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Simplemente Pasan

Summary:

Nem tudo na vida precisa ser planejado. Quando as coisas boas (como encontrar alguém por acaso e igualmente por acaso se apaixonar) têm que acontecer, elas simplesmente acontecem.

Notes:

Eu não sei mais escrever fanfic mas eu amo a lana demais pra deixar ela sem presentinho esse ano.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O som das buzinas quase não dá pra ser ouvido do décimo andar, mas ainda assim me irrita. Principalmente numa sexta-feira à noite onde todos os meus amigos estão resolvendo seus próprios problemas ou saindo pra beber até esquecer o próprio nome. Esse barulho irritante me lembra o tempo todo que tem gente lá fora, vivendo, enquanto eu conto as rachaduras na parede do meu apartamento e penso em qual carne descongelar para o almoço de amanhã. 

Acho que vou cozinhar um frango.

Falando nisso, não paguei as despesas mensais do condomínio. Nem sei onde foram parar as minhas contas. Provavelmente naquela gaveta onde eu guardo cabos velhos, cordas de violão estouradas e moedas que já não valem mais. 

Acho bom procurá-las.

Me levantei com muito custo, fui até a cozinha e abri a gaveta. Um amontoado de papéis já apareceu logo de cara, e ali estavam as benditas contas, uma revista que minha mãe ainda não cancelou a assinatura mesmo não morando comigo há mais de cinco meses, e… as despesas de condomínio do 1004?

Pra começar, eu nem sabia que tinham alugado o 1004 outra vez. Espero que agora não seja um casal tão barulhento. O sono que eu perdi durante a semana das provas finais nunca será recuperado — e eu nunca vou perdoar aqueles dois canalhas. Parecia que escolhiam o dia que eu estava mais cansado pra esfregar na cara dos vizinhos que eles eram dois folgados (e provavelmente desempregados. Assalariados não têm ânimo o suficiente pra dormir tarde.)

Fechei a gaveta com o papel na mão e saí do meu apartamento. Provavelmente o porteiro deve ter entregue sem querer a conta do 1004 junto com a minha. 

Será que não é meio estranho bater na porta do novo vizinho uma hora dessas numa sexta à noite? Será que ele vai estar em casa, em primeiro lugar?

Virei para a direita e a porta do 1004 estava aberta. Bom, pelo menos ele não saiu. Ou ela. Não faço ideia de quem esteja morando no apartamento ao lado do meu.

Bati na porta e ninguém atendeu nos primeiros dez segundos. Bati de novo, e outra vez a resposta não veio.

“Ei, tem… tem alguém em casa?”, eu perguntei, mas minha voz ecoou na sala do apartamento e morreu ali. “Que descabeçado, imagina se alguém rouba a casa dele…”

“Oi! Espera aí, eu já vou!” Uma voz respondeu quando eu estava prestes a me virar para ir embora. “Eu tava tomando banho, me desculpa.”

Uma figura alta, vestindo uma bermuda cinza e camiseta branca, com uma toalha cobrindo os cabelos — e consequentemente me impedindo de ver seu rosto enquanto ele secava os fios — apareceu na porta. 

“Eu sou o Brian, moro no 1003. O porteiro me entregou sua despesa de condomínio por engano”, eu falei e estendi o papel em sua direção.

“Ah, eu tava mesmo procurando por isso feito um louco, muito obrigado mesmo .”

Ele tirou a toalha do rosto após secar os cabelos loiros para pegar a conta e por muito pouco eu não deixei ela cair. Não sei se era a carência da sexta à noite ou meus olhos me pregando uma peça, mas de repente eu tinha a certeza absoluta de que o vizinho do 1004 era a pessoa mais bonita que eu já tinha visto em toda a minha vida.

“Ah, desculpa não me apresentar, Brian. Meu nome é Jae.”

“Eu sou o Brian.” 

“É, eu sei”, ele respondeu rindo e eu senti a ponta das minhas orelhas queimarem. Em minha defesa, meu cérebro estava funcionando com provavelmente menos de 20% da capacidade que eu usaria num dia em que estou com muita preguiça de pensar. “Obrigado mais uma vez. Prazer em te conhecer, vizinho.”

“O prazer é todo mês.” Quê? “Todo meu . O prazer é todo meu.

Balancei a cabeça e voltei pro meu apartamento o mais rápido possível dentro do que é socialmente considerado educado enquanto ouvia ele rir baixo mais uma vez. 

Por que raios eu fui até a casa dele?





Uma semana inteira se passou e eu não vi mais o meu vizinho. Não que eu estivesse contando, mas esse pensamento passou pela minha cabeça porque hoje é sexta à noite, e de novo eu estou sozinho por aqui. 

