Work Text:
Lugares movimentados sempre deixavam Sehun desnorteado e emburrado. O excesso de barulho, o vai e vem, as cores; humanos eram sempre demais para Sehun, mais do que ele conseguia aguentar ou se acostumar. Porém Minseok adorava pessoas, gostava das vozes animadas e empurrões, dos sorrisos tortos e dos choros irritantes das crianças, então, como ele estava sensibilizado, Sehun não se opôs e aceitou marcarem o encontro no café universitário que ficava a exatos 2,8 km do condomínio fechado em que Minseok morava e a não tão exatos 5 km da caverna que Sehun chamava de lar.
Apesar dos inconvenientes, Minseok havia escolhido um dia chuvoso e desagradável para se encontrarem, o que Sehun considerou de extrema gentileza. Ajustou a máscara no rosto, se recostou no acolchoado do canto alemão que escolheu, de propósito é claro, observando a chuva caindo leve do lado de fora enquanto os humanos corriam apressados. Era dia de semana, afinal, apenas os autônomos como ele e os aposentados como Minseok poderiam se dar o luxo de se encontrar às quatro da tarde. Quatro da tarde. Já eram quatro e sete, Minseok estava atrasado, o que era do feitio dele quando se referia a se encontrar com Sehun, mas não algo que ele gostava de dizer que fazia parte da sua personalidade porque “a justiça não espera, Sehun” ou algo do tipo.
A justiça não espera, mas Sehun aparentemente sim. Levantou a mão, uma moça de avental se aproximou, com um bloquinho na mão e um sorriso polido e treinado no rosto.
— Posso anotar o seu pedido? — A voz era levemente amigável, o máximo que poderia ser sendo escrava de um sistema capitalista.
— Um capuccino, por favor, desses com essas coisinhas coloridas em cima. — A voz de Sehun era rouca por natureza, e soou mais abafada ainda com a máscara e a leve negação que tinha em se dirigir a humanos. A atendente franziu as sobrancelhas, mas desistiu de qualquer comentário quando percebeu que Sehun era um daqueles clientes bem estranhos. Não seria inusitado se ela resolvesse chamar o gerente para verificar “o esquisitão de óculos escuros escondido no canto”.
Por isso Minseok geralmente fazia os pedidos.
Sehun se afundou mais no estofado, desligando os sentidos e deixando que a chuva leve e ritmada trouxesse o sono. Esperava conseguir dormir ao menos alguns minutos até que Minseok resolvesse aparecer, mas era azarado, e ouviu os passos apressados batendo nas poças de água do outro lado da rua, um carro buzinar e então a porta da cafeteria abrir com a respiração ofegante de Kim Minseok.
Abriu os olhos, observando a poça de água que se formou aos pés de Minseok, a barra da sua calça tendo sido previamente dobrada até logo abaixo do joelho — o que deixava a mostra parte da sua cicatriz, ele não parecia se importar como Sehun esperou que iria. Baixou levemente os óculos, para ter certeza, o cabelo antes preto puro agora estava loiro, o sorriso continuava o mesmo enquanto agradecia e se desculpava com os funcionários. Os olhos bem delineados então procuraram por Sehun, que esperou ser notado.
— Sehun! — Andou com cuidado, firmando a perna no piso escorregadio, o sorriso não diminuindo, fazendo seus olhos quase desaparecerem. Era extremamente radiante.
— Minseok.
— Que chuva! — Sentou, tirando a jaqueta corta vento que usava, aproveitando para desdobrar as calças. — Juro que a rádio dizia que faria sol… Já fez seu pedido?
E então pegou o cardápio que estava intacto entre ele e Sehun, que apenas observou toda a teatralidade. Suspirou, a rádio que Minseok escutava sempre errava as previsões, mas ele gostava de fingir que não sabia e que sempre era uma surpresa quando um dia ensolarado se tornava em um dia tempestuoso, afinal o que o faria marcar o encontro deles em um dia chuvoso? Apenas porque sabia que era o clima preferido de Sehun? Jamais!
— Você está estranho. — Sehun tirou o capuz e os óculos escuros, bagunçando os cabelos vermelhos para se certificar de que ficassem realmente desalinhados.
— E-Estranho? — Riu levemente, levantando a mão como antes fez Sehun.
