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O ribombar de um trovão foi o que deu início à tempestade.
A chuva encorpada batendo contra o asfalto, o farfalhar das folhas nas árvores, algumas pessoas correndo para se abrigar. O barulho dos carros buzinando, assim como as gotas grossas chocando-se contra a lataria, transformando o cenário em um dilúvio.
Jimin anda de um lado para o outro, o telefone no ouvido, suas botas atingindo a calçada do restaurante que esteve abrigado, esperando. Nunca ficou tão puto da vida quanto agora.
Jihoon não apareceu, mesmo quando prometeu e reafirmou que estava vindo. O problema é que ele sabe que Jimin odeia atrasos, o que custava falar a verdade? Já saíram antes, para tomar sorvetes e possuíam sintonia, no entanto neste encontro, justo neste, ele decidiu furar sem mais, nem menos.
O celular finalmente dá sinal de que foi atendido quando a voz arrependida do outro chega aos seus ouvidos.
— Eu sei que já deveria estar aí, mas…
Jimin revira os olhos, irritado. O que custa avisar que vai chegar tarde? Não entende porque ele teve uma atitude tão babaca quanto essa.
— Existe uma coisa chamada avisar com antecedência, sabia? Provavelmente vou pegar uma chuva do caralho agora por sua culpa. — Jimin interrompe, zangado.
É quase irônico um trovão soar ao fundo e isso o irrita ainda mais. Está agitado porque sabe que a chuva que cair não é mansa, na realidade, irá varrer a cidade de água e chegará em casa completamente molhado. Azar é quase um eufemismo para definir essa situação.
— Jimin, sério, me desculpa, eu não queria me atrasar, mas o tempo-
— Foda-se o tempo! Eu tô aqui! Isso não me impediu.
— De verdade, sério, me descu-
Jimin desliga o celular, colocando o aparelho no bolso, enfurecido. Pode estar sendo infantil ou tanto faz, é um homem atarefado demais para que alguém marque algo e depois fure, por isso não irá aceitar desculpinhas meia boca.
Anda de um lado para o outro, a chuva continua a cair forte e encorpada. Ele para, com os braços cruzados no peito, sua bolsa-carteiro pesando de um lado enquanto a raiva pesa do outro. Suas botas estão com as pontas encharcadas de água, Jihoon deveria lhe dar novas, decide.
Pega o guarda chuva da bolsa, então começa a andar por baixo dos toldos das lojas e restaurantes, tentando decidir se deve pedir um carro de aplicativo ou não. Provavelmente, será tempo perdido, pois a rua está tomada de água e os poucos veículos que se arriscam a atravessar é como se estivessem na fórmula um.
Jimin pragueja quando uma moto passa levantando água ao ponto de encharcar seu terno. Respira fundo, tentando não gritar, e resolve subir em uma rampa de acesso à uma loja que está fechada. Está sem rumo sobre como vai sair dali.
Procura no aplicativo de seu celular se há algum carro que possa chamar, no entanto nenhum está disponível. A água está subindo cada vez mais, ao ponto de a calçada em frente ao restaurante onde esteve, a poucos minutos, estar tomada por ela. Pânico genuíno começa a acelerar seu coração. Se a inundação aumentar, será que consegue se salvar?
Uma buzina soa estridente a sua esquerda e o assusta. Jimin pragueja virando na direção de onde o idiota está. Um veículo azul estacionado é a única coisa que enxerga, pois o motorista é irreconhecível através da chuva.
Ouve o som de novo, então a janela do lado direito se abre e alguém acena com a mão. Jimin, congelado em seu lugar, acredita que é um engano, provavelmente a pessoa acha que é um conhecido, por isso está tentando chamar sua atenção.
Resolve virar de costas, mesmo que seja rude, para deixar a mensagem clara de que não conhece quem é. O problema é que continua, em seguida a voz do motorista chamando se faz presente.
— Ei, moço, sai da chuva! Vem se abrigar aqui!
Jimin, ergue a sobrancelha, encarando por cima do ombro quem acabou de gritar. Obtém um vislumbre de cabelos prateados e uma mão para fora da janela. Não tem coragem de ir até lá até que seu pé escorrega, e tem que se segurar nas barras de segurança da rampa, é aí que se depara com o volume da água.
Está subindo cada vez mais. O local onde o carro azul está estacionado possui algumas poças de água, mas onde Jimin está o nível sobe sem precedentes. Assusta-se com a conclusão de que irá arruinar não só seus sapatos, como seu terno caríssimo e dá vários passos para trás, até as costas baterem contra a porta da loja.
Tem que se decidir logo: ou entra no veículo daquele desconhecido ou será arrastado pela enchente. Seu coração bate forte no peito e suas mãos geladas seguram o guarda-chuva, quando resolve passar por baixo da barra de segurança e andar até onde o veículo aguarda.
Jimin solta um palavrão porque seu guarda-chuva está envergando para a esquerda e tem medo de que voe, ao dar uma corridinha final para onde a porta do carona está aberta o esperando. Ele desliza no assento de couro tentando arrumar a bagunça de seus cabelos.
— Que loucura de chuva, não é? — Ouve uma voz murmura ao seu lado.
Dentro do espaço, é possível contemplar a figura de quem era o homem que estava insistindo para que entrasse. Ele é jovem, talvez na mesma faixa etária de Jimin ou um pouco mais novo, é impossível saber. Usa uma jaqueta de couro preta com jeans rasgados e uma máscara da mesma cor embaixo do queixo.
O rosto dele é suave, apesar do maxilar definido, tem bochechas cheias e redondas. Seu nariz é um pouco largo, mas não é de um jeito desarmonioso, é arredondado, principalmente, e fofo. Seus olhos são de um castanho escuro com um formato felino atraente.
Ele parece comum, bastante honesto na verdade, não há nada em seu semblante que demonstre estar com segundas intenções. No entanto, Jimin ainda desconfia dessa gentileza que vem do nada, precisa de provas mais concretas de que ele não é um serial killer ou algo assim.
— Você está bem, hummm ? — Ele pergunta, genuinamente preocupado, ao observar cada um de seus detalhes.
A voz dele tem uma cadência baixa e um pouco rouca. Não acredita que seja sinal de que o outro fume, pois não consegue detectar cheiro de cigarro vindo dele ou no veículo. Porém, acha dissonante que alguém com uma aparência tão… macia, tenha uma voz profunda assim.
— Sim, estou. Obrigado por ter me chamado para entrar. — Jimin sorri, cordial.
Seu tom formal está em evidência, coisa que só acontece quando está com pessoas que não conhece ou tem intimidade. É um costume que traz da empresa onde trabalha, e acredita piamente que é importante para manter certa distância de possíveis engraçadinhos que acham que podem flertar do nada.