Desci com uma garrafa de cerveja até uma parte escondida atrás dos arbustos no canteiro do prédio, onde Dowoon e eu costumávamos beber, cantar e reclamar da vida na época da faculdade. É uma pena ele ter se mudado da cidade depois da graduação. Talvez eu devesse ligar pra ele qualquer dia. Esse lugar tá perdendo a graça. Essa cidade, esse esconderijo, essa cerveja…

“Brian?”

Quase derrubei a garrafa ao ouvir meu nome ser chamado, e quase caí do banco quando me dei conta de que era Jae quem estava chamando.

“Oi, Jae!” Respondi meio envergonhado por sexta passada e juntei todos os meus pedaços pra tentar não fazer feio de novo dessa vez. “Achou meu esconderijo?”

Ele deu um sorriso fraco e ergueu um pequeno engradado de cerveja.

“Posso te acompanhar na bebedeira?”

Soltei uma risada e dei espaço para que ele sentasse ao meu lado no banco. Não dava pra ver o que tinha à nossa frente, já que arbustos altos a uns três metros do banco impediam nossa visão, mas dava pra olhar as estrelas. E hoje o céu estava lindo.

“O que te traz a este modesto canto do mundo?” Perguntei num tom divertido e vi Jae abrir uma cerveja e tomar o primeiro gole.

“Eu tava indo beber sozinho em algum lugar, mas aí te vi pela janela do meu quarto e desci.”

Ah. Eu tinha me esquecido que do quarto do Dowoon dava pra ver nosso cantinho. E Jae está morando exatamente onde Dowoon morava.

“Você vem sempre aqui?” Jae perguntou depois de dobrar uma das pernas no banco e apoiar o braço que segurava a cerveja nela.

“Bem menos do que antes, pra falar a verdade. Era o lugar que eu costumava vir na época da faculdade com alguém que foi embora pra outro lugar.” 

Jae assentiu e tomou mais um gole.

“Hm… Vocês namoravam?”

“Ah, não, não. Eu e o Dowoon nunca namoramos. Eu gostei dele por uns dois meses no primeiro ano, mas percebi que a gente se dava melhor como amigos.”

“Ah, sim. Da forma como você falou parecia, sei lá… Que você vinha aqui com alguém que você não queria mencionar, por isso pensei que fosse algo relacionado a ex.”

Deixei minha cerveja de lado, mesmo tendo tomado só metade, e olhei para ele.

“Ex. Faz tempo que não ouço essa palavra.”

“Então… Tá num relacionamento firme?”

“O exato oposto." Falei e ri. "Decidi no segundo semestre da faculdade que não ia namorar durante o curso, e quando terminei… Não tinha ninguém me esperando e eu não quis procurar.”

“Você fez faculdade de quê?”

Joguei a cabeça pra trás e fechei os olhos. 

“Artes cênicas. Trabalho me apresentando no teatro municipal, mas no momento a companhia entrou de férias.”

Abri os olhos e olhei para ele, esperando a mesma resposta babaca de sempre ou pelo menos o olhar julgador que as pessoas tentam esconder quando eu digo qual a minha formação.

Mas a resposta babaca não veio. Nem o olhar julgador.

“Isso é... Incrível! Eu sempre achei muito interessante todas essas coisas sobre arte, música, teatro, dança, é algo tão… tão libertador. Que incrível, Brian.”

Jae disse isso da forma mais natural possível e seguiu tomando a cerveja, enquanto eu continuei olhando sem reação pra ele.

“Não… Não estou acostumado com esse tipo de resposta, pra ser honesto.”

“Como assim?” 

Jae virou o corpo no banco e ficou sentado completamente de frente pra mim, me fitando por baixo das lentes finas dos seus óculos, mesmo que a única fonte de luz que conseguia chegar até nós fosse o brilho prateado da lua cheia.

“Geralmente as pessoas dizem ‘Isso é realmente uma graduação?’ ‘Como você faz pra pagar as contas?’, e coisas do tipo. Você me pegou de surpresa, não vou mentir.”

“Que bando de babacas.”

Pela primeira vez naquela noite, dei um sorriso aberto.




Coloquei o copo de destilado no balcão e decidi parar por hoje. Como era o último sábado antes da companhia voltar a ensaiar, todo mundo decidiu sair pra beber juntos. O bar era perto da minha casa, então fiquei por último depois que todos os meus colegas foram embora. Eu queria chamar um carro para ir pra casa, mas não sabia se queria chegar cedo hoje. 

“Aproveitou bem as férias, senhor Kang?”

Wonpil, barman e amigo de longa data de Dowoon e eu, chegou no balcão com um guardanapo no ombro e me cumprimentou sorridente. 

“Bom, se considerarmos que ‘férias’ significa um período de tempo onde se pode fingir que morreu e ignorar todas as responsabilidades profissionais, então eu não poderia ter aproveitado melhor, senhor Kim.”

Nós dois rimos e eu olhei pra trás quando senti uma mão nas minhas costas. 

