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Hajime não se lembrava tanto de sua família. Conforme os anos passavam a lembrança que tinha deles ficava menos nítida em sua memória. A única coisa que sabia era que todos haviam sido mortos, ele sendo a única kumiho da família conseguindo ficar viva.
Depois disso foi como se a vida fosse apenas um borrão. Ele passou alguns anos sendo caçados por caçadores que queriam o vender em leilões. Naquela época híbridos e humanos viviam em guerra, mas uma kumiho não era considerada nem um nem outro. Por isso as duas partes justificavam as diversas tentativas de sequestro, sempre para um mesmo propósito.
O vender ou na pior das hipóteses o matar, como haviam feito com sua família.
Pra se defender, Kokonoi virou o assassino temido por todos naquela época. Não se importou de manchar a imagem das kumihos, derramando quanto sangue fosse necessário de todas as pessoas que ousavam entrar em seu caminho.
Mais um borrão. Anos foram passando, a sociedade evoluiu, todos começaram a viver em harmonia e em algum momento de sua vida, Hajime decidiu esconder de todos que era uma kumiho, se passando apenas por uma raposa normal e comum.
Sua vida era a coisa mais monótona possível e muitas vezes ele se perguntava por qual motivo ainda existia depois de tantos séculos, nunca conseguindo ter um objetivo claro em sua existência. No passado ele matava pessoas para sobreviver, mas agora essa necessidade não existia.
Então, o que fazer?
Hajime sempre se adaptava aos séculos conforme eles se passavam, ele realmente viveu muitas coisas e muitos anos. Mas nas últimas décadas aquilo estava o desgastando.
Viver sem um propósito estava virando um problema tão grande, que as vezes se pegava pensando que talvez não devesse ter lutado tanto no início de sua vida para sobreviver se soubesse que no futuro sua vida seria isso.
Foi no século vinte e um que algo mudou.
Kokonoi descobriu a existência das gangues enquanto passeava pelas ruas. Era algo estranho pra alguém que não entendia o sentido de pessoas se juntarem para brigarem uma com as outras apenas por diversão.
Chato.
Mas mesmo depois de voltar para a casa, aquilo ficou martelando em sua mente por dias.
Talvez, apenas talvez, se ele conseguisse se juntar a uma gangue... Bater em algumas pessoas fosse o necessário para sua vida entediante ter um pouco de movimento.
Era só ele controlar praticamente 99% de sua força pra não parecer tão injusto comparado ao os outros.
Foi nessa época que ele conheceu os irmãos Inui.
Hajime tinha o costume de mudar muito de casa, foi algo estranho que ele adquiriu ao passar dos anos, não parando em nenhum lugar. E foi assim que acabou virando vizinho dos Inui.
A primeira que ele conheceu foi Akane Inui.
Foi a primeira vez que alguém chamou sua atenção, por algum motivo. Ele apenas achava a garota bastante bonita e algo nela transmitia uma paz que Hajime não sabia que procurava.
E pela primeira vez em tantos séculos, ele desejou ser amigo de alguém.
Mas essa ideia logo sumiu de sua cabeça. Uma pessoa como ele não deveria ter amigos, ele nunca precisou deles então por qual motivo iria precisar agora?
Hajime decidiu mudar de casa depois daquilo. Não era bom morar por ali, algum momento sua solidão e carência talvez falasse mais alto ao ponto de acabar o vencendo, quem sabe assim conseguindo fazer um amigo.
Não, ele definitivamente não precisa de ninguém em sua vida.
Mas parecia que o seu destino não estava aceitando aquilo muito bem. Depois de tantos anos conseguindo fazer tudo o que queria, Hajime se viu no meio de uma das maiores decisões de sua vida.
No mesmo dia que ele ia se mudar, Hajime percebeu a movimentação estranha de pessoas do outro lado da rua.
Ao prestar mais atenção percebeu que a casa estava pegando fogo.
A raposa, que já havia visto tantas coisas, iria ignorar aquilo e continuar sua vida. Juntando seus pertences e se mudando para outra casa.
