunca se deram bem, não suportavam alguns poucos segundos no mesmo ambiente, mas estavam juntos ali, frente a frente, na cobertura daquele restaurante chiquérrimo e caríssimo que Camus insistiu para o jantar.
Era o aniversário de namoro, guerra, ou sei lá como os dois chamam, parecia ser um dia bastante significativo.
— Falei que a gente devia ter ido na barraquinha da esquina... — ele reclamou, o queixo apoiado na mão e o pé frenético sobre o chão. Era o estado de tédio máximo de Ranmaru, incomodado com o silêncio ensurdecedor do local.
Não que fosse um fã de muitos seres humanos num único ambiente, mas ali não tinha um mosquitinho sequer além deles e os funcionários, e nesse detalhe, Camus pagou muito para que os dois fossem os únicos clientes do dia.
Pratos caros e chiques também demoravam a ser preparados, apesar de minúsculos, tudo tinha os melhores ingredientes da montanha sei lá das quantas do país na puta que pariu, todo aquele mimimi irritava profundamente o mais velho dos dois.
Seu paladar era apaixonado, na verdade, pelo baratíssimo dogão da esquina, onde todos pegavam o molho e acompanhamentos do mesmo recipiente, o melhor de tudo era poder colocar o quanto quisesse pelo mesmo preço.
— Eu nunca mais piso naquela rua nojenta, o fedor de gordura... — respirou fundo, tentando não vomitar com a lembrança olfativa desagradável. — Nem que você tente me arrastar desmaiado para lá.
Em contrapartida, Camus odiava os pobres e qualquer outro ser humano, com exceção, é claro, de sua rainha e o próprio Ranmaru, quer dizer, às vezes não.
Não estava disposto a correr risco de vida apenas para Kurosaki comer em um lugar de higiene duvidosa.
— É uma ótima ideia, na verdade. Vou fazer na próxima.
— Não ache que sou um boçal como você, Kurosaki, você não tem capacidade para uma coisa dessas.
— Você não disse isso na noite passada, quan-
No mesmo instante, Camus pegou num giro habilidoso a taça vazia na mesa e a apontou na direção do pescoço do outro. O garçom, que observava ao longe, quase engasgou e entrou em desespero, não havia mais ninguém da equipe por perto.
— Não se atreva, idiota! — esbravejou o loiro, ainda mantendo certa postura por estarem em público.
Ranmaru riu debochado e sem vacilar os olhares afiados, mas todo tipo de tragédia já tinha passado diante dos olhos de ambos.
— Vá em frente, mas eu sei que você não tem coragem porque me ama demais. — Kurosaki piscou um dos olhos e mandou um beijo, despertando a ira de Camus com vidro na mão.
— Seu plebeu maldito! — avançou nele, mesmo que a mesa os separasse, Camus deitou-se sobre o objeto para tentar concluir seu objetivo, felizmente não tinha nada em cima dela.
— C-com licença... — o mesmo homem resolveu interromper, agradecendo ao universo pela mensagem que recebeu no fone que estava usando.
Obviamente estava sendo bem pago para os servir, mas um homicídio já era demais. Camus, por breves segundos, olhou como se fosse acabar com ele também, porém sua expressão suavizou ao ouvir a seguinte frase:
— O jantar está pronto e será posto em instantes, senhores.
Com isso, mais três funcionários vieram, trazendo vários pratos que eram um mistério até então por estarem tapados.
— Finalmente! — Ranmaru pôde relaxar, alongar os braços e as pernas e se ajeitar na cadeira.
— Muito obrigado, cavalheiros! — Camus sorriu, totalmente pleno e educado, voltando para seu lugar como se nada tivesse acontecido.
— Bom apetite. — o garçom se curvou com os outros e saíram logo em seguida para fofocar em segredo sobre os clientes sem noção.
Quebrando as expectativas de seu acompanhante, Camus continuou a portar sua persona de mordomo, se levantando com toda graça para ele mesmo apresentar o que seria servido.
— Meu senhor, o cardápio de hoje foi rigorosamente escolhido por mim para satisfazê-lo. — Ranmaru franziu as sobrancelhas com a fala, mas esperaria para ver até onde isso daria. — Foram feitos com as melhores carnes, também contratei os melhores cozinheiros do país para trabalharem neles.
