Work Text:
Kushina vestia branco. Se a mulher ficaria bem em qualquer pedaço de pano que vestisse - ou deixasse de vestir - nunca foi questão levantada para dúvida, mas os olhos de Mikoto ainda cintilaram inebriados quando percorrerem o trajeto dos ombros macios até a barra do vestido, que jovialmente tocava as canelas enquanto acompanhava os movimentos de pernas.
O vermelho intenso dos fios que moldavam a cintura bonita parecia mais agressivo do que nunca. Acompanhá-los, também, contornando o rosto da namorada, quase fazia Mikoto apertar os olhos, na mesma intensidade em que os convidava a se arregalar - uma mariposa afoita encantada pela luz que a queima. Descendo o olhar - nariz queixo pescoço - a mulher para no decote delicado, e o tecido claro suaviza o queimor dos olhos - mas não do olhar - em um contraste de inflar o peito.
Sem mexer a cabeça, Mikoto retorna a vista até estar nivelada à outra e encontra um cinza dormente, profundo e opaco. E, ainda absorta no magnetismo, a garota refaz o percurso. Não sabia porcaria alguma sobre teorema das cores, se branco e vermelho eram complementares, tríades ou a aberração que fossem, mas a puxavam e afastavam, apenas pra fazê-la contemplar a combinação novamente - e Mikoto não encontrava problema algum em observar a mulher por mais tempo.
Dedos torceram em cada lado do quadril.
- Simples demais? - Kushina franziu o rosto em um sorriso constrangido, ao qual Mikoto não respondeu.
Não havia apenas já conhecido a família da outra, como também passou a ter certa familiaridade em sentar consigo nos almoços de casa cheia. Sabia como cumprimentar as figuras matriarcais sentadas nas pontas da mesa, as brincadeiras favoritas de cada sobrinho, e identificar cada personalidade na linhagem infinita de tios. Ainda assim, toda oportunidade de encontro pedia um preparo especial da ansiedade de Kushina.
Mikoto não respondeu, mas se aproximou o bastante para enxergar o cinza mais de perto. Ergueu a ponta dos dedos e tocou as costas da outra onde ainda era coberta. Sentiu a malha tão gostosa que não pôde deixar de imaginar o quão macia seria deslizando pelas pernas. Com um gesto muito parecido, tocou as mechas coloridas em ruivo para colocá-los atrás da orelha. No caminho, teve um breve acesso à tira grossa que unia a frente da roupa em um nó atrás do pescoço, e a facilidade com a qual conseguiria desfazê-lo lhe formigou a boca do estômago. Kushina a observava com olhos redondos, vasculhando - ou melhor, incentivando - alguma tentativa de verbalização.
- Perfeita - e deixou um beijo cálido onde a mandíbula se encerrava, que Kushina acomodou com um risinho aliviado, satisfeita.
Ficaram assim por um tempo, encostando as bochechas e trombando os narizes.
- Vendo mais de perto - Mikoto se adiantou quando a namorada fez menção de se virar para conferir o relógio no canto da parede - acho que caiu uma sujeirinha ali.
Antes que terminasse a frase, tinha o rosto abafado na clavícula da outra.
- Sujeira? - Kushina se empertigou, tentando se desprender dos braços espertos que a rondavam. Mas tinha tomado tanto cuidado!
- Hmmhm - Mikoto não se preocupou em sair de onde estava, e falou abafado assim mesmo - Bem ali ó - disse sem direção alguma, distribuindo selos rápidos na lateral do pescoço.
- Onde? Onde?!
Dessa vez, botou os ombros fortes para trabalhar - ainda que não exatamente como Mikoto mais gostava - e afastou o corpo da namorada, olhos atentos se investigando abaixo. Virou a cintura para que pudesse olhar a parte do pano que se interrompia e voltava a lhe cair sobre o quadril e as panturrilhas.
- Bem aqui - e Mikoto voltou a beija-la, dessa vez na boca, e segurou o nó atrás da nuca firmemente, insinuando que ali se dava a sujeira escandalosa, até que estivesse soerguido da pele aquecida, tão frágil quanto tentador.
Kushina se distraiu com o corpo tão próximo ao seu. Quando passou a surpresa indignada, deixou que os próprios dedos também tirassem uma casquinha da namorada, tão elegantemente vestida em preto.
- É muito grande? - Kushina perguntou sem se levar a sério, um riso já brincando nos lábios.
- Enorme - Mikoto respondeu sem nem ao menos abrir os olhos, absorta com os beijos que ainda preenchiam os espaços entre o diálogo.
- E tá muito feia? - fingiu um resmungo.
- Asquerosa - e a ruiva não resistiu a uma risada em bom tom.
- Tem salvação, doutora? - Kushina agora entrelaçava os braços na cintura da outra mulher e afastava o riso o suficiente para olhá-la diretamente, o queixo levemente inclinado para baixo, o olhar mais inquisitivo do que nunca.
- Ainda há esperança - Mikoto disse triunfante - se formos rápidas, conseguimos evitar uma mancha - e voltava a encurtar a distância, encaixando um selo no canto do sorriso da namorada - Eu só preciso das ferramentas certas...
Kushina dava passos para trás, as mãos ainda agarradas nos braços que lhe envolviam a cintura, as costas em direção ao pé da escada.
- Tenho uma ideia de onde possam estar - disse subindo no primeiro degrau e gargalhando quando Mikoto tropeçou afoita para pular o segundo.
Fios pretos, brancos e vermelhos dobraram o caracol da escada. Naquela noite, chegariam atrasadas para o jantar.
