Chapter Text
Não há muitos guerreiros nas Planícies Asiáticas capazes de atingir um título como “Um Milhão de Templos”, e não há muitos que ousam desafiar aquele que o atingiu. Keiji Shinogi, há muito tempo Grande General do reino de Son’Ikei, se tornou um dos poucos que desafiou tal guerreiro, não por querer, mas por precisar.
Era início da noite quando o soldado Shin muito timidamente relatou ao Grande General Shinogi que houve estardalhaço no mercado. Normalmente, Keiji nunca toleraria que um soldado de patente tão baixa falasse diretamente com ele, mas diante das circunstâncias, sua melhor opção era focar no relatório.
“Um problema com artistas de rua?” perguntou ele, franzindo as sobrancelhas. “Eu não tenho tempo para perder com isso.”
“S-senhor Grande General, no fim do relatório…”
O humor de Keiji já não era dos melhores normalmente, na presença desse soldado, que ele muito repudiava, ficava pior ainda. Mas se consideraram aquele problema grande o bastante para alarmar o Grande General, então ele deveria ao menos ler o relatório.
Conforme passava os olhos pelas linhas cuidadosamente diagramadas, eles se arregalaram. Pelo jeito, aquele não era um problema de agora; mas os responsáveis foram negligentes com o caso ao ponto de se tornar tão impraticável que precisavam do Grande General. Keiji realmente não estava surpreso, só decepcionado.
Segurando um suspiro, Keiji leu as últimas frases:
“Na tarde do referido dia, o artista de rua mais uma vez apareceu para se apresentar em frente ao Palácio Real. As advertências não foram suficientes para que ele se retirasse, de forma que os soldados usaram a força. O artista correu para as áreas afastadas no sul e iniciou uma perseguição. Os soldados responsáveis pela perseguição não relataram novamente.”
Suas sobrancelhas se franziram ainda mais. Ele sabia o que aquele fim de relatório significava: os soldados não retornaram após perseguirem o artista. Mas um artista de rua normalmente seria incapaz de sobreviver à “força” da operação, então o que havia ocorrido?
“Tem outros arquivos relacionados com o caso, Tsukimi?”
“Não, senhor Grande General. O Tenente Hiyori me instruiu…” Ele arregalou os olhos e parou de falar, a voz presa em sua garganta. “E-eu…”
“Tsukimi, eu já sei que foi o Midori quem ordenou que o caso chegasse até mim. Não é nada escandaloso, todos sabem quem é o ratinho dele.”
Shin não respondeu e se resignou a abaixar a cabeça, envergonhado. Keiji, por outro lado, imaginou que aquilo daria mais trabalho do que ele gostaria.
No dia seguinte, Keiji saiu segurando seu capacete, esperando que os transeuntes ignorassem as enormes olheiras sob seus olhos. Uma noite pesquisando casos não faria bem para nenhum oficial, e, quando ele percebeu que era pior do que imaginava, sua vontade de lidar com aquilo evaporou ainda mais rapidamente.
Enquanto ele andava pelas ruas que circundavam o Palácio Real, o cenário era agradável. O cheiro de arroz recém feito inundava o ar, as casas possuíam pintura nova e as crianças brincando nas ruas estavam bem vestidas e limpas. Várias patrulhas de soldados andavam para lá e para cá, e todos que topavam com Keiji, fossem militares ou civis, abaixavam a cabeça em respeito ou encolhiam os ombros diante daquela figura intimidadora. A rua de pedra cinza estava varrida e cuidada, sem buracos; qualquer um que visse a cena do Grande General Shinogi andando por aquelas ruas imaginaria que Son-Ikei é um reino próspero e seguro.
De certa forma, era esse o problema. O artista de rua do caso levado a ele por ordem de Hiyori era conhecido pelos cidadãos como “cachorro dos reinos”, não por ser leal, mas por ficar vagabundeando por aí e causando problemas. A figura de um artista maltrapilho apresentando na frente do Palácio Real já era bem problemática; mas, conforme Keiji falava com os mercadores e moradores dos arredores, as coisas se agravaram.
“‘Cachorro dos reinos’ é o título que os conservadores colocaram nele! O senhor Tazuna é um ótimo artista!”
“O mano Joe? Ele foi embora ontem à tarde… Mas eu gostava de ver as apresentações dele!”
