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O Grito da Raposa

Summary:

Ao notar a fragilidade daquela criatura lutando entre respirações para sobreviver, ele percebeu o quão frágil e exposto estava também. Todo o sofrimento que presenciou enquanto Maud estava debilitada e sua morte culminaram na própria enfermidade de Andrew, mas mesmo depois das inúmeras preces para se juntar à sua amada, ele ainda não estava pronto para partir.

Work Text:

Mais uma vez, o verão se convertia em outono. As folhas das árvores, antes de um intenso verde, agora lentamente tornavam alaranjadas e começavam a formar um tapete sobre a terra. A umidade que tomava conta do local tornava os dias mais letárgicos, a chuva intensificava com o passar dos dias e, junto consigo, arrastava o espírito juvenil que eu costumava ter.

À medida que as estações mudavam, eu não sentia a ferida aberta em meu peito cicatrizar. Nem sempre o tempo sara, nem sempre o tempo é o melhor remédio. Quando Maud se fora, a vida parecia ficar mais pesarosa, tudo ao meu redor. Sem conseguir se recuperar da forte gripe que contraiu, passaram-se meses de sofrimento: febres, alucinações, falta de apetite. Até que, enfim, ela voltou a se tornar parte da terra. E em vida só sobraram as minhas lembranças.

O surto da doença acometeu quase todos na vila em que morávamos, percebíamos ano após ano as crianças e os mais velhos agonizarem, na tentativa de sobreviver. Infelizmente não existia muito o que pudéssemos fazer. Os mais devotos se ajoelhavam e oravam todos os dias, na borda da cama dos enfermos, arriscando sua própria vida também em nome da fé na recuperação de seus entes queridos.

Pouco antes de Maud ir, nos mudamos para uma das casas mais afastadas, ficando mais próximos das árvores exuberantes da floresta e dos animais que nela habitavam. Tudo era tão mais sereno, parecia o paraíso. Com a mudança de ares ela pareceu melhorar. Seu sorriso, embora ainda fraco e pálido, me fazia lembrar dos momentos que dançávamos na sala, após o jantar. O sorriso puro de uma criança feliz.

E nesta mesma época em que me encontro foi quando ela teve uma recaída, seu corpo já fraco não aguentou a segunda onda da doença e assim ela faleceu. Eu me sentia desolado. Perdido. Chorava até mesmo quando não tinha bebido um mísero copo de água no dia. Nada parecia mais importar, não sem ela.

E então, chegou a minha vez. Lembrei exatamente de como as reações de Maud se apresentaram quando ela contraiu a doença. Estaria preparado para me juntar a ela no momento em que a grande ceifadora batesse à porta, mesmo não precisando de permissão para entrar. A fraqueza dominava minhas pernas e meus braços dia após dia. O apetite que costumava me manter sóbrio parecia ter se escondido como uma lebre na neve.

Em poucos dias a febre intermitente atormentava minha cabeça e queimava meu corpo. Os lençóis, que antes me mantinham aquecido da iminente sensação de frio, ficavam ensopados com meu suor. E tudo que eu conseguia fazer nos momentos de agonia era chorar e chamar pelo nome dela. O nome de Maud saía de minha boca como uma prece, fervorosa, até que a febre passasse.

Num desses dias de transição entre o verão e o outono a atmosfera em torno da minha casa pareceu mudar. Algo sombrio, pesado e obscuro se aplacava sobre minha intuição. Eu não mais me sentia em casa, não me sentia seguro. O céu cinzento no fim da tarde, enquadrado pela janela do quarto, refletia meu estado de espírito.

O cansaço entre ter que continuar sustentando um corpo em vida e as súplicas para me juntar à Maud se transformaram em sono e lembro de, lentamente, fechar os olhos e adormecer.

Algumas horas depois, acordei. Me sentindo ainda fraco, tentei recobrar as forças e me levantar. A sede avassaladora se esgueirava pela minha garganta, mortífera. Pela janela, agora eu via o céu escuro, iluminado somente pelo brilho misterioso da lua. O silêncio instaurado naquele ambiente me deixou alerta.