— Esse tempo ‘tá louco — murmura ele, olhando pela janela. — De verdade, eu nunca vi uma chuva tão forte assim em Seul.
— Sim, sim, verdade.
—Você ‘tá muito molhado? — O homem encara suas roupas dos pés à cabeça até estar de volta para seu rosto.
Jimin sabe que seu estado molhado é evidente, tanto porque está descendo por seu terno quanto por estar estremecendo de vez em quando. Suas mãos estão geladas, assim como sua nuca e nariz. Tentou evitar demonstrar seu desconforto com a frieza da roupa, contudo não conseguiu.
Nem tem tempo de responder a pergunta, pois o rapaz liga o aquecedor do veículo com um sorriso leve na face e questiona se está melhor. Ao confirmar com a cabeça, o outro parece feliz por estar ajudando. A gentileza dele é ainda algo que incomoda, pois nunca se imaginou sendo ajudado por qualquer um na cidade.
Evita ficar tocado com o gesto, porém está aos poucos baixando a guarda. O fato de ainda estar no carro de um desconhecido é o que o obriga a permanecer com ela erguida, mesmo que fraquejando.
— Por que você saiu do restaurante e foi para chuva? — questiona ele.
Não quer demonstrar surpresa, mas é visível quando sua sobrancelha se ergue. Agora a pouco estava pensando em abaixar a guarda, mas ouvir que estava sendo observado o tempo todo acelera seu coração.
— Como é? — murmura.
Na hora, o outro jovem cora, encarando lá fora enquanto lambe os lábios, pensativo. Em seguida, explica-se melhor.
— Eu... — coça a nuca. — Estava no carro antes da chuva começar e seu terno é bem chamativo, entende?
O terno vermelho de Jimin realmente é chamativo e não pode culpá-lo por ter visto. Contudo, isso ainda não responde porque ele estava o seguindo por aí como um stalker maluco.
— Claro — assente, desconfiado
— Bem, é... — Observa ele fazer um gesto circular com a mão, até que percebe que é sua forma de estimular a responder sua pergunta anterior.
— Estava esperando uma pessoa chegar, mas ela não veio e eu não queria mais esperar. — Dá de ombros. — E você? Por que estava parado aqui? — pergunta incisivo.
Se vai ser entrevistado por um desconhecido, então tem o direito de repetir a mesma coisa. Deve conhecer quem está o abrigando ou terá que chamar a polícia para levá-lo para casa, é brincadeira, ou não, afinal tudo pode acontecer.
Demora um pouco para a resposta vir e isso só faz com que fique mais desconfiado. Vê as pontas das orelhas do outro ficarem vermelhas enquanto lambe os lábios.
— Eu ‘tava em um telefonema com... com a minha irmã e não percebi que a chuva engrossou.
Ele, assim como Jimin, evita dar mais detalhes. E está tudo bem, afinal não se conhecem e nem devem satisfação um para o outro. De repente, ele faz um barulho alto com a boca, estende a mão.
— Me desculpe, eu não me apresentei, me chamo Yoongi — sorri de forma tímida.
O sorriso dele, mesmo tímido, é bastante caloroso. A forma que seus olhos se enrugam nos cantos e seus dentes da frente são visíveis, por algum motivo começam a desmanchar o gelo. Jimin não quer se dar por vencido, mas está há um bom tempo ali e nada de errado aconteceu, então não faz mal se apresentar.
— Jimin, eu me chamo Jimin — aperta a mão dele com firmeza até afastarem em conjunto.
— Então, Jimin-sshi, onde você mora? Te dou uma carona ‘pra lá.
Quase deixa escapar o endereço exato onde vive em Jongno, no entanto se contém. Ainda está avaliando este tal de Yoongi, por isso resolve ser menos preciso em sua resposta, buscando escapar de qualquer pessoa o seguindo sem ser convidada.
— Jongno — diz. — Quando chegarmos lá explico por onde você deve ir — completa.
Seguem viagem por diversas ruas cheias de água. Jimin está chocado ao ver Seul neste estado. Mora na cidade há cerca de cinco anos e nunca viu uma chuva tão forte quanto esta. E mais do que nunca, odeia Jihoon por obrigá-lo a testemunhar isso.
Não sabe o que aconteceu com o outro homem, mas quando souber vai esfolá-lo vivo por sua falta de respeito. Não quer ouvir nenhuma justificativa boba da parte dele, quer a verdade nua e crua do porquê demorou e depois não veio até o restaurante.
Um silêncio acaba pairando e a culpa não é de nenhum dos dois. São desconhecidos um para o outro, apesar da gentileza de Yoongi, então é difícil arrumar o que conversar que não seja ou tenso ou constrangedor.
De qualquer forma, é bom estarem desse jeito porque Jimin pode estudá-lo melhor. A forma que ele dirige o veíuclo lhe mostra experiência, seus olhos são atentos na rua e não colocou nenhuma música para tocar, o que mostra seu foco em querer dirigir sem distrações.
Tem que desviar o olhar porque quase é flagrado o encarando. Ainda não confia nele, porém não há motivos evidentes para desconfiar. Quer se manter distante por uma questão de temer confiar em alguém que não conhece, porém ainda não há nada nele que demonstre fazer algo de má fé.
Jimin dá algumas instruções sobre o local onde mora. Sua intenção não é levar Yoongi exatamente para seu prédio, mas sim para um prédio vizinho. Quando param no meio fio, desliza o cinto de segurança para longe.
— Bom, muito obrigado por ter me trazido, Yoongi-sshi, te devo uma — diz tentando soar simpático.
— Nah , ‘tá tudo bem, Jimin-sshi. Espero que você possa descansar e se alimentar bem quando chegar em casa. — Ele acena com um sorriso no rosto. — Até.
Jimin se despede, saindo e para na frente do prédio acenando com um sorriso. Após ter certeza de que o veículo saiu de seu campo de visão, atravessa a rua para seguir até seu prédio real.
Por sorte, está garoando, o que é diferente do dilúvio que enfrentou. Solta um suspiro alto ao colocar sua senha na portaria e entra, torcendo para que essa seja a primeira e última vez que vai enfrentar um dia como este. Por algum motivo, Yoongi ainda está em sua mente, mas tem certeza que irá esquecê-lo logo.
☔
Outro dia, outra chance.
Jihoon se desculpou explicando que teve um problema no trabalho e não pode sair. Como seu arrependimento se mostrou genuíno, Jimin resolve dar mais uma chance. Voltou ao mesmo restaurante do outro dia e o aguarda no bar.
Jimin bebe um coquetel, tranquilamente, enquanto observa o tempo lá fora. Está escurecendo, pois a temporada de chuvas e tufões começou. É aquela época em que sempre chega nos lugares, molhado, e detesta. Resolve não focar nisso enquanto gira no banco onde está.
