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Porto-seguro

Summary:

Porto-seguro é a definição de um lugar onde se pode descansar ou encontrar proteção. Mudando a sua rotina glamorosa e agitada da cidade para a beleza e simplicidade do rancho, Win percebe que não encontraria o seu porto-seguro em um restaurante chique ou apenas ao ar livre do campo, mas sim nos braços de alguém irritante que faz o seu coração bater mais forte. É em Bright que ele encontra o refúgio que não sabia que precisava.

Chapter Text

As luzes coloridas da boate não incomodavam Win. Ele continuava dançando ao som da música eletrônica dos anos noventa e cantando alto, esperando que a garganta incomodasse para que pudesse arrumar uma desculpa e ir até o bar beber uma cerveja ou qualquer outra bebida que o deixasse frenético. Aquele era o tipo de local que Win frequentava. Uma boate com um bar vendendo bebidas caras, um lugar completamente lotado de adolescentes com identidade falsa, um ambiente agitado e barulhento a cada pessoa que passava pela porta. Win adorava sair à noite com os amigos. Ou apenas sozinho, já que não tinha problema em fazer novas amizades com pessoas desconhecidas. O importante era sair de casa e curtir a vida adoidado, disposto a esquecer por horas como tinha uma vida infeliz. Não havia nada melhor do que criar uma realidade falsa e perfeita e viver nela.

A cidade era um bom lugar para morar. Win gostava do movimento inacabável, das milhares de pessoas que cruzavam o seu caminho, do barulho das buzinas dos carros. Não ter dificuldade para ir ao shopping e ao cinema, frequentar lojas e restaurantes chiques... Win não abriria mão daquilo por nada. Apesar dos problemas pessoais e internos, tinha uma vida boa. A família fazia parte da classe alta, então a última coisa com que o garoto precisava se preocupar era com dívidas. A mesada estava todo mês na conta do banco, fora os luxos que tinha direito sempre que piscava os olhos pidões na direção dos pais, esses que estavam exaustos de sempre fazerem a vontade do filho. Passaram dezenove anos mimando Win e agora que ele estava totalmente estragado, estavam arrependidos. Não havia muito o que fazer, a não ser tomar uma medida drástica, mas escolher aquilo era ter a certeza de que Win se revoltaria.

Mas Win precisava de uma lição. Ele deveria ficar de castigo como uma criança desobediente, porque era aquilo que era. Um menino malcriado. Por estar cursando Administração a pedido dos pais, um curso que definitivamente não era a escolha dele, Win tirava notas baixas e, para piorar, não se esforçava para recuperar as matérias perdidas. Foi por causa da pressão que aceitou estudar aquilo. Não tinha nada a ver consigo. Na verdade, Win não fazia ideia do que queria ser quando crescer. Vivendo uma vida cheia de mimos, ele era o típico filhinho de papai que passou boa parte do tempo achando que ganhar e gastar dinheiro era uma profissão. Nada vinha à sua mente. Nenhum sonho. Para o seu azar, era medroso o suficiente para não encarar os pais e pedir um tempo para pensar no seu futuro sem que dessem algum palpite.

Apesar dos pesares, Win conseguia se divertir quando estava longe de casa e da pressão da família. O passatempo preferido era ir em festas e conseguir beijar algumas bocas durante toda a diversão. Win se orgulhava de conseguir ser um garoto bonito e charmoso, além disso, ele sabia provocar como ninguém. Mas, como nem tudo eram flores, toda a sua rotina baladeira de grana alta, festas e bebidas estava prestes a acabar, porque os pais de Win não estavam nada contentes com o filho se comportando de uma forma rebelde. No fundo, sabiam que aquilo era culpa deles, mas jamais admitiriam em voz alta.

Foi na madrugada de sábado para domingo que Win apareceu na grande casa em que morava com a mãe e o pai. Se fosse corajoso e independente, há muito tempo já teria arrumado as malas e se mudado para um apartamento onde pudesse viver sozinho e em paz, longe das cobranças, mas como não sabia cozinhar, lavar a própria roupa e não tinha um emprego, era melhor que continuasse morando com aquelas pessoas e os empregados que faziam tudo por si.

Tentando não fazer barulho ao andar da sala para o quarto, Win pisou descalço e com cautela no chão, carregando os sapatos caros na mão. Como nos filmes, os pais do garoto estavam sentados no sofá. A mãe foi quem ligou o abajur. Com sono, Win sentiu a vista reclamar com a claridade, despertando não muito tempo depois quando Sunee se aproximou de si, com os braços cruzados e uma expressão furiosa. Win já havia passado por aquele tipo de situação diversas vezes, mas alguma coisa o dizia que daquela vez seria diferente.

— Por que vocês estão acordados? — Ele perguntou, mansinho. Deu um sorriso bonito, de canto, na intenção de mostrar que era o filhinho que tanto amavam.

— Isso é hora de chegar em casa, Win?

— Não sei por que você tá surpresa. Quantas vezes eu passei a noite toda fora de casa?

— Isso tem que parar. — Disse Awut, o pai. Ainda estava no sofá e agora toda a atenção estava nele. Assim como a esposa, usava um roupão confortável para ficar em casa em uma noite de folga do trabalho. Comandar filiais de uma lanchonete conhecida pela cidade era mais cansativo do que podiam imaginar. — Esse seu comportamento já foi longe demais.

— Já olhou pra você, Win? — Ela voltou a dizer, encarando o filho novamente. Envergonhado, Win jogou os sapatos no chão, fechando os botões abertos da camisa. Não se deu o trabalho de arrumar o cabelo bagunçado. — A sua aparência tá péssima. Parece que você não dorme há dias.

— Deve ser porque eu ando preocupado com a faculdade...

Estava mentindo. Se achava um ator perfeito, na maioria das vezes, mas não naquela madrugada. Ali, ele sabia que os pais estavam prestes a tomar algum tipo de decisão que o deixaria furioso.

— Não vai nos enganar dessa vez, Win. Caímos no seu papo de aluno arrependido muitas vezes, mas agora chega.

— E o que isso significa?

Win estava com medo do que aconteceria nos próximos minutos. Perdeu a conta de quantas broncas levou dos pais em noites como aquela, quando chegava de madrugada de alguma festa, com a roupa suja de batom ou o hálito cheirando a álcool. Também brigou com eles quando mostrou as notas baixas no fim do semestre. No fim, escutava alguns conselhos e algumas palavras que machucavam, mas a vida continuava e Win não recebia nenhuma punição. Era mimado demais e os pais não eram responsáveis o bastante.

Awut se levantou do sofá, andando até estar ao lado da esposa. A expressão não deu lugar à fúria, mas à decepção, e aquilo fez o coração de Win apertar dolorosamente. Estava deixando de ser o filho perfeito a cada dia e aquilo mexia com os seus sentimentos. Não era um garoto chorão, mas pensar naquilo fazia com que os seus olhos enchessem de lágrimas.

 — Você não tá feliz com a faculdade, tudo bem, entendemos isso. Administração não é o curso dos seus sonhos. Mas o que você pensa em fazer no futuro, Win?

Win se manteve calado. Aquela pergunta era motivo de desespero. Queria responder que não fazia ideia do que queria estudar e pedir ajuda, mas começar uma conversa séria quando estava meio bêbado e sonolento não era uma boa ideia.

— Podemos conversar depois? — Ele começou a andar em direção à escada. — Amanhã de manhã? — Antes que se distanciasse, o pai o segurou devagar no pulso, praticamente implorando com o olhar para que ficasse. — Cedinho, eu prometo.

— Vamos conversar agora.

— Tá bom. — Se rendeu, impaciente. Cruzou os braços, na defensiva, e esperou o que viria a seguir. — Continue.

— Certo. — O mais velho suspirou. Trocou um olhar com a mulher distante e voltou a olhar o filho. — A melhor coisa a se fazer nesse momento é afastar você desse mundo que você acha que é perfeito. De todas essas festas e dos seus amigos que não são os seus amigos.

— Eu tenho amigos de verdade. Com qual direito você quer falar isso se você nem os conhece?

— Eu os conheço, sim, e por isso sei que nenhum daqueles moleques são boa companhia pra você. A melhor coisa nesse momento, Win, é passar um tempo com a sua família.

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— É muito simples. Você vai passar um tempo com os seus tios e vai repensar nas suas escolhas até entender que o que anda fazendo é errado. Vai se tornar um garoto melhor e menos mimado. — Win sorriu. Havia ironia ali. Era ridículo como a culpa de toda aquela história estava sendo despejada em cima de si. Não quis dizer nada. Não adiantaria. A verdade era que pais eram orgulhosos e raramente assumiam os próprios erros. — Quem sabe durante esses dias você consegue encontrar um propósito? — Por outro lado, passar alguns dias com os seus parentes em um apartamento de luxo na cidade não era a pior ideia que os seus pais haviam tido. Ficar longe deles, longe das cobranças, trancar a faculdade e sair escondido à noite para se divertir? Aquilo parecia melhor do que ganhar na loteria. — Você viaja na segunda-feira.

Ainda sorrindo, feliz ao se imaginar em uma rotina de paz com os seus tios que não ligavam para nada a não ser eles mesmos, Win refletiu por um segundo. Não era preciso viajar naquela situação, apenas pegar um carro e dirigir por meia hora. Confuso, Win entortou a cabeça, o sorriso ainda ali. Encarou a mãe e foi ela quem respondeu todas as suas perguntas, já que o pai já havia dado o sermão que queria.

— Viajar?

— Não dá pra ir até o interior de carro, é cansativo. São horas de viagem. Você vai precisar pegar um ônibus.

— Interior?

— Sim, Win. Você vai ficar com os seus tios, donos de um rancho maravilhoso. E o Mick pode te fazer companhia. Você lembra do Mick? Ele é o seu primo.

— Espera. — Ele com certeza estava tonto. Fechou os olhos, a mão na testa.  Sentiu o mundo girar mais rápido.  — É uma brincadeira?

— De forma alguma.

— Tudo bem. — Falou, abrindo os olhos devagar. A casa parecia ter parado de girar, mas o estômago estava embrulhado. — Esse é pior castigo de todos os tempos e eu me recuso a aceitá-lo.

— Você não tem que opinar. Você vai e fim de conversa.

A ordem da mãe dita de forma firme fez Win dar as costas e subir as escadas com raiva. Ele entrou no quarto, trancou a porta e desejou não sair de lá até que eles mudassem de ideia, mas precisava tomar um banho e comer alguma coisa. Grunhindo, irado, ele socou o travesseiro e não conseguiu pensar em castigo pior do que passar dias em um rancho. Estava sendo difícil imaginar o que o aguardava. Um sol escaldante e animais por todos os lados? Os pais podiam ter tirado o celular de si e o proibido de ver os amigos. Aquilo seria muito melhor do que o mandarem para o meio do nada para ficar na casa de parentes que não via há anos.

🍀

Quando Bright acordou na segunda-feira de manhã antes das sete horas, ele teve um pressentimento. Sentiu que aquele dia não seria bom. Suas intuições estavam certas na maioria das vezes, então Bright se perguntou se valia a pena se levantar da cama. Passou por muitas situações desagradáveis desde quando era criança e sabia que quando aquele presságio aparecia, algo aconteceria. O problema era que Bright não poderia se dar ao luxo de passar o dia todo deitado. Ele tinha um trabalho a fazer naquele rancho. Ajudava toda a sua família com o que precisavam e ganhava por isso. Muita gente morava na mesma casa e cada um tinha a sua responsabilidade, e mesmo que Bright não precisasse trabalhar duro e por horas, ele fazia questão de ao menos tentar ser um dos melhores entre os familiares, não porque queria impressionar, mas porque gostava da vida que levava e se sentia feliz daquele jeito.

Todos os dias eram quase iguais. E agitados. Era ao som da casa barulhenta que Bright acordava. Na adolescência, foi difícil se acostumar. Muitas vezes acordou irritado, querendo que todo mundo calasse a boca para que pudesse dormir até onze horas da manhã. Com o tempo, Bright entendeu que não havia nada melhor do que acordar cedo e aproveitar o dia da forma como ele merecia. Os gritos ao redor da casa e as conversas alheias não o incomodavam como antigamente, ainda que ele acordasse de mau humor e precisasse de meia hora para voltar ao seu normal, mas a coisa mais importante em acordar um pouco depois do sol nascer era observar a calmaria do rancho. Os animais acordavam junto consigo muitas vezes e Bright podia sentir o tempo mudando. O canto dos pássaros, o barulho da cachoeira ali perto... Tudo aquilo era um privilégio que só quem morava ali tinha.