“Ele era até bonitinho”, comentou uma jovem dama de casa nobre. “Mas sabe, senhor Grande General, as apresentações dele eram repletas de sátiras… Se é que me entende. Eu o alertei sobre isso, mas ele disse que tudo ficaria bem. Por favor, não o machuque. Ele… é um bom rapaz.”
Keiji sentia que aquilo seria bem problemático mesmo . Um artista conhecido como “cachorro dos reinos” ter conseguido apoio dos civis da alta sociedade era bem ruim, ainda mais considerando que suas apresentações eram críticas ao governo. Ele precisava dar um jeito naquilo o quanto antes, ou as coisas poderiam crescer em proporções incontroláveis.
Logo, precisaria seguir para a parte periférica da cidade.
A mudança no cenário era gradual, mas a faixa de casas da classe média não tinha nem três metros de rua. Depois daquilo, tudo mudava drasticamente. As ruas não eram mais lapidadas pelos tijolos de pedra cinza, as poucas casas não possuíam pintura, e as crianças eram sujas, vestindo trapos e brincando com insetos. Os moradores olhavam para Keiji com uma mistura de hostilidade e reverência. Alguns o respeitavam por terem testemunhado sua bravura em defender as casas da periferia nas guerras; outros tinham o mais puro desgosto por ele ser um militar de grande influência e poder entre os nobres e sacerdotes.
Uma moça de longos cabelos de cor rosa avermelhada olhou para ele com uma expressão indecifrável, então Keiji foi até ela.
“Senhorita, você viu algum artista de rua sendo perseguido por oficiais?”
“O ‘cachorro dos reinos’, não é?” Ela abaixou o rosto e suspirou. “Eu…”
“Kokoro!” Uma voz feminina gritou do outro lado da rua e veio correndo até ela. “O que… senhor Grande General…!”
Keiji manteve sua expressão inabalável e séria, mas estava desesperançosamente perdido na situação. E, além do mais, ele sabia quem “Kokoro” era; não adiantava usar nomes falsos. Mais uma vez, ele segurou um suspiro.
“Senhorita Yabusame, sua mãe não gostará de saber que você saiu do Palácio Real novamente”, disse ele em voz baixa para a recém-chegada. “Recomendo que retorne o quanto antes.”
Reko Yabusame era uma nobre, irmã do problemático Alice. A reputação dos dois na nobreza não era das melhores; Alice era violento e vulgar, enquanto Reko vivia se esgueirando para encontrar com sua antiga aia, Nao Egokoro, que havia sido banida do Palácio por ter supostamente roubado suplementos artísticos. Mas Keiji nunca simpatizou com a nobreza, e não tinha motivos para agir com Reko como se ela fosse uma delinquente. Se Reko mantivesse silêncio sobre ter saído e o encontrado no caminho, nenhum deles teria problemas.
“Senhor Grande General…” Ela parecia querer dizer algo, sua expressão feroz e destemida repentinamente derretendo. Ela abaixou a cabeça em um cumprimento agradecido e frustrado e saiu, dando um último olhar para Nao.
“Agora, senhorita Egokoro, o que estava falando sobre o ‘Cachorro dos Reinos’?”
“Ele… é uma boa pessoa.” Ela segurou as mãos nervosamente, evitando contato visual. “As crianças o adoram e ele é gentil. Mas se o senhor Grande General que saber o que aconteceu ontem, esta aia não sabe.”
“Ele cresceu aqui?”
“Não, o senhor Tazuna veio de outro lugar. Disse que era do oeste, mas não mencionou se era vila ou reino, nem o nome. Desculpe.”
“E ele estava acompanhado?”
Nao abriu a boca como se estivesse prestes a dizer “sim”, mas se impediu no meio do caminho. Antes que Keiji pudesse pressioná-la, ele notou uma massiva mancha de fumaça subindo ao longe. Seus olhos arregalaram e ele apertou os punhos, prestes a correr naquela direção, quando os civis começaram a gritar: “O Grande Templo! O templo de Sua Majestade!”