Há um jovem sentado sozinho numa mesa a poucos metros dele. Seu cabelo e a curva do e maxilar, por algum motivo, lembram Yoongi. Jimin vem pensando bastante no outro homem, nos últimos dias. Principalmente, por conta da gentileza que ele demonstrou ter, gostaria de um dia poder agradecer.
É engraçado porque nunca foi de estagnar os pensamentos em uma pessoa específica. A viagem teve seus momentos desconfortáveis, entretanto era mais por conta de serem desconhecidos. Yoongi passou a imagem de que é alguém a quem se pode confiar. A gentileza dele, então, deve ser o motivo para não esquecê-lo.
Quando o jovem sentado à mesa se levanta e revela que, obviamente, não é Yoongi, é um pouco decepcionante. É um sentimento engraçado, pois, por que estaria decepcionado sendo que só viu o outro homem uma única vez? Jimin balança a cabeça, encarando as horas em seu relógio.
Dez minutos se passam, então vinte, trinta, finalmente uma hora. Impaciente com a demora, liga para saber do paradeiro de Jihoon e acaba caindo na caixa postal. Jimin está prestes a praguejar até a décima oitava geração de Jihoon quando um trovão soa: a chuva está cada vez mais próxima.
Paga sua bebida, e vai até lá fora para ver o tempo com os próprios olhos. A tempestade ainda não começou, porém o céu está escuro de um jeito quase apocalíptico. Jimin geme de frustração, vendo a hora, enquanto começa a andar de um lado para o outro.
É sério que Jihoon vai fazer isso? Vai deixá-lo fazer papel de bobo de novo? É quando está fazendo seu caminho de volta para o restaurante, que seu ombro encontra o peito de alguém que geme baixinho, de susto ou dor, é impossível saber. Quando Jimin encara a pessoa, prestes a pedir desculpas, exclama:
— Yoongi-sshi?!
Yoongi arregala os olhos, em seguida sorri, simpático ao assentir. Dessa vez, ao invés de estar com uma jaqueta de couro, usa um blusão preto, calças de moletom preto e há em seus pés tênis de corrida. Provavelmente ou estava correndo ou veio da academia.
— Jimin-sshi, nos encontramos novamente — brinca. — Como vai?
Quase desabafa sobre suas frustrações, no entanto morde a língua. Jamais iria despejar seus problemas assim, principalmente porque não gostaria que fizessem o mesmo consigo caso não solicitasse.
— Bem, bem, e você? — murmura enquanto seus olhos miram o céu.
A chuva vai cair a qualquer momento e os dois só tem o toldo na frente da porta principal do restaurante para se abrigar. Fale sobre sorte…
— Estou bem. — Ele olha para o restaurante, em seguida para Jimin. — Você vem sempre aqui?
A pergunta não foi em tom de flerte, mas a expressão assustada de Jimin foi o suficiente para fazer Yoongi corar, pigarrear e se explicar melhor.
— No restaurante, você sempre vem no restaurante?
Não há necessidade de responder. Pode apenas dizer “sim” e seguir em frente explicando que vai entrar. Mas, por algum motivo, talvez por não estar se sentindo patético agora que está com ele, resmunga.
— Não, eu fui convidado por um mané, mas ele nem sequer se deu o trabalho de ligar ‘pra desmarcar. — Tenta não bagunçar seu cabelo, porém não pode deixar de ao menos puxar o próprio brinco em substituição.
— Hummm … você quer dizer que ele te deu um bolo? — Yoongi questiona.
— Provavelmente.
— Oh!
Quando o encara, Yoongi está chocado. Ele está com uma mão apoiada no peito, seus olhos indo do restaurante para Jimin como se isso fosse uma coisa inconcebível. Jimin sabe que suas bochechas estão vermelhas de constrangimento, ao ter tanta atenção focada em si.
— Se me permite dizer... — Yoongi hesita, tímido, em seguida pigarreia para que possa prosseguir — você é um homem bonito, Jimin-sshi, então levar o bolo de alguém não é exatamente o que eu imagino que fariam contigo.
Jimin morde os lábios, acenando. Está um pouco… desconfortável? Não tem certeza, mas o elogio de Yoongi deixou seu peito quente e suas mãos geladas. Se concentra em continuar a conversa em uma forma de apagar qualquer constrangimento que possa ter.
— Acontece com as melhores pessoas — dá de ombros. — E você? Vem sempre aqui nessa rua? Ou mora por aqui?
Yoongi, aliviado pela conversa continuar, responde com um sorriso leve.
— Tem uma academia no fim da rua que eu frequento, e minha irmã mais nova faz curso de fotografia naquele prédio ali — aponta. — Eu trago ela de carro e a minha mãe busca ela mais tarde.
— Entendo, você… — Antes que Jimin possa continuar, seu telefone começa a vibrar. — Oh, me desculpe, Yoongi-sshi, tenho que atender.
Ouve ele dizer “sem problemas” atrás de si, em seguida se distancia para que possa ouvir a pessoa do outro lado da linha. É Jihoon dando uma desculpa esfarrapada e sem nexo, o que só estressa mais Jimin que se decide, acreditando que deu chances suficientes a ele.
— Tchau, Hoon-ah, já te dei chances demais. Pelo que vejo, não era ‘pra ser mesmo. — Nem espera ele responder, pois desliga e coloca o celular no bolso.
Jimin não pode deixar de falar um palavrão baixinho por ter vindo aqui no restaurante de novo para nada. Ao se aproximar de Yoongi, os primeiros pingos de chuva começam a cair e isso o desespera, pois terá que ir de transporte público.
— Jimin-sshi? — Yoongi chama e quando acena demonstrando que está ouvindo, ele prossegue: — Eu sei que posso estar sendo muito ousado, mas você gostaria de sair comigo? Só ‘pra comer alguma coisa e a sua viagem não ter sido cem por cento perdida… — coça a nuca, tão constrangido que nem sequer o encara.
Ainda é cedo, quase quatro da tarde. Não está exatamente com fome, porém seria bom comer alguma coisa para descontar o fato de que esteve esse tempo todo parado em um bar sozinho.
Considera o fato de que Yoongi o levou para casa direitinho no outro dia. Ele não tentou descobrir mais informações e nem foi enxerido. Na verdade, o tempo todo foi gentil e respeitável, sem quebrar a linha que Jimin impôs.
Há também o fato de que está querendo o agradecer de alguma forma, então por que não aceitar comer com ele? Como o próprio Yoongi visou, será melhor do que dar viagem perdida e ainda pegar chuva enquanto espera o ônibus.
— Tudo bem, Yoongi-sshi, vamos lá — aceita com um sorriso.
