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amnesia

Summary:

Oikawa Tooru e Iwaizumi Hajime são imortais, reencarnando e ficando juntos toda vez graças as memórias de suas vidas passadas. Até que algo muda e Oikawa tenta lidar com uma situação que nunca imaginou que aconteceria em seus vários anos de vida.

Notes:

Bom, essa fanfic não seria possível sem a ajuda dos meus beta readers Julia, Camis, Luna e Cee. Muito obrigado pelo apoio, encorajamento, opiniões e tudo mais. Vocês provavelmente vão se arrepender porque (quase) todos os personagens vão sofrer, mas é uma angst com um final feliz. Se ele vai demorar, é outra história.

E para quem está lendo pela primeira vez, boa leitura! Espero que gostem. É a minha primeira fanfic nesse site e, não se iluda, eu não faço a mínima ideia do que estou fazendo.

Obs: Todo título de capítulo é uma referência ao título de alguma outra coisa, seja música, filme, série, mangá, etc. Para quem gosta de referências, fica o presente.

Chapter 1: there is no heart without you.

Chapter Text

"Te vejo na próxima, seu merda". Essas foram as últimas palavras de Hajime Iwaizumi em mais uma de suas vidas ao lado de Tooru Oikawa. A dupla estava em um ciclo de reencarnações por tempo o suficiente para se esquecer como ele havia começado, apesar de se lembrarem de algumas regras básicas. Durante 18 anos, eles viveriam sem qualquer tipo de memória das vidas passadas até que, abruptamente, algumas memórias das encarnações anteriores viriam a tona. Com o passar do tempo, outras voltariam ao conhecimento deles. Era comum eles dormirem e sonharem com outros acontecimentos, mas as memórias poderiam vir do nada. Não importava a distância geográfica dos dois na atual vida e eles eventualmente se encontrariam.

Antigamente, um costumava sonhar algo do outro e, com base nas imagens, Oikawa e Iwaizumi se reencontravam e, toda vez, sem exceções, eles se apaixonavam. A dupla já viveu muita coisa juntos. Pirâmides sendo feitas. A Idade Média. Tragédias e comédias shakesperianas. As investigações referentes ao Estripador de Londres. A criação do cinema. As Duas Guerras. A união e separação dos Beatles. Aqueda do Muro de Berlim. Neil Armstrong na Lua. O Oscar roubado de Fernanda Montenegro. Qualquer evento imaginável.

Para a alegria de Oikawa, eles também morriam juntos, então a dupla era praticamente acompanhante de luxo na vida do outro. Era 2019 e o agora jovem Tooru estava com seus 20 anos e carregando uma leve indignação de ter renascido em 1999, por achar que (re)nascer em 2000 seria bem simétrico. Sonhar com Iwaizumi tinha parado já, mas felizmente existiam as redes sociais, então uma leve stalkeada serviria para descobrir a localização do parceiro. Antiético? Talvez? Mas ele se lembrava de Hajime obrigando-o a usar algumas roupas ridículas dos anos 50, o que, segundo ele, era um crime maior do que qualquer dos tiroteios presenciados por eles e o casal já havia visto vários desses ao vivo, então a sua consciência ficava limpa.

Ele estranhava o fato de Iwa não ter tentado contatá-lo nesse período porque faziam alguns anos, mas achava que era um joguinho e conseguiu se matricular para a mesma faculdade dele, tendo que se mudar para uma cidade nova onde não conhecia ninguém. A sua nova casa era confortável e espaçosa, pois Oikawa já estava planejando morar com o seu querido Iwa-chan, apelido esse que, para a infelicidade da vítima, o perseguia em cada uma de suas vidas. Apesar da ansiedade para reencontrar o pilar de todas as suas vidas, no momento, uma preocupação maior ocupava a mente do novo morador: carregar as caixas para dentro.

- Você precisa de ajuda? - Questionava alguém com a voz levemente trêmula. Era um garoto com o cabelo dividido no lado, com algumas olheiras visíveis assim como um leve desânimo pela situação. Eles eram praticamente da mesma altura, ainda que Oikawa fosse levemente mais alto.

- Cara, eu aceito qualquer coisa. Com todo o respeito, você não é muito musculoso, mas eu também não sou muito e consegui algumas, então acho que vai dar certo contigo! Qual é o seu nome? - Questionava com um sorriso.

- Akira Kunimi, mas pode me chamar de Kunimi mesmo. Quando vão se referir a mim sem algo como "você", geralmente é Kunimi. - Pegava uma das caixas.