Mas algo dentro de si estremeceu ao perceber que era a casa de Akane, a mesma garota que tinha chamado sua atenção.
Droga, droga. Eu quero ignorar, eu quero ir embora. Consciência maldita, ignore isso e me deixe ir.
— Ah, não. Parece que os dois irmãos ainda estão lá dentro. — Uma senhora, com orelhas pequenas no topo da cabeça, disse em voz baixa para outra mulher ao seu lado. Suas expressões aflitas.
Hajime desde sempre teve uma ótima audição e aquilo nunca o incomodou tanto quanto hoje.
Quando percebeu já estava correndo para dentro da casa em chamas, ignorando os gritos de surpresa dos seus vizinhos.
Inúteis. Ninguém sequer se arriscou a tentar salvar as pessoas aqui dentro?!
A raposa ficou em silêncio, focando totalmente em sua audição até ouvir um barulho de alguém chorando na cozinha. Hajime correu imediatamente para lá, tampando o nariz com as mãos da fumaça que aumentava cada vez mais.
Lá ele achou Akane, caída no chão e segurando uma perna machucada.
— Achei você. — Ele deu um pequeno sorriso, indo na direção da garota e ajudando ela a levantar. Akane parecia surpresa pela pessoa que estava o ajudando, ela não lembrava de ter visto uma raposa pela vizinhança.
Mas não havia tempo para pensar.
Hajime ajudou a garota a subir nas suas costas.
— Meu irmão, meu irmão— Akane começou a tossir. — Ele ainda está no quarto!
Certo. Ainda faltava mais alguém.
Kokonoi começou a pensar. Ele não poderia ir até o lado de fora e deixar Akane lá. Sabia muito bem como o fogo poderia agir rápido e quando voltasse talvez fosse tarde demais.
— Droga. — Hajime murmurou enquanto revelava suas nove caudas, para conseguir prender Akane de forma firme em suas costas.
As orelhas da garota se mexeram no mesmo instante, de forma agitada e seus olhos arregalados.
— Não pergunte nada. — E com isso Kokonoi foi praticamente voando até o andar de cima, empurrando a porta com a perna e quebrando ela no mesmo instante.
Akane estava tão assustada que nem sabia o que pensar no momento. A única coisa que sabia era que Hajime não era uma raposa normal.
Conseguindo achar o irmão de Akane, Seishu, largado no chão aparentemente desmaiado, Hajime o pegou nos braços e fez o mesmo caminho de antes.
Correu pelas escadas de forma tão rápida que quando Akane piscou eles já estavam do lado de fora da casa, as caudas de Hajime desaparecidas e sobrando só uma.
Por um momento pensou que estava alucinando.
Mas não. Era impossível uma pessoa só conseguir salvar duas de um incêndio tão forte que conseguiu engolir a casa inteira tão rápido.
A ambulância e os bombeiros já estavam do lado de fora, tendo acabado de chegar. No mesmo instante um estalo forte se foi ouvido na casa, o fogo aumentando de uma forma que as poucas janelas que sobraram se quebraram, assustando a todos e rendendo alguns gritos.
Deixando os irmãos Inui com os médicos, Kokonoi finalmente percebeu o que havia feito.
Em todos seus anos de vida a única coisa que fez foi apenas se proteger de qualquer pessoa. Aquela era a primeira vez que salvou não só uma, mas duas vidas.
—
Ele ainda havia se mudado de qualquer forma, indo morar em um bairro totalmente diferente. Aquele dia foi o primeiro e o único que teve contato tanto com Akane e Seishu.
Sua vida continuou normalmente depois daquilo. Tinha entrado em uma gangue qualquer de rua, brigando algumas vezes com gangues menores e maiores.
Pelo menos havia mudado um pouco.
Cerca de um ano se passou depois do incêndio e Hajime achava que os Inui iriam seguir sua vida normalmente depois daquilo, sem se preocupar com a pessoa que os salvou.
Bem, ele estava errado.
Por acaso enquanto andava pelas ruas olhando para seus punhos machucados depois de sair de uma briga (só estavam machucados pela força que usou para socar os caras) Hajime se surpreendeu ao ouvir uma voz atrás de si.