Yoongi levanta a cabeça tão rápido que ela estala, entretanto há um sorriso feliz nos lábios dele que é sutil, mas ainda está ali. Ele explica o local com endereço para onde vão e os dois correm até o veículo porque a chuva finalmente começa.
— Uou! — Jimin exclama observando o tempo do lado de fora. — Eu nunca vi um tempo igual a esse — pontua. — É assustador.
— O aquecimento global ajuda. — Yoongi murmura, brincando, mas há verdade por trás do que disse. — Você… trabalha com o quê, Jimin-sshi?
Ele observa as roupas de Jimin, mas logo está focado na avenida que se abre à sua frente. A pergunta é uma forma de preencher o silêncio, como também dá a sensação de certo interesse da parte de Yoongi. Jimin não sabe o que fazer com o pensamento, mas responde com educação.
— Eu trabalho na parte jurídica de uma empresa internacional — explica.
— Bom, isso explica o porquê de sempre quando te encontro, você ‘tá de terno. — Yoongi sorri, simpático. — É difícil trabalhar para estrangeiros?
— Não, na verdade, é mais fácil do que parece. Eles são menos rigorosos do que a maioria das empresas coreanas, além de serem flexíveis com horários, essas coisas — responde. — E você? Trabalha com o quê?
— Adivinha? — Yoongi ergue uma sobrancelha, atrevido.
— Ah…? Sério?
— Sim! Adivinha!
Jimin vê a sugestão com desconfiança, no entanto Yoongi continua a fazer um gesto com a mão, estimulando para que realmente faça isso. Não vai ser o chato que estraga prazeres aqui, afinal se entrou nessa por querer gratificar o outro homem de alguma forma, tem que ser receptivo.
Pensa por vários minutos, lembrando todas as pequenas características que viu em Yoongi. Ele não usa roupas formais e nem fala de modo formal, é bastante calmo e gentil. Essas foram as principais coisas que capturou, contudo não consegue pensar em nenhuma profissão.
— Me dê uma dica — pede.
— Não, me diga o que você acha.
— Isso não é justo! — Jimin sorri. — Bom, não é um emprego formal, tipo o meu, em que tem que usar terno, essas coisas.
— Bem, você ‘tá indo bem.
— E você me parece alguém paciente. As únicas coisas que vem à cabeça é ou enfermeiro ou professor, mas posso estar errado nas duas.
Yoongi balança a cabeça, impressionado. Quando o veículo para no semáforo, encara Jimin e murmura que ele realmente nasceu para ser advogado, até talvez criminal se houver interesse, em seguida revela.
— Eu sou professor do jardim de infância.
— Mesmo? — Jimin, impressionado, pensa que é difícil ver professores homens lidando com crianças. — E como é? Os pais são “ok” com o fato de você ser homem e cuidar das crianças?
O veículo volta a andar por entre as ruas, para logo em seguida virar a esquerda e a direita, evitando o fluxo da avenida principal. Yoongi dirige com um foco que Jimin inveja, anteriormente, quando tentava pegar em um carro, a ação sempre lhe estressou. Vê-lo movendo pelas ruas com tanta suavidade, é até bastante calmante.
— Eu trabalho a cinco anos nessa escola, no começo era difícil. Quando alguma mãe me via, sempre tinha aquele comentário: “O que esse moleque ‘tá fazendo aqui?” ou “Eu não vou deixar minha filha perto de um homem”. Eu entendo a raiz desses preconceitos, mas isso nunca me impediu de fazer o que eu gosto. — Yoongi dá de ombros. — Depois que todo mundo se habituou a mim, durante um longo ano, as mães solteiras começaram a flertar comigo — ri.
Ele tem uma risada cativante, é forte também, ao ponto de seus ombros subirem e descerem. Os olhos dele se enrugam nas laterais e sua boca exibe dentes pequenos, assim como suas gengivas são evidentes. Jimin tem que desviar o olhar porque, de repente, há essa pontada no estômago. Coisa estranha…
— Isso deve ter sido bom ‘pra você, sabe? ‘Pro seu ego — brinca, querendo saber a reação dele.
Yoongi demonstra achar o comentário engraçado, balança a cabeça de um lado para o outro e dá um tapinha em sua perna. Ele não parece constrangido, só muito surpreso com o que Jimin insinua.
— Nah , eu não misturo trabalho e relacionamento, além de isso ser proibido pelo regulamento da escola. — Vira o volante para a esquerda para que possam dar o retorno até o restaurante no fim da rua. — Como ‘tô solteiro, prefiro flerta com gente bem longe dali — pisca.
A informação jogada assim tem um tom de segunda intenção, no entanto prefere não dizer nada. Os dois saem do estacionamento rapidamente para não se molharem e chegam ao restaurante. O dono os cumprimenta, como se estivesse esperando.
Yoongi leva Jimin para uma varanda protegida por grandes janelas de vidro e se sentam em uma mesa. O restaurante é intrigante, o chão de madeira está sem nenhum arranhão visível, o teto pintado de creme tem lustres em cascata e as mesas contém toalhas brancas e vermelhas por cima.
O cheiro de molho de macarrão vindo da cozinha e uma área lá fora com um grande forno, dão resposta o suficiente: estão em um restaurante italiano. Jimin comeu comida italiana antes, é afeito ao pão e os diferentes tipos de macarrão, no entanto nunca esteve em um local como esse e com um dono coreano.
O dono se aproxima da mesa querendo recolher seus pedidos. Jimin acha a atitude diferente e o questiona sobre. Ele responde que faz questão de atender quando o restaurante está vazio. Yoongi, por outro lado, questiona o motivo dele ser coreano com um restaurante de comida italiana.
Jimin não ouve a história, quer dizer, até ouve, mas é distante, pois sua atenção se prende a Yoongi. O modo como ele ouve com atenção, acenando com a cabeça e devolvendo com perguntas precisas. Ele é o tipo de ouvinte que acolhe cada detalhe com um encanto visível em seus olhos.
Isso não é só incomum, como também é cativante. Provavelmente, é por conta da profissão dele. Ao ser professor, deve ouvir seus alunos com paciência e encantamento. Jimin está… impressionado? Não sabe, mas seu estômago está com um nó, que não é exatamente ruim.
Novamente a sós na mesa, resolve questionar a Yoongi como ele descobriu esse restaurante.Ele conta que trouxe a mãe no último aniversário dela para que pudessem comemorar juntos.
— Você é próximo dos seus familiares? — Jimin está comendo a entrada, consistindo de pequenas torradas assadas com um creme saboroso de cebola por cima.
— Bastante, quer dizer só somos eu, minha mãe e minha irmã, então somos próximos até demais — ri. — Por que a pergunta?