- Prazer em conhecer! Sou o Oikawa. Somos vizinhos? Me perdoe por ser meio desinformado, mas sou novo na cidade.

- Não somos. Mas alguns dos meus amigos são seus vizinhos. Vim visitar esses degenerados e vimos a cena patética que foi você tentando carregar essa caixa... - Esperava Oikawa vir para agarrarem juntos - ... e eu acabei vindo te ajudar porque fiquei com pena.

- Bom, você é um vizinho melhor do que eles então.

- Ah, eles até são legais, mas são relativamente reservados. Se bem que dou um jeito de te apresentar a eles.

- Você é bem extrovertido, Kunimi.

- Sendo bem sincero, eu não sou, mas a preocupação foi maior do que a timidez. É melhor talvez passar vergonha do que muito provavelmente ter que chamar uma ambulância para cuidar das suas costas.

- Então no seu grupinho não tem nenhum extrovertido?

- Costumávamos ter. - Respondia e Oikawa reparou não ser um assunto muito agradável de se comentar. Anos de prática nas interações sociais ajudam em algumas coisas, ainda que seja complicado até para ele de vez em quando.

- Bom, se todos são reservados, como você pretende me apresentar aos seus Robins? Seu cabelinho parece um pouco com o do Batman.

- Só por ele ser meio lambido como o de um riquinho mimado? - Movia um pouco os lábios para algo parecido com um sorriso no canto da boca. - Bom, o meu plano é falar que você está super suado e necessitado de um copo d'água.

- Olha, Kunimi, não acho que você está mentindo. Não nesse calor desgraçado. - Esse foi outro de seus aprendizados nos longos anos de vida. Se não sabe do que falar, reclamar do clima geralmente funciona.

- Eu sei disso. Até porque estava na companhia de um ar-condicionado minutos atrás.

Eles finalmente conseguiram trazer tudo para a casa e Kunimi acaba cumprindo a sua promessa e convida Oikawa para a casa de um de seus amigos.

- Oi, pessoal. Esse é o Oikawa, o vizinho de vocês que eu ajudei. Se apresentem aí porque estou sem fôlego já. – Ele enche um copo d’água, virando esse e enchendo novamente, fazendo o mesmo com outro e estendendo para o convidado.

- Opa, sou o Eita Semi, mas me chama de Semi mesmo. Moro aqui nessa casa, então foi mal aí por não ser um vizinho tão bom. É que, tipo, talvez você ache meio estranha a minha justificativa, mas todo artista é meio estranho. Eu sou guitarrista e tenho um show hoje de noite, aí evito usar muito os meus dedos antes porque acho que eles já vão se cansar o suficiente. – Ele era um homem com uma aparência muscular, além de falar com uma certa empolgação. O músico usava um pouco de lápis de olho além de se vestir com uma jaqueta de couro e ter algumas paletas no bolso.

- Isso na verdade poderia ajudar a fazer você ter dedos resistentes, Semi. Mas já desisti de tentar te entender. Anos de convivência e não consegui. Prazer em conhecê-lo, Oikawa. Meu nome é Akaashi. – Ele estava teclando no computador e retirou os seus olhos da tela o mínimo possível, visando ser educado e rápido para retornar as suas atividades.

- Espero que a gente se dê bem então. – Ele bebe a água. – E tá tranquilo, Semi, todo mundo tem uns costumes peculiares mesmo. Você mora aqui, Akaashi?

- O que? Eu não escutei, você poderia repetir?

- Você mora aqui?

- Não. Mas venho porque a internet é um pouco menor. E peço desculpas se eu me distrair um pouco. Sou escritor e estou me empenhando um pouco mais nesse capítulo específico.

- Ah, tudo bem. Espero que dê tudo certo. – Ele responde com uma certa tranquilidade por ser acostumado com hábitos de escritores. Ele conheceu Christopher Marlowe, deu algumas risadas com Kurt Vonnegut, teve suas desavenças com William Shakespeare e até aguentou a companhia de Lord Byron e Percy Shelley por insistência de Iwaizumi e alguns desses eram bem mais rudes do que o recentemente conhecido Akaashi.

- Semi, temos visitas? – Gritava uma voz grossa e intensa, ainda que um pouco abafada, indicando vir de cima da casa.

- Temos sim! – Berra na mesma intensidade.

- Me avise quando saírem! – A mesma voz respondia.