Se espreguiçando, Bright ignorou o pensamento de que o seu dia não seria bom e pulou da cama. Prometeu a avó com dor nas costas que regaria todas as suas plantas em seu quintal e sabia que passaria toda a manhã naquele trabalho, já que a senhora que tanto amava tinha tantas plantas que era impossível contar nos dedos. À tarde, outro trabalho. O pai também pediu a sua ajuda. Disse que Bright precisava cuidar dos cavalos no estábulo. Mas Bright não contava com uma novidade. Quando chegou na cozinha, boa parte da família estava acordada. Ele direcionou um sorriso para todos porque não gostava de falar na parte da manhã. Para a sua sorte, todos entendiam o seu lado ranzinza. Com o café em mãos, Bright sentiu uma aproximação e olhou de relance para ver quem estava ao seu lado. Era a sua avó e ela era a pessoa que mais amava naquela casa.

— Meu bem. — Disse Nari, o tocando no ombro, a voz baixinha porque sabia que Bright era averso a barulhos. — Não precisa regar as minhas plantinhas hoje. Faça isso amanhã.

Bright a olhou, a caneca cheia de café indo até a boca. Juntou as sobrancelhas em sua direção, confuso sobre a fala dela. O que mais fazia no rancho era ajudar a avó, que era a mais velha da família, embora ela não se recusasse a trabalhar. Mas Bright a ajudava, e não só ele, porque por mais que não quisesse admitir, ela precisava de ajuda por estar em uma idade avançada. Bright gostava de regar as suas plantas. Elas eram lindas e davam flores bonitas. Cuidar delas o dava uma certa paz e depois do pressentimento que teve ao acordar era exatamente daquilo que precisava.

— Por quê?

— Você acordou mais tarde hoje, então ainda não ficou sabendo da novidade, mas o sobrinho dos nossos vizinhos chega hoje e vamos dar uma festa de boas-vindas a ele.

— O que ele é? Um príncipe? Por que tanta atenção?

— Você sabe que gostamos de festas e qualquer oportunidade nós reunimos todo mundo do rancho.

 — Uma festa de boas-vindas é realmente necessária, vó? Sabe... — Começou a sussurrar, se aproximando de Nari, se abaixando para ficarem do mesmo tamanho. — A minha intuição diz que hoje não vai ser um bom dia e você sabe que eu tenho um dom. — Provocou, brincalhão.

Ela riu do neto.

— Não seja bobo. Você vai me ajudar na cozinha com a torta salgada. As plantas ficam pra amanhã. Combinado?

Ele assentiu, terminando de tomar o café, colocando a caneca ainda quente em cima da pia. Já que não precisava sair de casa naquele horário, se sentou na mesa com os outros que não paravam de conversar sequer por um minuto e aproveitou para tomar o café da manhã com calma. Comeu um pedaço de bolo e viu a avó se sentar ao seu lado para terminar a sua refeição.

— De qualquer forma, eu ainda tenho que olhar os cavalos. Ordens do meu pai. Mas isso fica pra mais tarde. O que quer que eu faça na cozinha?

Nari puxou um caderno de receita em cima da mesa e folheou as páginas à procura da receita da torta salgada. Bright gostava de cozinhar com a avó porque assim aprendia a fazer as comidas deliciosas que eram preparadas naquela casa, mas naquele dia em questão, Bright não estava bem. Sabia que algo acabaria com a sua paciência logo, logo. Se fosse esperto, daria as costas àquela festa de boas-vindas para alguém que nem conhecia e dormiria cedo para começar o outro dia descansado. Estava decidido. Por enquanto, ajudaria a avó com os preparativos, à tarde cuidaria dos cavalos no estábulo como o pai pediu, e à noite fugiria daquela festa, evitando qualquer problema.

🍀

Win ainda estava com raiva e aquele sentimento não passaria tão cedo. Os pais haviam sido muito cruéis. O mandar para um rancho no meio do nada com uma parte da sua família que não tinha nenhuma intimidade estava sendo definitivamente o pior castigo que já recebeu.

Lá estava ele, andando pela rodoviária depois de descer do ônibus. A viagem foi cansativa o suficiente para sentir dor no pescoço e muito sono. Quando chegasse à casa onde o esperavam, seria educado com os parentes como aprendeu a ser durante toda a vida, mas estava disposto a se trancar no quarto e dormir até quando se sentisse satisfeito.

Ele procurava pelo primo, mas a última vez que o viu, Mick era uma criança. Recebeu uma foto sua de cartão de Natal há pouco tempo, mas olhou a fotografia de relance e agora estava arrependido por não conhecer o próprio parente. Por sorte, Mick estava perto da escada rolante com uma placa e o nome de Win escrito. Win sorriu aliviado quando o achou, andando mais rápido e arrastando a mala de rodinhas pelo chão. Parado frente ao primo, sem graça, não soube se seria certo abraçá-lo, mas Mick acabou sendo mais rápido e ficou na ponta dos pés para agarrá-lo apertado pelo pescoço como se dissesse que sentiu saudades.

— Que saudade, Win. — Disse ele. Win estranhou a fala, mas tentou ignorar a vergonha e abraçou o garoto menor que si pelas costas. Mick se afastou depois e Win o encarou melhor para conhecer as suas feições. Ele era parecido consigo, mas não ficou surpreso já que a sua família era toda parecida. A roupa também não o surpreendeu. Mick era do interior então era normal que se vestisse como um cowboy dos filmes. Mesmo com o tempo quente, ele usava calças e botas. Pelo menos, a blusa era sem mangas. — Como foi a sua viagem?

— Ah, cansativa.

— Eu imagino. Mas você chegou bem, é o que importa. Posso pegar a sua mala?

Win não teve tempo de negar e dizer que ele mesmo levaria, porque Mick a pegou e a arrastou, andando em sua frente. Ele era muito apressado. Em falar e agir. Win era da cidade e achava que as pessoas do interior eram mais calmas. Mick, não.

Ele seguiu o primo, caminhando com pressa para não se perder na rodoviária. Sentiu o sol em seu rosto quando colocou os pés na calçada e quis tirar a camisa de botões que usava. Só o que pôde fazer foi levantar as mangas, ainda seguindo um Mick acelerado pelo estacionamento. A caminhonete dele estava lá e Win soltou um riso fraco, novamente sem surpresa. As pessoas do interior eram todas iguais para si e estava tendo a certeza daquilo à medida que o tempo passava, começando pelas roupas do primo e logo em seguida o carro laranja sujo de lama e quase totalmente empoeirado.

— Ignora a sujeira da caminhonete, tá? Eu só preciso de um tempo pra lavar esse carro.

— Você é tão ocupado assim? — Win perguntou, já dentro do carro, o cinto sendo colocado. Ele desceu o vidro para sentir o vento no rosto e menos calor.

— Todos nós somos ocupados no rancho. Cada um tem uma responsabilidade, sabe? Pelo menos na minha casa é assim. E os vizinhos também parecem ocupados, então...

— Entendi. — Mesmo sendo um convidado, Win era da família e, dependendo de quanto tempo ficasse no interior, se perguntou se alguém o ofereceria algum trabalho, e ele nunca trabalhou na vida. Mimado, não fez nenhum esforço para nada. Seria bom inventar alguma desculpa muito boa caso algum dos tios ou o próprio Mick pedisse a sua ajuda. — Eu realmente não sei como funciona isso tudo. Cuidar de um rancho.

— É claro que não. — Mick riu, o olhando por um momento em meio à estrada. — Você é da cidade e nunca saiu de lá.

— Como sabe disso?

— A nossa família é fofoqueira. Os seus pais conversaram com os meus e então eu fiquei sabendo de algumas coisas sobre você. Garoto rebelde, hein?

Win estreitou os olhos para ele, o olhando sem acreditar na sua audácia. Mick era só um pirralho e estava o chamando de “garoto rebelde”. Aquilo o enfureceu.

— Quantos anos você tem, Mick?

— Eu tenho dezenove. — Eles eram da mesma idade. Todos os argumentos para ganhar uma futura discussão desapareceram da cabeça de Win. Ele decidiu resmungar mais um “entendi”, a palavra perfeita para encerrar um assunto, e voltou o olhar para a paisagem nada bonita do lado de fora. Casas pequenas e iguais, mato e nada mais. — Se você estiver interessado em saber, posso falar sobre como funciona o trabalho no rancho. Não que exista só trabalho, é a nossa casa também.

— Por que não?

Ele estava interessado em saber como era o lugar em que ficaria sabe-se lá por quanto tempo. E Win começou a gostar de Mick depois que soube que eram da mesma idade. Era mais um motivo para se tornarem próximos e quem sabe um entendesse o outro, ainda que Win soubesse que Mick tinha uma cabeça completamente diferente da sua por viver praticamente em outro mundo.

— Nós ganhamos dinheiro com o turismo. Abrimos o nosso espaço pra alguns visitantes. Eles adoram o rancho, os animais, as comidas que preparamos. É como um festival. Também vendemos produtos pra cidade, tipo leite, queijo e biscoito.

— Você parece gostar de tudo isso. — Disse Win, olhando o primo. Ele estava com um sorriso feliz em falar sobre a própria vida e Win foi contagiado pela felicidade dele. — Eu não sei o que esperar, sendo sincero. Os meus pais compraram a minha passagem e me mandaram pra cá.

— Você recebeu um castigo?

— É. Eu acho que os meus pais enlouqueceram. — Riu sozinho. — Eu me comportei do meu jeito a vida toda e, certo, escutei algumas reclamações e recebi alguns sermões, mas por que logo agora eles resolveram me colocar de castigo como se eu fosse uma criança? — Aliviado por estar colocando a raiva para fora, Win não teve tempo de se sentir ridículo pelo desabafo. — Quando eles me chamaram pra conversar, eu esperava qualquer coisa. Que tirassem o meu celular ou cortassem a minha mesada, não me mandar pro interior. Nada contra.

Mick riu.

— Tudo bem, Win. Você é da cidade e as pessoas da cidade têm um certo preconceito com o interior. É como se fosse um outro mundo pra elas. E talvez seja verdade.

— Por que diz isso?

— Eu acho melhor que você saiba de uma vez.

— Saber do quê? — Mick o olhou, uma careta se formando. Estava quase chegando em sua casa, a caminhonete diminuindo a velocidade. Win o encarava com expectativa. Havia ali curiosidade e medo. O carro estacionou, mas Win não tirou os olhos do primo para conhecer o lugar. — Saber do que, Mick?

Mick tirou o cinto com calma, segurando a chave do carro com força. Ele estava se comportando como se estivesse com medo da reação de Win e estava certo em ser cauteloso porque sabia que as pessoas da cidade sempre ficavam em choque quando visitavam o rancho e descobriam a verdade.

— Um rancho não é só um rancho, certo? Temos o centro há alguns minutos daqui, com lojas e tudo o que precisamos. É por isso que ninguém se atreve a ir embora.

— E?

— Nós não temos internet aqui, mas no centro tem uma lan house, então se você precisar muito mandar uma mensagem pra alguém, você pode ir até lá. A gente tem telefone em casa e isso facilita a coisa toda, mas pra você, que aposto que não desgruda do celular...

Ele não terminou a fala, mas Win entendeu o que ele quis dizer, e acima de tudo, entendeu que estava no fim do mundo. Estava em choque com a novidade de não ter internet, uma sensação ruim no peito, uma mistura de raiva e desânimo. Começou a se sentir mal de verdade com aquele castigo. Se sentiu burro porque devia ter pedido ajuda para os tios que moravam na cidade. Eles eram ricos, viviam em uma cobertura e não se preocupavam com nada além das próprias vidas. Com toda a certeza deixariam que Win ficasse com eles, mas agora, era tarde.

Ainda com aquilo em mente, triste demais para dar uma resposta ao primo, Win saiu do carro enquanto Mick pegava a sua mala. Ele olhou ao redor e de primeira conseguiu achar o lugar bonito. A casa dos seus tios tinha primeiro andar e era espaçosa. Já estava anoitecendo, então Win não conseguiu observá-la com atenção, ainda que as lâmpadas na varanda clareassem muita coisa. Montanhas verdinhas podiam ser vistas por trás da casa e a paisagem não era tão feia quanto o caminho que fez da rodoviária até ali. As casas dos vizinhos não eram todas iguais. Agora Win estava conseguindo ver uma pequena parte da beleza que tinha ali.

— Vamos entrar?

Ouviu a pergunta de Mick já perto da porta. Win deu alguns passos e subiu a pequena escada de madeira rangendo quando pisou com os sapatos novos. Mick abriu a porta para si e Win se admirou com o espaço que havia ali dentro. Não era nada desorganizado como pensou, ou pobre. Os tios tinham muitos móveis e cômodos. Win pisou devagar, esperando que o chão rangesse como a escada da frente, mas ele caminhou e não ouviu nenhum barulho. Se a casa era velha ou nova, não sabia, mas ela estava em um estado quase perfeito.