“Oi, Bri.”

Bri?

“Oi, Jae. Não sabia que você vinha aqui.” 

"Encontrei esse bar semana passada, na verdade."

“E aí, Jae?” Wonpil cumprimentou meu vizinho animadamente, enquanto ele continuava com uma das mãos nas minhas costas. 

Jae e eu começamos a nos falar com mais frequência depois daquela sexta-feira. Tanto pessoalmente quanto por telefone. Já saímos para comer juntos, fazer compras, fomos ao cinema, assistimos filme em casa, começamos a lavar a roupa juntos na lavanderia do prédio e, quando o tédio bate, um corre pra casa do outro, nem que seja pra jogar conversa fora, jogar algum jogo real ou xingar tudo e todo mundo.

Isso foi ótimo, porque agora meus dias são bem mais animados e divertidos. Jae é uma excelente companhia e uma pessoa encantadora.

A parte complicada em tudo isso? Estou começando a ver nele uma pessoa encantadora até demais.

“Vai querer o que pra hoje, chefe?” Wonpil perguntou e Jae tirou a mão das minhas costas para jogar os cabelos para trás, e eu sinceramente não sei se era pior aquela mão encostando em mim tão suavemente ou fazendo ele parecer aqueles mocinhos irresistíveis de filme ao pentear o cabelo pra trás despretensiosamente.

“A melhor música da sua playlist, Wonpil.”

Olhei para ele meio confuso, e quando me dei conta, meu vizinho tinha me puxado para o meio do bar enquanto segurava minha mão com todo o cuidado, como se ela fosse de porcelana e pudesse quebrar sob o mais simples toque. 

“Dança essa música comigo?” Jae pediu quase que com uma expressão de criança arteira, e eu fiquei paralisado no lugar quando ele envolveu minha cintura com as duas mãos.

“Quê?” 

“Dança comigo.”

“De jeito nenhum.” respondi, porém sem coragem, ou melhor, sem vontade de desvencilhar as mãos dele da minha cintura.

“Vai, Brian. O pior que pode acontecer é você gostar.”

Engoli em seco com sua expressão desafiadora e o meio sorriso que adornava sua boca. Eu nunca estive tão perto assim dele. E nunca quis tanto estar mais perto ainda.

Coloquei minhas mãos inicialmente nos seus braços, mas conforme a música ia andando elas foram subindo até abraçarem o pescoço dele.

“O que você acha da gente comprar bebida pra caramba, sair daqui e beber pela cidade? Só eu e você.” Jae sussurrou perto do meu ouvido e eu engoli em seco outra vez.

“Você é maluco.” Respondi no mesmo tom e ele deu risada. “Mas eu topo, senhor pé-de-cana.”

“Pé-de-valsa”, ele corrigiu e eu inconscientemente o abracei enquanto ria. Era aconchegante e calmo. Reconfortante. 

Me sentia em casa.

“Que sorte te encontrar aqui hoje, Brian.”

Levantei o rosto e tomei coragem pra passar uma das mãos em seu cabelo e depois na bochecha. Uma das suas mãos foi das minhas costas até a nuca e ele sorriu pra mim de uma forma que eu nunca tinha visto nos outros dias. 

Ele se sente da mesma forma que eu? 

O coração dele bate tão rápido quanto o meu?

Se eu beijasse ele aqui e agora, ele iria gostar? Iria retribuir? Iria me beijar de novo?

Se eu dissesse que estou me apaixonando, ele diria que também está?

“A sorte foi toda minha, Jae.” Respondi com toda a sinceridade do meu coração e trouxe seu rosto para perto com uma das mãos. “E você tinha razão. Eu gostei de dançar com você.”

Quando a música acabou, ele pegou minha mão, deu um beijo nela e se desvencilhou de mim. 

“Vamos sair.” Ele disse me puxando pela mão e mandando Wonpil anotar um engradado de bebida na conta dele.

“Pra onde?” 

“Não faço a mínima ideia. Só vamos sair daqui. Quero ficar sozinho com você.”

“Sem nem planejar pra onde ir?” Eu perguntei quando nós dois saímos do bar, mas antes de dar uma resposta, ele me segurou contra a parede e roubou um beijo rápido da minha boca.

“Planejar pra quê, Bri? Quando as coisas boas têm que acontecer, simplesmente acontecem.” 

Eu sorri, segurei a sua mão e o segui para onde quer que ele estivesse me levando, porque ele tinha razão. Não planejei conhecê-lo, não planejei me tornar seu amigo, não planejei me apaixonar por ele e não planejei nada do que aconteceu depois. 

E mesmo assim tudo aconteceu da forma mais perfeita possível.

 

Porque quando as coisas boas têm que acontecer, simplesmente acontecem.








Notes:

Eu REALMENTE escrevi "o prazer é todo mês" sem querer. aí decidi deixar