Actions

Work Header

Lareira

Summary:

Rubens adora fotografar cenários que passam sentimentos fortes. Em uma noite de natal ele encontra um estranho em um parque gelado e a emoção que a cena passa é muito forte para ignorar.

Notes:

Prompt de @AndromedaHcs nesse tuite: https://twitter.com/AndromedaHcs/status/1458964303839698953?t=pN6N4bbAp-j-noPI109wWA&s=19

Dedicado à: @veritatt (no twitter). Feliz aniversário, Joui Stan jogador de Roblox! Muito obrigada pela ajuda, hon. Não te amo e você sabe porque. 💜💜💜

Agradecimentos especiais para: @AHoney2111 (no twitter) por sofrer comigo no processo criativo. E para minha incrível beta @hypolitokell (no twitter)💜💜

Kudos e comentários são apreciados!

Universo Alternativo de Ordem Paranormal, criação de Rafael Lange (Cellbit), personagens de Felipe Zaghetti (Felps) e Thiago Elias (Calango)

 

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.
Autora: Amy Di Valerie
Você pode compartilhar e adaptar este conteúdo, desde que me credite.
Uso comercial não é permitido.
Esta obra não pode ser usada em bancos de dados para treinar inteligência artificial ou modelos de aprendizado de máquina.

Work Text:

Fotografia é sua paixão, capturar a beleza da natureza, as emoções das pessoas,  registrar as mais especiais memórias, é isso que lhe dá prazer. E mesmo que agora esteja trabalhando no ramo mais “superficial” da área, viajar para cobrir eventos de moda ainda permite que ele faça o que gosta. De que outra forma ele estaria no Public Garden em Boston na noite de Natal? Podendo registrar o encanto melancólico das árvores cobertas de neve, o lago congelado e as luzes de Natal.

Se tem uma coisa que ele adora fotografar são parques com estação bem definida, como na Bahia onde encontrou um parque ensolarado e crianças se divertindo nas fontes de água, a alegria de verão contagiando todos em volta; ou o parque em Minas, cheio de cores com tantas flores diferentes recém desabrochadas e casais apaixonados, ele capturou a esperança de um futuro feliz; ou no Canadá, onde registrou uma família abraçada, confortável entre as folhas vermelhas e alaranjadas caídas, Rubens ainda consegue sentir o calor e carinho que a cena apresentou.

Agora escaneando a paisagem gelada do parque, Rubens registrou um homem sentado em um banco de frente para o lago congelado; agarrado a um presente como se fosse um colete salva-vidas, e ao olhar para a foto que bateu, Rubens não via nada além de tristeza e solidão. Abaixando a câmera e observando o homem, ele se sentiu atraído a ajudar, apesar de não ser extrovertido e não gostar muito de conhecer pessoas novas, ele não podia deixar o cara lá, sofrendo, sozinho, no frio… Ainda mais na noite de Natal! Ele respirou fundo e se aproximou.

“Excuse me… Are you okay?” Esperava que seu sotaque carregado não fosse um problema para que o homem o entendesse. Viu ele limpar o rosto com pressa e sorrir de uma forma que que Rubens imaginou doer de tão forçado que parecia.

“Desculpa, baixinho, mas no compreendo tus.” O homem respondeu de forma exagerada fazendo o mais novo pensar que talvez tenha lido a situação errado.

“Brasileiro?” Perguntou apontando para o estranho. “Eu também” Concluiu apontando para si; o rosto do estranho se iluminou minimamente, uma pontada de alívio em ouvir outra pessoa falar sua língua.

“Ah! Que bom! Sabe, o povo daqui não liga muito pra quem não entende a língua, uma vez eu fiquei uma hora tentando pedir um bife no restaurante e a mulher ficou me olhando como se eu falasse grego. Isso sem contar—”

“Você tá bem? Triste?” Decidiu cortar o monólogo, não que não ligasse para os problemas que o homem mais velho enfrentou em terras estrangeiras, mas não era por isso que Rubens estava ali.