Win foi recebido pelos tios animados. Tentou não mostrar o susto que levou com os gritos dos mais velhos e os abraçou forte na mesma intensidade. Um abraço em grupo aconteceu e se Win não tivesse se mantido parado eles já estariam pulando pela sala. Apesar de morar na cidade e estar acostumado com as festas, em casa vivia uma vida pacata, os pais eram tão quietos quanto si. De repente, estava morando com três pessoas que pareciam correr contra o tempo.

— Como é bom ter você aqui, Win! — Jane disse. Estava falando alto como se quisesse mostrar para o mundo como estava feliz com a hospedagem do sobrinho, mas Win não achou aquilo ruim. Assim como havia acontecido com Mick, a felicidade dela o contagiou. — Como você tá crescido, garoto. — Ela apertou as bochechas dele, as mãos descendo até os braços musculosos. — A última vez que te vi você era uma criança pequena e magrinha, e olha agora...

— Verdade. — O tio concordou, indo abraçar o sobrinho pelos ombros. Win pôde sentir a força de Aran e principalmente o cheiro do perfume forte. Ali estava outra coisa que fez Win se sentir injusto. Durante a viagem ficou se questionando o que poderia encontrar nas pessoas que moravam no rancho, e por trabalharem o dia todo, Win achou que não encontraria nenhum cheiro agradável, mas, novamente, estava errado. O tio exalava um perfume que agradou o seu olfato. A casa cheirava a flores. — Queremos que você se sinta em casa.

Envergonhado com tanto carinho, Win assentiu com a cabeça, observando a casa mais uma vez. Estava sentindo um cheiro muito bom de uma comida que não soube identificar qual era.

— A casa de vocês é encantadora.

Eles sorriram em agradecimento. Foi a vez de Mick falar com ele. Estava com os pés nos degraus da escada.

— Vem, Win. Eu vou te mostrar o seu quarto.

— Depois... — Disse a tia, olhando Win com um brilho no olhar. Ele se sentiu amado por alguém que não dava a mínima e aquilo o fez se sentir um péssimo sobrinho. — Você desce pra conversarmos um pouquinho.

Ele concordou, seguindo Mick até o andar de cima. O primo o mostrou o quarto e só quando entrou no cômodo foi que lembrou que não teria internet para passar o tempo e se distrair. Ignorou aquilo mais uma vez, admirando o quarto em que ficaria. Não tinha um ar-condicionado de uma boa marca ou uma cama king size. Havia um guarda-roupa com um espelho, uma estante com livros e uma cama de solteiro colada à parede. Win adorava dormir colado à parede gelada. O ventilador parecia fraco, mas era melhor tê-lo do que passar calor na madrugada. Mick viu que Win observava o aparelho e sorriu sozinho em saber que Win não se acostumaria tão cedo com aquelas coisas tão diferentes da vida que tinha na cidade.

— Bom, esse é o seu quarto, primo. A minha mãe pediu pra você descer, mas se quiser descansar, fica à vontade, tá?

— Eu vou descer. Só preciso colocar uma blusa menos quente. Sabia que fazia tanto calor no interior, mas assim já é demais, não?

Riu para descontrair, com medo de ter falado alguma besteira. Aquela família estava sendo legal consigo a partir do momento em que se encontraram e Win não seria capaz de tratar ninguém de outra forma.

Mick concordou e deu as costas, fechando a porta. Sozinho pela primeira vez, Win conseguiu respirar melhor. Ele pegou a mala enorme que havia levado e a colocou em cima da cama, a abrindo em seguida, à procura da roupa mais confortável. Não comprava muitas roupas confortáveis, mas sim sofisticadas, que chamassem a atenção das pessoas e que o deixassem bonito. Usava regata e moletom quando estava em casa, mas ali não era a sua casa e ainda não se sentia íntimo o suficiente daquelas pessoas. De qualquer forma, pegou uma blusa sem mangas e sem botões, a mais simples que tinha, de cor azul clara e a vestiu. Não combinou com a calça social, então colocou um jeans, decidido a ficar com os sapatos caros que tanto gostava. Pronto para descer, procurou o celular em algum lugar e o olhou com pena, o jogando em cima da cama.

Descendo as escadas, Win sentiu novamente aquele cheiro de comida. Na cozinha, viu Jane distraída tirando uma forma do forno. Ele a escutou cantarolando e sorriu sozinho em como ela era pequena e robusta. Estava com um vestido florido que combinava perfeitamente com o cheiro do local. Quando ela percebeu a presença de Win, ele se aproximou e se sentou na mesa de jantar.

— O que cheira tão bem? — Perguntou. — Tô sentindo esse cheiro desde que eu cheguei.

— São biscoitos amanteigados. — Respondeu, tirando um dos biscoitos da forma com a ponta da faca. Ofereceu um a Win, que pegou com a ponta dos dedos, percebendo que não estava tão quente como imaginou. Mordeu um pedaço e foi ao céu. — Gostou?

— É o melhor biscoito que eu já comi.

— Exagerado... — Ela brincou. — Eu os fiz pra sua festa.

— Que festa?

— Sua festa de boas-vindas. Ela vai acontecer daqui a pouco.

Win parou de mastigar.

— Tia... Isso não é necessário. É sério. Eu não quero dar trabalho pra ninguém e até pensei em dormir cedo.

— Você não pode nem pensar em recusar esse convite. Todo mundo tá preparando essa festa desde que souberam que você viria. A gente é assim, sabe? Gostamos de fazer festa toda hora. As pessoas gostam de se juntar aqui.

— Já que não tenho como fugir... Eu vou.

A tia dele alargou o sorriso e Win retribuiu. Não havia motivos para ficar nervoso já que era acostumado a frequentar festas. A que prepararam para si não seria igual as que ia, mas era uma festa mesmo assim e Win adorava qualquer coisa que fosse animada. Ficar quieto e passar muito tempo em um lugar silencioso o fazia pensar e pensar nunca deixava Win contente, porque acabava se lembrando de como tinha uma vida fútil e nada feliz.

O telefone da casa tocou quando Win se distraiu observando a tia colocar os biscoitos em um pote de vidro. Ela estava ocupada e pediu para que o sobrinho atendesse. Ele andou até a sala, seguindo o som, procurando pelo aparelho. O que encontrou foi um telefone de fio. Aquilo o fez lembrar que ainda estava no fim do mundo.

— Alô?

— Win! — Ele reconheceu aquela voz. Era o seu pai. Pelo tom, estava furioso. — Por que você não avisou que chegou na casa da Jane? Não mandou mensagem e não telefonou. Você quer matar os seus pais de preocupação?

— Vocês se preocupam comigo? Isso é uma novidade. Me enviaram pro fim do mundo. Aqui não tem internet. Eu não posso mandar mensagem.

— Dá pra você parar de mentir? Em qual lugar do mundo não tem internet, Win?

— Aqui.

Houve um silêncio. Win riu sozinho, com ironia. Até os próprios pais eram mimados.

— Bom, a casa da sua tia tem telefone, então ligue sempre que puder pra dizer que tá bem.

— Eu tô bem e não vou ficar ligando toda hora. Você me mandou pra um lugar distante e quer ficar falando comigo pra quê?

— Eu entendo que você ainda esteja com raiva, mas com o tempo você vai entender como essa viagem vai fazer bem pra você, filho.

— Era só isso? Preciso desligar.

— Se comporta, por favor. Vou ficar ligando pra você e vou querer falar com a sua tia pra ter a certeza de que você não fugiu.

— Faça o que você quiser.

Furioso, Win colocou o telefone no gancho. Era verdade que achou a paisagem bonita, a casa encantadora, adorou a companhia dos tios e do primo, mas aquele não era o seu lugar, não era a sua cidade, aquilo ali era um rancho no meio do nada. Tinha todo o direito de estar com raiva dos pais depois daquele castigo sem sentido.

🍀

A festa estava bonita e animada do jeito que Win gostava, e ainda que só conhecesse três das quase quinze pessoas que estavam ali, ele se sentia confortável, isso porque era o centro das atenções e chamar atenção era exatamente o que Win adorava fazer. Todo o enorme quintal da casa da sua tia estava sendo iluminado por lâmpadas penduradas em um fio, além da luz forte da lua e a claridade da casa onde estava hospedado. Havia uma mesa longa repleta de comidas que pareciam maravilhosas e diferentes do que Win costumava comer na cidade. Não era o fast food de sempre ou as comidas chiques e sem graça dos restaurantes, mas bolos, biscoitos, tortas, vinhos e muito mais do que ele poderia contar.

Estava se sentindo completamente distante de todas aquelas pessoas humildes. Provavelmente os sapatos que usava e mais algumas roupas na mala custavam o mesmo preço de uma casa daquelas, mas ele decidiu não pensar naquilo porque apesar de ser mimado, não era um garoto ruim. Não estava feliz em estar no rancho, mas não iria negar como estava gostando de toda aquela atenção, carinho e alegria. Ele caminhou pelo quintal, não conseguindo controlar o próprio sorriso. As mãos estavam nos bolsos dos jeans e ele pôde sentir o tempo começar a mudar. Estava fazendo frio. Ainda andando, passou pela mesa de comida, querendo ir até Mick que estava na ponta. Ele estava acompanhado, mas Mick era a única pessoa que Win se sentiu confortável de verdade, então era melhor que ficasse perto dele antes que alguém desconhecido se aproximasse e começasse a puxar assunto consigo. Win não estava disposto a conversar naquela noite. Foi sincero quando disse que queria dormir cedo.

— Win! — Mick gritou, acenando. Distraído, Win levantou a cabeça, sorrindo mais aberto por ele querer a sua companhia. Andou mais rápido até estar ao seu lado, não se sentindo acanhado por estar perto de uma pessoa que não conhecia. Não era um menino envergonhado, caso contrário, já estaria enfiado no quarto, longe de todas aquelas pessoas. —Tá gostando da festa?

— Tá tudo lindo. Sério. Eu tô até sem graça.

— Os vizinhos gostam de tratar bem todo mundo que chega aqui. — Explicou, então quebrou o contato visual para apresentar quem estava ao seu lado. Win acompanhou o seu olhar e estudou aquela pessoa quieta e encostada na mesa. Estava com um copo de doce de leite na mão, calado enquanto comia, a cabeça abaixada. — Bright. — Mick sussurrou, o empurrando de leve com o ombro. — Diz oi pra ele.

— Oi. — Respondeu, friamente. Não levantou a cabeça e não parou de comer o doce, levando a colher à boca devagar. Win acompanhou o gesto dele, quase vidrado em uma cena tão simples.

Mick revirou os olhos, mas insistiu na apresentação.

— Win, esse é o Bright. — Continuou. — Digamos que esse cara insuportável seja o meu melhor amigo.

Bright não se abalou com o xingamento, mas levantou a cabeça em um suspiro, finalmente terminando de comer o doce. Ele deixou o copo com a colher em cima da mesa e cruzou os braços, o olhar agora na festa. Win piscou para parar de encará-lo. Não tinha problemas consigo mesmo e aceitava ser bissexual, mas achar alguém do interior tão bonito estava mexendo com o seu orgulho.

Como coisas ruins aconteciam o tempo todo, Mick se afastou para falar com algum conhecido e Win continuou parado perto de Bright, já que sair de repente só porque o primo saiu seria falta de educação, ainda que Bright não parecesse se importar em ficar sozinho. Não gostando daquele silêncio constrangedor, Win tentou puxar assunto por cima da música animada que saía de uma caixa de som ali perto. Ficaria naquele rancho até que os pais tivessem consciência do erro que cometeram e Win achou que seria bom fazer amizades.

— Então, você e o Mick são amigos há muito tempo? — Bright mexeu a cabeça para cima e para baixo, devagar e sem interesse na conversa. Win acabou rindo ao entender por que Mick disse que ele era insuportável. — Você não é muito de falar, não é?

— Não.

— Entendi.

Se sentindo culpado com a resposta curta e grossa que havia dado, Bright tentou se redimir.

— O Mick me disse que você é da cidade. — Ele começou. — Por que você veio pra cá?

Apesar de estar surpreso com Bright querendo continuar a conversa, Win não o olhou novamente, porque se o olhasse ficaria vidrado em como ele era bonito sem fazer nada, então o respondeu enquanto ficava de olho na festa.

— Castigo, eu acho.

— Quê? — Bright o olhou. Win o olhou de volta, não entendendo o espanto dele. — Você acha que ficar aqui é um tipo de castigo?

— Não foi o que eu quis dizer. Os meus pais me colocaram de castigo.

— E mandaram você pra cá?

— É.

— Então ficar aqui é um castigo. — Ele afirmou. Estava irritado e Win quis muito que Mick aparecesse para interromper a conversa. — Sabia que aqui é um dos melhores lugares pra se viver?

— Eu não tenho certeza sobre isso. Aqui é o fim do mundo.

