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Twilight olhou para o interior do apartamento. Era menor do que o anterior que tinha. Mas era por apenas algumas noites. Apenas o suficiente para concluir sua missão e assim poder voltar para Westalis.
Enquanto fazia a varredura habitual pelo o apartamento uma parte do seu cérebro notou coisas sutis que faltavam ali.
Como por exemplo, o perfume de uma mulher, os brinquedos de uma criança, os pelos brancos de um cachorro agarrados no sofá ou no chão. O conforto de um lar.
O espião fez uma careta para o vazio. Muito pequeno, certamente não daria para circular pelo o apartamento com outras pessoas. O espaço era apenas para uma.
Embora imagens fantasmas surgissem no vazio. A silhueta de uma mulher cantarolando, uma criança sentada perto da pequena tv assistindo desenho, um cão branco cochilando ao seu lado.
Twilight ignorou o aperto no peito. Largando a maleta e a bolsa de viagens em cima do sofá, seguiu para o quarto afrouxando a gravata e livrando-se do terno, os deixando displicentemente em cima da cama. Um bom banho o faria voltar ao normal. Tinha uma missão para realizar e esperava realizá-la o mais breve possível.
Mas uma parte de si se perguntava como Ania e Yor estavam. Faziam cinco meses que Loid Folger tinha falecido. Era o plano desde o começo, mesmo assim foi complicado de várias formas possíveis que nem mesmo o espião imaginava que iriam ser.
Mas a frágil paz tinha sido preservada por mais um curto período. Isso era o que verdadeiramente importava. Por mais que os meses seguintes longe da falsa família tenham sido dolorosos.
Nem mesmo o grande Twilight tinha previsto o quão profundo tinha se apegado a presença das duas.
Por vezes a vontade de ao menos ter notícias delas era o suficiente para mantê-lo acordado durante a noite. E o espião tentava manter todas as memórias que tinham se fixado em seu cérebro longe o suficiente para que ele seguisse para as próximas missões. Mas era difícil. E mesmo que no momento precisasse impedir um carregamento de armas de chegar nas mãos de extremistas, Twilight improvisou um disfarce.
Agora com um rosto barbado e velho, com marcas de tempos que ele certamente tinha vivido mentalmente, seu personagem: um senhor de idade que fazia uma caminhada pela a rua naquele fim de tarde. Seus olhos treinados vasculharam a multidão, os pontos de referência frescos em sua memória. Sua concentração tamanha ao tentar localizar seus alvos que não se deu conta da mulher que saia do mercado com várias sacolas.
Uma colisão. Pedidos de desculpas. E seu corpo travou. A mulher se abaixou nervosamente recolhendo as compras, e Twilight se forçou a ajudar. Os olhos não desgrudando do rosto da estranha.
_ Desculpe! _ Ela falou quando as sacolas estavam habilmente equilibradas nos braços, um sorriso social no rosto. _ E obrigada pela a ajuda.
A mulher seguiu seu caminho. Passando por ele, sem reconhecer, sem esboçar qualquer reação ao olhar para seu rosto. Mas, bem, era essa a intenção, certo?
_ Gostaria de ajuda? _ O senhor se ofereceu. Não o espião. Não Twilight. Não os resquícios de Loid Folger. Apenas o senhor, Brian Finger, um senhor educado.
_ Ah, bem... _ ela se virou para ele, os olhos já diziam sua resposta. Mas ele foi mais rápido, era seu papel.
_ Posso ser velho, mas ainda aguento algumas sacolas. Uma moça bonita não deveria ter que levar tudo sozinha.
Aquilo era um pedido de desculpas? Ele não sabia. Mas a mulher sorriu sem graça, não recusando sua ajuda mas o olhando preocupada. Para ela, ele que deveria precisar de ajuda.
Ele manteve uma conversa agradável. "Qual seu nome?" Yor Folger. "É casada?" Viúva. "Não deve ter filhos, é muito jovem!" Sim, ela tinha, uma, Anya.
Em todo o percurso seu semblante não estremeceu, mas os olhos iam de um escuro opaco para vermelhos brilhantes dependendo da pergunta.
Loid Folger se remexeu no túmulo. Ele, dentre todos os papéis que Twilight teve que representar, tinha ganhado uma vida própria. O espião e o médico tinham compartilhado mais que uma missão, uma família. E em seu erro de não se afastar, Twilight deu a Loid Folger o vislumbre do que ele tinha deixado ao partir.
A mesma casa. Poucas fotos agora. Mas o mesmo ambiente. Todas as fotos falsas e modificadas tinham ido pro lixo. Talvez Yor tenha as queimado em meio a dor ou Anya tenha as quebrado. O grande cão branco o reconheceu, afinal seu nariz não mentia. Mas Twilight notou a clara mudança de papel, ele não era mais da família, Bond rodeava a dona de forma protetora rosnando como se dissesse para ele se afastar.
Yor colocou as compras na mesa e pegou as compras que ele carregava. Ela agradeceu novamente, como educação ela lhe ofereceu alguma bebida. Ele aceitou um café, mesmo sabendo que não deveria estar ali.
O mesmo café que destruiria seu estômago por algumas horas foi posto numa xícara a sua frente. Ela lhe ofereceu leite e ele aceitou, inventando uma história de uma esposa que fazia café forte demais e ele só conseguia beber com leite para ter o que falar.
Isso a fez sorrir, mas seus olhos pareciam vagar para longe. Tristes, saudosos. Brian sabia o que estavam vendo, os dele faziam o mesmo.
Mas tudo tinha sido uma farsa.
Tudo foi apenas uma missão.
A família Folger não existia.
Aquela era a casa dos Folger.
Há sua frente estava a esposa de Loid Folger, um olhar triste, um sorriso gentil.
Deitado aos pés do sofá estava o cão que a família Folger adotou.
A presença de Anya nos brinquedos e revistas espalhadas ali e aqui. E ele agradecia ela não estar presente.
Toda a casa era uma afirmação de que a família Folger existiu. E continuava a existir, por pura persistência de Yor Briar e Anya. Que se recusavam a deixar tudo para trás.
Brian Finger saiu da casa com uma desculpa e desejo de felicidades. Twilight saiu da casa com um peso descomunal e a vontade de correr para longe. Loid Folger gritava para voltar.
Mas ele não podia. O espião não permitiria. Haveria sempre uma nova missão para preservar a paz. E Twilight já tinha se decidido anos atrás:
Abandonar seu nome.
Abandonar seu passado.
Renunciar um futuro.
Renunciar a família que ele poderia ter. Esquecer a família que ele tinha.. que ele teve.
E o que ficou foi a agonia.
Ele completou a missão. Mas o que sentia ao arrancar o rosto de Brian Finger era o mais puro desespero.