“Que? Não, não. Eu tô bem. Só de olho na paisagem.” O homem olhou em volta e realmente o parque estava lindo. “Antônio.” Ao voltar os olhos para o mais baixo, o homem ofereceu a mão.

“Rubens.” Ele aceitou e, para sua surpresa, o aperto era mais gentil do que imaginava.

“Prazer em te conhecer, Rubinho. O que tá fazendo por aqui?”

“Rubens.” Corrigiu, franzindo o cenho. Tinha a sensação que Antônio queria tirar a atenção de si, e é claro que não acreditou quando ele disse que estava bem. Então resolveu responder a pergunta mostrando a tela da sua câmera.

“Fotos. A paisagem é bonita.”

Balu se viu ao olhar para a câmera, o nariz vermelho, olhos inchados, rastros de lágrimas, que ele ainda sentia como se estivessem congeladas em seu rosto, e em seus braços o presente tão colorido que parecia ser a única coisa viva na imagem… Uma trágica ironia. Sentindo novas lágrimas surgindo, Balu limpou a garganta antes de comentar.

“Nossa, Rubinho, você é bom tirando foto… Mas da próxima vez avisa pra eu dar um sorrisinho.” E assim, enquanto ele falava, o sorriso forçado estava de volta em seu rosto, Rubens notou alguns espasmos de Antônio de tempos em tempos, quando estava se aproximando pensou se tratar do choro, mas agora percebeu: ele estava com frio! Olhou novamente para a foto que tirou minutos atrás e pensou no que o homem, claramente fingindo não estar  miserável, disse; uma ideia surgiu.

“Rubens. Modela pra mim? Quero uma sorrindo. Não aqui… Frio.” Se abraçou fingindo um tremor para reforçar seu ponto, apesar de estar mesmo com frio.

Balu olhou para o outro surpreso pelo convite, sentiu tentado a aceitar só pelo jeito gentil do mais novo, mas o presente começou a pesar em seu colo, o prendendo à realidade. Mesmo se quisesse não conseguiria levantar do banco, a culpa seria ainda maior de suportar e não estava pronto.

“Hoje não, Rubinho, obrigado.” Seu tom estava mais sério e triste que antes, e Rubens sabia que o cara podia ser um pouco irritante, mas não podia deixar ele sozinho assim. Respirou fundo mais uma vez e se sentou ao lado de Antônio.

“Quer conversar?” Perguntou e viu a expressão do mais velho sair de surpresa para triste, ele balançou a cabeça negativamente, os lábios se comprimindo de forma que o grosso bigode os cobria por completo. Rubens acenou com a cabeça. Se o homem só precisava de alguém ao seu lado, então é isso que ele seria.

Aproveitando o novo ângulo, preparou a câmera e tirou outra foto do lago congelado. Balu olhou de relance para a nova imagem, o branco predominando, com luzes no fundo, era um misto de melancolia e alegria.

"Você é bom com esse negócio aí, Rubinho."

"Rubens… Obrigado. É meu trabalho. Por isso tô aqui, teve esse desfile de moda e eu tinha que fotografar as peças." Rubens sorriu tímido para o elogio.

"Que massa! Por isso queria tirar foto de mim, né? Me achou um modelo bonitão." O sorriso charmoso e brincalhão do homem fez o mais baixo soltar um riso, quando seus olhos cruzaram Rubens pôde ver que, assim como em sua última foto, a alegria em Balu estava cercada pela tristeza.

"E você? Por que tá aqui, Antônio?' Perguntou, esperando que agora ele estivesse preparado para conversar. Antônio olhou para o lago com um sorriso triste.

"... Balu… Pode me chamar de Balu."

"Balu?” Rubens perguntou confuso.