- Desculpa por isso. Essa voz que você ouviu é o Lev, meu colega de quarto. Ele não é uma pessoa ruim, só é assim com a maioria dos estranhos. Não julga o cara, ele tem suas inseguranças. – Dizia Eita com uma mudança em seu tom de voz. Não precisava ser uma pessoa com séculos de experiência para reparar que esse assunto era familiar para os outros três e causava um desconforto para o grupo de amigos.

- Relaxa, relaxa, cada um tem os seus motivos. Enfim, vou ajeitar minha casa e dormir porque tive uma viagem bem cansativa, tudo bem? Posso passar aqui amanhã até para agradecer pela hospitalidade de vocês?

- Pode passar. Estaremos aqui, até o Kunimi que você conversou mais e o Akaashi. A gente tá planejando uma maratona de filmes de terror depois do meu show, então pode vir. – Responde Eita enquanto Oikawa acena e retorna para a sua casa.

Ele adentra em seu quarto, escovando os dentes e se jogando na cama. Tooru acaba tendo um sonho de quando ele e Iwaizumi assistiram a primeira peça de Hamlet e Hajime se gabou por décadas de supostamente ter visto o clichê do “todo mundo morre no final” nascer. Nessa atual encarnação, Oikawa acabou assistindo bastante Bob Esponja e apelidou esse clichê de Teoria do Mexilhão Feio, pois a história é praticamente uma releitura disso. Nas sábias palavras de Patrick Estrela, era uma vez um mexilhão feio. Ele era tão feio que todo mundo morreu. Acabou. E por algum motivo, mesmo tendo assistido várias obras em suas vidas, esse episódio era o xodozinho do velho jovem.

Um novo dia surge. Pássaros cantando e Oikawa se levanta junto com os galos e começa a cozinhar uma torta de frango. Era uma tradição dele trazer isso como um presente para os seus vizinhos, até porque a culinária nunca foi o seu forte nas suas várias vidas e esse era um dos poucos pratos que ele conseguia fazer. Ao terminar o prato, ele toca na campainha e Akaashi abre a porta.

- Bom dia, Oikawa. Pelo jeito você é mesmo um homem de palavra quanto a aparecer aqui. – Sente o cheiro e abre a porta, convidando a visita para dentro.

- Pois é. Posso entrar? – Questiona por educação e vê Akaashi virando o olhar para dentro e dando uma tosse como forma de sinalizar e recebe um “beleza” da mesma voz grossa de ontem.

Ao entrar, Kunimi estava sentado no sofá, com um homem coberto completamente por um cobertor e, baseando-se no formato, ele conseguia ser mais alto que Oikawa e, do lado desses dois, com suas pernas se apoiando neles dois, Eita Semi estava deitado no sofá.

- Oi, você é o Lev, né? Prazer em te conhecer! Ah, e não se preocupa, não vou tentar tirar o cobertor. Tenho o mínimo de respeito pela privacidade dos outros.

- Agradeço, Oikawa. – Respondia e Kunimi olhava para o visitante impressionado. Não era comum visitas reagirem bem a isso quando o Lev se sentia minimamente disposto a falar com alguém.

- Então, viram quais filmes? Vim entregar essa torta e jogar um pouco de conversa fora.

- Bom dia, Oikawa. Vou falar de longe porque ainda não escovei os dentes. Vimos o primeiro Poltergeist, Jason X, que é o Sexta-Feira 13 mais trashzão, o primeiro e o segundo Halloween e Pânico 2, mas se fosse por mim, eu iria com o primeiro. – Semi responde cobrindo a boca com as mãos.

- Fala, Semi! Olha, antes de falar um pouco sobre a escolha do Pânico 2, como foi o show?

- Bom, vamos tentar começar o dia falando de coisa boa, pode ser?

- Justo, desculpa aí por ter tocado o assunto. Eu não sei quem sugeriu Pânico 2, mas eu vou defender essa pessoa porque é o melhor dos quatro filmes. Roteiro tão afiado quanto a faca do Ghostface e com um comentário sensacional que critica esse pensamento idiota de que filmes de terror desenvolvem serial killers.

- Eu concordo! É muito divertido, pô! Continuam com dois assassinos, mas a gente não espera porque fica o receio de eles vão repetir a fórmula e aquela cena do carro é tensa mesmo com todas as minhas reassistidas. – Respondia o mesmo homem do cobertor e sua voz até mudava um pouco para uma mais animada. Kunimi abriu um sorriso discreto e Semi arregalou os olhos. Aquilo conseguiu despertá-lo mais do que um café poderia.

- Isso aí, Lev! Gostei de você e adoraria continuar, mas tenho que ir. Primeiro dia na faculdade.