— Nada, é que eu vejo no seus olhos que você tem muito amor por elas, sabe? E isso é bom, é bom ver um homem que ama e respeita as mulheres que divide o sangue.
— Você considera isso atraente? — Yoongi levanta e abaixa a sobrancelha.
— Talvez… — Jimin pisca de brincadeira.
O ambiente vazio misturado ao vinho que está tomando transforma a atmosfera em algo mais aconchegante. A formalidade de Jimin é deixada para trás com mais facilidade. E conversar com Yoongi não é nada ruim, na verdade, é bom estar com alguém diferente do seu ciclo social.
Segura seu copo de cristal com a mão direita até que percebe que Yoongi está encarando ela. Ao ser pego em flagrante, ele desvia o olhar, no entanto, por diversas vezes o vê lançando olhares para suas mãos.
— O que é? — pergunta, intrigado.
— Eu posso ler sua mão?
O pedido divertido não é levado a sério, porém a expressão dele demonstra que sim, está falando sério .
— Isso é sério?
— Sim, posso?
Jimin estende a mão que não está segurando a taça, desconfiado. Yoongi segura entre as suas, o contraste das mãos dele, maiores e um tom mais claro de dourado, é perceptível. Em seguida, ele faz um barulho alto de afetação.
— Suas mãos são realmente pequenas! — conclui. — Mas, não são delicadas e nem femininas, ‘tô impressionado.
— Você só queria pegar na minha mão, não é? Você não vai ler nada nelas? — Jimin ri e quando percebe que Yoongi esqueceu de disfarçar o fato de não saber ler mãos, gargalha, porque ele fica vermelho.
— Ok, culpado! — Ele admite com uma risadinha.
— Uma vez, uma garota me parou no metrô, dizendo que iria ler minhas mãos, sabe o que ela me disse?
— O quê?
— “Mãos tão pequenas, aposto que seu pau também é” — recita lembrando exatamente da cena.
Yoongi congela no ato de beber vinho, em seguida começa a rir. Não é uma risada igual a que soltou durante alguns momentos da tarde, contida e tímida, é sincera cheia de uma espontaneidade que estava oculta.
Ter conseguido tirar um riso tão tonto, mas tão verdadeira dele, é satisfatório demais para Jimin, ao ponto de ser assustador. Quem diria que estaria todo interessado em fazer alguém atraente e bonito como Yoongi se divertir esta noite, hein?
— Que garota falocêntrica! — Yoongi reclama após conseguir se acalmar. — Essa sociedade toda tem adoração a pau, é terrível, porque quem não tem se sente mal por causa disso.
— Justiça não é exatamente o que uma sociedade capitalista espera…
— Não, mas voltando ao assunto da sua mão… Eu achei ela fofa, na verdade, Jimin. — Ele arregala os olhos ao perceber que o chamou de maneira tão informal. — Oh! Eu não queria…
— ‘Tá tudo bem, você pode me chamar assim, claro que se não for mais novo que eu — analisa.
O outro jovem passa a impressão que os dois têm a mesma idade ou que há alguns anos de diferença. Quando Yoongi comenta que tem quase vinte e sete, Jimin o chama de forma espontânea de “hyung” e ele sorri satisfeito, em troca.
A garrafa de vinho, entre eles e o papo descontraído, está quebrando o gelo. Jimin tenta se lembrar da última vez que brincou e relaxou perto de alguém assim. Jihoon tinha esse efeito, no entanto ainda sentia que não havia plena liberdade para brincar ou falar besteira.
Acredita que a culpa vem do fato de que trabalham na mesma empresa e devem ser formais lá. Acabou se tornando um fardo que carregou para fora do ambiente profissional e isso pesou na hora de se conhecerem.
De verdade, não tem certeza se ele e Jihoon teriam algum futuro, pensando agora. Além do fato do outro homem furar sempre, a personalidade que Jimin tem na empresa deve ter sido o principal motivo da atração do outro por si. Se não consegue relaxar nem em um relacionamento, então para que colocar esforço nisso?
— Me conte uma história engraçada sua com seus alunos. — Jimin pede. — ‘Tô curioso, nunca conheci alguém que trabalhasse com crianças.
E Yoongi faz. Conta a história sobre um garoto terrível, que fazia baderna na aula, irritava as outras crianças e destruiu diversos livros da biblioteca. Um dia, na aula de artes, Yoongi trouxe diversos tipos de miçangas para os alunos fazerem pulseiras para si ou para os pais, então o garoto agiu.
— Eu me distraí por… o quê? Cinco segundos? — Yoongi arregala os olhos, mostrando sua mão. — Quando olho de volta a porra do moleque tinha enfiado duas miçangas no nariz e começou a passar mal, de verdade. Eu nunca entrei em tanto pânico quanto naquele dia. Eu levantei ele do chão e fiz aquele movimento, sabe? De quando alguém se engasga que você coloca a mão em punho no peito e pressiona?
— Sei, mas ele ficou bem?
— Bem? O moleque ficou ótimo! Quando os pais dele chegaram, até correndo igual louco ele ‘tava, no pátio. Os pais tiraram ele da escola pouco depois por considerarem a minha conduta errada porque eu supostamente não deveria tocar no filho deles. Oi?! Eles queriam que eu deixasse o menino morrer? Vai entender, esse povo — revira os olhos.
A comida que pediram chega finalmente. A macarronada solicitada por Jimin, tem um cheiro maravilhoso que estimula seu estômago a roncar em apreciação. Yoongi, por outro lado, pediu Carpaccio, um prato com fatias finas de carne bovina servido com lâminas de queijo e azeite de oliva.
Focados em suas comidas, a conversa cessa por alguns minutos. É bom estar com alguém cujo silêncio não é constrangedor e nem necessário para preencher com conversa fiada. Jimin continua a mastigar seu macarrão devagar, saboreando, até que Yoongi retoma.
— Você ainda não me contou muita coisa sobre você — pontua. — O que você faz? Quais são seus sonhos? Você é comunista?
A última pergunta o pega de surpresa ao ponto de quase engasgar com o macarrão. Jimin toma um gole de vinho, em seguida ri com suavidade.
— Não sou comunista, mas o capitalismo é o mal do homem — pisca.
— Cuidado, você pode receber um pedido de casamento a qualquer minuto. — Yoongi diz, tomando seu vinho com uma expressão travessa.
— De quem? De você?! — Jimin indaga, surpreso.
— Hum, hum . — Há um sorriso convencido no rosto dele. — Eu achei que você era modelo, sabia? Eu nunca pensei que você seria advogado.
— Eu sou muito baixo ‘pra ser modelo, hyung.
— O que importa? Você iria capturar corações globalmente.
Jimin ingere a bebida, pensativo, não está desconfortável, longe disso, entretanto se surpreende ao chegar ao patamar de flertar um com o outro.