Normalmente ele ignoraria já que não se importava com as outras pessoas e muito menos sabia se a pessoa em si estava o chamando.
Continuando seu caminho, a raposa parou repentinamente quando sentiu algo puxar sua cauda.
Seus olhos se arregalaram e ele se virou imediatamente, se preparando para socar o desgraçado que havia ousado fazer isso, seu punho parando no meio do ar ao ver o pirralho que o olhava.
Que?
— Você! — O menino pulava igual uma pulga no chão. — Você, você!!!
— Hah? O que foi, moleque? Se perdeu de sua mãe? Saiba que não vou ajudar nenhum pirralho a encontrar ninguém, ache outro adulto pra te ajudar. — Com isso Hajime se virou, pronto para ir embora.
— Você é a raposa que salvou eu e Akane-oneesan! — O garoto disse animadamente.
Hajime virou o pescoço rapidamente, de uma forma que pessoas normais teriam conseguido torcer se tentassem.
— Você é irmão de Akane? — Perguntou assustado. O loiro balançou a cabeça, afirmando. Tanto sua orelha peluda quanto cauda se mexiam animadamente quando Hajime o reconheceu.
O que diabos era isso. Como esse menino conseguiu o achar?
— Akane-oneesan vai ficar feliz em te ver! — Seishu falou repentinamente, segurando na mão de Kokonoi e o levando em um caminho desconhecido.
Akane estava aqui também?!
— Espera, espera! Quem disse que eu quero ver sua irmã em primeiro lugar—
Hajime, uma kumiho de quinhentos anos sendo levado por um pirralho que ainda estava nas fraldas, sem conseguir o parar.
Que humilhação.
Com isso, Kokonoi descobriu que não havia como fugir do destino assim que encontrou Akane naquele mesmo dia. A garota chorou enquanto abraçava a raposa, dizendo que nunca conseguiu o agradecer já que ele sumiu no mesmo dia do incêndio.
Kokonoi nem sabia o que dizer sobre isso e desejou morrer quando Seishu puxou sua cauda novamente, questionando.
— Onde estão suas outras caudas? 'Nee-san disse que você era uma kumiho e kumiho tem nove caudas... — Seishu disse com toda a inocência que uma criança naquela idade poderia ter.
Puta que pariu.
—
Depois desse dia os irmãos grudaram nele como cola. Eram como dois cachorrinhos sempre nas suas pernas, querendo que Hajime os carregasse para todo os lugares ou carregar a raposa para todos os lugares.
Não era isso que ele pensou para sua vida. Mas pensando bem ele nem pensava em algo importante acontecendo em sua vida, não é como se ele odiasse finalmente ter pessoas para interagir depois de séculos sozinho...
No começo ele só havia se interessado por Akane. Mas se Hajime soubesse que isso iria trazer a peste do irmão dela junto, teria fugido na primeira oportunidade.
Ele não gostava de Seishu.
Pra começar que Kokonoi nunca gostou de crianças e muito menos das curiosas que faziam perguntas sobre qualquer coisa.
A vida calma sem acontecimentos da raposa foi destruída com a chegada dos irmãos.
—
Anos se passaram e o sentimento de solidão que Kokonoi sentia havia sumido completamente. Akane e Seishu conseguiram preencher aquele vazio que tinha o consumido completamente em apenas alguns meses de convívio.
Agora ele não conseguia mais imaginar como seria viver sem ter a companhia dos irmãos consigo, mesmo que ele passasse maior parte do tempo reclamando da presença deles.
Os Inui haviam mudado bastante e Hajime sentia um sentimento um pouco nostálgico ao lembrar de como eles eram a anos atrás, quando ele salvou ambos do incêndio.
Os últimos anos foram uma bagunça completa. Kokonoi se viu sendo jogado na vida de Akane e Seishu ao ponto da irmã mais velha o deixar encarregado de seu irmão mais novo, quando Seishu decidiu que queria entrar em uma gangue.
Aquela ideia estava na cabeça do Inui mais novo desde que descobriu o passatempo da raposa de bater nos outros na rua.