Bright pareceu abismado com o que ouviu e se não estivesse mesmo muito sério, Win teria soltado um riso de como ele se irritava com facilidade. Ali estava um problema caso se tornassem amigos, porque Win era provocador e não segurava as piadinhas de humor ácido na boca, enquanto Bright parecia ficar com raiva de qualquer besteira que acontecesse em sua frente.

— Por Deus, Win, isso aqui dá de 0 a 10 na cidade. Você vai descobrir isso na segunda ou terceira semana.

— Terceira semana? Eu espero não ficar todo esse tempo aqui.

Win sentiu a mesa balançar e viu que Bright se desencostou dela. Estava em sua frente agora e o garoto o olhou de cima a baixo. Era como um Mick mais velho. As mesmas roupas de cowboy, tudo muito apertado, os cabelos bem cortados, nada de franja. Win ainda não o viu sorrir, mas imaginou que ele ficava muito mais charmoso sorrindo.

— Eu espero que você passe muito tempo aqui pra morder a língua e perceber que o rancho é muito melhor do que aquela cidadezinha onde todo mundo tem o que quer na palma da mão.

— Você sabe que quanto mais eu ficar aqui, mais eu vou tirar você do sério, não sabe?

Bright não respondeu de imediato porque não esperava aquela resposta. Win estava falando mal do seu lar e do seu lugar favorito no mundo e no minuto seguinte mudou completamente o tom da conversa como se estivesse flertando consigo, e Bright não sabia nada sobre flertes e namoros. Até Mick, anos mais novo, era mais experiente que ele.

Sem saber o que dizer, ele virou as costas para Win e se afastou dele. Win não o observou se costas porque soltou a risada presa que queria sair há algum tempo. Foi quando Mick chegou que ele parou de rir e segurou em seus ombros, ainda sorrindo.

— O que é tão engraçado, Win?

— O Bright.

— Você o achou engraçado? O que ele fez? Contou alguma piada macabra? Esse é o estilo dele.

— Ele se irrita muito fácil.

— Vocês discutiram?

— Talvez.

— Win... — Alertou. — Não cutuca a onça com a vara curta.

— Eu não sei exatamente por que começamos a discutir, mas a culpa não foi minha. Eu tentei começar uma conversa porque seria legal que eu tivesse algum outro amigo por aqui, mas ele se irritou a cada palavra que eu disse.

— E o que você disse?

Win deveria ser sincero e dizer que falou mal do rancho, mas Mick poderia ficar magoado e Win não queria ficar mal com a família.

— Eu não lembro.

— Olha... — Mick suspirou. Encostou o quadril na mesa, olhando a festa. Win focou a atenção nele. — Eu e o Bright somos amigos desde criança. Ele sempre foi o mais velho do grupo e me protegeu quando as crianças maiores ficavam me perturbando. Ele é mal-humorado, mas é uma pessoa legal. O problema dele é só... Estresse.

— E por que ele é tão estressado?

— Ele nunca me falou diretamente sobre isso, mas é fácil entender. Mora com os pais, os avós, os irmãos. A casa é uma bagunça, fora o trabalho que precisa fazer. Às vezes a gente só quer um descanso, sabe? E ele não tem um descanso desde sempre.

Não que Win estivesse arrependido da discussão, mas se sentiu mal por Bright. Teve compaixão por alguém que não conhecia. Não percebeu aquele sentimento de imediato, porque Win mal sabia o que era ter empatia por outra pessoa, mas ele descobriria no futuro o que aquilo significava. Morar no fim do mundo o faria uma pessoa melhor, da forma fácil ou da forma difícil.

Durante a noite, Win se deliciou com as comidas que o ofereceram e conversou com metade das pessoas que estavam presentes na festa. Ele manteve distância de Bright e tentou apagar da memória a conversa nada agradável que tiveram. Esperava que o próximo encontro dos dois fosse mais ameno porque queria ser amigo dele. O porquê ele não sabia, mas queria, e Win sempre conseguia tudo o que queria.

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Bright não gostava de ser contrariado. Foi obrigado pela família a comparecer à festa de boas-vindas daquele garoto novo, primo do seu melhor amigo. Não queria ir à festa alguma. O seu plano era cuidar das plantas da avó, cuidar dos cavalos e se sobrasse tempo, descansar. Até que trabalhava bastante no rancho e felizmente ganhava dinheiro por isso, mas tudo o que queria era férias. O avô costumava dizer ao neto que ele era jovem e que a sua vida era um feriado, mas Bright discordava daquilo porque trabalhava desde quando era pequeno. Desde cedo, o próprio pai o ensinou a pegar no pesado e Bright gostava de toda aquela responsabilidade, mas agora estava cansado e queria passar o dia todo na rede, dormindo na melhor das opções.

Ele achou que acordaria com o humor melhor no dia seguinte, mas a família tinha prazer em conversar alto em um horário tão cedo e Bright nunca conseguia dormir bem, de fato. Juntando a discussão que teve na noite passada com o sono interrompido naquela manhã, Bright estava com o humor péssimo, mas ele se levantou da cama tentando não ser a pior pessoa do mundo, tomou um banho, vestiu uma roupa e seguiu para a cozinha. Ele tomou o café em silêncio e saiu de casa sem se despedir de ninguém, pensando nas inúmeras tarefas que precisava fazer naquele dia.

O sol havia dado uma trégua, então ele não colocou nenhum chapéu para esconder a pele. As botas estavam lá para protegê-lo da lama que sabia que iria encontrar, mas optou pela regata branca em vez da camisa de botões para não passar tanto calor. Sempre usava jeans, os mais velhos, porque sempre chegava em casa com a roupa suja depois do trabalho.

A primeira coisa que faria era colocar as rações para os porcos. Fazia aquilo desde quando era criança. Mas Bright fez a burrada de olhar a casa dos vizinhos, pensando se Mick já estava acordado. Ao contrário de encontrar o melhor amigo, encontrou o primo dele, e discutir com Win era uma péssima forma de começar o dia. Tentando fugir, Bright acelerou os passos, mas conseguiu sentir Win saindo da varanda da sua casa e ir atrás de si. Bright quis correr, mas então Win saberia que ele estava fugindo e aquilo era um bom motivo para continuar sendo perseguido. Controlando a respiração, não entendendo a si mesmo por estar nervoso com uma aproximação, Bright se acalmou. Ele parou no meio do caminho e cruzou os braços, encarando um Win quase sorridente. Era como se ele quisesse sorrir, mas estava se segurando. Bright não entendia o que era engraçado.

— Bom dia. — Disse Win. Bright estreitou os olhos para ele e não respondeu o seu cumprimento. — O que você tá fazendo?

— Eu quem deveria fazer essa pergunta. Não deveria estar dormindo?

— Eu queria tirar uma foto do sol nascendo.

— E conseguiu? — Win assentiu, procurando o celular no bolso da calça social. Bright juntou as sobrancelhas e por pouco não repreendeu aquele garoto por usar roupas tão chiques em um rancho. Não demorou muito para que a tela de um celular tivesse sido colocada frente ao seu rosto. Ele passou os olhos pela foto bonita e esticou os lábios para sorrir. Não conseguia colocar em palavras o quanto amava o rancho porque ele o proporcionava os melhores momentos de paz e lindas paisagens. Foi então que lembrou que Win disse que aquele lugar era o fim do mundo, então tratou de fechar a expressão novamente. — Bom pra você. Tchau.

— Espera. — Falou. Bright voltou a andar e Win o seguiu. Caminhou ao lado dele sem saber para onde estava indo. Aquele lugar era enorme e não duvidaria de que se perderia em algum momento. — Você não respondeu a minha pergunta.

— Vou trabalhar.

— E o que você faz exatamente?

— Cuido dos animais, das plantações e ajudo quem precisa.

— Você é muito prestativo. — Mostrando que entendeu e concordando com o elogio, Bright mexeu a cabeça para cima e para baixo como costumava fazer quando não estava a fim de falar. Win não tirava os olhos dele, mesmo que tropeçasse vez ou outra. — Eu posso te ajudar com alguma coisa? Não tenho nada pra fazer. O Mick ainda não acordou pra me dar alguma tarefa.

— E por acaso você sabe fazer alguma coisa?

— Não.

Bright soltou um riso. Foi a primeira vez que Win o viu sorrir. E não importava se estava sendo um sorriso debochado porque Win teve a certeza do que estava pensando na noite passada. Bright ficava ainda mais charmoso sorrindo.

— Por que isso não me surpreende?

— Se você me ensinar, eu posso aprender.

Bright não precisou pensar para dar a sua resposta.

— Sem chance.

— Tá bom. Não vou fazer nada, por enquanto. Mas posso ficar por perto? Eu queria tirar algumas fotos do lugar pra guardar de recordação.

— Achei que aqui fosse o fim do mundo.

— E é. Mas é um lugar bonito.

Para não começar mais uma discussão, Bright se manteve calado, os passos aumentando de tamanho para que chegasse mais rápido onde queria. Win conseguiu acompanhá-lo com facilidade já que eram praticamente do mesmo tamanho e aquilo fez Bright bufar em frustração. Não que gostasse de ficar sozinho, Mick vivia o fazendo companhia, o ponto era que Bright não gostava de Win. Não precisava conhecê-lo para ter uma opinião muito bem formada sobre ele. Win era um garoto da cidade, muito mimado e fim. Bright nunca teve nada fácil e cruzar com pessoas em seu caminho que tinham uma vida fácil o deixava irritado. Estava sendo infantil com aquele comportamento? Estava. Com vinte e quatro anos, o certo era ser maduro, mas Win o dava nos nervos e era melhor que mantivessem distância.

Seguindo com a sua rotina, Bright fingiu que Win não estava por perto, embora ele não desgrudasse de si. Estava com o celular na mão, mas não mexia no aparelho. Bright quis rir da careta que ele fazia porque sabia que ele estava se lembrando de que não havia sinal de internet por ali. Quando Win se distraía tirando fotos, Bright o estudava. A camisa tinha alguns botões abertos e Bright queria perguntar por que ele não colocava uma roupa mais leve, mas puxar assunto com ele estava fora de cogitação, então continuou em silêncio.

Bright não tinha celular. Nada de redes sociais também. A família e os amigos estavam todos no rancho. Não via necessidade em ter um celular porque assistia o jornal para saber das notícias e não tinha com quem se comunicar em outro lugar. Quando queria tirar fotos, usava a câmera fotógrafa e revelava as fotos que tirava, colando na parede ou as colocando em álbuns, todas muito bonitas por sinal. Mick dizia que ele deveria ser fotógrafo, mas ir para a cidade fazer faculdade era uma ideia que não passava pela sua mente. Não queria abandonar a família, então focava no trabalho no rancho e esquecia aquele sonho.

Ocupado no estábulo agora, Bright penteou os pelos de um dos cavalos e Win descansou o corpo em uma das pilastras, mantendo distância. Bright percebeu que ele estava tenso e não conseguiu não perguntar o motivo.

— Tudo bem com você?

— Sim.

— E por que você passou de animado pra nervoso?

Win abaixou a cabeça e Bright parou de escovar o cavalo para prestar atenção no que ele tinha para dizer.

— Eu tenho medo de cavalos.

— Como é que é? — Bright gargalhou e Win voltou a olhá-lo, maravilhado em vê-lo sorrindo daquele jeito, com os olhos quase fechados e uma risada ecoando por todo o estábulo. Win queria continuar vidrado nele, mas se viu chateado quando entendeu que Bright estava rindo de si. — Você tem medo de cavalo e veio parar exatamente onde eles moram. Não aqui no estábulo, mas no rancho. Por que você tem medo deles?

— Eu não sei. Só tenho medo. Sinto como se eles fossem me atacar.

— Por Deus...

— É sério. Eles parecem malvados.

— Eu não vou admitir que você fale mal dos meus cavalos.

— Não tô falando mal dos seus cavalos. Tô falando mal dos cavalos em geral. — Win foi atrevido e soube que a resposta tiraria Bright do sério. Foi exatamente o que aconteceu. Bright passou a mão pela testa, respirando fundo, e Win pensou que ele andaria até si e o agarraria pelo colarinho para brigar, mas algo pior aconteceu. Bright se aproximou não sozinho, mas com o cavalo. — Ei...

— Esse é o Alfa.

— Tá. — Deu um passo para trás. Bright estava sorrindo e Win não gostou da ironia que ele emanava, segurando o pescoço do cavalo preto como se fossem velhos amigos. — Eu devo cumprimentar ele ou algo assim?

— Você é idiota assim mesmo ou tá fazendo um esforço pra piorar toda a sua imagem? — Sabendo que pegou pesado quando Win ficou em silêncio, Bright tentou se comportar. — O Alfa é o meu cavalo. Ele parece assustador, mas não é. Ele gosta de carinho. — O alisou mais um pouco, voltando o olhar para Win. — Eu quero te mostrar que não precisa ter medo deles. Vem cá.