Respirei fundo e comecei a me levantar para buscar água, sentindo minhas pernas enfraquecidas se arrastarem e as articulações reclamarem por conta do movimento. Algumas velas ainda bruxuleavam sobre a mesinha do quarto, onde jazia uma jarra com água e um copo.

Troquei o nome de Maud nesse momento pela prece de que minha mente fosse boa comigo e me permitisse esse pequeno gesto de cuidado, como um animal indefeso que luta por sua até que o predador o alcance.

Foi quando escutei um ruído aterrador preencheu o ar ao meu redor, serpenteando entre as árvores. Senti minhas mãos e pés adormecerem e os pelos dos braços se arrepiarem. Um grito tão agudo e sofrido que parecia o de uma mulher em perigo. Não sei como consegui, mas minha reação seguinte foi adentrar a floresta, tentando correr o mais rápido que podia, sem nada nas mãos para defender a mim ou a quem quer que precisasse de ajuda naquele momento.

Não foi necessário correr muito para encontrar a fonte daquele som horripilante: uma raposa repousava de mal jeito sobre as folhas úmidas em decomposição no solo, como se tivesse sido jogada ali. Vendo eu me aproximar ela se sacudiu num susto. Respirava com tanta dificuldade que eu praticamente não conseguia perceber o movimento, mas ela olhava diretamente para mim, temerosa.

O osso de sua coxa esquerda era visível, deixando-a manca enquanto tentava inutilmente levantar sem fazer muito barulho e atrair novamente a besta que a havia ferido.

Não conseguiria falar nada, nem mesmo se quisesse. Em troca, ela permaneceu silenciosa também. Fizemos um pacto tácito. Decidido a acabar com o sofrimento daquela criatura, diferente da falta de piedade de fazer aquilo comigo mesmo, encontrei algumas pedras recobertas com um musgo verde e escorregadio. Peguei a maior e mais pesada delas, removi o máximo que consegui da cobertura tenra e levantei-a sobre minha cabeça, pegando impulso para desferir o golpe.

Enquanto a encarava e ela esperava pelo meu ataque, imaginei o que poderia ter causado aquela ferida. Jamais tinha escutado falar de um animal que causasse um estrago desse tamanho, com tanta força assim. O quão grande seriam suas presas? Com esse pensamento, tive a sensação de que algo me observava atentamente, esperando para que eu interferisse em sua propriedade.

Como se percebendo minha inquietação, além do cansaço óbvio que começava a se abater sobre mim mais uma vez, a criatura pulou e eu escutei o farfalhar pesado das folhas, enquanto ela se aproximava de mim e da raposa debilitada. Em mais um surto de adrenalina que banhava meu corpo, eu me virei e corri o mais rápido que minhas pernas deixavam. Dessa vez não senti minhas articulações doerem, a única sensação que tinha tinha era o do pulmão queimando à medida que me afastava daquela cena grotesca, tentando salvar a vida que eu já quase não tinha.

Então assim a morte viria? Enquanto eu disparava em direção à minha casa, trôpego e desesperado, como um cervo tenta fugir em uma caçada, me esqueci de todas as preces que tinha clamado para me juntar a minha Maud. Eu me agarrei àquele resquício de vida com a mesma intensidade que mantive meu amor por ela durante todo esse tempo. Eu ainda não estava pronto para morrer.

A imagem daquela ameaça à espreita me deixou insone durante muitos dias. O pavor afundava sobre meu peito a cada momento que recordava, de olhos abertos ou fechados, do grito da raposa, de sua perna em carne viva, de sua respiração abatida, de sua rendição voluntária ao fim da vida.

Me percebia no estado que começava a se assemelhar à carcaça daquele pobre animal, momentos antes de seu fim. Meu pavor transbordava a ponto de eu gritar e a voz falhar e afinar, numa tentativa de pedir socorro. Sentia meus olhos saltarem das órbitas. Minhas mãos se apertarem no cabelo emaranhado, enquanto me encolhia debaixo das cobertas.

Sei que, daqui pra frente, da febre e das alucinações meu corpo consegue sobreviver, diferente de Maud e da situação que me encontrava antes. Mas não sei se quanto tempo aguentarei a lembrança de tudo que aconteceu naqueles dias.

Eu descobri alguma coisa entre as árvores da floresta.