Akane o culpou totalmente quando aquela ideia ainda estava na cabeça de Seishu mesmo depois de alguns anos, isso na chegada da adolescência do híbrido de cachorro.
Com a desculpa de que estava muito ocupada nos vestibulares, querendo entrar em uma boa faculdade agora que a vida adulta havia chegado para ela, Akane obrigou Hajime a cuidar de Seishu, mandando ele o acompanhar em qualquer uma que fosse suas ideias.
Hajime nunca obedeceu ninguém em séculos e não era agora que iria obedecer.
Mas Akane brava era algo... Assustador.
E na cabeça dela Hajime era mais novo do que ela, pelo o que dizia sua aparência. Eles nunca haviam perguntado sua idade, então Akane assumiu isso sozinha como desculpa de que Hajime ainda estava desocupado sem um emprego ou precisando estudar para uma faculdade.
E foi nisso que ele se viu entrando na Black Dragons junto com Seishu. E da Black Dragons para a Tokyo Manji.
Kokonoi queria fugir de pessoas, não querendo ter ninguém em sua vida e em apenas alguns anos conheceu tantas.
Muitas vezes ele pensou em como queria mudar seu passado, fazer algumas coisas diferentes. Mas olhando para tudo o que conquistou, ele não mudaria nada se o que ele passou ainda o levasse a esse futuro.
—
Depois da separação de Toman quando ela ainda estava no topo, Kokonoi decidiu começar a estudar, percebendo que ele nunca havia feito aquilo em sua vida.
O interesse de entrar em uma faculdade era real e o de sair do país e estudar fora do Japão era maior ainda.
Finalmente estava montando objetivos claros. E com isso a raposa decidiu cursar moda, fora do país. Ele não sabia ao certo quantos anos ficaria fora, apenas sabia que voltaria.
Hajime sempre voltaria.
—
Ele ficou mais tempo longe do que imaginava. Mesmo quando ainda estava estudando já conseguia alguns empregos na área que queria, assim que terminou assinou um contrato como modelo em uma agência famosa e super conhecida mundialmente.
Isso o fez ficar anos fora de seu país, construindo uma carreira sólida.
Hajime estava tão feliz trabalhando com algo que gostava que não trocaria aquilo por nada.
Mas ele ainda sentia falta de sua casa, dos seus amigos que havia deixado para trás. E assim que seu contrato com sua agência acabou ele decidiu não renovar, já que tinha recebido uma proposta de uma agência no Japão.
E foi assim que ele se viu voltando.
Hajime manteve contato com vários de seus amigos principalmente Akane, que era sua melhor amiga. Ela sempre dava atualizações de como todos estavam. A última que havia recebido era que a loja de motos de Draken e Seishu estava indo super bem.
Ele estava feliz pelos seus amigos.
Mas seu coração estava um pouco agitado por algo que não sabia o que era, mas não se sentia assim a muito tempo.
—
Hajime deitou a cabeça no colo de Akane enquanto esfregava o próprio rosto. Ela olhava pro amigo com uma expressão de pena, acariciando suas orelhas macias de cor branca.
— Você vai me contar o que está acontecendo? — Akane perguntou pacientemente.
A raposa chegou de repente na casa dela, invadindo seu apartamento com uma aparência totalmente bagunçada pra uma pessoa que valorizava a aparência acima de tudo.
Já fazia cerca de trinta minutos que ele apenas olhava pra parede, com o colo de Akane servindo de cama para ele.
Por onde ele começaria...
Um mês. Um mês que ele chegou no Japão depois de anos estudando e trabalhando fora.
Todos seus amigos haviam mudado bastante, seguindo a carreira que desejavam. Alguns já estavam casados como Hinata e Takemichi, e outros noivos como Draken e Emma.
Sem contar os que já tinham filhos. Keisuke, Kazutora e Chifuyu haviam adotado um casal de gêmeos depois de terem se casado no ano passado.
Enfim, todos seus amigos estavam felizes. E isso o deixava mais feliz ainda.