— Sim. Feliz demais. — A mesma garçonete se aproximou, sua pose mudando quando viu que Minseok (O Poderoso Kim Minseok) era quem estava encharcando o estofado da cadeira de inverno.
— Eu sou feliz! — disse com um sorriso tão forçado que a mentira poderia ser detectada por um cachorro. — Um café preto por favor, forte.
— Semana passada você maratonou aquela série — estalou os dedos, — dos heróis. Oito temporadas, Baekhyun gosta, episódios compridos e enredos clichés e dramáticos.
— Isso não significa que eu não estou bem, Sehun.
— É inútil discutir isso com você. Só esperava um pouco mais de sinceridade nessa relação. — Seus olhos castanhos mudaram para o de um rosa fantasia enquanto acompanhava a bebida doce ser colocada na sua frente.
— Não sei como você aguenta essas coisas horrendas.
— Loey não deixa açúcar entrar dentro de casa, — encheu uma colherada de chantilly e enfiou direto na boca, — se não aqui, nunca.
— Falando nele...
— Nada demais, estão planejando um assalto a banco ou sequestro, talvez os dois.
— E você deveria me dizer isso? — Minseok arqueou uma sobrancelha, tomando um gole do seu café quente.
— Que mal faria contar meus planos para um herói aposentado.
— Não sou aposentado !
— Afastado permanentemente por acidente de trabalho e recebendo dinheiro do governo. — Minseok inflou as bochechas, sabendo que Sehun tinha razão, apesar de não gostar da definição.
— Ainda assim poderia denunciar! N-Não que eu vá, mas poderia.
— Não me importo, de verdade. De qualquer jeito alguém vai, e não estarei lá para ver. — Sehun passou outra vez a mão nos cabelos, não gostava do jeito que a umidade do ar os deixava, se orgulhava dos cabelos sedosos. Fitou Minseok com intimidação treinada e certa, e com a voz nitidamente mais grave perguntou:
— O que você tem para me falar?
Minseok não esperava a mudança de comportamento e parou com a xícara no ar, a caminho da boca. Ele tinha algo a dizer para Sehun? Talvez tivesse. Foi meio bobo em pensar que o vilão (não aposentado) não desconfiaria do encontro repentino quando nunca se encontravam sem ao menos uma desculpa de motivo. Não negaria que realmente tinha um objetivo para o encontro, mas esperava poder escolher quando conversar, ou não conversar e fingir que foi por mero desejo de rever o velho amigo.
Sehun não se impressionou com o susto de Minseok, como notou, ele estava mesmo diferente e a falta de atenção que antes já era comum se atenuou. O que ele não esperava foi a sensação de vácuo na orelha direita e então uma pressão forte e um impulso fazendo seu corpo ser jogado alguns centímetros para o lado e seu capuccino derramar na mesa. Geralmente ele se orgulharia de conseguir desviar dos ataques de Minseok, e não era a primeira vez que o ex-herói resolvia começar uma briga no meio de um passeio dos dois, mas era tão inesperado que Sehun quase se sentiu ofendido. O som da explosão chamou a atenção das mesas ao redor, Sehun percebeu a expressão do funcionário no caixa ir de surpresa a desamparo enquanto virava e gritava algo para a cozinha.
— Você acabou de tentar me matar? — Sehun encarava o capuccino derramado enquanto pensava se deveria pedir outro, era Minseok quem pagaria de qualquer forma.
— Não! — As mãos de Minseok estavam lotadas de guardanapos de baixa qualidade que eram jogados um após o outro na poça que agora começava a pingar lentamente no chão. — Você está bem?
Sehun sabia que a pergunta era genuína, conseguia sentir a culpa emanar de Minseok e não gostava dessa sensação.
— Estou sim. Estaria melhor se não estivesse quase perdido minha orelha, — desviou o olhar para o copo caído — ou se tivesse tido a oportunidade de terminar minha bebida.
— Desculpa mesmo, vou pedir outra para você. — Desistiu de arrumar a bagunça que havia feito na mesa, os braços caindo no colo. Minseok encarou o capuccino derramado com o olhar de quem estava decepcionado consigo mesmo, com seu passado, seu futuro, como se quase explodir a orelha de Oh Sehun na verdade tivesse explodido suas esperanças.
— Não nego. — Uma funcionária irritada apareceu de surpresa, encarou os guardanapos molhados com desgosto e pena e começou a arrumar a bagunça sem uma palavra. — Mas gostaria de saber o porquê de… Você sabe, ter tentado me matar.