"É… Minha sobrinha, ela adora Mogli, sabe? O filme da Disney?" Balu se virou para Rubens e viu ele balançando a cabeça negativamente. "É sobre um menino humano que é criado por lobos e os melhores amigos dele são uma pantera e um urso. Bem, meu irmão é a pantera e eu o urso… Balu." Ele explicou, as memórias da sua doce sobrinha o chamando dessa forma, as vezes que cantaram ‘Somente o necessário’ enquanto carregava ela em seus ombros.

"Ah… Apelido legal, você parece um urso mesmo." Assim que disse, Rubens fez uma careta, confuso com a própria frase. Balu riu e balançou a cabeça.

"Obrigado…" Ele voltou o olhar para o lago congelado. "Sabe, a gente tava num quarto que tinha vista pra um desses negócio’ que as pessoas patina’ no gelo, e quase toda a noite a gente via o pessoal lá embaixo rindo e se divertindo… Eu prometi pra ela que a gente ia patinar também, antes de voltar pro Brasil…" Balu abaixou a cabeça, encarando o presente triste. "Eu comprei esses patins com luzinha pra ela de Natal…"

O tom de Balu mudou enquanto ele falava, se tornando mais sério, Rubens sentia como se estivesse sendo levado até a beira de um precipício.

"Era o quarto do hospital que ela…" Ele não terminou, o resto da frase se prendeu em sua garganta e lágrimas voltaram aos seus olhos; respirou fundo antes de tentar de novo. "... Que ela 'tava internada. E ontem ela não…" Balu falou pausadamente, mas de novo não conseguiu terminar, as lágrimas caíram em cima do embrulho, soluços começaram quando ficou difícil respirar em meio ao choro.

Era difícil ver um homem tão grande praticamente se dobrar no meio de tão forte que era o pranto. Não pôde se segurar e abraçou o outro tanto quanto conseguia, uma mão acariciando de forma reconfortante as costas dele.

"Eu devia ter dado o presente antes, Rubinho… Ela nem chegou a ver e…" Ele não terminou a frase, mas não precisava também, Rubens entendia. Continuou abraçado a Balu que retribuiu o abraço por um breve momento. 

Balu se afastou um pouco do abraço, um braço ainda em volta dos ombros do mais baixo. Olhando para Rubens, o jovem fotógrafo brasileiro, com a pele e olhos escuros, cabelos longos, brancos e cacheados, e lábios em um estranho tom de azul… Muito parecido com outros que viu não muito tempo atrás.

“Ave Maria, Rubinho! ‘Cê tá congelando! Vamo’ sair daqui, ‘cê conhece algum lugar aqui perto?” Balu se levantou fazendo uma manobra para apoiar o presente embaixo de um braço, enquanto o outro ainda estava em volta de Rubens, levantando o coitado sem muito aviso.

“Rubens— Balu!...” O mais novo levantou surpreso, mas sorriu com a possibilidade de um lugar aquecido e confortável. “Sim, cafeteria na esquina à esquerda."

Os dois começaram a andar, ainda abraçados, poderia parecer estranho, mas nesse ponto, ficar alguns passos abraçados em troca de calor não era nada.

“Você é legal, Rubinho. Obrigado por me fazer companhia… ‘Cê nem me conhece e ficou sentado no frio comigo…”

“Não é bom ficar sozinho no Natal.” Respondeu dando de ombros. Balu sorriu percebendo que não foi corrigido dessa vez.

Não pensou que iria fazer um amigo nessa viagem, considerando a ajuda que Rubens foi só de estar próximo, Balu considerou ser um milagre de Natal… Mesmo que o milagre que ele mais quisesse não tivesse se realizado. Eles se separaram ao entrar na cafeteria, um lugar confortavelmente quente, com uma lareira de verdade acesa, algumas poltronas de frente a ela e outras poucas mesas espalhadas pelo resto do estabelecimento que também tinha um longo balcão com bancos. Uma troca de olhares foi o suficiente para saberem que os dois queriam se sentar nas poltronas perto da lareira.