— Não.

— Win. Vem cá.

— Eu não vou até aí.

Bright suspirou impaciente e seguiu Win com o seu cavalo até o lado de fora do estábulo. Win caminhou de costas, fugindo, em dúvida se chorava com medo do animal ou se ria do sorriso divertido de Bright. Agora ao ar livre, Win tinha todo o espaço para correr e se esconder. Poderia até mesmo voltar para casa e só sair de lá quando Bright parasse com aquela brincadeira de mau gosto, mas apesar do coração acelerado pelo pavor que tinha de cavalos, ele quis continuar naquele joguinho. Bright não era insuportável como Mick havia dito, ainda que o primo estivesse brincando. Bright só precisava de alguém para conversar besteiras e fazer bobagens. Talvez ele precisasse voltar a ser criança e Win sabia como ser infantil. Ainda andando com pressa, não olhando onde pisava, algo passou pela mente de Win. Faria qualquer coisa para ser amigo de Bright, mesmo que ele o desse foras ou o expulsasse do seu caminho. De alguma forma, achava que eles combinavam, mesmo que fossem 100% diferentes um do outro.

Cansado daquela brincadeira, Bright parou com Alfa do seu lado e encostou a cabeça no animal, fazendo carinho com a mão. Ele olhou Win e levantou as sobrancelhas, mostrando que o cavalo era inofensivo, mas Win continuou se afastando e Bright sabia o que estava prestes a acontecer. De costas, Win não fazia ideia de que estava caminhando em direção a uma poça de lama. Bright deveria deixar que o garoto caísse e se sujasse só para ver o desespero dele com a roupa chique completamente suja, mas alguma coisa o mandou ajudá-lo e foi o que ele fez, indo até ele. Win, assustado demais, acabou tropeçando nos próprios pés. Bright já estava o segurando na mão para puxá-lo para longe daquela lama, mas Win o puxou para trás e os dois caíram no chão. A pior parte não foi toda a sujeira que fizeram. A pior parte, com certeza, foi ter caído por cima de Win, com a sua boca na boca dele.

Bright demorou um tempo para entender o que acontecia. Ele estava beijando aquele garoto que não suportava. E foi bom sentir os lábios dele. Até fechou os olhos, no impulso, como se aquele beijo tivesse sido planejado, mas aos poucos entendeu toda aquela cena e abriu os olhos, assustado. Se levantou, olhando as próprias mãos sujas de lama, depois olhou Win e não fez questão de ajudá-lo a levantar. Voltou para o cavalo, segurou em seu pescoço com gentileza e saiu dali. Enquanto isso, Win continuou na lama, agora sentado. Não teve tempo para pensar em nada porque ouviu a voz de Mick, e pelo sorriso de canto que o primo tinha, Win soube que ele viu toda a cena.

— O que aconteceu aqui? — Ele perguntou.

Win não quis se levantar, sentindo a roupa cada vez mais suja e molhada pela lama embaixo de si. Não sabia se conseguiria deixá-la limpa, mas, sendo honesto, não estava se importando com aquilo, não naquele momento. Tudo bem que havia achado Bright bonito e flertar era divertido, mas beijá-lo? Aquilo superou todas as suas expectativas. Foi provavelmente a boca mais rápida que já beijou na vida. Não precisou pedir ou insistir, só aconteceu. O problema era que agora Bright deveria estar mais furioso do que nunca consigo e se tornar amigo dele seria ainda mais difícil.

— Nem eu sei exatamente o que aconteceu aqui. — Respondeu, pensativo. Mick estendeu a mão para ajudar o primo e Win olhou o gesto com carinho. Estava todo sujo de lama, da cabeça aos pés, e Mick estava ali, querendo tocá-lo e ajudá-lo. Comovido, Win pegou em sua mão e foi puxado por Mick. Win não costumava ser uma pessoa tímida, mas o sorriso que Mick tinha em sua direção estava começando a deixá-lo sem graça. — Você viu?

— Se eu vi o Bright perseguindo você com o Alfa e depois vocês dois caindo na lama e se beijando? Vi.

— Não foi assim que aconteceu.

— Não? — Mick gargalhou, finalmente. Win riu junto, lembrando da cena.

— Ele deve me odiar agora.

— O Bright não odeia ninguém. Eu te disse, não disse? Ele só é mal-humorado. Quem sabe você não seja a cura pra isso? — Insinuou, empurrando o primo com o ombro.

— Eu?

— Sabe qual foi a última vez que eu vi o Bright sorrindo daquele jeito? Quando éramos crianças.

Eles começaram a caminhar. Win não disse nada. Abaixou a cabeça e viajou na lembrança da bagunça que foi a última cena. Dentro de casa, o tio olhou espantado para ele. Win soltou um risinho fraco e Mick explicou o que tinha acontecido.

— Ninguém pode ficar no rancho com medo de cavalo. — Disse Aran. — Mick, por que você não o ensina a montar?

Provocativo, Mick olhou Win.

— Eu acho que o Win já tem alguém pra esse cargo.

— Quem?

— O Bright.

Mexendo a cabeça em negação, Win rebateu.

— É melhor você me ensinar.

— Você não vai se concentrar o suficiente caso o seu professor seja o Bright?

— Tá acontecendo alguma coisa aqui que eu não sei?

Aran perguntou e todos se calaram. Continuou tomando o seu café enquanto esperava alguma resposta, mas Mick se manteve em silêncio e Win subiu as escadas direto para o banheiro para tomar um banho. Embaixo do chuveiro, se amaldiçoou por não conseguir parar de pensar naquele simples beijo. Um simples beijo que não significou nada.

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— A vovó não gosta de ver você desanimado.

Bright formou um bico nos lábios, empurrando o pé no chão para se balançar na rede. Nari estava parada ali perto, com os braços na cintura e o olhar atento ao neto. Bright nunca conseguia mentir para ela e não seria agora que esconderia a verdade.

— Eu dei o meu primeiro beijo.

Nari levantou as sobrancelhas, surpresa. Ela andou até o neto e pediu espaço para se sentar na rede. Os dois agora balançavam devagar, Bright com a cabeça encostada no ombro dela.

— E você gostou?

— Não sei. Foi tudo tão rápido. E pior, aconteceu por causa de um acidente.

Ela mexeu a cabeça, mostrando que entendeu. Fez um carinho no braço de Bright, coberto pelo pijama quente para esquentá-lo na madrugada fria. 

— E é só isso que tá incomodando você?

Bright gostava de como a avó não fazia uma tempestade em copo d’água, enquanto ele achava que tudo era o fim dos tempos. Estava esgotado emocionalmente e talvez agora fosse o momento de desabafar sobre aquele assunto. Nari poderia dar algum conselho ou, na melhor das hipóteses, falar com o seu pai para o dar uma folga do trabalho no rancho.

— Eu me sinto cansado como nunca estive, vó. Se a minha mãe me escuta falando assim, vou levar a maior bronca, mas juro que não tô reclamando da minha vida. Gosto do rancho e do trabalho, mas queria... Mudar.

— Mudar?

— É. Mudar a minha rotina. Viajar e fazer alguma coisa que eu realmente gosto.

— Fotografar.

Bright sorriu. Ela conhecia o neto mais do que ele mesmo.

— Sim.

— Bom, você sabe que deve conversar sobre isso com os seus pais. Sabemos que não gosta da cidade, mas se continuar aqui, as coisas vão continuar iguais. Quem sabe ir até lá não seja uma boa ideia?

— O Mick quer estudar Psicologia, mas não tem coragem de falar com os pais pra fazer faculdade na cidade. Eu também não tenho essa coragem.

— Tem que tentar pra saber se vai dar certo, meu bem. — Ele assentiu. Quando o tempo começou a esfriar, ele se levantou da rede e ajudou a avó a ficar em pé. Eles caminharam para dentro de casa depois que Bright apagou a luz da varanda e antes que se separassem, ela sussurrou: — E com quem foi o seu primeiro beijo?

Envergonhado, Bright abaixou a cabeça e andou até a escada. Não sabia o que dizer. A avó riu e se aproximou para beijá-lo na bochecha, depois foi para o seu quarto e Bright resolveu ir dormir, dando uma bronca no próprio cérebro por pensar em quem não deveria.

Alguns dias depois, Win despertou cedo e embolou na cama durante uma hora. Acordou com saudade dos pais, a raiva começando a diminuir. Também sentiu falta da cama confortável e do ar-condicionado, embora não estivesse sentindo calor como achava que sentiria. Ele procurou o celular em cima da estante e encarou a tela sem notificações. Poderia ir até a lan house para dar uma olhada nas redes sociais e ver se alguém o mandou uma mensagem, quem sabe chamar os amigos para o visitarem, já que o rancho era mesmo um lugar incrível, ainda que não tivesse nada para fazer. Ao menos os amigos poderiam levar algumas bebidas e eles poderiam fazer a própria festa.

Decidido, ele se levantou da cama e se preparou para procurar Mick pela casa. O encontrou na cozinha, comendo aqueles biscoitos amanteigados que Win tanto gostava. Se sentou perto do primo, roubando um dos biscoitos de perto dele.

— Eu estava pensando em ir até a lan house.

— Tá começando a sentir a falta da internet?

— Eu queria dar uma checada nas redes sociais, falar com os meus amigos, dizer aos meus pais que eu tô bem. Você pode me levar até lá?

— Claro. Eu vou até o centro com o meu pai levar algumas encomendas. A gente aproveita e te deixa lá.

— Certo. Eu não vou demorar, prometo.

— Relaxa. Você tá pronto? Vamos sair daqui a pouco.

Win disse que sim, então o tio apareceu, pedindo ajuda para colocar as encomendas no carro. Win se prontificou a ajudar. Mick trocou olhares com a mãe, os dois surpresos por vê-lo prestativo quando pensaram que Win não moveria um dedo para fazer nada por ali, já que os pais deixaram claro que ele era bastante mimado. Mais uma vez, Win surpreendeu a todos. Aquela não era a primeira vez. Ele regou o jardim, ajudou a preparar o jantar e auxiliou na produção dos queijos. Não encontrava com Bright desde o acidente do beijo. Os dois estavam se evitando.

Prestes a entrar no carro do tio, Mick apareceu ao seu lado. Ele parecia querer dizer alguma coisa importante porque estava acanhado.

— Algum problema? — Win perguntou.

Mick batucou os dedos no teto, olhando longe.

— Temos companhia. — Win seguiu o olhar dele, encontrando Bright andando até eles. — O Bright vai ajudar com a entrega das encomendas. — Assim como Mick, Bright também parecia acanhado. Estava com vergonha de se aproximar, caminhando devagar, o olhar nunca parando em Win. Quando ele finalmente chegou no carro, Mick o cumprimentou. — Oi.

— Oi. — Respondeu de volta.

— Você lembra do Win?

Bright passou o olhar nele por um segundo apenas e mexeu a cabeça com rapidez. Estava claro para os dois que Mick estava provocando ambos os garotos e agindo como um cupido maldoso quando não havia nenhum sentimento amoroso entre eles. Win, esperto, percebeu aquilo, Bright, mais devagar, estava mais confuso e envergonhado do que nunca. Foi com o rosto começando a esquentar que ele decidiu entrar no carro, no banco de trás. Mick abriu a porta do seu lado e empurrou Win para se sentar ao lado dele, enquanto se sentava na ponta depois. Eles pegaram estrada no minuto seguinte e Win quase esqueceu para onde estava indo quando estava tão perto daquele caipira que o ignorava depois do que aconteceu. Win também estava ignorando e até o evitando, mas Bright era mais velho, consequentemente mais maduro. Ele deveria dar o primeiro passo e conversar sobre o que tinha acontecido, certo? Ou talvez Win estivesse se iludindo rápido demais e o beijo acabou sendo um acidente e nada mais.

— O Alfa tá bem, Bright?

Aran perguntou, dirigindo. Distraído com o carro balançando e o jogando para cima de Win, Bright demorou um tempo até entender a pergunta.

— Ele tá ótimo.

— Você sabia que o Win tem medo de cavalo? Algum de vocês deveria ensiná-lo a montar. Que tal você, Bright? Tem mais experiência com cavalos.

Bright molhou os lábios, nervoso. Ele procurou o rosto de Win para ver se ele estava de acordo com aquela ideia e o encontrou já o olhando. Bright demorou um tempo com o olhar sob ele. Não estava com as roupas chiques de sempre, pelo contrário, usava jeans e uma blusa simples e folgada. Os sapatos ainda eram os mesmos, aqueles que custavam uma fortuna, mas ainda estava encantador. Bright começou a perceber como ele parecia da realeza.

— Eu ajudo. — Falou, de olho em Win. Feliz, Win sorriu, então eles sorriram um para o outro e toda aquela tensão pareceu sumir. — Tenho um cavalo mansinho no estábulo. Vai ser fácil montar nele.