— Não tentei matar ninguém! — Não muito disfarçadamente a funcionária arqueou uma sobrancelha em dúvida debochada, pessoas tentando matar umas as outras não era tão incomum na cafeteria quanto se pensava, Minseok resmungou então. — Não intencionalmente, ao menos.
Seu café estava intacto e não teve empatia o suficiente por Sehun para deixar de tomá-lo.
— Desde o acidente ele está assim... Meu poder. Perco o controle às vezes.
Sehun riu.
— Entendi porque estão te pagando para ficar em casa.
— Não é engraçado, Sehun! Posso machucar alguém…
— E ainda assim resolveu sair… — A funcionária se afastou como se aproximou, Sehun lembrou do capuccino que queria pedir, mas não a chamou de volta.
— Para ver você! Ingrato.
— Poderia ter me chamado para sua casa, estou sempre disponível. — Sehun deu uma piscadinha, provocativo, como sempre fazia.
Ao longe um grito e o som de vidro caindo no chão. Minseok suspirou fechando os olhos e praguejando baixo. Pensou que realmente havia cavado a própria cova em sair com Sehun, sabendo como ele era, do jeito que seus poderes — e seu emocional — estavam. No fundo ele não se importava muito que alguém, além de Sehun, perdesse uma orelha, mas precisava manter sua boa imagem, que seria destruída em uma única tarde naquele ritmo.
— Outra explosão? — Sehun parecia debochadamente surpreso.
— Cala a porra da boca. Não quero ouvir mais nada.
Não era legal ver Minseok irritado, ainda mais com esse problema técnico que seus poderes estavam enfrentando. Sehun não gostava que seus encontros ficassem tensos, mesmo que Minseok tivesse uma tendência a ficar irritadiço ou emburrado. Suspirou e sorriu de leve, apesar de não saber se sorria bem ou se sorrir realmente adiantaria,
— Quer sair então?
— Com essa chuva? — Minseok cruzou os braços, queria sim sair, e não tinha certeza se realmente se importava com a chuva. Estava começando a se sentir preso e deprimido. Com a história do café derramado e a possibilidade de, da próxima vez, a explosão arrancar a cara bonita de Sehun fora.
— Vem, — Sehun levantou, colocando os óculos de volta no topo do nariz — não quero ver você chorar hoje. Vamos andar um pouco e você me diz o que tem para dizer.
Minseok gostou e desgostou da proposta. No fundo esperou que as explosões tivessem causado distração suficiente para que Sehun esquecesse o assunto. Mas Minseok era azarado e Sehun não era de esquecer fácil. Então levantou e seguiu Sehun até a saída, antes de lembrar que heróis não saíam sem pagar e esse era um hábito que deveria ser exclusivo de Sehun e seus amigos, ele, como um bom herói aposentado, deveria deixar uma gorda gorjeta pelo incômodo. Sehun sempre criticava quando a gorjeta era baixa, dizia que Minseok o fazia passar vergonha e que deveria ter um pouco de pena dos trabalhadores que faziam essas jornadas intensas de trabalho e que tinham que lidar com gente grossa e porca o dia inteiro. Minseok não questionava, Sehun era mais inteligente então geralmente tinha razão.
Sorriu polido para os atendentes, pedindo desculpas pela bagunça, comprou um doce exposto, o que agradaria não somente os funcionários, mas serviria de pedido de desculpas. Dobrou a barra da calça outra vez, fechando o casaco e saindo do quente aconchegante da cafeteria para o frio úmido e cruel do espaço aberto. A chuva tinha se tornado um leve chuvisco. Sehun esperava a poucos passos de distância, com um cigarro na boca, que Minseok tinha certeza que Loey proibia, e uma pose de badboy teatral que não deveria lhe cair bem, mas caía.
— Seu pulmão vai apodrecer. — Pegou o cigarro da mão de Sehun, que não se opôs, jogando-o no chão e apagando a chama com a sola do tênis. Em resposta, Sehun soltou fumaça de forma exagerada — uma mistura de fumaça de cigarro com a que ele próprio produzia — contra o ar. Minseok desviou o olhar, outra explosão soou do outro lado da rua, um homem caiu da escada e uma buzina ecoou até eles.