Havia carne em abundância, mas não tanto, tinha na verdade a quantidade que Ranmaru conseguia comer em média, já que desperdiçar não é uma palavra presente em seu vocabulário, muito menos no de Camus. Até mesmo ovo frito com arroz, considerado "simples demais", estava no meio. Nunca passou pela sua cabeça que Camus fosse tão observador a esse ponto.
— Após este banquete, teremos sobremesas especiais com frutas frescas e doces no ponto certo.
— De acordo com o meu gosto ou o seu? — perguntou para provocar, o loiro se segurou para não revirar os olhos.
Com ideias parecidas em mente, ao mesmo tempo que Camus segurou sua própria cadeira, Ranmaru se levantou e fez o mesmo, nem deu muito tempo para pensar e os dois já haviam chocado os objetos com força, deixando um constrangedor silêncio.
— Ficou maluco!? — Kurosaki se alterou, mesmo com tão pouco.
— Eu estava apenas tentando ser romântico ao sentar ao seu lado, — sua voz voltou ao normal e ele fechou a cara. — Deveria me agradecer pela gentileza, dente de leão cabeçudo.
— Ah, eu vou acabar com essa sua cara! — pronto para dar uma cadeirada em Camus, Ranmaru foi impedido pelo gerente que chegou às pressas.
Os outros garçons, na verdade, foram chamá-lo pois estavam com medo de algo acontecer porque os clientes discutiam desde a hora que entraram. Era confuso se eles foram para um encontro ou para brigar.
— Desculpe incomodá-los, mas ouvi reclamações não apenas de nossa equipe, também dos estabelecimentos ao redor pela gritaria, tentamos relevar por um tempo mas preciso que se retirem.
— Como é que é? — ele virou com ódio, verdadeiramente ofendido.
Nunca tinha sido expulso de qualquer lugar antes, e nem fizera algo para tal.
— A comida será entregue no endereço, peço desculpas pelo incômodo, mas…
— Como ousa interromper meu encontro, o pagamento não foi o suficiente?
— Camus… — o grisalho tentou, mas recebeu um empurrão.
— Que falta de respeito, por acaso você sabe quem eu sou? Esses pobres não têm senso?
— Opa, opa, eu passo os dados por mensagem, ok? Vou levar esse esquentadinho pra fora antes que um crime aconteça.
— Esquentadinho vai ficar a sua-
Felizmente, Ranmaru já tinha o levado para fora e ninguém mais conseguiu ouvir seu chilique.
Na rua fria, os dois agora andavam de mãos dadas a caminho de casa, do passeio que durou menos de quarenta minutos.
— Ei, a gente não fez nada de mais na noite passada, por que ficou tão nervosinho? — Ranmaru puxou o assunto porque o silêncio estava matando sua alma.
— Como "nada"? Aquilo não significou algo para você?
— Primeiro que você quase estragou a pipoca com aquele tanto de leite condensado, e depois vimos um documentário sobre seu país natal, mas eu dormi nos primeiros cinco minutos… — enumerou, com medo de ter se esquecido de algo e levar uma bengalada na cabeça por chatear Camus.
— Foi um desrespeito, tenho que admitir, mas te perdoei só porque você ficou fofo dormindo. — pegou o celular para mostrar seu novo papel de parede.
— Eh? Devo ter medo..?
Camus sorriu ao notar os olhos assustados de Ranmaru, que sádico, não é mesmo?
— Não.
Mais alguns segundos de caminhada, chegaram a frente do apartamento de Ranmaru, logo a janta com as sobremesas iriam chegar, pelo menos, teria o conforto de casa para comer como um porco em paz.
— Agora só esperar mais… Depois desse vexame preciso mesmo recuperar a energia e a dignidade. A velhinha do cachorro quente vai adorar o perrengue de pobre em restaurante chique.
— Você só sabe reclamar, desde que saímos de casa, não tem um mísero agradecimento?
— Não tô reclamando e também não te pedi nada, queria estar dormindo com meus gatos agora.
— E eu não paguei caro e nem escolhi coisas que só você gosta de comer para te deixar irritado… Peço… Perdão pelo… Vexame.
— Nossa, você me ama mesmo, hein!? — riu, mas sua expressão feliz se transformou em dor quando o loiro apertou seus dedos com força. — Ai! Ai, Camus! Solta minha mão! Seu desgraçado.
— Pare de falar bobagens.
Em seguida, Camus pegou novamente a mão alheia, trazendo até seus lábios em um singelo toque.
— Você pega a comida e eu arrumo a mesa? — sugeriu assim que a porta foi aberta, sendo recepcionados pelos gatinhos.
— Fechado!