O assunto se encerrou com um encontro marcado para mais tarde. No centro, com a cabeça longe e a ansiedade batendo na porta, a lan house deixou de ser importante, mas como já estava ali, Win verificou as redes sociais e mandou mensagem para os pais, mostrando as fotos que tirou das paisagens. Riu das mensagens que recebeu no grupo de amigos. Ohm e Nanon disseram que ele havia sido sequestrado. Não se esquecendo de fazer o convite, Win os chamou para uma visita, dando o endereço e repreendendo a si mesmo por não ter comunicado à tia, mas como ainda era o mesmo garoto inconsequente, disse a si mesmo que daria o aviso depois.

Na calçada, guardou o celular no bolso e esperou que Mick aparecesse. Fazendo o seu coração acelerar de uma forma nada boa, foi Bright quem deu as caras. Estava com as mãos nos bolsos dos jeans apertados e Win quis chamá-lo de cowboy porque ele se vestia igualzinho a um. Sorriu sozinho.

— Qual é a graça? — Bright perguntou, chegando perto. Não estava na defensiva, o tom da pergunta foi calmo.

— Uma coisa passou pela minha cabeça.

— Conta pra mim.

Win observou a rua sem movimento. Havia poucas pessoas e lojas, mas nada de casas, prédios ou carros como na cidade.

— Você se parece com um cowboy.

Bright esticou os lábios, também achando graça. Não disse nada. Mick apareceu em seguida, dizendo para encontrarem o pai mais à frente. Com todas as encomendas de queijo entregues e de volta ao rancho, Bright não deu indícios de que iria embora, então Win se lembrou de que ele o ajudaria a montar em um cavalo. Estavam os dois a sós agora, porque Mick precisava ajudar o pai com outro trabalho. Bright pediu com o olhar para que Win o seguisse até o estábulo. Lá, ele apresentou o cavalo mais manso que tinha, com Win distante.

— Esse é o Garanhão. — Apresentou, colado ao cavalo, fazendo carinho nele. Win o achou bonito com os pelos marrons, quase brilhantes. Ele era menor do que os outros. — É o cavalo mais mansinho que eu tenho e todo mundo se encanta com ele. Se você não conseguir montar nele, eu desisto.

— Você desiste muito fácil. E eu não sei se tô pronto pra isso.

— Você não tem motivos pra isso, mas quero que confie em mim. — Win concordou. Ele viu Bright procurar um banco pequeno e depois o seguiu até o lado de fora, distante do cavalo. Se aproximou quando Bright revirou os olhos pela terceira vez depois de pedir várias vezes para o garoto se aproximar. — Ele não vai te atacar, Win. Chega mais perto, pela frente. Ele precisa te ver. — Win caminhou, quase paralisado de medo. Bright se posicionou ao lado dele. — Faz carinho. — Win não atendeu ao pedido, então Bright pegou em sua mão e a colocou no cavalo. Fizeram carinho juntos e sorriram ao mesmo tempo. — Ele precisa te conhecer antes que você suba nele.

— Tocar nele tudo bem, subir nele é outra história.

Bright soltou uma risadinha. Com o banco ao lado do cavalo, começou a explicar para Win passo a passo do que deveria fazer, segurando Garanhão para não sair do lugar.

— Segure as rédeas sem muita força, só pra que ele continue parado, depois coloque o pé na sela e passe a perna por ele. Sente com cuidado e devagar pra não machucar as costas dele. Agora você segura as rédeas com força pra não se desiquilibrar e cair.

— Muito alto. — Disse Win, já sentado no cavalo. Estava tão apavorado que mal conseguia se mexer. — Muito alto, muito alto, muito alto.

Bright soltou uma risada alta.

— Você tá indo bem. — Falou, puxando Garanhão para frente. — Veja, você já montou nele. Não foi difícil, foi?

— Com você por perto ficou fácil.

Piscando os olhos, Bright não teve certeza se aquilo era mais um flerte. Era difícil entender Win. Ele era um mistério para si. De repente sentiu vontade de conhecê-lo melhor e Bright nunca sentiu aquele tipo de vontade com ninguém.

— Já sabe quanto tempo vai ficar no rancho?

— Até os meus pais me mandarem voltar. Eu não sei quando isso vai acontecer. — Deu uma pausa, mais relaxado em cima do cavalo. Gostou de ver tudo ali de cima. As casas perto umas das outras, todas diferentes, como se cada vizinho tivesse o seu próprio estilo. Ver as montanhas dava vontade de ir até elas e observar todo o rancho do alto. Win também podia achar alguns animais soltos andando por ali e o céu azul sem nuvens deixava tudo mais bonito. Também havia Bright de costas. Daquele jeito conseguia observá-lo sem ser encarado de volta. Sentia um frio na barriga muito bom quando via como as roupas dele eram apertadas. Tudo ficava muito marcado e a vontade de apertar cada pedaço daquele corpo aparecia cada vez mais. — Por que a pergunta? Tá com medo de que eu vá embora?

— Na verdade, quero que você vá embora o mais rápido possível. Não tenho o dia todo pra ensinar pra um garoto mimado como montar em um cavalo.

— Sei que sou mimado. Se você acha que me ofende falando assim, tá enganado.

— E por que você não faz nada pra mudar?

— É difícil mudar quando já estamos acostumados com uma coisa. — Queria continuar falando sobre a sua vida porque embora Bright estivesse o dando respostas grossas, ele parecia interessado em saber sobre si, mas o cavalo começou a andar mais rápido e Win novamente paralisou de medo. — Bright... Eu não quero morrer assim.

Mais uma vez, Bright revirou os olhos e em um passe de mágica subiu em Garanhão, se sentando atrás de Win, que ficou mais tenso com a aproximação do que com o animal.

— Por Deus, Win, para de ser dramático.

— Como você subiu aqui tão rápido?

— Eu tenho experiência com cavalos. Se acalma, tá? O animal pode sentir o seu medo e ficar assustado.

— Tá.

Ele respirou fundo. O cavalo ainda andava, mais rápido agora, mas como Bright estava segurando as rédeas, Win não sentiu medo como antes. Aparecendo contra a sua vontade, o frio na barriga o fez se esquecer de Garanhão e lembrar de como Bright estava colado em si. Podia sentir todo o corpo dele, o calor, o cheiro e até a respiração no seu pescoço, já que a cabeça dele estava quase apoiada em seu ombro, tentando ver o caminho para dar a volta. Win não queria voltar porque estava gostando do passeio. Mais do contato com Bright do que o passeio, principalmente porque, intencionalmente ou não, o nariz dele estava quase encostando na sua pele, junto com a boca. Foi no impulso que Bright se aproximou para sentir o cheiro dele e sorriu com o cheiro de um perfume caro, como esperava. Win ficava com muitas garotas em festas, mas ficar com garotos o dava sensações melhores. O prazer era sempre maior. Com o gesto de Bright ele lembrou daquilo, do beijo, e de como queria sentir a boca dele de novo. Mas eles logo chegaram aonde haviam começado e Bright desceu do cavalo, ensinando Win a descer, novamente, passo a passo. No chão, Win formou uma careta e Bright abriu um sorriso, sabendo qual era o problema.

— Muito dormente?

Win assentiu. Estava dormente da cintura até as coxas. Não estava acostumado a subir em cavalos e esperava que aquilo acontecesse. Estava prestes a tocar em si mesmo para massagear a carne e sumir com a dormência quando Bright acertou um tapa em sua bunda.

— Você se acostuma.

Assustado demais com o atrevimento, mas não se dando o trabalho de reclamar, Win encarou Bright agindo normalmente, guardando o cavalo no estábulo e não o olhando e nem se despedindo. Win quis agradecer pela ajuda e pelo passeio, mas estava chocado para falar qualquer coisa, então caminhou de volta para casa, ainda se sentindo dormente e pior, com o coração batendo forte dentro do peito.

Ainda no estábulo, Bright encostou a testa em Garanhão. Todo o corpo tremia e queimava pela vergonha. Quando percebeu que estava sozinho, começou a conversar com o cavalo.

— Você acha que eu fui muito sem-vergonha? — Perguntou, natural. Já estava acostumado a conversar com os cavalos como se eles fossem os seus amigos. — Eu não sei o que fazer quando começo a gostar de alguém. Não que eu goste daquele garoto. Tudo bem, ele é bonito, tem um perfume gostoso e o sorriso dele é lindo, mas eu não o conheço. Não posso gostar de alguém que eu não faço ideia de quem seja, certo? — Continuou. — Eu não sei por que fiz aquilo... — Resmungou, chateado. — Não sei flertar. Eu achei que, você sabe, fazer aquilo, seria um tipo de flerte porque pra mim o Win flerta toda hora. Mas pode ser coisa da minha cabeça e ele é só um idiota que fala muita besteira. Deve ser isso. Enfim. Obrigado por me escutar.

Com a cabeça nas nuvens, deixando o estábulo, ele voltou para casa querendo se esconder até a semana seguinte.

🍀

Win estava regando as margaridas do lado de dentro da casa. Há dias estava evitando sair. Não queria encontrar Bright porque não se controlaria e o beijaria para matar a sua vontade. Não conseguia parar de pensar nele e toda vez que ele aparecia em sua mente, o frio na barriga dava as caras, tudo por causa do acidente com o beijo e porque ele fez questão de grudar os dois corpos em cima do cavalo. Win nunca teve um coração partido, mas já quebrou alguns. Gostou de uma menina ali, um menino acolá, mas jamais se apaixonou, e ele sabia que estava se apaixonando por alguém que não gostava de si nem um pouco. Era melhor que evitasse um encontro com ele, assim, evitaria decepções também.

— Quer ajuda? — A tia dele apareceu perto da janela da sala. Win negou. Aquela era a última flor que precisava regar. Em seguida, perguntou se tudo bem que os amigos aparecessem no rancho para visitá-lo. Já fazia quatro dias desde que os tinha convidado e logo eles apareceriam. Se Jane negasse, Win teria que ir até a lan house pedir para que não fossem. — Claro. Quantas pessoas vão vir?

— Eu só convidei o Ohm e o Nanon. Não precisa se preocupar, tá? Eles vão passar uma noite aqui.

— Os seus pais sabem disso?

Ele desviou o olhar da mulher, sabendo que ela não estava o repreendendo, sorrindo travesso igual o sobrinho. Jane não era intrometida como os seus pais. Não fazia perguntas e não dava palpites toda hora.

— Não. Os meus pais não gostam dos meus amigos. Dizem que eles são más influências, o que é totalmente mentira.

— Sei. — Estreitou os olhos para Win, que voltou a olhá-la. — Você vai dividir o quarto com eles? Tenho alguns colchões guardados.

— É uma boa ideia. Mas eu acho que não vamos dormir. Gostamos de passar a madrugada conversando, sabe?

— E enchendo a cara de álcool.

— Tia!

— Eu já tive a sua idade, Win. E eu não tô brigando com você. Na verdade, eu queria reencontrar as minhas amigas da escola pra conversar e ficar bêbada até dormir.

— Se o meu pai te escuta falando assim, nunca mais ele deixa eu colocar os pés aqui.

Jane riu, se aproximando do sobrinho, tirando o regador das suas mãos. Ela apertou uma das suas bochechas como gostava de fazer, o achando mais fofo a cada vez que o via tão de perto. Win gostava daquele carinho. Os seus pais não eram daquele jeito. Era a primeira vez que estava recebendo um carinho de forma tão direta de algum parente.

Ele estava ali há quase três semanas e só agora começava a não sentir falta do celular ou da internet. Tirava muitas fotos com a câmera do aparelho. Fotografava o céu, o sol nascendo, as flores e até os cavalos quando ia até o estábulo sabendo que Bright tinha ido ao centro. Não estava detestando o rancho como achou que aconteceria, mas não estava totalmente rendido ao lugar. Sentia falta das festas que frequentava, de ficar horas vagando na internet, da casa confortável onde morava e todo o luxo que era a sua vida, mas olhando por outro lado, a simplicidade do rancho também o agradava. Era como se fosse outra pessoa morando ali. Ninguém sabia a sua história e as pessoas pareciam mais verdadeiras do que as da cidade, e havia aquela pessoa em especial que deixava tudo melhor, ainda que ele fosse um caipira grosseiro que o tratava mal na maioria das vezes. Mas Bright tinha um coração bom. Talvez ele só precisasse de umas aulas de etiqueta. Pensar aquilo fez Win rir sozinho.

Dois dias depois e os amigos de Win apareceram no rancho. Eles chegaram no final da tarde e depois que foram apresentados à família, correram para o quarto de Win, onde tudo estava preparado para que dormissem da forma mais confortável possível. Win com certeza era o mais mimado dos três, embora Ohm e Nanon também viessem de família rica, mas a vida que tinham não chegavam aos pés da vida de Win, então eles não se importaram em dormir nos colchões. Os pais de Win diziam que eles não eram boas influências para o filho, isso porque não sabiam que era Win quem os levava para o mau caminho.