— Ao menos dessa vez foi bem longe da minha orelha. — Minseok revirou os olhos.
— Comprei para você. — Levantou o braço para que o saco de papel rosa florido ficasse na altura dos olhos de Sehun. Tentou não ficar extremamente consciente do quanto gostava daquela diferença de altura.
Sehun não agradeceu, mas já não tinha o costume, porém suas sobrancelhas arquearam e seus lábios levantaram em um sorriso mínimo. Enquanto comia, os olhos fechados em deleite, Minseok levou os dedos de modo sorrateiro ao lado de seu rosto.
— Machuquei? — Minseok deixou que os dedos roçassem de leve na orelha atingida. Sentiu um formigar percorrer o braço e sua energia se descontrolar, uma explosão maior que as outras arremessou uma lata de lixo no parabrisa do carro ao lado deles. Suspirou em derrota, Sehun olhou para a lata amassada e o parabrisa arranhado.
— Acho melhor irmos para um lugar menos movimentado.
— Tem razão. — Minseok sentiu um alívio jorrar por ele.
Sehun não perguntou antes de começar a caminhar, pisando nas poças d’água propositalmente, fazendo virarem vapor na sola do coturno. Comia o doce com vontade, sujando a boca e os dedos. Enquanto isso, Minseok se esforçava para não molhar a barra da calça e deixar a água encharcar seu all star novinho. A garganta coçava para soltar um palavrão toda vez que um carro passava perto demais e ameaçava jogar água suja e gelada nos dois.
Sehun esticou o braço para colocar o papel em uma lata de lixo e depois lambeu os dedos, um sorriso satisfeito no rosto. Minseok seguiu os movimentos com o canto dos olhos. Sehun agia como criança às vezes.
— Eca.
— Eca?
— Não lavou as mãos e fica lambendo os dedos.
— Que foi? Queria lamber por mim? — Sehun riu ladino, os olhos se tornando um vermelho vivo, como ficavam quando sabia que iria irritar alguém.
— Porcalhão.
Minseok jogou o peso do ombro contra o corpo de Sehun, fazendo-o se desequilibrar, bater em uma moto estacionada e acionar o alarme de um carro. Rindo alto, em seu ambiente caótico natural, o óculos torto no rosto e o cabelo todo para um lado. Já Minseok se arrependeu da brincadeira no mesmo instante em que firmou seu próprio peso no chão, sua perna fisgando em cobrança e ameaçando ceder.
Desviou o rosto, era realmente um herói aposentado e a última coisa da qual precisava era Sehun debochando da sua cara por causa disso.
— Minseok? — Ignorou o chamado e seguiu caminho, sabendo que mancava perceptivelmente. Piscou os olhos e Sehun estava ao seu lado outra vez.
Os dedos de Sehun roçaram nos seus, querendo chamar atenção, Minseok atravessou a rua sem olhar. O cabelo grudava na testa e a chuva parecia rir dele, escolhendo esse momento para engrossar, chicoteando suas costas sem pena. Sehun segurou seu braço de repente.
— O que você está fazendo? — A água da chuva evaporava no momento em que tocava seu corpo, o vapor pesado impedindo a visão de seu rosto. — Sem sensibilidades, rodeios, o que seja.
— Não enxergo merda nenhuma.
— Onde você ‘tá indo?
— Para lugar nenhum.
— Vamos achar um lugar para sentar. — Minseok revirou os olhos. Dentro dele uma raiva inexplicável começava a borbulhar. Sem razão alguma, ele tinha certeza.
Uma explosão se formou bem acima da cabeça deles. O rosto de Sehun se contorceu por detrás da cortina de névoa. Deslizou a mão pelo braço de Minseok, agarrando seus dedos e o guiando, com muito esforço, pela rua. As marquises não os protegiam da chuva, Sehun não se importava, seus olhos pretos e confusos. Odiava ser obrigado a se preocupar, Minseok estava sempre fazendo isso com ele. Claro que, se não se preocupasse com o herói, mais ninguém iria.
Antes poderia ter saído da cafeteria e não pensado que Minseok estava claramente afetado com a situação toda. Queria ter andado a mercê conversando com seu amigo , só que, Minseok emocionalmente conturbado, e mancando. Então, como apesar de ser grosso, não era estúpido e não muito cruel — não tanto quanto Jongdae — e ainda por cima, Minseok era importante, se sentia no dever de resolver a situação.