“Quer beber alguma coisa?” Rubens perguntou esfregando as mãos.

"Não, não, Rubinho, eu tô bem. Obrigado." Balu considerou pedir algo, mas, na verdade, só estava ali para que Rubens pudesse se aquecer. 

O mais baixo balançou a cabeça positivamente e ofereceu um joinha para Balu antes de ir em direção a um atendente atrás do balcão. O mais velho sorriu e foi até uma das poltronas e se sentou, alisando o embrulho em seu colo. Olhou em volta percebendo a decoração da cafeteria: vários quadros com fotografias de diferentes cidades famosas, itens relacionados a café e doces nas prateleiras. Por ser pequeno, estar tão cheio assim dava a sensação acolhedora, como a casa de uma avó. Notou em um canto do estabelecimento uma grande caixa decorada como um embrulho de presente com uma placa em cima que dizia "Help us support the Boston Children! Donate toys here!".

Rubens chegou e colocou uma bandeja em cima da mesinha de centro, um pratinho com cookies entre duas canecas com bebidas marrons e quentes chamou a atenção de Balu.

"Chocolate quente. Cookies com chocolate." Rubens apontou para cada item enquanto falava, antes de sentar na própria poltrona.

"Obrigado, Rubinho, mas não precisava…"

"Come." Disse, tão firmemente como nas vezes que corrigiu o homem, pegando o prato e estendendo na direção de Balu, que riu antes de se dar por vencido e pegar um dos cookies.

"Obrigado. Ei, Rubinho, sabe o que tá escrito ali?" Perguntou apontando para a caixa no canto e comeu um pedaço. Rubens colocou o prato de volta e pegou uma das canecas, bebericando enquanto olhava para onde Balu apontou.

"Ajudar. Crianças. Doar. Brinquedos." Respondeu voltando a se ajustar na poltrona, ficando mais confortável. 

Balu olhou da placa para Rubens tentando entender se o baixinho estava brincando ou se a língua inglesa era mais estranha do que tinha pensado. Mas mesmo com a forma resumida de Rubens, Balu conseguiu confirmar sobre o que a misteriosa caixa se tratava, reflexivamente ele apertou os braços em volta do presente. Rubens percebeu o movimento dele.

“Sinto muito, pela sua sobrinha…” Disse tentando olhar nos olhos de Balu, o homem acenou com a cabeça e estendeu a mão para pegar a segunda caneca de chocolate quente, pela primeira vez não oferecendo uma resposta.

Continuaram sentados aproveitando a presença um do outro e o calor vindo da lareira, assim como os cookies e bebidas, o que foi o suficiente para levantar o espírito de Balu, mesmo que minimamente. Olhando para fora através da janela do estabelecimento, podia ver o parque onde encontrou o mais jovem. A paisagem fria não parecia tão hostil quanto quando estavam de frente para o lago. Balu pensou sobre os filmes de Natal que assistia com sua sobrinha, como tudo sempre parecia tão quente e reconfortante, mesmo com a neve cobrindo tudo.

Se lembrou de outro filme infantil, um que ensinava que era comum se sentir triste, importante por vezes. Se permitir sentir era aceitar o que estava acontecendo, liberar sentimentos que poderiam o afogar mais tarde… Era o que tinha tentado fazer mais cedo, quando se deixou levar até o parque, queria se permitir sentir o luto, com a ajuda do frio e da solidão. Só agora, olhando para esse cenário de um lugar acolhedor, percebeu a importância de não ficar tanto tempo naquele estado, de seguir em frente para um lugar quente e com companhia; devia se permitir sentir, mas não ficar preso ao sentimento. Inspirou fundo sentindo o aroma do chocolate em sua caneca, observando as luzes coloridas piscarem do lado de fora. Foi tirado de seus pensamentos pelo som de uma câmera sendo usada, e se virou para Rubens confuso.

“Sorrindo.” O fotógrafo diz mostrando a terceira foto da noite.