- Você vai começar a cursar o que, Oikawa? Porque a minha aula está perto de começar também, então eu te dou carona. – Pergunta Akaashi já se levantando e pegando as chaves de seu carro.

- Obrigado, Akaashi. Eu vou cursar Psicologia. – Oikawa se lembrou de quando decidiu o seu curso. Ao longo de suas vidas, ele cursou várias coisas, mas se divertiu com essa área do conhecimento nos anos 60, então acabou decidindo fazer de novo.

- Ah, eu curso Letras. Agora vamos, não queremos que você se atrase no seu primeiro dia. Eu já estou no meu terceiro período, mas um novato atrasado não é uma boa impressão.

Eles entram no carro e Akaashi acelera um pouco. No começo, o motorista apenas liga o rádio. Eles não conversaram logo de cara e apenas ouviam Devil Town.

- Ei, obrigado por ter tratado o Lev bem. Ele já foi bom com pessoas, mas é passado. Você acabou fazendo a gente se lembrar um pouco dessa época.

- Ele parece gente boa. Quando ele se sentir confortável para mostrar o rosto, ficarei feliz. Mas é no tempo dele, não tenho o direito de forçar.

- Você realmente combina com o seu curso. – Ele dá uma risada e Oikawa acaba sendo contagiado pelo riso.

Ao chegarem, a dupla se separa e, enquanto Akaashi vai direto para a sua sala, Oikawa estava procurando algo, ou melhor, alguém. E como ele descobriu que Iwaizumi começaria a cursar Educação Física, achou melhor procurar jovens praticando algum tipo de esporte e, eventualmente, ele encontrou quem tanto procurava. Hajime continuava com seu cabelo castanho e espetado de sempre, mas a sua atenção estava voltada para a bola de vôlei. Não era um levantamento muito bom e dois outros garotos estavam tentando bloquear, mas ele faz um cruzado e consegue marcar um ponto. Pela frustração do outro time, era um match-point e, quando os vitoriosos terminaram de se abraçar, Tooru foi fazer o que tanto quis por dois anos.

- Oi, Iwa. Quanto tempo, né? Parabéns pela partida. – Apesar de ser mais extrovertido, ele ficava levemente tímido em toda a apresentação.

- Obrigado, mano. Nós nos conhecemos?

- Pera o que? – Aquele definitivamente era Iwaizumi. Ele sentia a mesma conexão do passado, os mesmos detalhes físicos e até o costume de falar “mano”. Mas isso era diferente. Como assim ele não se lembrava?

- Nos conhecemos? É que você falou “quanto tempo”, mas eu não lembro de você. – Isso nunca tinha acontecido. Eles sempre se lembravam um do outro. Seria uma pegadinha? Não, Toru já era acostumado com o costume atemporal de Iwaizumi de dar uma leve, rápida e involuntária piscada no olho quando mentia ou algo do tipo.

- V-você tá falando sério? – Oikawa já encarava o chão até para disfarçar um pouco a sua cara de tristeza porque ele sabia que aquilo não era uma mentira. Mas como? E uma pergunta tão importante quanto: o que fazer? Pela convivência ser um costume durante a maior parte de suas vidas, Tooru era como um peixe e Hajime era o seu aquário. Agora o peixe estava sem um aquário e distante do oceano.

- Aham, acho que me confundiu com alguém. – Iwaizumi também virou um pouco a cara porque estava achando a situação estranha.

Ele podia ter tentado consertar a situação constrangedora que criou, mas algo precisava mais de conserto, um Oikawa correndo pelo campus com o vento batendo nas lágrimas. Apesar da maioria das pessoas colocar vários pilares em sua vida, como amigos, família, trabalho, relacionamento amoroso, entre outros, todas essas coisas eram passageiras para uma pessoa acostumada a viver, morrer e fazer tudo isso de novo. A única certeza dele era a presença de Iwaizumi e agora nem isso mais.

Tudo o que ele queria era sair de lá e desabar no choro. Mas algumas coisas afetavam esse plano, como a falta de um carro próprio e a faculdade era distante de sua casa nova. Chorar em público não era uma opção que Oikawa estava disposto a fazer, então um Uber era a sua única salvação. Ele arregalou os olhos, inspirou e respirou e pediu uma corrida.

A corrida consistiu em 15 silenciosos minutos até chegarem no devido destino. Mas ao sair do carro, ele não conseguiu segurar mais. Chorar na rua não era algo feito por Oikawa durante séculos, ainda que ele tenha visto Oscar Wilde fazer isso uns bons anos atrás.