Não precisava de muitos motivos para querer vê-lo feliz.
— Sehun…
— Aqui! — Seus olhos pousaram em um banco de madeira molhado e bambo. Debaixo de uma marquise. Em frente a uma cafeteria.
De volta ao ponto de partida, Sehun sentou-se. Minseok o encarou, de pé. Haviam dado uma grande volta, física e metaforica.
— Senta — Tentou soar suave.
— Não queria mo- — Os ombros murcharam, a frase morrendo na boca. Se sentou no molhado, sentindo a bunda gelar.
— Desistência não fica bem em você. Esse é o meu traço de personalidade.
— Podemos ter um mesmo traço de personalidade.
— Esse é exclusivo meu, escolhi pra mim. O seu é a perseverança. — Minseok contorceu o rosto. — Ou algo assim.
— Não enche. Nem tem o que desistir.
— Você molhou a bunda.
— É só uma bunda.
— Não… não é só uma bunda, Minseok! É simbolismo.
— É só uma bunda.
Sehun suspirou, não queria assumir um papel que não era seu. Minseok era quem geralmente lidava com seus momentos de crise, mas, infelizmente, aquela relação era uma via de mão dupla. Sairia do seu conforto para que Minseok pudesse se aceitar como o herói aposentado que era, porque não era algo que realmente pudessem mudar.
Tirou os óculos escuros e pendurou na gola do moletom.
— Preciso que me diga o que está errado. — Cruzou os braços, pensando no talento que tinha para aquele tipo de conversa.
— Nada.
— Está tudo bem, você não é definido pela sua aposentadoria, Minseok.
— Não é esse o problema! — Minseok elevou a voz. Sehun sentiu um calafrio.
— Então tem um problema.
Minseok jogou a cabeça nas mãos. E ficou. O rosto enterrado nas palmas. E ficou. Levantou os pés do chão, juntando contra o peito, o queixo se apoiando nos joelhos. E ficou.
Os olhos de Sehun observavam o movimento, os dentes mordiscando o lábio, que se abriu, fechou, e abriu outra vez. Um suspiro. Minseok cerrou os olhos com força, as mãos se fechando em punho. Agora sim…
— O problema é que eu marquei esse café, porque… Agora eu sou aposentado, Sehun.
— Sabia que isso estava incomodando.
— Eu tenho tempo agora. Pude vir aqui em dia de semana, te encontrar…
— Isso é ótimo! Pode cultivar algum hobbie sem graça. — Sorriu. — Eu te apoio.
Seus olhos encontraram os de Minseok, que não deixou ele desviar o olhar. O cenho franzido, os cabelos molhados em todo o rosto. A pele pálida de frio.
— É esse meu problema. — Seu olhar desceu até sua garganta, até os óculos no meio do peito.
— Um hobbie sem graça?
— Você.
Ah.
O que?
— O que?! — Sehun? O problema? Estava saindo da zona de conforto por ele. O problema? Sehun era a solução . Sentiu a pele esquentar e fumaça sair sem controle pelo nariz.
— Ou eu. Acho que eu. — Minseok ignorou a fumaça o envolvendo. Sehun sentiu falta da reclamação usual.
— Se decide!
— Eu sou o problema. — Minseok falou aquilo como se estivesse com dúvida.
Sehun sentiu cheiro de madeira queimada. Levantou as mãos que em algum momento haviam espalmado ao seu lado no banco. Ah, não estava gostando daquela conversa sem sentido sobre problemas. Achava que se algo estivesse errado seria a situação não algum dos dois. Minseok se perdido de vez, deveria ter sugerido um grupo de apoio, não um hobbie.
— Quer dizer… Sehun! É você! — Minseok levantou em um salto, os punhos cerrados, pequenas explosões pipocando nos seus pés. — Eu não poderia ser mais óbvio!
— Realmente! — Levantou também, a chuva causando vapor para todos os lados. Pode sentir um dente afiado querendo sair e o olho direito tremer de estresse! — Você está sendo bem óbvio. Não consegue manter um dia de paz sem partir pra briga, se não quer minha companhia, por que me chamou para tomar café? E ainda pagou!
Minseok abriu a boca em um protesto mudo. Ele sempre pagava!
— Sehun… Isso não vai dar mais certo.