E ali estava Balu de perfil e emoldurado pela janela e as luzes de Natal em volta dela. Era possível ver o lado de fora, o parque com as árvores cobertas de neve, a caneca em sua mão praticamente descansava sob o presente, e ainda a característica mais marcante era o sorriso no rosto de Balu, ainda que quase tímido era o suficiente para mostrar o quão bem ficava no homem.

“Uai, Rubinho! ficou bonito demais! ‘Cê me queria de modelo mesmo, né? Tô de olho…” Rubens se assustou com a exclamação repentina de Balu, e balançou a cabeça para a brincadeira.

O mais velho devolveu o dispositivo de Rubens que observou a foto por mais alguns instantes. Talvez fosse isso que o inverno representava: a necessidade de conforto; é uma estação para ser vista de fora do cenário, te fazendo pensar nas coisas boas que ainda lhe sobram. Voltando o olhar para Balu, Rubens se perguntou se as coisas boas na vida do homem eram o suficiente depois de uma perda como essa. Abaixando os olhos para o embrulho no colo dele percebeu outra coisa, e com o cenho franzido de determinação decidiu compartilhar.

"Você não perdeu ela." Foi a vez de Balu se surpreender com a fala repentina, encarou o mais novo esperando que continuasse.

"Eu sei que é bem difícil, e que pode parecer clichê, mas ela sempre vai estar com você, e você ainda pode cumprir suas promessas." A determinação de Rubens era tão intensa que fazia ele parecer bravo.

Balu queria discordar, rebater que ela se foi e que isso de quem morreu não nos deixar de verdade era besteira, mas então se lembrou da música, a única música que aprendeu a tocar, a música que cantava para ela desde que era um bebê e se sentia orgulhoso de conseguir fazer sua sobrinha dormir só com o som de sua voz; lembrou em particular de um verso "no meu coração você vai sempre estar". Não pôde conter o que seria a quarta ou quinta crise de choro do dia.

"Desculpa… Eu não queria…" Rubens se assustou com a reação que recebeu, e com um reflexo rápido deixou sua caneca em cima da mesinha e praticamente se jogou no outro, abraçando ele enquanto se sentava de forma desconfortável no braço da poltrona.

Rubens pensou que o abraço que recebeu de volta o esmagaria, os braços de Balu eram firmes em sua volta e o maior afundou o rosto em seu casaco, as lágrimas ainda rolando e os soluços quebrando o coração do fotógrafo. Começou a passar a mão pelas costas de Balu em uma tentativa de confortar o maior.

“Cê tá certo, Rubinho…” Balu disse, no tom de voz mais baixo que Rubens ouviu nesta noite, quando o choro começou a cessar. “Ela tá aqui… Comigo… Com a gente.” 

Rubens se sentiu aliviado ao perceber que o choro do novo amigo não era só tristeza ou por sua causa, não totalmente pelo menos. 

No meio do abraço, os olhos de Balu caíram sobre a caixa de doações novamente, seu coração apertava só de pensar em colocar o embrulho, o peso dele em seu colo aumentando… Um dia ele conseguiria dar esse passo, se desprender assim, mas não hoje, não agora. Afundou o rosto no casaco do fotógrafo de novo ao sentir as lágrimas voltando. Com isso, Rubens apertou mais o abraço em volta de Balu, que sorriu com o gesto, estava começando a apreciar cada vez mais seu milagre de Natal.

 

(...)

 

Uma semana se passou e, por algum milagre, Rubens conseguiu encontrar um rinque de gelo aberto na véspera de ano novo, tinha até mais público do que ele esperava, com famílias, adolescentes e alguns casais. As crianças patinando a toda velocidade dava a sensação de que seria fácil.

“Viu, Rubinho? Eu falei que ia ‘tá cheio!” Balu disse, passando um par de patins brancos para o mais baixo que respirou fundo antes de pegar e começar a calçar. Estava começando a se arrepender de ter dado a ideia, e quando disse pro amigo que ainda podia cumprir a promessa não pensou que iria junto.