MAS, o problema não era isso.
Hajime usou suas caudas para abraçar a si mesmo enquanto fechava seus olhos com força.
— O problema é seu irmão. — Finalmente falou depois de tanto tempo.
Akane a encarou por um momento. Suas orelhas se levantando instantaneamente.
A raposa achava seus genes misturados com o de um shiba inu muito fofo, suas orelhas eram fofas.
Iguais as de Seishu.
Ah, não.
— Hum, Seishu falou comigo ontem. — Ela começou. — Ele está um pouco chateado? Disse que já faz um mês que você chegou e você tem falado com todos pessoalmente... Menos com o próprio Seishu, se comunicando apenas por mensagens? E dizendo que está sempre ocupado? Não sei o que aconteceu, estava esperando que você me explicasse.
Hajime finalmente se levantou.
Que humilhação, como ele deixou chegar naquele ponto?
— Akane, você sabe que eu sou uma kumiho. — Começou a dizer. A loira balançou a cabeça, positivamente. — E você sabe quantos anos eu tenho agora e também sabe que muitas coisas que qualquer pessoa normal experimenta ao longo da vida, comigo só aconteceu depois de conhecer vocês. Principalmente essas coisas relacionadas a sentimentos. Eu tenho ficado melhor nisso ultimamente.
— Certo, eu entendo. Mas onde você quer chegar com isso? — Akane perguntou, confusa.
Um mês atrás, quando Hajime chegou no Japão, seus amigos fizeram uma festa surpresa pra ele. Foi um dos melhores dias de sua vida, inclusive. Foi muito importante pra ele rever todos depois de tantos anos.
Mas ele não esperava que o Seishu, o Seishu de vinte e oito anos fosse o deixar...
Com a sensação que iria desmaiar?! A mesma pessoa que a anos atrás Hajime dizia odiar por ser uma pedra no seu sapato, e que só o aturava por causa de sua irmã que era sua melhor amiga.
E Hajime nunca sentiu isso, nunca. Era algo estranho, muito estranho. Estranho ao ponto de o fazer ignorar a existência de Seishu por todo esse tempo.
Sabia que estava sendo ridículo, mas o que iria fazer? Não fazia ideia do que era aquilo. Preferia organizar sua mente antes de conviver com Seishu novamente.
— Ah, sim. Você gosta do meu irmão. — Akane concluiu.
— Que bom que você entendeu— O QUE?! — Hajime levantou no mesmo momento, pulando no chão. — Como, de todas as coisas que eu disse, você tirou essa conclusão?!
— O que você está sentindo é claramente isso. — Akane respondeu, com uma expressão neutra. — Sei que você vai ficar assustado no início, mas é isso. Você gosta dele, é simples. — Suspirou. — Na verdade estou bem surpresa com isso, teve uma época que eu pensei que você gostava de mim.
Os olhos de Kokonoi não podiam estar mais arregalados do que agora.
— Sabe, Seishu sempre gostou de você. Desde criança. Uma vez ele confessou isso pra mim de repente, perguntando o motivo de se sentir sempre nervoso perto de você e as mãos suando. — Akane confessou, sorrindo um pouco. — Eu obviamente fiquei chocada! Ele era tão novo e apenas respondi que no futuro Seishu iria entender o motivo, apenas isso. Pensei até que ele tinha esquecido!
— Afinal, ele nunca mais falou comigo sobre isso desde então. Mas... Na verdade, eu deveria ter percebido que ele não tinha esquecido coisa nenhuma. Desde que ele atingiu a adolescência ele dava motivos para ficar ao seu lado. Inclusive eu nunca contei pra você, mas o motivo de eu ter praticamente te obrigado a fazer parte daquela gangue com Seishu, lembra?
Hajime concordou lentamente, tentando absorver todos os acontecimentos.
— Foi Seishu que praticamente implorou pra eu pedir isso a você, na época eu achei uma boa ideia já que não queria que ele ficasse sozinho também. Deveria ter pensado mais profundamente sobre isso... — Akane fez uma expressão pensativa. — Acho que é por isso que eu nunca vi Seishu com ninguém, nunca demonstrou interesse por ninguém e ficou extremamente triste e estranho por meses quando você foi morar fora do Japão.