— Você ‘tá flertando comigo, hyung? Seja sincero. — Jimin pergunta.
Prefere saber agora, antes que interprete as coisas erradas. Yoongi para de mastigar meio segundo, tempo suficiente para suas bochechas corarem, enquanto acena com a cabeça.
— Sim, mas posso parar se você quiser…
— Eu não quero. — Jimin decide. — É bom saber que eu ainda sou interessante ‘pra alguém mesmo que tenha acabado de levar um bolo.
— E por que você levou? Você ainda não ‘tá se abrindo, sabe? Homens misteriosos com um passado sombrio são sexys nos livros, na vida real, a gente tem medo que isso seja sinal de psicopatia — murmura.
Apesar de rir da associação, Jimin entende o ponto dele. Estava sendo reservado esse tempo todo por timidez e desconfiança, afinal se conheceram em uma situação diferente da que está acostumado a sair com alguém. Contudo, Yoongi vem se abrindo e é bastante injusto não se abrir também.
— A minha vida é monótona, se você quer uma definição em uma palavra. Eu acordo, vou à academia, trabalho e volto ‘pra casa — conta com suavidade. — Não sei porque levei um bolo, mas não foi nada divertido quase se afogar em um dilúvio de proporções bíblicas.
Sua brincadeira traz um sorriso para o rosto de Yoongi, entretanto está na expressão dele que não é o suficiente. Ele quer mais: informações, detalhes, ou qualquer que seja o pedacinho de mundo do qual Park Jimin saiu. E Jimin percebe, está ansioso para dividir.
— Eu perdi o contato com os meus pais depois de me assumir bissexual e deixo a vida me levar — continua com suavidade. — As vezes, eu saio com alguém que me interessa, mas na maioria das vezes prefiro estar em casa com a minha gata.
— Oh… — Yoongi acena, apoiando o cotovelo na mesa e passando o polegar no lábio inferior, pensativo. — Qual o nome da sua gata?
— Asha — Jimin sorri. — É vira-lata, preta e branca com olhos amarelos, quer ver?
Yoongi concorda, então Jimin estende o telefone mostrando uma foto. Ele sorri ao ver a gata deitada na cama brincando com uma bolinha, em seguida volta a encarar Jimin nos olhos, pelo que parece a primeira vez.
— Vamos ‘pra merda profunda, sim? — brinca. — Me diga seus sonhos? Suas metas, sei lá, me ajude aqui, Jimin-ah, ainda sinto que posso estar saindo com um psicopata fofo que tem uma gata.
Esse empurrãozinho é eficiente, pois quando Jimin vê, está contando tudo. Desde a rotina de ir para o trabalho, as lojas que encontra, os tipos de pessoas que testemunha no metrô, tudo. Yoongi tem esse jeito que não julga, e está sempre interessado, isso estimula as palavras para fora de si.
Quando vê está contando um de seus sonhos, que para muitos é considerado bobo ou doido, mas para Jimin seria uma realização imensa.
— Eu quero ser pai. Eu sei que é piegas, mas consigo me imaginar brincando com uma menininha de tranças de pega-pega ou com um menininho fofo de escalar brinquedos no playground. Sei lá, é só um desejo bobo — define, um pouco tímido.
— Eu não acho piegas, nem bobo, na verdade, acho lindo. — Yoongi murmura com um sorriso que faz seus olhos brilharem. — É bom ver que tem pessoas no mundo que querem ser bons para crianças. Eu acho que vou chorar. — Ele ri, mas pisca bastante para realmente espantar qualquer lágrima.
— Ora, ora, o hyung cheio de gracinha não aguenta a história do homem que quer ser pai, que gay! — Jimin provoca para vê-lo rir, e consegue.
Sua confissão é importante, pois isso o ajuda a confiar em Yoongi. Além de que está mais receptivos aos flertes bobos dele e o fato de que ele sempre fica com as bochechas coradas por ter feito.
— Eu não ‘tô acostumado a flertar com homem bonito, então desculpas minhas bochechas vermelhas. — Ele graceja com uma piscadinha.
Talvez seja o vinho ou o fato de ter se soltado mais, porém começa a realmente analisar a beleza de Yoongi ao invés de só as atitudes. Não tem o tipo de rosto que Jimin gosta à primeira vista, mas com o passar do tempo, começa a se tornar bastante agradável.
Suas bochechas cheias, sempre rosadas após rir ou dizer algo ousado e ficar tímido em seguida. Seus lábios de um tom rosa natural que vira um beicinho quando está profundamente pensativo. E é claro, seus olhos são bastante ternos mesmo que dependendo do ângulo se tornem severos.
Para de analisar o rosto dele para se focar em seu corpo. Yoongi tem ombros largos, no entanto por conta das roupas folgas não dá para saber se é mais magro ou um pouco mais musculoso. Por enquanto, é interessante perceber que em determinado momento, ao se mover, as mangas de seu moletom estufam bastante nos bíceps. Interessante…
Conversam um pouco mais sobre suas cidades de origem: Daegu e Busan. Yoongi diz de brincadeira que deveria levar Jimin a Daegu para conhecer seu cachorro. Ao perguntar como ele é, vê o outro homem se tornar praticamente uma manteiga derretida ao contar detalhes do canino. Ele faz questão de mostrar as fotos que tem no celular e enumerar cada hábito fofo de Holly.
Com o tempo passa a contar mais das coisas que evitou responder antes. Sobre Jihoon e sua decisão de sair com ele, além da decepção do homem não ter ido ao encontro marcado. Fala um pouco sobre sua infância em Busan e sobre o quanto sonhava em ser bailarino um dia.
Por fim, terminam o jantar, após comerem a sobremesa. Lá fora, a chuva finalmente parou de cair, então podem andar com mais tranquilidade até o carro. Jimin, com o estômago cheio e as bochechas quentes por conta do vinho, tem um ímpeto de coragem e segura o pulso de Yoongi.
— Você quer sair comigo de novo, hyung?
O sorriso aliviado e esperançoso dele, é resposta o suficiente.
☔
Dessa vez, há uma garoa persistente e acolhedora lá fora.
Jimin, sentado no bar do restaurante, sua bolsa-carteiro de lado, celular a postos no balcão e um drinque em sua taça. A última mensagem de Yoongi está visível na tela:
Dia horrível, mas tenho ctz q nosso encontro vai valer a pena <3
Um encontro, estão em um encontro. Jimin tenta disfarçar seu sorriso bobo, porém tem certeza que falhou. Nos últimos dias tem conversado com Yoongi, não é só por mensagens, mas por ligação, e a conexão que os dois têm é incrível.