“Rubens. Não é uma coisa boa.” Respondeu começando a sentir o nervosismo subir por sua barriga, nunca foi muito fã de lugares com muitas pessoas, e quem dirá de muitas pessoas vendo ele fazer algo que não sabe.

“Fica tranquilo, eu não vou deixar ‘cê cair e passar vergonha.” Rubens até acreditaria no maior, se ele não tivesse se desequilibrado e quase caído sentado de volta. “Viu…? É fácil…”

Balu ainda  tentou soar convincente, mesmo se agarrando a borda do rinque, nem estava no gelo ainda. Rubens se levantou praticamente ficando de quatro ao usar o banco como apoio; arregalando os olhos, Balu se virou de frente para o gelo, não queria ficar encarando. O mais baixo respirou fundo e se endireitou, os braços estendidos tentando manter o equilíbrio, as pernas tremiam com o esforço de se manter sob duas lâminas afiadas.

Com dificuldade, ele chegou na entrada do rinque onde Balu já estava esperando, uma mão firme na borda e a outra estendida para ajudar Rubens. Ele aceitou a mão e pisou no gelo com receio, incrivelmente seu pé continuou parado no lugar ao invés de sair deslizando como pensou que aconteceria . Balu sorriu animado, aparentemente surpreso, por Rubens conseguir entrar no rinque sem perder o equilíbrio.

“Viu, Rubinho? É fácil—” Balu começou a dizer, mas assim que soltou a mão da borda e se virou para Rubens, seu pé escorregou e ele caiu de costas no gelo, não seria tão ruim se ainda não estivesse segurando a mão de Rubens, que não teve chances e caiu em cima de Balu.

“Tá bom, não tão fácil..." A risada de Balu estava entre divertida e nervosa, mas ainda era a primeira vez que o fotógrafo ouvia ele rir, ficaria contente pelo amigo estar se divertindo, se não fossem as risadas no fundo de sua mente.

“Já quebrei minha promessa, né?” Balu perguntou com um meio sorriso, mas o receio em seu tom era claro. Se sentou quando Rubens saiu de cima corado, o mais baixo olhava fixamente para um ponto no gelo, evitando o olhar de Balu e dos outros patinadores.

“Não era uma promessa. Tá tudo bem.” Disse balançando a cabeça brevemente.

“Tá mesmo?” Balu percebeu que o fotógrafo ainda evitava olhar para o resto do rinque e as pessoas nele, apesar do olhar de relance e o joinha que recebeu em resposta.

“Ei, a gente tá aqui pra aprender, né? Pelo menos agora a gente já sabe cair, agora só falta andar e fazer aquelas pirueta doida.” Disse se levantando e usando a borda de apoio de novo. “E a gente dá um gelo em quem achar graça… ‘Tendeu? Gelo.” 

Deu umas cotoveladas leves em Rubens que também se levantou, e, apesar de revirar os olhos pra piada, tinha um sorriso tímido em seus lábios. Era o suficiente para Balu saber que disse a coisa certa, Rubens não parecia mais tão desconfortável e agora poderiam cumprir sua promessa.

Eles aprenderam a patinar, ainda era difícil e estranho, e a única “pirueta” de Balu resultou em um nariz sangrando, decidiram deixar o gelo para trás depois disso. Encontraram outra cafeteria, era, ao mesmo tempo, diferente e similar a outra: também tinha uma lareira, mas um sofá fazia companhia para as poltronas confortáveis, e era uma livraria também, com estantes cheias de livros que os clientes podiam ler à vontade, obviamente um lugar em que a clientela prefere paz e silêncio. 

Enquanto se ajustavam em uma posição confortável no sofá, Balu pensava em quão interessante era, como sempre depois do frio, eles conseguiam encontrar uma lareira para se aquecer.