Keiji sentiu um arrepio percorrer seus ossos enquanto corria em direção ao Grande Templo. Sua Majestade era a atual governante de Son-Ikei, e os templos construídos por ela eram numerosos; mas o Grande Templo era o maior patrimônio do reino, repleto de tesouros refinados, tecidos caros do Oriente Médio, estátuas de metais nobres e incontáveis oferendas, sem falar nos sacerdotes e sacerdotisas que serviam ao templo. Se aquele lugar estava queimando, era sem dúvidas um evento criminoso, e um de escala muito grande.
Quando se aproximou mais e mais, o cheiro da fumaça ficou mais forte. Keiji notou que não havia ninguém nas ruas, exceto por uma ou duas crianças desmaiadas, o que era muito, muito estranho. Ele não encontrou multidões assustadas no caminho, então como poderia não haver civis abarrotando as ruas na tentativa de fugir, alertar as autoridades ou descobrir o que estava acontecendo?
Foi então que um cheiro se misturou à fumaça: sangue. E, encobrindo aquele odor metálico, a fragrância doce e suave de incensos dançava em seus sentidos. Keiji tinha um pressentimento ruim e queria ver se tinha alguém nas casas, mas sua prioridade era o Grande Templo. Faltavam apenas duas quadras e ele estaria lá, então correu.
Quando finalmente pôde encarar de frente a enorme e luxuosa construção que era o Grande Templo, seu rosto empalideceu num instante. Os numerosos degraus das escadas brancas estavam manchados de vermelho, corpos se espalhavam, e, observando aquele enorme templo queimar, uma única figura permanecia de pé, de costas para ele, no topo dos degraus.
Era uma mulher que não chegava aos 20 anos. Seu cabelo ruivo, preso em um rabo de cavalo alto, balançava com o vento e a fumaça, dando a ela uma impressão etérea. Uma espada pendia na sua cintura, amarrada pelo cinto roxo escuro da hakama, e a mão direita daquela mulher repousava sobre o cabo da espada.
Keiji estava paralisado. Aquelas pessoas mortas eram cidadãos do reino que ele jurou proteger, e agora, o sangue delas pintava os degraus antes divinos do Grande Templo, que mergulhava em chamas. A gravidade de um crime como esse era imensurável, e foi tudo sem dúvidas orquestrado por aquela mulher.
As mãos dele tremiam levemente, mas antes que desse o primeiro passo na direção dela, a mulher virou parcialmente. O rosto dela era nobre e bonito, suas expressões finas e soberanas, e seus olhos violetas eram profundos como o mar, afiados como uma faca. Sua franja direita assimétrica flutuava com o vento e a fumaça, mas a mulher não levantou um dedo para ajeitá-la. Ela apenas encarava Keiji com aqueles olhos frios e letais antes de lentamente caminhar em direção a ele.
Keiji não sabia o que fazer. Se aquela mulher havia matado todas aquelas pessoas que agora manchavam as escadas, ela foi sem dúvidas rápida. Além disso, havia soldados entre aqueles corpos; soldados treinados. Quem sequer era ela?
Conforme ela se aproximava, o grampo prateado que prendia seu rabo de cavalo refletia o fogo, e Keiji se repreendeu. Ele sabia quem era ela.
“Um Milhão de Templos”. Um guerreiro conhecido por afundar os reinos em caos, sem nunca diretamente entrar num campo de batalha; um guerreiro sem exército, um pária, que incendiava todos os templos de todos os reinos em que pisava. Um guerreiro que destruiu um milhão de templos.
Quem diria que, na verdade, era uma guerreira, uma espadachim de olhos roxos afiados e vazios.
Ela finalmente estava a poucos passos dele, mas já não dirigia seu olhar a ele. Um Milhão de Templos apenas encarava a frente. Quando ela passou ao lado de Keiji, ele levantou o braço; mas, antes que ele pudesse segurá-la, ela colocou a mão esquerda sobre o ombro dele, a expressão ainda encarando apenas o caminho à frente.
“Não se dê ao trabalho.”
E voltou a seguir seu caminho. Quando ela estava prestes a sair do seu campo de visão, Keiji se virou e gritou: “Quem é você?!”
A mulher finalmente se virou e olhou para ele. Um sorriso ladino estava pendurado em seus lábios quando ela disse em uma voz baixa, quase sussurrada ao vento: “Sara Chidouin.”
E saiu, deixando para trás degraus pintados de carmesim e o cheiro enjoativo de milhares de incensos queimando.