Evitava atender ligações que não sejam estritamente importantes, no entanto com Yoongi, as coisas são diferentes. Quer ouvi-lo murmurar sobre o cansaço, sobre seus alunos brilhantes, baderneiros e fofos, quer adormecer com a voz rouca dele e quer revê-lo o mais rápido possível.
É engraçado esse pensamento, pois esteve tão desconfiado no começo, que agora é surpreendente estar tão envolvido, ao ponto de até pensar em beijá-lo. Tem que se controlar, pois só esse desejo lhe dá borboletas no estômago.
Essa conexão com outra pessoa está sendo maravilhosa, além de causar uma grande expectativa para o reencontro. Há muito tempo não se sentia assim, por isso tem que se segurar para não suspirar a cada segundo.
Conversar com Yoongi no telefone também ajudou para que relaxasse e mostrasse seu lado mais falante. O outro homem admirou o fato, dizendo estar feliz por conseguir conquistá-lo ao ponto de estar à vontade em torno dele.
Não quer comparar, entretanto não sentiu nem um terço disso com Jihoon. Ele era interessante, engraçado e tinha ideias compatíveis com as de Jimin, entretanto faltava alguma coisa que percebe que possui neste momento.
Não é só a cumplicidade, há também a inevitável química que paira, até mesmo em mensagens. Tem flertado mais com Yoongi, o deixando sem reação, por isso acredita que beijos serão inevitáveis quando se virem.
Isso o deixa ansioso, porém é bom. Aquele frio na barriga e a lembrança constante do rosto do outro, dão sinal sobre o quão interessado e envolvido está. Jihoon não conseguiu provocar nem um por cento das coisas que Yoongi tem conseguido e só por ligação.
Resolve se sentar no bar, pelo fato do local estar estrategicamente de frente a porta. Quer ver o exato momento que o outro homem entrar, então se aproximar para cumprimentá-lo para que possam escolher uma mesa juntos.
Gira no banco onde está, tentando controlar a tremedeira em seus dedos, quando se depara com uma figura conhecida entrando no restaurante. Os cabelos pretos, os ombros largos e o sorriso leve são as principais características que o atraíram, porém sua falta de consideração os afastou: Jihoon.
Jimin arregala os olhos em choque, tendo um ímpeto de levantar do bar na hora. Ele coloca o dinheiro da bebida no balcão, olhos atentos à sua esquerda, em seguida procura um lugar para se esconder.
Sabe que está sendo infantil, porém não tem coisa mais desconfortável do que ver seu “ex-alguma-coisa”, vendo você com seu “atual-alguma-coisa”? De jeito nenhum quer Yoongi sendo enfiado nisso, e pior, constrangendo ele e a si de alguma forma.
Com cuidado, principalmente para não chamar atenção de alguém do restaurante, anda até uma planta com folhas enormes e se esconde. Ao fingir que está olhando através da janela, vê Jihoon refletido indo até o banco onde estava.
Porra …
O telefone em seu bolso vibra, Yoongi avisa que acabou de chegar. A intenção de Jimin era digitar uma mensagem, explicando onde está escondido, porém o outro está na entrada do restaurante.
Yoongi procura com os olhos enquanto conversa com a maitre, então gesticula com a mão, descrevendo algo. Está claro que fala de Jimin, pois aponta para o bar.
Enquanto isso, Jihoon está sentado a poucos metros de onde está escondido. Yoongi se aproxima, então tenta chamar atenção dele balançando uma das folhas da planta. Ele não vê, porém a senhora que está na mesa mais próxima, ergue uma sobrancelha.
Jimin, com as bochechas quentes de vergonha, abaixa a cabeça e pega seu celular digitando uma mensagem. Enquanto tecla está olhando de um para o outro, com o coração acelerado.
O celular de Yoongi toca, lê a mensagem, em seguida seus olhos se arregalam. Procura com os olhos onde Jimin descreveu que está, e levanta.
Ele se aproxima devagar, para não chamar atenção. Jimin sai de trás da planta e o puxa com tudo para perto de si. No entanto, tardiamente, percebe que há uma porta atrás de si, seu peso combinado ao de Yoongi faz com que ela se abra.
Ele tropeça levando o outro consigo. Os dois arquejaram de surpresa em uníssono até que se equilibrar segurando na barreira de proteção da pequena varanda do restaurante.
Arregala os olhos ao ver o quão alto está. Se não tivesse reflexos rápidos, poderia ter caído lá embaixo. Volta a olhar para frente, então toma consciência de o quão perto está de Yoongi, ao ponto de enxergar as pintinhas que ele tem envolta do nariz e bochechas.
— O que aconteceu? — Ele pergunta, baixinho.
O hálito dele tem cheiro de hortelã e há um perfume suave e amadeirado pairando de sua jaqueta. Jimin inala, tremendo levemente porque quer esse cheiro misturado ao seu, em sua língua.
Ao invés de respondê-lo, coloca uma mão na nuca dele e o estimula a se aproximar. Ele congela por alguns minutos, em seguida suas mãos quentes estão na cintura de Jimin com uma expressão de choque misturado a desejo.
Mira os lábios de Yoongi, pedindo passagem, e quando ele concede, é impossível resistir. O primeiro contato de lábios nos lábios é tímido, porém elétrico o suficiente para que tenha que se aproximar mais, se aprofundar, descobrir mais, porque esse beijo tem potencial.
Enfia as mãos nos cabelos macios da nuca dele que devolve suspirando baixinho de encontro aos seus lábios. No momento em que as línguas se encontram, querem se pressionar mais próximo um do outro.
Jimin é apoiado na parede perto da grade de proteção da varanda, por isso suas omoplatas se conectam na superfície fria, entretanto não quer se afastar. O barulho molhado de beijos, as mãos quentes em sua cintura, a maciez da nuca e dos cabelos de Yoongi, são as melhores coisas do mundo.
Foca-se no que pode tocar: o corpo quente contra o seu, o estremecer suave quando lambe o céu da boca de Yoongi. No perfume que captura: âmbar, um suave toque amadeirado e picante, misturado com o cheiro de rosas de um vaso ao lado de onde estão aos beijos.
Jihoon, os clientes e o restaurante, são irrelevantes em detrimento de estarem juntos. Jimin está vivo, em mais sentidos do que apenas respirando, pois há muito tempo não há esse calor em seu peito e em seu corpo.
O desejo pelo outro é forte, descontrolável, como se a cada beijo, precisasse de mais outro para confirmar. Sua cabeça está girando enquanto continua a se envolver no momento.
São mundos colidindo, é intenso, enervante e quente. Quanto mais sua língua toca a dele, quanto mais suas mãos exploram da nuca dele até as omoplatas, mais explosões de desejo preenchem seu corpo.
