Work Text:
Eliot Grove nunca havia percebido o quanto amava, até começar a odiar.
Ele amava ser ele mesmo, por exemplo. O jovem cientista que havia viajado com o Professor Thorne para as terras desoladas de Sargon, com a intenção de usar de seu conhecimento tecnológico para mudar o mundo. Foi quando a ideia de ser Eliot Grove passou a lhe causar raiva, repulsa até, que ele entendeu o quão boa era a vida que o pequeno cientista costumave ter.
Eliot não passou a se odiar do dia para a noite, é claro. Começou, de certo, enquanto assistia Thorne ser morto bem na sua frente—ele havia amado seu professor também, como muitas coisas que viria a ressentir anos depois—, perdurando pelos dias após ser resgatado pela madame Kal’tsit e terminando na noite em que jurou a si mesmo fazer uma diferença. Na noite em que quebrou o demon core com as próprias mãos, na noite em que Eliot Grove morreu e SandPawn tomou seu lugar, na noite em que ele jurou vingança.
Ódio, percebeu SandPawn, era uma fonte de energia capaz de muitas coisas.
20 anos foram necessários para esse ódio esfriar de alguma forma. 20 Anos de paciência, de planejamento, de vingança. SandPawn não teve problemas em matar nenhum dos homens relacionados com a morte de Thorne. Ele fez cada uma de suas mortes mais dolorosas e horríveis quanto podia, também. Queria que sofressem, tanto quanto ele sofreu ao perder o que amava. O mercado clandestino de Sargon aprendeu a se curvar e temer o nome do homem que comandava tudo, e aqueles insensatos o bastante para não aderir à norma, logo se tornavam apenas um nome na longa lista de matança. Ódio, como amor, era capaz de subjugar qualquer outro sentimento. E quando Thorne e Eliot Grove morreram, SandPawn achou que nunca mais seria capaz de amar outra coisa novamente.
SandPawn deixou de existir quando, 20 anos depois, ele entrou em contato com Rhodes Island. Foi quando deu tudo que tinha para a organização, aceitando o tratamento para sua oripatia e abandonando aquele nome—SandPawn, o homem que odiava tudo e se tornando apenas Passenger. O homem que definitivamente não tinha mais ódio nenhum para destilar, mas que tampouco tinha amor.
Até….
Passenger havia conhecido Sesa em Sargon e seu interesse no homem Vouivre sempre foi tão, tão claro. Foi sua vontade de rever Madame Kal’tsit que o fez considerar se entregar à Rhodes Island, mas foi aquele interesse no ruivo que oficializou sua vontade de permanecer ali. Ah, o jovem Vouivre que, como ele, tinha muitos motivos para odiar várias coisas. Passenger, um homem quebrado, sem ódio e sem amor, se encontrou… Enfatuado.
Oh, Sesa.
“Ah, se afundando em papéis de novo? E aqui eu achando que todo mundo é capaz de mudar….”
Essa era Rhodes Island e aquele era seu quarto. Menos suntuoso que aquele que tinha em Sargon, quando ainda era um dos chefes do mercado negro. Mas aquilo era o bastante, era muito mais do que Passenger merecia.
“Ah, aí está você, Sesa.” O homem Liberi não se levantou de sua mesa, afundado em papéis como o jovem havia dito. “Voltou em segurança de sua ótima missão, posso ver.”
“Ha, aquilo não foi nada!” O ruivo respondeu, com um sorriso convencido. “Quando as correntes são soltas e posso usar meu verdadeiro poder, não sobram nem mesmo as cinzas de quem vai contra mim..”
“Nem mesmo as cinzas, huh…” Passenger ponderou, distraído. Era comum ao ruivo falar de formas que ninguém realmente entendia, mas o Liberi não se importava realmente. “Ah, é verdade, venha aqui.” Chamou-o com o dedo, por fim, convidando Sesa a se aproximar da mesa.
Sesa, que já fazia aquilo de todo mundo, pois era sem-educação e enxerido, apenas apertou o passo para poder espiar pelo ombro do mais velho. Um momento de silêncio se dando antes que conseguisse ler o conteúdo dos papéis, até que sua expressão se tornasse sombria
“Isso é—”
“Os nomes de todas as pessoas envolvidas com a companhia militar de Columbia que você estava procurando, sim.” O mais velho respondeu pelo Vouivre, com a plenitude de quem diria que a chuva é molhada.
“Esse nome! Essa informação! Como você…”
“Oh? Isto não é nada demais, jovem Sesa. Me parece que você simplesmente não sabe muito sobre o mundo e o quão difíceis de fato é de se conseguir determinadas informações.”
Passenger riu, sem sentimentos. Não estava realmente tentando diminuir seu próprio trabalho, de modo aposto, apenas gostava de ver o rosto de Sesa se contraindo ao ser chamado de ‘Jovem’ , junto do claro tom de deboche que Passenger mascarava por baixo de sua falsa modéstia. E pela cara desgostosa que o Vouivre fez ao ouvir aquilo, era bastante óbvio que havia dado certo.
“Ei….”
“Foi apenas uma brincadeira.” Passenger completou, por fim. E antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita, ele se virou para dar um sutil beijo nas bochechas do mais novo. “Bem-vindo de volta ao lar, jovem Sesa~”
“Seu feiticeiro! Seu demônio sem coração algum! Eu amaldiçoo você e tudo que você representa…!” Enquanto Sesa falava, o rosto tão vermelho quanto seus cabelos, tentando processar o que havia acabado de acontecer e falhando miseravelmente, Passenger riu, daquela vez um pouco mais sincero.
Ah, um homem quebrado, talvez, poderia sentir alguma coisa, de vez em quando.