Nanon era o mais novo, mas surpreendentemente o mais responsável. Ele tinha três irmãos mais novos e aquele era o motivo para se preocupar tanto com tudo. Ele conheceu Win na faculdade, mas ao contrário de Win, gostava do curso. Tinha muitas ideias, de todos os tipos. Não fazia questão de dizer aos quatro ventos que seria dono da própria empresa um dia. Ohm conseguia ser brincalhão, mas muito sério quando precisava. Escolheu o mesmo curso para ajudar os pais no restaurante próprio que tinham. Em resumo, Win era o mais perdido, mas ainda grato pelos amigos ao seu lado e pelo equilíbrio que vinha dos dois, os conselhos de Nanon e as piadas bobas de Ohm.

— Tá, podemos começar a beber?

Nanon riu da fala de Ohm e procurou as garrafas de cerveja dentro da bolsa. Ele as colocou no chão do quarto junto com os pacotes de comidas nada saudáveis que haviam levado. Até mesmo daquelas porcarias de supermercado Win estava sentindo falta. Ver os amigos fez toda aquela saudade quase esquecida voltar com força.

— Pensamos que você estaria com raiva, querendo ir embora daqui. — Nanon falou, olhando Win. Estavam todos os três sentados nos colchões. — Mas você parece satisfeito? — Falou, confuso. — Satisfeito talvez não seja a palavra. Acostumado?

— Se acostumar com a vida no interior é impossível pra alguém que viveu a vida toda na cidade.

— Tem alguma coisa em você que mudou.

— É. — Ohm concordou, depois de mais um gole na cerveja. — Ou talvez... — Abriu um sorriso, a malícia aparecendo. — Você tá gostando de alguém?

— Não. — Negou, imediatamente, sendo o bom ator de sempre e não desviando o olhar de Ohm. Não era a hora certa para falar sobre Bright porque nem mesmo Win saberia o que falar sobre ele. Desconhecia os próprios sentimentos. Se sentia atraído por ele e era só aquilo por enquanto. Dizer que estava apaixonado só poderia acontecer quando tivesse a certeza do que estava sentindo. — Eu tô ocupado ajudando a minha família.

Ohm e Nanon trocaram olhares, não reconhecendo Win. Algo nele havia mudado e nenhum dos dois sabia dizer exatamente o que era. Win também se sentia mudado. Poderia colocar a culpa no carinho que recebia todo dia dos tios ou a simplicidade daquele lugar e o sol que o recebia toda manhã o fazendo colocar um sorriso no rosto. Eram muitas coisas que faziam um bem enorme para Win. A agitação da cidade o fazia se sentir vivo, mas a tranquilidade do rancho o acalmava e Win quase nunca se sentia calmo. Aquela paz era perfeita.

— Mas me digam as novidades. — Ele pediu, abrindo um dos pacotes para matar a vontade de comer algo industrializado.

A conversa começou ali naquele fim de tarde e durou por horas até a madrugada. Todos os três sentiram falta daquilo. Colocaram os assuntos em dia e ficaram bêbados mais rápido do que imaginaram. Aquela era a ideia desde o início. Win só não esperava que Ohm e Nanon apagassem antes das três da manhã. Sozinho, no silêncio da casa e com álcool no sangue, Win decidiu que precisava ver Bright. Ignorou o fato de ser duas horas da madrugada e andou pelo quintal escuro até a casa vizinha. Tropeçou algumas vezes antes de achar a janela do quarto de Bright, por sorte no andar de baixo, e bateu no vidro com mais força do que planejou. Como não recebeu nenhuma resposta, bateu novamente, com mais força, até que a cortina foi aberta e um Bright sonolento apareceu. Win arrumou a postura e acenou para ele, mas Bright não disse nada. Ele subiu a janela até deixá-la aberta e esperou que Win dissesse o que queria. Win também não abriu a boca. Passou a perna pela janela e entrou no quarto. Bright despertou aos poucos ao entender o que estava acontecendo.

— O que você tá fazendo, Win? — Perguntou, impaciente. Estava com os braços cruzados e Win finalmente estava o vendo sem camisa. Claro que ele era forte, as roupas apertadas já haviam mostrado aquilo, mas vê-lo sem nada cobrindo a parte de cima do corpo era a visão do paraíso. Infelizmente a calça do pijama não era escorregadia o bastante para que caísse e Win tivesse uma visão melhor, mas ele poderia se contentar apenas com o peitoral de fora. — Ei. — Ele continuou.  Win tirou os olhos do corpo dele para olhá-lo nos olhos. — Cheiro de cerveja. Você tá bêbado?

— Meus amigos vieram me visitar e bebemos um pouco. — Sorriu, sem graça. — Eu senti vontade de ver você.

— Ah. — Bright sorriu com ironia. — De repente sentiu vontade de me ver depois de me evitar por uma semana?

— Quer saber por que eu evitei você? — Bright deu de ombros, o orgulho falando mais alto. Queria saber o motivo, mas não falaria em voz alta. — Porque... — Win começou, se aproximando dele. — Se você aparecesse na minha frente... — Mais um passo. — Eu não ia conseguir me controlar e ia te beijar.

Perto de Bright, Win o segurou pelas bochechas cheinhas e como Bright não o impediu, ele o beijou. Um selinho simples e demorado capaz de levar Win ao céu por finalmente beijá-lo como queria desde o dia do acidente com a lama. Ele selou várias vezes a boca dele, rindo sozinho, feliz por estar tendo um surto de coragem e fazer o que realmente queria, até que se afastou, vendo Bright tão próximo, com os olhos fechados e intacto. Não demorou muito para ele voltar à realidade e arregalar os olhos, se afastando e correndo para a própria cama, se cobrindo com o lençol. Mesmo sorrindo, Win juntou as sobrancelhas em confusão e o seguiu, tropeçando nas botas dele uma vez pelo quarto escuro. Sentado na cama, tocou o corpo de Bright, tentando puxar o lençol para vê-lo. Quando Bright cedeu e apareceu, as orelhas dele estavam vermelhas.

— Isso é outro sonho? — Bright perguntou.

Win esticou os lábios, sorrindo com maldade.

— Quer dizer que você sonha comigo com frequência? — Sem jeito, Bright assentiu. Win não esperava aquela resposta, mas tendo dó daquele homem e querendo dar uma trégua para ele, se deitou na cama apertada, ao lado dele. Olhou Bright nos olhos quando se sentiu confortável. — Me beija?

Sem pensar em prós e contras e sem perder tempo, Bright ficou de lado, a mão indo para o rosto de Win. O polegar alisou a bochecha dele, descendo até a boca e sentindo a textura do lábio inferior. Se aproximou e finalmente o beijou, com direito a língua daquela vez. A mão antes no rosto dele desceu até a cintura coberta por uma blusa fina e Win afastou a cabeça do travesseiro, se deliciando com o beijo quente, agarrando os cabelos de Bright e querendo que a mão dele se tornasse boba demais, mas Bright fazia o tipo envergonhado e ao se dar conta daquilo Win sorriu em meio ao beijo, ouvindo Bright ofegar, o corpo começando a esquentar. Ele puxava Bright para mais perto pela nuca, as pernas se enrolando na cama. Bright se afastou por um segundo para beijá-lo no pescoço, então Win sorriu ainda mais, sentindo como se o corpo pudesse entrar em combustão. Sentiu os dentes dele em sua pele e a língua quente. Depois ele se afastou, encarando de perto a boca vermelha daquele garoto, o polegar novamente tocando os lábios. Bright controlou a respiração e se sentou na cama, dando as costas para Win. Também estava se sentindo quente como nunca, mais pela vergonha do que pela intensidade das coisas. Não podia se esquecer de que Win estava bêbado e não queria fazer nada com ele naquele estado, até porque nem saberia direito o que fazer já que não tinha experiência nenhuma com outra pessoa.

Quando se virou para pedir que ele fosse embora, encontrou Win dormindo. Não teve coragem de acordá-lo. O deixaria dormir na sua cama, mas só daquela vez e nunca mais, porque se afastaria de Win a partir do dia seguinte. Estava se apaixonando por aquele menino bobo, mas não estava disposto a ter o seu coração partido por ele. Win queria aventura, diversão, distração, enquanto Bright queria andar de mãos dadas, amor e romance.

 🍀

As mãos de Bright estavam atrás das costas, os dedos tocando uns aos outros. Não era fã da própria personalidade, sabia que era um chato, mas a coisa que menos gostava em si era aquela maldita timidez. Estava ali, em frente aos amigos de Win, que fez questão de apresentar todos eles. A parte ruim daquela situação não era não saber o que dizer, mas os sorrisos destinados em sua direção como se Ohm e Nanon soubessem que ele havia dormido com Win.

Ohm queria caçoar de Win e falar em voz alta que agora entendia por que ele estava mudado, mas aquilo era um assunto só dele e Bright, então preferiu ficar calado. Nanon por outro lado, cansado do silêncio e das risadas baixinhas de Ohm, cumprimentou Bright com um aceno e tentou deixar as coisas normais.

— Eu espero que o Win esteja se comportando. — Disse ele. Ohm, ao seu lado, riu. — Quê? Eu posso ser o mais novo, mas sou o mais responsável. E sabemos que o Win é rebelde demais.

— Verdade. — Ohm concordou. — Ele tá sendo um garoto bonzinho, Bright? — Provocou, sentindo Nanon o beliscar no braço. — Eu tô perguntando pra você porque vocês parecem próximos. — Se fez de desentendido.

Bright quase riu de como eles não conseguiam ser discretos, mas apenas massageou as têmporas, irritado em ainda não ter conseguido fugir de Win e dos amigos dele. Acordaram juntos, fugiram pela janela juntos e estavam juntos mais uma vez. Não era para aquilo estar acontecendo. Bright deveria estar de olho nos seus afazeres, longe de Win.

— Não somos próximos. — Falou. Não estava mentindo, estava? Não era próximo de Win. Eles andaram a cavalos juntos, discutiram algumas vezes e se beijaram, mas não eram próximos. Pensar naquilo o deixou desanimado. Agora estava em um impasse. Deveria se aproximar dele, conhecê-lo e descobrir se tudo bem se apaixonar ou deveria se afastar e manter as coisas como estavam? — O Win vai voltar pra cidade daqui a pouco. Por que eu devo me aproximar de alguém que vai embora?

Ninguém respondeu à sua pergunta e Bright achou que era a hora perfeita para sair da conversa. Estava com raiva porque não tinha ideia do que fazer. Por sorte, Win era mais esperto do que si e o seguiu.

— Ei, cowboy. — Ouvindo o apelido, Bright parou de caminhar. Colocou as mãos na cintura, quase fechando os olhos com o sol forte. Ainda conseguia ver Win. Mesmo com a ressaca, ele ainda parecia um príncipe. — Os meus amigos estão indo embora. Eu posso passar o dia com você?

— Eu não tenho tempo.

— Dá pra parar de me tratar mal? Você pode não se lembrar, mas eu lembro da noite passada. E foi bom, não foi? O que eu não entendo é porque você quer tanto me afastar.

Falando daquele jeito, de forma séria, em tom de sermão, Bright não enxergou o garoto mimado que chegou no rancho. Daquele jeito, irritado, estava parecendo com alguém que conhecia muito bem: ele mesmo. Não que Win tivesse amadurecido da noite para o dia, mas Bright estava conseguindo ver alguma diferença nele. E aquilo fez o seu coração afundar dentro do peito. Estava cada vez mais perdido naquela história.

— Por que você quer ficar perto de mim, Win?

— E você ainda diz que eu sou idiota? Não deixei claro o suficiente que eu tô gostando de você?

— Entrar na minha janela no meio da madrugada, bêbado, me beijando e dormindo em seguida? Isso é deixar claro que gosta de mim?

— Eu sei que isso foi errado. — Tentou se explicar, mas não havia justificativa para o erro, então Win fechou os olhos com força, os abrindo em seguida, tentando mais uma vez. — Podemos nos concentrar no agora? Eu quero ficar perto de você, mesmo que você seja irritante. Eu quero beijar você, andar a cavalo com você, quero que você me mostre o rancho e...

— E?

— E quero que diga que também gosta de mim.

Bright tinha o seu orgulho, mas aquele era um assunto importante. Se não se comportasse, acabaria com o coração quebrado ao meio e ele mesmo seria o culpado, porque Win desistiria dele e se afastaria para sempre. Com medo de que aquilo acontecesse, Bright deu uma olhada em Ohm e Nanon, curiosos, de olho nos dois. Não se acanhou e selou os lábios de Win, tão rápido que Win quase não sentiu a sensação. Perto do rosto dele, sussurrou:

— Eu não tenho o dia livre, mas posso separar um tempo pra você. — Àquela altura, a raiva de Win havia ido para o espaço e ele estava sorrindo. — Depois do almoço, me encontra aqui. Vou te levar em um lugar.