— Agora você diz isso? — Seu rosto se fechou. — Depois de anos. Só porque se aposentou? Não me acha mais divertido? O seu vilão chaveirinho.
Sentiu um empurrão no peito, inconscientemente quis dizer para Minseok cuidar para não se queimar, porém o empurrou de volta. Conseguia sentir os olhos das pessoas na cafeteria grudados neles. Estavam fazendo uma cena. Loey o ia deixar de fora do próximo plano. Perfeito!
— Ai! — Minseok soou ofendido. Isso mesmo, Sehun o empurrou de volta, e aí?
No fundo da mente, calculando a cena em câmera lenta, se perguntou como haviam saído de tomar café juntos em uma tarde chuvosa para brigar em meio a fumaça e explosões. Minseok estava tão irritado assim com ele? O que fez? O que deixou de fazer?
— Vai se esconder agora?
— Você quer… — Algo pareceu clicar na mente de Minseok. Sua pose se desfez, se jogou no banco. Os olhos fechados, passou os dedos nos cabelos e disse, como se doesse. — Você nem ao menos sabe sobre o que é isso aqui.
Sehun queria dizer que sabia sim, porque Minseok havia deixado óbvio. Exceto que ele não havia, e Sehun era só um cabeça quente que se exaltava com qualquer deixa de briga e porradaria.
— Não sei. — Minseok riu, um riso curto, que veio de dentro, irônico e autodepreciativo. — Eu queria chamar você para sair. — Sehun ficou em silêncio por alguns segundos. — Como em um encontro. Em um encontro romântico.
O olhou por debaixo dos cílios molhados. Minseok não ficava envergonhado de verdade, não que Sehun soubesse, mas se ficasse, aquela seria a cena.
— Eu vim aqui com esse plano. Mas meio que percebi que você não me vê mais do que como um amigo… — Olhou para uma embalagem da cafeteira jogada no chão. — Um aposentado sem graça. Um herói! Certinho e bobo. E aposentado. Não consegui nem te jogar contra uma moto sem sentir dor.
Sehun queria, de verdade, se sentir surpreso. Achou que seria o apropriado.
Minseok era bonito. Mais velho. Sehun sabia que não faria sentido ele perder tempo na amizade dos dois, ao menos não nos padrões da sua família. Pagava a conta e aturava seu sarcasmo. Era bonito. Não contava pra ninguém dos planos que ficava sabendo através da língua solta de Sehun. Era bonito . Ria fofo e pegava leve quando brigavam, nunca deixou mais que alguns roxos. Seu coração acelerou e ele se sentiu burro. Minseok estava ali, molhado e jogado em um banco, dando uma chance de bandeja. Uma chance que ele não sabia que queria, mas queria muito. Queria muito. Queria muito Minseok. E não sabia.
— É, você tem razão. — Se jogou no banco ao lado de Minseok, as pernas esticadas, a nuca apoiada no encosto. — Eu sou o problema.
— Mas a gente ainda pode ser amigo. Se rolar pra você. — Desistência realmente não caía bem em Minseok, Sehun tinha razão.
— Eu quero… — Virou o rosto, fixando o olhar no perfil de Minseok. — Quero dizer, que eu quero sair em um encontro com você. Um encontro romântico.
— Vai se foder, Sehun. — Uma gargalhada ecoou entre os dois.
— Estou falando sério. — Então Minseok o encarou, o olhar baixando para encontrar os seus.
Sehun poderia facilmente aprender a lidar com a dinâmica nova entre os dois, não seria problema nenhum. Minseok o olharia nos olhos mais vezes.
— Deixa de… — Semicerrou os olhos. — Você não está mentindo…
— Eu não minto. — Mentiu. Sehun sorriu, genuíno. Iria em um encontro, em algum momento.
Loey com certeza o deixaria de fora do próximo plano. Talvez o deixaria de fora dos planos pelo resto da sua vida!
Segurou a mão molhada de Minseok, esquentando com a sua. Era estranho, segurar a mão do mesmo jeito de antes, mas com uma conotação diferente. Minseok sorriu pequeno, olhou para os pés. Sehun sentiu uma pressão no topo da testa, sua cabeça voando para trás e um estouro forte fazendo seus ouvidos zunirem. Sua nuca doeria tanto no dia seguinte…
— Você vai precisar consertar isso antes do encontro!