Hajime sentiu que agora sim poderia desmaiar a qualquer momento.
Akane simplesmente disparou todas essas informações na cara dele, sem nem mesmo o preparar antes.
— Mais uma coisa, pelo amor de Deus, Seishu está praticamente sofrendo bullying de todos seus amigos a anos e está piorando agora com ele chegando perto dos trinta anos, dizem que ele é o maior encalhado da cidade. Só Deus sabe quantos encontros seus amigos tentaram arranjar pra ele e Seishu recusou todos. — A loira revirou os olhos. — Onde estou querendo chegar é simples, coloque logo uma coleira nesse garoto. Eu não aguento mais.
—
Depois do choque de realidade que Akane jogou em Hajime, a raposa ainda passou semanas digerindo tudo, dessa vez não apenas evitando Seishu como a própria Akane também. Hajime estava vivendo apenas para trabalhar, fazendo de tudo para manter a mente ocupada.
Ah, sim. Ele já havia aceitado que gostava de Seishu. Ainda era um sentimento estranho, ele nunca pensou que um dia iria sentir aquilo... Ter um companheiro...
As bochechas de Kokonoi ficaram vermelhas e ele deu um tapa no próprio rosto.
— Pare com isso kumiho estúpida. — Murmurou para si mesmo. — Sou uma desonra para todas as kumihos que já existiram, eu mancho a imagem de todas... — Suspirou enquanto continuava conversando consigo mesmo em voz alta. — Estou parecendo um adolescente sem encarar meus problemas, eu sou tão velho que esqueço minha própria idade as vezes, porra. Pare de agir assim, Koko.
Sua conversa terapêutica consigo mesmo foi interrompida com alguém batendo em sua porta.
Hajime abaixou seus óculos que usava apenas pra leitura, dando uma olhada na hora. Já era final de tarde e não haviam ligado pro seu apartamento avisando que alguém chegou.
Então provavelmente era alguém que o porteiro conhecia, algum de seus amigos.
Empurrando sua cadeira de rodinhas, ele se levantou e foi até a porta, abrindo e dando de cara com o grande motivo de seus problemas ultimamente.
— Koko. — Seishu o chamou pelo apelido que ele tanto gostava de ouvir.
Oh, droga.
Era a primeira vez que encarava Seishu depois da revelação de Akane.
— Inupi. — Respondeu. — Eer... Tudo bem?
— Eu que queria te perguntar isso. — Seishu disse com uma voz... Estranha.
Os olhos de Hajime se estreitaram.
— Eu... Queria conversar com você, estou criando coragem a algum tempo. Não sei o que eu fiz para você, mas queria te dar algum espaço de qualquer forma. — Seishu respirou fundo, olhando para Hajime com os olhos brilhando.
Ele iria... Ele não iria, iria?
— Quero saber se eu fiz algo de errado. — Fungou. — Sabe, eu fiquei tão feliz quando 'Nee-san me disse que você estava voltando! Mas... Mas... — Os ombros de Seishu caíram e tremeram levemente. — Você tem me ignorado por mais de um mês, recusando qualquer tentativa minha de tentar me aproximar. Eu sei que faz muito tempo desde que nós fomos próximos, talvez você não goste mais de mim... Mas eu gostaria que dissesse isso na minha cara ao invés de me evitar, Hajime.
Hajime piscou os olhos algumas vezes, sentindo o ar faltando em seus pulmões.
Ele era uma pessoa horrível. Fazendo Seishu sentir todas essas coisas.
Kokonui pegou a mão do mais novo e o puxou para dentro de seu apartamento, encostando a porta. Seishu ainda tinha uma cara de choro e isso estava desesperando a kumiho sem saber o que fazer.
Indicando para ele se sentar no sofá, Hajime sentou ao lado dele e olhou em seus olhos.
— Desculpe. — Disse por fim. — Desculpe, eu não sabia que você estava pensando tudo isso... Na verdade eu não pensei em como você estava se sentindo com essa situação estranha. — Hajime mordeu seus lábios.