Win assentiu, sem conseguir dizer uma palavra. Sorrindo daquele jeito que o garoto adorava, Bright se afastou. Depois, ele voltou aos amigos, não conseguindo parar de sorrir. Não ligou para as risadas de Ohm e Nanon. Nada estragaria o seu dia.

Mais tarde, eles se encontraram no mesmo lugar e Bright agarrou a mão dele, o levando para longe da casa dos dois. Eles caminharam juntos e não soltaram a mão um do outro durante todo o percurso desconhecido para Win. Trocaram algumas palavras sobre a paisagem, as árvores pelas quais passaram, sobre as famílias e as próprias vidas. Eles se conheceram um pouco mais em vinte minutos de caminhada e agora estavam mais leves. Quando chegaram ao destino de Bright, ele olhou Win para ver qual seria a sua reação. Sorriu junto a ele ao ver que os olhos dele também brilhavam.

— Bonito? — Sem conseguir responder, Win apenas mexeu a cabeça, concordando. Bright desgrudou as mãos e começou a desabotoar a camisa. Win olhou para ele. O viu tirar as botas e depois os jeans, em seguida pulando e mergulhando fundo na água da cachoeira. Quando voltou à superfície, falou: — Vem.

Como as roupas de Win eram mais simples, ele as tirou com mais facilidade. Pulou na água gelada, gostando de toda aquela sensação. Também na superfície, nadou até estar perto de Bright, não conseguindo controlar a vontade de beijá-lo mais uma vez. Mas quem tomou a atitude daquela vez não foi ele e sim Bright, o puxando pelas costas, colocando as pernas dele em volta da sua cintura, grudando as duas bocas. Win o abraçou pelo pescoço, gostando do beijo lento, o barulho começando a excitá-lo. Ali eles souberam que estavam com a pessoa certa.

Win se afastou minutos depois, querendo respirar, mas ainda continuou grudado em Bright, roçando os narizes dos dois, o olhar no rosto dele, menos raivoso. O beijou uma última vez para se afastar, nadando na água muito gelada, mas incrivelmente gostosa.

— Eu gosto de todos os lugares daqui, mas esse é o meu favorito. — Disse Bright.

— Levar alguém pro lugar favorito no primeiro encontro é muito clichê.

Bright deu de ombros, nadando até ele. Fez Win ficar de costas para si e o abraçou. As mãos se juntaram na frente e Bright o beijou devagar no pescoço. Estava sendo carinhoso da forma como Win queria desde a primeira vez que o viu.

— Eu tô gostando de você, Win. — Ele sussurrou, o queixo apoiado no ombro de Win. — Era isso o que queria ouvir?

— Era. — Respondeu, agora de frente. Abraçou novamente o pescoço dele, os dedos sentindo os cabelos curtos e molhados que tinha. — Você é devagar com todo mundo que passa pela sua vida ou o problema sou eu?

— Bom, levando em consideração que você é a primeira pessoa que passa pela minha vida, sim, eu sou devagar.

— Como?

— Você entendeu, Win. — Ele se afastou. Win nadou até ele, agora sendo ele a abraçá-lo por trás. — Se quer saber, eu dei o meu primeiro beijo com você. — Win se manteve em silêncio, chocado com a informação. — Algum problema?

— Eu só tô me perguntando como ninguém nunca se interessou por alguém tão incrível como você.

— Mais cedo você disse que eu sou irritante, agora você diz que eu sou incrível. — Win soltou um riso e Bright continuou, começando um desabafo. — Eu não sou interessante. Por que você gosta de mim?

Win não precisou pensar para responder. Ele fez Bright ficar de frente para si depois de fazer uma lista mental com o que precisava dizer.

— Você é muito lindo. É inteligente, engraçado e muito fofo. Gosto do seu jeito.

— Tá. — Sem graça, foi o que Bright conseguiu dizer, se afastando para boiar na água. Win fez o mesmo, então eles olharam o céu azul claro, quase coberto por todas as folhas verdes das árvores que existiam ali, escutando o som da cachoeira que caía ali perto. — Eu também gosto do seu jeito mimado. E você é o garoto mais bonito que já apareceu aqui.

— Talvez você goste da pessoa que eu sou aqui no rancho, mas na cidade você pode se decepcionar.

— Podemos não falar sobre isso? Não quero pensar na ideia de você indo embora.

— Tudo bem, cowboy. — Bright sorriu com o apelido e Win mudou o rumo da conversa. Disse que estava estudando Administração porque era o sonho dos pais, mas que, no futuro, tinha vontade de fazer qualquer outra coisa. Ele descobriu que Bright gostaria de estudar Fotografia e o chamou para ir para a cidade. Quando Bright disse que tinha vontade de ir, Win parou de boiar e fez Bright olhá-lo, segurando em seus ombros. — É sério? Você tem vontade de ir pra cidade?

— Tenho, mas eu preciso continuar aqui, ajudando a minha família.

— Por que sempre coloca a sua família na frente de tudo? Você precisa ficar em primeiro lugar, Bright. — Como ele não respondeu, preso na confusão dos próprios pensamentos, Win continuou. — Quando os meus pais mandarem eu voltar, por que você não vem comigo?

— Não é tão simples. — Rebateu, carinhoso, a mão apertando de leve o nariz daquele garoto.

— Você é quem complica tudo. — Amassou as bochechas dele. — Vai ser engraçado te ver andando pela cidade. As pessoas vão pensar que você saiu de algum filme e achar que você é um cowboy de verdade.

— E eu não sou?

Bright o puxou para mais perto e eles se abraçaram apertado, trocando risadas e mais carinho do que deveriam embaixo da água. As horas passaram e eles acharam que era melhor voltar para casa antes que o sol sumisse. Com as roupas no corpo e mais alguns beijos trocados encostados no tronco da árvore, antes de ir embora, Win pegou uma pedra no chão e escolheu uma árvore qualquer ali perto. Na madeira, ele riscou “B&W” dentro de um coração. Sentindo as orelhas esquentarem, Bright revirou os olhos, ainda que sorrisse, e caminhou na frente. Rindo, Win o acompanhou, entrelaçando as duas mãos.

— Onde a sua família acha que você tá? — Win perguntou.

— Eu disse que ia mergulhar. Eles sabem que eu dou alguns sumiços de vez em quando e como eu não tenho um temperamento muito fácil, não me fazem muitas perguntas. Acho que a minha própria família sente medo de mim. Medo que eu exploda, sabe?

— Os meus tios também não me fazem perguntas, mas não por medo, só não temos intimidade o suficiente.

— É melhor assim. Não vamos envolver ninguém nisso, por enquanto.

— Eu concordo.

Trocaram um sorriso singelo e, mais rápido, eles caminharam. De volta, cada um se despediu com acenos de mão. Com o maior sorriso do mundo, Win entrou dentro de casa. Assim que colocou os pés na sala, o telefone tocou. Como não havia ninguém por perto para atender, ele mesmo atendeu.

— Alô?

— Oi, filho.

Era a mãe de Win.

— Oi, mãe!

— Uau, que ânimo. Você parece feliz.

— Ah, eu acabei de voltar de um passeio. Foi divertido.

— Eu esperava encontrar você desanimado. Acho que isso vai dificultar as coisas.

— Dificultar o quê?

— Já se passou um mês e estamos com saudades. Já que desistiu do curso de Administração, tá na hora de decidir o que você quer pro seu futuro. Eu e o seu pai queremos que você volte pra cidade.

— Mãe...

Win não conseguiu dizer uma palavra contra aquilo. Ele se despediu de Sunee depois de saber que precisaria voltar no dia seguinte e colocou o telefone no gancho. Uma parte sua queria continuar no rancho, ao lado de Bright, convivendo com Mick e os tios, mas outra parte sua queria voltar para a cidade e realmente dar um rumo para a sua vida. No fundo, Win sabia qual seria a sua decisão, afinal, contrariar a mãe estava fora de questão, o problema mesmo seria a despedida. Não havia ido embora ainda, mas já estava sentindo falta daquele lugar que tanto julgou e que agora adorava.

🍀

Foi a primeira vez que Bright acordou de bom humor em muitos anos, e logo naquele dia, ele recebeu uma péssima notícia de Win. Sabia desde o primeiro momento que colocou os olhos nele que se decepcionaria em algum momento, mas não com ele, com a vida, que estava sendo muito sacana consigo. Ouvir Win dizer que estava voltando para a cidade fez o seu coração afundar daquele jeito que não gostava nem um pouco, e ver o rosto triste daquele garoto piorou toda a situação, porque os olhos arderam e se encheram de lágrimas. Ele ainda queria fazer muitas coisas com Win no rancho. Uma delas era apresentá-lo para a sua família como o seu namorado. Mas Bright não teve tempo de pedir Win em namoro.

— Eu vou te ligar todos os dias. — Disse Win, encostado na caminhonete de Mick. Segurava Bright pelas mãos, com força, não querendo soltá-lo de jeito nenhum. Àquela altura, não se importava se Alfa, o cavalo de Bright, estava por perto. Ele ignorou o medo por Bright. — Eu quero ouvir a sua voz todo dia.

— Eu também. — Prendeu o choro, forçando um sorriso.  — É uma pena que perdemos tanto tempo.

— Ah, conseguimos aproveitar um pouquinho. — Win sorriu, querendo passar uma confiança que não tinha. — Esqueceu de todos os beijos?

Bright foi contagiado pelo sorriso dele e soltou um riso fraco. Os olhos ainda estavam marejados, mas nenhum dos dois tocou naquele assunto.

— Posso te dar um presente? — Win assentiu, apressado, com medo de perder o ônibus. Bright tirou uma fita do bolso dos jeans e entregou para Win. — Eu não sei se você tem como escutar essa fita, mas dá pra colocar no som. Qualquer coisa você pode pesquisar o álbum na internet. Enfim, eu só quero que você tenha algo meu. É de um cantor que eu gosto e a minha música favorita é a décima. Quando eu escuto, lembro de você. Quero que se lembre de mim quando escutar também.

— Com certeza. — Olhou a fita. Ela era do John Denver. Ele leu o nome da música. “Leaving On A Jet Plane”. Faria questão de escutar no som, não na internet. Daria um jeito de arrumar um som qualquer com entrada para fita. Daquela forma, se conectaria melhor com Bright. — Você vai esperar por mim?

— Vou. — Deu a sua palavra.

— Eu vou tentar voltar o mais rápido possível.

— Quem sabe eu apareça na cidade. — Win se mostrou surpreso e Bright riu. — Boa viagem. Você tem o meu número, me liga. E eu já tô com saudade. — Ao contrário de Bright, Win não conseguiu prender o choro, mas foi silencioso e discreto, não querendo que os tios, na porta de casa, o vissem tão vulnerável. Ele olhou Jane e Aran e acenou com a mão, prestes a entrar no carro, lembrando da despedida dolorosa que teve com eles. — Espera. — Bright falou, segurando o pulso dele. — Mais uma coisa. — Enrolado com os bolsos, ele arrancou de lá uma foto sua. — Guarda a minha foto com você. Não quero que se esqueça de mim.

Não era a primeira vez que Win pegava em uma foto revelada, mas aquilo quase nunca acontecia. Apenas os seus avós tinham álbuns de fotos e Win não os encontrava há algum tempo. Ele sorriu sem perceber ao sentir como Bright era diferente. E ele estava bonito como sempre na foto, encostado no cercado ali perto, igual um cowboy, naquele momento com um chapéu o protegendo do sol.

Guardando tudo com cuidado dentro de uma das bolsas, olhou Bright de novo. Agarrou as bochechas dele e o beijou. Foi um beijo completo, rápido e ninguém queria se separar, até que Win se lembrou que tinha um ônibus para pegar e se afastou, não olhando para trás e entrando na caminhonete, com Mick no volante. Bright subiu em seu cavalo e pediu com gentileza que Alfa começasse a andar, mas não em direção à sua casa. Ele seguiu para o seu lugar favorito, disposto a pensar até que decidisse o que faria para ser feliz.

Na estrada, Win encostou a cabeça na janela e agradeceu mentalmente por Mick ficar em silêncio. Ele pensou em como queria encontrar com Bright na cidade, para levá-lo ao cinema ou só caminhar ao lado dele pelas ruas movimentadas e passar horas conversando um com o outro sobre todos os assuntos possíveis.

Enxugando a última lágrima que caiu, Win fez uma promessa. Iria atrás dos seus sonhos. Ele seria feliz. E aquilo incluía estar nos braços de Bright, fosse no rancho, na cidade, ou em qualquer lugar do mundo.