Yoongi afasta a cabeça, seu peito subindo e descendo, no entanto Jimin ainda não quer parar de beijá-lo. Salpica beijos de boca aberta na garganta dele, depois na curva entre o pescoço e o ombro.
Ele estremece em seus braços, soltando o ar que há em seus pulmões, desacreditado. Jimin também estaria assim, no entanto resolve lamber a lateral do pescoço dele, o que acaba fazendo com que solte um palavrão baixinho.
— Jimin-ah? — murmura.
Consegue sentir a vibração da fala dele, porém está entretido demais no ato de beijá-lo para pensar em responder.
— Tenho que te lembrar que ‘tamos em público? — Yoongi ri, porém não se afasta.
— Tanto melhor — brinca, dando uma mordidinha no pescoço dele. — Ele já foi? — questiona se afastando para tomar ar.
— Quem? E por que você acha que eu iria prestar atenção em mais alguém depois desse beijo? — Yoongi ri ao levantar uma sobrancelha.
— O Jihoon ‘tava aqui, mas foda-se ele, hyung. — Jimin desliza as mãos até estar puxando Yoongi de volta para si. — Tem algo muito mais interessante e bonito bem aqui na minha frente…
— É?
— Hum, hum.
Jimin desliza uma mão pelo pescoço dele até tê-lo perto de si novamente. O beijo que dividem ainda é febril, molhado e barulhento, no entanto não se importa porque está viciado
Yoongi é quente, macio, cheiroso e quanto mais o beija, mais quente o quer. Seu desejo é estar assim com ele até sua boca ficar dormente, assim como o quer em seus braços até começar a doer.
Entregam-se ao momento por vários minutos, que poderiam muito bem serem horas, porém Jimin acaba tendo que deixar Yoongi ir em algum momento. Ainda estão em local público e um jantar os aguarda.
Ao entrarem estão de mãos dadas. Sentam-se em uma mesa ao lado de uma fonte de água enquanto os pedidos de entrada e prato principal são anotados.
A questão sobre beijar alguém pela primeira vez é que, quando se descobre essa parte da outra pessoa, esse mundo particular que cada um tem, torna-se impossível não pensar em retornar para ele.
Tentam agir normalmente, mas os olhares intensos que trocam torna a atmosfera da mesa, tensa. Jimin quer esquecer, mas Yoongi é a lembrança encarnada.
Começa a fantasiar todas as formas que pode o beijar novamente. Será que ele gosta de beijos mais lentos que se intensificam com o tempo? Ou prefere beijos curtos até que não aguenta e só quer sentir o contato de língua contra língua?
Quer saber mais sobre o gosto dele, entretanto sabe que tem que jantar primeiro, como uma pessoa decente. Jimin ri, para si mesmo, por estar ansioso tal qual um adolescente que acabou de dar o primeiro beijo.
Os dois falam de seu cotidiano por um tempo. Yoongi sobre seus alunos, Jimin sobre a empresa e seu irmão que virá visitá-lo no fim do mês. A conversa é divertida e interessante, mas aquele beijo ainda está ali, impossível de ignorar.
Quando saem do restaurante algumas horas depois, está chovendo. Ambos resolvem se abrigar embaixo de um toldo enquanto Yoongi resmunga baixinho que esqueceu seu guarda-chuva no carro.
— Acontece com as melhores pessoas, hyung — tranquiliza.
A chuva realmente aperta alguns minutos depois, são obrigados a subir mais na calçada, para que a água não molhe os sapatos. Jimin percebe que a mania inquieta de girar os ombros de Yoongi é porque ele está com frio.
Uma ideia surge em sua mente. Resolve segurar um pulso dele e depois o outro afastando seus braços do peito, antes que ele pergunte o que está acontecendo, se aproxima.
Coloca as mãos em volta da cintura dele e descansa o queixo em seu ombro. Yoongi, com o corpo endurecido pela surpresa, relaxa ao entender a intenção do ato. Esconde o rosto na curva do pescoço de Jimin e exala baixinho.
— Melhor? — Jimin questiona.
— Muito melhor…
Dividem o calor corporal até que os tremores desapareçam. Nessa hora, Jimin levanta a cabeça, roçando a bochecha na dele até estar com os lábios a poucos centímetros dos de Yoongi.
— Vou te beijar, hyung… — murmura tão perto que sabe que ele sentiu as palavras em sua boca.
— Não sou eu quem vai te impedir, Jimin-ah.
O beijo, a seguir, é como um raio que faísca prometendo uma descarga elétrica. Jimin estremece, desejo puro, quando sua língua brinca com a dele, dividindo o mesmo ar.
Seu peito queima tão forte quanto o clarão de um relâmpago ao ser embriagado por esse momento. Quer tanto estar próximo a Yoongi, beijando, sentindo seu toque que é quase impossível se desvencilhar.
Ao mordiscar os lábios dele e receber um um gemido baixinho, em resposta, é o que estimula para que continue. A intensidade disso, deixa sua cabeça nas nuvens e seu corpo totalmente trêmulo.
Seu anseio é poderoso ao ponto de deixar sua respiração agitada, porém não vai soltá-lo. Tocá-lo e o envolver em seus braços o aquecendo, são as memórias que quer guardar para sempre em seu coração.
O trovão forte que se segue por entre as nuvens é o que faz com que se soltem. Há um sorriso no rosto um do outro, uma felicidade genuína. Quando dão as mãos, Jimin encara Yoongi, então conta:
— No três? — Ele acena. — Um, dois…
Correm pelo estacionamento em meio a risadas sem fôlego até alcançarem o veículo. Yoongi se atrapalha com as chaves, nesta hora ambos estão molhados, só que o sorriso enorme no rosto dele é como um sol em meio a nuvens.
Ao entrarem no veículo, ambos estão rindo, como crianças. Apoia a cabeça no ombro dele, usando o câmbio do carro de apoio enquanto seu coração está explodindo de uma alegria imensa.
— É uma noite chuvosa, as pancadas de chuva que batem na minha janela atingem meu coração¹. — Jimin cantarola baixinho.
O carro dá partida, então seguem pelas ruas cinzentas de Seul. Essa leveza que há em seu peito, em seu coração, é uma emoção que a muito tempo não sentia. Estar aqui, sentado ao lado de Yoongi, após um banho de chuva…
Vivo. Está vivo. E é a melhor coisa do mundo. Mal pode acreditar que pensou realmente que Jihoon poderia ser a pessoa certa para si. Agradece a chuva por ter estragado seu cabelo, seu terno e sua bolsa-carteiro.
Agradece pela chuva ter dissolvido a poluição e as gargantas secas. E agradece pela chuva ter o direcionado até um rapaz com um carro azul cujo dono se chama Yoongi. Ele não poderia estar mais aquecido e feliz quanto agora.