Seishu estava prestando atenção atentamente.
Ao ver o rosto do outro homem, Kokonoi finalmente percebeu quanta falta ele estava sentindo do mais novo. Desde seus olhos verdes que olhavam pra ele com tanto carinho, as orelhas no topo de sua cabeça que eram tão fofas e Hajime amava passar a mão nelas, o cabelo loiro de Seishu que estava bem maior do que antes, caindo perfeitamente em seus ombros.
Hajime esqueceu totalmente o que queria dizer, ao invés disso ele encostou a testa no ombro do outro.
Ele estava... Estava apaixonado. Ele estava tão apaixonado por Seishu que sentia seu coração doer só por estar perto dele e não poder o beijar do jeito que estava sonhando nos últimos dias.
— Koko? — Seishu olhou para ele confuso, passando os dedos em suas mechas prateadas. — O que aconteceu?
— Estou apaixonado por você. — Essas palavras saíram com tanta facilidade de sua boca que até Hajime se surpreendeu.
Era tão fácil assim?
Ele olhou para Seishu que parou a mão no ar, com os olhos arregalados.
— Foi estranho, sentir isso foi estranho. Eu nunca pensei que poderia me apaixonar justamente agora e por... Por você. Não planejei isso, eu juro— Só... Eu só estou tão apaixonado por você que não sei o que fazer, não sei como agir perto de você. Fiquei esse tempo longe pois precisava pensar sobre isso e não iria conseguir ficar perto de você sem querer te beijar até meus lábios ficarem dormentes, me desculpe por ter demorado tanto tempo para dizer isso.
As caudas de Hajime estavam balançando agitadamente em suas costas, isso quase nunca acontecia e só acontecia quando ele estava extremamente nervoso.
Era assim que ele estava enquanto esperava a resposta de Seishu que parecia estar processando tudo.
— O que você disse sobre aquilo? — Seishu perguntou depois de um tempo.
— Huh? Eu disse tantas coisas, qual parte exatamente? — A kumiho perguntou confuso.
— A parte de me beijar até seus lábios ficarem dormentes, ainda está de pé? — Explicou.
Hajime piscou com os olhos e assentiu com a cabeça.
— Hajime, você é um verdadeiro idiota. Além disso você é muito burro e também muito lerdo, eu queria te odiar por isso e você tem tantos defeitos que eu nem conseguiria listar todos. — Seishu atirou tudo isso na cara de Kokonoi que ficou sem entender nada.
— Ai, Inupi? Não precisa me ofender tanto—
— Mas mesmo assim! Mesmo assim... Eu ainda consigo te amar. Mesmo que eu tenha sofrido tanto com esse sentimento. Acho que pensando por esse lado eu também sou idiota por ter te esperado por todos esses anos, esperando esse momento. — Seishu esfregou os olhos. — Você só não precisava ter esperado tanto pra falar.
Hajime abriu e fechou a boca várias vezes, tentando falar alguma coisa.
Quando ele finalmente formulou mentalmente o que poderia dizer, Seishu passou os braços ao redor de seu pescoço e se jogou contra seu corpo, derrubando ambos no sofá. Seishu, agora seu Seishu, selou seus lábios, finalmente o beijando e realizando o desejo que Hajime queria fazer a tanto tempo.
—
— Inupi, Inupi, Inupiiii! — Kokonoi chamou seu namorado várias vezes, enquanto o outro digitava algo em seu celular.
— Hmmmm? Sim, meu amor? — Seishu tirou os olhos do celular para olhar a raposa que já estava praticamente querendo o sufocar com suas caudas ao redor de seu corpo.
— Eu estava pensando em quando você se declarou para mim. — Disse. As bochechas do loiro ficaram vermelhas imediatamente.
— Ei, pelo o que eu me lembro você se declarou primeiro? — Seishu jogou de volta. A expressão de Hajime não mudou, embora.
— Mas Akane me disse que você sempre gostou de mim desde sempre, na época que eu achava você um pirralho chato. — Kokonoi devolveu seu golpe final, vendo as orelhas de Seishu ficarem agitadas.
Hajime não se segurou e acariciou a pelagem fofa.
— Koko, você ama me deixar com vergonha, não ama? — O mais novo perguntou, sentindo o calor subir até seu rosto.
A raposa viu aquilo e lambeu os lábios.
— Você está me olhando de um jeito estranho... — Seishu apontou, se afastando o máximo que podia já que as caudas brancas da kumiho estavam o segurando. — Koko.
— Inupi. — Hajime chamou. — Seishu. — Usou seu nome, fazendo o outro ficar mais vermelho do que já estava. Ele passou os dedos no pescoço cheio de marcas, Kokonoi estava exagerando um pouco ultimamente. Mas Seishu não reclamava e gostava de exibir elas, sem vergonha de esconder.
— Sim, meu amor? — Seishu perguntou. Kokonoi ronronou do jeito que fazia sempre que ele dizia aquilo, parecendo um gato. Isso divertia tanto o loiro.
— Aaah pare, pare com isso! — Agora eram as bochechas do outro que estavam vermelhas. Hajime bufou e empurrou Seishu suavemente, até ele cair se costas na cama. — Você diz que eu gosto de te envergonhar, mas e você, em?
Com um sorriso nos lábios, Seishu puxou o namorado junto com ele, deixando um beijo rápido em sua boca.
— Sim, sim. É o que você merece já que vive fazendo isso comigo.
Hajime revirou os olhos e abriu os botões da camisa de Seishu.
— Koko...
— Hmmmm? — A kumiho sorriu. — Não estou fazendo nada~
— Estou vendo muito bem o que significa seu nada. — Sorriu. — Eu tenho que trabalhar mais tarde, entendeu?
— Oh. — Hajime parou seu rosto no pescoço dele, observando o namorado com seu olhar afiado. — Só me deixe brincar um pouco e aumentar essas marcas, sim?
Seishu pensou por um tempo antes de suspirar, o olhando de forma apaixonada. Ao invés de responder, ele mudou o foco de Hajime, puxando seu rosto na direção do seu, o beijando. A raposa não perdeu tempo, aprofundando o beijo ao colocar sua língua na boca do outro. Kokonoi colocou sua perna entre as de Seishu, o último puxando levemente seu cabelo prateado.
Kokonoi sentia que beijar seu Seishu era como um vício, um que ele não queria que passasse nunca.
Seishu quase engasgou com um gemido quando Hajime apertou sua cintura fortemente.
— Koko. — Seishu chamou quando eles se separaram, o outro se dirigindo diretamente para seu pescoço. — Você— Vamos nos atrasar.
Hajime passou sua língua na clavícula do outro, mordendo em seguida. Sendo uma raposa, seus dentes já eram pra ser normalmente afiados, mas sendo uma kumiho parecia que era um pouco mais.
Seishu parou de achar estranho a muito tempo a forma como gostava daquilo.
— Certo. — Kokonoi deixou um último beijo no pescoço do namorado, se separando. As caudas dele estavam caídas sobre Seishu e isso fazia cócegas, o fazendo rir um pouco. Hajime achou sua risada apaixonante.
— Ei. — Seishu o segurou no mesmo lugar, fazendo o outro levantar as sobrancelhas. — Eu disse que iríamos nos atrasar, não disse para parar. — Concluiu.
— Esse é o seu jeito de dizer que quer—
— Koko! — Seishu socou o peito do outro.
— Eu nem terminei o que ia falar, você tem uma mente suja, Sei-shu. — O sorriso de Hajime aumentou. Ele desviou o olhar para o relógio. — Ok, temos mais alguns minutos antes de precisarmos sair. — As mãos dele pareciam mais livres agora depois do que o loiro havia dito, indo diretamente para dentro de sua blusa, o arranhando levemente.
Seishu bufou e revirou os olhos, abraçando as costas de Hajime
— Certo. — Respondeu, o puxando para outro beijo.
E talvez eles tenham perdido a hora mesmo assim, cada um chegando atrasado em seus trabalhos.
